Que não separe o Homem…

…o que um ritual cultural uniu, excepto em casos julgados meritórios por pessoas que nunca foram  casadas  mas que sabem tudo sobre o casamento e mediante o pagamento de determinada quantia.

Fiz um esforço de memória e concluí que dos 9 casamentos aos quais fui nos últimos 20 anos só 2 permanecem “em vigor”, o resto acabou, apesar das juras , votos e bênçãos. Durante décadas a Igreja católica defendia  que o divórcio era uma coisa demoníaca, um pecado, intolerável., de tal maneira que um católico que se divorciasse era na prática excomungado, porque para eles fazia  sentido  as uniões serem eternas mesmo que o casal acabasse a odiar-se e a fazer-se mutuamente  a vida num inferno. Faz parte daquela noção de que o sofrimento é bom, a Deus  “oferecem-se  sacrifícios”, e não estou a falar dos Maias ou dos Hindus, estou a lembrar-me por exemplo do que me diziam na catequese, sofrer e sacrificar-me agrada a Deus, na altura isso não me levantou problema nenhum porque tinha 9 anos, mas chegada a idade da Razão e com o desenvolvimento da faculdade do raciocínio comecei a estranhar porque razão  o Deus do amor gostaria de ver os seus filhos sofrer. A resposta para isto, claro está, é que as vias do Senhor são misteriosas e fora da compreensão do Homem, excepto dos homens (mulheres não) que sentem a vocação e por isso se tornam os representantes de Cristo na Terra, para esses as vias são conhecidas,  esses sabem sempre o que é que agrada e desagrada ao Senhor, nunca se coibindo de nos explicar como viver e o que fazer. “Explicar” é uma forma de expressão.

Durante milénios os clérigos cristãos aterrorizaram as populações com o Inferno. Se não fizerem a vontade de Deus como nós a explicamos, vão arder para sempre nas fornalhas do demo. Isto foi parte integrante e fundamental do cristianismo e deriva do facto de se ter percebido cedo que a promessa de vida após a morte não era o suficiente para motivar e controlar as pessoas, além da promessa de algo improvável era necessária uma ameaça, e assim se inventou o Inferno, que ainda estava de boa saúde e era anunciado nos púlpitos do mundo há muito pouco tempo, até que o último Papa veio dizer, por outras palavras, que era uma aldrabice milenar, uma criação humana para pôr as pessoas na ordem,  que devíamos deixar de pensar no Inferno.

Não tenho dúvidas de que milhares de católicos pensantes disseram nessa altura “espera lá , então isto é assim? Tanta Verdade, tanta certeza, tanta infalibilidade e de um ano para o outro elimina-se um dos pilares da doutrina e segue tudo como dantes?“.  Alguns terão migrado para seitas e cultos cristãos que não reconhecem o Papa e se sentem mais confortáveis com o fundamentalismo, outros acharam que já chegava de hipocrisia e inconsistência e abandonaram a prática, outros ainda , a maioria, suponho, encolheram os ombros e continuaram como se nada fosse, fazendo de conta que uma revolução  doutrinária dessa envergadura não tinha consequências. Era uma actualização, porque mesmo que nos digam que “esta e só esta é a Verdade” nada impede  que as mesmas pessoas passado uns tempos digam “afinal esta é que é a Verdade”. Confunde-me bastante.

O casamento era uma das instituições  sagradas da igreja, tão sagrada que até é inadmissível uma união entre pessoas do mesmo sexo. A realidade era diferente, as pessoas juntam-se e separam-se sem que o Todo Poderoso tenha alguma coisa a ver com isso e apesar da invocação “que não separe o Homem…” , o  Homem separa constantemente. E quando não é o Homem a separar são os próprios representantes de Deus, desde que o actual Papa agilizou os procedimentos que o número de pedidos para acabar com as sagradas uniões duplicou em Portugal e o próprio clero pode declarar nulo e separar o que Deus uniu, é interessante.

Eu sou um bocado literalista  e tinha a impressão que  “sagrado” significa inviolável , com qualidades superiores e merecedor de respeito absoluto. Afinal não, pelos vistos até para a Igreja o que é sagrado hoje pode deixar de o ser  amanhã , mediante um processo administrativo e o pagamento de uns meros 1500€. Até faz algum sentido, vem na tradição iniciada com a santa prática das indulgências, em que num dia estávamos condenados ao tal inferno mas no próximo, se pudéssemos pagar, ficávamos outra vez puros e redimidos. Podem-me apontar que os 1500€ são para cobrir despesas burocráticas, não é só pagar e seguir como era com as indulgências. É verdade, mas isso não altera o fundamental: há maneira de dar a volta ao Sagrado, o que já se sabia na prática mas ainda não estava confirmado na doutrina.

Lamento muito por todas as pessoas que viveram vidas miseráveis presas a uniões nocivas só porque era ilegal separarem-se; sinto por todos os que, não suportando mais as tais uniões, se separaram mesmo e sofreram o ostracismo de uma  igreja à qual queriam continuar a pertencer. Para todas essas pessoas esta última “inovação” deve ser bastante amarga.

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Países de Merda

Já estive em países de merda, assim à cabeça da lista ocorre-me o Haiti e há mais uns quantos que eu considero nessa categoria mesmo sem nunca lá ter estado, tipo a Eritreia, a Moldávia ou a Arábia Saudita. Já ouvi várias vezes portugueses e estrangeiros chamarem a Portugal um país de merda, eu não partilho da opinião mas consigo perceber como é possível chegar a essa conclusão. Não me chocam essas considerações e se alguém se chocar com as minhas isso é-me  indiferente,  porque pessoas privadas podem exprimir as opiniões que quiserem, a menos que vivam num país sem liberdade de expressão, logo por isso candidato à categoria “de merda”. São meras opiniões.

Se somos uma pessoa com responsabilidades políticas ja não é bem assim, tem que haver um filtro e têm que ser observadas determinadas convenções. Um político, seja presidente de uma junta seja de uma nação, não pode dizer o que lhe vem à cabeça, tem que ter consciência da diferença entre a sua posição enquanto cidadão privado e enquanto representante eleito. Para ter essa consciência é preciso que tenha uma logo de início, e algum discernimento, coisas que faltam ao actual presidente dos EUA, que anteontem se interrogava em público porque é que “tinham  tantos imigrantes de países de merda e tão poucos de países como a Noruega”.

É natural que o cidadão Donald ache que países pobres e de gente escura sejam países de merda, mas referir-se publicamente a eles como tal, enquanto presidente, só mostra a quem ainda não tinha reparado que além de racista o homem é estúpido. De resto, qualquer pessoa que sinta necessidade de vir publicamente assegurar que é muito inteligente, um génio mesmo, deixa bem expostas as suas limitações e inseguranças. Nesta historieta dos “países de merda” , o  fait divers trumpiano do dia , o que é mais engraçado é que logo a seguir a essas declarações os fãs da criatura regozijaram-se por finalmente haver alguém que não tem medo de dizer o que pensa, e que pensa como tanta “gente normal”. No dia seguinte e como de costume o Trump veio negar que alguma vez tenha usado a expressão, ou seja, ele não disse aquilo para agradar à sua base nem para mostrar que tem o toque comum e que diz o que os outros têm medo de dizer. Saiu-lhe, disse-o sem pensar, porque é limitado nesse campo, e depois teve vergonha e negou o que disse, desiludindo a base que no dia anterior lhe louvava a coragem e a frontalidade para depois o ver  a pedalar para trás, expondo bem a dimensão da tal coragem e frontalidade.

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Já disse várias vezes que o que me incomoda mais no Trump não são as as suas políticas, concedendo que ele sabe o que é uma política e tem uma própria. Posso não concordar com elas, é diferente de as considerar   ilegítimas. O que me incomoda mesmo, além do egocentrismo desmedido, da  ignorância  e do vocabulário de adolescente, é esta estupidez constante e a disposição para ofender vinda de quem não sabe medir as consequências do que diz e passa a vida atolado em mentiras.

Quanto à dissecação que se anda a fazer da expressão “países de merda”, ou  “shitholes” , é sintomática dos tempos: como toda a gente vê e sabe o que toda a gente anda a dizer, toda a gente se policía e controla o discurso, não só  o próprio como o alheio. Que se faça isso a presidentes, é fundamental. Que se chateiem cidadãos particulares por acharem que certos países são  países de merda, é ridículo. Há quem ache que o politicamente correcto é um avanço civilizacional porque faz com se evite ofender sensiblidades ou pessoas, eu acho que  querer um mundo em que ninguem ofende ninguém é querer um mundo artificial de pessoas auto reprimidas e condicionadas pelos comités que explicam às massas o que se pode dizer e o que não se pode dizer. Pela parte que me toca, e como não represento nada nem ninguém, se eventualmente ofender  X,  tem que ser X a sentir-se ofendido e a pedir satisfações, se for Y a vir pedi-las em nome de X vai-se embora de mãos a abanar, que esta questão das ofensas não funciona por procuração nem interposta pessoa.

 

O PSD vai hoje a votos para escolher o novo líder. Não vi nenhum debate nem andei a ler programas de um ou de outro,  faço conta de nunca mais votar no PSD, mas tenho a minha preferência, que é Santana Lopes. Isto apenas porque Rio já disse que por ele avançava um Bloco Central , coligava-se com o PS. A haver um governo do PS em  coligação prefiro mil vezes que seja com a extrema esquerda, e isto tem uma razão muito simples: com o Bloco e o PCP na oposição a vida é um inferno de protestos, greves, agitação, imprensa histérica, manifestações e “agitação social”. De luta. Como se vê  desde que a geringonça pegou nisto, estando os comunistas e trotskystas no poder ou perto dele o país acalma logo, os jornalistas são muito mais comedidos, as histórias negativas são contextualizadas,  dá-se tudo aos sindicatos para não haver greves e não há manifs e protestos a encravar a vida ao cidadão. Exemplo concreto, neste Inverno em  15 dias morreram 600 pessoas devido ao frio e à gripe. Há 3 anos teríamos actrizes da política a bradar que a austeridade mata e que o governo tem que cair , hoje se alguém do BE ou PC falar sobre isto será para lamentar e exigir que se tomem mais medidas. Os combustíveis vão voltar a subir para os maximos de 2015, a diferença é que nessa altura eram os neoliberais a destruir o tecido produtivo e a sufocar o cidadão para dar lucros às petrolíferas , hoje é a vida, estamos dependentes das flutuações dos mercados e tal. Em 2014 emigraram de Portugal 134000 pessoas, era o desespero , o drama, o desânimo e a revolta. O ano passado emigraram 97000, é um movimento migratório natural e até tem vantagens em termos de remessas.

Porque prezo muito paz e sossego e abomino histerias e exageros prefiro ver a extrema esquerda a comer à mesa do orçamento com os seus princípios em banho maria e a votar a favor apesar de serem contra, do que ver um governo PS/PSD a brigar pelos despojos do Estado com os comunistas a agitar nas margens, para mim o pior dos cenários. Se o PSD tem alguma veleidade de voltar ao poder devia assumir-se como partido de centro direita, como adversário do PS e que rejeita coligações à esquerda, mas  o mais provável é escolherem Rio, que propõe o caminho mais curto para o poder. Muitos milhares que já votaram PSD, como eu, estão satisfeitos por finalmente haver uma alternativa para  quem não defende o socialismo, o estatismo e os arranjos dos que nos governam desde o fim da ditadura: a  Iniciativa Liberal, , uma hipótese de renovação.Espero que na transição de iniciativa cidadã para partido parlamentar não desiludam.

 

Terras

Esta terra fica a 20 metros da minha porta e há 6 anos que a arrendava  por 20€ por ano, não me perguntem como é que se calculam estas rendas que eu também não sei. Estava abandonada havia mais de 20 anos, fetos, silvas e cana roca da minha altura. Devagarinho transformei-a numa pastagem, vedei-a, e há dois anos no Verão conheci o proprietário , um “americano”. Disse-lhe que se a pensasse em vender que me dissesse, eu conhecia bem o procurador e sabia que não só como vizinho mas como rendeiro tinha direito de recusa se a terra ficasse à venda.

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Este Verão o procurador disse-me que estava tudo à venda. Numa das coisas mais estranhas que já me aconteceu aqui o procurador  não me disse o preço da terra até ao dia  antes da escritura. Eu dizia-lhe que tinha que saber porque era bem possível que não tivesse esse dinheiro, ele dizia-me que não me inquietasse, que de certeza que tinha, e se não tivesse não era problema, fazia-se a escritura à mesma e pagava quando pudesse. Apreciei a confiança mas não fiquei muito descansado, a cada vez que encontrava o homem ele dizia-me “não te rales”, até que em Novembro se ia finalmente marcar a escritura. Recebi um recado da notária (das minhas coisas favoritas aqui é a proximidade) a dizer-me que para se marcar a escritura era preciso um preço de venda, e ficou um pouco intrigada quando eu lhe disse que podia não acreditar mas eu não sabia. O procurador lá mandou o técnico da câmara avaliar aquilo e comunicou-me o preço no dia da escritura. Era o dobro do que eu calculava mas não tinha escolha, se não comprasse a terra comprava-a o outro vizinho e eu ficava sem esse pasto. Além disso deve-se sempre fazer todo e qualquer esforço para comprar terras  que sejam contíguas à nossa e devemos lembrar-nos de que terra é um bom investimento, especialmente porque já não se faz mais…tirando os casos em que estados reclamam terras ao mar, o que não é bem a mesma coisa e creio que no futuro vai ser mais comum o mar reclamar terras do que o contrário, especialmente porque com as perícias e capacidades dos Holandeses há muito poucos povos no mundo .

Além disso quanto mais o mundo urbano caminha para a degradação ambiental, segregação social e violências de toda a ordem mais valor tem um pedaço de terra num sítio com esta ilha. Todos os anos desembarcam aqui centenas de estrangeiros que olham para isto como um Refúgio Último e só não compram mais propriedades porque não as encontram. A publicidade incessante não abranda e creio que a tendência é para aumentar, ainda hoje conheci uma americana do Hawaii que cá apareceu com dois filhos e está determinada a instalar-se aqui. Diz que há aqui uma aura energética incrível, eu disse que não percebo nada da auras nem nunca vi nenhuma mas desde que cheguei aqui pela primeira vez que tive a certeza de que  esta ilha  era especial. Tão especial que tenho um certo receio pelo futuro disto ,  não  muito porque regra geral a minha preocupação com o futuro estende-se no máximo a 20 anos , depois disso é-me igual.

Na semana passada vendeu-se a Caldeira do Mosteiro inteira, consta que foi negócio de 1,5 milhões ou muito perto, é uma caldeira vulcânica inteira com uma aldeia abandonada.

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Vai ser um empreendimento turístico, como não podia deixar de ser, tal como 95% das casas que estão nesta altura a ser recuperadas, mas turismo ou não o que tenho por certo é que se há sítio onde o valor das terras só tende a aumentar é esta ilha, e por isso fiz um esforço gigante para pagar metade do preço da minha terra nova. O procurador nem pestanejou, depois da escritura feita depositei a metade do preço na conta do proprietário , apertámos a mão e sei que nunca mais tenho que lhe falar no caso excepto no dia em que pagar a outra metade.

Voltei a casa e fui andar para trás e para a frente na terra que já era minha , a apreciar a diferença, que é  enorme.

Pelo natal fui  dar a boas festas a uns vizinhos que por acaso eram as pessoas que tinham aquela terra arrendada há 20 anos atrás, contei-lhes a novidade e disseram-me logo que a mata também me pertencia, o que me deixou muito contente. Se repararem na foto a terra termina com umas árvores, é bordejada por uma “barroca” de uns 100m2 que estava brava como uma selva e que eu não sabia, nem o procurador, que fazia parte da  terra. “Mete-te já lá dentro para saberem que aquilo é teu!”, aconselhou o meu vizinho, e assim fiz, já comecei a limpá-la , de catana e motosserra,  são principalmente incensos mas há laranjeiras velhas, figueiras, araçás e as omnipresentes canas rocas e canas bravas, tenho para muito tempo a limpar aquilo e tirar de lá a lenha.A terra pode não ter ficado muito mais produtiva  pelo acrescento inesperado nem há grande coisa que se possa fazer numa barroca daquelas mas ficou mais bonita, também tenho uma mata! Como todo o resto, é pequenina, mas eu gosto de coisas pequeninas.

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Ano Novo

Passei uma semana no continente, é curto demais para uma visita em condições e mal tenho tempo de ver toda a família e amigos mas dá sempre para estar com a família nuclear e aquela meia dúzia de amigos crucial.

Ser largado no aeroporto de Lisboa nas vésperas do natal depois de um ano inteiro numa ilha pequenina é sempre um choque, a confusão, o barulho e a poluição começam logo à saída. Uma pessoa que chegue de uma grande cidade nem repara nessas coisas mas vindo de onde venho chego ali, olho em volta, respiro fundo e abano a cabeça. Como é possível?

Lisboa já esteve muito mais suja, falando  de lixo na rua, mas quer-me parecer que também já a vi mais limpa, não sei se a CML gasta o dinheiro todo em assessores e adjuntos a €4k por cabeça e depois fica sem verba para varredores e camiões do lixo, será uma questão de prioridades, pode haver uns montes de lixo aqui e ali mas podemos estar seguros de que o trabalho político é da melhor qualidade.

Todos os anos gosto de levar os meus 5 sobrinhos pequenos a alguma experiência diferente do que eles fazem todos os dias, é melhor do que oferecer um brinquedo e o ano passado tinha ficado combinado que este ano  íamos a um jogo de futebol. Eles nunca se esquecem e vieram logo saber do jogo, disse-lhes que não dava, não havia nenhum jogo do Sporting que pudéssemos ir ver nessa semana, à hora do jogo em Belém já eu tinha que estar no aeroporto para regressar. A minha sobrinha, que tem 4 anos e 4 irmãos, protestou que “não era justo porque o futebol é para meninos”. Ainda não reflectiu o suficiente sobre a questão do heteropatriarcado e da igualdade de género e eu fiquei sem saber qual a abordagem certa, se dizer-lhe que o futebol também é para meninas ou que íamos fazer outra coisa mais consensual e neutra. Devia enviar um email às Capazes a pedir indicações sobre qual a atitude correcta se a menina se recusa a participar numa actividade porque acha que é para meninos.

Lembrei-me de levá-los a dar uma voltinha de barco no Tejo, ficaram histéricos, pedi recomendações num grupo náutico no FB sobre barcos de aluguer no Tejo. Dantes havia 2 ou 3 barcos de charter, hoje há dezenas. Fiz uns telefonemas e percebi que os preços podiam não ser caros mas estavam bem fora do meu alcance. Uma das minhas expressões favoritas da vida é “quem tem amigos tem tudo” porque se prova verdadeira constantemente, e um amigo disse-me que não podia ir, estava a trabalhar mas que era só eu ir à doca e pegar no barco dele. Agradeci a confiança e a simpatia mas estes 5 são  um bocado índios e manter olho neles é incompatível com manobrar um barco. Outro amigo ofereceu-se para sair connosco no seu veleiro, lá fomos à doca de Alcântara e demos um belíssimo passeio até à Trafaria. O amigo é comunista e benfiquista, os meus sobrinhos ainda não sabem o que é um comunista mas aproveitei a ocasião para lhes explicar que há pessoas boas e amigas mesmo sendo do Benfica. Nisto a minha sobrinha comunica-me que se calhar é do Porto mas perante a minha expressão de tristeza disse-me que ainda estava a pensar. É que gosta muito de azul, critério tão válido como qualquer outro. Se acabar por não ser do Sporting mesmo com toda a lavagem cerebral e influência desavergonhada do tio, antes que seja do Porto.

De Lisboa para Alcobaça e no dia seguinte para as Caldas, cumprir uma tradição de mais de 18 anos, um jantar com os amigos da faculdade. Além da galhofa, da celebração da amizade e de contarmos uns aos outros como vai a vida é bom porque discute-se sempre muita política, coisa que aqui eu não faço por falta de interlocutores. Com aqueles amigos não só tenho a confiança de muitos anos como a vantagem de pontos de vista antagónicos, o que dá sempre pano para mangas. Um dos temas foi este  recente atingir de um novo mínimo na política nacional com a manobra dos partidos para tratarem da própria vidinha, juntando-se discretamente e aprovando sem actas uma nova lei que os isentava de IVA e eliminava o tecto de angariação de fundos. Dois problemas num : o conteúdo da proposta e o modo como foi cozinhada, difícil descobrir qual o mais grave.

A minha amiga simpatizante do Bloco acha que os partidos, como são fundamentais à democracia, se devem financiar assim e ter isenções destas. O comentário do Bloco ( que já vi noutras 3 ocasiões) de que são contra mas votam a favor, não lhe parece repugnante. O PCP também foi contra mas votou a favor e os contornos deste caso são uma nojeira pura, especialmente as declarações de uma deputada do PS (soube depois que é a sua vida desde os 22, tem 44 e nunca fez outra coisa) que disse que a isenção do IVA não prejudicava os cofres do estado, afirmação estúpida e obviamente falsa, mas é o que se pode arranjar.Espera-se agora que o presidente vete esta vergonha.

Quanto à questão da vida estar melhor graças à geringonça, é um facto para todos os funcionários públicos e pessoas que não sabem fazer contas. Ninguém se chateia com as cativações, com a degradação dos serviços, com os aumentos de impostos e  com o nepotismo porque há a percepção que a vida está melhor, e é esse para mim o grande triunfo da geringonça : convencer as pessoas de que isto está melhor por causa deles. O crédito ao consumo  também está a disparar e para muita gente isso é positivo, a mim mete-me medo mas talvez eu esteja enganado e seja bom para a economia.A manobra de transferir 200 milhões a Santa Casa para salvar um banco a falir seria, em 2013, suficiente para pedir a cabeça do primeiro ministro é confirmar que  governo não se importava com as pessoas e queria saber era dos bancos e empresas.Hoje não há problema nenhum , e é a essas e outras semelhantes que se deve o sucesso da geringonça: alteração de percepções sobre factos idênticos.

Houve acordo comum à mesa na excoriação do Trump, flagelo da humanidade e negação da decência na política e os amigos benfiquistas declinaram discutir bola, sabe-se lá porquê têm perdido o interesse.

Outro tema engraçado foram os pernis da Venezuela (tenho amigos de esquerda mas nenhum  defende o Maduro, são de esquerda mas não são estúpidos). Então a Venezuela não pagou a conta, não seguiram os tradicionais pernis de porco para o Natal e o mundo foi brindado com o Maduro a dizer que tinha assinado pessoalmente os cheques para pagar os pernis mas que Portugal os tinha sabotado. Tudo isto é maravilhoso, desde a ideia de ser o presidente a assinar pagamentos de importações até à noção de Portugal sabotar alguma coisa na Venezuela, é muito ridículo junto  mesmo vindo de quem já nos habituou a isso. O que é certo é que houve mais sofrimento para os venezuelanos e que a empresa nacional exportadora (por coincidência propriedade de um ex ministro, mas claro que é só coincidência) vai receber o dinheiro em falta, nem que seja do contribuinte português. É normal e tradicional que déspotas em todas as partes do mundo culpem interferências externas pela própria incompetência e a Venezuela está a testar essa ideia até ao limite.

Queria ir a um encontro da Iniciativa Liberal que decorreu no Saldanha mas nessa altura já estava doente e não conseguia sair, tive pena.Faço conta de lhes confiar o meu voto e queria aproveitar a oportunidade para fazer algumas perguntas e ouvir as pessoas que me poderão representar. Creio que se está a atingir um estado de saturação, que as pessoas se sentem roubadas e enganadas todos os dias pelos partidos com assento parlamentar e que muitos anseiam por uma mudança para lá da velha dicotomia esquerda/direita . Lembro que um ano antes do Macron ser eleito presidente da França o seu movimento era quase desconhecido, o que dá alguma esperança numa escolha que possa ir além dos partidos que há 40 anos dizem o mesmo e se dedicam a colonizar o estado e usá-lo ou a promover ideias do século XIX.  Fiquemos atentos.

Embarquei na sexta feira com febre e sei lá que mais, passei a noite em casa de amigos em Ponta Delgada e na manhã seguinte para a Horta, onde esperava, pelas previsões meteorológicas que via, ficar cancelado um dia ou dois. Depois da hora de atraso da praxe levantámos mesmo, fiquei um tudo nada apreensivo mas sei bem que não só o pessoal da Sata tem melhores fontes de meteorologia do que eu como confio a 100% nas decisões dos pilotos. Mesmo assim aterrámos nas Flores com alguns gritos, orações e muitos aplausos, abanou demais para o meu gosto e pousou numa roda, mas pousou. De volta à minha existência privilegiada em que deixo o carro, aberto, a 40 metros das chegadas e de regresso às Lajes, onde encontrei um cordeirinho acabado de nascer, o cão um bocado deprimido e o gato ausente em parte incerta. A do cordeiro é interessante porque na sexta feira sonhei  que tinham nascido cordeiros, e nessa tarde recebo uma mensagem do amigo que me tomou conta dos bichos a dizer que tinha nascido um. É daquelas coisas que dá que  pensar a gajos cépticos com dificuldades a acreditar no sobrenatural, como eu.

Continuo de cama mas em recuperação franca, a congratular-me por ter trazido caixas de comida sobrada das ceias que me vai manter uns dias evitando-me o suplício de cozinhar. O gato já voltou, o cão esta mais bem disposto e espero passar o ano na cama, provavelmente a dormir. A noite da passagem de ano só teve significado especial para mim quando era novo e era uma noite que se podia passar fora. A partir da altura em que podemos passar fora todas as noites que quisermos perde muito o encanto.

Não há balanços nem listas, coisas que nesta altura saturam tudo, há só a observação de que há um ano comecei a fazer yoga e o que e certo é que ainda lá ando e espero continuar, pela primeira vez uma das famosas “resoluções” foi levada a termo e é para continuar. De resto os meus desejos para 2018 são ver o Sporting  campeão, fazer melhor do que 16º nas regatas de botes baleeiros na Semana do Mar  e finalmente poder iniciar a produção legal de Ovelha Negra  .

 

Em trânsito

Já não saía do arquipélago há um ano e sinceramente a vontade de sair não era grande, mas há que fazer um esforço porque um dia vão-me faltar os meus pais e vou ficar  a pensar “quem me dera poder ir vistá-los agora…” . O esforço é mais por causa da bicharada, para as ovelhas e galinhas é igual mas o cão e o gato ficam desorientados e tristes, não estou a inventar que o cão fica triste, os vizinhos ouvem-no a uivar à noite, e são vizinhos não muito próximos. Já o gato tem reacções mais discretas mas também tem os seus hábitos e não há-de ficar satisfeito.

Das Flores a Lisboa implica sempre reservar um dia inteiro para viajar, saio de manhã das Lajes e chego a Lisboa noite cerrada depois de escalas na Horta e Ponta Delgada. A (única) cafetaria do aeroporto das Flores além de ser estritamente vegetariana agora apresenta em todas as mesas um exemplar de um jornal chamado MAPA. Nunca tinha ouvido falar, é um jornal auto designado de informação crítica, cheio de artigos sobre a opressão capitalista. Aliás, vendo bem todos os artigos são sobre a opressão capitalista, desde a luta contra a opressão que impede os okupas de se instalarem em propriedades que não lhes pertencem até às empresas que têm a veleidade de querer explorar minérios no fundo do mar passando por esse problema mundial grave que é a existência de fronteiras.

Diz lá no jornal que o bar do aeroporto é o único ponto de venda nos Açores, mas dado que há um exemplar em cada mesa quer-me parecer que é mais ponto de distribuição gratuito, mostra o activismo dos concessionários do bar. São um casal, ela é venezuelana, gostava de lhe perguntar que tal acha que vai a revolução popular no seu país e porque é que não está lá, já que lá luta-se a sério contra o capitalismo e constrói-se uma alternativa de futuro. É um governo que não consegue que haja papel higiénico nas lojas mas que  vai lançar uma moeda electrónica. O rapaz é americano , e a ele gostava de lhe  perguntar o que acha da contribuição do capitalismo do seu país que lhe permitiu juntar o guito necessário para se instalar nas Flores e explorar um bar. É sempre a velha história, o capitalismo é horrível excepto na parte que nos beneficia a todos, esqueçamos essa, foquemo-nos no que é mau e louvemos a utopia.

Um dia quando tiver dinheiro hei-de ir de avião ao Corvo, é o voo mais curto do país e creio que um dos mais curtos do mundo, o avião nem chega a ganhar altitude ou estabilizar, mal levanta começa logo a baixar.Dado que a passagem de barco custa 25€ e o voo uns €70 é uma excentricidade, mas um dia faço isso. Para o voo desta manhã havia um passageiro, que curiosamente não pode embarcar porque havia um problema com um artigo na bagagem. Quase toda a gente lá conhecia o rapaz, trabalha nas obras de expansão do porto mas esqueceu-se lá de um material qualquer proibido, veio a PSP e tudo e o moço ficou atrás.Regras são regras, é incrível.

Depois da hora de atraso habitual lá levantámos, 45 minutos de voo, escala de 25m na Horta e depois direitos a Ponta Delgada, cujo aeroporto está movimentadíssimo, comparado com aqui há 5 ou 6 anos. Fui beber um café com um amigo que trabalha na ANA e a notícia que andava na boca de toda a gente era que o concelho de administração da SATA se demitiu em bloco esta manhã. Há problemas sérios, os sindicatos estão a ajudar a resolvê-los convocando greves para o Natal e a SATA tem um buraco financeiro que mais parece uma cratera. Agravou-se quando o Banif rebentou e passou ao Santander. Uma das razões pelas quais o Banif estoirou foi que era mealheiro da administração pública, quem tivesse os contactos certos e ligasse do departamento certo tinha sempre crédito, sobretudo o governo, que nesta região se confunde com o PS. Certamente que esse uso liberal dos fundos  não teve nada a ver com a falência do Banif mas o que é certo é que os gestores do Santander não acharam muita graça ao processo e fecharam a torneira. Ora a SATA opera em permanente prejuízo, apesar de pagar e dar regalias como poucas empresas privadas e estas coisas podem aguentar-se uns anos bons mas forçosamente chegam a um limite.

Parece que foi agora, o CFO da empresa demitiu-se, provavelmente ao ver que não havia dinheiro para as despesas deste mês, e os outros decidiram ir também. Ainda não vejo nada nos jornais mas estas notícias  não me chegam de um nível nada baixo na ANA pelo que acredito nelas.Também acredito quando me dizem que já se fala na opção Francisco César , acredito e acho graça, para quem não sabe o Francisco César é filho do Carlos César e a piada faz-se sozinha.

Se esta administração não for convencida a recuar na decisão espero que a próxima tenha mais cuidado e rigor com o dinheiro público e que ponha isto na ordem, porque se esta região rebenta pelas costuras de organismos estatais de utilidade e eficiência dúbia a SATA não é um deles, se há empresa crucial nos Açores é  ela.

Isso tem sido mau na medida em que gestores e sindicalistas sabem que o accionista mor nunca  a pode deixar cair, podem fazer quase como quiserem que o contribuinte assina sempre o cheque. É o que se vai passar desta vez, e descansem que mesmo se as notícias desta convulsão não chegarem à imprensa isso não significa que não vai haver mais um camião de dinheiro para a SATA.  Pela minha parte esses fundos deviam vir com uma obrigação: acabavam de uma vez por todas com as rotas tipo escandinávia e Cabo Verde e limitavam-se a fazer o serviço público : ligar as ilhas entre elas, com o Continente e com as Comunidades Açorianas mais importantes. Para o resto não temos falta de escolha no sector privado.

Já vi mais pessoas esta tarde do que nos últimos 3  meses e ainda nem cheguei a Lisboa, estou a ficar cada vez pior. Deixo este videozinho de dois minutos e meio, mostra animais a ajudar outros animais, é fabuloso e faz-me sempre pensar na necessidade de um poder e lei superior para se ser bom e mostra-me  bem porque é que prefiro passar mais tempo com bichos do que com gente.

Boas Festas , um Santo e Feliz Natal e  juntava mais votos se soubesse o que é que irrita mais a rapaziada do politicamente correcto e da modernidade linguística nesta altura.Um santo Natal é das melhores para o efeito, vou andar a desejar isso a toda gente este ano.

Pesos, Medidas e Trump, outra vez

Quase todos os dias alguma novidade da administração americana me causa um refluxo gástrico. É verdade que me podia preocupar mais com a nossa administração, mas quanto à nossa já cheguei a uma conclusão: os problemas estruturais de Portugal são insolúveis e enquanto o fundamental estiver assegurado (a pertença à UE e ao Euro) o resto são detalhes, as decisões de peso tomam-se noutras paragens e de qualquer maneira a maioria das pessoas não quer saber. 200 euros em gambas contribuem para  um escândalo nacional, 200 milhões da Santa Casa para um banco a falir não incendeiam as redes sociais.  Não há nada como uma pessoa perceber que a situação não tem remédio para deixar de se preocupar. As pessoas acham importante  saber com quem vai casar o neto da rainha de Inglaterra, como está a saúde do Salvador Sobral e coisas do género, e quem se agasta e preocupa com questões políticas , ainda mais estrangeiras, tem as prioridades trocadas. Por cá está tudo bem.

Já a situação nos EUA me assombra não só pelo impacto num país que me era caro e que conhecia bem mas também  porque nem três clones do João Galamba a falar todos os dias conseguiriam atingir um nível tal de mentira, falta de nível, ofensa e  hipocrisia política como o Trump consegue. Todos sabemos que a política é feita de hipocrisias e distorções mas devia haver mínimos, ou máximos a partir dos quais se retirava a confiança aos governantes, especialmente em democracias, mas não, nem que esfreguem este gráfico na cara dos apoiantes do Trump eles vão admitir que este homem não é de confiar . O Obama, em 8 anos de presidência, mentiu confirmadamente 18 vezes. Este em menos de um ano  já vai em   103.

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Mais do que me chateiam  as mentiras e canalhices do presidente irritam-me muitas  opiniões e análises que vou lendo por cá. Nada me fará mudar de opinião sobre o Trump, especialmente porque pessoas daquela idade não  mudam, e o facto de se conseguir desculpar e apoiar um homem com a estatura moral de uma ratazana de esgoto deixa-me doente.

Claro que se pode concordar com as políticas da sua administração (dizer que são dele é admitir que ele seria capaz de delinear e implementar uma política, já está provado que não é) , se formos contra a imigração, a segurança social e a favor de mão pesada da polícia, por exemplo, é normal que se goste do homem, mas há uma coisa que me tem dado um nó na cabeça e que infelizmente ninguém explica nem , que eu saiba, pergunta claramente aos trumpistas nacionais: como é que aumentar o deficit em 1,3 triliões de dólares é saudado como uma coisa boa? É que as pessoas de direita que apoiam o Trump são as mesmas que, por cá e com o meu apoio, exigem déficits menores e controlados. Essas pessoas agora aplaudem uma explosão do deficit porque se baixaram os impostos, e eu não entendo. Déficit grande é mau cá e bom lá? Se calhar é e eu não percebo. Aplaudem estes cortes de impostos que , segundo todas as análises e cálculos, beneficiam desproporcionalmente os muito ricos, indo ao extremo de incluir um benefício fiscal a quem tenha um jacto particular, e o pessoal aplaude. Um senador republicano em fim de mandato, Bob Corker, anunciou que ia votar contra. Introduziram uma emenda que dava mais beneficios fiscais a quem, como ele e o Presidente, tem empresas imobiliárias, ele mudou de ideias e já votou  a favor, e anunciou isso sem vergonha frente às câmaras.Hienas.

Ontem o presidente anunciou a sua primeira comutação de uma pena, prerrogativa presidencial, a possibilidade de reduzir a pena de alguém que se acredite merecê-lo. Os EUA têm talvez a maior população prisional do mundo, nos milhões atrás das grades haverá milhares de casos de penas desproporcionais ou  controversas e reclusos merecedores. Trump decidiu comutar a pena a um milionário condenado por fraude bancária. 

Não há um limite moral? Por mais que se admirem as políticas, será que se pode continuar a apoiar um homem assim, que nem tenta disfarçar os seus instintos e motivações? Outra : por cá a direita, e mais uma vez com razão, do meu ponto de vista, argumentou que o crescimento económico nestes anos da geringonça se devia principalmente às medidas e reformas do governo anterior. Extraordinário que essas mesmas pessoas publicitem que o crescimento nos EUA neste ano é da “economia Trump”, resultado das políticas desta administração. Mas não vêm a incongruência nisso? Como na história dos déficits bons e deficits maus, aqui o crescimento deve-se a políticas passadas, lá deve-se ao governo actual. É demais.

Gostava de escrever mais sobre a ilha, os animais, os barcos, a cerveja artesanal, a época  e coisas assim mas isto enerva-me de tal maneira que tenho que ventilar, e como o cão e o gato não são sensíveis à problemática, é mesmo aqui.

 

Natal Lagarto

Um dos últimos comentários  jocosos que ouvi depois da eliminação do Benfica na Taça de Portugal foi “agora já sabemos como os sportinguistas se sentem no Natal”.  A boca vem de demasiados anos em que o Sporting, chegado a Dezembro, já estava afastado da maior parte das competições, senão de todas.  A expressão pegou de estaca mas  este ano , em que o Sporting lidera as tabelas no futebol, futebol feminino, futsal, hóquei a andebol e se mantém com possibilidades de vencer todas as competições, os benfiquistas recorrem a outro género de bocas, como essa.  A questão é que não é verdade, os benfiquistas foram  humilhados na Liga dos Campeões, eliminados da Taça de Portugal e não estão a jogar nada em Dezembro mas não sabem, nem nunca saberão, como se sentiam os sportinguistas em natais passados, por uma razão muito simples: os sportinguistas , além de desiludidos, sentiam-se roubados.

Existem várias diferenças importantes entre os  clubes, uma salta à vista neste facto : Jorge Gonçalves ganhou a presidência do clube, esteve lá cerca de 8 meses até ser corrido depois de se perceber que era um trafulha. Vale e Azevedo  ganhou a presidência do clube depois de ter sido expulso da Ordem dos Advogados por  falta de idoneidade moral e foi presidente 3 anos. Isto  indica um nível muito maior de tolerância a escroques e não me esqueço nunca de que numa altura em que se denunciava e combatia o arqui-corrupto Pinto da Costa, Vale e Azevedo se apresentava como “o Pinto da Costa Vermelho”, ou seja, ele não queria acabar com a corrupção, queria fazê-la trabalhar para a glória do seu clube. Com isto foi levado em ombros na Luz, são coisas destas que mostram que aquela conversa do “são todos iguais”  não vale.

Tal como tolerou e aplaudiu  Vale e Azevedo , a nação benfiquista acolheu, aclamou e deu carta branca a Luís Filipe Vieira, um indivíduo que já tinha passado pelo Alverca FC e cuja herança está patente na situação desse clube  hoje em dia (joga nas distritais) , que era sócio dos 3 grandes ( expliquem-me uma razão válida para isto) , que apresentava no CV uma condenação na justiça por roubo de um camião e que acumulou uma dívida de cerca de 400 milhões ao BPN, logo, ao contribuinte. Pareceu-lhes uma pessoa idónea e talhada para comandar o glorioso, e as vitórias apareceram.

A partir de uma certa altura a coisa começou a cheirar muito mal, tornava-se claro que havia demasiadas coincidências nas escolhas dos árbitros, nas decisões dos mesmos, nos castigos, nas convocatórias das Selecções, nas noticias da imprensa. O que para alguns eram coincidências inocentes para outros eram indícios de que o poder do Benfica ia muito para lá do futebol jogado por 11 em 90 minutos e que se fazia muita coisa no limite , ou mesmo para lá da Lei.

O caso dos vouchers é paradigmático: o Sporting queixava-se das prendas dadas pelo Benfica aos árbitros. Primeiro o Benfica dizia que não dava prendas nenhumas; depois admitiu que dava mas que eram irrelevantes; depois admitiu que eram significativas mas que não suficientes para influenciar os árbitros, e  por fim comprometeu-se a dar vouchers mais pequenos.  A PJ descobriu uma rede de tráfico de cocaína cujo ponto de venda era a porta 18 do Estádio da Luz, não aconteceu nada (ainda) porque se quer fazer crer que isso se podia passar sem que ninguém de responsabilidade no clube soubesse de alguma coisa. Depois há as claques,  como nos outros clubes mas  lá são ilegais, dado que não se registam nem o Estado cumpre a lei que as obriga a registar-se. Mais uma vez diz-se que são todas iguais mas  há pelo menos uma diferença, as do Benfica, além de ilegais,  já vão em dois assassínios.  O presidente diz que não sabia que o clube tinha claques, é talvez o único no país que não sabe. Também está registada uma sua frase lapidar que num país decente lhe teria valido o afastamento do futebol: “não é preciso ter os melhores jogadores se tivermos as pessoas certas nos lugares certos”.  Não acontece nada.  A PJ  investiga outros indícios de corrupção e quer fazer buscas no estádio, um  juiz não permite, bloqueia a investigação. Também esse juiz sente a chama imensa, é Águia de Ouro e a ideia de ver a PJ a devassar a Catedral é-lhe dolorosa demais. Para salvaguardar aparências, dá-se aviso e tempo suficiente para que o clube sanitize e organize os arquivos, e então lá vai a PJ. Lindo. Deputados, ministros , secretários de estado, directores gerais, centenas de funcionários como esses que nunca permitiriam nada na sua esfera que pudesse prejudicar o seu clube garantem a segurança. Enquanto  tudo isto se passa os benfiquistas atiram-nos os 15 anos sem ganhar o campeonato, aldrabam o número de títulos próprios e a data da fundação e mandam-nos jogar à bola.

A equipa era forte, construída com as ligações de Jorge Mendes, o super empresário que criou um esquema brilhante para inflacionar os preços e as cotações dos seus jogadores circulando-os entre os “seus” clubes , ganhando milhões de cada vez que há mudança. Exemplo claríssimo, o  Renato Sanches, que fez uma época boa, foi elevado a craque e estrela pela imprensa para lá de tudo o que seria razoável, a sua convocatória foi imposta na selecção, foi impingido ao Bayern pelo Mendes por uma verba astronómica e  hoje está a ser um flop total …  no Swansea. Mas tinham outros grandes jogadores, e com a protecção dos árbitros, cooperação da imprensa e silêncio das instituições , o clube sagrou-se tetracampeão de futebol.

Entretanto os negócios geniais e a “gestão 10 anos à frente dos outros” começa a mostrar algumas falhas, por exemplo gastam quase 5 milhões para “roubar” o Carrilho ao Sporting, um favor que nos fizeram, e vendem a maior parte dos craques . A equipa este ano ressente-se , desentende-se e começa a perder jogo atrás de jogo.

E  rebenta o escândalo dos emails, na medida em que pode rebentar um escândalo que a imprensa não quer ver exposto. Alguém roubou uma tonelada de emails do Benfica, entre funcionários e dirigentes, e o que se lê  é de vomitar. Mês após mês são claras  nessas trocas de emails as manobras e acções de altos funcionários e dirigentes do Benfica para corromper e influenciar as competições. Escolhem  os árbitros que querem para os jogos que querem; controlam a carreira dos mesmos arbitros, acumulam informação, muitas vezes de cariz mais do que privado, sobre os intervenientes no jogo desde o arbitro aos operadores de câmara; controlam as convocatórias das selecções, alimentam a comunicação social com as narrativas que escolhem; discutem fugas ao fisco e organizam corrupções e chantagens que metem de tudo o que é sórdido no mundo.

A primeira reacção do Benfica foi dizer que os emails eram falsos. Passado algum tempo, quando se viu que se tratava  de mais de 6gb de dados, começaram a dizer que “não havia ali nada”, que afinal eram verdadeiros mas não eram importantes, não havia lá nada de substancial. Ontem ameaçaram com processos judiciais a quem quer que toque naquilo, ou sejam admitem que são verdadeiros e são importantes. Tudo normal.

Começa a haver contestação interna, mas não se pense que é por estarem escandalizados com a corrupção, a contestação só começa agora porque não se vêm resultados positivos. Estivesse a equipa no topo da tabela e ainda em todas as competições e em vez de ouvirmos “espero que se investigue isso tudo, é uma vergonha para o meu clube” ouviríamos “é só azia, joguem mas é à bola”.

Os mais sensatos, cujo amor ao clube levou a nem quererem acreditar quando já tudo indicava que sim, estão agora preocupados e em silêncio. Depois de anos a mandar bocas  agora dizem “eh pá eu nem quero falar nisso, o futebol está um nojo”. Já está há muitos anos, mas quando éramos nós a dizê-lo éramos invejosos e tínhamos mau perder.

Os mais malucos continuam a negar , confundir, fugir para a frente e recorrer a argumentos tremendos como “vocês não ganham nada, essa é que é a verdade”. Se tudo o que está indiciado nestes anos todos, entre vouchers, fuga ao fisco, trafico de droga, corrupção e tráfico de influências, fosse levado  perante um juiz que detestasse futebol, aposto que dava para mandar o clube para a segunda divisão, prender 3 ou 4 e irradiar do futebol mas 6 ou 7. Como sou dos que acredita que a justiça tarda e muitas vezes falha não espero nada disto, a minha consolação é magra e é só uma : deixaram de poder negar a corrupção que praticaram e que lhes deu tantas vitórias, e a nós tantas amarguras, ao menos isso é certo.

Temos no Sporting um presidente que é odiado por muitos, o que não é mau, ele não está lá para agradar ao máximo de pessoas, está lá para agradar aos sócios e está a fazê-lo. As contas do clube são transparentes, em dia, auditadas, e a situação financeira é sólida e próspera. Correu com os empresários sanguessugas, acabaram os jogadores a granel, construiu-se um magnifico pavilhão para as modalidades, que estão vencedoras e de boa saúde. O estádio está quase sempre cheio de adeptos a vibrar com bom futebol. Os rivais podem ( e certamente fazem-no) revirar céus e terra à procura de indícios de corrupção no Sporting, além do episódio do Pereira Cristóvão, com o qual se lidou como deve ser, não há nada, zero.

Por tudo isto não gosto que me digam que “são todos iguais” porque claramente não são.  Podemos não ganhar nada mais um ano, não é muito grave, pode andar de cabeça mais levantada quem perde com  verdade do que quem ganha com mentira.