Belmiro e a Escravatura

A escravatura era o tema escolhido para o post e comecei a escrevê-lo motivado pelas notícias de que hoje em dia na Líbia se pode comprar uma pessoa por cerca de €400. Entretanto morreu o Belmiro de Azevedo, comecei a ler e ouvir as reacções, todas mais do que previsíveis, e lembrei-me de uma das coisas mais parvas que se dizem constantemente: esta vida (por exemplo a de um empregado por conta de outrem a ganhar o salário mínimo) é uma escravatura, somos todos escravos do sistema/capitalismo .

Primeiro o Belmiro. Bastou-lhe ter sido empresário, criado riqueza, revolucionado indústrias e ter sido patrão de milhares para ser detestado pelas esquerdas mais esquerdas. No mundo em que essas pessoas gostavam de viver ninguém podia possuir mais do que X, ninguém trabalhava sem ser sob direcção do Estado, ninguém fazia concorrência  a nada, ninguém na hora da morte podia deixar o fruto do seu trabalho aos descendentes. Felizmente esse mundo sempre foi  rejeitado e continua a ser, excepto onde o modelo é mantido à força, a única maneira de instalar e manter. Um individuo  no twitter  listou  os talhos e mercearias que fecharam por causa da chegada da grande distribuição, presume-se que preferia o modelo antigo e que ainda faça as suas compras dessa maneira. Não conheço nenhum sítio onde não haja ainda pequenas lojas, não tantas como havia mas ainda há, pelo que os consumidores têm  escolha. Surpreendentemente, escolhem um sítio mais acessível, com mais variedade e invariavelmente mais barato, é estranho.

Depois, este explorador ganancioso e sem coração torrou milhões para dotar o país de mais um jornal diário, no critério editorial do qual  nunca quis ter uma  palavra a dizer. Se não fossem directores passados e presentes a assegurá-lo bastaria  ler o Público para perceber que se a intenção do Belmiro com o jornal fosse guiar a opinião pública para o lado direito a coisa estava-lhe  a correr muito mal desde o princípio. Os políticos passam horas a tentar, com maior ou menor grau de sucesso, influenciar o que se publica nos jornais. Este era dono do jornal e nunca ligou para lá, mas nem isso moveu o Bloco, principal beneficiário do Público, a apoiar um voto de pesar, ao menos pela contribuição para a pluralidade da imprensa.

Outro motivador do escárnio e desprezo pelo homem é a sempre presente inveja, até de um tipo que não nasceu em berço de ouro, pegava ao serviço todos os dias às 8, subiu a pulso e  construiu um império. Os verdadeiros heróis, aqueles que são louvados pela Assembleia da República, são os que nunca criam nem produzem a ponta de um corno, nunca pagam um salário com o próprio dinheiro, nunca são responsabilizados financeiramente pela sua prestação, votam o tamanho do próprio salário e privilégios    e levam uma vida de retórica e teoria, feita de lutar por poder, manter o poder, estender influência e combater os de pensamento oposto . São esses os bons da História.

Em 1997 deixei a universidade, queria fazer outras coisas e precisava de dinheiro. Fui trabalhar para o Modelo como repositor de mercearias. Quem se lembra desses tempos sabe bem que não havia assim muitos empregos para jovens sem formação superior em que fosse só chegar e começar a trabalhar. Os talhos e mercearias de que o outro lamenta a sorte era negócios familiares por definição, que não cresciam nem empregavam. Recebia o ordenado mínimo, subsídio de turno e todas as demais contribuições previstas pela lei. Essa oportunidade que tive de avançar na vida não foi o Estado que ma deu, não foi o pequeno comércio e muito menos algum Gabinete de Observação da Interação Social da Osga Mediterrânica, o género de organismo estatal que hoje prolifera e emprega boa parte da juventude saída das universidades, com ou sem conclusão do currículo é irrelevante, se se tiverem os padrinhos certos e o cartão de militante apropriado para a época. A oportunidade devo-a ao  Belmiro de Azevedo e à sua importação  de um novo modelo de distribuição e serviços. A minha passagem por lá não foi muito longa mas sempre me foi explicado e demonstrado que podia ter ali uma carreira. As carpideiras do salário mínimo ignoram, ou preferem ignorar, que um repositor de mercearias motivado, dinâmico e interessado pode progredir, se eu tivesse queda e vontade para aquilo hoje podia ser director de um Modelo, formado na casa. Claro, não há progressões automáticas de carreira , conceito idiota que só podia existir mesmo no Estado, mas há oportunidade de subir na vida. Há é que trabalhar um bocado.

Irrita-me que se fale de escravatura relacionada com emprego de baixo salário por duas razões, a primeira é que a definição de escravatura está à disposição no dicionário , tal como também está a definição de quem usa conscientemente uma palavra errada para descrever uma realidade. A segunda razão é que existem milhões de escravos verdadeiros hoje em dia, pelo que dizer que alguém que tem um emprego em que ganha pouco é um escravo é uma falta de respeito.

A Líbia tornou-se um estado falhado e agora o passado é irrelevante, a culpa da situação é do Ocidente, nomeadamente do Clinton e do Sarkozy que promoveram a queda do Kadafi. Note-se que o Kadafi não tem culpa nenhuma da situação do país que governou com mão de ferro durante 42 anos, culpado do que se lá passa é de quem o derrubou, que presumivelmente devia ter continuado a tolerar autocracia e tudo o que vem com ela. O facto de os próprios líbios se terem revoltado em massa nunca diz nada aos defensores dessa visão, para os quais meia dúzia de operacionais da CIA com umas malas de dinheiro conseguem levar um povo à revolta, mesmo que se viva  bem no país. O sistema é bom, funciona , as pessoas estão contentes com a vida e as perspectivas de futuro, chegam duas agências governamentais estrangeiras, incendeiam uma nação e rebenta uma guerra civil. Fico sempre fascinado com este raciocínio.

Isto não quer dizer que as potências ocidentais sejam inocentes ou que as suas motivações sejam nobres, alguém que acredite em motivações nobres da parte de algum Estado ou seus representantes deve procurar outro tema para estudar. O que quero dizer é que o facto de haver hoje em dia escravatura na Líbia é apenas o ressurgir de uma pratica cultural  ancestral que apenas tinha sido reprimida. É o relembrar da relação que sempre houve entre os povos árabes do Norte de África e os povos negros do Sul do Saara. Se o Ocidente tem culpa no que se passa lá hoje é a culpa de não ter mantido no lugar um sistema que reprime esses instintos e práticas.

Creio que se vai construir em Lisboa um monumento aos escravos do Império, e eu acho bem, para que se preserve a memória e a noção de que o Portugal ultramarino construi-se muito em cima disso, para que se continue a abandonar  a ideia romantizada do  navegador e colono benévolo, para que se lembre que Portugal foi o país que mais escravos transportou para as Américas. É saudável lembrar isso, não se pode nem deve polir a História.

Em 2008 levei um barco para Mystic , no Connecticut , terra que é inteira um museu marítimo . Como a História que me interessa mais é a naval, conhecia bem os navios negreiros e foi por eles e as suas histórias que o horror indescritível da escravatura me bateu pela primeira vez. Quando a Marinha Real Inglesa começou a caçar os negreiros no Atlântico sabiam que estava um por perto porque se houvesse um negreiro vinte milhas a barlavento eles cheiravam-no , muito antes de o verem. Os navios negreiros, especialmente depois de os Ingleses terem banido o tráfico, eram construídos para  um equilíbrio entre velocidade, capacidade de carga e manobrabilidade, e isso fez  deles dos veleiros mais extraordinários de sempre.

Em Mystic corri tudo à procura de um, em modelo, em planos, em filmes. Nada , o Museu é a cidade inteira, em terra e no mar, e não encontrei uma só referência ao tráfico de escravos na terra que construiu a esmagadora maioria dos barcos usados pelos americanos nesse tráfico. Desde essa visita os EUA tiveram um presidente negro e fizeram um esforço maior por enfrentar a sua História (hoje  a ser paulatinamente desfeito) pelo que talvez já se fale de negreiros em Mystic, mas o que me ficou da visita foi essa vontade de varrer o Mal para debaixo do tapete, coisa que entre muitas outras permite que hoje um tipo que tem um salário baixo e uma vida vazia se considere um escravo.

No debate nacional sobre a escravatura vejo que  para muita gente escravatura é o tráfico atlântico de escravos africanos pelos europeus. Isso é uma visão redutora  e quando vemos em 2017 pessoas a serem vendidas vale a pena lembrar alguns factos que me parece não são suficientemente lembrados:

  • A escravatura existe no Mundo desde que duas sociedades ou grupos diferentes se encontraram e guerrearam.
  • A escravatura está não só prevista como justificada e autorizada no Antigo Testamento e foi a base de algumas das maiores realizações da História, desde a Democracia Ateniense ao Império Romano.
  • Cristo foi crucificado e considerado um inimigo simplesmente por defender que todos os homens eram iguais, logo, pondo em risco a escravatura que era a base de quase  todas as sociedades da época. O que a “sua igreja” tolerou, aprovou e promoveu depois da sua morte no que diz respeito à escravatura fala pelas intenções e motivações reais da mesma.
  • Dado que igreja de Cristo não foi capaz de cumprir a sua mais básica função, fazer com que os homens se amassem uns aos outros  em 1800 anos, coube a argumentos racionais e a homens políticos como Wilberforce ou Lincoln guerrearem contra o flagelo. O clero não liderou nada, alguns clérigos mais humanos participaram nos movimentos anti esclavagistas mas das altas hierarquias, nada.
  • No tráfico Atlântico a maior parte dos escravos embarcados para as Américas eram vendidos aos traficantes europeus quer por árabes que só se dedicavam à “caça” quer por outros africanos.
  • Além destas imagens aterradoras que chegam da Líbia é sabido há muito que nas monarquias árabes do Golfo sempre houve e continua a haver escravos.

Isto tudo para dizer que a verdadeira escravatura  é um fenómeno  muito maior, muito mais enraizado e muito mais actual, que é um insulto grave descrever salários baixos como escravatura e que se há culturas e sociedades que a desprezam há mais de um século, como a nossa, há outras nas quais ainda se tolera e pratica. É a essas que temos que criticar e denunciar, não é a nossa que já fez o que tinha a fazer:  banir e tornar a prática abominável e inaceitável.  Agora resta-nos erguer o tal monumento, explicar às crianças o que é a escravatura mas sem lhes mentir nem fazer passar outra coisa por escravatura, explicar-lhes  o que a nossa nação fez no passado  e perseguir e castigar os que o fazem hoje em dia.

Qualquer homem que crie oportunidades para que pessoas possam ter uma opção para ganhar a sua vida está a fazer precisamente o contrário de um esclavagista: está a proporcionar Liberdade às pessoas. Da minha parte, obrigado Belmiro de Azevedo, houvesse mais como ele.

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