Raríssimas, 2012

Ontem soube que houve uma reportagem de uma televisão sobre uma ONG chamada Raríssimas e pelas reacções que vejo hoje no twitter a reportagem foi boa. Não vi mas não tenho grandes dúvidas do que se lá passa, o nome não me era estranho, fui  aos meus arquivos e encontrei isto, escrito num post que até era sobre a Parque Escolar, outro bom exemplo de descontrolo corrupto.

Ninguém pode ter nada contra este projecto , e até acho que deve receber apoio do Estado. Vi no outro dia uma entrevista da senhora a explicar que as obras estão paradas por falta de verba. Depois vi planos da casa e fotos das obras, só o terreno teve o valor de 2,5 milhões de euros e foi cedido pela câmara municipal, e o que eu pergunto é isto: Se se tivesse sido um bocadinho menos ambicioso , um tudo nada mais modesto , dado um pouco mais de atenção à relação meios/fins , não se poderia já ter a abençoada casinha a funcionar , alojando dignamente as crianças ? Era mesmo preciso aquilo tudo?

Isto foi há 5 anos, de lá para cá calculo que não só  se tenha concluído a palacial “Casa dos Marcos”, com dinheiro do Estado e dos doadores mas também  que a senhora que inventou aquilo tudo se deve ter forrado de dinheiro e benesses que deviam ter sido canalizados para auxiliar as crianças doentes e suas famílias mas foram para embelezar e melhorar a  sua vida privada. Está a ser envergonhada nas redes sociais mas aposto que as centenas de milhar que roubou estão a salvo, e há muitas pessoas sem vergonha que não se importam com minudências como serem julgadas escroques pelo público em geral.

Em 2012 eu não vi ali  corrupção clara  mas vi excesso, desproporção de meios e vaidade pessoal, que são logo bons indicadores que haverá mais coisas mal feitas. Desde logo o problema de se trabalhar com dinheiro doado, seja do Estado seja de particulares, que na maior parte dos casos nunca é tão bem gerido como o próprio. E quando se usam donativos para construir luxo, bandeira vermelha, vai logo contra o propósito e o sentido de “donativo”.  Acredito que mais pessoas tenham reparado nisto mas ou calaram-se ou acharam normal ou os seus protestos e alertas não foram ouvidos, é normal.

São raras as organizações caritativas que não fornecem modos de vida muito confortáveis e prósperos aos seus gerentes e dinamizadores principais. Desde gigantes como a Unicef a ONGs de vão de escada , ninguém duvide que a prioridade primeira é manter a estrutura, como de resto e normal: os donativos vão para a coisa funcionar. Só depois são passados aos recipientes finais dos donativos, e é por isso que o modelo é tão imperfeito, porque as necessidades dos organizadores vão crescendo à medida dos donativos e da ideia da própria importância, e hoje em dia creio que de cada dólar que se dá para as criancinhas subnutridas de África chegarão 10 cêntimos à dita criancinha, o resto fica em salários, rendas , viagens, carros, conferências, enfim , o modo de vida dos profissionais do auxílio humanitário, tudo gente que ainda por cima olha para nós de cima para baixo porque anda a trabalhar para o bem dos outros. Cada vez que vejo no facebook a gajinha branca com as roupinhas coloridas e exóticas abraçada a um monte de miúdos pretos  dá-me logo nervos, é turismo e exibicionismo disfarçado de auxílio humanitário. Gastam €4000 para ir ensinar um semestre de escola primária em Cabo Verde e acham que fizeram alguma coisa de jeito, excepto o enriquecimento pessoal que existe, sem dúvida, mas creio que não era bem esse o objectivo.

Tenho a certeza de que os repórteres de todos os canais tinham para meses se se dedicassem a explorar e expor essa podridão e corrupção que se esconde no sector do  auxílio humanitário e da solidariedade social. Depois da Raríssimas podiam passar à Santa Casa da Misericórdia, instituição criada para auxiliar os mais fracos que agora vai auxiliar um banco que está a falir. Isto, há 3 anos , faria cair o Carmo, a Trindade e o elevador de Santa Justa. Quem propusesse tal coisa era um velhaco neoliberal sem coração disposto a retirar orçamento e a pôr em perigo uma casa de recurso dos desfavorecidos para mais uma vez salvar um banco de gestão ruinosa e corrupta. Hoje ouvem-se os grilos, vai fazer-se a transferência, presumo que em nome da solidariedade social, talvez mesmo da estabilidade. Entretanto ontem vi imagens do Presidente da República a fazer declarações enquanto lhe faziam a barba e um título de uma notícia que informava que o Presidente encontrou um miúdo que, como ele, também dorme pouco. Tudo normal.

Anúncios