Solidariedade Estatal

Entre as primeira reacções aos incêndios florestais que devastaram a região de Pedrógão Grande esteve a  contestação ao “aproveitamento político” das mortes. Qualquer pessoa que salientasse as culpas claras do governo na tragédia era logo  lembrada de que os outros também tiveram culpa. Tiveram, mas agora há só uns que podem fazer algo, os que governam, e esses não fizeram nem uma fracção do que deviam.

O governo disse que estava a ser feito tudo  que podia ser feito e que se iam retirar as devidas conclusões. Nem foi feito o que devia ter sido feito  nem se retiraram  as devidas conclusões, como se viu pelo relatório da comissão de Pedrógão Grande e como se demonstrou pelo regresso da desgraça  na semana passada, ardeu o Pinhal de Leiria e mais uns milhares de hectares e morreram outra vez dezenas de pessoas e animais, de mortes horrendas.

Em vez de passar a ver os incêndios como prioridade nacional  a seguir a Pedrógão Grande o governo, a 1 de Outubro, o fim da época de incêndios, encerrou os postos  de vigia florestal  . Alguém disse que se calhar não era das melhores ideias que já se tinham tido na Protecção Civil e a burocracia , dez dias depois, lá reactivou os postos. Se nenhum cidadão , se nenhum jornalista alertasse para o facto os postos eram para fechar até Maio, pelas contas e planos de uma agência governamental que se ocupa de proteger as vidas dos cidadãos.

Essa mesma agência foi remodelada na Primavera passada com as nomeações de pessoas que talvez não fossem as mais qualificadas e experientes para os postos, uma pessoa tem que questionar o critério. Parece-me senão ideal pelo menos justificado que se nomeiem pessoas de confiança política, mas sempre que esteja assegurada a competência, senão estão a defraudar os cidadãos nas suas expectativas. Mais uma vez não foi o caso, a competência actual da Protecção Civil e do seu belo SIRESP  está tristemente à vista de todos.

Ainda o chão estava quente em Pedrógão Grande, mais ou menos na altura em que o Costa encomendava um focus group à custa do erário público para aquilatar da sua popularidade, um amigo meu de Alcobaça pegou numa camionete, foi à cooperativa agrícola , carregou-a de fardos de palha e abalou para Castanheira de Pêra, uma das terras devastadas pelo fogo.

Desde esse dia, até hoje e sem indicações de parar, todas as semanas o João Luís, agora ajudado por vários outros, angaria e recolhe donativos, compra ração para animais e vai levá-la às populações. Já apareceu na TV, está sempre a “agitar” , a fazer propaganda, a animar as pessoas.Mais importante, constantemente dá conta do dinheiro que recebe e gasta, publica extractos, talões, facturas, todo o dinheiro que lhe entregam para comprar ração. Focou-se numa coisa simples e de primeira necessidade, já levou toneladas de ração, salvou centenas de animais e ajudou a minorar as dificuldades das pessoas que perderam  quase tudo.

22279944_10211449443646890_4682869782130873718_n

A sua operação é muito simples e é um belíssimo exemplo de solidariedade. Há centenas de milhar de pessoas sem o espírito e a energia do João Luís , que também sofrem com os incêndios e querem ajudar. A maioria desses olha para o Estado, e é má escolha.

Desde o IVA que pagam os donativos para várias campanhas até ao que se gasta na burocracia passando pelos tempos de espera, a solidariedade organizada pelo Estado deixa muito a desejar. Pior do que a pouca eficiência e roubo do imposto, é a selectividade.

O cidadão faz um depósito para “ajuda às vítimas” e o que quer e espera é ver a sua ajuda chegar  às pessoas desgraçadas. O Estado naturalmente sabe melhor, recolhe o junta os donativos e depois destribui segundo o seu critério superior e iluminado.

Ficámos a saber que quem quis ajudar e depositou dinheiro no Bordel na Caixa Geral de Depósitos contribuiu para se renovarem  e melhorarem  os Hospitais de Coimbra  , que receberam meio milhão do fundo de ajuda às vítimas. Renovar e melhorar hospitais é incumbência do Estado e não deve ser feito com donativos de caridade públicos. Se não são capazes de ter os hospitais em condições, admitam. Peçam donativos para isso.   Tenho a certeza de que as pessoas não contribuíram para a renovação dos hospitais, contribuíram para ajudar as vítimas, e esse meio milhão de euros desviados dava , por exemplo, para dar cinco mil euros a cem famílias vítimadas pelos fogos, que não as salva mas ajuda a enfrentar a situação. Cuidados de saúde  já estão garantidos , ou não? Até vem na Constituição, não me digam que este governo não consegue fazer cumprir a Constituição?

Se não conseguem identificar necessidades básicas e imediatas das populações e responder-lhes, como o João Luís e a sua camioneta das rações, peguem no dinheiro e mandem a GNR dá-lo às pessoas, vivo num envelope, elas de certeza que sabem melhor do que o Estado o que é lhes falta mais. A quais pessoas? Comecem pelas famílias que ficaram sem casa e pelos familiares dos mortos, não deve ser muito complicado encontrá-los mas nunca fiando, isto são as mesmas pessoas que compraram helicópteros que nunca voam e a poucos dias de arder o Pinhal de Leiria ainda não tinham lido o relatório sobre o Pedrógão Grande .

Além de ser imoral desviar e usar donativos para fins selectivos também não fica bem usá-los para coisas que são responsabilidade do Estado , como equipamento para os bombeiros. Tal como o Hospital de Coimbra , o equipamento do bombeiros deve ser  financiado pelo Estado, se o governo não consegue, admita-o.

Como parece que o Costa ainda não atingiu, admitir essas falhas do Estado e do governo seria um passo importante para nos proteger a todos de futuros incêndios e outras catástrofes, mas parece-me que mesmo, mesmo fundamental para o país e a merecer atenção e investimento considerável do Orçamento é o descongelamento das carreiras dos funcionários públicos. Invista-se nisso,  para carros de bombeiros e hospitais logo aparecem uns donativos.

Anúncios

Fez-se o Possível…

A única coisa fora do normal no incêndio de Pedrógão Grande é o número de vítimas, de resto é a sina nacional, todos os Verões temos que arder, e ardemos  porque somos mal governados  e organizados.

Fiquei agoniado ao ler as primeiras reportagens sobre a calamidade e ver  o António Costa , pessoa que anda há décadas  pelo topo das hierarquias políticas do país e que hoje é primeiro ministro mas certamente que não tem responsabilidade nenhuma nesta tragédia. Tudo o que é bom , até um jogo de futebol, tem louros a ser recolhidos pelos políticos.Quando há catástrofes, já ninguém tem tomates para se chegar à frente e admitir que falhou. Acho que já se sabe de quem é a culpa, de um raio que caiu numa árvore. Seria uma vergonha se eles a tivessem. Já o Presidente cumpriu como de costume, foi logo para o local, abraçou, chorou, falou e não disse nada. 

Morrem 62 pessoas mas o que se faz é rezar, lamentar, apelar à solidariedade e  louvar o heroísmo e bravura dos bombeiros, coisas que (tirando as rezas) têm que ser feitas mas que não vão impedir que dentro em pouco aconteça outra calamidade assim . Sei bem que são coisas que não se podem fazer a quente mas gostava que alguém de responsabilidade política viesse dizer claramente:

-“Vamos trabalhar para rever todo o enquadramento e legislação relativa à floresta, para finalmente perceber o que é que está mal e o que é que tem que mudar , e fazer rapidamente reformas profundas ouvindo todos os partidos e os especialistas na matéria”.

Desde as espécies  escolhidas até ao regime fiscal dos proprietários florestais passando pelos meios de prevenção e combate sem esquecer o papel das Forças Armadas, tudo devia ser posto em cima da mesa para ser avaliado e, se necessário, mudado, doa a que interesses doer. Se 62 mortos não chegam para uma espécie de revolução na politica florestal, não sei o que será preciso.

Não me agrada ouvir o PM dizer que se fez o possível, ter-se-à feito o possível no que diz respeito a este incêndio em particular, mas quanto à questão geral não só não se fez o possível como se fez muita coisa mal feita. Também gostaria de ver os políticos responsáveis pela extinção da Guarda Florestal virem hoje explicar ao país o porquê da sua decisão; gostava de ver o mesmo em relação aos meios aéreos, à retirada da Força Aérea para a entrada de privados.Eu sou muito a favor da privatização de quase tudo, a chave está no quase e nunca me pareceu boa ideia privatizar a segurança e defesa do território nacional, que foi o que alguns iluminados fizeram com os meios aéreos de combate aos incêndios num negócio que tresanda a corrupção.

Assim que se enterrarem os mortos e os vivos estiverem cuidados há que pedir responsabilidade, não deixar governantes actuais e passados escaparem com um encolher de ombros com as suas decisões catastróficas.

Se não usarem esta tragédia para repensar e reformular uma política integrada de prevenção e combate a incêndios que nos torne similares a outros países comparáveis, para o ano, ou para o mês que vem, cá estaremos outra vez a lamentar hectares devastados e pessoas a sofrer mortes horríveis, como sucede desde que tenho memória.

 

PS: Canais de TV a pedir donativos por linhas de valor acrescentado e jornalistas a dizer coisas ao lado de cadáveres e a pôr microfones à frente a pessoas que acabam de perder entes queridos: Nojo.