Da Corrupção e Desonra

Um tema seguro para ventilar e soltar vapor é uma das figuras que tem o condão de me pôr mal disposto quando o vejo, só por olhar para ele, o Trump.

Há um relatório de 400 páginas , resultado de uma investigação minuciosa feita por uma das organizações mais poderosas do mundo que documenta e demonstra que o presidente obstruiu a justiça e que a sua campanha teve relações com potencias adversárias, e  ainda ontem, para que só restassem dúvidas na mente dos cretinos, o Procurador Mueller falou pela primeira vez para dizer que só não constituiu arguido o presidente porque isso não é possível. Não sei se é pela Constituição ou por outra razão, mas um presidente em exercício não pode ser constituído arguido, não fora isso e o homem já estaria a responder por vários crimes.

Isso é uma coisa.

O que se passou ontem no Japão já é de arrancar os cabelos e abandonar a esperança, foi o sinal, para quem ainda precisava de um , que a miséria moral e  a corrupção de princípios e leis alastra , impregna-se, normaliza-se.

A Armada americana tem um destroyer chamado John McCain. Ora, o senador McCain veio de uma longa linhagem de soldados e foi herói de guerra. Era da juventude dourada nos anos 60  mas avançou para servir o seu país no Vietname, era piloto de caça, foi abatido e sobreviveu anos de cativeiro e torturas que lhe deixaram sequelas permanentes porque se recusou a ser libertado para servir a propaganda do Vitecong. Enquanto isso outro membro da juventude dourada da mesma geração, o Donald, cobarde como sempre foi nem sequer teve a coragem de fugir do país para não ser incorporado, ou pelo menos ser capaz de mexer os cordelinhos para ficar numa unidade segura, como o G.W Bush. Não, o papá pegou no livro de cheques e encontrou um médico corrupto que lhe diagnosticou uma condição abstruza que ningúem sabe definir, nem o próprio ( bone spurs)  e repetiu o “exame” e o “diagnóstico”  até ao fim da guerra.

McCain voltou ao seu país para ser governador e senador republicano, Trump nunca saiu e continuou a sua carreira de vigarice e basófia. Passam os anos e o McCain, como homem com honra, quebrou fileiras do seu partido e denunciou a fraude Trump. O homem, mesquinho e vingativo como é, nunca lhe perdoou, chegando ao absurdo de declarar, quando lhe perguntaram como é que era possível ele desvalorizar a opinião sobre defesa nacional de um veterano herói de guerra e líder político, que “preferia os que não se deixavam capturar”. Asco e vómito logo aí, mas ainda havia mais indignidades, entre elas ter feito uma birra porque a família do McCain náo lhe agradeceu o funeral de Estado.

Chega então aquele verme em visita de Estado ao Japão, e o USS John McCain está lá destacado. Ora, à volta de todos os autocratas narcisistas e alienados gravita sempre uma corte de sicofantas rastejantes cuja função na vida é agradar ao chefe, dizer-lhe o que ele quer ouvir, confirmar-lhe as opiniões e atacar os seus inimigos. Os estudiosos dos regimes autoritários chamam-lhe “trabalhar para o líder”.

Estas doninhas viscosas, à vista do USS John McCain e sua tripulação, perceberam logo, e bem, que a vista daquilo ia enervar o líder e potencialmente lançá-lo numa das suas tiradas incoerentes e raivosas. Pediram por isso ao comandante que tapasse o nome do navio e desse licença aos marinheiros  (que usam o nome do seu navio no boné) . Se o pedido  já era inconcebível aqui há poucos anos, o comandante aceder era impensável. Mas a  Marinha, neste caso o comandante do navio, para sua eterna vergonha e ignomínia, acedeu. Já vi fotos da lona a tapar o nome, sempre a parte que leva o orgulho da unidade e da tripulação, sempre conferido para honrar uma memória e inspirar valor. Taparam-no para não incomodar o entulho humano que ocupa o posto de presidente, e quando se chega aqui, quando as Forças Armadas, garante máximo da separação dos poderes e da independência de um país se baixam a este ponto, podemos esperar tudo, tudo de mau.

Já não vale a pena esperar que vozes da razão se levantem nem que “alguns homens bons” tomem uma posição. Basta ler o twitter do homem ou ouvir as suas diatribes diárias  para ver que não há  ali  nenhum espaço para a Razão. A América tem muito que amargar, e o mundo por arrasto.

Evolução para a Guerra

Todos os períodos históricos têm os seus pessimistas e profetas da desgraça, desde sempre que existem indivíduos que vêm o futuro negro, desde os autores do Eclesiastes até ao Shopenhauer,  passando pelo Voltaire e personagens como Cassandra ou  o nosso Velho do Restelo. Por cada visionário de olhos brilhantes há um realista com as mãos na cabeça, e a evolução da Sociedade e da Espécie continua, com umas consequências magníficas e outras macabras.

A questão principal é a velocidade a que as coisas começaram a mudar no último século, comparando com os 30 séculos precedentes, comparando com o início do tempo em que se começaram a tirar apontamentos e registar coisas.  “Antigamente”, até à Revolução Industrial, a regra era que 99% da população ia levar uma vida basicamente igual à dos pais, avós e bisavós, todas as mudanças, fossem na paisagem, no clima, na economia ou na organização social eram imperceptíveis no curto prazo.

Entre os Templários criarem as notas de crédito e o seu uso se generalizar passaram mais de 600 anos. Entre o Tim Berners Lee criar a Internet e o seu uso se generalizar passaram 30.

Uma pessoa no tempo das Invasões Francesas  respirava um ar de composição idêntica ao de uma no tempo do Viriato, mil e setecentos anos antes , essa mesmo pessoa hoje em dia, duzentos  anos depois, era capaz de morrer se se materializasse em  Lisboa e respirasse fundo.

Desde que nasci até ter uns 25 anos ouvia música no mesmo suporte que os meus pais e avós, o disco de vinil. Nos 20 anos seguintes já passei por CD, minidisc, mp3 e já vamos no streaming.

Ninguém consegue parar isto, o que é um bocado assustador porque se por um lado apreciamos e gozamos os frutos de toda esta evolução e mudança, por outro vamos tomando consciência de que esta evolução tem custos elevados, em certos casos tão elevados que são insuportáveis.

Para mim os custos mais elevados estão na política, ainda mais do que no ambiente. O Homem já mostrou que se é alguma coisa é adaptável, há milhares de anos que vivem humanos nas tundras geladas e nos desertos ressequidos e o Homo Sapiens não corre nenhum risco de extinção, ao contrário de muitas outras espécies. O que faz a política é decidir e determinar quais os grupos e indivíduos que prosperam e quais os que sofrem e desaparecem , e de onde eu vejo as coisas a noção de “bem comum”  interpreta-se como “bem comum aos do meu grupo”, provavelmente sempre foi assim mas agora é tudo exacerbado e amplificado.

Com a revolução das tecnologias de comunicação e a sua perversão pelos interesses mais daninhos cada vez se divide mais o mundo e a política é feita do confronto entre “nós” e “eles” , mesmo quando essa divisão é artificial.  Rebentadas e esgotadas as ideologias clássicas, quando a população está anestesiada pelo “entretenimento” e vidrada nas possibilidades infinitas de alienação que tem  no seu telemóvel, o sucesso político está nas mãos de quem consegue criar, explorar e maximizar as divisões.

Em vez de aceitarmos que o Socialismo trouxe coisas positivas e que o Capitalismo é o melhor sistema de organização económica, simultâneamente; em vez de procurarmos uma síntese das respostas de ambos aos problemas , em vez de rejeitarmos o que de negativo têm ambos , aferramo-nos aos “da nossa equipa” e diabolizamos os outros, trafica-se em absolutos, não se concede nem se recua, encara-se qualquer cedência como uma derrota e culpa-se sempre, sempre, o adversário, que demasiadas vezes se pensa como inimigo.

Como mais uma vez se comprovou, desta feita em Espanha com o surgimento do Vox, também a Terceira Lei de Newton se aplica na política, para cada acção haverá uma reacção correspondente. Os extremos alimentam-se do extremo oposto.

E os extremismos obviamente vivem da manipulação da opinião e das ideias “prontas a pensar”, vivem de jogar com os medos e inseguranças das pessoas e fazê-las crer que eles podem mudar as coisas a seu favor. Quando os métodos de transmissão de ideias eram as conversas, os livros e os jornais, a manipulação não era uma tarefa simples e exigia um certo domínio não só da retórica como do assunto em causa. Essa barreira desapareceu com a comunicação de massas e a possibilidade de fazer chegar seja que informação for a todas as pessoas ,  ao mesmo tempo que se conhecem os tais medos e aspirações de cada indivíduo, porque alegremente os comunicamos ao Mundo.

O Trump provou que não é preciso sabe falar, ser culto e dominar os temas para se chegar ao poder, basta conhecer o público alvo. Idem o Bolsonaro, idem o Orban, idem a fornada de proto ditadores que (a minha aposta) vão entretanto deixar de ser proto ditadores para assumirem o cargo em pleno e juntarem-se a outros de facto , como o Putin e o Kim, que de resto o Trump não se cansa de elogiar enquanto humilha aliados, e isso não revolta gente suficiente. Há 20 anos era impensável um país com uma democracia e instituições estabelecidas como os EUA dar o poder a um homem como o Trump, tenho bem na memória a candidatura do democrata Howard Dean que foi forçado a abandonar por se considerar ridículo e indigno de um estadista um grito que ele deu num comício. O Trump mente cerca de 8 vezes por dia, demonstra todos os dias uma ignorância vastíssima e  tem uma vida feita de desrespeitar mulheres, minorias, a verdade  e a Lei  mas tem uma esperteza enorme e sabe entusiasmar os seus, e isso basta.

E isto tudo para chegar à guerra que vem aí . De vez em quando percorro os arquivos deste blog à procura de previsões que fiz ou coisas que antecipei e que não aconteceram e até agora estou bastante satisfeito com o registo porque ainda não encontrei  nenhuma  relevante (não quer dizer que não haja , com este são 1350 posts e sou tão falível como o próximo) , vou deixar aqui mais esta:

Antes de o ano acabar os Estados Unidos vão declarar guerra ao Irão ou intervir na Venezuela.

É dos livros de História que o principal aliado e muleta de um ditador ou aspirante a ditador é o inimigo externo, real ou imaginado. Num país com uma história e tradição belicista como os EUA isso funciona ainda melhor porque a maioria das pessoas não só não tem a noção do que é como rejeita cabalmente  (até vir este presidente) o governo de um  déspota.          Um conflito militar  sempre foi relativamente fácil de provocar  (acabei há pouco uma história da queda de Cartago que explica lindamente como os romanos provocaram a Terceira Guerra Púnica ) e  é-o muito mais hoje em dia , fruto da tal aceleração incrível da tecnologia e do modo como ela permite criar uma mensagem e disseminá-la, mesmo que seja demonstravelmente falsa.

Acossado por todas as investigações ao seu passado e presente criminoso e pela revolta que provoca nas pessoas de bem providas de capacidade de raciocínio , o poder do Trump basea-se no bom desempenho  económico do país e no racismo e extremismo que ele alimenta e quem tem mais eco no país que os Americanos gostam de admitir.  Decorre uma guerra comercial com a China que soa bem quando é anunciada dos palanques dos comícios mas que é desastrosa economicamente, e quando a economia começar a piorar, quando a maioria das pessoas começar a perceber que a sua vida não está a melhorar como prometido, quando o apoio ao presidente começar a tombar, vai aparecer o “Casus Belli” e a nação vai juntar-se em torno do líder para lutar contra os maus, contra os inimigos, e os principais candidatos são os  governos do Irão e da Venezuela.

Uma guerra para desviar o foco, entreter o povo, enriquecer mais ainda os lobis do armamento e fazer-se passar por duro e valente.  A tecnologia avança a um ritmo incrível, a sociedade altera-se com ela mas há coisas que nunca mudam.

 

Anticlimático

Ao fim de longos meses de espera o procurador especial Mueller entregou o seu relatório sobre as relações entre a campanha do Trump e a Rússia. A frase que encheu os jornais e televisões foi “não se provou que houvesse conspiração entre  o Trump e a  sua campanha e os Russos”. A festa entre os trumpistas, liderada, claro está, pelo próprio, foi enorme, em proporção ao desalento em pessoas como eu. Não é grave, porque há várias questões importantes saídas disto.

-Não ficou estabelecida nenhuma colusão mas há meia dúzia de antigos membros da campanha Trump presos por manobras que incluem encontros com agentes russos e há cidadãos russos arguidos, pelo que se pode dizer que afinal não se vê chama mas a fumarada é bem real.

-Uma parte da investigação era sobre a alegada colusão, a outra sobre obstrução à justiça pelo presidente. O relatório diz que “não pode confirmar nem desmentir” e o Trump, incapaz de falar sem mentir, veio logo berrar em maiúsculas que foi “totalmente exonerado”. Isto é ofensivo porque se ninguém ainda tema cesso ao relatório todos tiveram acesso ao resumo feito pelo Attorney General e o que está lá muito claramente explicado é que “não se retirou uma conclusão, de uma maneira ou de outra”. Isto, para aquela raça de canalhas sem princípios que mentem como respiram, equivale a “exoneração total”, fica registado.

-Fica o fraco consolo de saber que esta que agora terminou foi uma de 17 investigações ao presidente, que deve ser tão investigado por ser boa pessoa, sempre escorreito e honesto. Também há o consolo de ver que o apoio ao presidente não diminuiu nem cresceu, ou seja, ninguém mudou de opinião sobre ele por causa disto.

-O que o público conhece é um relatório de 4 páginas sobre um relatório de 400. Quem compilou essas 4 páginas foi o AG, que além de ser apoiante do presidente já defendeu que este deve estar acima da lei enquanto presidente.  Isto não chega para tranquilizar e encerrar a questão, toda a gente quer ver o relatório completo e há que perguntar bem alto como é que uma “caça às bruxas” como o maníaco, na sua total e completa ignorância sobre História lhe estava sempre a chamar, como é que uma investigação acaba com meia dúzia de tipos presos e trinta e tal acusados pode ser irrelevante , como é que  se tem a lata de dizer que não havia lá nada.

Livre da investigação, o Trump e o seu governo podem agora continuar descansados a tornar a América grande, as duas últimas que ouvi são que vai prosseguir a campanha para desmantelar o Obamacare sem nada de eficaz que o substitua, eficaz no sentido de assegurar cuidados de saúde a todos e uma que parece inventada mas é verdadeira: a secretária da Educação é uma bilionária  que ocupa o posto porque pagou para isso, nada na sua história a indica para seja o que for ligado à educação e como o déficit está a explodir há que “apertar o cinto”, diz a senhora, que tem cinco iates se não estou em erro. Uma das coisas que vai neste apertar de cinto,  necessário entre outras coisas devido aos biliões em reduções de impostos para os milionários, é o financiamento para os Paraolímpicos. Os Paraolímpicos, que são a oportunidade para os deficientes competirem e se realizarem como os outros. Não deve haver no mundo muita gente que consiga ser contra os Paraolímpicos mas a administração Trump consegue, ao mesmo tempo que berra que esta é a melhor economia de sempre vai  retirar 16 milhões ao desporto adaptado. Vale a pena referir que  no contexto de um orçamento dos EUA 16 milhões de dólares  é quase um erro de arredondamento.

Sem a esperança da investigação do Mueller, que nos meus sonhos ia fazer o Trump demitir-se ou pelo menos não se voltar a candidatar, já acredito que ele pode perfeitamente ganhar outra vez para o ano. Não há nenhuma canalhice, mentira, ofensa, desonestidade, incompetência ou absurdo que lhe retirem o apoio que tem, não só dos eleitores como de todos os políticos que têm o seu destino colado ao dele e por isso comem tudo o que ele lhes põe à frente. Há que aguentar, só uma crise económica séria vai tirar de lá aquele tipo,e nem isso é certo. Tenho que me conformar.

Por cá ao menos não temos problemas por ter um presidente criminoso, mentiroso patológico  e semi analfabeto, ao menos isso. O nosso está noutro nível, é só um bocado parvo e inconsequente,  hoje por exemplo achou que era bom escrever para o correio dos leitores de um jornal a explicar em 9 pontos onde andam e o que fazem os seus familiares, para que não se julgue  (mesmo que ninguém lhe tivesse perguntado nada nem acusado de nada) que ele entra em favorecimentos à família. O último ponto é a esclarecer  que ninguém o nomeou para presidente, foi o povo que votou nele. Caso houvesse dúvidas.

 

Sessão de terapia

Lamento mas tenho que ralhar outra vez sobre o Trump e o número de defensores que ele tem no nosso país, número que felizmente já teve uma evolução negativa mas ainda assim persiste. Pessoas como o Nuno Rogeiro continuam a defender o homem e a tentar menorizar os que o criticam e denunciam pensando que a ressalva “mesmo que não simpatize com ele”  lhes limpa a folha e permitirá no futuro dizer “ah, eu nunca simpatizei com ele” como se isso desculpasse o apoio que lhe dão.

Ontem o presidente esteve no Vietname. Curiosamente, grande parte dos seus apoiantes são militaristas que não se incomodam com o facto, provado, de que ele pagou para lhe inventarem uma desculpa médica para não prestar serviço militar com a sua geração na guerra do Vietname. Pior que um desertor ou um refractário, acções que mesmo assim necessitam de alguma coragem, o Trump é um entre muitos que ficou no seu país e no seu conforto de milionário, corrompendo médicos com o seu privilégio  enquanto os outros iam lá malhar com os costados e morrer. É hoje o Comandante Supremo das Forças armadas, eu ainda me lembro da comoção que foi quando se soube que o Bush Jr, na mesma altura , tinha prestado serviço militar na Guarda Nacional na segurança do Texas. Ao menos foi incorporado, fez recruta e prestou serviço numa unidade.

Nesta visita ao Vietname foi encontrar-se com o maluco da Coreia do Norte, ditador hereditário que mantém o seu povo prisioneiro e sub nutrido e manda matar opositores. Se bem estão lembrados aquando da primeira cimeira uma carrada de idiotas veio gritar “estão a ver, o Trump já conseguiu o acordo com o Kim!“. Não conseguiu nada , nem antes nem agora, não há acordo de espécie nenhuma como é fácil de confirmar, o que ontem se ouviu do Trump foi criticar o Obama por não ter conseguido um acordo. Falou também no caso do americano que passou lá 15 anos de trabalhos forçados e torturas e que morreu em consequência disso. O presidente diz que acredita no ditador, que acredita que ele não sabia de nada nem sabe do que se passou. Tal como no caso dos jornalistas assassinados pelos russos ele diz que acredita no Putin e no caso do jornalista  desmembrado pelos sauditas ele acredita no príncipe saudita, mais uma vez, a terceira,  diz que acredita num ditador. Quem é que tem opinião diferente? Os serviços secretos e de informações americanos, que estão naturalmente satisfeitíssimos com um presidente que não só se orgulha de não ler relatórios como os contradiz publicamente porque se acha mais esperto que todos. Por três vezes o Trump prefere acreditar em ditadores, aceita a palavra deles contra as evidências e contra a indicação dos serviços de informações mais poderosos  do mundo, por acaso os seus, e isso é aceitável para os defensores dele. É de trepar pelas paredes acima em desespero.

Na semana passada, há gravações disto, o gabinete falava à imprensa sobre acordos de comércio com a China. O Secretário do Comércio explicou a diferença entre um acordo e um memorando de entendimento, corrigindo o presidente, que ficou visivelmente agastado, corrigiu, ou pensou que corrigiu,  o secretário do comércio de uma maneira absurda  e terminou com este a fazer como se faz com uma criança birrenta para ela se calar: Está bem , de agora em diante não lhe chamamos mais Memorando de Entendimento, chamamos sempre Acordo. E é assim , diz quem lá trabalha, o dia a dia daquele governo. Mesmo quando não sabe, ou sobretudo quando não sabe, ele pensa que sabe e não suporta ser contrariado.

Vão-se fazendo as contas e a última contagem diz que o Trump faz 5 afirmações incorrectas ou falsas por dia, ainda há pouco tempo li um discurso dele em que até sobre cães ele consegue mentir, no caso era sobre as capacidades dos pastores alemães. É patológico e não tem limites, já se passou há muito tempo daquele nível em que se trata das mentiras habituais e esperadas nos políticos, tipo “acabou a austeridade” ou “eu não tinha conhecimento desse problema” para um chorrilho constante de mentiras que entre outras coisas cumprem a função de saturar as pessoas e de já ninguém querer saber ou dar importância. Chegámos ao ponto em que comentadores e políticos encolhem os ombros perante a mentira do dia e dizem, ah , é o Trump a ser Trump, não se pode ligar a essas coisas. Não só pode como deve , e tolerar esta corrosão total da confiança  e da idoneidade que se espera dos governantes é medonho.

O Bill Clinton enfrentou um processo de impugnação por ter mentido sobre as suas relações extra conjugais com uma estagiária Este homem mente sobre tudo, desde a sua declaração de impostos até ao seu passado, passando pelas relação com potencias estrangeiras e incluindo as declarações públicas que faz, e lá vai fazendo o seu caminho de corrupção , enriquecimento e incompetência, é assombroso. Entendo perfeitamente que os republicanos se sintam forçados a apoiá-lo, não só não querem ir contra a base eleitoral dele, quase a mesma que a sua, e muito menos perder os doadores, gente impecável como a NRA, as farmacêuticas e a indústria do carvão. Como são políticos, no dia em que ele cair vão imediatamente dizer que sempre viram as coisas mal encaminhadas e tentaram avisar mas estavam de mãos atadas. Isso é natural.

Agora, que gente como o Nuno Rogeiro (falo dele hoje por causa de uma troca ontem no FB que foi reveladora disto tudo) continue com uma atitude ambígua dando o seu apoio semi velado e temperado pelo disclaimer “mas não simpatizo com ele” já me incomoda mais.

Então ontem , enquanto o Grande Negociador estava a ser humilhado por mais um ditador no Vietname, em Washington houve umas 9 horas de depoimentos do ex advogado do Trump perante o Congresso. Esse homem foi condenado, até ver, a 3 anos de prisão por coisas que fez ao serviço do Trump, entre elas entregar um cheque a uma actriz pornográfica com a qual o candidato apoiado pelos Evangélicos e a direita religiosa teve um encontro sexual enquanto a sua terceira mulher estava grávida. Tudo normal.

Durante mais de 9 horas esse advogado caido em desgraça confirmou  o que toda a gente atenta, com dois neurónios funcionais e sem palas ideológicas nos olhos já descobriu há anos : o Trump é um racista, mentiroso e vigarista e a sua empresa e negócios funcionam muito como a Máfia. O dr Rogeiro acha que o advogado não tem credibilidade  e não apresentou provas. Porque os arrependidos da Máfia que ajudaram, nos EUA e em Itália, a meter na cadeia dezenas de padrinhos, eram todos pessoas de altíssima credibilidade e foi por isso que foram arrolados como testemunhas. Além disso ao super informado e sagaz doutor da actualidade internacional escapou um ponto, não se tratava ali de um julgamento , era uma audiência congressional, mas isso agora não interessa  nada, como não houve vídeos nem documentos assinados pela mão do Trump a incriminar-se, aquilo não valeu nada. Muito bem.

Por falar em máfia , é o meu consolo e esperança que há um homem nesta altura a trabalhar com toda esta gente e todos estes documentos e todas estas ligações criminosas, um homem de reputação tremenda, carreira admirável e personalidade de aço, o Procurador Mueller. Este homem é o total oposto do Trump, começando logo pelo Vietname: enquanto o Trump se escondia pagando a médicos para lhe inventarem doenças o Mueller, que até por questão de estudos podia ter sido isento do serviço, alistou-se como voluntário e foi lá ser dos mais condecorados e valorosos oficiais da guerra. Foi 12 anos director do FBI e investigou e condenou mafiosos como John Gotti, e por isso conhece bem os meandros e modos de pensar dessa canalha e certamente ri-se quando tentam atacar a credibilidade de um informador arrependido. O Trump nunca se cala e fala da investigação todos os dias, aterrorizado como está por ela. O Mueller nunca abre a boca, só se exprime por meio das comunicações e diligências judiciais . Nesta investigação, que o génio tenta desvalorizar todos os dias, já foram proferidas 37 acusações e já há pelo menos 4 associados do Trump atrás das grades, não está mau para uma caça às bruxas.

Tenho esperança nas instituições americanas, tenho esperança que o homem caia, mas não muita, sei que não há impossíveis nem limites quando se trata de hipocrisia política , corrupção e desinformação. Também sei que se chegar esse dia feliz todos os inteligentes que hoje o desculpam , racionalizam e apoiam vão ser capazes ou de um mortal à retaguarda ou de entrar pelo caminho do golpe, sempre o mais fácil. Uma cabala do “estado profundo”. Muitos irão apontar que ele vai cair por alguma coisa de trivial tipo fuga aos impostos , espero que alguém lembre essas pessoas que foi por uma coisa assim que se prenderam mafiosos como o Al Capone e que quando se luta contra criminosos qualquer dos crimes serve para os arrumar.

O que o Trump é está à vista de todos os que se dêem ao trabalho de olhar. Os que preferem ignorá-lo   por terem  em vista objectivos estratégicos e ideológicos mais largos hão-de pagar por isso. Ou melhor, deviam pagar por isso, mas eu até  vislumbro a possibilidade de ele voltar a ser candidato, ser reeleito e depois fazer eleger o filho em 2024.

Eu sei que há problemas muito maiores para Portugal, para os Açores e para esta ilha, e sei que há coisas muito mais interessantes e histórias que valem muito mais a pena mas isto dá comigo em maluco e escrever estas coisas é uma espécie de terapia.

Intercalares

Hoje são as eleições intercalares nos EUA . Tal como com o aquecimento global, com isto dos populismos e novos autoritarismos, já passou a fase de nos preocuparmos com o que aí vem e devíamos focar-nos em lidar com o que já cá está. Não faço prognósticos nenhuns e só falo sobre isso porque li uma das coisas mais interessantes dos últimos tempos sobre demagogia e populismos, vai mais ou menos assim:

– As democracias não arriscam começar a morrer quando um demagogo é eleito mas sim na segunda eleição, em que ou é rejeitado pelos eleitores ou as instituições são co-optadas e o demagogo aceite como normal.

É isso que está em causa hoje nos EUA. A única coisa que tenho a ver com o caso é uma noção de decência humana, de inteligência e de respeito pelos factos que o Trump espezinha diariamente, e ainda uma réstia de confiança nas instituições do que chamamos democracia liberal. Se os republicanos mantiverem hoje as maiorias, é desistir.

Pesos, Medidas e Trump, outra vez

Quase todos os dias alguma novidade da administração americana me causa um refluxo gástrico. É verdade que me podia preocupar mais com a nossa administração, mas quanto à nossa já cheguei a uma conclusão: os problemas estruturais de Portugal são insolúveis e enquanto o fundamental estiver assegurado (a pertença à UE e ao Euro) o resto são detalhes, as decisões de peso tomam-se noutras paragens e de qualquer maneira a maioria das pessoas não quer saber. 200 euros em gambas contribuem para  um escândalo nacional, 200 milhões da Santa Casa para um banco a falir não incendeiam as redes sociais.  Não há nada como uma pessoa perceber que a situação não tem remédio para deixar de se preocupar. As pessoas acham importante  saber com quem vai casar o neto da rainha de Inglaterra, como está a saúde do Salvador Sobral e coisas do género, e quem se agasta e preocupa com questões políticas , ainda mais estrangeiras, tem as prioridades trocadas. Por cá está tudo bem.

Já a situação nos EUA me assombra não só pelo impacto num país que me era caro e que conhecia bem mas também  porque nem três clones do João Galamba a falar todos os dias conseguiriam atingir um nível tal de mentira, falta de nível, ofensa e  hipocrisia política como o Trump consegue. Todos sabemos que a política é feita de hipocrisias e distorções mas devia haver mínimos, ou máximos a partir dos quais se retirava a confiança aos governantes, especialmente em democracias, mas não, nem que esfreguem este gráfico na cara dos apoiantes do Trump eles vão admitir que este homem não é de confiar . O Obama, em 8 anos de presidência, mentiu confirmadamente 18 vezes. Este em menos de um ano  já vai em   103.

chartoftheday_12338_how_trump_s_lies_compare_with_obama_s_n

Mais do que me chateiam  as mentiras e canalhices do presidente irritam-me muitas  opiniões e análises que vou lendo por cá. Nada me fará mudar de opinião sobre o Trump, especialmente porque pessoas daquela idade não  mudam, e o facto de se conseguir desculpar e apoiar um homem com a estatura moral de uma ratazana de esgoto deixa-me doente.

Claro que se pode concordar com as políticas da sua administração (dizer que são dele é admitir que ele seria capaz de delinear e implementar uma política, já está provado que não é) , se formos contra a imigração, a segurança social e a favor de mão pesada da polícia, por exemplo, é normal que se goste do homem, mas há uma coisa que me tem dado um nó na cabeça e que infelizmente ninguém explica nem , que eu saiba, pergunta claramente aos trumpistas nacionais: como é que aumentar o deficit em 1,3 triliões de dólares é saudado como uma coisa boa? É que as pessoas de direita que apoiam o Trump são as mesmas que, por cá e com o meu apoio, exigem déficits menores e controlados. Essas pessoas agora aplaudem uma explosão do deficit porque se baixaram os impostos, e eu não entendo. Déficit grande é mau cá e bom lá? Se calhar é e eu não percebo. Aplaudem estes cortes de impostos que , segundo todas as análises e cálculos, beneficiam desproporcionalmente os muito ricos, indo ao extremo de incluir um benefício fiscal a quem tenha um jacto particular, e o pessoal aplaude. Um senador republicano em fim de mandato, Bob Corker, anunciou que ia votar contra. Introduziram uma emenda que dava mais beneficios fiscais a quem, como ele e o Presidente, tem empresas imobiliárias, ele mudou de ideias e já votou  a favor, e anunciou isso sem vergonha frente às câmaras.Hienas.

Ontem o presidente anunciou a sua primeira comutação de uma pena, prerrogativa presidencial, a possibilidade de reduzir a pena de alguém que se acredite merecê-lo. Os EUA têm talvez a maior população prisional do mundo, nos milhões atrás das grades haverá milhares de casos de penas desproporcionais ou  controversas e reclusos merecedores. Trump decidiu comutar a pena a um milionário condenado por fraude bancária. 

Não há um limite moral? Por mais que se admirem as políticas, será que se pode continuar a apoiar um homem assim, que nem tenta disfarçar os seus instintos e motivações? Outra : por cá a direita, e mais uma vez com razão, do meu ponto de vista, argumentou que o crescimento económico nestes anos da geringonça se devia principalmente às medidas e reformas do governo anterior. Extraordinário que essas mesmas pessoas publicitem que o crescimento nos EUA neste ano é da “economia Trump”, resultado das políticas desta administração. Mas não vêm a incongruência nisso? Como na história dos déficits bons e deficits maus, aqui o crescimento deve-se a políticas passadas, lá deve-se ao governo actual. É demais.

Gostava de escrever mais sobre a ilha, os animais, os barcos, a cerveja artesanal, a época  e coisas assim mas isto enerva-me de tal maneira que tenho que ventilar, e como o cão e o gato não são sensíveis à problemática, é mesmo aqui.

 

Alabama

A primeira coisa que vem à cabeça de muita gente quando ouve “Alabama” é  a canção dos Lynyrd Skynyrd  que toda a gente conhece, mesmo à das pessoas que se riem ao lembrar-se desse estado.  Não há muitos sítios que definam melhor o Sul dos EUA que o Alabama, e tudo o que sei dele, incluindo algumas passagens (não lhes posso chamar bem  visitas) e conversas com nativos  chega para o considerar o fundo  da nação, talvez dispute o título com o Mississipi, dá ideia que a única salvação do Alabama é  a equipa de futebol universitário, que é dominante a nível nacional, e não se pode tomar o futebol universitário como coisa irrelevante. Quem não gosta ou não segue futebol americano não tem lá nada para admirar, até a costa do Golfo do México está morta e degradada.

A história do Estado conta-se em pouco tempo. Os espanhóis foram os primeiros a passar por lá, no século XVI, vindos das suas deambulações por La Florida, sem fazer grande coisa que ficasse. Nos princípios do século XVIII  Instalaram-se  franceses e  fundaram Mobile, ainda hoje o maior porto do Estado. Quem já lá andava há muito tempo eram os índios, mas a esses nunca ninguém perguntou nada. Em 1800, apenas 20 anos antes de o Estado ser criado viviam no território do Alabama 1250 pessoas.Ou melhor, brancos, porque o resto não contava. No primeiro ano como Estado já lá viviam 127000 e acelerou  o processo inspirado pela teoria do Destino Manifesto que dizia que  Deus os levou àquela terra em reconhecimento da  virtude deles e que podiam fazer como entendessem, desde que de acordo com a Bíblia. Os selvagens, como tal, são para  expulsar e exterminar. Foi rápido, devido à desproporção de forças e ao influxo gigantesco de imigrantes europeus. Irónico, o ressentimento de tantos descendentes desses  imigrantes contra os novos imigrantes.

Depois do massacre e expulsão dos índios, a escravatura. Importaram-se centenas de milhar de africanos ou de pessoas que já não eram africanas por terem nascido na América mas eram tratados como bichos na mesma, e continuou a exploração. Em 1860 rebenta a Guerra Civil,  o Alabama foi dos primeiros a pegar em armas para defender os direitos dos estados , nomeadamente o direito a ter outras pessoas como propriedade. Não havia grande contradição, no Alabama de  hoje 78% da população é Protestante e desses, 49% são Evangélicos. ainda hoje mais de metade das pessoas do Alabama acredita no mundo criado em 6 dias, em  Eva  feita a partir de uma  costela de Adão e  na cobra falante. Tentei saber a proporção exacta de crentes em  Portugal, lamento mas não me apeteceu procurar muito e não encontrei, mas acredito e espero que a percentagem que aceita a Evolução seja muitissimo maior, tal como a dos que  não procuram orientação literal e fixa na Bíblia. No Alabama sempre houve mais pessoas que adoram e estudam a Bíblia literalmente, e sendo assim , encontraram  lá consolo e justificação para terem e maltratarem outras pessoas, especialmente sendo as outras pessoas filhos de Ham, como são biblicamente os africanos. Tem a ver com a história do Noé, pai de Ham, mas não me vou alongar sobre  imbecilidades senão isto nunca mais acaba.

O Sul perdeu a guerra civil mas se lá andarem hoje fartam-se de ver a cada passo muito orgulho nos  derrotados. Os escravos foram libertados mas como está bom de ver não basta uma lei, ainda por cima uma lei que levou a uma guerra, para que as pessoas comecem a olhar para as outras de modo diferente, ou,  vá lá, como pessoas. Os negros sempre tiveram a vida desgraçada no Alabama do pós guerra civil, com uma fracção dos direitos dos brancos e sempre, sempre sujeitos a toda a espécie de discriminações, abusos e violências, a começar pelas do Estado.  É ler “To Kill a Mockingbird”, por exemplo . O romance por excelência de denúncia e alarme contra  os preconceitos e iniquidades causadas pelo  racismo  nos EUA  passa-se  no Alabama. Como redenção na desgraça, mostra-nos que no meio dos animais se pode sempre erguer um Atticus Finch,  que há justos em todos os cantos do Mundo.

A segregação racial, o KKK, o criacionismo nas escolas, durante toda a metade do século passado o Alabama ia ficando para trás enquanto o resto da América evoluía na direcção de reconhecer igualdade de direitos  entre raças, que já chegou em teoria mas ainda não chegou na prática. O Alabama permanecia firme no século XIX, e figura alto numa das minhas histórias preferidas, que li nesta Biografia de África:

Em 1957 Richard  Nixon, então Vice Presidente, foi ao Gana por ocasião da celebração da independência do país. Num cocktail depois das  cerimónias oficiais Nixon aproximou-se de um jovem impecavelmente vestido que ele tomou como  Ganês e perguntou-lhe:

-Então, que tal é ser livre?

-Não faço ideia, senhor. Sou do Alabama.

E nesta base se desenvolveu  o Alabama, que só chegava às notícias por causa da luta dos Direitos Civis. Rosa Parks tornou-se heroína da nação ao recusar-se a ceder o seu lugar a um branco no autocarro, no Alabama. Martin Luther King jr fazia discursos tremendos e marchas de protesto enormes, no Alabama. O KKK incendiava igrejas e enforcava pessoas a meio da noite, no Alabama.

Chegamos a 2017 e o presidente é um indivíduo que não se cansa de dizer que ama o Alabama e os seus valores, o que não surpreende dado que é o mesmo que foi processado pelo Estado nos anos 80 por só aceitar  inquilinos brancos nos seus prédios em NY, que se diz muito cristão apesar de já ir no terceiro casamento escabroso e  não vale a pena começar a tentar listar a podridão do homem senão nunca mais me despacho, ele é a podridão em forma de gente.

O lugar de senador do Alabama vagou e ontem houve eleição especial para o substituir. O candidato democrata era um homem conhecido por ser o procurador que processou membros do KKK pelo assassínio de quatro  meninas quando puseram uma bomba numa igreja , lá no tempo em que a América era Grande . O candidato republicano era um ex juiz chamado Roy Moore, conhecido entre outras coisas por ter sido condenado e demitido pelo Supremo Tribunal por ter mandado instalar no relvado do seu  tribunal uma placa com os 10 Mandamentos. Acredita e diz para quem o quer ouvir que Deus tem que ser  fonte da Lei, como dizem os Ayatolahs, e não aceita ( juiz, atenção) a separação constitucional entre Estado e Igreja sem a qual, concordam todos os lúcidos, não pode existir verdadeira democracia. É  declaradamente contra os direitos dos homossexuais , acha que devia ser ilegal e também  disse que ” eliminar as emendas constitucionais depois da décima eliminava muitos problemas do país”. 

A 13a emenda aboliu a escravatura ; a 14a confere protecção igual a todos os cidadãos; a 15a proibe a negação do direito de voto baseado na raça; a 19a dá o direito de voto às mulheres e a 22a instituiu termos de mandato para os presidentes. Já dá para ter uma ideia razoável do pensamento político deste homem. Apareceu num comício vestido de cowboy, a mostrar uma pistola e tudo, e ontem foi votar  a cavalo.Não percebo de cavalos nem sei montar  mas  achei cómico e toda a gente que percebe de equitação se fartou de rir, porque se o homem alguma vez soube montar, já foi há muitos anos,  fez uma triste figura.

Também de há muitos anos vieram acusações um bocado sórdidas: O juíz Moore, na altura procurador nos seus 30 anos, gostava de miúdas adolescentes, andava atrás delas , “namorava” com elas, algumas de 14 anos. Foi proibido de entrar num centro comercial por andar a importunar as moças. Se é crime não sei, mas mostra uma pessoa um bocado nojenta. Nestes dias se  se fala de nojo na política americana o Trump não anda longe, e claro está, acabou a apelar ao voto no Moore para Senador. Um racista que defende a teocracia e é um alegado abusador de menores. Categoria. Classe. Sentido de Estado.

Deitei-me a pensar na eleição (é estranho mas é verdade, e nem conheço ninguém no Alabama…) e hoje para variar tive boas notícias pela manhã, o Moore perdeu. Os resultados foram 49.9% para 48.4%, margem finíssima mas prevaleceu a decência. Claro que o Trump já veio dizer que sempre soube que o Moore ia perder, confirmando que está sempre ao lado dos seus amigos e apoiantes e que é um homem de convicções. No Alabama que vive no século XXI respirou-se de alívio e ganhou-se alento, em Washington consta que agora só falta aprovar o novo regime fiscal, feito isso os oligarcas já têm o que querem e já podem deixar cair o presidente, esse palhaço que é uma vergonha para a América. E que tem 55% de apoio no Alabama.

 

 

 

 

 

Terra Santa

Tenho três  problemas fundamentais com os israelitas e com os palestinianos, e tenho grande satisfação com o facto de a minha opinião ser irrelevante e não ter voto numa matéria tão séria.

Começando pelos israelitas, é  óbvio que o seu mito fundador é precisamente isso, um mito, se não aceitassem a Torah com palavra final do divino e base da organização das coisas  é provável que ao longo dos milénios tivessem evoluído num modelo diferente de povo, comunidade, nação. Sempre achei dos maiores testemunhos e tributos à  dissonância cognitiva necessária para se ser religioso o facto de os Judeus se considerarem o Povo Eleito. Se são o povo eleito e sofreram o que sofreram em 3000 anos e ainda sofrem hoje, nem quero pensar no que seria se fossem um povo ignorado por Jeová, tipo os escandinavos. Segundo pelo menos um historiador Jerusalém  foi atacada  52 vezes, capturada e recapturada 44 vezes, assediada 23 vezes e destruida duas vezes, não há cidade no mundo com um registo de violência extrema comparável com este, ligar isto com “Religiões de Paz” é certamente exercício para cínicos frios que não percebem a “espiritualidade” que envolve aquilo. A espiritualidade sempre foi um dos maiores impulsionadores da violência entre os homens,e é normal que numa terra que concentre espiritualidade em doses massivas como Jerusalém a barbárie se mostre mais, porque todos os beligerantes estão convictos de que são justos, fazem o trabalho de deus, vão ganhar a vida eterna com a sua violência e os seus oponentes são condenados por um poder mais alto.  Cada um tem o seu livro onde está escrito que eles têm razão, cada um acha os livros dos outros uma mentira e é assim que funciona a terra santa.

Sem narrativas bíblicas e corânicas desapareceria  imediatamente grande parte do racional que faz com que se guerreie e odeie tanto no Médio Oriente, mas as narrativas religiosas estão para ficar, quanto mais não sejam que dão muito jeito às narrativas políticas.

O outro problema fundamental que tenho com os israelitas é a desproporção das reacções , ainda no outro dia li a notícia de um grupo de colonos atacado à pedrada que respondeu como fogo de armas automáticas. Aqui há uns anos os israelitas abordaram um cargueiro turco que acreditavam levar armas, foram ameaçados com paus, responderam a tiro. Caem dois foguetes artesanais em Israel, levantam voo dois F15 e reduzem a entulho outro quarteirão de Gaza. Tenho ideia que  o livro deles prescreve “olho por olho” mas parece-me que eles observam mais “cabeça por olho”, que algumas pessoas podem achar boa estratégia, eu gosto de apreciar as coisas pelos resultados, desde que nasci que os israelitas estão em guerra com os árabes , sem sinais de acalmar pelo que acredito que o objectivo não é conseguir viver em paz.

E aí o terceiro problema: é para mim claro que os israelitas, ou a parte deles que tem sido governo nos últimos anos e claro, a brigada das trancinhas que não toca em mulheres  e acha que passar os dias a abanar-se frente a uma parede  recitando versos ancestrais é uma ocupação válida, não tem interesse nenhum em encontrar paz com os vizinhos. Desde a política dos colonatos ao modo como são tratados os árabes que vivem em Israel até aos periódicos nivelamentos de Gaza onde mantêm milhões de pessoas literalmente prisioneiras numa lixeira , não vejo rigorosamente nada que me indique que Israel esteja interessado numa paz duradoura, que só se pode conseguir com concessões.Se cedemos zero ao nosso inimigo não podemos esperar que ele ceda X e fique quieto, parece-me básico.

Com os palestinianos tenho logo em primeiro lugar um problema comum aos outros, a narrativa dominada pela superstição, a justificação religiosa para as suas neuroses e projectos. O segundo problema é a vitimização , os árabes são historicamente desunidos, os países árabes são atrasados e corruptos e é fácil culpar os sionistas por problemas que se eles não fossem assim conseguiam resolver sozinhos. Em vez de aceitarem a sua quota parte de culpa pelos seus falhanços culpam os judeus, esquecendo que antes de ser criado o Estado de Israel  a Palestina eram montes e pastores de cabras por onde a modernidade não passava, e continua a ter dificuldade em passar. A corrupção épica das lideranças árabes não ajuda, comparada com a dos judeus que podem não ser imunes à corrupção mas ao menos têm eleições, partidos diversos, tribunais e imprensa livre, só por isso já estão num patamar superior.  Se os palestinianos  e os países árabes trabalhassem mais em construir instituições e modernizar as economias a vida não lhes era tão amarga.

O terceiro problema é a retórica e o culto da violência, que no fundo radica na religião e que prescreve a guerra santa, a recompensa do martírio e o castigo divino dos inimigos. Também os árabes não param para se interrogarem sobre a razão pela qual Alá o todo poderoso está a levar tanto tempo a castigar os seus inimigos, andam naquilo há décadas, um foguete ali, uma bomba aqui, para ira divina parece-me bastante medíocre.

No fundo ambos os lados são culpados do mesmo: baseiam as suas queixas e razões em lendas e esperam a destruição total do inimigo. Assim não pode haver paz. O resto do mundo observa , a Europa ocupa-se mais da parte retórica e teórica tipo manifestações , boicotes e votos de protesto, a América é mais prática e sustenta a maquinaria de guerra de Israel, que tem os cérebros e tecnologia própria mas ainda assim depende dos biliões americanos para o músculo. O “processo de paz no Médio Oriente” é uma  abstracção que ouço desde que me lembro, nunca em altura nenhuma pensei “olha, se calhar aquilo agora tem hipóteses de melhorar”. O primeiro assunto que me lembro de comentar com os amigos na escola, porque coincidiu com o aparecimento do Público em 1990, foi a invasão do Kuwait primeiro pelo Saddam e depois pelos Estados Unidos. Até hoje olha-se para a Terra Santa e sua vizinhança e é difícil ver paz nalgum lado,instabilidade ou guerra aberta da Líbia ate à fronteira da Turquia , do Yemen ao Iraque.

Diz -se que a religião protege do desespero, e é provável, mas se protege do desespero também impede de reconhecer uma situação desesperada como tal, e parar. Encoraja a persistir no erro quando tudo demonstra que o caminho escolhido não tem saída, impele a pensar num milagre que tanto pode vir como não vir, creio que são menos as vezes em que vem. Esta negação do desespero incita a nunca pensar  noutro ponto de vista, noutra alternativa, noutra possibilidade. Já se perderam muitas causas que muita gente nunca quis nem quer dar como perdidas.

Chega o Trump, o oposto da ponderação, compromisso e equilíbrio. Desde que chegou ao poder que faz pouco mais do que contentar clientelas e apoiantes (o plano dele para os impostos é uma prova obscena) , e enfurecer os críticos e adversários. Esta decisão de reconhecer Jerusalém capital de Israel é uma oferta antes de mais aos Evangélicos, grande proporção dos seus apoiantes e uma das  seitas mais hipócrita e atrasada do mundo ocidental. Para os Evangélicos Jerusalém tem um valor altíssimo e não é por simpatia pelo povo Judeu, é porque é de lá, ou lá , que vai começar a “rapture”, nem sei como isso se traduz, um evento religioso em que os fiéis vão todos subir ao céu, vivos. Já falharam umas quantas datas preconizadas mas isso nunca impediu que se avançassem novas datas. Os Evangélicos exigem que Jerusalém esteja  em “mãos amigas” e exigem luta aberta com o Islão . Com este reconhecimento de Jerusalém Trump agrada aos Evangélicos, aos judeus sionistas (que não são todos), e à base puramente racista que quer confrontação com os árabes e muçulmanos em geral. As consequências não são importantes, nem o facto de esta decisão não contribuir em nada para o avanço daquela que é a possível solução defendida pelos moderados e realistas por todo o mundo : dois estados com Jerusalém como Cidade Internacional.

O Trump não veio contribuir para nenhuma espécie de paz, só veio imprimir outro ritmo ao ciclo.

Belmiro e a Escravatura

A escravatura era o tema escolhido para o post e comecei a escrevê-lo motivado pelas notícias de que hoje em dia na Líbia se pode comprar uma pessoa por cerca de €400. Entretanto morreu o Belmiro de Azevedo, comecei a ler e ouvir as reacções, todas mais do que previsíveis, e lembrei-me de uma das coisas mais parvas que se dizem constantemente: esta vida (por exemplo a de um empregado por conta de outrem a ganhar o salário mínimo) é uma escravatura, somos todos escravos do sistema/capitalismo .

Primeiro o Belmiro. Bastou-lhe ter sido empresário, criado riqueza, revolucionado indústrias e ter sido patrão de milhares para ser detestado pelas esquerdas mais esquerdas. No mundo em que essas pessoas gostavam de viver ninguém podia possuir mais do que X, ninguém trabalhava sem ser sob direcção do Estado, ninguém fazia concorrência  a nada, ninguém na hora da morte podia deixar o fruto do seu trabalho aos descendentes. Felizmente esse mundo sempre foi  rejeitado e continua a ser, excepto onde o modelo é mantido à força, a única maneira de instalar e manter. Um individuo  no twitter  listou  os talhos e mercearias que fecharam por causa da chegada da grande distribuição, presume-se que preferia o modelo antigo e que ainda faça as suas compras dessa maneira. Não conheço nenhum sítio onde não haja ainda pequenas lojas, não tantas como havia mas ainda há, pelo que os consumidores têm  escolha. Surpreendentemente, escolhem um sítio mais acessível, com mais variedade e invariavelmente mais barato, é estranho.

Depois, este explorador ganancioso e sem coração torrou milhões para dotar o país de mais um jornal diário, no critério editorial do qual  nunca quis ter uma  palavra a dizer. Se não fossem directores passados e presentes a assegurá-lo bastaria  ler o Público para perceber que se a intenção do Belmiro com o jornal fosse guiar a opinião pública para o lado direito a coisa estava-lhe  a correr muito mal desde o princípio. Os políticos passam horas a tentar, com maior ou menor grau de sucesso, influenciar o que se publica nos jornais. Este era dono do jornal e nunca ligou para lá, mas nem isso moveu o Bloco, principal beneficiário do Público, a apoiar um voto de pesar, ao menos pela contribuição para a pluralidade da imprensa.

Outro motivador do escárnio e desprezo pelo homem é a sempre presente inveja, até de um tipo que não nasceu em berço de ouro, pegava ao serviço todos os dias às 8, subiu a pulso e  construiu um império. Os verdadeiros heróis, aqueles que são louvados pela Assembleia da República, são os que nunca criam nem produzem a ponta de um corno, nunca pagam um salário com o próprio dinheiro, nunca são responsabilizados financeiramente pela sua prestação, votam o tamanho do próprio salário e privilégios    e levam uma vida de retórica e teoria, feita de lutar por poder, manter o poder, estender influência e combater os de pensamento oposto . São esses os bons da História.

Em 1997 deixei a universidade, queria fazer outras coisas e precisava de dinheiro. Fui trabalhar para o Modelo como repositor de mercearias. Quem se lembra desses tempos sabe bem que não havia assim muitos empregos para jovens sem formação superior em que fosse só chegar e começar a trabalhar. Os talhos e mercearias de que o outro lamenta a sorte era negócios familiares por definição, que não cresciam nem empregavam. Recebia o ordenado mínimo, subsídio de turno e todas as demais contribuições previstas pela lei. Essa oportunidade que tive de avançar na vida não foi o Estado que ma deu, não foi o pequeno comércio e muito menos algum Gabinete de Observação da Interação Social da Osga Mediterrânica, o género de organismo estatal que hoje prolifera e emprega boa parte da juventude saída das universidades, com ou sem conclusão do currículo é irrelevante, se se tiverem os padrinhos certos e o cartão de militante apropriado para a época. A oportunidade devo-a ao  Belmiro de Azevedo e à sua importação  de um novo modelo de distribuição e serviços. A minha passagem por lá não foi muito longa mas sempre me foi explicado e demonstrado que podia ter ali uma carreira. As carpideiras do salário mínimo ignoram, ou preferem ignorar, que um repositor de mercearias motivado, dinâmico e interessado pode progredir, se eu tivesse queda e vontade para aquilo hoje podia ser director de um Modelo, formado na casa. Claro, não há progressões automáticas de carreira , conceito idiota que só podia existir mesmo no Estado, mas há oportunidade de subir na vida. Há é que trabalhar um bocado.

Irrita-me que se fale de escravatura relacionada com emprego de baixo salário por duas razões, a primeira é que a definição de escravatura está à disposição no dicionário , tal como também está a definição de quem usa conscientemente uma palavra errada para descrever uma realidade. A segunda razão é que existem milhões de escravos verdadeiros hoje em dia, pelo que dizer que alguém que tem um emprego em que ganha pouco é um escravo é uma falta de respeito.

A Líbia tornou-se um estado falhado e agora o passado é irrelevante, a culpa da situação é do Ocidente, nomeadamente do Clinton e do Sarkozy que promoveram a queda do Kadafi. Note-se que o Kadafi não tem culpa nenhuma da situação do país que governou com mão de ferro durante 42 anos, culpado do que se lá passa é de quem o derrubou, que presumivelmente devia ter continuado a tolerar autocracia e tudo o que vem com ela. O facto de os próprios líbios se terem revoltado em massa nunca diz nada aos defensores dessa visão, para os quais meia dúzia de operacionais da CIA com umas malas de dinheiro conseguem levar um povo à revolta, mesmo que se viva  bem no país. O sistema é bom, funciona , as pessoas estão contentes com a vida e as perspectivas de futuro, chegam duas agências governamentais estrangeiras, incendeiam uma nação e rebenta uma guerra civil. Fico sempre fascinado com este raciocínio.

Isto não quer dizer que as potências ocidentais sejam inocentes ou que as suas motivações sejam nobres, alguém que acredite em motivações nobres da parte de algum Estado ou seus representantes deve procurar outro tema para estudar. O que quero dizer é que o facto de haver hoje em dia escravatura na Líbia é apenas o ressurgir de uma pratica cultural  ancestral que apenas tinha sido reprimida. É o relembrar da relação que sempre houve entre os povos árabes do Norte de África e os povos negros do Sul do Saara. Se o Ocidente tem culpa no que se passa lá hoje é a culpa de não ter mantido no lugar um sistema que reprime esses instintos e práticas.

Creio que se vai construir em Lisboa um monumento aos escravos do Império, e eu acho bem, para que se preserve a memória e a noção de que o Portugal ultramarino construi-se muito em cima disso, para que se continue a abandonar  a ideia romantizada do  navegador e colono benévolo, para que se lembre que Portugal foi o país que mais escravos transportou para as Américas. É saudável lembrar isso, não se pode nem deve polir a História.

Em 2008 levei um barco para Mystic , no Connecticut , terra que é inteira um museu marítimo . Como a História que me interessa mais é a naval, conhecia bem os navios negreiros e foi por eles e as suas histórias que o horror indescritível da escravatura me bateu pela primeira vez. Quando a Marinha Real Inglesa começou a caçar os negreiros no Atlântico sabiam que estava um por perto porque se houvesse um negreiro vinte milhas a barlavento eles cheiravam-no , muito antes de o verem. Os navios negreiros, especialmente depois de os Ingleses terem banido o tráfico, eram construídos para  um equilíbrio entre velocidade, capacidade de carga e manobrabilidade, e isso fez  deles dos veleiros mais extraordinários de sempre.

Em Mystic corri tudo à procura de um, em modelo, em planos, em filmes. Nada , o Museu é a cidade inteira, em terra e no mar, e não encontrei uma só referência ao tráfico de escravos na terra que construiu a esmagadora maioria dos barcos usados pelos americanos nesse tráfico. Desde essa visita os EUA tiveram um presidente negro e fizeram um esforço maior por enfrentar a sua História (hoje  a ser paulatinamente desfeito) pelo que talvez já se fale de negreiros em Mystic, mas o que me ficou da visita foi essa vontade de varrer o Mal para debaixo do tapete, coisa que entre muitas outras permite que hoje um tipo que tem um salário baixo e uma vida vazia se considere um escravo.

No debate nacional sobre a escravatura vejo que  para muita gente escravatura é o tráfico atlântico de escravos africanos pelos europeus. Isso é uma visão redutora  e quando vemos em 2017 pessoas a serem vendidas vale a pena lembrar alguns factos que me parece não são suficientemente lembrados:

  • A escravatura existe no Mundo desde que duas sociedades ou grupos diferentes se encontraram e guerrearam.
  • A escravatura está não só prevista como justificada e autorizada no Antigo Testamento e foi a base de algumas das maiores realizações da História, desde a Democracia Ateniense ao Império Romano.
  • Cristo foi crucificado e considerado um inimigo simplesmente por defender que todos os homens eram iguais, logo, pondo em risco a escravatura que era a base de quase  todas as sociedades da época. O que a “sua igreja” tolerou, aprovou e promoveu depois da sua morte no que diz respeito à escravatura fala pelas intenções e motivações reais da mesma.
  • Dado que igreja de Cristo não foi capaz de cumprir a sua mais básica função, fazer com que os homens se amassem uns aos outros  em 1800 anos, coube a argumentos racionais e a homens políticos como Wilberforce ou Lincoln guerrearem contra o flagelo. O clero não liderou nada, alguns clérigos mais humanos participaram nos movimentos anti esclavagistas mas das altas hierarquias, nada.
  • No tráfico Atlântico a maior parte dos escravos embarcados para as Américas eram vendidos aos traficantes europeus quer por árabes que só se dedicavam à “caça” quer por outros africanos.
  • Além destas imagens aterradoras que chegam da Líbia é sabido há muito que nas monarquias árabes do Golfo sempre houve e continua a haver escravos.

Isto tudo para dizer que a verdadeira escravatura  é um fenómeno  muito maior, muito mais enraizado e muito mais actual, que é um insulto grave descrever salários baixos como escravatura e que se há culturas e sociedades que a desprezam há mais de um século, como a nossa, há outras nas quais ainda se tolera e pratica. É a essas que temos que criticar e denunciar, não é a nossa que já fez o que tinha a fazer:  banir e tornar a prática abominável e inaceitável.  Agora resta-nos erguer o tal monumento, explicar às crianças o que é a escravatura mas sem lhes mentir nem fazer passar outra coisa por escravatura, explicar-lhes  o que a nossa nação fez no passado  e perseguir e castigar os que o fazem hoje em dia.

Qualquer homem que crie oportunidades para que pessoas possam ter uma opção para ganhar a sua vida está a fazer precisamente o contrário de um esclavagista: está a proporcionar Liberdade às pessoas. Da minha parte, obrigado Belmiro de Azevedo, houvesse mais como ele.

Depois queixem-se

Não há nesta altura no mundo  governante que eu deteste mais que o Trump, e isto inclui vermes como  Mugabe ou  Maduro. No Terceiro Mundo (perdão por usar este anacronismo mas para mim ainda faz sentido) ainda é como o outro, as instituições são fracas , corruptas ou ambas, a população não é educada e informada e a imprensa raramente é livre pelo que é mais fácil um ditador instalar-se e permanecer lá. Quando há uma ruptura do calibre de um Trump, quando uma democracia ocidental elege uma figura daquelas, primeiro há choque mas depois há que procurar  as razões, e podem já todos ter-se esquecido mas foram mais do que dissecadas nos meses seguintes às eleições e era bom voltar a elas numa altura em que, ao retardador como é nosso timbre, começamos a importar debates e movimentos que nos EUA já têm décadas. Há gente que parece só estar à espera da deixa dos americanos para falar, vi uma jornalista pelos vistos famosa, chamada Alexandra Lucas Coelho,  a defender um monumento aos índios e africanos ao lado do Padrão dos Descobrimentos. Não achar que se deve deitar abaixo já não é mau, mas não deve tardar.

Além das mentiras , demagogias , matrafices e “hacks” da última campanha eleitoral americana , além das lutas internas entre Republicanos e  além da inépcia dos Democratas houve um factor muito importante em jogo, para mim o mais importante: quase metade dos eleitores  da América fartou-se  dos insultos, reclamações, condescêndencia, exigências e teorias sociológicas avançadas da intelectualidade urbana de esquerda, que só vê o seu umbigo e olha para o resto como atrasados e iludidos.

Cansaram-se de serem chamados de primitivos, intolerantes, anacrónicos, de lhes atirarem à cara a maldade das suas tradições e da sua cultura, de lhes ridicularizarem as crenças . Cansaram-se de ver que tudo é decidido longe, pela elite sofisticada , fartaram-se de ver os sociólogos de Berkeley a ditar regulamentos para o Wisconsin, cansaram-se de ver a imprensa e a TV nacionais centrarem-se nas Costas e ignorarem o resto do país. Chamam-lhe fly over country e não é a brincar, é uma extensão imensa onde vivem dezenas de milhões de pessoas que são excluídas dos debates nacionais e quando não são excluídos é para serem menosprezadas. São racistas? Muitos são, mas nem os que o são gostam de ser chamados racistas, quanto mais os que não são, ou acham que não são…

Pessoas religiosas e tradicionalistas a terem que levar com o debate das casas de banho para  transexuais, a verem a linguagem a ser policiada e normalizada, a verem garotos a levantarem queixas  por se sentirem ofendidos nas suas convicções por dá cá aquela palha. Pessoas a verem as suas vizinhanças e cidades a ter uma população cada vez mais de cor e religião diferente e a ser-lhe martelado que isso é bom. Pode ser ou pode não ser.

Depois de terem mais prosperidade material do que conseguem fazer com ela os americanos passaram à guerra cultural, liberais contra conservadores. Toda a gente deu por adquirido que havia dinheiro que chegasse para tudo e empregos para toda a gente que os quisesse, começaram a ocupar-se da famosa justiça social, onde manda uma regra velha e universal que pode ser exprimida cruamente assim : quem não chora não mama, e outra que diz que o importante é culpar alguém e exigir que alguém , normalmente o Estado, faça alguma coisa.

O problema não era a política externa, a produtividade, os impostos, as infraestruturas, a educação, a saúde. Os problemas nas últimas décadas têm sido coisas como o casamento gay, as chamadas causas fracturantes nas quais se especializam grupos políticos como o Bloco de Esquerda, quanto mais não seja porque o lastro técnico necessário para escrever uma lei sobre igualdade de género é uma fracção do necessário para , por exemplo, negociar um acordo de comércio externo ou reformar uma política fiscal. Por outras palavras , é mais fácil e imediato e qualquer actriz de teatro consegue falar horas sobre justiça social sem mentir ao passo que nem dez minutos aguenta se lhe pedirem para explicar o impacto da política agrícola comum na produção de vinho, por exemplo.

As causas fracturantes também se tornaram populares por serem mais emocionais, ninguém se exalta a falar de vias férreas ou portos de águas profundas, mas falem lá da co-adopção e têm para horas de exaltação, já para não  falar do aborto. Com estas  e outras questões  se passam horas nos parlamentos, juntando as discussões a  votos ridículos de louvor e pesar e infindáveis comissões que servem sobretudo para engonhar, criar ilusão de progresso , ocupação e encher os proverbiais chouriços. O cidadão conservador e tradicionalista vê isto e franze o sobrolho.

Quando os debates mais populares são desse género, causas que uns apoiam e outros abominam,  quando uns menosprezam e ridicularizam os outros, basta vir um aldrabão encartado como o  Trump para levar uma das metades. Basta ter o discurso fácil, basta fazer uma das metades rever-se nele, basta prometer um fim aos abusos e aos ataques, basta falar no mesmo tom . Não tem que saber fazer mais nada, não tem que mostrar serviço na área que se propõe dirigir, basta saber falar para o seu público , apelar-lhe  aos instintos , medos e aspirações básicas e os ânimos estão de tal maneira exaltados nesta idade das overdoses de informação, 3/4 dela manipulada, que no dia das eleições a escolha é fácil. Dá para os dois lados, ninguém se iluda, o processo básico que elege populistas à esquerda elege-os à direita.

No caso dos americanos foi a histeria do politicamente correcto , da engenharia social, do multiculturalismo como valor superior e objectivo, da perseguição e demonização dos outros,  que lá pôs o Trump.

Os guerreiros da justiça social por cá ganham saúde e gritam alto, são declaradamente contra uma quantidade de coisas, desde o heteropatriarcado aos sacos de plástico, agora descobriram que é mau haver coisas para meninos e meninas e em todas essas lutas olham de cima para baixo para os que ou não concordam ou nem sequer querem saber. São pessoas que não percebem bem o conceito de empatia , que é diferente do de simpatia, não temos que simpatizar mas devemos tentar compreender . Enervam muita gente, insultam muita gente, agridem as convicções de muita gente, muitas vezes com uma arrogância que nada justifica.

Custa-lhes, é-lhes virtualmente impossível aceitar que haja pessoas religiosas, que defendam que a vida começa com a concepção e é sagrada, que vão a touradas, têm carros grandes, acham que a homossexualidade é um mal, o casamento é exclusivo para reprodução, o aquecimento global é uma invenção, um travesti é uma aberração e usar drogas é crime. Pessoas que defendem a pena de morte, são contra a imigração , não gostam de gente de outras cores nem de quem depende de subsídios estatais para sobreviver. Eu não partilho nenhuma dessas  convicções mas não considero quem as tem um inimigo ou inferior  e haveria  muito menos problemas se conseguíssemos todos funcionar assim, não é desistir da discussão , é reconhecer que há mais pontos de vista válidos, mesmo que não concordemos com eles.

Os modernos guerreiros da justiça social não acreditam que todos esses milhões de pessoas têm uma palavra a dizer, o direito a fazerem-se ouvir e voto na matéria no que diz respeito ao gverno e leis da Nação. Acham que é gente para calar, que se deve reduzir à sua ignorância e que todos os que não concordam com eles são estúpidos. Isto é profundamente irritante.

Um dia qualquer aparece um candidato a defender  precisamente todas essas coisas que a imprensa e os círculos urbanos sofisticados abominam e têm por consignadas ao caixote do lixo da história. Um candidato bem falante, de discurso articulado, que fala, como o Trump, aos medos, convicções  e aspirações dessas pessoas e de repente, num dia de eleições,  a inteligentsia , entre duas dentadas de sushi num rooftop da capital pega no seu ipad  e enquanto lê mais um artigo na Monocle e partilha uma foto com o seu amigo cisgénero dinamarquês que está na Malásia constata que há muita gente no resto do país que tem ideias ,preocupações e concepções do mundo muito diferentes, que toda essa gente vota e que, olha, quem diria , elege um populista com um plano para pôr isto na ordem, não obstante sondagens e colunas de opinião que garantiam ser impossível.

Depois vão passar anos a queixar-se, sem perceberem  que a culpa foi deles.