Ano Novo

Passei uma semana no continente, é curto demais para uma visita em condições e mal tenho tempo de ver toda a família e amigos mas dá sempre para estar com a família nuclear e aquela meia dúzia de amigos crucial.

Ser largado no aeroporto de Lisboa nas vésperas do natal depois de um ano inteiro numa ilha pequenina é sempre um choque, a confusão, o barulho e a poluição começam logo à saída. Uma pessoa que chegue de uma grande cidade nem repara nessas coisas mas vindo de onde venho chego ali, olho em volta, respiro fundo e abano a cabeça. Como é possível?

Lisboa já esteve muito mais suja, falando  de lixo na rua, mas quer-me parecer que também já a vi mais limpa, não sei se a CML gasta o dinheiro todo em assessores e adjuntos a €4k por cabeça e depois fica sem verba para varredores e camiões do lixo, será uma questão de prioridades, pode haver uns montes de lixo aqui e ali mas podemos estar seguros de que o trabalho político é da melhor qualidade.

Todos os anos gosto de levar os meus 5 sobrinhos pequenos a alguma experiência diferente do que eles fazem todos os dias, é melhor do que oferecer um brinquedo e o ano passado tinha ficado combinado que este ano  íamos a um jogo de futebol. Eles nunca se esquecem e vieram logo saber do jogo, disse-lhes que não dava, não havia nenhum jogo do Sporting que pudéssemos ir ver nessa semana, à hora do jogo em Belém já eu tinha que estar no aeroporto para regressar. A minha sobrinha, que tem 4 anos e 4 irmãos, protestou que “não era justo porque o futebol é para meninos”. Ainda não reflectiu o suficiente sobre a questão do heteropatriarcado e da igualdade de género e eu fiquei sem saber qual a abordagem certa, se dizer-lhe que o futebol também é para meninas ou que íamos fazer outra coisa mais consensual e neutra. Devia enviar um email às Capazes a pedir indicações sobre qual a atitude correcta se a menina se recusa a participar numa actividade porque acha que é para meninos.

Lembrei-me de levá-los a dar uma voltinha de barco no Tejo, ficaram histéricos, pedi recomendações num grupo náutico no FB sobre barcos de aluguer no Tejo. Dantes havia 2 ou 3 barcos de charter, hoje há dezenas. Fiz uns telefonemas e percebi que os preços podiam não ser caros mas estavam bem fora do meu alcance. Uma das minhas expressões favoritas da vida é “quem tem amigos tem tudo” porque se prova verdadeira constantemente, e um amigo disse-me que não podia ir, estava a trabalhar mas que era só eu ir à doca e pegar no barco dele. Agradeci a confiança e a simpatia mas estes 5 são  um bocado índios e manter olho neles é incompatível com manobrar um barco. Outro amigo ofereceu-se para sair connosco no seu veleiro, lá fomos à doca de Alcântara e demos um belíssimo passeio até à Trafaria. O amigo é comunista e benfiquista, os meus sobrinhos ainda não sabem o que é um comunista mas aproveitei a ocasião para lhes explicar que há pessoas boas e amigas mesmo sendo do Benfica. Nisto a minha sobrinha comunica-me que se calhar é do Porto mas perante a minha expressão de tristeza disse-me que ainda estava a pensar. É que gosta muito de azul, critério tão válido como qualquer outro. Se acabar por não ser do Sporting mesmo com toda a lavagem cerebral e influência desavergonhada do tio, antes que seja do Porto.

De Lisboa para Alcobaça e no dia seguinte para as Caldas, cumprir uma tradição de mais de 18 anos, um jantar com os amigos da faculdade. Além da galhofa, da celebração da amizade e de contarmos uns aos outros como vai a vida é bom porque discute-se sempre muita política, coisa que aqui eu não faço por falta de interlocutores. Com aqueles amigos não só tenho a confiança de muitos anos como a vantagem de pontos de vista antagónicos, o que dá sempre pano para mangas. Um dos temas foi este  recente atingir de um novo mínimo na política nacional com a manobra dos partidos para tratarem da própria vidinha, juntando-se discretamente e aprovando sem actas uma nova lei que os isentava de IVA e eliminava o tecto de angariação de fundos. Dois problemas num : o conteúdo da proposta e o modo como foi cozinhada, difícil descobrir qual o mais grave.

A minha amiga simpatizante do Bloco acha que os partidos, como são fundamentais à democracia, se devem financiar assim e ter isenções destas. O comentário do Bloco ( que já vi noutras 3 ocasiões) de que são contra mas votam a favor, não lhe parece repugnante. O PCP também foi contra mas votou a favor e os contornos deste caso são uma nojeira pura, especialmente as declarações de uma deputada do PS (soube depois que é a sua vida desde os 22, tem 44 e nunca fez outra coisa) que disse que a isenção do IVA não prejudicava os cofres do estado, afirmação estúpida e obviamente falsa, mas é o que se pode arranjar.Espera-se agora que o presidente vete esta vergonha.

Quanto à questão da vida estar melhor graças à geringonça, é um facto para todos os funcionários públicos e pessoas que não sabem fazer contas. Ninguém se chateia com as cativações, com a degradação dos serviços, com os aumentos de impostos e  com o nepotismo porque há a percepção que a vida está melhor, e é esse para mim o grande triunfo da geringonça : convencer as pessoas de que isto está melhor por causa deles. O crédito ao consumo  também está a disparar e para muita gente isso é positivo, a mim mete-me medo mas talvez eu esteja enganado e seja bom para a economia.A manobra de transferir 200 milhões a Santa Casa para salvar um banco a falir seria, em 2013, suficiente para pedir a cabeça do primeiro ministro é confirmar que  governo não se importava com as pessoas e queria saber era dos bancos e empresas.Hoje não há problema nenhum , e é a essas e outras semelhantes que se deve o sucesso da geringonça: alteração de percepções sobre factos idênticos.

Houve acordo comum à mesa na excoriação do Trump, flagelo da humanidade e negação da decência na política e os amigos benfiquistas declinaram discutir bola, sabe-se lá porquê têm perdido o interesse.

Outro tema engraçado foram os pernis da Venezuela (tenho amigos de esquerda mas nenhum  defende o Maduro, são de esquerda mas não são estúpidos). Então a Venezuela não pagou a conta, não seguiram os tradicionais pernis de porco para o Natal e o mundo foi brindado com o Maduro a dizer que tinha assinado pessoalmente os cheques para pagar os pernis mas que Portugal os tinha sabotado. Tudo isto é maravilhoso, desde a ideia de ser o presidente a assinar pagamentos de importações até à noção de Portugal sabotar alguma coisa na Venezuela, é muito ridículo junto  mesmo vindo de quem já nos habituou a isso. O que é certo é que houve mais sofrimento para os venezuelanos e que a empresa nacional exportadora (por coincidência propriedade de um ex ministro, mas claro que é só coincidência) vai receber o dinheiro em falta, nem que seja do contribuinte português. É normal e tradicional que déspotas em todas as partes do mundo culpem interferências externas pela própria incompetência e a Venezuela está a testar essa ideia até ao limite.

Queria ir a um encontro da Iniciativa Liberal que decorreu no Saldanha mas nessa altura já estava doente e não conseguia sair, tive pena.Faço conta de lhes confiar o meu voto e queria aproveitar a oportunidade para fazer algumas perguntas e ouvir as pessoas que me poderão representar. Creio que se está a atingir um estado de saturação, que as pessoas se sentem roubadas e enganadas todos os dias pelos partidos com assento parlamentar e que muitos anseiam por uma mudança para lá da velha dicotomia esquerda/direita . Lembro que um ano antes do Macron ser eleito presidente da França o seu movimento era quase desconhecido, o que dá alguma esperança numa escolha que possa ir além dos partidos que há 40 anos dizem o mesmo e se dedicam a colonizar o estado e usá-lo ou a promover ideias do século XIX.  Fiquemos atentos.

Embarquei na sexta feira com febre e sei lá que mais, passei a noite em casa de amigos em Ponta Delgada e na manhã seguinte para a Horta, onde esperava, pelas previsões meteorológicas que via, ficar cancelado um dia ou dois. Depois da hora de atraso da praxe levantámos mesmo, fiquei um tudo nada apreensivo mas sei bem que não só o pessoal da Sata tem melhores fontes de meteorologia do que eu como confio a 100% nas decisões dos pilotos. Mesmo assim aterrámos nas Flores com alguns gritos, orações e muitos aplausos, abanou demais para o meu gosto e pousou numa roda, mas pousou. De volta à minha existência privilegiada em que deixo o carro, aberto, a 40 metros das chegadas e de regresso às Lajes, onde encontrei um cordeirinho acabado de nascer, o cão um bocado deprimido e o gato ausente em parte incerta. A do cordeiro é interessante porque na sexta feira sonhei  que tinham nascido cordeiros, e nessa tarde recebo uma mensagem do amigo que me tomou conta dos bichos a dizer que tinha nascido um. É daquelas coisas que dá que  pensar a gajos cépticos com dificuldades a acreditar no sobrenatural, como eu.

Continuo de cama mas em recuperação franca, a congratular-me por ter trazido caixas de comida sobrada das ceias que me vai manter uns dias evitando-me o suplício de cozinhar. O gato já voltou, o cão esta mais bem disposto e espero passar o ano na cama, provavelmente a dormir. A noite da passagem de ano só teve significado especial para mim quando era novo e era uma noite que se podia passar fora. A partir da altura em que podemos passar fora todas as noites que quisermos perde muito o encanto.

Não há balanços nem listas, coisas que nesta altura saturam tudo, há só a observação de que há um ano comecei a fazer yoga e o que e certo é que ainda lá ando e espero continuar, pela primeira vez uma das famosas “resoluções” foi levada a termo e é para continuar. De resto os meus desejos para 2018 são ver o Sporting  campeão, fazer melhor do que 16º nas regatas de botes baleeiros na Semana do Mar  e finalmente poder iniciar a produção legal de Ovelha Negra  .

 

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Esquemas de Imagem

Há  4 anos passei pelo Panamá a caminho do Peru  e um português amigo meu que lá trabalhava pôs-me em contacto com uma rapariga alemã que lá tinha comprado um barco e estava na mesma marina onde está toda a gente do lado Atlântico.

A moça estava a iniciar uma aventura marítima que passava pela compra de um veleiro  usado e posteriores navegações, o meu amigo tinha-a conhecido  quando ele  trabalhava em charters e , como toda a gente, tinha passado uns tempos encravado em Shelter Bay .Tinham-se dado bem e ele, sabendo que eu estava para chegar,  disse-lhe para me procurar, que eu era um gajo com experiência e que lhe podia dar umas dicas.

A marina em causa é pequena e isolada, parece um enclave ou um resort, há aí pelos arquivos muitos posts sobre essa passagem pelo Panamá como este . Como essas marinas são um mundo  pequeno, eu tenho um radar muito afinado e a moça é bonita, reparei nela nem passava uma hora de ter lá chegado.O contrário não se verificou , coisa a que estou habituado, faz parte da ordem natural do mundo, já me afectou mas hoje é-me absolutamente indiferente, espero sempre precisamente zero e já nada me desilude por uma simples razão: já nada me ilude. Passei por ela ao pé do seu barco, foi como se não passasse. O que também é verdade é que há uma diferença enorme entre um desconhecido com a minha figura que passa por ali e o capitão de um catamaran novo de 58 pés vindo de St.Barts  a caminho de Peru, é daquelas coisas que nos tornam logo pessoas mais interessantes, que vale a pena conhecer, e a rapariga, ao receber a sugestão do meu amigo, veio ter à mesa onde eu estava com a tripulação.

Fui o mais civilizado possível mas sabia bem que a rapariga estava ali para falar com  o Capitão Ventura e não com o Jorge. O Jorge até teria  gostado muito de a conhecer mas  o Capitão Ventura tinha mais que fazer e nunca teve muita  paciência para amadores armados em aventureiros. O meu  horário estava apertado, a escala contava-se em horas,  entre trocas de tripulação, manutenção das máquinas e partida para Bocas del Toro para ir buscar os donos do barco que estavam para chegar de avião particular. Ainda assim e por atenção ao meu amigo convidei-a  para passar no barco mais tarde.Passou já  era de noite quando eu e o imediato ainda estávamos a suar enfiados nas casas das máquinas, viu logo que  aquele barco e o seu programa eram o mais distante possível do barco dela e dos seus sonhos e que não ia levar dali nada. Levar dali nada no sentido de algum favor, dica, contacto ou serviço  em tempo útil, porque ao contrário dos velhos todos que passavam o tempo a babarem-se para ela, a inventarem histórias, a trabalharem para ela e a partilhar as suas experiências muitas vezes ridículas, eu não tinha tempo nem interesse , não lhe ia oferecer nenhum presente nem ajuda nem dar a atenção a que ela está habituada. Moça inteligente como é nem sequer pediu para ver o barco por dentro, disse que como estávamos ocupados falávamos depois e foi-se embora. Na madrugada seguinte zarpei para Bocas del Toro e só voltei a essa marina depois de uma semana.

Lá continuava ela de volta do chasso ferrugento e cansado que tinha comprado sem saber navegar nem sequer apertar um parafuso, com a sua corte de iatistas reformados e vagabundos sortidos a tentar a sua sorte.  Vi-a passar com um bote de borracha a sair da oficina

-Bote novo, muito bem.

-Foi uma prenda, o não sei quantos sabia que eu precisava de um ,comprou um novo para ele e deu-me este

-A sorte das mulheres bonitas, nunca se lhes nega nada.

Deu-me um sorrisozinho ambíguo, seguiu caminho a arrastar o bote e foi a última vez que a vi.

Apesar disso, graças ao incontornável facebook, volta e meia vejo notícias dela, que usa essa rede social e um canal do youtube de uma maneira perfeitamente comercial. Inventou uma “organização” de objectivo incerto para além de lhe permitir andar de barco. Reuniu um número considerável de seguidores que mantém interessados com historietas e vídeos, sem nunca conseguir realmente  arranjar o barco, que como relíquia que é , é impossível de arranjar e de preparar para uma navegação séria, eu não embarcava naquilo se envolvesse perder a costa de vista, e mesmo assim não sei. À falta de alguma navegação séria  ou progresso e exploração real, tem a atracção,valor e  força toda na sua simpatia e beleza física, que não são pequenas. Angariou patrocinadores que lhe pagam estes passeios e esta vida mansa nos trópicos, e seguidores que não se cansam de a encorajar e de lhe afagar o ego, mesmo talvez sabendo que é uma menina europeia rica que passa 3/4 do ano na praia a fingir que se farta de trabalhar a arranjar um barco para ir ninguém sabe onde fazer ninguém sabe o quê, para nada mais do que o seu entretenimento e satisfação pessoal.

Passados mais de quatro anos vi hoje que ainda está no Panamá, recebeu ontem um motor novo para instalar num barco que vale muito menos que o motor, cortesia de um patrocinador que tem que achar que tem retorno,  que aquilo funciona, em termos de imagem. Tudo neste mundo é medido em termos de imagem .

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Se esta moça tivesse mais 50 quilos e não tivesse um  palminho de cara  estava possivelmente a trabalhar nalguma caixa de supermercado na  sua Alemanha natal, a poupar para as férias, a sonhar com os trópicos e com alguém que um dia a levasse lá. Como é assim pagam-lhe o modo de vida, não lhe exigem absolutamente nada e “seguem-na” aos milhares, com retorno de capital em “visualizações”, “partilhas”, patrocínios e apoios vários.

Podem dizer que isto  é inveja de um gajo que nunca conseguiu nada à custa do aspecto, que gostava era de ter o talento para fazer outros darem-lhe dinheiro, que queria  era  ter sido capaz de fazer o mesmo enquanto navegou, de usar a imagem , que toda a gente sabe que hoje em dia também se pode preparar e melhorar.

Não me parece que seja isso, acho que é mais um lamento por um mundo em que o que parecemos se sobrepõe ao que somos e fazemos, podemos não fazer nada de jeito mas se parecermos bem ao fazê-lo, meio caminho andado. Nesta época em que cada um pode ser o seu publicista, realizador , produtor e relações públicas isto é muito mais aparente. A forma em prejuízo da substância, a aparência como modo de vida.

Árvore,livro, filho.

Já plantei muitas árvores, algumas vingaram, outras foram comidas pelas ovelhas, outras ainda vão crescer, a minha preferida é um castanheiro que está enorme , quando foi plantado era uma varinha com um metro e meio hoje tem quase sete metros e já posso lá pendurar a rede e deitar-me à sombra dele.

Filhos, não vou ter. Mesmo que houvesse condições materiais ( a começar por uma mãe para o filho) sempre fui  demasiado egoísta para querer sacrificar a vida toda por outro ser e passar a fazer a minha vida depender da vida dele. Se me permitissem adoptar um já criado era capaz de pensar nisso, mas de certeza que há uma lei ou regulamento  que não permite homens sozinhos adoptarem crianças.Se calhar com boa razão, não sei. Acho que já há gente bastante no mundo,  os meus pais já têm bastantes netos e a ideia de que as nossas crianças vão ser especiais e fazer a diferença é ainda mais egoísta do que não as querer ter para não nos condicionarem a vida.

Mesmo assim, duas em três não está mal e se bem que esta história da árvore, livro e filho vale o que vale (pouco), fico satisfeito por  ter escrito e estar aqui a publicar um livro. O que separa o ficheiro PDF que partilho aqui de uma edição em papel são 300 ou 400€ que me fazem mais falta para outras coisas e uma questão de princípio, não quero pagar  para publicar a história. Está  disponível para quem não se importar de ler num écran, em PDF, no menu superior e outra vez mesmo aqui ao lado.

 

Outra Ilha

Amanhã vou com o resto da tripulação da Formosa para Santa Maria participar no Campeonato Regional de Botes Baleeiros e acho que se fosse eu o oficial (homem do leme) esta noite não dormia, mas como felizmente já não sou não estou nada preocupado, antes pelo contrário. O bote foi a semana passada no navio:

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Saímos daqui pelas duas da tarde para chegar ao fim do dia a Santa Maria, na sexta feira tiramos o bote do contentor e fazemos uns testes, as regatas são no Sábado e Domingo.

Dado que a minha política de base é “zero conflitos” e dado que não sei se alguém desta ilha lê isto ( aqui inventa-se muito, ouve-se uma braça e conta-se uma milha) não me vou alongar muito sobre as circunstâncias desta participação, sobre a organização e modo de funcionamento das regatas de botes baleeiros e sobre o modo como isso se faz cá, repito só que estou contente por fazer parte, que temos muita margem de progressão é que é possível que depois desta iniciação eu continue envolvido nisto no futuro, mesmo que a participação neste campeonato não tenha grande brilho…ou que seja mesmo completamente baça.

Santa Maria fica na outra ponta do arquipélago, e sei pouco  sobre ela: foi a primeira ilha a ser descoberta ; tem 5500 habitantes e é mais pequena que as Flores; tem um aeroporto que parece uma gare para uma pista gigantesca onde aterrava o Concorde; tem a única praia de areia branca das ilhas e tem  encostas escarpadas com uns acessos inacreditáveis onde se cultivavam  vinhas com esforço tremendo. Essas vinhas começaram a ser cultivadas logo no século XVI e a primeira vez que vi fotos delas pensei : era preciso estar mesmo num desespero por vinho para fazer aquilo. Estou agora mesmo a instruir-me um pouco na wikipedia e vejo que Sta Maria tem 36 igrejas e ermidas e 3 escolas, destas três aposto que duas são pós 25 de Abril e isto é o género de coisa  que para mim explica muito bem a condição do nosso belo país.

Vou cheio de curiosidade, sei que vamos ser recebidos e acomodados com hospitalidade e que não vai faltar convívio são (em terra) e passeios pela ilha, nestes intercâmbios entre os clubes todas as ilhas querem impressionar os visitantes das outras ilhas, e ainda por cima há um festival de música folclórica  o Maia Folk , que não é aquele folclore dos ranchos e gente desafinada e esganiçada a bater canas rachadas e massacrar acordeões, é musica popular de inspiração tradicional, como estes moços que vão lá estar, gosto disto:

Como a ausência é curta as ovelhas ficam em autogestão, amanhã de manhã ainda tenho preparações a fazer para as deixar todas com erva suficiente para estes dias, as galinhas vão ter que ser mais empreendedoras porque ninguém lhes vai dar milho, vão ter que esgravatar mais e procurar mais bicharocos e o meu vizinho vai cá passar para para alimentar cão e gato, que fazem companhia um ao outro, vou descansado.

 

Viajar sem destino

Chegou a Portugal uma agência de viagens que diz ter sido criada para aventureiros. Antes de ver mais de perto o modelo de negócio da Waynabox começo por dizer que  aventureiros não usam agências de viagem . Apesar disso é verdade que muitas pessoas gostam da ideia de aventura mais do que de aventura e que para essas pessoas comprar algo que é vendido como aventura é cómodo. E além do mais o que para uns não tem nada que saber para outros é uma odisseia , por isso é natural que apareça gente a tentar ganhar dinheiro com pessoas  que mal sabem mudar de um aeroporto para um terminal rodoviário mas querem ser aventureiras.

Então uma pessoa chega à Waynabox e  escolhe as datas de partida e regresso , e o número de pessoas que vai viajar. O destino , é surpresa e só é revelado dois dias antes da partida. Bom , se fosse surpresa só o conhecíamos à chegada , este pessoal limita-se a escolher o destino pelo cliente e a só lho divulgar dois dias antes da partida . Para evitar repetir um destino conhecido a agência apresenta um lista prévia da qual se eliminam opções ( por 5 euros cada) . É um verdadeiro cúmulo de aventura, compramos um bilhete de avião para um sítio escolhido de entre uma lista mas só sabemos qual é dois dias antes da partida , intervalo de tempo que é manifestamente insuficiente para uma pessoa se preparar para a aventura e lidar com as diferenças entre por exemplo aterrar em Praga ou em Barcelona , realidades tão distintas que exigem um nível de preparação muito diferente  , está bom de ver.Se fores em Dezembro leva um casaquinho  e lembra-te de que pode chover.Não compres já o Lonely Planet , compra-o na livraria do aeroporto.

As aventuras são todas de três dias pelo que devem excluir destinos tipo Cazaquistão ou Bora Bora, a “Waynabox estreia-se em Portugal com viagens para o Funchal e para Ponta Delgada”… são então estes os dois destinos de aventura que nos propõe para começar  : compre uma viagem na Waynabox e só dois dias antes da partida é que sabe se vai para o Funchal ou para Ponta Delgada , espectacular.

A agência é espanhola, foi um conforto ver isso para confirmar que ideias  mal amanhadas aparecem de todo o lado .