Responsabilidade Zero

-Ó sr Jorge , aquilo é que foram  incêndios!Foi perto da sua terra?

-Mais ou menos, não é muito longe.

-O Primeiro Ministro já disse que tinha que saber o que é que se passou, parecia bem zangado!

Mudei de assunto  porque me esforço sempre por distinguir  actividades que valem a pena de actividades que são desperdício de energia, e na ideia deste meu conhecido o Costa e o seu governo fizeram o melhor possível e têm que exigir respostas sobre o que correu mal ao invés de as fornecer. Têm que responsabilizar alguém em vez de aceitarem que se o nosso ministério falha abjectamente, a decência exige que nos vamos embora. Ninguém diz que a ministra da administração interna tem culpa objectiva na catástrofe, mas tem toda a culpa por ter sido o seu ministério a falhar. Se não me engano já vamos em 3 tentativas de explicação  diferentes, todas fornecidas por organizações estatais, e em nenhuma delas se encontraram  motivos considerados suficientes para apear pessoas que não fizeram o seu trabalho.

Já o Presidente, desde que veio cá à ilha, tirou selfies com 64% da população, deu o seu mergulho  matinal e foi-se embora sem influir  ou mudar rigorosamente nada na nossa vida aqui, não se consegue enganar mesmo que queira, é um espectáculo. Quando ouço falar dele como “uma pessoa muito natural” que “fala a nossa língua” lembro-me logo dos milhões de otários que defendem e apoiam o Trump pelas mesmíssimas razões. Não só defendem como acreditam que há alguma similaridade entre eles, uma relação, uma proximidade. É cómico, ou trágico , dependendo do ponto de vista, que pessoas sejam sempre enganadas por políticos que as convencem de que são parecidos, de que partilham das mesmas preocupações e aspirações. Ele é como nós. Se fosse como vocês não era Presidente.

Nos dias do incêndio Marcelo esteve à vontade na sua correria e prolífico em declarações , o que fica para a história é que chegou lá e desculpou toda a gente e dois dias depois  lembrou-se de  que  ficava bem pedir uma investigação e avaliação das leis . Entretanto aconteceu outra coisa interessante, o roubo de material de guerra de uma base militar, roubo até ver de características um bocado cómicas, como já disse alguém, parece uma rábula do Raul Solnado, os maus atacam quando os bons estão a ver o futebol. O Presidente, que certamente não se esqueceu de que é o Comandante das Forças Armadas, até esta manhã não tinha aberto a boca sobre o caso.

Ou ninguém  consegue calar o homem, seja  sobre um fait  divers  como uma avioneta que cai seja sobre um cataclismo nacional , ou cala-se durante 3 dias  perante uma ameaça  clara e presente à segurança nacional e europeia resultante de uma falha grave na instituição que ele comanda.  O critério que determina se diz coisas ou não, não é claro, já acho que não existe mesmo. Ao fim de 3 dias em que achou que não era o momento de comentar o roubo, veio hoje finalmente fazer declarações. O que diz hoje o Presidente? Defende uma investigação que apure tudo. Ah bom.

Repórter num universo paralelo:

-Sr Presidente, dado que  a um roubo denunciado se segue sempre uma investigação pelas autoridades, o que é que há  de novo nesta sua declaração?

-Como?

-Houve um roubo que foi denunciado à PJ militar e às agências de segurança. Se o senhor não defendesse hoje a investigação , investigava-se na mesma…ou não?

-Entendo que sim, eu não estou a ordenar nada, estou a dizer que entendo  que o caso tem que ser investigado até às últimas consequências.

-Mas isso entendemos todos. Acredita que é necessária a chancela do Presidente para que avance a investigação ou que a PJ e Serviços de informação e segurança são autónomos?

-Não, é óbvio que são  organismos que não necessitam de autorização nem pedido do Presidente para investigar.

-Então esta sua declaração hoje não quer dizer nada, é isso?

-Sim , no fundo é isso. Dê cá um abraço, você parece-me um bocado amarelado e débil, tem ido ao médico? Olhe lá a sua saúde!

Há pessoas com esperanças de que estes dois últimos escândalos, chamemos-lhes assim, sirvam para pôr a nu não só que o Estado é incapaz como que não tem vergonha de o ser e muitas vezes nem sabe que o é. Desenganemo-nos , politicamente nada vai mudar até aparecer alguém credível com um projecto para apresentar aos portugueses, coisa que suspeito não está para breve.É  uma ideia muito portuguesa, um  sebastianismo que nos deixa à espera de um homem providencial para levar isto a bom porto. Não acredito na Providência  mas mantenho uma réstia de esperança numa renovação que só pode chegar quando desaparecerem a maior parte dos que lá andam há 20 e mais anos.Como este, que também não tem vergonha nem acha que há razão para se demitir, está a fazer um óptimo trabalho, como de resto fez desde que entrou pela primeira vez para o governo, já lá vão muitos anos.Confiamos o governo do país a pessoas que ou são estúpidas ou não querem saber do que disseram há 2 meses desde que tenham alguma coisa para dizer hoje, alguma coisa que vá de encontro ao que as pessoas querem ouvir na altura.

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Em tempos que já lá vão morria uma pessoa nas urgências de um hospital , uma pessoa por definição doente e em risco, e ululava-se “assassinos” e “austeridade mata” a cada visita de governante. Interrompiam-se comunicações para se cantar a Grândola Vila Morena e mesmo que fossem quatro pessoas, as televisões e rádios “cobriam” os “protestos populares”. Mesmo que a vida  não tivesse piorado assim tanto na prática, a comunicação social garantia-nos que sim, que era a devastação neo liberal que nos estava a matar. Foram momentos heróicos de resistência, felizmente agora o PS, com a ajuda discreta do PCP e do Bloco, resolveu os problemas de Portugal, problemas que tinham sido todos causados pelo PSD e CDS.  Os eleitores portugueses hesitaram em dar o governo ao partido que nos tinha conduzido à falência, mas essa hesitação foi facilmente corrigida por pessoas que têm a vocação de interpretar as aspirações do povo à luz da ciência e corrigir desvios, os comunistas e demais marxistas que logo nos puseram no bom caminho. Estou quase convencido de que os poucos problemas que não se resolveram são impossíveis de resolver. Faz-se todo o possível, as crianças brincam outra vez , os que imigram já só o fazem por revanchismo e consta que 3 pessoas regressaram mesmo a Portugal agora que o governo tornou o ar mais respirável.

Pode não ser claro que se o meu respeito e esperança no PS é abaixo de zero , pelo PSD e CDS é zero mesmo e aos outros considero-os  anomalias anacrónicas que podiam desaparecer com vantagem para o país. Estou na mesma situação de, acredito, centenas de milhar de portugueses que não se revêm no governo nem na oposição, nem vislumbram no horizonte um tipo (ou tipa, desculpem o termo)  como o  Macron,  que não seja criado no caldinho das Juventudes; que não tenha o rabo preso com negociatas suas e dos seus compinchas; que não chegue lá pelo nome de família; que apresente um discurso de ruptura com a velha dicotomia esquerda/direita; que queira trazer para o governo gente da sociedade em geral e não os advogados do costume; que tenha um plano económico ligeiramente menos vago que “apostar no crescimento”, enfim , alguém capaz de renovar. Infelizmente é mais provável calhar-nos populismo que alguém assim, mas uma pessoa pode sonhar.

 

PS: O parlamento aprovou uma lei que proíbe que um senhorio se recuse a alugar a sua casa a pessoas com animais. Isto ofende-me um bocado. Tenho agora 17 animais, dentro de duas semanas serão 22, a maior parte  são gado mas o cão e o gato dormem em casa, os bichos são das coisas que mais me importam na vida . Apesar disso não me agrada viver num sítio em que o Estado é que diz os termos em que podemos ou não arrendar o que é nosso.É um desrespeito total pelos direitos das pessoas que não gostam nem querem ter animais nas suas casas, porque agora se decidiu, com partido e tudo, que todos temos que gostar de animais.Socialismo também é isto.

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Material de guerra

Não sei se o Presidente já foi a Tancos abraçar o pelotão que estava escalado para sentinela naquela zona naqueles dias e confortar os soldados, que fizeram o que podiam. Não sei se as televisões arrancaram em manada para directos de Tancos e arredores,  filmar a vedação, ouvir o Presidente da Câmara de  Vila Nova da Barquinha  e não haverá falta de populares para declarar que sempre viveram ali ao pé do Polígono e não se lembram de nada assim. Podem ir um bocadinho mais abaixo a Almourol fazer uma peça de grande valor cénico sobre o simbolismo do Castelo  nos conflitos que ainda hoje exasperam os fundamentalistas islâmicos, que são senão os autores deste roubo pelo menos os seus receptadores prováveis.

Tanto quanto sei, alguém furou a vedação, percorreu 600 metros até aos paióis, arrombou as portas e foi-se embora pelo mesmo caminho , com um arsenalzinho : “ Para além das granadas de mão ofensivas e das munições de 9mm, foram também detetadas as faltas de “granadas foguete anticarro”, granadas de gás lacrimogéneo, explosivos e material diverso de sapadores, como bobines de arame, disparadores e iniciadores”. 

A primeira coisa que me veio à cabeça foi que se tivessem cães lá , mais cães, seria muito mais difícil atravessar 600 metros de perímetro em ambas as direcções , quanto mais chegar-se a um paiol que fosse designado área a proteger. O meu cão não se pode comparar aos cães militares e se mexe alguma coisa num raio de 100 metros ele  fica logo atento. Sou só um curioso destas coisas mas sei que Tancos é a casa dos Paraquedistas, a arma que por excelência é  a mais devotada e melhor com os cães.

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Na Escola de Tropas Paraquedistas há uma Companhia de Cães de Guerra, que não sendo como os outros cães têm habilidades e capacidades que muitas vezes só não são mais utilizadas por falta de treinadores e “manejadores” , se eu pertencesse a uma unidade de cães e o perímetro fosse violado assim ia fazer algumas perguntas sobre se se estava trabalhar e utilizar os cães da melhor maneira.Dentro dos limites que os militares têm para questionar as coisas, claro está… Isto é um aparte de um gajo que gosta de cães , porque um sistema de video vigilância sai mais barato, come menos , não fica doente nem precisa de treino nem exercício nem horas de dedicação humana. Ainda assim, se fosse eu o responsável por paióis de material de guerra , mesmo com um sistema de video vigilância que funcionasse, “largava”  os cães muito regularmente.

Voltando ao arsenal roubado,  é medonho , e é possível que esse material hoje já esteja em Estocolmo ou Viena, meia dúzia de  elementos que saibam mexer naquilo bastam para levantar um inferno no meio de qualquer cidade. Talvez os apanhem,talvez vá morrer gente em explosões provocadas por material pago pelo contribuinte português para a defesa da Nação. É grave. É outra demonstração de que o Estado não está à altura das suas responsabilidades mais básicas, neste caso assegurar o controle  e segurança das armas de guerra , não há muito mais básico que isto.

Este roubo não é , ao contrário do incêndio de Pedrógão, um caso de má organização estrutural, incompetência e descoordenação no terreno que exige uma demissão ou seis, mas não deixa de ser uma tragédia potencial que resulta de cortes no financiamento de coisas básicas como vigilância a instalações militares. Já vi que do lado da esquerda se diz que os subsídios aos colégios privados davam para pagar  vigilância do melhor e do outro lado que os aumentos a funcionários públicos também.  Pela ordem de ideias destas pessoas, é legítimo retirar recursos às causas que valorizamos menos, ou nada , para os alocar a causas que nos são mais queridas e isto para mim não é maneira muito racional de pensar no Estado.

Espero bem que encontrem o material roubado, de preferência junto de quem o roubou, e que se fique a saber a história toda antes de morrerem não sei quantos.  Também gostava que mais uma vez outra falha clara do Estado servisse para se pensar nas suas funções. Fazer bem as contas e tentar perceber se o Estado está a deixar de cumprir funções básicas para cumprir outras menos essenciais. Da minha parte gosto que o essencial esteja assegurado antes de passar ao acessório, mas eu sou um bocado esquisito.