Outras Independências

A Catalunha continua ao rubro, os cabecilhas da conspiração (ou líderes patrióticos, consoante o ponto de vista), fogem para a Bélgica,  os que têm coragem  regressam e vão dentro. Por cá confundem-se presos políticos com políticos presos e o número de especialistas em Direito Constitucional espanhol explodiu. Eu não sei se a prisão deles é legal e justificada ou não mas, como sou contra este processo,  gostei de ver. Esta foto mostra o projecto de líder a exibir orgulhosamente 5 notificações judiciais  consecutivas pelo seu continuado incumprimento da lei. Agora já não tem tanta pressa nem orgulho no facto e fica com a defesa um bocado fragilizada:  “Eu sabia bem que estava a quebrar a lei mas nunca pensei que levassem isto tão a sério a ponto de a querer aplicar!”.

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De qualquer maneira, posso ter-me rido por ver a demagogia ir de cana mas prender (não este, que não tem tomates,  os outros todos)   parece-me  contra producente,  não acalma ninguém nem resolve nada, antes pelo contrário. É dar argumentos aos adversários de mão beijada, mesmo que o peso todo da lei esteja do lado do estado central, prender opositores serve mais a oposição do que outra coisa, a menos que estejamos a falar de um sítio como a Rússia ou a Venezuela, em que é uma técnica normal e, a julgar ela durabilidade dos regimes,  bastante eficaz. De um país como  Espanha esperava-se outra coisa, mas  os espanhóis nunca foram conhecidos por serem macios.

Vale a pena nesta altura lembrar duas outras tentativas relativamente recentes de independência, uma falhou, a outra teve sucesso.

A primeira foi a da Escócia, em 2014. Ora a Escócia é um país  há muito tempo,  faz parte de um Reino Unido em conjunto com a Inglaterra, Gales e a Irlanda do Norte e desde sempre que muitos escoceses contestam essa união e pedem o regresso a uma Escócia independente, só aí já têm um caso muito mais forte que os catalães, querem voltar  a ser uma nação. A chachada histórica que foi o filme Braveheart fez crescer exponencialmente a simpatia pela causa independentista, desde  1934 que existe um partido independentista, que foi concorrendo a eleições, espalhando a sua mensagem e o seu programa até que ganhou maioria na Escócia autónoma e finalmente a questão chegou a referendo.

Se há povo pouco revolucionário é o britânico,  é uma das coisas que eu admiro neles, directamente relacionada com a fleuma,  qualidade que aprecio muito. Ao longo de uns mil anos de História tiveram uma revolução, em 1688, que estabeleceu a monarquia constitucional. Há quem diga que nem essa devia ser chamada “revolução”, foi mais o culminar de um processo longo de afirmação do poder do Parlamento que até passou por uma guerra civil e uma república que durou dez anos.

O Reino Unido não tem uma constituição escrita como a maior parte dos países mas tem um corpo de leis e jurisprudência de séculos que explica e regula o modo como o Reino é Unido. Perante a agitação dos escoceses, os políticos britânicos fizeram o que fazem os políticos sofisticados e inteligentes, sentaram-se a negociar o modo como se podiam responder às aspirações de um grupo crescente de cidadãos. Duvido que houvesse na lei britânica provisão para uma secessão de um dos países que compõem o Reino Unido, mas num processo que devia ser exemplar houve anos de negociação e organizou-se um referendo em 2014.

84% dos escoceses votaram, eliminando logo aí dúvidas quanto à validade do resultado,  55,3% dos votantes disseram que a Escócia estava bem assim, 44,7% queriam um estado soberano, ficou assim. O referendo, por não ter sido organizado à margem da lei, foi livre , aberto, precedido de uma campanha de informação (e propaganda) de ambos os lados e resolveu a questão do separatismo escocês (até chegar o brexit, mas isso já é outra questão) . Hoje em dia a própria líder do Partido Nacional Escocês afasta novas tentativas de referendo e secessão, muito porque há consciência clara de que as pessoas iam ficar mais pobres  e a economia ia sofrer, e porque ainda há políticos que acreditam que a sua principal tarefa é melhorar a vida real e o dia a dia das pessoas e não fornecer-lhes  ilusões, panaceias e banha da cobra.

Não houve motins, não houve prisões, não houve debandada de empresas nem fugas de políticos, mais uma vez os britânicos mostraram ao mundo como funciona uma democracia moderna e se agora vai para lá uma salganhada medonha por causa do brexit devem-na pura e simplesmente ao populismo e ao calculismo pessoal de alguns políticos, as mesmas causas dos problemas na Catalunha.

No outro extremo da escala política e social temos o Sudão do Sul, nação  independente desde 2011 por secessão do Sudão , país que apesar de não conhecer pessoalmente tenho como sendo o fim do mundo. Passei quase uma semana no Mar Vermelho a navegar ao largo do Sudão e da Eritreia, do outro lado é a Arábia Saudita e tirando um furacão no Atlântico não me lembro de ter tanto medo no mar, só de pensar que se tivesse que arribar a um porto seria  um porto no Sudão arrefecia-me o sangue.

Algumas pessoas se calhar ainda se lembram do Darfur, até se fez  uma cançoneta pop que teve muito sucesso e  ajudou a chamar a atenção para causa. Andava toda a gente angustiada com  o genocídio das tribos negras do sul pelos árabes do norte e a atenção que isto trouxe à região encorajou os separatistas do Sul, a atenção internacional pelo genocídio e o facto de uns 75% do petróleo do Sudão estarem no Sul.

Como estes independentistas lutavam contra um regime liderado por um gajo que até tem mandato de captura pelo Tribunal de Haia, o ocidente, na ânsia de ser bonzinho e certamente também com um olho no petróleo, apoiou o separatismo do Sudão do Sul. Intensificou-se a guerra e declarou-se a independência. Lembro-me perfeitamente de ler um artigo na National Geographic, cheio de fotos lindas a leonizar o chefe dos independentistas e cheio de perspectivas melosas e optimistas para a nova nação e lembro-me  de pensar : estes não aprenderam rigorosamente nada em cinquenta anos de independências africanas.

O período de atenção da imprensa e, por conseguinte, da opinião pública, mede-se em dias e como o mundo apresenta constantemente dezenas de pontos de fome,  peste, guerra e cataclismos vários, hoje já ninguém quer saber daquilo para nada.  Continua a guerra e a miséria no Darfur , que curiosamente continua parte do Sudão depois de ter sido o caso que mais contribuiu para a criação do Sudão do Sul.

E que tal vai a jovem nação do Sudão do Sul, 6 anos depois da independência? Vai como seria de esperar, guerra civil, miséria, corrupção e  ódio tribal A guerra civil demorou só dois anos a rebentar  e os sudaneses do sul são tão ou mais miseráveis do que eram como simples sudaneses. Eu não passo de um curioso destas coisas,  que lê uns livros e acompanha umas notícias e espanta-me a sério como é que a generalidade dos políticos e especialistas  envolvidos nas organizações internacionais não viu tal como eu que a coisa nunca ia resultar. A ONU deve ter uma percentagem enorme de funcionários e oficiais que ou são muito ingénuos ou são estúpidos ou são completamente cínicos e andaram lá a ajudar a organizar uma independência que sabiam ia correr assim.

Falo destes dois casos não para dizer que nenhum territorio deve ser independente mas sim que têm que ser observadas um número de condições antes de se falar nisso. Na Escócia havia condições, havia processo, cumpriu-se a vontade das pessoas. No Sudão não havia condições nem processo e  cumpriu-se a vontade dos poderes de facto. Na Catalunha há condições mas não se criou nem respeitou um processo, agora tenta-se cumprir a vontade de uma minoria mas já está tudo tão inquinado que não acredito que haja salvação, entendendo como salvação um compromisso que garantisse antes de mais a paz e tranquilidade na Catalunha e depois o tal processo, desta vez um a sério liderado por gente séria , para  perceber e medir  com legalidade as intenções dos catalães e agir de acordo.

Como se não houvesse já bastantes detalhes patéticos nesta história, hoje a Venezuela veio exigir à Espanha respeito pelas liberdades e libertação dos presos políticos.  Passei quinze minutos a tentar encontrar uma frase para rematar isto mas não consigo.

Populismos

Continua a farsa na Catalunha, agora completa com um golpe de teatro e a fuga de Puigdemont para a Bélgica, para não ser preso e julgado. Depois destes meses em que os estrangeiros que não conheciam a figura puderam ver o seu nível, ideias e estatura, finalmente pode aquilatar-se também a sua coragem e confiança na causa pela qual mergulhou a Catalunha na confusão e divisão: não existem.

Um verdadeiro aspirante a estadista, por oposição a um cacique regional atingido por um ataque de megalomania, teria exposto a sua ideia e  o seu caminho e tinha-o percorrido até ao fim, se o fim fosse uma cela, seria uma cela, como testemunho da luta contra injustiça e opressão do Estado espanhol. Um gajo do calibre do Puigdemont agita, mente, troca-se todo, confunde, hesita  e por fim foge com medo das consequências dos seus actos. Mais ou menos por esta altura os apoiantes locais da independência catalã já estão a renegar o homem e a separar calmamente uma boa ideia de uma  má execução, dispositivo que justifica ideias de merda desde a aurora dos tempos, mais famosamente o comunismo, que até hoje, e já estou convencido de que até sempre, vai ter gente a defendê-lo com essa tese : a ideia é boa, a execução é que foi má. Ah, percebo, é muito possível, é pena é que só se aplique a causas tradicionalmente de esquerda por não tenho memória de ouvir uma alminha que seja a dizer por exemplo “o fascismo até tinha aspectos positivos, infelizmente foi implementado por gente má”. Não, o fascismo é inapelavelmente mau mas o comunismo tem nuances e eu que gosto tanto de uns como de outros fico com vontade de os mandar todos….nem sei.

O Público descobriu símbolos fascistas numa manifestação pela unidade de Espanha, e fez disso notícia. Pois é, símbolos fascistas, que vergonha, já foices e martelos vêm-se regularmente em tudo o que seja manifestação, mas isso já não é notícia, é normal, é saudável, é positivo que em 2017 tenhamos que levar diariamente com o branqueamento e normalização do comunismo, fico doente. Entretanto o mesmo jornal , sobre a vitória eleitoral de um candidato de direita na Austria diz que os populismos estão aí , é um artigo escrito por uma jornalista que até ganhou um prémio por um trabalho na Grécia em 2011 mas que não encontrou lá nenhum populista, só encontrou esperança, e  nem aqui ao lado o Podemos lhe cheira a populismo, é evidente que para esta senhora populismo só existe à direita.

Vi este videozinho sobre a História da Catalunha , partilhado por uma daquelas pessoas que simpatiza com o independentismo porque o governo central é de direita e cuja opinião mudaria imediatamente se em Madrid mandassem socialistas e na Catalunha fosse a direita a querer independência.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fxavier.basoko%2Fvideos%2F10215022689947829%2F&show_text=0&width=560

 Está muito interessante mas não consegui ver nele um único argumento ou justificação para um estado Catalão independente.Não sei se estas pessoas acham que basta contar a História de uma terra para lhe conferir  automaticamente direito à independência ou se acham que devemos voltar atrás e rever todas as decisões históricas criadas por força das armas, negando-lhes as consequências e a validade. “Se foi à bruta, não vale”, ora aí está um bom princípio para repensar a História e as fronteiras da Europa.

Na guerra de Sucessão Espanhola os catalães decidiram apoiar o candidato ao trono que acabou por perder , Barcelona foi ocupada em 1714 e sofreu as consequências de ter lutado pelo lado que perdeu. Lutaram, perderam, acabou. Séculos mais tarde, na Guerra Civil espanhola mais uma vez alguns catalães decidiram lutar contra o Estado central.cMais uma vez perderam, mais uma vez se afirmou que a Catalunha é uma região de Espanha sem apelo nem agravo, e depois da autonomia conquistada e votada, depois de a Espanha se ter tornado uma democracia moderna, um Estado feito de muitas regiões, em que os cidadãos têm as mesmas liberdades e garantias que os das outras regiões,  pensava-se que a questão estava finalmente resolvida mas enquanto houver revolucionários por vocação, enquanto houver políticos ambiciosos e sem escrúpulos, enquanto houver pontos de fricção para semear a discórdia, enquanto houver intelectuais prontos a teorizar e enquadrar qualquer  “revolução” , nenhum assunto está encerrado.

Os comunistas e seus sucedâneos falam em primeiro lugar no sagrado direito à auto determinação dos povos  (com a URSS funcionava muito bem, essa autodeterminação dos povos) e já vi as comparações mais absurdas possível, por exemplo perguntarem-me se eu também era contra a independência de Timor Leste. É uma comparação estúpida mas estou habituado, tal como não me espanta ver lembrado que “em 1640 éramos nós”, como se o Hegel tivesse mesmo razão e a História caminhasse ao longo de uma linha  com um sentido claro e inevitável que faz com que haja um estado natural para uma terra ou região, e esse estado natural seja  uma entidade independente.

Enquanto não me mostrarem sinais claros de opressão, de discriminação e de injustiças sofridas por cidadãos por serem catalães; enquanto não me mostrarem em que é que uma Catalunha independente diferiria para melhor de uma Catalunha região de Espanha; enquanto não me apontarem o que é que os Catalães ganhavam com a independência além de orgulho que nunca pagou contas a ninguém, e mais importante que tudo, enquanto não provarem que há uma maioria do povo catalão a querer independência, não acredito no mérito da causa.

Uma notícia bastante reveladora dos processos morais de boa parte destes independentistas: Os 33 deputados dos partidos independentistas catalães não renunciaram aos seus lugares em Madrid aquando da declaração de independência, mostrando bem que há ligações que se podem quebrar mais facilmente que outras e que é mais fácil pedir aos outros que renunciem a certos privilégios do que renunciar aos nossos. Cambada de hipócritas interesseiros que passa  a vida a fulminar Madrid mas largar o seu lugarzinho e mordomias, tá quieto.

Tal como o líder independentista se queixou  de que a acção do governo central era  contra a constituição depois de renegar a mesma constituição, estes senhores exigem um país para si mas  querem ser deputados noutro país, ter voto na matéria em decisões do país que querem abandonar. Parece-me bem.

Tenho alguma pena dos milhões de catalães que estavam satisfeitos com a sua condição de catalães, espanhóis e europeus e que sabiam que os seus problemas não se resolvem com uma mudança de regime e estado político. Que estão a ver o seu país revirado por ideólogos e demagogos  , vizinho contra vizinho, e que agora encaram meses largos de convulsões políticas, consequências económicas negativas e agitação em geral, e vão sair disto mais pobres ( ou menos ricos) do que eram, acabe como acabar.

Para que não se fique a pensar que o facto de sermos uma nação com 900 anos em que toda a gente fala a mesma língua e tem  a mesma religião nos torna imunes a este género de delírios, aqui fica a página do Movimento pela Independência do Algarve , que tem no facebook 260 seguidores e em 2011 anunciava  a criação do seu braço armado. Tivémos sorte,  a Brigada Medronho não fez atentados em defesa da autodeterminaçao da Nação Algarvia mas ainda vai a tempo. O ridículo não mata e isso às vezes é pena.

Uma espécie de independênciazinha

Depois do drama, da encenação, das hipérboles e das declarações apaixonadas, o chefe dos independentistas da Catalunha falou ao povo que se concentrava na  praça e o via na TV,  centenas de milhar de pobres escravos de Espanha, cansados de séculos de opressão e miséria, aguardavam a esperada e histórica declaração de libertação. Acreditavam  que a sua vida melhoraria mesmo se em vez de viverem na Catalunha, região autónoma de Espanha, passassem a viver  na República da Catalunha. Puigdemont compôs a franja e disse  que declara  a independência… mas fica suspensa. Ou seja , não há independência nenhuma.                      DLzGf8OXcAAcaQ-

Como começou a ver a vida a andar para trás, como se tornou aparente que milhões de catalães estavam contra a ideia, que ninguém na Europa se oferecia para mediar a questão quanto mais reconhecer um estado catalão, que as empresas debandavam e os particulares começavam a levar as suas poupanças para outro lado, que a Fitch avisou  que o rating de Barcelona caía logo com a independência, e assim sucessivamente… teve que se vergar à realidade. Todos os inconvenientes e problemas óbvios que os independentistas nunca discutiam ficaram de repente muito mais próximos e evidentes, e o sr Puigdemont pedalou para trás na melhor tradição dos demagogos quando as suas mentiras são expostas. Junta-se assim ao grupo liderado pelo Tsipras, grupo de políticos que agitam as paixões da população com ideias fortes, amanhãs que cantam  e promessas de toda a ordem para na hora H baquearem e dizerem “afinal as coisas não podem ser bem como eu vos tinha dito”, por mil outras palavras. Outro mestre da demagogia é o Pablo Iglésias, que depois de meses a agitar sem papas na língua não só pelo confronto da Catalunha com o estado central mas pela  independência real  já veio elogiar o Puigdemont pela sua sensatez. Pela sensatez que demonstrou em não fazer o que o Iglésias defendia. Na mesma declaração e mostrando bem o grau de alucinação que vai na sua vida, comparou a Espanha à Turquia. É surreal.

Fiquei satisfeito pelo que na prática é a suspensão da declaração de independencia  porque como escrevi aí atrás temia que a loucura prosseguisse a fundo, que o Puigdemont fosse de palavra e coragem e declarasse mesmo que nascia ali a República da Catalunha, e seguia-se senão o caos algo parecido.

Não tenho conhecimento de mais nenhuma declaração de independência de validade diferida, de alguma ocasião em algum  país em que um dirigente ou movimento tenha feito uma algazarra e espalhafato épico para depois subir ao palanque e dizer “Vencemos! Havemos de ser independentes, um dia mais tarde e consoante decorrer o diálogo com todas as partes!!!”  Absolutamente ridículo.  Explica  Nuno Rogeiro:

O artigo 4º, n.4, da Lei 202-00065/11, dita do referendo, aprovada pelo parlamento catalão em sessão conturbada de 6 de Setembro deste ano, diz que o mesmo hemiciclo precisa de declarar a independência, concretizar os seus efeitos e iniciar o processo constituinte, 48 horas depois da publicação dos resultados da mesma consulta, se estes resultarem em mais votos «sim» do que «não».

A suspensão deste processo não tem cabimento legal, face à norma referida.

Ou seja: viola-se não só a Constituição espanhola, mas a lei do estado a ser.

Daí a desilusão dos que queriam «independência já». E o ceticismo dos que querem uma «negociação», mas sem saber qual.

Não aplaudo  a conduta do estado espanhol nesta história, podiam ter levado as coisas sem usar a força, mas tirei-lhes o chapéu e ri-me bastante quando o Rajoy perguntou ao governo catalão se afinal tinham declarado independência ou não .

É que há leis, leis que não ficam obsoletas só porque mudam os governantes, leis que não são  imutáveis mas que obedecem a preceitos para serem alteradas, e  se não acreditamos nisto mais vale dizer que o melhor é tudo ao molho e fé em deus, venha a lei do mais forte, das maiores manifestações, de quem tem maiores audiências, de quem fala mais alto.

A minha aposta é que depois deste festival vai tudo ficar na mesma por muitos e bons anos. Ficam também a animosidade e divisões criadas pelos independentistas, que certamente não vão desistir, e o prejuízo económico para a região.

O meu voto é que os dirigentes catalães se concentrem mais em fazer a sua terra funcionar melhor e em melhorar a vida dos habitantes, coisas que se podem bem fazer sem mudar o regime político nem precisam de um estado independente.

 

PS: Finalmente há acusação ao Sócrates, um documento com 4000 páginas! Eu e mais uns milhões bons de portugueses estamos plenamente convencidos de que o homem é um corrupto  que enriqueceu ilegalmente  à conta do cargo, e para isso não é preciso ler as 4 mil páginas, é uma opinião baseada no antigo adágio, quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem. 

Que ainda haja quem defenda o homem, que apresenta 24 milhões de euros numa conta da Suíça depois de uma passagem por S.Bento onde ganhava uns 5 mil por mês, ou 10 que fossem,  é das coisas mais extraordinárias que já vi. Que haja que seja capaz de dizer que uma acusação formal de 31 (!) crimes é uma cabala é extraordinário. Que haja advogados a defendê-lo, é preciso e é o trabalho deles, agora que haja gente que ainda espera pela sentença  para se pronunciar, é demais. Este processo é necessário para saber se há condenação e pena, e aos olhos da justiça o homem ainda é inocente, mas isso é aos olhos da justiça, que devia  ser ceguinha, não queiram que nós também o sejamos. Para mim qualquer pessoa que defenda o Sócrates ou está a ser pago para isso ou é estúpido.

A Marcha da Loucura

Um dos meus livros favoritos de sempre é The March of Folly, escrito por uma historiadora americana em 1985 e sobre o qual já escrevi aqui, há uns anos, com este título e tudo. O livro explora casos, de Tróia ao Vietname , em que os políticos tomam decisões  “loucas”  e  contrárias aos seus interesses. É um processo fascinante  que se pode ver a trabalhar desde que há História escrita e tenho a certeza de que se a sra Tuchman ainda fosse viva tinha feito uma edição nova e actualizada em que incluía a invasão do Iraque.

Os critérios que Tuchman apresentou  para que se pudesse falar em loucura eram 4 :

– A prossecução de uma política contrária aos interesses últimos do Estado na face de vozes discordantes .

-Provas de que a  mesma política era contra producente.

-A política tinha que ser o produto de decisão de um grupo em vez de um indivíduo e , finalmente , tinha que haver uma alternativa clara .

A loucura está outra vez em marcha, desta vez ali na Catalunha. A meu ver observam-se todos os critérios, especialmente porque a Catalunha não é nem nunca foi um Estado , por isso o Estado em questão aqui é a Espanha, e os líderes desse estado também já tomaram decisões com certa dose de loucura.

Carles Puigdemont, o presidente do governo regional que é a cabeça de toda a instigação e agitação independentista  afirmou ontem que vai mesmo declarar independência. Curiosamente diz isto : “A declaração de independência, a que nós não chamamos declaração unilateral de independência, está prevista na lei do referendo como aplicação dos resultados”. Aqui é bem visível o papel da retórica nesta salganhada: a declaração deles é, por definição e por observação directa da realidade, unilateral, mas ele diz que não lhe chama unilateral. Quando um político começa a oferecer interpretações  e descrições alternativas da realidade baseadas  em manobras de linguagem significa que a discussão já saiu do domínio do racional e já não se vence com argumentos racionais.

É possível ver uma cronologia do processo aqui e lendo artigos nacionais e estrangeiros sobre o tema há uma coisa que sobressai : o independentismo catalão aparece de cima para baixo, é a resposta aos anseios de uma elite que sem dúvida se sentiria melhor a governar um país do que uma região e que com a causa independentista encontra um bode expiatório para as suas próprias insuficiências e falhas e uma causa emocional e mobilizadora. Uma visão para oferecer, coisa necessária a todo o político de sucesso.

Em mais uma demonstração de talento político para distorcer e manipular factos, nas eleições de há dois anos os independentistas não conseguiram a maioria dos votos , mas  tiveram maioria dos lugares no parlamento e um dos ideólogos veio logo dizer :Ninguém pode dizer que, a partir de agora, não temos legitimidade para fazer o que queremos fazer . Ora isto é uma afirmação absurda , especialmente porque “o que querem fazer” é desmembrar um país para criar outro, não se trata propriamente de aumentar o IVA ou mudar o código da estrada. Estas pessoas viram legitimidade onde mais ninguém a via, e o processo continuou apesar de ser claramente ilegal e inconstitucional.

Arrisco dizer que o cidadão comum  está preocupado antes de mais com o seu emprego, a educação dos filhos, os serviços públicos e  a segurança. Com isto  assegurado preocupa-se com direitos políticos e a liberdade individual e colectiva.  Isto já todos os catalães têm, incluindo o respeito, instrução  e inclusão plena de uma língua que só eles falam. A vontade de independência catalã não nasce de nenhuma opressão, de nenhuma exclusão dos catalães dos processos de decisão, de nenhuma desigualdade entre eles e o resto dos espanhóis, de nenhuma memória de nação que já foi e deixou de o ser.  Nasce sim de um projecto político de uma elite.

Tentemos imaginar o que sente uma figura pública que sobe a uma varanda de uma grande praça de uma grande cidade, fala perante 70 mil pessoas e é aclamado. Sente-se a encarnação da História , que a sua causa é justa e que o povo está com ele. A Catalunha tem 7 milhões e meio de habitantes mas o nosso Carles olha para 70 mil e vê ali a população catalã, o povo. Rodeado de assessores e cúmplices colegas de causa que lhe repetem as suas próprias opiniões e ideias, a ler jornais lidos por minorias decrescentes mas que continuam a acreditar que chegam a todos,   a viver em condomínios fechados, a comer em restaurantes de luxo e  conduzido por motoristas em carros do estado mas  sempre acreditando que compreende os anseios e necessidades do povo. Este homem torna-se monomaníaco e diz a quem o quer ouvir que a causa da sua vida é a independência. Não lhe interessa que não seja a causa da vida de nem metade dos catalães, é a sua e como ele é o chefe do governo, é por consequência a causa do governo.

Deixa de se tentar melhorar o governo da Catalunha autónoma para se delirar com o projecto da Catalunha Independente. Madrid , sem surpreender ninguém, manda-o ler a constituição e o estatuto da autonomia aprovado há pouco mais de dez anos pelas autoridades catalãs representativas e diz-lhe  NO. Perante isto o que faz o nosso Carles? Começa uma campanha para possibilitar a revisão do constituição espanhola? Não. Começa uma campanha para aprofundar as autonomias? Não. Propõe um mdelo de estado federal para a Espanha?Não. Exige que se equilibrem mais as transferências financeiras? Também não, convoca um referendo que desde a hora zero lhe dizem que é ilegal. Um referendo para decidir sobre se fazem ou não um golpe de Estado. É o que se chama a atentar contra a integridade do Estado, golpe de estado separatista.

A este referendo, e muito por culpa da reacção canhestra de Madrid, acorreram  38% dos catalães, nem sequer metade, e disseram que querem  independência, logo o Carles vê nisto legitimidade para proclamar independência. Como o referendo é ilegal e não está regulamentado, não está definida a margem de participação que legitimaria a decisão dali saída , tal como as pessoas que são contra a independência, pela mesma razão, não se deram ao trabalho de ir votar.

A partir daqui a fuga é para a frente e o governo independentista, em vez de recuar, ouvir todos os avisos e prenúncios que vêm de dentro e de fora, acalmar as hostes e reconhecer precipitação e erro no método senão no objectivo, prefere saltar da parte mais funda da pisicina e diz que vai declarar independência amanhã, porque recuar agora seria perder a face. Esta relutância de políticos em perder a face já matou milhões de pessoas ao longo da História.

Enquanto Carles e amigos brincam às proclamações patrióticas inflamadas a vida continua, a realidade não muda e as notícias aparecem. Dezenas de empresas abandonam a Catalunha porque, as malvadas, preferem trabalhar num país grande e desenvolvido do que num país pequeno e novo, de regras semi-arbitrárias e fora da UE. Sim , porque a UE confirmou sem margem para dúvidas que uma Catalunha independente não seria membro. Isto deu pausa para pensar a muita gente, porque o poderio económico da Catalunha é-o por ser uma região de Espanha, isto pelos vistos não era aparente para toda a gente. Uma greve geral paralisou a região e tirou não sei quantos pontos ao PIB e os efeitos perduram. Desde as empresas às famílias aumenta a discórdia , o nosso Carles pode orgulhar-se de ter conseguido fazer algo com a Catalunha: dividiu-a como não se via desde 75.  E ontem entre 350 e 500 mil pessoas encheram as ruas de Barcelona com bandeiras de Espanha a manifestar-se pela unidade nacional . É bastante gente, e também isto fez pausar aqueles que acreditavam, vá-se lá saber porquê, que a independência era uma causa comum dos catalães.  Não é , há muitos, quiçá a maioria , que estão bem assim, Espanhóis , Catalães e Europeus e não querem embarcar numa aventura romântica para benefício da oligarquia do poder.

Como a loucura parece que já tomou mesmo conta do Governo Regional é muito provável que amanhã haja mesmo declaração de independência. Para não perder a face o nosso Carles vai despejar um bidom de gasolina na fogueira, provocar mais uma reacção dura do estado espanhol que parece que não sabe ter outras, talvez na esperança de que se acabar tudo à porrada, mais ainda, a simpatia vai cair para o lado catalão. Ainda está para nascer o político que não veja num seu seguidor com a cabeça rachada uma boa ocasião de propaganda.

Uma Catalunha independente voltaria atrás economicamente,internacionalmente passaria  de região de um grande país da Europa a país isolado que não conta para nada e ficaria , depois de inevitáveis migrações dolorosas, partido ao meio com ressentimentos para décadas. Claro que isso não interessaria muito ao Presidente da República Carles Puigdemont, cuja situação económica pessoal não seria ameaçada,  teria ainda mais privilégios e passaria a pensar nele próprio como o libertador da Catalunha.

Precisam-se de cabeças frias mas receio bem que a loucura já esteja em marcha.

 

Sobre a Catalunha

Uma das vantagens da minha antiga profissão era   passar muito tempo com estrangeiros.Quando digo “passava muito tempo” não estou a falar de trabalhar 8 horas por dia ou ter uns amigos com quem se bebiam uns cafés ou faziam uns jantares, estou a falar de viver juntos num barco  relativamente pequeno , em navegação no alto mar,  24 horas sobre 24  em viagens que ao todo podiam chegar a durar 3 meses. Como no mar não há a maior parte das  distrações comuns, conversas longas são inevitáveis, e eu como gosto de história e política aproveitava para, caso eles fossem pessoas capazes de manter uma conversa, aprender um bocado e ficar a conhecer os pontos de vista e experiências de gente de muito sítio.Se bem que a maioria eram ingleses ou americanos também naveguei com lituanos, panamenhos, franceses, peruanos, brasileiros, alemães, holandeses, belgas, sul africanos, suecos, dinamarqueses, australianos e uns poucos mais.

Há um ano e pouco um dos meus marinheiros foi um catalão. Um dos melhores tipos que já conheci, com um entusiasmo, boa disposição e atitude incrível, uma jóia de pessoa. Nas habituais trocas de emails que precediam o embarque apresentou-se como espanhol, se bem que o seu nome era puro catalão. Ao fim de uns dias a bordo fiz a pergunta que hoje anda na boca de meio mundo :

– E a independência da Catalunha?

A reacção corporal foi correspondente ao famoso “eh pá nem me fales nisso…” mas lá me deu a sua opinião. Em primeiro, irritava-o muito a atitude centralizadora de Madrid e certas atitudes mesquinhas como o desvio de uma autoestrada nova que vinha do Sul de França e o bom senso dizia devia passar por Barcelona mas os castelhanos fizeram (ou iam fazer passar, já não estou bem certo)  por Saragoça em vez de pela costa e Barcelona. Irritava-o o desnível nas contribuições para o orçamento do Estado em que a Catalunha contribui mais do que por exemplo a Andaluzia. De modo inverso, a Catalunha recebe menos investimento público do que regiões mais pobres como a Galiza. Vá-se lá saber porquê, aquela velha máxima do “de cada um de acordo com as suas possibilidades e a cada um de acordo com as suas necessidades” não cai lá muito bem quando se tenta fazer sair das páginas dos livros para a vida real.

Tirando essas reclamações,  certamente de resolução possível sem muito drama, o meu amigo dizia que era tudo uma grande manobra dos políticos catalães, ajudada involuntariamente pelas reacções ineptas e brutas dos castelhanos. O “sentimento independentista” subiu muito a partir da crise finceira de 2009, daí em diante todo o comunista e socialista da Catalunha se convenceu de que a solução para a crise económica era a independência, apesar de não haver nenhum exemplo histórico para citar,  de que a causa da crise e da austeridade era o centralismo espanhol e de que uma Catalunha independente poderia, talvez por artes mágicas, viver num sistema diferente e isolado do resto da Europa.

O meu amigo Pepo esperava que se entendessem e que parassem com agitação e os referendos mal amanhados, era orgulhosamente Catalão mas também se sentia bem como Espanhol, como há por exemplo centenas de milhar de Açorianos orgulhosos que são igualmente Portugueses orgulhosos. Não tem que haver contradição. As expectativas do Pepo não se materializaram e as coisas para lá complicam-se muito.

Liderados por  Puidgemont, que como todos os independentistas, tem um sonho de uma nação nova com ele à cabeça e por figuras da esquerda radical como a  sra Colau , alcaldesa que trabalha para  dificultar uma das principais fontes de receita de Barcelona, o turismo, os políticos agitadores não se coíbem, como todos os bons demagogos, de ir remexer no passado: A ditadura do Franco oprimia os Catalães. Isto é um facto, mas a ditadura acabou em 75 e hoje já ninguém oprime os catalães, pelo que trazer a ditadura ao debate é muito desonesto. Como se fala de política,  também é normal.

É sabido que as revoluções são feitas , por definição, contra a Lei , e que o facto de uma coisa ser legal não quer necessariamente dizer que seja boa , e vice versa. Apesar disso há processos que se observam e respeitam num Estado de direito que os agitadores da Catalunha há muito deixaram de respeitar, e agora parece-me que já vão na fase de criar factos no terreno para confrontar o governo com eles e é nítido que estão desejosos de provocar violência da parte das forças de segurança, falta-lhes o item da opressão física, já coleccionaram  todas as outras opressões, sobretudo as teóricas.

Os meandros do processo não são muito claros  para quem como eu não segue aquilo de  perto. Vou lendo umas coisas, entre elas este texto  de um jovem comunista nacional, para os comunistas foi muito fácil encontrar os bons e os maus da questão : o governo em Madrid é do PP, logo, tudo contra eles. Teve piada porque uns dias depois o correspondente em Portugal do El País respondeu-lhe também no Expresso, dizendo-lhe  por outras palavras que divulgue a sua propaganda e ideologia à vontade e que agite com entusiasmo mas faça um esforço para não mentir  tanto.

Não encontrei sondagens muito reveladoras mas nas últimas eleições regionais os indendentistas não conseguiram chegar a metade dos votos e depois há esta afirmação de um catalão ex presidente do parlamento europeu: 75% dos que falam catalão defendem a independência, 75% dos que falam outras línguas defendem as coisas como estão. As implicações disto são claras.Uma Catalunha independente seria à partida uma nação dividida como poucas.

Para os Catalães é fácil ver em Madrid um inimigo e na independência uma solução. Neste Domingo talvez vá  acontecer um referendo ilegal,  e depois disso ninguém sabe. A minha opinião nisto vale ainda menos do que de costume e é-me naturalmente impossível dizer o que faria se fosse catalão, o que achava se fosse espanhol ou o que é melhor para uns e outros, para isso é preciso ter um livro que explica tudo e nos diz sempre como nos devemos posicionar, como o do camarada José Soeiro. Dito isto, há coisas que tenho por verdadeiras:

  • Se a independência triunfa na Catalunha abre-se a porta a processos idênticos no resto da Espanha, em Itália e em França, com a questão da Córsega.
  • Onde quer que haja uma identidade local mais ou menos definida vai surgir um demagogo populista a explorá-la, procurando o poder pondo-nos a nós contra eles.
  • A União Europeia resiste à saída de um estado membro mas não resiste à desintegração de vários.
  • Para Portugal é muito melhor, em todos os aspectos, ter como vizinha a Espanha do que a Galiza, a Extremadura, a Andaluzia e Castela & Leão, ou combinações destas e outras regiões.
  • As vantagens económicas da independência para os catalães são improváveis, a única vantagem garantida é um  impulso no orgulho, que vale muito pouco. Exemplo : o Castelhano é a 4a língua mais falada no mundo, o Catalão é uma língua que não conta para nada.

Estas são razões válidas para esperar que eles se entendam, que arrefeçam os ânimos e  que encontrem uma solução que mantenha a Catalunha como região de Espanha. Por outro lado acredito no direito à autodeterminação dos povos e no direito dos cidadãos de expressarem a sua vontade pelo voto. Se não os deixam fazer o referendo o tema nunca se resolve.

Como estudante de História não me posso esquecer de que somos uma nação nascida da secessão e  guerra com Castela, que nascemos e crescemos em guerra com eles. Tinha uma certa graça se 875  anos depois do tratado de Zamora e 377 depois da Restauração nos virássemos para os  vizinhos e disséssemos:

-Ainda aqui estamos e a Espanha acabou.