Votos

Não é que as filas ou multidões aqui sejam um problema mas a melhor hora para votar  é durante a missa, porque regral geral as pessoas votam antes ou depois, mas raramente das 11 ao meio dia. Estacionei a 10 metros da porta da Casa do Povo, não estava lá mais  ninguém para votar, no tempo que levou a atravessar a sala até à mesa já a senhora com o computador tinha encontrado o meu número de eleitor porque sabia o meu nome. Cumprimentei as pessoas, mostrei o cartão de cidadão e deram-me os boletins.

Conheço grande parte dos defeitos e insuficiências das eleições mas sinto-me sempre bem quando voto num processo organizado, claro e pacífico.Lembro-me sempre de países onde ou os votos não contam literalmente para nada, ou contam e há violência e corrupções de toda a ordem ou então são uma miragem de pessoas que gostavam de poder ter a sua opinião sobre os destinos do país reconhecida e contada. Enquanto houver liberdade de expressão e associação, imprensa livre e a possibilidade de de 4 em 4 anos mudar de governos, já não é  nada mau.

Aqui só o PS e PSD concorrem nas autárquicas, o que simplifica as coisas. O meu anti comunismo não é tão primário ao ponto de não reconhecer que uma autarquia do PC pode ser bem gerida e trabalhar bem mas regra geral e como princípio orientador, quanto menos comunistas organizados melhor.

Aqui há 1325 eleitores, votaram 988, quase 75% , para quem se importa com a saúde da democracia é um bom sinal. Também mostra que as pessoas se preocupam e interessam mais pela junta e a câmara do que pelo Terreiro do Paço. Este ano a margem foi muito grande mas aqui  uma dúzia de votos pode decidir uma eleição. O PS ganhou com 630 votos, o PSD teve 311. Nas últimas legislativas a abstenção foi de 50% , o PCP teve 16 votos, o PCTP MRPP teve um voto, o PNR também teve um voto e eu tenho quase a certeza que sei quem foi o gajo que votou no PNR, um conhecido meu completamente fascista.

 No resto do país não vejo grandes surpresas, o BE deve ter tido 25% de cobertura dos média para 3% dos votos e  nem o Isaltino Morais é uma grande surpresa. Como não tenho ideia de como é  morar em Oeiras não tenho ideia do que pode ter feito  o homem de tão importante para continuarem a votar nele desta maneira , mas esse é um problema das pessoas de lá.

Problema , grande, de outros é o da Catalunha. Lá votaram num referendo ilegal 38% das pessoas, e desses 90% querem a independência. Se os espanhóis mantivessem o sangue frio eram menos espanhóis, mas ao ouvir referendo, secessão e  independência, mandaram a polícia em força. Creio que teria sido muito melhor deixá-los fazer o seu referendo em paz , sempre a informá-los de que não conta para nada,  que até ver e no futuro próximo Barcelona é a capital de uma região parte de Espanha, por isso as coisas seguem como dantes.

Assim criaram “mártires”, opressão ,sofrimento e indignação. O líder dos independentistas é o chefe de um partido que obteve menos de 20%, salvo erro, nas últimas eleições. Respaldado num resultado de um referendo mal organizado, ilegal e sem obedecer pelo menos às normas formais dos referendos, diz que vai declarar independência. Tenho andado a ler sobre estes independentistas e como de costume os projectos são fortes no lirismo , visão e  inspiração mas são fininhos no detalhe. Como se o objectivo fosse a declaração de independência e todo o trabalho é feito para chegar aí , o dia seguinte a esse é muito menos discutido e pensado. Querer declarar independência depois de um referendo assim é de loucos.

O meu desejo é que  avancem depressa para uma conclusão, e só duas coisas podem acontecer : ou a catalunha secede e se torna um país ou permanece uma região de Espanha.

Se declararem a independência uma das  primeira coisas a acontecer  será a saída da UE (já tinha sido explicado aos escoceses o que aconteceria: saem para talvez voltar a entrar) . Tal como no referendo do Brexit, suspeito que a campanha independentista não passou muito tempo a falar sobre o que os catalães podem perder com a independência, talvez na crença de que não há inconvenientes nem custos.

Outra consequência  interessante pode ser no futebol, o FCB há décadas que é patrono, instigador, porta estandarte, eco, veículo e símbolo do nacionalismo catalão. Se se cumprir a independencia o FCB deve passar a jogar um campeonato com adversários do calibre do Lleida ou Espanyol , jogadores catalães naturalmente deixam de poder ir à selecção espanhola e deixam de ser cabeças de série em seja que competição europeia for. Eu achava bonito.

 

 

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Campanha Eleitoral

O cão deu sinal de movimento na canada, era uma caravana de campanha eleitoral que me visitava. Uma dúzia de pessoas, todas conhecidas, com T-shirts iguais e bandeiras . Tiveram que ficar em fila indiana porque na canada só passa  uma pessoa de cada vez.

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À frente vinha o ex presidente da junta novamente candidato nestas eleições. Agradeci, genuínamente, a consideração. Era a lista toda que se andava a apresentar aos eleitores , é um verdadeiro acto de democracia e cidadania que  não se reduz a entregar panfletos e debitar banalidades. Nestes encontros à porta das casas não só  as pessoas apontam os seus problemas práticos num instante e como o fazem a pessoas que se encontram todos os dias, é tudo vizinho, logo, mais responsabilizado.

O candidato disse que ia voltar a falar comigo sem ser em caravana,sobre o projecto para a junta, fiquei contente só de saber que há um projecto. Prefiro sempre algúem com um projecto a alguém sem projecto nenhum. O outro candidato tinha falado comigo , também é meu conhecido, mas tem mais dificuldades na parte do projecto. Agora fico à espera de receber  uma visita dele com a sua caravana de campanha. Se ele não vier ,  e depois me perguntar alguma coisa digo que não votei nele porque não me foi lá visitar para falar sobre as grandes opções de desenvolvimento  que ele envisiona para a freguesia, quais os eixos estruturantes para o seu mandato e em que me medida é que acha que a influência externa vai condicionar a actuação da junta nos próximos anos. Ainda não conheço o programa mas tenho a certeza que uma freguesia melhor faz parte dele.

Já passei por câmaras  de partidos diferentes e nunca tive razões de queixa nenhumas, de uns ou de outros. As grandes opções são uma discussão aparte, mas na relação autarquia-munícipe, sempre foram todos impecáveis comigo. Tem muito a ver com a acessibilidade,  aqui  conseguimos falar rapidamente com  a pessoa relevante , se o pedido ou requerimento for normal e justificado, a coisa faz-se sem se acumular aquela frustração que desencoraja e irrita as pessoas dos grandes centros urbanos às quais tudo demora horas e dias , só para chegarem ao edifício da Câmara é uma hora .

Outra coisa que facilita a minha relação com a administração e os serviços é que começo sempre perguntar o que é que é preciso para fazer X ou obter Y e nunca teço considerações sobre o que eu acho que devia ser preciso ou o que é que é preciso noutros sítios. Há muitas pessoas que acham não só que o funcionário está  interessado na sua opinião sobre a organização e funcionamento do Estado em geral e  do seu trabalho em particular como acreditam que transmitir essas mesmas opiniões e sugestões  ao funcionário vai fazer o seu caso avançar. Claro que a única coisa que isso gera é má disposição, isso sim já interfere no caso, mas não para o fazer avançar. Ou se pode fazer ou não se pode fazer, não há  intermédios e  perder  tempo, nosso e dos outros, a discutir universos paralelos onde as coisas são como deviam ser  e a lembrar as injustiças estruturais do nosso sistema  não ajuda muito.

A Câmara faz  e sempre fez coisas como  levar uma carrada de areia ou ceder o uso de uma ferramenta ou máquina pesada , serviços a todos os que o peçam, dentro do razoável. A junta tem menos meios e competências mas à   nova administração, seja a que for, vou pedir que me espalhem umas carradas de bagacina na entrada da canada, ou mesmo na canada toda se houver entusiasmo,  e que me emprestem o bobcat e respectivo operador para nivelar uma terra e cavar umas fundações. Como pedido público,  que empreguem  mais pessoal a mondar e limpar os trilhos e as ribeiras. Os trilhos têm que ser mantidos para que mesmo os turistas menos àgeis possam por lá andar contentes, e há aí umas ribeiras que em vindo uma carga de àgua dessas tipo Harvey iam forçosamente começar a sair do leito em vários pontos.É inevitável mas pode ser mais controlado, ou menos descontrolado. Só nas ribeiras que correm pelo meio da freguesia têm anos de trabalho se é para as limpar mesmo bem até ao mar e é daqueles trabalhos de que a maior parte das pessoas só se lembra quando há uma desgraça ao pé de uma ribeira. O meu grau de precupação com  isto é função da distância da minha casa à ribeira mais  próxima, e não é  muito alto  mas ainda que não pareça eu não me  preocupo só comigo próprio.

Também encontrei noutro dia o presidente da câmara,passou pelo bar do porto  numa acção de campanha. Quando ele entrou com a vereadora passámos a 5 pessoas no bar, e a empregada. A imprensa, inexplicavelmente, não apareceu. Conheço o presidente desde que  pôs o chip no meu cão, ainda não era presidente. Disse-lhe que votava nele, ele pareceu surpreendido e  perguntou-me se eu votava cá, disse-lhe que  já tinha votado cá nas últimas eleições, e contra ele,  mas desta vez voto nele. Fiz questão de clarificar que o meu voto era nele pessoalmente e não no seu partido. Vale o que vale , ou seja , o mesmo, um voto. Bebeu a que devia ser uma de muitas àgua das pedras do dia , eu aceitei uma mini , falámos um bocado do Clube Naval e ele lá seguiu para o próximo compromisso de campanha, foi misturar-se com a multidão de cerca de quatro pessoas que passava cá fora, saudou uma pessoa que estava na esplanada e dirigiu-se ao carro. Passou mais um carro ou dois e a tarde acalmou. Já houve comícios de campanha , e festas onde o eleitor é assegurado e encorajado nas suas convicções políticas por meio de discursos, jantares e bar aberto, argumentos que, de um determinado ponto de vista, são fortes.

Não há sondagens publicadas sobre as intenções de voto aqui na autarquia, por estranho que pareça. A minha previsão é dos cerca de 700 eleitores inscritos vão votar uns 400 , 230 para uns , 170 para os outros.

 

Negócios Autárquicos

-Vais votar nestas  eleições? , perguntava-me um amigo francês que mora cá

– Voto sempre.

-E votas em quem ?

– Eu  voto sempre contra os comunistas e socialistas, mas nas autárquicas abro uma excepção, voto mais pelas pessoas do que pelos partidos.

-E  nas legislativas,  votas na direita?

-O meu voto aí  não é por uns , é contra os outros. Eu sei que vai dar ao mesmo mas para mim a diferença é importante.

O meu amigo franziu o sobrolho,  tentei explicar melhor com os exemplo de todos os que votaram no Macron para impedir que a Le Pen avançasse, é o mesmo princípio. De qualquer maneira acho a divisão direita/esquerda muito ultrapassada, gostava de ver o debate e a escolha fazer-se entre colectivismo e individualismo ou estatismo e privatismo. Gostava de ver um partido liberal   mas em Portugal não existe política além da luta entre os que controlam o Estado e os que querem controlar o Estado, o papel dele não se discute  e é para continuar assim. Quem me dera estar errado mas isto é uma coisa cultural, pelo menos desde o Marquês de Pombal que o Estado é não o recolhido autor das regras ,o fiscalizador da justiça e o operador da partilha , derradeiro porto de abrigo de infelicidade própria ou pobreza alheia, mas o salvador da sociedade, o motor da economia, o distribuidor mor da riqueza, em suma , o dedo demonstrador do sentido clarificador da História . Um partido que venha reclamar e lutar pela redução do papel e influência do Estado em Portugal vai  lutar contra quase 300 anos de história e tradição, é um combate muito assimétrico.

Nestas eleições autárquicas devo votar no incumbente, tal como nas últimas também o fiz, e o incumbente perdeu. O actual presidente da Câmara é um tipo educado e calmo , comunica bem, representa bem o concelho e as suas políticas são as mesmas dos outros e da região, por arrasto: gerir empréstimos e fundos europeus,  fazer projectos de candidatura a mais fundos, empregar pessoas quer façam falta quer não e em geral manter isto a andar, devagarinho mas a andar. Num município como este não se pode vir com ideias revolucionárias nem rupturas, aliás, duvido que algum município do país seja capaz de alguma ruptura.

O presidente anterior, de outro partido, disse famosamente que “dão-me dinheiro para museus, faço museus”, este não é muito diferente e o critério de investimento rege-se pelo dinheiro que “dão”. Parece que finalmente parámos nos 8 museus num concelho de 1800 pessoas, agora há dinheiro para incubadoras de empresas, faz-se uma, quer faça falta quer não. Os outros não fariam nada de diferente, o PSD é tão  estatista como  o PS pelo que a comparação é entre seis de um e meia dúzia de outro. O PS leva a vantagem de ser o partido do Governo Regional, logo, este tende a favorecer e ouvir mais os autarcas da sua cor .

Por isso os critérios do eleitor nas autárquicas devem ser, a meu ver, os da honestidade e competência. A competência é fácil de avaliar, o cidadão olha à sua volta, compara com o que via há 4 anos, depois vai ver as contas (eu sei que é raro o cidadão que quer ver as contas) e os projectos e decide com esses elementos se há competência ou não. A honestidade é diferente, não está propriamente à vista e é muito mais difícil de avaliar.

Por exemplo, sabe-se agora que o Fernando  Medina, actual presidente e  candidato do PS à Câmara de Lisboa, não só é um às da imobiliária como tem uma sorte dos diabos. Vendeu um apartamento que tinha por mais 36% do que o que lhe tinha custado,  até aí tudo normal, o mercado das casas de luxo em Lisboa está em alta. Depois comprou outro apartamento, maior e melhor, só que desta vez o mercado funcionou ao contrário e a proprietária vendeu-o por 23% menos do que o que lhe tinha custado.

Isso só por si já é suficiente para levantar dúvidas, como é que num mercado em alta (a justificação, clara, para as mais valias que fez com a venda da outra casa) uma pessoa decide vender um apartamento que comprou por 800 e tal mil euros por 600 e tal mil. Ou bem que o mercado está em alta ou bem que o mercado está em baixa, os dois ao mesmo tempo não pode ser. Podemo-nos interrogar  sobre um presidente de câmara que ganha cerca de €3500/mês e compra um apartamento de €650000 mas isso é o menos, sobretudo vendo que a mulher do sr Medina é a sra Stephanie Silva , filha de Jaime Silva, antigo ministro de José Sócrates, adjunta de Medina quando este era secretário de Estado no mesmo Governo e advogada associada sénior na sociedade PLMJ. Uma pessoa não passa uma vida familiar na política a viver de salários mensais, isso está estabelecido há muitos anos e é claro para toda a gente.

Estas informações tirei-as deste artigo no Público, cheio de factos, com o título “Medina fez dois bons negócios com casas em Lisboa”.  Bons negócios, sem dúvida, mas isto leva-me a pensar como seria o título se por exemplo se soubesse que o Passos Coelho tinha feito bons negócios como este. Ou talvez seja um título sarcástico, porque para  além do absurdo de alguém comprar uma casa em Lisboa por 850 mil para a vender por 650 mil com o mercado em alta dez anos depois  há o pormenor de a proprietária vendedora se chamar  Isabel Teixeira Duarte. Por feliz e inusitada coincidência, a Teixeira Duarte, SA  beneficia de  contratos por ajuste directo com a CML.

O que me fez quase cair da cadeira a rir foi que o sr Medina, sem se rir, diz que não sabia que a proprietária tinha ligação  à construtora Teixeira Duarte. Sim,  porque é normal uma pessoa comprar uma casa sem saber o nome do vendedor e além disso Teixeira Duarte é um apelido muito comum e uma marca  insignificante  no meio empresarial. Foi daquelas coincidências felizes.

O sr Medina vai ganhar as eleições e estas negociatas e favores entre políticos e empresários  e a sua impunidade só podem surpreender os ingénuos. Não sei se ele foi bom ou mau presidente, não quero saber de Lisboa para nada, o que não gosto é que me façam de parvo. Nem o senhor Medina , que  acha normal ganhar 3500€ por mês e ir viver para uma casa que vale 850mil, diga o que disser o papel , e que ainda por cima tem a lata descomunal de dizer que não sabia que a senhora Teixeira Duarte tinha ligações à Teixeira Duarte,  nem os lacaios do poder que se apressam a defendê-lo, mostrando assim que acham bem que um político seja favorecido num negócio em centenas de milhar por uma empresa que subsequentemente recebe tratamento preferencial.

Podem embrulhar-me isto tudo em legalês e explicar todos os pormenores que fazem com que esta bosta fumegante seja perfeitamente legal, e também é óbvio que a história aparece por oportunismo eleitoral, mas isso  não muda a verdade: a um político ou governante que recebe favores particulares em troca de favores públicos chama-se CORRUPTO.

 

Sobre as Eleições Francesas

Mais vale ser pessimista, esperar o pior e depois reconhecer o engano e apreciar um resultado favorável do que ser optimista e confiante e depois sofrer desilusões. Felizmente enganei-me quanto às eleições francesas, os franceses revelaram-se menos xenófobos e isolacionistas   e mais europeístas do que o que eu pensava, ainda bem.

Não acho que o Macron seja a “esperança”  da Europa nem a “salvação” da França mas do lote de candidatos é o que me oferecia mais garantias de que isto não vinha tudo abaixo nos próximos meses, as pessoas que anseiam pelo colapso vão ter que esperar  mais um bocado. Congratulo-me com a obliteração da esquerda  em França, que agora tem que se reorganizar e renovar se quer  continuar a ser relevante.

Gostava de os ver a largar  muita bagagem e  entrar neste século em vez de continuarem  a martelar na tecla centenária : é um drama e um bloqueio haver pessoas muito ricas e pessoas muito pobres e é outro drama haver mais pobres que ricos. Se abandonassem a simbologia e o discurso de regimes  opressivos do passado e do presente; se abandonassem o discurso do confronto permanente e das expectativas exageradas que os trouxe a este ponto ; se num esforço hercúleo aceitassem a Economia de Mercado e a livre iniciativa e se dedicassem a melhorá-la e torná-la mais justa em vez de a querer abolir ou condicionar; se reconhecessem os limites do Estado e começassem a querer não expandi-lo cada vez mais e  sim racionalizá-lo, torná-lo transparente e retirá-lo de onde não deve estar para o reforçar onde faz falta; se em vez de querer decretar a igualdade começassem  a propor a liberdade de cada um subir até onde consegue desde que não atropele ninguém, continuando a defender os que vão inevitavelmente ser atropelados,  podiam perfeitamente ganhar um novo fôlego e grande apoio para travar todas as lutas que urgem para tornar o sistema mais justo e mais equilibrado. Por outro lado, também  podiam aferrar-se aos seus batidos programas, slogans e propostas , mas deixando bem claro que podemos ter a famosa e nunca vista  igualdade, só que vai levar a que seja  tudo nivelado por baixo, tudo reduzido ao mínimo denominador comum, excepto, claro está , para  os membros da classe dirigente. Prometer a prosperidade do capitalismo num sistema socialista  já não convence muita gente.

Acho que nada disso se vai passar e o mais provável é voltarem todos às trincheiras, tal como acredito que a senhora Le Pen não vai  equilibrar o seu discurso e programa, o mais provável é radicalizar-se  mais.

Como a democracia é óptima quando os nossos ganham mas uma coisa corrupta,podre  e desvirtuada quando perdemos, já há milhares de pessoas a organizar-se e a protestar contra o novo presidente que ainda nem se sentou na cadeira. Os mesmos que afirmavam que o Hollande ia revitalizar a França e relançar a Europa hoje dizem  que o Macron é um vendido e vai ser um fiasco.  O ilustre Varoufakis, paladino de sei lá o quê e  que nunca mais vai ter que passar por essa chatice de se sujeitar a votos, já veio dizer (claro que a opinião dele continua imprescindível para a imprensa) que se vai opor ao Macron com todas as suas forças,  felizmente são poucas.

Desde o Aristóteles que as virtudes do caminho do meio são proclamadas por sábios de vários lugares e religiões. A moderação,a síntese de opostos, a capacidade de se pegar em dois pontos de vista distintos e encontrar o terreno comum, são coisas que qualquer pessoa numa conversa particular vai considerar virtuosas e sensatas. Na política não funciona bem assim e um político que venha dizer que acha que uma ideia do seu adversário tem mérito e deve ser adoptada é logo fuzilado, com os seus correligionários à cabeça do pelotão. Acho que não é preciso dar exemplos concretos, não só da recusa de partidos de cores diferentes em  aceitar a validade das propostas dos adversários como da prática habitual de se condenar algo na oposição para depois o fazer  no governo ou vice versa.

Talvez o Macron consiga provar as virtudes do centrismo pragmático, talvez não. Pode ter é a certeza de que assim que anunciar uma reforma de fundo vai ter as ruas a ulular de raiva e sindicatos prontos para paralisar os serviços à mínima perda de privilégio,protecção e qualquer atenuar da discriminação sofrida pelos cidadãos que não trabalham para o Estado.

Quanto à questão da imigração, que lê este blog sabe que sou adversário do Islão,que lamento a islamização crescente da Europa,  e os abusos e ofensas de  imigrantes muçulmanos, refugiados ou não, possibilitados pela cultura da tolerância mesmo para quem não tolera os valores da sociedade que o acolheu e para quem vive na Idade Média . Não vejo com satisfação  a tendência demográfica nem o que ela representa em termos de perigo de extremismo, o que me faz não me preocupar demasiado é viver num sítio isolado desse risco e o facto de que é provável já não estar cá para ver  quando por exemplo partidos militantemente muçulmanos começarem a ganhar  poder em eleições por essa Europa fora . Por outro lado a mesma tendência demográfica mostra claramente que sem imigrantes a Europa daqui a  50 anos teria uma minoria de trabalhadores activos a sustentar uma maioria de reformados e uma quebra enorme de produtividade junta a  falta de mão de obra qualificada. Lamento não ter aqui links para sustentar isto, não peço que o creiam só porque sim e por favor investiguem, mas para mim é evidente que pessoas com menos de 55 anos hoje ou poupam particularmente e seguramente para a sua reforma ou vão ter uma surpresa muito desagradável quando chegar a sua altura de reclamar o que políticos de esquerda e direita lhes andaram a prometer durante anos, fingindo que este sistema de segurança social que temos é mais do que um elaborado esquema de pirâmide. Um influxo de imigrantes para  contrariar o envelhecimento galopante da população é uma das maneiras de mitigar isto. Outra é fazer o que eu faço : reduzir as necessidades com uma austeridade extrema e habituarmo-nos a viver com muito menos. “Como é que podes dizer a uma pessoa que ganha 500€ por mês para viver com menos?”. Não posso nem digo, esta recomendação, ou sugestão, é mais para os que ganham 1500 e mais e pensam que são pobres . Durante décadas políticos e vendedores de toda a espécie convenceram-nos a todos de que tínhamos determinados direitos e que nos era devido determinado nível de conforto e consumo, só por existirmos.  Enquanto as condições para ter esse nível puderam ser criadas com dinheiro pedido emprestado às gerações futuras, correu bem. Quando a bolha rebentar de vez vai ser o diabo, menos para os mesmos políticos e vendedores, não me consta que haja muitos ex deputados a passar dificuldades e creio que se houve sítio por onde a austeridade não passou em Portugal foi pela Assembleia da República e pelas reformas e privilégios automáticos dos políticos. Ninguém mexe nisso, nem o PCP é capaz de apresentar um projecto lei a pedir que , sei lá, os políticos tenham que trabalhar o mesmo tempo que os outros para receberem reforma, gostava de saber porque é que isso não pode ser feito e há-de ficar-me para sempre atravessada  a reforma de 7 mil euros mensais por 10 anos de serviço da  Assunção Esteves (a mesma que mandou editar a sua página da wikipedia para ocultar as suas origens humildes), são estas pessoas que fazem as regras e nos conduzem.

Voltando à questão da imigração,  a melhor abordagem para mim seria  , mais uma vez, a do meio:

Nem fechar fronteiras ou deportar centenas de milhar mas sim controlar melhor as fronteiras e os que as querem passar; combater sem dó as fraudes e abusos dos sistemas de segurança social; proibir  e punir claramente  o discurso de ódio em lugares de culto; obrigar os recém chegados a aprender a língua do país onde chegam e  banir inequivocamente a religião da política. Isto não resolveria  a questão do terrorismo nem da falta de integração dos imigrantes mas acredito que ajudaria bastante.

Depois do Trump , que continua a tornar a América num sítio onde nunca mais quero voltar, e do Brexit, onde o isolacionismo mostrou que está bem vivo em 2017 e logo num país que fez mais do que a maioria pela globalização, foi um alívio (a palavra mais usada  hoje pela imprensa) ver que ainda há alguma  esperança no caminho do meio e que não é inevitável que a  UE acabe….contra a vontade de comunistas e fascistas, é bom lembrar.

Uma palavra final para a Wikileaks e seu mentor, o sr Assange. Como é sabido, esta organização “dedicada à liberdade de informação”, escolheu a véspera das eleições francesas para divulgar um monte de documentos alegadamente “comprometedores” para Macron. Para quem ainda tivesse dúvidas sobre o que move essa organização, é lembrar que tal como fizeram o máximo para que Clinton não fosse presidente e sim o Trump, também agora quiseram prejudicar Macron e ajudar Le Pen, que como o Trump é muito amiga da Rússia. Se depois disto ainda vos restam dúvidas sobre o que os motiva , sugiro que vão ao próprio site da wikileaks e vejam o que lá se encontra sobre a Rússia, a Venezuela ou  o Irão , que é, em substância, nada.  A conclusão é fácil de tirar.

 

Allez, La France!

Amanhã é a eleição mas importante deste ano , a presidencial em França. Está tudo em aberto e ao contrário das últimas desta vez não se  escolhe só entre dois sabores da mesma coisa, há opções muito claras e distintas.

Se fosse Francês votava Macron, não gosto de extremismos, não vou muito com revoluções e  ideais  elevados de refundação, prefiro o pragmatismo da gestão e avanços incrementais em vez de rupturas. Desde que vi o Trump ser eleito que me convenci de que um fenómeno semelhante se pode passar em França : as sondagens são enganadoras porque grande parte dos votantes não admite a sua intenção de voto,  isto a meu ver deve-se ao estigma associado a posições que se podem chamar racistas ou xenófobas , que não é por serem estigmatizadas que desaparecem. Ninguém me tira da cabeça que foi a xenofobia e o racismo que elegeram o Trump, se a sra Le Pen ganhar em França será porque um número suficiente de franceses está farto e/ou tem medo de ver tanta gente diferente de si na sua terra e acha que um “líder forte” vai fazer a diferença.

Eu tenho medo da vitória da sra le Pen mas não é por causa da xenofobia. Com a xenofobia a  três mil quilómetros posso muito bem. Não sou estrangeiro, não quero ir para o estrangeiro,não tenho crianças a educar sobre os estrangeiros e  não há aqui um número significativo de estrangeiros. Recuso que se trate alguém mal por ser estrangeiro ou de outra cor, mas só o posso fazer em pessoa em situações concretas e reais , tudo o resto não passa de declarações de intenções, abstracções e coisas que se escrevem e dizem mas não mudam nada nem influenciam grande coisa.  O meu medo da  Le Pen é que se ela ganhar poucos duvidam que a UE vem abaixo, e isso já deve preocupar toda a gente.

Há depois o Fillon, que convenientemente desprovido de vergonha pessoal se apresenta como homem de experiência e moderação, é sabido que a maior parte das vezes os eleitores votam não num preferido mas no que detestam menos, espero que o Fillon tenha uma votação muito baixa, pelo menos para mandar a mensagem de que se querem ser eleitos têm que fazer um esforço um pouco maior e não tratar  corrupções e nepotismos como se fossem coisas normais.

E em quarto lugar , Jean Luc Melenchon, que como a maior parte dos políticos de extrema esquerda que nunca tiveram poder, é a honestidade, idoneidade e integridade em pessoa. Este mete um certo medo a pessoas como eu,  basta olhar para um comício dele, na última foto que vi estava lá o Iglésias e a Marisa Matias , o Tsipras já não é convidado para nada, o Corbyn é tão popular como a sífilis ou o François Hollande , os compagnons de route só são bem vindos aos comícios internacionais se as coisas lhes saem de feição e andam com boa imprensa , é uma fraternidade curiosa  a dos comunistas.

Uma segunda volta entre Le Pen e Melenchon quase certamente carimbava o fim da UE, ambos são contra o euro,ambos são contra o comércio livre , ambos são contra a livre circulação de pessoas e bens.  Se for esse o caso eu vou  desejar uma vitória do Melenchon, não só porque não me agrada o discurso, a pose e as ideias da Frente Nacional como porque será , OUTRA VEZ, uma ocasião de dar à extrema esquerda oportunidade de mostrar o que vale.  É a mesma razão que me fez esperar tanto a vitória do Tsipras e rir-me tanto (sou pouco solidário e bastante cínico) com o que aconteceu a seguir. O Chavismo, outra Aurora dos Povos saudado por todos estes melenchonistas, está a mostrar o seu valor.Não sei nem quero saber como está a Grécia mas sei que já não convidam o Tsipras ( esperança da Europa de 2011) para nada nem se fala da Grécia nos jornais.Temos então a nova Esperança da Europa em Melenchon, que não tem problema nenhum em definir-se como Comunista.Registemos bem isso para quando aparecer o argumento de que “isto afinal não era uma política comunista/socialista”.Melenchon propõe nada menos que a refundação do regime, comparado com os seus opositores tem as ideias mais radicais e quem tem espírito revolucionário (coisa que os Franceses reclamam mais do que todos os outros povos) tem  que votar nele.

Espero que , em falhando a opção moderada do Macron, seja o Melenchon a ganhar e que a França embarque numa nova revolução , vou estar atento às promessas , aos cenários, aos discursos e às propostas, e à realidade. Era bonito que o homem ganhasse , reformasse a França para melhor, aguentasse a União Europeia e mostrasse finalmente a tantos milhões como eu que os comunistas não só não comem criancinhas ao pequeno almoço como são capazes de gerir e levar uma nação a uma modernidade próspera, livre e pacífica. Não acredito, e não é por ele me ser antipático, é por já ter visto outras tentativas. Espero enganar-me, para bem de todos , que seja desta , cá estarei para engolir os sapos que forem precisos.

Ah, é verdade, faltou-me um candidato, o B. Hamon  do Partido Socialista , o partido actualmente no poder e cujo líder , actual presidente , entrou no Eliseu como (outra) esperança e guia da esquerda europeia e agora tem 4%  de aprovação do povo depois de um mandato fulgurante.  O Partido Socialista Francês está para desaparecer , o seu líder é a chacota da nação  e o seu candidato uma irrelevância. Se não fosse o caso os do nosso PS correriam para França a afirmar a solidariedade entre partidos irmãos , estando as coisas como estão nem lhe querem ouvir o nome e evitam o assunto. Política no seu melhor.

Outras eleições

Não falei antes das eleições holandesas por uma razão simples : a extrema direita não estava em risco de tomar o poder nem sequer entrar  no governo . É sempre um gosto ver como a entrada da extrema direita no governo é um risco e a da extrema esquerda uma oportunidade. É igualmente divertido  socialistas locais congratularem-se com resultados de uma eleição em que o Partido Socialista da Holanda teve 9,2% , menos um deputado que nas eleições anteriores, eu pelo menos acho piada.

Os jornais fizeram manchetes com os resultados positivos e os comentadores  esticaram-se  ao máximo para nos explicar que isto foi muito bom mas eu, que sou muito pessimista sobre este tema, não fiquei nada confortado, podem dar-lhe a volta que quiserem mas o facto é que numas  eleições que foram das mais participadas de sempre no país a extrema direita aumentou a sua votação e ganhou cinco deputados. 

Rescaldo Eleitoral

Há duas maneiras de avaliar candidatos a uma eleição : ou pelas características pessoais ou pelos resultados obtidos. Quanto à primeira , o estilo do Bruno de Carvalho incomoda muita gente , e não só os adversários, por ser impulsivo, falador , agressivo .A mim agrada-me ter um Presidente que é apaixonado pelo clube , mesmo que  a paixão e a  dedicação às vezes o façam exceder-se.

Quanto à segunda , só os sportinguistas sabem como estava o clube quando Bruno de Carvalho foi eleito em 2013 : penhorado , a vender ao desbarato jogadores para pagar salários , a  negociar e ser esfolado pelos abutres do mercado , a eliminar modalidades , a mudar regularmente de treinador ,  classificado no meio da tabela , achincalhado pelos rivais , a empregar no clube amigos das direcções sem cabimento nenhum, com as assistências no estádio uma vergonha e os sócios em desespero.

Elege-se Bruno de Carvalho e quatro anos depois , as contas estão em dia e a SAD dá lucro , o clube teve lucros extraordinários com a venda de craques e foi capaz de manter outros , os abutres que enriquecem à conta das negociatas foram banidos de Alvalade , construiu-se um pavilhão magnífico onde as modalidades vão continuar a prosperar . Os meus tios ofereceram-me uma assinatura do jornal do clube onde todas as semanas leio sobre títulos atrás de títulos e vitórias e ninguém põe em causa que o Sporting é a maior potência desportiva nacional , porque desporto não é só futebol. Há um canal de TV do clube . Ganhou-se uma taça de Portugal depois de 7 anos à míngua.No ano passado só não ganhámos o campeonato por uma bola à trave ou um cartão mal dado , foi uma época excelente e inclui-se uma supertaça ganha aos maiores rivais , coisa que dificilmente se quantifica. A estrutura está limpa, saíram os parasitas e oportunistas , só se trabalha para o clube e as contas auditadas estão à vista dos sócios. De quinze em quinze dias Alvalade enche e os sócios sorriem outra vez, os rivais espumam à menção de Bruno de Carvalho , o que também agrada a muitos como eu.

Perante este cenário , aparece Pedro Madeira Rodrigues a candidatar-se.Como figura lembrou-me imediatamente um representante da linhagem de filhos família que vinha recuperar a herança do Visconde , pessoa de nível  que sabe estar em sociedade e trata os filhos por você. De pessoas com apelidos hífenados e consoantes duplas que geriram o clube durante muitos anos como se fosse uma extensão do clube de bridge, pessoas de uma classe e correcção a toda a prova que depois era trituradas pelo futebol português , que de classe tem pouco.

A um número grande de betos  sócios dos escalões sociais mais elevados , o estilo do Presidente incomoda , e a isso se agarrou Madeira Rodrigues. O problema foi não perceber que tinha que ser realista e aceitar os méritos enormes da gestão de Bruno de Carvalho , e não foi capaz , nem isso nem de se mostrar uma alternativa séria e organizada .  Acompanhei o debate e no fim prometi que se o Bruno de Carvalho não ganhasse por 60% pelo menos dava a volta à ilha de cachecol do benfica amarrado à cabeça e a partir daí acompanhei de perto a “campanha”, sem nunca ver televisão . Quando o presidente começou a publicar a sua comissão de honra achei que 200 nomes estava bem , mas depois o homem não parou e todos os dias apareciam mais dezenas de nomes , até ao ponto de eu pensar , bem , não falta mais nenhum sportinguista conhecido , mas quem é que apoia o Pedro Madeira Rodrigues ? O candidato foi de fraco a patético a confrangedor , e desperdiçou uma oportunidade de se mostrar e ser alternativa para a próxima , ninguém o vai levar a sério outra vez.

No dia das eleições vi vários  amigos a votar em branco e comecei a ter dúvidas, há bastantes sportinguistas que não gostam do Bruno mas que por razões óbvias nunca votariam no outro. Também pensei que muitos não se dariam ao trabalho de ir votar , dada a qualidade da oposição .Pensei demais na hipótese de ter mesmo que dar a volta à ilha de cachecol do benfica na cabeça , brinquei com um amigo portista a dizer que dava a volta à ilha mas às 3 de manhã, mas não ia fazer isso. Se aposto e perco , pago.

Bom , foi uma noite longa mas fiquei radiante ao ver a actual direcção ganhar por números quase norte coreanos , a oposição a ser esmagada como merecia e o número record de sócios que foi votar , mostrando que o clube está unido atrás deste presidente.

Um clube não se gere como um país e o mandato do presidente é muito restrito : trabalhar exclusivamente para fortalecer o clube.Não é um concurso de beleza , não é eleito para ter boas relações com os outros clubes , não é eleito para não fazer ondas e ser diplomático , não é eleito para apaziguar ou agradar ao máximo de pessoas possível . Se neste próximo mandato , como esperamos , o Sporting ganhar campeonatos de futebol , o homem fica presidente para a vida , e eu não tenho problema nenhum com isso.