Meninos e meninas

Vai uma grande comoção no meios pensantes e discursantes por causa dos estereótipos de género. Uma vez que já  resolvemos   o problema do déficit, da dívida externa , da competitividade da economia, da sustentabilidade da segurança social e agora que o país tem resposta segura contra  calamidades naturais e outras ameaças, é normal que nos passemos a preocupar com coisas sérias e cruciais, de verdadeiro interesse nacional, como por exemplo porque raio é que o azul é para meninos e o rosa para meninas.

Sim, apesar de pessoas de raciocínio mais limitado quererem fazer passar a ideia de que há problemas e ameaças mais reais e graves à sociedade  (a dívida, os incêndios descontrolados, o racismo, a corrupção) do que os estereótipos de género, há muitas pessoas das  vanguardas intelectuais  para as quais esses são agora a questão primordial. Se não ouviram falar disto nos últimos dias, óptimo para vocês, passem à frente e ignorem este post.

Um filho de uma grande amiga minha , miúdo que me mete medo porque vejo-o claramente como deputado do PC ou do Bloco aos 22 a regular-nos a vida sem nunca ter tido um emprego, que foi criado como todos os outros, vestido de azul em bebé e a brincar com bolas e carrinhos, acha e grita  que a Porto Editora , por ter partes de livros diferentes para meninos e meninas, é de um grande atraso moral e mental e não devia ser permitida em 2017. Este jovem aspirante a fiscal da moral rejubilaria se o comissariado encerrasse a empresa como castigo, e as consequências económicas que se lixassem , primeiro porque esta juventude militante tem pouquíssima noção de como funciona uma economia e depois porque o que interessa é o plano moral superior em que  alegadamente se encontram. Os conservadores são todos estúpidos e atrasados.

Como ele há cada vez mais, até que os socialistas rebentem outra vez com as finanças públicas e as pessoas voltem a ter preocupações mais mundanas e reais. Um dos catalizadores destes debates é o site feminista “Capazes”, onde se luta pela igualdade do que não é igual.

As mulheres sofrem muita injustiça, desde sempre mas  menos agora, menos no Ocidente, desde que o capitalismo permitiu um nível de prosperidade e liberdade individual que o socialismo sempre negou, mas ainda assim há muita injustiça e tratamento desigual. Isso é mau e deve ser combatido.

Daí a reclamar-se igualdade vai uma distância bastante grande porque da ultima vez que pude observar de perto uma mulher pude confirmar que as desigualdades são biológicas , físicas e mentais, por estranho e ofensivo que pareça uma mulher é diferente de um homem, tem partes diferentes e pensa de maneira diferente. Pode igualmente parecer estranho a muita gente mas é assim por todo o reino animal, a fêmeas diferem sempre dos machos e é isso que faz evoluir e progredir as espécies, a diferença entre machos e fêmeas. Na minha humilde opinião este devia ser o ponto de partida no debate, mas é muito possível que esteja errado e que o ponto de partida deva ser a noção  de igualdade.

Acredito  e defendo que uma mulher deve receber o mesmo salário pelo mesmo trabalho. Acredito que uma mulher deve ter  os mesmos direitos que um homem. Acredito que uma mulher deve ser livre de determinar sozinha o seu modo de vida e de não ser sujeita a opressões e agressões, mas isso é por defender  o direito fundamental à vida, liberdade e procura da felicidade para todos. Não sou contra o assédio sexual das mulheres, sou contra o assédio sexual.Não sou contra a violência sobre as mulheres, sou contra a violência.É assim tão complicado?

Se lutássemos por isso, se as feministas lutassem por isso, reconhecendo as diferenças fundamentais entre os géneros, a luta seria menos amarga e chegar-se-ia lá mais depressa. Mas não , há demasiados mestrados em ciências de género e gente que é paga para encontrar e aumentar problemas, para amplificar problemáticas , e com isso se distraem as pessoas do fundamental , que é garantir a liberdade , segurança e  direitos iguais para todos.

Ninguém me convence que deixar de vestir as meninas de rosa e os meninos de azul contribui para uma sociedade melhor, até porque pelo menos no que diz respeito à sexualidade não vai ser a cor do babygrow que vai determinar nada , como deviam estar fartas de saber as feministas&outros activistas. Se a menina tiver aptidão e gosto por números podem-lhe encher o quarto de barbies que ela vai querer é fazer contas, e se o menino tiver talento para  cozinheiro  podem dar-lhe centenas de carrinhos que ele vai pensar é em refogados. Podem contrariar isto dizendo que os talentos, tendências e aptidões não são inatos, eu acho que são mas mais uma vez , posso estar errado, gostava que me corrigissem, se for o caso.

O problema não está em haver livros , cores e brinquedos para meninos e meninas , está em haver pais que não prestam suficiente atenção aos seus filhos para perceberem o que eles são e para onde querem ir, e se os pais não tiverem essa sensibilidade podem vesti-los de castanho claro ou magenta e dar-lhes igual proporção de carrinhos e bonecas que não vai fazer diferença nenhuma. O problema está mais em haver pais que se projectam nos seus filhos e os condicionam, para aqui ou para ali, do que em haver diferenças em como vestem as crianças ou nos  livros que lhes lêem  filmes que os põem a ver.

Quanto à questão das quotas obrigatórias, eu acho que fazem falta mais mulheres em posições de chefia, mas o argumento para conseguir isso não pode ser o da igualdade, porque ou bem que há ou bem que não há e não vejo as Capazes a reclamar quotas para mulheres nos serviços de recolha do lixo nem nas minas ou na construção civil, nem me lembro de ouvir pessoas a reclamar que há poucos enfermeiros ou educadores de infância. O modo de ter mais mulheres no topo não é forçar o topo, é criar condições para que todas as mulheres possam subir até onde conseguirem.

A questão de fundo e  a luta para mim deve ser pela  igualdade de direitos e oportunidades e  pelo respeito pela liberdade individual de todos. Se são contra o azul para os meninos e o rosa para as meninas, têm bom remédio : usem outras cores nos vossos filhos, chamem-nos por números ou outros vocativos até eles escolherem o próprio nome e sexo, não lhes comprem livros que distingam entre sexos e contem-lhes apenas histórias politicamente correctas e formatadas à modernidade  mas deixem de querer impor determinada visão do mundo a todos, deixem de querer ser os polícias dos costumes.

Da minha parte se tivesse filhos vestia-os sempre todos de preto , só por causa das coisas.

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O Auge

Este ano em Outubro celebro 20 anos da partida para a minha primeira viagem marítima, 4 meses depois de ter velejado pela primeira vez.

Desde aí juntei 235000 milhas náuticas em todos os oceanos à excepção do Árctico e Antárctico, ao comando de 100 (número redondo, certo e documentado) barcos diferentes, alguns deles de valor na casa dos milhões .

Não tenho intenções nenhumas de voltar aos iates, não tenho saudades da vela oceânica e no Sábado passado na Horta, mesmo tendo ficado quase em último na regata, atingi o auge da minha carreira na vela, campo em que não ambiciono mais nada senão fazer isto o resto do tempo, enquanto puder.

Tenho centenas de fotos em todos esses barcos, mares, portos e ilhas mas esta é sem dúvida a minha fotografia preferida de sempre.

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Expressões populares

Sempre gostei de provérbios, ditados, adágios e outras expressões que no fundo são o mesmo : concentração de sabedoria numa frase ou a expressão de uma verdade, explicação  ou observação. Há muitos que são comuns a vários países, há outros que são contraditórios ( quem espera desespera/quem espera sempre alcança) e há outros que não pretendem explicar nada , apenas ilustrar uma realidade. Há uns que querem dizer o mesmo mas variam de região, por exemplo no continente diz-se “um olho no burro outro no cigano” aqui diz-se “um olho na faca outro na lapa” para exprimir a mesma ideia.

Há dois que me andam na cabeça há uns meses, o primeiro é um bocado bruto e cínico e usei-o há pouco tempo quando uns amigos , certamente preocupados ou pelo menos interessados no meu bem estar emocional  me sugeriram e encorajaram a , digamos, conhecer melhor uma certa pessoa que para aí andava e que pelos vistos toda a gente acha espectacular menos eu. Uma das  vantagens de estar a ficar velho , ter visto muito e estar satisfeito e em paz com a vida é que não sinto aquela pressão de ver o tempo a passar e pensar que me escapou alguma coisa , que a vida está incompleta e que é tempo de me acomodar , aceitar , esquecer os padrões , encolher os ombros e dizer “é melhor do que nada” . Não, nada disso , e o provérbio que usei para explicar isso mesmo está no topo da minha lista de favoritos : quem comeu a carne que roa os ossos.

O segundo é ainda mais simples e curto, já andava há que tempos na minha cabeça mas anteontem fui a um funeral e passei o dia todo a pensar nele. Foi a primeira vez que fui a um funeral aqui, já tinham  morrido algumas pessoas mas não as conhecia pelo que  não me sentia na obrigação de lá ir. O senhor que morreu na semana passada era meu amigo, era simpático e alegre para todos, bem disposto, trabalhador , sempre pronto a ajudar, com dois filhos criados, homens às direitas com a vida feita e suas famílias. Morreu no mar, estava sozinho à pesca no calhau como gostava de fazer e ainda não se sabe , ou eu não sei, porquê, apareceu morto a boiar.

O ditado em causa é muito regional, já o ouvi da boca de pessoas de educação superior e de  pessoas analfabetas, em várias ilhas e com algumas variações, é uma expressão que se utiliza em várias circunstancias diferentes e  à primeira vista , ou mesmo à segunda , pode parecer banal , óbvia e básica , uma evidência que não sugere nem provoca nada mas a mim faz-me pensar muito e é filosofia pura.

A gente morre e fica tudo aí.

Adeus América

Antes do Trump ser eleito presidente já tinha decidido que nunca mais voltava à América, não por ter medo ou me sentir menos bem vindo, ainda tenho mais 8 anos de visto válido se ele não se lembrar de os revogar todos, era mesmo por  já não estar lá muito à vontade e estar cada vez mais desiludido com o país. Por isso e também   porque tenho tudo o que preciso aqui, a minha terra basta-me, as minhas ambições são a esta medida.

Depois do que se passou no fim de semana passado ficou ainda mais claro, no caso de ainda haver quem não percebesse, o caminho que a América  está a tomar. Para quem não sabe, versão curta:

-Decidiu-se retirar uma estátua de um general confederado em Charlotsville, VA

-Os confederados, na guerra civil americana, lutaram pela manutenção da escravatura.Perderam a guerra e contra a sua vontade os escravos foram libertados.Durante mais 100 anos depois disso os pretos foram discriminados e maltratados nas terras da Confederação. Há quem continue a celebrar a Confederação.

– A maior parte dos americanos acha que a História começou em 1776 e muitos acreditaram que retirar uma estátua era apagar a História, como se por não haver estátuas do Hitler ou do Estaline nós não soubéssemos quem eles foram. Ignoram , ou fingem ignorar , que um monumento é uma celebração e que há coisas que não devem ser celebradas.

-A extrema direita convocou uma manifestação contra a retirada da estátua, chegando lá às centenas com bandeiras confederadas , bandeiras nazis, archotes, armas de fogo e a cantar slogans de gelar o sangue como “os Judeus não nos substituirão”. Além da brutalidade destes grunhos sobressai a sua ignorância épica, se alguém está para substituir os wasps certamente que não são os judeus, mas eles são bestas impermeáveis à realidade.

-Houve uma contra manifestação , confrontos,  mortos e feridos.

-O presidente, depois de muita insistência, condenou aquilo mas disse que “houve violência de ambas  as partes” e “havia muita gente boa dos dois lados”, entre outras declarações que terminaram com “tenho uma das maiores vinhas dos EUA, sabiam?”. Este homem    defendeu que se pode marchar ao lado de nazis e ser boa pessoa. Não pode. Uma boa pessoa pode gostar de História, levar a sério monumentos e ser contra a sua remoção, mas no momento em que entram em cena os nazis, uma boa pessoa no mínimo vai-se embora.

Não nos equivoquemos, eles levavam as bandeiras, as fardas, os slogans, não estavam ali para serem discretos ou ambíguos, e quando há nazis e pessoas a lutar contra eles não há dois lados equivalentes. Não há. Os outros podem ser comunistas , anarquistas , hippies seja o que for, mas não estavam lá para promover o socialismo, estavam lá para lutar contra os nazis, que é o que toda a pessoa decente deve fazer.

O Trump mostrou  a sua verdadeira face a quem ainda não sabia e  a quem é estúpido e leva seis meses a perceber uma evidência. Não foi capaz de condenar inequivocamente a extrema direita, mesmo em face de mortos , racismo aberto e violência nas ruas. É este o presidente dos EUA, que agora nomeou para director de comunicações da Casa Branca uma relações públicas ex modelo de 28 anos com um curso de uma universidade religiosa  . Como referências profissionais, a senhora trabalhou a promover a fashion da filhinha do presidente e os seus resorts turísticos, pelo que a aptidão para as mais altas esferas da política é evidente.  A linha do tweeter do homem é um festival de declarações confusas, provocações, meios raciocínios, mentiras claras, ataques mesquinhos, ameaças e basófias, é o preciso inverso do que se esperaria de um estadista.

Tudo isto mete nojo e o homem , que recebe diariamente um dossier de notícias positivas sobre si para o “manter calmo” e não se consegue concentrar num documento de mais de uma página, está claramente numa realidade alternativa, acredita-se formidável quando a parte do mundo que não tem medo dele goza com ele.

Há uma América longe dos noticiários e jornais, uma América pacífica, tolerante, honesta e inteligente, mas com este homem ao leme cada dia essa América está mais sob ataque. Há mais protestos marcados contra retiradas de estátuas, e a aposta certa é que vai haver mais sangue. É de lembrar que o ano passado quando os índios do Dakota protestavam desarmados contra a contaminação da sua água o Estado respondeu com tropas e carros de assalto.Os nazis levam armas , bandeiras do III Reich e fazem a saudação nazi e o Estado manda um cordãozinho policial.

Há nesta falência  moral explícita do Trump uma vantagem: quem o apoia já não tem mais nenhuma desculpa, ele já assumiu as suas convicções mesmo que não percebesse o alcance e significado do que estava a dizer, como acontece frequentemente. Para ele os nazis são tão maus como os anti nazis. Quem o apoia pensa o mesmo, era bom que tivesse a coragem de o dizer  sem vergonha nem ambiguidade , para sabermos com que linhas nos cosemos.

Da minha parte não há mais desculpas, qualquer pessoa que apoie o Donald Trump é ou simpatizante da extrema direita ou um idiota.

 

PS: antes que me venham com os comunistas, espécie que também está na minha lista negra : assim que houver uma marcha de comunistas, lá ou cá,  a gritar insultos raciais e a incitar e defender a violência , trazemos os comunistas ao barulho. Até lá, há que não misturar as coisas e combater um totalitarismo de cada vez.

 

Regata

Saímos com o S.Pedro na Sexta  para treinar, correu bem lá fora da baía mas o vento estava fresco e de Sul , não consegui voltar a entrar no porto à bolina , perdi a calma e desisti de tentar, entrámos a reboque, humilhação. Da parte da tarde saí no Formosa para completar a tripulação. O  Formosa é o segundo bote das Flores e levou ao leme e na genoa gente do Faial com mais de vinte anos de botes. Voltei para terra a pensar que ia mesmo ficar em último e a esperar que os moços não me levassem a mal.

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No dia seguinte tinha os nervos em franja.De manhã chegaram os  botes do Pico a reboque de duas lanchas e a rampa era uma coisa linda, 23 botes a prepararem-se para arriar.Nos Açores há 43 botes em maior ou menor condição de navegação. Nas ilhas pequenas há cada vez mais dificuldade em mantê-los e tripulá-los e  S.Miguel nunca contou muito para isto.

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Um bote baleeiro mede 11 metros, pesa 700 quilos, tem uma tripulação  de 7 homens (ou mulheres) e uma velocidade de casco de cerca de 8 nós mas já se marcaram a 16. Todos os botes são aparelhados como antigamente e há muito poucos ou nenhuns materiais modernos. Um turista veio dizer-me “barcos tão lindos e fizeram tanto mal…” , eu disse-lhe  barcos tão lindos que deram de comer a muitas famílias e salvaram as ilhas de uma miséria ainda maior. Gente que  avalia 1950 pelos padrões de 2017 pode ir bardamerda.

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Arriámos o bote , remámos para fora do porto interior , içámos a vela grande para ver se estava tudo em ordem , saímos disparados pelo meio da frota à popa arrasada, a retranca tem quase dez metros e ultrapassámos   outros barcos com distâncias de centímetros , não sei como é que fiz isso e quando voltámos a baixar a vela para tomarmos o nosso lugar na linha de reboque da largada ia a tremer.

Este é um vídeo da largada , especial atenção para o minuto 3.30 , quem ficar indiferente a uma coisa destas não pode ser bom.

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A regata é um percurso à volta de três boias , uma de bolina , uma de largo e outra de bolina à entrada no porto, e depois meia milha de bolina , mais ou menos, para  a meta mesmo em frente à cidade. Partimos em 15º da linha.

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Há festivais de velas clássicas em sítios de alto snobismo tipo St.Tropez , já lá vi muita coisa bonita e digo sem problema nenhum que um bote baleeiro bem pintadinho passa por eles e vira cabeças e causa admiração de quem sabe, não andam aí muitas embarcações  mais elegantes e rápidas que estas.

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Aqui já estávamos a rondar a última bóia, nesta altura devíamos ir em décimo segundo mas quase todos esses atrás de nós acabaram por nos passar. Bordos grandes com brisa constante e todo o espaço são uma coisa , bordos pequenos com brisas variáveis dentro de um porto com outros barcos à nossa volta são outra muito diferente, é aí que vem ao de cima a experiência,e  falhei muito. Nessa foto já se podem ver barcos atrás muito mais orçados que nós:IMG_20170812_161105

Mesmo assim demos os bordos precisos para cortar a meta, apitou a nossa buzina e tocámos na bóia , um segundo mais tarde e éramos desclassificados. Doze segundos atrás de nós cortou a meta o Formosa , e isso para mim foi vencer . Terminámos em 16º de 23, os moços ficaram contentes, eu fiquei radiante, para primeira prova foi bem bom, para não falar da beleza enorme do cenário e do dia.

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Com o bote varado fomos celebrar , e mais tarde na noite encontrei-me sozinho sentado a um balcão e achei graça porque que me sentia exactamente como me costumava sentir de cada vez que atravessava o Atlântico, uma satisfação  que me percorria o corpo todo e me deixava um sorriso fixo. Acabei  por reencontrar a tripulação na festa, não há como ter vinte anos, aqueles moços conseguiram todos os dias voltar ao alojamento de manhã clara e cheios de cerveja até aos olhos. Ah, a juventude.

No dia seguinte subimos os botes para os atrelados e arrumámos a palamenta aqui:

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É a casa dos botes do Clube Naval da Horta, um armazém de pausar  a respiração a quem gosta destas coisas e que ainda nos vincou mais a diferença abismal que vai deles para nós. Não interessa muito. Fizemos boa figura, aprendemos, ganhámos confiança e já nunca mais vou para uma prova a pensar em terminá-la , vou a pensar em classificar-me bem. Tenho o privilégio incrível de ser oficial de um bote baleeiro três  meses depois de ter subido pela primeira vez a um , há muitas pessoas que sonham com isto e passam anos e anos até  lá chegarem , quando chegam .

Agora estamos para aqui à espera que regressem os botes, vai levar uns quinze dias. Antes de os guardarmos para o Inverno e começarmos a lixar e pintar queríamos ainda navegar mais um bocado, não falta vontade nem ideias de coisas giras que podemos fazer aqui, incluindo levar turistas a navegar por uma quantia, juntar dinheiro para termos material melhor e podermos ir mais vezes ao Triângulo para o ano, para provas no Faial e no Pico. Fala-se nas “altas esferas” da possibilidade de mantermos um bote no Faial para não termos que o andar a carregar para a frente e para trás, isto claro que está dependente de haver uma tripulação de prontidão para ir para lá competir em condições, coisa que nunca houve antes. Agora há.

Semana do Mar & Turismo

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A Semana do Mar já começou , há nestes dias na Horta mais actividades do que é possível uma pessoa ver ou participar, incluindo dezenas de concertos de musica ao vivo e outros eventos, do lado do mar há dezenas de provas numa variedade enorme de modalidades. Só me interessam duas coisas, a regata de botes baleeiros  no Sábado, na qual vou levar o bote  S.Pedro, e os barcos para o Pico para onde espero ir assim que puder.  Quanto à preparação para a regata, está tudo dito aí mais atrás. Se não ficar em último já não fico triste e  se ficar em último não é  vergonha nenhuma. Chama-se Regata da Casa do Pessoal da RTP pelo que suponho que  parte dela vá ser transmitida pela RTP Açores, quem tem curiosidade pode tentar ver, começa às duas da tarde de Sábado, 15:00 no continente.

Não conheço a ilha do Faial toda mas quase, e estou fartinho da Horta, em condições normais não é uma cidade que me encante, se lhe juntarmos a multidão que para lá vai andar nestes dias, pior. Por isso assim que estiver feito o trabalho relativo aos botes e a menos que aconteça algum imprevisto (há que guardar sempre espaço para imprevistos) , passo o canal para o Pico, onde nunca estive e que estou há tempo demais para conhecer. Tenho lá um amigo novo e outro mais antigo  e tenho sítios e coisas que quero ver.

Vamos uma semana para competir uma tarde, vamos ter muito tempo livre por causa dos turistas. Tinha escrito uma página inteira a dizer mal dos turistas ressalvando que esta ilha precisa muito deles para não acabarmos todos funcionários públicos, eu em particular preciso deles para lhes vender cerveja artesanal, por isso são uma coisa a tolerar e acolher nem que seja de sorriso amarelo, mas mais uma vez encravam-nos a vida e estorvam-nos.  Parte das tripulações foi na segunda de madrugada com os botes no navio de passageiros, o resto era para ir na Sexta mas estava tudo em lista de espera e nada nos garantia estar na Horta no Sábado, pelo que mudei os bilhetes para amanhã, quando nos podiam confirmar a viagem. Pouco a pouco começo a tomar iniciativas e responsabilidades, mais do que gostaria mas há coisas em que ou sou eu ou não é ninguém . Para o regresso estamos à mesma em lista de espera, possivelmente até quarta feira, e uma semana fora não é fácil, especialmente para quem não quer , não precisava nem planeava gastar dinheiro com umas férias. Enquanto durarem as provas náuticas somos acolhidos e alimentados pelo Clube Naval da Horta mas a festa acaba no Domingo e não é legítimo esperar que nos sustentem até Quarta, alguma despesa vai sempre acontecer.

Os voos estão repletos, o pessoal da SATA aqui é cinco estrelas mas andam a  aturar muito problema e reclamação, não pára a enchente de turistas e há viagens canceladas e atrasadas constantemente, no Sábado passado foram os Xutos que vinham cá tocar mas tiveram que voltar para trás, o pessoal não gosta dessas coisas.  Parece que pariu aqui a galega e esta história dos voos todos cheios é um bocado má, agora no nosso caso concreto é uma  viagem “desportiva” mas aqui na ilha já há muitas pessoas com dificuldades em comparecer a consultas médicas e exames , e isso é muito mais sério. Caso não saibam , daqui ao médico especialista vai-se de avião, tal como para análises e exames, e no meu entender seriam os turistas a ficar em lista de espera sempre que houvesse um residente  a querer ou precisar de viajar.

É um tema muito falado na imprensa e um debate actual, muita gente pensa que o turismo está descontrolado e em níveis exagerados, principalmente as pessoas que não beneficiam directamente do turismo  e os que se pelam por taxar e controlar tudo o que mexa. Eu cresci numa casa de Turismo de Habitação, das primeiras do país, e o dia em que os meus pais a decidiram vender foi dos mais felizes da minha vida, quase que me traumatizaram uns 20 anos de estranhos e entrarem-me pela casa dentro. Dada a loucura da procura aqui um amigo propôs-me no outro dia ir ficar com ele e alugar a minha casa , parece que a  minha reacção foi como se me tivesse proposto comprar-me o cão . Tolero os turistas mas há limites e a minha propriedade está para lá desses limites.

Mesmo que não contasse lucrar com o turismo  vendendo  a cerveja artesanal, nunca seria completamente contra porque compreendo o valor que trazem à economia toda . Além do mais todos nos devíamos sentir elogiados e orgulhosos por tantos estrangeiros quererem vir visitar e apreciar a nossa terra. Vejo que o Bloco e o PC estão muito preocupados, mas eles ficam sempre preocupados por ver pessoas a ganhar dinheiro com as suas propriedades e o seu engenho sem terem que se sindicalizar ou dar metade ao Estado e inventam logo oito problemas laterais para animar a rapaziada, passando se for preciso por cima de  contradições engraçadas como : cinco mil somalis desempregados para sustentar, bom , cinco mil ingleses para gastar dinheiro, mau. Entretêm-se com questões de lana caprina como a distinção entre turismo e turistificação mas no fundo  o que os apoquenta é haver gente a ganhar dinheiro sem sofrer carga fiscal e regulamentação adequada.Como de costume, têm  uma imagem ideal do turismo como o aceitam, o que ande fora disso tem que ser combatido e vão lutar para adaptar a realidade à sua ideia e não o contrário.

Por aqui só vejo benefícios (não obstante a impreparação da SATA) e estou preparado para perder algum do meu  sossego  e tranquilidade , que para muitas pessoas é pasmaceira desértica. Duvido de que apareçam  construções tipo Algarve, as estradas são as que há, o aeroporto não pode crescer e há aí muito mato e muitos trilhos para o pessoal andar com espaço bastante.Os turistas que para aqui vêem não largam lixo nem andam bêbados em público, não há barulho e em geral têm uma atitude muito respeitosa, de apreciação e paciência . Espero ver mais empregos, mais trabalho, mais actividades, mais ofertas, mais serviços. Idealmente apareceria uma “mini easyjet” privada com meia dúzia de avionetas para fazer voos inter ilhas, concorrer com a SATA e dar mais uso aos aeroportos do arquipélago.

Não duvido de que vai haver muito em breve quem se queixe também aqui dos turistas, mas o Verão está a acabar, daqui a dois meses já quase ninguém vem para aqui e o turismo volta a ser um problema exclusivo dos lisboetas e dos jornalistas.

 

PS: Já tinha escrito e publicado isto quando vi no twitter um cartaz do PNR contra o turismo. É muito raro lembrar-me de que o PNR existe por isso nunca falo nele. É normal que a extrema direita partilhe preocupações e proponha soluções semelhantes à extrema esquerda, neste caso partilham a xenofobia, que para o PNR é mais natural, nos outros vem mais disfarçada. Espero que o PNR não desapareça porque mesmo os malucos devem podem ter voz e liberdade de expressão.