Entretanto na Polónia…

…60 mil fascistas de vários graus, desde o skinhead mais cepo à avozinha mais beata e  nostálgica saíram à rua para celebrar a independência do país e gritar por uma Europa branca e por “mais Deus”. Quanto à segunda, parece-me um pedido ou exigência estranha mas é assim desde sempre: Deus, apesar de omnipotente, omnisciente e omnipresente, precisa sempre de quem fale por ele, de quem o defenda, de quem proteste por ele, castigue os seus inimigos  e reclame a sua presença, porque ele sozinho pelos vistos não consegue. É uma omnipotência um pouco estranha, um poder que apesar de ser universal e absoluto tem umas certas dificuldades em impôr-se e em comunicar directamente, tem que ser sempre por mensageiros e sinais.

Quanto à Europa mais branca e presumivelmente mais católica, podia dizer “boa sorte com isso, contrariar  tendências demográficas com manifestações não revela grande  inteligência” mas é verdade que manifestações pressionam governos que depois inventam políticas para contrariar a realidade, que normalmente acabam por falhar, criando mais insatisfação e alimentando  um círculo vicioso.

Acredito que também na política e na sociedade se observa a III Lei de Newton : Para  toda a acção há sempre uma reacção oposta e de igual intensidade. Os tempos em que se manifestam estas reacções podem não ser os mesmos da Física, mas mesmo que seja anos depois , as reacções inevitavelmente aparecem. Se vemos milhares a marchar pelas ruas de bandeiras vermelhas é de esperar que as bandeiras pretas não venham  muito atrás.

Em Portugal isto não é aparente  porque levámos uma injecção de 48 anos que tornou o lado preto da moeda inaceitável e porque nunca vimos o lado vermelho a sério. Os Polacos tiveram o infortúnio de passar a maior parte do pós guerra debaixo das bandeiras vermelhas, por isso hoje por lá é tão aceitável ser de um dos vários partidos de extrema direita como cá é aceitável ser do PCP ou do BE.  Apesar disso acho que, depois do advento das redes sociais e dos jornais com a possiblidade de os leitores deixarem o seu comentário anónimo, ninguém duvida que temos por cá umas boas centenas de milhar de cripto fascistas e muitos mais simpatizantes da causa, ou causas.

De todos os países da  UE a Polónia é o que mais sofreu às mãos do nazismo e do comunismo e por isso , num mundo mais racional, seria de de esperar que fosse o mais predisposto a encontrar o caminho do meio e a renegar extremismos, mas um mundo racional é quase utópico por isso aí temos os Polacos a eleger um governo que tende mais para a direita do que seria confortável e uma população que apesar de ser dos países com menos imigrantes e gente de outras cores e credos é das que menos gosta deles.

Eu não sou um gajo muito tolerante, tenho os meus preconceitos, há coisas de que não gosto e preferia que não existissem, por exemplo o Islão ou os hipsters , mas sou antes de mais  um gajo prático e a seguir  respeitador dos direitos dos outros , incluindo o direito a serem enganados, a acreditarem em fábulas, a vestirem-se como lhes apetecer e, resumidamente, a fazerem  o quiserem das suas vidas. Desde que me seja permitido ter o meu espaço inviolável, viver de acordo com a minha consciência, e desde que não se ande por aí a maltratar pessoas por quererem fazer o mesmo, ou por características que estão fora do seu controlo tipo a etnia ou o sexo, por mim já não está mau.  O mundo é muito grande e complexo e para isto ir funcionando é preciso esse caldear, equilibrar e sintetizar de todas as forças e ideias. Parece-me  cada vez mais difícil.

Por isso incomoda-me ver estas coisas, ver os extremistas a ganhar força e voz a cada dia, a  ignorarem ou negarem a História, ver ambos os lados a alimentarem-se do progresso dos adversários e do medo que provoca,  ver as vozes da moderação a perder força na torrente de mentiras, propaganda  e demagogia que escorre pela TV e internet como o proverbial esgoto a céu aberto e se alastra a todos os sectores da sociedade. O Guardian , jornal britânico que eu considero pouco, passou um mês a rufar o tambor para o nacionalismo Catalão para hoje vir lamentar o nacionalismo Polaco. São incoerências dessas que me fazem acreditar que os melhores tempos da Europa começaram no fim da segunda guerra e estão a chegar ao fim, só   espero mais divisão, polarização, atrito e conflito.

 

PS: Também estou a perder a esperança de ver o Sporting campeão este ano.

PS II -Quanto à indignação do dia, a história do Panteão, o que fica é que o nosso primeiro ministro nunca tem culpa nem é responsável por nada que não seja positivo e que Portugal é governado ao ritmo das redes sociais, sondagens  e focus groups. 

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Cometi outra vez o erro de entrar numa discussão no facebook sobre civilizações perdidas, tecnologias alienígenas , mistérios e ocultações governamentais.  A dada altura recomendei este artigo, em que oferecem 7 razões pelas quais as pessoas acreditam em teorias da conspiração. Responderam-me, sem ironia,  com este , que explica que o termo “teoria da conspiração” foi inventado pela CIA.  Ainda me estou a rir , isto não tem preço.

Assédio

Por estes dias ficámos a saber que Hollywood é um antro de maníacos egocêntricos onde impera a vaidade e a sexualidade  como moeda de troca e  meio de pressão e negociação, com rédea solta e desrespeitando normas , regras e decência. Que está repleto de actores, produtores, agentes e outros que se acham tão espectaculares que são irresistíveis e não são abrangidos pelas leis que regem os comuns mortais e que como tal podem fazer o que lhes apetece quando lhes aparece à frente uma mulher que lhes agrada. A novidade é só uma : as vítimas começaram a queixar-se em público.

É preciso ser um bocadinho  básico para não perceber  logo à partida que uma indústria que gira em torno de fantasias, ilusões, sonhos, sexo e publicidade não esteja  contaminada por comportamentos abusivos . Também é preciso uns óculos cor de rosa ou muita ingenuidade para não saber  que legiões de jovens actrizes e actores chegaram ao sucesso e à fama não por serem melhores do que quem  estava ao lado mas por terem dormido com a pessoa certa. Quando a coisa resulta nunca mais se ouve falar no caso, se não resulta , ou se a boa vontade do tubarão já não é necessária, denuncia-se.

Hollywood podia amanhã ser engolida pela falha de San Andreas num tremor de terra que a minha vida não mexia um millímetro nem perdia nada, é a importância que eu dou ao que se  faz lá e a quem lá anda.  Apesar disso , e apesar de me falhar um bocado a solidariedade para com as starlets e vítimas que decidiram entrar na selva mesmo sabendo dos tigres e tarântulas, observo isto com uma certa atenção e interesse porque deste debate, acusações, defesas e condenações estão a sair novas regras que todos devemos perceber e seguir, no nosso próprio interesse.   Observo com satisfação as vítimas de abusos a perder o medo e a falar e denunciar, coisa impossível há dez anos, por falta de meios técnicos. Observo as “estrelas” que se achavam  fenomenais a ver o mundo a chamar-lhes porcos e a negar-lhes a carreira e a posteridade, e acho piada a isso.

Acho menos piada a uma certa hipocrisia que no entanto persiste, a maior delas o facto de o país agora a espumar de ultraje contra os abusadores sexuais ter um presidente que está gravado a gabar-se de ser um predador sexual . Já acho outra vez piada aos contorcionismos dos republicanos e idiotas sortidos para se tentarem safar dessa evidência. Volto a achar menos piada quando vejo que conseguem e que o país pede a cabeça de gente como o Weinstein mas perdoa um presidente que disse que “quando se é famoso pode-se fazer tudo. Agarrá-las pela rata, tudo.” e no fôlego seguinte descreveu graficamente e muito orgulhoso o modo  como assediou uma mulher casada. Passado pouco tempo foi eleito presidente, e ainda há  muita gente que estranha e critica o ódio ao Trump, não lhes ocorrendo que há pessoas que se arrepiam com predadores sexuais, de esquerda ou direita, e não confiam neles para nada. Porque são pessoas más, incapazes de empatia e respeito, que se lixem as opiniões políticas, é uma questão de humanidade.

Também há um aspecto que gostava de referir porque ainda não o vi referido em mais lado nenhum (também é verdade que não ando a ler tudo o que se escreve sobre o tema , nem conseguia mesmo que não fizesse mais nada na vida) : Tenho a impressão de que a qualificação de assédio  tem muito a ver com o nível de atractividade da pessoa em causa. Exemplo, a starlet  chega à Califórnia a sonhar com filmes, conhece Harvey Weinstein  que lhe faz uns avanços, apalpa o rabo e tenta levar para a cama: assédio . A mesma starlet conhece Brad Pitt que lhe faz uns avanços, apalpa o rabo e tenta levar para a cama: engate . É muito provável que esteja  enganado mas muita da qualificação de assédio depende da apreciação que a pessoa assediada faz do assediador. Passo a ilustrar essa relatividade com um exemplo pessoal.

Aqui há dez anos cheguei de barco ao Canadá, a  Yarmouth , vilória portuária da Nova Escócia, depois de mais uma travessia do Atlântico. Uma tarde no bar comentei que precisava de usar a internet para marcar as viagens de regresso , isto era antes do wifi e cyber café era coisa que não havia ali. Uma mulher, mais ou menos da minha idade, com quem já tínhamos (eu e a tripulação) falado nessa tarde, disse-me que eu estava à vontade para usar a ligação em casa dela, era mesmo ali. Aceitei de bom grado e lá fomos os dois. depois de vinte minutos de caminho comecei a estranhar a distância mas depois lembrei-me de que na América do Norte eles têm medidas diferentes das nossas. Casa enorme, no meio de um pinhal, não estava ninguém , mostrou-me o quarto onde estava o computador e disse-me para estar á vontade, vou tomar um duche , se precisares de alguma coisa ,é só dizeres … Eu sempre fui bastante tapado no que toca a mulheres e percebo pouco, a ficha só caiu quando ela entrou pelo quarto de roupão meio aberto e se sentou no braço da cadeira com a mão no meu ombro. Seguiram-se uns minutos confrangedores e muito desconfortáveis durante os quais tentei evadir-me das atenções dela sem ser bruto, o que , olhando para trás, só fez parecer que eu estava a hesitar quando só queria ir-me embora dali o mais rápido possível. Finalmente percebeu que não era o dia, foi-se vestir e levou-me de volta à cidade, viagem bem disposta como se pode imaginar.

Eu considero isto  assédio e lembro-me do episódio com um arrepio de desconforto,  mas só por uma razão: a senhora era um camafeu . Se fosse uma mulher que me atraísse provavelmente hoje falava nisso como uma das melhores tardes da minha vida mas  como era uma mulher que me repugnava, foi assédio. Tenho-me lembrado bastante dessa tarde em Yarmouth quando vejo todas as acusações  a voar pela comunicação social . Em quantos casos não será  o mesmo mecanismo em acção?

De qualquer modo, o tema não é muito difícil nem muito complicado: sexo é uma coisa muito boa mas têm que ser todos crescidinhos e estar  de livre acordo, se não passa a ser uma coisa muito má.

 

PS: Sara Sampaio, a maior exportação da aeronáutica nacional dos últimos anos, foi por alguma razão a uma conferência de tecnologia em Lisboa e disse que “sentiu muitas vezes que foi levada a fazer coisas que não queria”.  O emprego desta moça é desfilar e aparecer semi nua à frente de multidões, emprego  que já lhe rendeu o suficiente para não ter medo de o perder. Quando era levada a fazer coisas que não queria, o  cálculo era diferente. Tudo tem um preço, às vezes é a dignidade,  muitos pagam-no de bom grado.

Bertrand Russel e o Comunismo

Cá deixo a versão portuguesa deste pequeno texto do Bertrand Russel sobre o comunismo. Duas notas prévias, isto não é um texto magistral do calibre habitual de Russel nem foi escrito como manifesto, é só uma pequena dissertação incluída num livro de ensaios de âmbito mais alargado. A segunda , foi escrito em 1956 , muito antes da invasão da Checoslováquia e das obras de Soljenitsin , para citar dois pontos que serviram para explicar aos lúcidos a realidade do sistema soviético e da teoria subjacente. 12 anos antes dos tanques russos entrarem em Praga e mostrarem ao mundo a fraternidade soviética já Russel percebia bem o que estava em causa.

“Em  relação a qualquer doutrina política há que pôr duas questões: 1) os princípios teóricos são válidos? 2) É provável que a  sua prática política leve a um aumento da felicidade humana? Pela minha parte, creio que os princípios teóricos do comunismo são falsos e penso que as suas práticas  são de modo a produzir um incomensurável aumento da miséria humana.

As doutrinas teóricas do comunismo derivam de Marx, na sua maior parte. As minhas objecções a Marx são duas : é confuso e o seu pensamento é quase inteiramente inspirado pelo ódio.

Chega-se à  doutrina das mais valias, que supostamente demonstra  a exploração dos assalariados no capitalismo, de duas maneiras : a) aceitando sub-repticiamente a doutrina da população de Malthus, que Marx e todos os seus discípulos repudiam explicitamente; b) aplicando a teoria de Ricardo ao valor dos salários mas não aos preços dos artigos manufacturados.

Marx ficou completamente satisfeito com o resultado, não pela concordância com os factos ou pela coerência lógica mas porque é calculado para  provocar fúria nos assalariados. A sua doutrina de que todos os eventos históricos foram motivados pela luta de classes é uma imprudente e falsa extensão à história universal de certos eventos proeminentes em França e Inglaterra há cem anos. A sua crença de que existe uma força cósmica chamada Materialismo Dialéctico que governa a história humana independentemente   das vontades humanas é mera mitologia.

Apesar disso os seus erros teóricos não teriam tido muita importância excepto pelo facto de, tal como Tertuliano ou Carlyle, o seu principal desejo era ver os seus inimigos castigados, e importava-se pouco com o que acontecia aos seus amigos no processo.

 A doutrina de  Marx era suficientemente má, mas os desenvolvimentos por que passou com Lenin e Stalin tornaram-na muito pior. Marx tinha ensinado que haveria um período revolucionário de transição a seguir à vitória do proletariado numa guerra civil e que durante esse período o proletariado, de acordo com a prática usual depois de uma guerra civil , iria privar de poder político os seus inimigos vencidos. Esse período seria a ditadura do proletariado. Não devia ser esquecido que na visão profética de Marx a vitória do proletariado chegaria depois de este ter crescido até ser a vasta maioria da população.

Desse modo a ditadura do proletariado concebida por Marx não era essencialmente anti democrática. Na Rússia de 1917, porém, o proletariado era uma percentagem pequena da população, sendo a grande maioria camponeses. Foi decretado que o partido Bolchevique era a parte do proletariado com consciência de classe e que um pequeno comité de líderes era a parte do partido bolchevique com consciência de classe. A ditadura do proletariado tornou-se deste modo na ditadura de um pequeno comité e por fim de um só homem , Estaline.

Como o único proletário com consciência de classe, Estaline condenou milhões de camponeses a morrer de fome e milhões de outros ao trabalho forçado em campos de concentração.Chegou ao ponto de decretar que as leis da hereditariedade seriam   doravante diferentes do que tinham sido até ali e que até os genes devem obedecer a decretos dos soviéticos em vez dos de Mendel, esse padre reaccionário. Não consigo de modo nenhum perceber como  é possível que algumas pessoas que são simultaneamente humanas e inteligentes tenham conseguido encontrar alguma coisa de admirável nos vastos campos de escravos produzidos por Estaline.

Sempre discordei de Marx. A minha primeira crítica hostil foi publicada em 1896, mas as minhas objecções ao comunismo moderno são mais profundas que as minhas objecções a Marx.É o abandono da democracia que  acho particularmente desastroso Uma minoria apoiando o seu poder nas actividades de uma polícia secreta será sempre cruel, opressiva e obscurantista. Os perigos do poder irresponsável foram geralmente reconhecidos durante os séculos XVIII e XIX  mas os que esqueceram tudo o que foi dolorosamente aprendido nos dias da monarquia absoluta voltaram ao pior da idade média sob a curiosa ilusão que estavam na vanguarda do progresso.

Há sinais de que com o passar do tempo o regime russo se tornará mais liberal. Apesar de isto ser possível é muito longe de ser garantido.Entretanto, todos os que prezam não só a arte e a ciência mas uma suficiência de pão e liberdade do medo de que uma palavra descuidada da sua criança ao professor possa condená-los a trabalhos forçados na remota Sibéria, devem fazer o que estiver ao seu alcance para preservar nos seus países um modo de vida mais próspero e menos servil.

Existe quem, oprimido pelos males do comunismo, seja levado a concluir  que o único modo de combater esses males é  uma guerra mundial.Considero isso um erro.A dada altura tal política poderia ter sido possível mas agora a guerra tornou-se tão terrível e o comunismo tão poderoso que ninguém pode dizer o que restaria de uma guerra mundial e seja o que for que restasse seria provavelmente tão mau como o comunismo dos dias de hoje. Esta previsão não depende dos efeitos inevitáveis da destruição em massa por meio de bombas de hidrogénio e talvez de epidemias engenhosamente propagadas. O modo de combater o comunismo não é a guerra. O que é necessário em complemento dos armamentos que vão dissuadir os comunistas de atacar o Ocidente é uma diminuição dos motivos para descontentamento nas partes menos prósperas do mundo não comunista.

Na maiorias dos países da Ásia existe uma pobreza abjecta que o Ocidente deve aliviar na medida em que está ao seu alcance. Existe igualmente uma grande amargura causada por séculos de domínio Europeu insolente na Asia. Deve lidar-se com isto com uma combinação de tacto paciente com anúncios dramáticos renunciando às relíquias de domínio branco que sobrevivem na Asia.  O comunismo é uma doutrina criada a partir da pobreza , ódio e conflito. A sua disseminação só pode ser parada diminuindo a área de pobreza e ódio.

Este gráfico mostra a evolução da pobreza absoluta no mundo desde 1820. É notório que a tendência era já de queda quando o Marx avisava que só o socialismo nos podia salvar e que continuou e continua a  cair . Os comunistas que me façam um desenho a explicar como é possível que esta evolução coincida com a expansão e consolidação do capitalismo global, que era suposto só trazer miséria às massas. Feliz centenário.

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Centenário da Revolução

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Chato como sou com os comunistas até parecia mal se deixasse passar a data sem dizer nada sobre  os cem anos da revolução bolchevique na Rússia. Estimo que cem anos depois, com a poeira mais do que assente e com duas gerações enterradas, depois de mais de 20 anos para analisar os escombros e  a História, ouvir as pessoas, ver os sítios e contabilizar a  herança, todos já temos uma opinião sólida sobre o Comunismo e o sistema soviético. Algumas pessoas solidificam a sua opinião assegurando-se de que informação que não seja aprovada pelo Comité Central ou que seja posterior a 1989 não deve ser considerada.

A imprensa nestes dias esteve repleta de especiais  e artigos sobre o tema, há para todos os gostos, felizmente. Se estivéssemos num país comunista no dia 7 tínhamos que ir todos para a rua bater palmas, devia bastar dizer isso para encerrar de vez o debate sobre comunismo mas é impossível.

No DN  acharam por bem ir buscar um representante da espécie, nada  menos que o líder máximo dos comunistas portugueses, para falar sobre o tema. O camarada Jerónimo, que  como todos os seus é impermeável aos factos e insiste em ter uma História só para si , brindou-nos com um texto que poderia dar vontade de rir não fora a morte, miséria e opressão que ele nem refere de passagem.

Uma pessoa mais equilibrada podia perfeitamente fazer uma apologia do Comunismo cem anos depois e ao mesmo tempo fazer uma crítica e reconhecimento do mal que foi feito e dos erros cometidos, mas não. É engraçado notar que ele usa os mesmos termos, as mesmas frases, a mesma terminologia quer esteja a falar na Assembleia do República, na festa do Avante ou num artigo de jornal, o tom é sempre o mesmo e as patranhas também, desde a caracterização da revolução de Outubro, envernizada  como um movimento popular, até à velha história dos Bolcheviques terem vencido os Nazis sozinhos. Se apresentarem ao Jerónimo três calhamaços de historiadores credenciados, de três países diferentes, que documentem todo o auxílio material  dos Aliados aos Russos o camarada vai dizer : campanha de desinformação, manipulação e intoxicação, que é como é classificada toda a informação que contradiga a versão aprovada pelo Comité.

Jerónimo apresenta vários números, estatísticas  e listas sobre o extraordinário desenvolvimento tecnológico, económico, científico e social da URSS e uma pessoa (uma pessoa que pense) pergunta: mas então com todo esse desenvolvimento e avanço social porque é que aquilo caiu tudo como um castelo de cartas? As causas, para além de significativos factores externos, radicaram fundamentalmente num “modelo” que se afastou e entrou mesmo em contradição com os valores e ideais do socialismo, tiveram como resultado um grande salto atrás nos direitos e conquistas dos trabalhadores e dos povos.” 

Acho  estranho que o “modelo” que deu tão  bons resultados  afinal fosse  “afastado dos valores e ideais”, e nesta altura alguém devia tentar fazer ver ao Jerónimo  (ou a um  comunista de estimação que por acaso tenham, eu tenho dois)  que ou o modelo era como eles dizem que era e teve bons resultados ou não era , era um desvio e  caiu por causa disso. Defender as conquistas do comunismo para logo a seguir dizer que acabou porque não era bem comunismo é que não pode ser. Não pode ser, se quisermos respeitar a Lógica e  o significado das palavras, mas isso nunca foi o forte dos comunistas.

Sobre os mortos, as purgas, as fomes, os gulags, as limpezas étnicas, a polícia política, as ingerências, as guerras….nem uma palavra. Todos os detractores do comunismo, aos olhos dos comunistas, estão  ao serviço do grande capital , os nossos livros de História são mentira , as entrevistas dos sobreviventes do comunismo são todas mentira . Isto para mim está ao nível da negação do Holocausto nazi  e é uma ofensa à Humanidade.

Se no próximo 28 de Maio aparecesse num jornal um artigo  a enaltecer  partes positivas e  avanços  do Estado Novo havia  motins,  linchava-se o autor e fechava-se o jornal. Até podia tentar equilibrar a peça e falar de colonialismo , da Pide ou da miséria e falta de educação que não valia a pena, foi tudo mau, o fascismo, ou a nossa variedade, foi tão ignóbil como as outras e não se pode dar liberdade aos inimigos da liberdade, fascismo nunca mais e coiso. Entretanto temos um idoso soldador de formação cuja educação foi feita TODA no marxismo leninismo mais retrógrado e ortodoxo que alinha um texto pejado de mentiras ofensivas e ridículas a branquear um dos sistemas e regimes mais assassinos e destrutivos que o Mundo já viu, e é normal, é parte do processo democrático. Incrível. Mais me arrepia quando vejo jovens de 20 anos a debitar a cassete sem falhas, porque um velho comunista ainda é como o outro, viveu os tempos, acreditou, era uma ideia bonita, até arriscou ir preso por ser comunista, o caminho foi longo, custa mudar. Como é que se pede a uma pessoa que esteve presa por ser comunista que renegue o  comunismo? Diferente , muito diferente é ver um jovem de 20 anos a fazer a apologia da URSS e do comunismo,   tem o seu quê de sinistro.

Como Portugal ainda não é um país comunista ainda há debate e podem-se contestar e confrontar opiniões e ideias , e o artigo do Jerónimo foi prontamente seguido por outro artigo, do José Milhazes, a endireitar o registo. Este J.Milhazes foi daqueles que foi para a URSS com os olhos a brilhar e a sonhar com os amanhãs que cantam mas depois de muitos anos lá viu a realidade e tem passado o resto do tempo a contá-la cá e nesse artigo rebate impecavelmente os delírios do camarada Jerónimo.

Muitas pessoas dizem que o comunismo é uma boa ideia que foi mal aplicada. Eu digo que não, que é abominável e seria abominável mesmo se todos os preceitos e princípios fossem aplicados, e a aversão é simples de explicar : o comunismo nega o Indivíduo, desvaloriza o particular e a propriedade privada, obriga à acção   colectiva  e prescreve uma determinada orientação e organização para a sociedade. Eu acredito nos direitos do Indivíduo , na iniciativa e propriedade privada, defendo que a Sociedade não precisa de ser dirigida por nenhum comité central ou regional, que as decisões económicas devem estar nas mãos dos agentes económicos e que as desigualdades são uma característica e não uma anomalia. Defendo que o Estado deve ter intervenção e papel  limitados e que os cidadãos devem ser livres de ir e vir, comprar e vender , ler e escrever , ouvir e falar, tudo coisas que foram sempre impossíveis  no comunismo, e depois estes gajos ainda têm a lata de andar a comemorar os 100 anos da doença.

Tal como critico o Jerónimo por escrever loas aldrabonas sem ser capaz de apontar um defeito também sou capaz de apontar um resultado positivo da Revolução de Outubro: o medo que os bolcheviques instilaram no Ocidente e que levou a muitas evoluções importantes , nomeadamente no campo dos direitos dos trabalhadores. Foi o medo do perigo vermelho que pôs governos e capitalistas no caminho de reformas que beneficiaram toda a gente. É curioso como não foram os comunistas mas o medo dos comunistas a trazer essa mudança, e nem aí lhes concedo muito mérito, primeiro porque é causar mudança por meio de ameaça, real ou velada, e não me parece que seja etica ou moralmente muito meritório, e segundo porque nada nos garante que sem Revolução de Outubro as coisas não iam mudar na mesma. As teorias e as ideias circulavam, as queixas dos trabalhadores eram semelhantes em todo o lado,  e os capitalistas , tal como os comunistas ,  não comem criancinhas e até se diz que alguns têm mesmo um coração.

O número de pessoas que não sabe que Nazi é a abreviatura de Nacional Socialismo  é demasiado elevado, tal como é demasiado elevado o número de pessoas que não consegue ser contra o totalitarismo seja ele qual for, de direita ou esquerda , pela simples razão de ser totalitatismo, que não consegue aceitar que Nazismo e Comunismo não passam de duas faces da mesma moeda com muitíssimo mais em comum do que uns e outros gostavam de dar a entender.

Termino pedindo emprestada a reflexão de uma das mentes mais brilhantes  que o Mundo já conheceu e uma das figuras que mais admiro , Bertrand Russel , que neste texto de 1956 , quando na Europa ainda se podia acreditar na causa, explica sucintamente porque não é comunista .  Se amanhã o dia me correr bem traduzo-o para publicar aqui, porque há que lutar contra ideias más que pelos vistos não morrem, uma pessoa pode pensar que mais vale não lhes ligar e depois quando dá por ela tem comunistas no governo .

Outras Independências

A Catalunha continua ao rubro, os cabecilhas da conspiração (ou líderes patrióticos, consoante o ponto de vista), fogem para a Bélgica,  os que têm coragem  regressam e vão dentro. Por cá confundem-se presos políticos com políticos presos e o número de especialistas em Direito Constitucional espanhol explodiu. Eu não sei se a prisão deles é legal e justificada ou não mas, como sou contra este processo,  gostei de ver. Esta foto mostra o projecto de líder a exibir orgulhosamente 5 notificações judiciais  consecutivas pelo seu continuado incumprimento da lei. Agora já não tem tanta pressa nem orgulho no facto e fica com a defesa um bocado fragilizada:  “Eu sabia bem que estava a quebrar a lei mas nunca pensei que levassem isto tão a sério a ponto de a querer aplicar!”.

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De qualquer maneira, posso ter-me rido por ver a demagogia ir de cana mas prender (não este, que não tem tomates,  os outros todos)   parece-me  contra producente,  não acalma ninguém nem resolve nada, antes pelo contrário. É dar argumentos aos adversários de mão beijada, mesmo que o peso todo da lei esteja do lado do estado central, prender opositores serve mais a oposição do que outra coisa, a menos que estejamos a falar de um sítio como a Rússia ou a Venezuela, em que é uma técnica normal e, a julgar ela durabilidade dos regimes,  bastante eficaz. De um país como  Espanha esperava-se outra coisa, mas  os espanhóis nunca foram conhecidos por serem macios.

Vale a pena nesta altura lembrar duas outras tentativas relativamente recentes de independência, uma falhou, a outra teve sucesso.

A primeira foi a da Escócia, em 2014. Ora a Escócia é um país  há muito tempo,  faz parte de um Reino Unido em conjunto com a Inglaterra, Gales e a Irlanda do Norte e desde sempre que muitos escoceses contestam essa união e pedem o regresso a uma Escócia independente, só aí já têm um caso muito mais forte que os catalães, querem voltar  a ser uma nação. A chachada histórica que foi o filme Braveheart fez crescer exponencialmente a simpatia pela causa independentista, desde  1934 que existe um partido independentista, que foi concorrendo a eleições, espalhando a sua mensagem e o seu programa até que ganhou maioria na Escócia autónoma e finalmente a questão chegou a referendo.

Se há povo pouco revolucionário é o britânico,  é uma das coisas que eu admiro neles, directamente relacionada com a fleuma,  qualidade que aprecio muito. Ao longo de uns mil anos de História tiveram uma revolução, em 1688, que estabeleceu a monarquia constitucional. Há quem diga que nem essa devia ser chamada “revolução”, foi mais o culminar de um processo longo de afirmação do poder do Parlamento que até passou por uma guerra civil e uma república que durou dez anos.

O Reino Unido não tem uma constituição escrita como a maior parte dos países mas tem um corpo de leis e jurisprudência de séculos que explica e regula o modo como o Reino é Unido. Perante a agitação dos escoceses, os políticos britânicos fizeram o que fazem os políticos sofisticados e inteligentes, sentaram-se a negociar o modo como se podiam responder às aspirações de um grupo crescente de cidadãos. Duvido que houvesse na lei britânica provisão para uma secessão de um dos países que compõem o Reino Unido, mas num processo que devia ser exemplar houve anos de negociação e organizou-se um referendo em 2014.

84% dos escoceses votaram, eliminando logo aí dúvidas quanto à validade do resultado,  55,3% dos votantes disseram que a Escócia estava bem assim, 44,7% queriam um estado soberano, ficou assim. O referendo, por não ter sido organizado à margem da lei, foi livre , aberto, precedido de uma campanha de informação (e propaganda) de ambos os lados e resolveu a questão do separatismo escocês (até chegar o brexit, mas isso já é outra questão) . Hoje em dia a própria líder do Partido Nacional Escocês afasta novas tentativas de referendo e secessão, muito porque há consciência clara de que as pessoas iam ficar mais pobres  e a economia ia sofrer, e porque ainda há políticos que acreditam que a sua principal tarefa é melhorar a vida real e o dia a dia das pessoas e não fornecer-lhes  ilusões, panaceias e banha da cobra.

Não houve motins, não houve prisões, não houve debandada de empresas nem fugas de políticos, mais uma vez os britânicos mostraram ao mundo como funciona uma democracia moderna e se agora vai para lá uma salganhada medonha por causa do brexit devem-na pura e simplesmente ao populismo e ao calculismo pessoal de alguns políticos, as mesmas causas dos problemas na Catalunha.

No outro extremo da escala política e social temos o Sudão do Sul, nação  independente desde 2011 por secessão do Sudão , país que apesar de não conhecer pessoalmente tenho como sendo o fim do mundo. Passei quase uma semana no Mar Vermelho a navegar ao largo do Sudão e da Eritreia, do outro lado é a Arábia Saudita e tirando um furacão no Atlântico não me lembro de ter tanto medo no mar, só de pensar que se tivesse que arribar a um porto seria  um porto no Sudão arrefecia-me o sangue.

Algumas pessoas se calhar ainda se lembram do Darfur, até se fez  uma cançoneta pop que teve muito sucesso e  ajudou a chamar a atenção para causa. Andava toda a gente angustiada com  o genocídio das tribos negras do sul pelos árabes do norte e a atenção que isto trouxe à região encorajou os separatistas do Sul, a atenção internacional pelo genocídio e o facto de uns 75% do petróleo do Sudão estarem no Sul.

Como estes independentistas lutavam contra um regime liderado por um gajo que até tem mandato de captura pelo Tribunal de Haia, o ocidente, na ânsia de ser bonzinho e certamente também com um olho no petróleo, apoiou o separatismo do Sudão do Sul. Intensificou-se a guerra e declarou-se a independência. Lembro-me perfeitamente de ler um artigo na National Geographic, cheio de fotos lindas a leonizar o chefe dos independentistas e cheio de perspectivas melosas e optimistas para a nova nação e lembro-me  de pensar : estes não aprenderam rigorosamente nada em cinquenta anos de independências africanas.

O período de atenção da imprensa e, por conseguinte, da opinião pública, mede-se em dias e como o mundo apresenta constantemente dezenas de pontos de fome,  peste, guerra e cataclismos vários, hoje já ninguém quer saber daquilo para nada.  Continua a guerra e a miséria no Darfur , que curiosamente continua parte do Sudão depois de ter sido o caso que mais contribuiu para a criação do Sudão do Sul.

E que tal vai a jovem nação do Sudão do Sul, 6 anos depois da independência? Vai como seria de esperar, guerra civil, miséria, corrupção e  ódio tribal A guerra civil demorou só dois anos a rebentar  e os sudaneses do sul são tão ou mais miseráveis do que eram como simples sudaneses. Eu não passo de um curioso destas coisas,  que lê uns livros e acompanha umas notícias e espanta-me a sério como é que a generalidade dos políticos e especialistas  envolvidos nas organizações internacionais não viu tal como eu que a coisa nunca ia resultar. A ONU deve ter uma percentagem enorme de funcionários e oficiais que ou são muito ingénuos ou são estúpidos ou são completamente cínicos e andaram lá a ajudar a organizar uma independência que sabiam ia correr assim.

Falo destes dois casos não para dizer que nenhum territorio deve ser independente mas sim que têm que ser observadas um número de condições antes de se falar nisso. Na Escócia havia condições, havia processo, cumpriu-se a vontade das pessoas. No Sudão não havia condições nem processo e  cumpriu-se a vontade dos poderes de facto. Na Catalunha há condições mas não se criou nem respeitou um processo, agora tenta-se cumprir a vontade de uma minoria mas já está tudo tão inquinado que não acredito que haja salvação, entendendo como salvação um compromisso que garantisse antes de mais a paz e tranquilidade na Catalunha e depois o tal processo, desta vez um a sério liderado por gente séria , para  perceber e medir  com legalidade as intenções dos catalães e agir de acordo.

Como se não houvesse já bastantes detalhes patéticos nesta história, hoje a Venezuela veio exigir à Espanha respeito pelas liberdades e libertação dos presos políticos.  Passei quinze minutos a tentar encontrar uma frase para rematar isto mas não consigo.

Feminismo

“Feminismo”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/feminismo [consultado em 01-11-2017].

Movimento ideológico que preconiza a ampliação legal dos direitos civis    e políticos da mulher ou a igualdade dos direitos dela aos do homem.

É preciso ter umas certas carências em determinados sectores cognitivos   ser um bocado estúpido para se ser contra o feminismo. Apesar da evolução enorme das últimas décadas todos os dias temos à disposição exemplos de faltas de respeito, desigualdades, abusos e  violências sofridos por mulheres só por serem mulheres, e essas coisas não desaparecem sozinhas, é preciso que se fale nelas, que se exponha, denuncie e que se exija mudança.

Claro que não há bela sem senão, e muita gente escolheu o feminismo como modo de vida, nalguns casos carreira, e naturalmente começou a extrapolar a definição tão simples, clara e básica do movimento. Vieram ao de cima algumas hipocrisias e muita gente, de ambos os lados do debate, se esqueceu de que a pedra de toque é “igualdade de direitos” e não “igualdade” . Por vezes parece-me que se perde de vista esse  essencial para focar no acessório , como os piropos na rua ou a cor das roupas das crianças.

Algumas notas que, se eu fosse uma pessoa “relevante”, talvez me  garantissem  denúncia e opróbrio público das feministas de linha dura:

  • Se somos pelos direitos iguais para as mulheres temos que o ser para todas as mulheres. Feminista que não denuncie a vergonha e abjecção  que é o tratamento das mulheres no Islão e não condene de viva voz e a cada passo a miséria e condenação à inferioridade das mulheres nos países muçulmanos,  é uma impostora sem vergonha.
  • Se as mulheres se queixam, com razão, da sua objectificação sexual por parte dos homens têm que ser elas a deixar de se objectificar, porque a objectificação não funciona sem a colaboração activa da mulher. As mesmas revistas cheias de críticas ao machismo estão cheias de dicas para agradar aos homens, numa coluna exortam a que as mulheres se sintam bem consigo próprias como são, na seguinte explicam como perder peso ou pintar-se melhor.
  • As mulheres queixam-se, com razão, de serem sujeitas a violências por parte dos homens mas é muito raro ver uma admitir o poder gigante que têm sobre os homens e as violências (raramente físicas mais ainda assim violências) e manipulações que muitos homens sofrem.
  • Se as mulheres reclamam igualdade de tratamento não devem a  seguir queixar-se do “fim do cavalheirismo” e coisas do género.
  • Se uma mulher é homossexual não é a pessoa mais indicada para se pronunciar sobre as  relações íntimas entre homens e mulheres .
  • Se o feminismo é realmente a nossa luta não podemos escolher os alvos e as causas consoante as preferências políticas ou religiosas dos intervenientes.
 O tal Weinstein de Hollywood é um porco abusador , mas  quantas mulheres não saíam do escritório dele satisfeitas por os seus encantos naturais as terem ajudado a cumprir os seus objectivos? Quantas mulheres ao longo da História não usaram , sugeriram e encorajaram o uso dos atributos físicos para subir na vida sem escandalizar nenhuma feminista? Quantas mulheres confiaram no seu aspecto, na sua qualidade de objecto, para garantir carreira e futuro? Como é que por exemplo a Marilyn Monroe pode ser um ícone do mundo feminino quando não passava de uma cabeça oca  com um palminho de cara? Foram principalmente mulheres como ela  que subiram ao “panteão” feminino e isto é culpa dos homens que as lá puseram mas também  das mulheres que aceitam e  trabalham nesse modelo, basta ver televisão ou cinema.
Foi há quase 30 anos mas lembro-me como se fosse ontem, o pai do meu melhor amigo na altura apanhou-nos  a jeito  e explicou-nos uma das maiores verdades da vida,  peço  desculpa pelo vernáculo mal disfarçado mas com eufemismos perdia o efeito:
As mulheres é que mandam porque fo#em quando querem. 
É verdade que o viagra mudou um bocado a equação e hoje um homem já pode ter sexo sem ter vontade, mas durante toda a História da humanidade as mulheres usaram o poder imenso de serem capazes de ter sexo mesmo sem lhes apetecer, de fingir desejo e paixão, para controlar os homens, que é bem sabido pensam em pouco mais do que isso. Esta capacidade incrível de manipulação e controlo raramente é posta na balança quando se avalia e compara o poder relativo de homens e mulheres.
Por cá em termos de feminismo somos liderados pela associação “Capazes“. Não duvido de que haja gente em Portugal que duvide da capacidade das mulheres para seja o que for, deve ter sido a pensar nessas pessoas que escolheram esse nome.
O site está repleto de textos estereotípicos e em geral bastante maus, muitos deles claramente saídos de um desgosto de amor que leva a autora a descobrir o seu eu interior e a sua capacidade de ser independente,  vai ao saco das banalidades gastas ou da moda (resiliência, celebremos a resiliência) e presenteia os leitores como as maravilhas do eterno feminino.Claro que seria idiota um site de gajos a partilharem textos sobre dor de corno sublimada e como é bom não precisar dessas cabras para nada, mas sendo mulheres é pedagógico e libertador.
Quanto a lutas, umas sim outra nem por isso, e tem que haver um processo. Houve um juiz que passou uma sentença quase islâmica num caso de violência doméstica e o país que não vive nos princípios do século passado ficou chocado. Alguém criou uma petição , não sei se para demitir o juíz se para quê mas em todo o caso, contra uma decisão tão retrógrada. As Capazes acharam que só havia uma entidade para liderar a luta, elas, e em vez de assinar e divulgar a tal petição fizeram a delas, e basta ir ao twitter para se ver o orgulho na “nossa petição”. É esta pequenez que as torna um bocado cómicas, tal como o facto de a líder das capazes não se calar com igualdade e coiso quando a generalidade das pessoas pensantes sabe , porque vive em Portugal, que a Rita Ferro deve a sua carreira a ser filha de quem é pelo que devia ser muito , muito discreta quando se toca no tema. Outra figura de proa do movimento é uma jornalista que em tempos foi namorada do criminoso que chegou a primeiro ministro e na altura não estranhou nem lhe pareceram perpetuação de estereótipos machistas  as prendas milionárias . Um homem usar dinheiro para conquistar e agradar a uma mulher só é machismo se as mulheres em causa não formos nós, porque se formos até é uma terna prova de amor. Amor que, claro, pode ser uma construção do heteropatriarcado inventada para dominar e condicionar as mulheres ou do mais bonito que o mundo tem, consoante a vida nos esteja a correr na altura.
Outra actualidade: um membro destacado do PS que até foi Ministro da Cultura (!)  foi condenado em  tribunal por arriar forte e feio na mulher. Apanhou pena suspensa, o que serve de exemplo e encorajamento a outros, saber que neste país dar uns murros e bofetadas na cara metade  não mete ninguém dentro . As Capazes, que têm gatilho leve quando vislumbram injustiça, até ver não se pronunciaram. Por coisas muito menos graves (lembram-se dos livrinhos para meninas e meninos?) chateam de morte o povo, levantam algazarra, indignação e campanhas ferozes.Perante um caso claríssimo em que um homem poderoso agride a mulher e se safa , caladinhas.
Isto do feminismo é um bocado como a religião : acreditar em Deus não faz mal, até pode ser bom, mas não se metam com as igrejas nem confiem nelas.