O Auge

Este ano em Outubro celebro 20 anos da partida para a minha primeira viagem marítima, 4 meses depois de ter velejado pela primeira vez.

Desde aí juntei 235000 milhas náuticas em todos os oceanos à excepção do Árctico e Antárctico, ao comando de 100 (número redondo, certo e documentado) barcos diferentes, alguns deles de valor na casa dos milhões .

Não tenho intenções nenhumas de voltar aos iates, não tenho saudades da vela oceânica e no Sábado passado na Horta, mesmo tendo ficado quase em último na regata, atingi o auge da minha carreira na vela, campo em que não ambiciono mais nada senão fazer isto o resto do tempo, enquanto puder.

Tenho centenas de fotos em todos esses barcos, mares, portos e ilhas mas esta é sem dúvida a minha fotografia preferida de sempre.

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Regata

Saímos com o S.Pedro na Sexta  para treinar, correu bem lá fora da baía mas o vento estava fresco e de Sul , não consegui voltar a entrar no porto à bolina , perdi a calma e desisti de tentar, entrámos a reboque, humilhação. Da parte da tarde saí no Formosa para completar a tripulação. O  Formosa é o segundo bote das Flores e levou ao leme e na genoa gente do Faial com mais de vinte anos de botes. Voltei para terra a pensar que ia mesmo ficar em último e a esperar que os moços não me levassem a mal.

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No dia seguinte tinha os nervos em franja.De manhã chegaram os  botes do Pico a reboque de duas lanchas e a rampa era uma coisa linda, 23 botes a prepararem-se para arriar.Nos Açores há 43 botes em maior ou menor condição de navegação. Nas ilhas pequenas há cada vez mais dificuldade em mantê-los e tripulá-los e  S.Miguel nunca contou muito para isto.

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Um bote baleeiro mede 11 metros, pesa 700 quilos, tem uma tripulação  de 7 homens (ou mulheres) e uma velocidade de casco de cerca de 8 nós mas já se marcaram a 16. Todos os botes são aparelhados como antigamente e há muito poucos ou nenhuns materiais modernos. Um turista veio dizer-me “barcos tão lindos e fizeram tanto mal…” , eu disse-lhe  barcos tão lindos que deram de comer a muitas famílias e salvaram as ilhas de uma miséria ainda maior. Gente que  avalia 1950 pelos padrões de 2017 pode ir bardamerda.

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Arriámos o bote , remámos para fora do porto interior , içámos a vela grande para ver se estava tudo em ordem , saímos disparados pelo meio da frota à popa arrasada, a retranca tem quase dez metros e ultrapassámos   outros barcos com distâncias de centímetros , não sei como é que fiz isso e quando voltámos a baixar a vela para tomarmos o nosso lugar na linha de reboque da largada ia a tremer.

Este é um vídeo da largada , especial atenção para o minuto 3.30 , quem ficar indiferente a uma coisa destas não pode ser bom.

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A regata é um percurso à volta de três boias , uma de bolina , uma de largo e outra de bolina à entrada no porto, e depois meia milha de bolina , mais ou menos, para  a meta mesmo em frente à cidade. Partimos em 15º da linha.

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Há festivais de velas clássicas em sítios de alto snobismo tipo St.Tropez , já lá vi muita coisa bonita e digo sem problema nenhum que um bote baleeiro bem pintadinho passa por eles e vira cabeças e causa admiração de quem sabe, não andam aí muitas embarcações  mais elegantes e rápidas que estas.

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Aqui já estávamos a rondar a última bóia, nesta altura devíamos ir em décimo segundo mas quase todos esses atrás de nós acabaram por nos passar. Bordos grandes com brisa constante e todo o espaço são uma coisa , bordos pequenos com brisas variáveis dentro de um porto com outros barcos à nossa volta são outra muito diferente, é aí que vem ao de cima a experiência,e  falhei muito. Nessa foto já se podem ver barcos atrás muito mais orçados que nós:IMG_20170812_161105

Mesmo assim demos os bordos precisos para cortar a meta, apitou a nossa buzina e tocámos na bóia , um segundo mais tarde e éramos desclassificados. Doze segundos atrás de nós cortou a meta o Formosa , e isso para mim foi vencer . Terminámos em 16º de 23, os moços ficaram contentes, eu fiquei radiante, para primeira prova foi bem bom, para não falar da beleza enorme do cenário e do dia.

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Com o bote varado fomos celebrar , e mais tarde na noite encontrei-me sozinho sentado a um balcão e achei graça porque que me sentia exactamente como me costumava sentir de cada vez que atravessava o Atlântico, uma satisfação  que me percorria o corpo todo e me deixava um sorriso fixo. Acabei  por reencontrar a tripulação na festa, não há como ter vinte anos, aqueles moços conseguiram todos os dias voltar ao alojamento de manhã clara e cheios de cerveja até aos olhos. Ah, a juventude.

No dia seguinte subimos os botes para os atrelados e arrumámos a palamenta aqui:

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É a casa dos botes do Clube Naval da Horta, um armazém de pausar  a respiração a quem gosta destas coisas e que ainda nos vincou mais a diferença abismal que vai deles para nós. Não interessa muito. Fizemos boa figura, aprendemos, ganhámos confiança e já nunca mais vou para uma prova a pensar em terminá-la , vou a pensar em classificar-me bem. Tenho o privilégio incrível de ser oficial de um bote baleeiro três  meses depois de ter subido pela primeira vez a um , há muitas pessoas que sonham com isto e passam anos e anos até  lá chegarem , quando chegam .

Agora estamos para aqui à espera que regressem os botes, vai levar uns quinze dias. Antes de os guardarmos para o Inverno e começarmos a lixar e pintar queríamos ainda navegar mais um bocado, não falta vontade nem ideias de coisas giras que podemos fazer aqui, incluindo levar turistas a navegar por uma quantia, juntar dinheiro para termos material melhor e podermos ir mais vezes ao Triângulo para o ano, para provas no Faial e no Pico. Fala-se nas “altas esferas” da possibilidade de mantermos um bote no Faial para não termos que o andar a carregar para a frente e para trás, isto claro que está dependente de haver uma tripulação de prontidão para ir para lá competir em condições, coisa que nunca houve antes. Agora há.

Preparados…

Devia ser Maio, devíamos estar a começar era agora, que temos uma tripulação completa, que já se entende e se conhece um pouco, que já brinca e se diverte na água , que já faz as manobras e  aparece nos dias combinados e que o oficial, neste caso eu, começa a ganhar alguma confiança e a perceber alguma coisinha.

Em vez disso acabaram anteontem os treinos, devíamos ter arriado o bote  hoje pela última vez mas sem barco de apoio não, mesmo que alguns dos moços com mais sangue na guelra não se importassem. Está uma aragem fresca, estes botes mesmo com especialistas ao leme podem virar por um descuido, e se viram sem que ande por perto um apoio para nos vir pescar e endireitar o bote arriscamos uma situação muito desconfortável, eu já não tenho paciência nem tenho saúde para esses números. O Clube Naval, com a atenção e dedicação que tem mostrado à nossa participação na Semana do Mar , fecha a porta depois do almoço e lá dentro fica o equipamento do semi-rígido de apoio, para o qual eu tive sempre que encontrar tripulante por mim, recorrendo a amigos de boa vontade. Da parte de outras pessoas envolvidas está tudo bem porque desde que os botes estejam na rampa na Horta no dia 12 o subsídio bate na conta , mesmo que não cheguem a arriar.

Ontem estavam cá três picarotos a trabalhar num veleiro que compraram aí, um deles  um veterano conhecido dos botes da baleia, fui falar com ele e  perguntar umas coisas, entre elas o que é que era preciso para ele vir cá passar uma semana ou duas a ensinar-nos, já que cá parece-me que ninguém sabe e  pouca gente se interessa ou  quer saber. Os mais antigos que andaram na baleação que me desculpem mas podem saber muito de mar e de trancar baleias mas de vela sabem pouco, nos antigos baleeiros a vela era quase um  acessório , ninguém andava atrás das baleias a dar bordos à vela, iam a remos ou usavam a vela quando a baleia estava a sotavento e voltavam a remos ou a reboque das lanchas a motor, e muitos que hoje falam  das velas já têm memórias muito romantizadas da coisa.

O picaroto disse-me que bastava escrever uma carta para a Direcção Geral do Património  ou coisa que o valha , já não me lembro bem, a pedir para destacar os serviços dele para aqui; pagar a alguém que lhe tomasse conta das vacas nesse período e alojá-lo e alimentá-lo cá. Que já tinha corrido as ilhas todas a treinar e ensinar e que já tinha inclusivamente falado sobre isso com um dos presidentes do clube de cá , que disse que sim, que se ia fazer e isso foi a última coisa que lhe disse. Sabendo que é muito improvável isso acontecer perguntei se eu fosse ao Pico tinha lugar num dos botes  deles durante uns dias, claro que sim , sem problema nenhum. Ficou registado , e como ainda não estou a ponto de perder completamente o interesse pelos botes nem acredito que o nosso clube naval se chegue a organizar e ser liderado em condições, sou capaz de me meter num avião e ir ao Pico passar a Semana dos Baleeiros, eu arrumo-me em qualquer canto, sou de baixa manutenção, não chateio ninguém e gostava de ter a oportunidade de navegar com quem sabe. O que me enerva  mais nesta história é que não somos ridículos  por falta de recursos, o Estado investe dezenas de milhar na preservação e navegação dos botes, é só pedir e há dinheiro para manutenção, formação e competição. Somos assim por desorganização e falta de interesse.

Já ao fim da tarde voltei a encontrar no bar os picarotos , vinham do porto.

-Você é que é o responsável por aquele bote que ali está na água? -perguntou-me o tal veterano.

Hesitei um bocado em responder mas se bem que ninguém mo disse nesses termos nem me formalizou a responsabilidade, a verdade é que nesta altura sou mesmo eu.

-Se não o varar já fo#e-se todo, já está a criar cabelo na junta, mais um dia na água e  vai  começar a apodrecer por dentro.

Fiquei confuso e alarmado, tinha sido eu a dizer que o devíamos deixar na água em vez de varado na rampa por me ter sido dado a entender que ficar ao sol fazia a madeira secar demasiado, as juntas dilatarem e as tábuas deformarem, pelo que ficando na água mantinha-se “fresco” e nunca chegava a “estalar”. Sucede que na água vai começando a criar algas minúsculas que se infiltram nas juntas e em pouco tempo começam a apodrecer a madeira, as juntas não são calafetadas. Um bote baleeiro nunca pode ficar mais do que um dia na água.  Ajudaram-me a vará-lo , felizmente apareceram alguns moços da tripulação, um deles com um  jipe que o puxou  para cima , é  daquelas ocasiões em que me estou  nas tintas para os recursos naturais globais que acabaram ontem , para as emissões poluentes e para a maneira tradicional de fazer as coisas, dêem-me um motor  potente e vantagem mecânica , quem quiser viver em 1920 tem bom remédio. Sou  adepto dos motores de combustão interna , dos aviões a jacto, dos químicos  e do plástico. Não gosto  é que mandem o plástico ao mar  ou que larguem por todo o lado, são problemas diferentes. Assim que os motores eléctricos fizerem o que fazem os de combustão interna pelo mesmo custo, lixo com os motores poluentes. Até lá, haja gasóleo.Sobre este tema só aceito críticas de quem só  anda a pé ou de bicicleta, o resto devia deixar-se de hipocrisias.

De volta à rampa, onde o homem até encontrou um banco (peça de madeira que serve para assentar a quilha) dele que ficou cá das provas do ano passado e ele reconhecia por uma  marca.

-Olhe aqui, passe aqui o dedo.Vocês é que não sabem mas nós olhamos para isto ao longe e vimos logo!

O “cabelo” a que ele se referia eram as algas que em dois dias já tinham começado a crescer ao longo da junta.

-Tem que ir buscar um pulverizador , desses de sulfatar, encha-o de lixívia e dê-lhe no casco .Já viu isto?

E começou a apontar-me defeitos e particularidades do casco que eu nunca mais tinha descortinado sozinho, e depois no bar estive a ouvir  e perguntar mais sobre como se tratam, guardam e navegam os botes baleeiros em condições. Idealmente até a construção em que se guardam no Inverno tem particularidades, paredes de pedra, telha de barro e chão de bagacina ou de “areão” , tudo ao contrário do barracão onde ficam os nossos, cimento e cimento sobre cimento. Isto por causa das temperaturas, humidades e suas variações. Ouvi sobre os botes do Pico, tantos nas Lajes , tantos nas Ribeiras, tantos na Calheta de Nesquim (adoro este nome) , tantos na Madalena,  e como correm todos contra todos , de Maio a Outubro, e contra os do Faial onde há outros tantos, com rivalidades ferozes no mar e belas  festas em terra. Como os cais e muros ao longo do porto e da praia ficam cheios de gente de cada vez que se arreiam os botes.

Vamos amanhã meter o botes nos seus atrelados.O Formosa chegou de Santa Maria há quinze dias e está onde o deixámos quando o tirámos do contentor, não foi arriado uma única vez e uma pessoa pergunta-se “se era para isto não  valia mais ter ido directamente para o Faial…?”. Recebemos “ordem” para carregar seis remos, o que é estranho dado que ninguém remou aqui este ano nem  ninguém está inscrito nas provas de remo, calculo que seja para emprestar, bote e remos, a alguém do Faial. Há muita coisa que se trata entre amigos. Os nossos bilhetes de avião são para dia 11 mas estamos em lista de espera , os bilhetes foram marcados tarde , todos os voos pelo arquipélago estão sobrelotados porque a SATA, coitada, não tinha maneira nenhuma de prever que o turismo ia aumentar tanto e que a procura ia explodir, é normal que tenham sido apanhados desprevenidos pela chegada da Easyjet e Ryanair , há quase 3 anos, e ao que parece ainda estão desprevenidos. Também dá ideia que foram apanhados desprevenidos pelas campanhas publicitárias do governo, chamam para cá pessoas aos milhares e depois não as conseguem transportar todas , boa sorte a quem quer voar inter ilhas neste Verão. Por isso existe a possibilidade de não termos lugar no voo dia 11, a regata é às duas da tarde do dia 12.

Não é grave, os botes chegam lá e vão estar na rampa com os outros no Sábado pelo que o subsídio está garantido, e como ouvi eu pessoalmente, não custa nada arranjar uma companha no Faial para competir  nos nossos botes. A minha motivação e  entusiasmo correm um certo  risco de ir tão depressa como vieram.

S.Pedro

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Ainda não sei se estou contente ou não por ser o oficial do S.Pedro, essa beleza que se vê na foto. Acho que já disse vezes que chegue que sou eu porque mais ninguém se chegou à frente, acho que toda a gente percebe que ninguém pode entrar num bote baleeiro pela primeira vez em em Junho e classificar-se numa regata em Agosto, mas não tenho a certeza.

Já expliquei o melhor que consigo que só porque já naveguei centenas de milhar de milhas e vi mares do todos os feitios isso não quer dizer que tenha a ciência infusa e que compreenda e domine uma máquina e tripulação destas assim num instante.

Já tentei fazer saber que por mais qualidades de comando que possa ter a coisa funcionou sempre  bem com 3 marinheiros que sabiam  uma fracção do que eu sabia em barcos em que consigo  fazer tudo sozinho e que se “alistam” por viagens de 2 ou 3 meses mas  é tudo muito diferente com 6 , alguns dos quais com muito mais experiência em botes e vela ligeira do que eu e com muito mais espírito competitivo. Se dar ordens ,ser o responsável e manter uma tripulação coesa e treinada  fosse o que mais gosto de fazer na vida não tinha deixado de ser skipper profissional.

Não tenho espírito competitivo, claro que ganhar é bom mas há coisas muito mais importantes (senão pensasse assim não era do Sporting) , no caso dos botes para mim mais importante do que vencer ou mesmo correr é simplesmente preservar os botes e  navegar neles sem ter que necessariamente andar mais depressa que os outros. A minha carreira foi feita de chegar lá em segurança, com tudo inteiro e num tempo normal, o meu trabalho era esse, não era tirar o nó de velocidade extra nem bater o tempo de ninguém.As vezes em que cheguei antes de outros em competição informal  deram-me muita satisfação mas os percursos mediam-se em semanas e centenas de milhas, não era em minutos à volta de bóias.

A motivação da participação nas regatas em outras ilhas é, para a maioria das companhas aqui, precisamente a viagem a outras ilhas e a festa , eu ficava satisfeito da vida se nunca navegasse mais longe do que ao largo das Lajes, talvez um dia ao Corvo.

Temos saído algumas vezes, finalmente conseguimos sair dois dias seguidos com a  mesma companha, a  que, em princípio, vai ser a que vai estar na Horta . Da minha parte noto um progresso enorme em relação à primeira vez que peguei no leme de um bote mas, como em tudo o que se leva a sério, quanto mais se aprende mais consciência se tem do que falta aprender.Isto não é uma questão de fé. Há moços que estão bem contentes assim como está, há outros que estão um bocado frustrados com o andamento e o meu desempenho como oficial, ou porque já viram melhor ou porque acham que fariam melhor, é natural, não me incomoda nada .

Mas vamos para o Faial para apanhar uma bebedeira ou para ganhar?! perguntava um moço que se juntou agora à tripulação, é o que sabe mais e fez muita  diferença porque finalmente a genoa ( gibra) é bem manobrada, viramos em metade to tempo com ele lá. Moço muito competitivo.

O mestre é que sabe…. disse outro. Eu disse que para mim o objectivo era dar o máximo,chegar ao fim,  não fazer figuras ridículas e, caso o Formosa vá competir com uma tripulação das Flores (pouco provável ) , chegar à frente deles. Participar, aprender e voltar de lá com uma tripulação motivada para começar a trabalhar com o ano que vem em vista e para se romper com esta sina malvada em que nada tem continuidade, é tudo aleatório , improvisado, desorganizado  e mal planeado. Voltar de lá com a confiança de que podemos melhorar e para o ano já vamos pelo menos dar que fazer aos craques do Pico e do Faial e representar a ilha em condições.

Para que se tenha uma medida da nossa organização, esta tarde vamos pela primeira vez, a 12 dias da prova, deitar umas bóias de regata na baía das Lajes para em vez de ir para aqui, virar, ir para ali e virar outra vez podermos finalmente dar umas voltas a um percurso com bóias como numa regata a sério. A 12 dias da prova, e não foi o Clube Naval que teve essa ideia de treino revolucionária nem faz mais do que dar-nos a chave do sítio onde estão essas bóias.

Faltam doze dias para a regata e temos exactamente mais 2 dias para treinar,  o tempo vai refrescar na quarta e na quinta e na sexta já embarcamos os botes no navio de passageiros a caminho do Faial, só lhes voltamos a tocar na rampa quando for para arriar para a regata . Adormeço a pensar nisto e acordo a pensar nisto.

 

Regata em Santa Maria

Lá fomos na quinta feira, ainda aqui no aeroporto  houve confusões com os bilhetes da tripulação que expuseram logo os problemas desta participação da ilha no campeonato de botes baleeiros. Há uma velha máxima militar  que diz que “os amadores falam de tácticas, os profissionais falam de logística”, numa ilha como esta seria de esperar que a logística já estivesse dominada há muito tempo, dominada no sentido de ser preparada com antecedência e cuidado mas não, tirando algumas  excepções o conceito nem sequer é bem compreendido. Como tenho quase 20 anos de carreira numa actividade que dependia de mover barcos, tripulações e abastecimentos de A para B arrepia-me um bocado o nível de amadorismo, mas é mesmo assim.

Como de costume, há escalas, não se sai daqui directamente para lado nenhum a não ser para Ponta Delgada ou Horta e leva sempre que tempos. Logo na aproximação a Santa Maria vi uma das principais características da ilha e uma das mais importantes para mim: não há água.

Exagero um pouco mas a verdade é que  para mim o principal factor para determinar a “habitabilidade” de um lugar é  a água e como moro num sítio onde no meu tempo de vida e salvo catástrofes vai ser sempre um bem abundante (muitas vezes tão abundante que quase deixa de ser um bem) sítios secos não me atraem nada nem concebo viver onde houver escassez de água. Azar para grande parte da população do mundo e mesmo para muita do nosso país, mas tirando as alturas em que falta na torneira ou que se tem que pagar uma conta maior, está-se toda a gente nas tintas, tirando alguns mais esclarecidos. A esmagadora maioria da população vê abrir uma torneira e sair água potável como uma coisa natural e um dado adquirido, muita gente vai-se  dar mal no futuro próximo.

A parte “baixa” da ilha é seca , com cactos , palmeiras e campos amarelados. Chamam-lhe a “Ilha do Sol” , coisa linda para veraneantes. Vieram-nos buscar ao aeroporto e fomos deixar as bagagens na escola secundária, onde estava montado o “acampamento”, fomos os primeiros a chegar e deram-nos uma sala de aula com colchões no chão, o normal nestes eventos.Daí para o porto, saber  do nosso bote. Esta vista do porto não foi tirada no Verão, tudo o que se vê aqui verdinho agora está amarelo.

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Alguns já tinham estado na ilha mas a primeira coisa que toda a gente viu e comentou é que eles têm lá um porto lindo, bem feito, bem protegido, bem dividido, e a nós custa-nos ver isto porque gastaram milhões aqui na ilha  e ficámos com um arremedo de marina que mete dó, e parece a toda a gente que com um pouco mais de cuidado podíamos ter ficado com um porto decente. Aqui há anos falava-se numa marina para Santa Cruz das Flores, a mim parecia-me daquelas ideias que só podem ter saído da cabeça dos que pensam e mexem no dinheiro do Estado como se fosse deles e não tivesse fim.O país faliu pela mão do génio injustiçado e incompreendido que é o Sócrates, chegou o Passos para nos arruinar e levar à miséria, entre outras coisas fazendo com que fosse mais difícil encontrar dinheiro para delírios de políticos  que o torram em coisas que não percebem.Entretanto o Costa já nos salvou e voltou a pôr no bom caminho, vejo  com certa consternação que já avança a obra da marina de Santa Cruz. É assim.

Abrimos o contentor onde estava o bote e demos dois passos atrás com o fedor que vinha de lá. No porto da Lajes vivem muitos gatos, um deles foi-se meter no contentor quando carregamos o bote e quando se fechou ninguém reparou nele nem ele soube fugir, morreu ali, provavelmente de calor antes de sede e fome, morte macaca. O porto emprestou-nos um reboque , carregámos o bote e varámo-lo na rampa do porto em frente ao clube naval, fomos os primeiros a chegar.

19748520_10155472793400477_7510617614021084786_nDa Horta veio por mar a Walkiria , uma lancha baleeira que é património regional, a melhor maneira de arranjarem inimigos no Faial é criticar aquela lancha ou encontrar-lhe algum defeito, tudo o que seja abaixo de Rainha dos Mares é falta de respeito. A bordo vinham figuras grandes da vela tradicional de competição que iam liderar a comissão de regatas. No dia seguinte saímos para testar o equipamento com um dos velhos lobos do mar faialenses que já foi campeão 3 vezes e nos vinha dar umas dicas.O homem ficou impressionado com o nível de preparação do bote e o nosso, e a impressão não era boa, desejou-nos boa sorte e tenho a certeza que desembarcou aliviado. Eu tinha saído duas vezes nas Lajes como oficial mas fui amigavelmente despromovido, o que nem me espantou (o que me tinha espantado a sério era poder ter sido oficial) nem desagradou nada e depois de ver aquilo fiquei ainda mais satisfeito por a coisa não estar na minha mão.

Ao fim da tarde fez-se uma patuscada no clube com 15 quilos de lapas que tínhamos levado, aqueles pobres ali só têm umas lapas ridículas como as da Madeira, é das poucas coisas em que os açorianos reconhecem a superioridade das Flores, não há lapas como as de cá, e o presidente do nosso clube naval fez a única coisa para que tem real préstimo, cozinhou um molho espectacular e organizou o petisco. Se houvesse corrupção na vela podíamos ter sido acusados de tentar influenciar a direcção da prova com aquilo.

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Passou uma carrinha da Polícia Marítima.

-Olha o Silva!! Anda cá uóme, tás aqui agora?Come umas lapas ca gente!

O Silva parou a carrinha no meio da estrada, desceu com um sorriso enorme, cumprimentou toda a gente e ali esteve um pouco na conversa, na galhofa e nas lapas connosco, ele tinha passado uns anos nas Flores e era muito querido por todos, como se podia bem ver. Eu lembrava-me dele mas nunca o conheci bem, gostei de ver aquilo e gostava que mais gente visse porque o Silva é preto e no nosso país o racismo é uma coisa muito estranha, há pessoas que a ver um jogo de futebol gritam “ah, preto do cara$%#!” e depois se for preciso tiram a camisa para dar a um preto que esteja à frente deles e precise e vêm-lhes as lágrimas aos olhos a falar de amigos que deixaram em África. Há outros que se pudessem faziam um altar ao Éder e depois no autocarro afastam-se de um preto que esteja ao pé si e desconfiam logo. É um bocado esquizofrénico.

Ficámos no último bar aberto de Vila do Porto até às 3 da manhã, o pessoal encontrou gente que conhece gente que é prima de gente que pescou com gente que é cunhada de gente que emigrou e passam-se que tempos naquilo. Na manhã seguinte descemos para o porto, durante a noite tinham chegado os outros botes no navio de passageiros, um catamaran de alta velocidade que foi mais uma compra muito judiciosa, especialmente para os que foram envolvidos no negócio e se devem ter tratado bem, entre comissões , pareceres e outros esquemas. Como ferry para o arquipélago é uma bela merda.O apontamento cómico foi que se atrasou porque teve que ir à Graciosa buscar um burro.

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Fui ver os outros botes e ficou mais claro ainda  que no Faial e no Pico o nível é outro, desde o material das velas às pequenas afinações passando pelo pequeno pormenor  de nós nem sequer termos t-shirts  do clube para irmos todos de igual. Têm dezenas de botes , treinam o ano todo e se nos cá temos que andar a pedir e penamos para arranjar uma tripulação completa lá rejeitam candidatos às dezenas e só os melhores vão às competições.

Arriámos os botes, levantámos o mastro e ficámos a pairar à espera do reboque. As partidas nestas regatas são feitas de uma linha criada pela lancha. As lanchas rebocam 6 botes cada uma , fazem uma linha longa que dá uma volta de cortesia ao porto, posicionam-se e quando dão o sinal largam-se as amarras, içam-se as velas e começa a regata, um circuito à volta de 3 bóias, em frente à Praia Formosa. Rebentaram dois foguetes e um dos dois pescadores que fazem parte da nossa tripulação e andaram à baleia virou-.se para mim e mostrou-me o braço todo arrepiado, com um sorriso. No tempo da baleia havia vigias em cima dos montes e não havia rádios (não havia quase nada), pelo que o vigia , quando avistava baleias, mandava um foguete e todas as companhas largavam o que estavam a fazer e corriam para o porto para arriar os botes. Deu-se o sinal de largada e o outro pescador que também andou à baleia e é o nosso proa disse bem alto:

-Vamos  moços,  à vontade de Deus!

Foi a minha vez de me arrepiar um bocado. Passados poucos minutos as diferenças de andamento e facilidade de manobra vieram ao de cima e ficámos para trás.Houve 3 regatas nessa tarde, ficámos em nono de onze na primeira, em último na segunda e na terceira acabou o tempo sem conseguirmos chegar à meta.Não me ralei nada, estava encantado com aquilo tudo.

Nessa noite fomos à Maia,sítio incrivelmente bonito, ao festival de música folk, vimos a actuação de uns espanhóis chamados “El Gueto com Botas” , com uma mistura musical que eu gosto bastante. Via-se que  são todos do Podemos e diziam  coisas parvas como “esta música chama-se Las Plazas, em memória das praças que antes eram sítios do povo onde se bebia e comia e fumava e hoje não são de ninguém”. Devem ter tocado pouco em Portugal porque ainda não sabiam que o tuga não dança, podiam passar a noite toda a pedir para as pessoas se chegarem à frente e dançarem que não valia de nada. É assim desde que me lembro. A seguir houve um DJ , mas um DJ mais engraçado que o normal ( vem cá um agora, pôs no cartaz que está muito contente por vir tocar aos Açores e se o apanhar pergunto-lhe logo o que é que ele acha que toca). Este tinha misturas de músicas tradicionais e ele sim, conseguia por as pessoas a dançar (ou andar de roda, que é quase o mesmo) com músicas como a Saia da Carolina, eu quanto mais bebo mais nostálgico fico e gostei de ver aquilo. Voltámos ao acampamento na escola já passava bem das 4, no domingo só havia a última regata, e era à tarde.

O nosso oficial tinha subido muito na consideração que tenho por ele porque admitiu sem reservas que a culpa da nossa prestação fraca era dele, não sabia mais do que aquilo. Ofereci  que os problemas principais  eram não saber quando parar a orça , coisa que nos deixou a boiar muita vez, e não saber regular a escota da vela grande em função da mareação, andámos muito com o vento pelo través e à popa com a escota caçada, e fomos ficando para trás. Para a próxima falo mais cedo e previno antecipadamente que vou falar, para não surpreender ninguém. Ele teve que se ir embora e combinou com uma moça do Faial para ser nossa oficial.Eu ia caindo para trás e disse que antes queria chegar em último cinquenta vezes com uma tripulação das Flores do que ganhar uma regata com um oficial do Faial mas a verdade é que eu também não posso falar muito de origens e não tinha vontade nenhuma de pegar no leme sem ter tido oportunidade de treinar mais um bocado. Mais dois ou três meses deviam chegar.

Chegou a moça, que já foi  campeã, vi  que não só  sabia daquilo como, para meu descanso, a tripulação  tratou-a  impecavelmente, se calhar se fosse um homem não tinha sido tão respeitado. Mostrou-nos alguns problemas com o aparelho e a palamenta do bote e lá fizemos a última regata, mesmo bem comandados chegámos outra vez em último. Se não estivesse com as vacinas em dia era homem para me ter apaixonado  por ela, porque além de marinheira tinha as medidas, a educação e o sorriso certos.

Fez-se a entrega dos prémios.Esse senhor que se vê na foto tem 83 anos, anda com os nossos botes para todo o lado, é talvez o trancador mais velho do arquipélago, conhecido e estimado em todo o lado e  um monumento vivo da baleação.

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Já está bastante confundido nas suas recordações e passa a vida a insultar-nos de morte mas quando desaparecer vai deixar saudades.Já me desculpa ser continental e do Sporting e diz que eu sou uma pessoa com quem se pode falar. Chamaram ao palco os oficiais dos botes que ficaram abaixo do terceiro lugar, o nosso tinha-se ido embora e o presidente do nosso clube, em vez de mandar o moço mais novo receber a lembrança, como mandava a decência e a boa ordem das coisas, foi ele, perdendo assim o pouco que lhe restava da minha consideração.

No fim da cerimónia fui falar com o director das provas e sugeri-lhe que se mudasse o nome de campeonato Regional para Nacional, aberto à participação de botes baleeiros de todo o país. Se o resto do país não tem botes, paciência, mas os campeões são nacionais.Ele disse que fazia sentido e não ia ser esquecido.Perguntou-me se eu era das Flores eu disse que sim, nasci no continente mas sou das Flores.

Veio um reboque do porto, subimos para lá o bote e metemo-lo no contentor, certificando-nos de que desta vez não iam lá gatos, e fomos jantar. Na madrugada seguinte foram-nos buscar para estarmos no aeroporto uma hora antes do que estaríamos se fosse eu a mandar e embarcámos para S.Miguel , um voo de 15 minutos ou perto.São Miguel rebenta pelas costuras de tanto turista. O que para mim é rebentar pelas costuras será para muitos “bastante gente”.A rapaziada foi para cidade passear e fazer compras, eu já conheço aquilo tudo, já me estava a fartar de tanta gente e nesta altura compras, só mercearias mesmo. Seis horas no aeroporto, ou melhor , cinco porque um grande amigo meu que por acaso até trabalha no aeroporto veio buscar-me para irmos beber um café e por a conversa em dia. Ainda li o Açoriano Oriental e tinha marcado umas matérias para dizer aqui mal mas isto já vai longo demais para isso, fica para a próxima.

Quando aterrámos não havia ninguém à nossa espera, não era um comité de recepção que esperávamos, era  a mesma carrinha da Câmara que nos trouxe das Lajes, mas o presidente do clube tinha-se esquecido , a tal logística. Telefonou-se para o presidente  da câmara que lá foi chamar um empregado que já tinha despegado para nos vir buscar depois de quase uma hora de espera e quando já tinha vindo a Santa Cruz nesse dia. Foi com satisfação que soube há pouco que o presidente do clube se tinha demitido hoje, possivelmente porque ontem deixámos na sede um papel assinado por todos a dizer que não queríamos que ele nos acompanhasse para a regata da Semana do Mar.

Este fim de semana marcou o fim de uma era de seis anos em que não me envolvi a sério em nada que meta políticas pequenas ou grandes e que me esforcei sobretudo para não criar inimizades. Uma já está, e não foi só pela incompetência, é que não gosto que me mintam nem que mintam à minha frente sobretudo sobre  assuntos que me são caros e a partir de posições de responsabilidade. O velho mestre baleeiro (que tem muito desconto e pode-me mentir à vontade que continuamos amigos) disse-nos  “quando chegarem às Flores não dizem nada do que se passou aqui!”, ao que eu respondi que estava com azar porque se me fazem uma pergunta eu respondo e além do mais não tenho vergonha nenhuma de ter ficado tecnicamente em último, e quem me quiser dar lições de vela tem  que vir comigo para o mar.

Já hoje me disseram que ficar em quinto não era mau, eu só respondi que não era nada mau mesmo e calei-me, há pessoas que ainda vivem em 1980 e pensam que se pode fazer uma coisa noutra ilha e chegar aqui e contar uma historia diferente que ninguém vai saber. Prevê-se grande confusão até à Semana do Mar , em Agosto, o que eu sei é que vou lá estar num dos botes das Flores para a regata e vamo-nos esganar para não ficar em último. E ficar em último é melhor do que ficar em casa.

Outra Ilha

Amanhã vou com o resto da tripulação da Formosa para Santa Maria participar no Campeonato Regional de Botes Baleeiros e acho que se fosse eu o oficial (homem do leme) esta noite não dormia, mas como felizmente já não sou não estou nada preocupado, antes pelo contrário. O bote foi a semana passada no navio:

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Saímos daqui pelas duas da tarde para chegar ao fim do dia a Santa Maria, na sexta feira tiramos o bote do contentor e fazemos uns testes, as regatas são no Sábado e Domingo.

Dado que a minha política de base é “zero conflitos” e dado que não sei se alguém desta ilha lê isto ( aqui inventa-se muito, ouve-se uma braça e conta-se uma milha) não me vou alongar muito sobre as circunstâncias desta participação, sobre a organização e modo de funcionamento das regatas de botes baleeiros e sobre o modo como isso se faz cá, repito só que estou contente por fazer parte, que temos muita margem de progressão é que é possível que depois desta iniciação eu continue envolvido nisto no futuro, mesmo que a participação neste campeonato não tenha grande brilho…ou que seja mesmo completamente baça.

Santa Maria fica na outra ponta do arquipélago, e sei pouco  sobre ela: foi a primeira ilha a ser descoberta ; tem 5500 habitantes e é mais pequena que as Flores; tem um aeroporto que parece uma gare para uma pista gigantesca onde aterrava o Concorde; tem a única praia de areia branca das ilhas e tem  encostas escarpadas com uns acessos inacreditáveis onde se cultivavam  vinhas com esforço tremendo. Essas vinhas começaram a ser cultivadas logo no século XVI e a primeira vez que vi fotos delas pensei : era preciso estar mesmo num desespero por vinho para fazer aquilo. Estou agora mesmo a instruir-me um pouco na wikipedia e vejo que Sta Maria tem 36 igrejas e ermidas e 3 escolas, destas três aposto que duas são pós 25 de Abril e isto é o género de coisa  que para mim explica muito bem a condição do nosso belo país.

Vou cheio de curiosidade, sei que vamos ser recebidos e acomodados com hospitalidade e que não vai faltar convívio são (em terra) e passeios pela ilha, nestes intercâmbios entre os clubes todas as ilhas querem impressionar os visitantes das outras ilhas, e ainda por cima há um festival de música folclórica  o Maia Folk , que não é aquele folclore dos ranchos e gente desafinada e esganiçada a bater canas rachadas e massacrar acordeões, é musica popular de inspiração tradicional, como estes moços que vão lá estar, gosto disto:

Como a ausência é curta as ovelhas ficam em autogestão, amanhã de manhã ainda tenho preparações a fazer para as deixar todas com erva suficiente para estes dias, as galinhas vão ter que ser mais empreendedoras porque ninguém lhes vai dar milho, vão ter que esgravatar mais e procurar mais bicharocos e o meu vizinho vai cá passar para para alimentar cão e gato, que fazem companhia um ao outro, vou descansado.

 

O Bote da Baleia

Faz agora 30 anos que se caçou a última baleia nos Açores, nas Lajes do Pico. Foi o fim de uma história longa, heróica e muitas vezes dramática, felizmente está documentada e o património está cuidado, desde os vários museus que contam a história da faina e guardam os artefactos à memória viva dos muitos baleeiros que ainda estão entre nós, e no principal: as embarcações que são mantidas e navegam todos os anos, com a juventude do arquipélago misturada com os velhos lobos para se manter a arte e termos a certeza que os garotos de amanhã vão poder ver um bote da baleia a todo o pano e, quem sabe, navegar num.

Não há grandes dúvidas de que os melhores baleeiros eram dos Açores, não são os Açorianos quem o diz, são os estudiosos das maiores armações baleeiras de sempre, nomeadamente Ingleses de Liverpool e Americanos da Nova Inglaterra, até no livro que vem à cabeça de toda a gente quando se fala em baleias está escrito com todas as letras, os melhores e mais procurados eram os ilhéus dos Açores.  Baleeiros de Nantucket e New Bedford faziam quase 2000 milhas para Leste  até aos Açores antes de rumarem aos mares do Sul para épocas de caça que duravam anos, não só para refrescar e posicionarem-se melhor para a descida do Atlântico mas também para recrutar marinheiros, tantos quantos pudessem. Sabendo das condições de vida no arquipélago no século XIX e princípio do século passado, é normal que as fortunas ganhas com bravura em  mares distantes faziam sonhar muita juventude, que se aplicava ainda com mais empenho do que o que a necessidade já ditava. Um trancador (o que lança o arpão que apanha a baleia) açoriano que embarcasse numa escuna americana sabia que deixava a sua família orientada por meses e que dentro de poucos anos podia voltar rico, quem sabe até chegar às califórnias perdidas de abundância. 

Convido os mais curiosos a fazer uma simples busca no google tipo “baleação nos Açores” para aceder  a minas de informação detalhada, e para os mesmo interessados, uma visita às ilhas,principalmente o Pico,o Faial e as Flores, que sendo pequena mesmo assim figurou alto na história e teve a sua fábrica da baleia, hoje um museu impecável.

Desde que aqui arribei pela primeira vez que os botes da baleia me chamaram a atenção e pensava em navegar com eles e ver de perto o que seria a sensação de andar atrás de baleias em coisas daquelas. Os anos passaram, há 6 vim morar para cá, os botes na rampa do porto no verão, raramente os via sair. Fiz-me sócio do clube naval mas não pensava em participar, até porque me ausentava frequentemente no Verão. Além disso sei bem que posso viver aqui mais 30 anos que vou ser sempre continental, há uma linha. Não estou a protestar, acho perfeitamente normal e gosto muito de linhas, todos devíamos saber e poder traçar claramente as linhas e limites e ter noção  do que é preciso para os atravessar.

Há uns meses  perguntaram-me  do clube naval se este ano eu queria fazer parte de uma companha para ir às regatas na Horta e no Pico. Eu pensei:  a linha já foi afastada mais para diante! e como dei por encerradas as viagens oceânicas,disse logo que sim.Ficaram de  me dizer alguma “entretanto”.

Passaram meses e nada, e eu sou um gajo que não só gosta de um certo nível de organização como tenho uma noção boa do que é preciso para juntar, treinar e soldar uma tripulação nova num barco novo. Também conheço o nível dos marinheiros do Pico e do Faial, que têm dezenas de botes e montes de juventude e mestria que faz isto regularmente e com dedicação, estruturas e programas montados e anos de experiência. Aqui é tudo aleatório e incipiente, e eu sei bem que não  podemos pensar em ir ganhar a regata da Semana do Mar mas temos a obrigação de ir lá e não ser uma vergonha.Há uma grande diferença entre chegar em último e ser uma vergonha.

Como nunca mais me disseram nada tirei daí o sentido e felicitei-me por não ter logo começado a escrever um grande post sobre os botes da baleia. Eis que na semana passada outro conhecido meu diz-me que o clube naval lhe tinha confiado a responsabilidade de um dos botes para levar às regatas do Pico e do Faial, e se eu queria ir. Claro que sim, com os  pressupostos:  começávamos já a treinar; eu estou feliz tanto de oficial ao leme como a fazer lastro na borda; há que ver que nunca andei num bote e eles diferem imenso dos barcos a que eu estou habituado e, finalmente,  o objectivo não é ir de festa para as lendárias adegas do Pico e depois no dia arriar o bote, dar meia dúzia de voltas e abandonar, à maneira de um conhecido navegador solitário português, e regressar à doca confiante de que temos desconto porque somos lá das Flores, é esperado vir fazer número e marcar presença. O objectivo tem que ser  ir aprender o máximo com os que sabem mais que nós, acabar o percurso e que quem estiver a ver não diga “aqueles toleirões das Flores” e sim “não se amanharam nada mal, mesmo assim”.

Já saímos quatro vezes, dou-me bem com a companha toda, é um mundo novo para mim e temos muito trabalho pela frente,  muito que aprender uns com os outros e  estou radiante não só porque já naveguei como oficial num bote da baleia como isto me faz sentir aceite e parte desta terra. Não são as minhas perícias de vela que vão levar isto a um nível novo mas sei que tenho um contributo positivo a dar e de qualquer maneira é uma aventura. Uma aventura marítima na senda  de homens admiráveis em embarcações históricas, e ao fim do dia  subo o monte e vou para casa. Também sonhei isto quando era pequeno.

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PS: O cordeiro enjeitado vive,ainda não está safo mas aguenta-se.