A Festa

Volta a Festa do Emigrante, o ponto alto do ano nas Lajes e o fim de semana em que se vê aqui mais gente. Muitos emigrantes vêm ver as famílias e matar saudades, muitos estudante vêm de férias, muitos turistas vêm fazer turismo. Gosto de trocadilhos e ri-me bastante com a festa do irritante. Até aqui, onde os turistas se contam por poucas centenas durante dois meses  a presença de um número maior de pessoas parece que incomoda alguma coisa, mas é só brincadeira, tal como a referência à mosca de verão. O que é certo é que a maioria dos habitantes  aprecia muito o sossego e tranquilidade, e se bem que gosta da animação (e rendimentos) deste fim de semana, fica tudo satisfeito quando acaba.

Está a ilha cheia de emigrantes, é verdade que a América faz engordar e que as segundas gerações perdem o Português num instante. Como agora há wifi por todo o lado a ilha é mais atractiva, podem fazer milhares de quilómetros para vir para aqui olhar para os telemóveis. Noto que as criancinhas hoje (noto porque raramente vejo tantas todas juntas) estão muito mais fáceis de domesticar, é só por-lhes um telemóvel ou tablet na mão e eles criam-se sozinhos, se forem alimentados de vez em quando. Há as excepções , por exemplo dos filhos dos hippies (uso o termo muito liberalmente) , ainda ontem  vi um que está a começar a andar, um “franco alemão” sebento,  andrajoso e lindo que andava a gatinhar e a apanhar beatas do chão e metê-las na boca, apanhei-o e passei-o à mãe mas não disse nada, nem ela, porque não há problema nenhum. 8 ou 80 , ou andam vestidos de marca em ambientes esterilizados e entretidos por electrónica ou andam à solta a apanhar e comer coisas do chão.

Como nas antigas sociedades rurais, a festa anual é a altura de toda a gente “descer à vila” ao mesmo tempo, encontrar-se e falar dos assuntos da comunidade. Eu continuo  sem pertencer bem aos locais nem aos estrangeiros, com amigos e conhecidos dos dois lados e sempre tentando um equilíbrio. Do lado dos hippies ouvi protestos e incitamentos à sabotagem de uma draga que anda a tirar areia da costa. Pessoas que vivem em casas de madeira sem electricidade odeiam que se extraia areia, principalmente porque não precisam de areia e acham, com certa razão, que se toda a gente vivesse em casas de madeira sem electricidade o ambiente global sofria menos. Quanto à sabotagem , não é propriamente a táctica mais eficaz para combater excessos da indústria mas diziam-me que sim, que já o fizeram muito em França e na Alemanha. Perguntei por casos de sucesso além de barulheira e aparecerem na televisão a dizer coisas, mas não foi possível, ninguém se lembrava de um exemplo de sucesso mas certamente que os há. Por azar não foi nenhum em que estes estivessem envolvidos. No caso da draga que aí anda a acção de sabotagem nem sequer foi ponderada  a sério, principalmente porque parte da tripulação da draga é cabo verdiana. As acções variam de gravidade consoante a etnia de quem as pratica, estou sempre a aprender com os hippies.

Também aproveito para lhes moer a cabeça com o Português, eles sabem que eu falo francês e inglês mas com os que cá vivem, ou dizem que cá vivem, falo sempre em Português, pelo menos até ficarmos amigos ou até me cansar da brincadeira e querer mesmo fazer-me entender, o que nem sempre é o caso. Conheci um iatista americano que me foi apresentado como tendo feito 13 travessias do Atlântico e ficou a olhar para mim todo contente à espera de reacção, que foi “ah sim?” com a mesma expressão que teria se me dissesse que gostava de vinho tinto. Mais um cheio de observações condescendentes sobre a ilha, os Açores e Portugal, eu posso ser uma pessoa bastante ácida quando começam com esse género de conversa,  digo muitas vezes cobras e lagartos do meu país mas não gosto nada nem fico quieto ao ver estrangeiros a fazê-lo. Discutia-se o nosso porto.

-Há um espanhol que se calhar conheces, tem uma escuna e vinha cá muitos anos.Ele implorou que em vez da marina pusessem poitas de amarração e um pontão de espera…mas foi isto.

-A sério? Um turista espanhol implorou e nem assim fizeram nada? Mas o que é que ele esperava? Há um projecto, bom ou mau, e ele pensava que se pedisse eles davam-lhe ouvidos?Por ter uma escuna? Por ser estrangeiro?

-Ele tem cá uma casa…

-De férias, não lhe dá voto na matéria.E lembro-me bem desse senhor, no ano em que abriu a marina andou aí a ralhar por todo o lado sobre o preço, disse que ia para a Terceira e nunca mais cá vinha de barco. Eu disse que era estranho ele vir cá anos a fio e ancorar e só porque há uma marina deixa de cá vir. Porque é que não continuou a ancorar descansado sem ligar à marina, já que não faz falta nenhuma?

O homem foi encontrar outra pessoa para partilhar as suas opiniões sobre os nossos defeitos e eu fiquei encostado a um  poste com a minha mini na mão a ver o movimento, satisfeito da vida. O ano passado por esta altura estava a meio caminho entre a Nova Zelândia e as ilhas Fiji, ainda nem por um minuto que seja senti saudade da vida que decidi deixar para trás e já me disseram que “pareço outro” este ano, com mais energia, mais bem disposto, até com melhor postura . A melhor postura deve-se ao yoga, o resto deve-se a ter acabado com a vida de vagabundo.Consumía-me a incerteza do para onde vou e quando vou, consumía-me deixar casa e cão atrás meses a fio, consumiam-me as saudades quando estava fora, foi a melhor coisa que fiz nos últimos anos e pelos vistos nota-se.

No Sábado à tarde convidaram-me para sair no S.Pedro, o segundo bote baleeiro do clube, e nunca é preciso pedir-me  duas vezes. O Presidente da Câmara tinha pedido ao Clube Naval para ter os barcos todos na água nessa tarde, já que nunca o conseguem fazer como devia , que seria todos os Sábados em que o tempo permitisse.Quando cheguei ao porto vi que havia três turistas a quem tinha sido prometido um passeio no bote, só me chateei porque acho que deviam pagar para andar nele. Pediram-me para em vez de ir no bote sair com um Raquero com dois moços, lá andámos um bocado às voltas na baía, disse-lhes que este Verão ainda íamos escolher um dia bom e dar a volta à ilha nesse barco, ficaram entusiasmadíssimos e eu gosto da ideia. O Raquero  navegou ontem depois de um ano parado, sempre que me apetecer agora saio com ele, enquanto espero por desenvolvimentos na política do clube naval. Parece que a demissão do presidente afinal era revogável, estou a ponto de escrever um memorando para o Presidente da Câmara, que tem que ser o árbitro nesta coisa, com a minha visão sobre o clube e as suas perspectivas. Digo a quem me quer ouvir (e é um tema muito falado nestes dias) que estou disposto a integrar uma lista para a direcção e a tomar conta da secção de vela se houver uma pessoa reconhecidamente  capaz, íntegra e organizada  para liderar a lista, e há pelo menos um nessas condições. Sem surpresa nenhuma já se diz por aí que eu quero mandar no clube naval, eu rio-me.

Encheram-se os restaurantes montados em tendas , como todos os anos comi cabrito assado três vezes seguidas, houve um porco assado no espeto que foi fotografado por dezenas de turistas que só vêm coisas dessas nas famosas “feiras medievais”. Parece que já há mais feiras medievais do que havia na Idade Média. Houve um desfile do novo clube motard liderado pelo presidente na sua Suzuki 500 e o meu vizinho que já tem mais de 70 anos numa moto  de três rodas daquelas com uma caixa atrás e que é o seu meio de transporte diário, foi muito engraçado. Participou no “desfile” (descem a avenida, dão a volta à rotunda , sobem a avenida, não passa de 600 metros) uma Kawasaki 1100 que veio… do Corvo, sítio onde é impossível uma moto daquelas passar da terceira velocidade, fartei-me de rir.

Seguiram-se as marchas com  os miúdos das escolas, a única filarmónica que resta  na ilha e uma marcha que veio do Pico, senão me engano. Houve artistas convidados, na sexta foi a Rute Marlene, que não é propriamente um  género musical que eu aprecie mas esteticamente funciona muito bem, especialmente já com uns copos de vinho. Ontem eram os Blind Zero que já é muito mais “a minha praia” mas começaram a tocar à meia noite e eu a essa hora já não estava muito capaz porque tinha passado a tarde toda de tasca em tasca, surpreende-me o número de pessoas que me querem pagar bebidas mas é mesmo assim, já começava a ter certas dificuldades, fui para casa.

Tinham-me pedido colaboração para o desfile de hoje , que previa os barcos todos do clube naval em cima de reboques com os miúdos em cima e queriam que eu fosse com eles no tal Raquero, declinei e lembrei que não fazia bem nenhum ao S.Pedro ter o mastro e as velas levantados e ser carregado com 7 homens para  ser passeado num reboque fora da água. A  ideia de homenagem aos antigos baleeiros é bonita mas primeiro devia-se pensar na saúde do bote e uma coisa dessas esforça-lhe muito a estrutura toda e não se deve fazer. Como se largou a chover não sei se cancelaram o desfile ou não, se parar de chover ainda vou mais logo ver a partida do ferry e ver se ainda sobrou algum cabrito no forno. Para o ano há mais.

Casamento

Este fim de semana tenho um casamento, evento que felizmente não me aparece na agenda há uns bons 10 anos.Por um lado por já ter passado a revoada de matrimónios da minha geração, do meu círculo quem era para casar de cerimónia e grande festa já o fez há muito tempo. Por outro porque passei grande parte do tempo fora do país  e agora é bem claro que ir daqui para o continente para um casamento é improvável. Os dois ou três amigos que mereceriam o esforço, não os vejo de maneira nenhuma a caminhar para lá, os meus sobrinhos estão a décadas dessa possibilidade e o mais velho tem mais juízo do que isso, a ser também não está para breve. Há outra razão, é sabido que fazer-se parte de um casal aumenta em pelo menos 50% a probabilidade de se ser convidado para coisas.

Uma das razões pelas quais me agrada não ter que participar em cerimónias e banquetes é que isso me ia obrigar a comprar roupa apropriada, mesmo que não fosse um fraque nem uma coisa muito cara envolvia sempre peças de roupa que eu só ia usar nesse dia. Se me convidam para uma cerimónia em que toda a gente vai “bem vestida” não me agrada aparecer de calças de ganga e t-shirt. Há ocasiões em que o conformismo me parece ser a atitude certa.

Por isso estou contente pelas características deste casamento no Sábado, em termos de vestuário, basta-me escolher roupa limpa e “recente”  (tenho peças de roupa que visto há 25 anos e no outro dia reparei num par de meias remendado pela minha avó, que já morreu há quase 20)  e estou à vontade. Nem o casamento envolve igrejas nem os convidados são pessoas de formalidades e toilettes vistosas e caras. Também a minha prenda, duas caixas de Ovelha Negra que vão ser consumidas ali, vai ser adequada. Ainda pensei em oferecer uma ovelha mesmo  mas isso já era mais generosidade do que me é possível  ter nesta altura.

Os noivos são franceses, ela mora cá há muitos anos , já cá teve duas filhas , em casa (as últimas crianças nascidas nesta ilha) e tem muitos amigos entre os naturais e os estrangeiros.Ele mora cá há menos tempo e é o pai da filha mais pequena, são 4 filhos ao todo. Não é uma família tradicional nem convencional mas é das mais bonitas que conheço e das que “funciona” melhor, e eu passo algum  tempo com eles, somos bastante amigos. Já conhecia os dois últimos companheiros da C, este  é uma melhoria vastíssima e espero bem que,como tudo indica, a sequência esteja encerrada.  Ainda não percebi muito bem quais as razões que os levam a querer formalizar a união  perante o Estado português, deve ter a ver com as crianças e os impostos, não me interessam os detalhes mas sei que os solteiros têm desvantagens quando toca a lidar com o Estado e os bancos e de qualquer maneira é sempre uma bela razão para uma festa.

 

Carry On

Resultados algo  inesperados nas eleições no Reino Unido, os conservadores perderam a maioria parlamentar que há quinze dias pareciam favas contadas. Se por um lado  o Jeremy Corbyn perdeu as eleições, por outro (a sua interpretação) ganhou-as, é um fenómeno nosso conhecido . Ontem à noite muitos por cá sugeriam já uma contraption, geringonça em inglês,  pelos vistos uma criação  recomendável . Hoje sabe-se que não há  geringonça porque o partido mais votado vai mesmo formar governo, com o apoio do Unionistas da Irlanda do Norte, cuja principal política nesta altura é manter fora do governo um homem que era amigo do IRA .

Não estou nem satisfeito nem desapontado com o resultado, no que diz respeito à eEuropa a opção estava tomada desde o Brexit e mesmo que o Corbyn tivesse ganho e desatado a nacionalizar parte da economia, a aumentar os impostos, a construir uma mesquita transgénero orgânica em cada paróquia e a prometer educação e saúde gratuita a todos os povos oprimidos  do Mundo os britânicos iam lidar com isso. Há sempre perdedores.

Esta foto mostra várias coisas que eu admiro na Grã Bretanha : eleições livres às quais qualquer cidadão pode concorrer e  contacto obrigatório dos deputados com os seus constituintes ( Theresa May é a da esquerda, tem que ir ao seu “concelho” no dia das eleições primeira ministra ou não) . E depois admiro a capacidade ímpar que têm de se  rirem deles próprios e de lidar com o ridículo.

democracy

Um candidato foi vestido de Elmo ( à esquerda) , o senhor de branco é o presidente do Monster Raving Loony Party , e a figura do meio é um independente que concorreu com o nome de Lord Buckethead.

A Inglaterra  e o resto da Grã Bretanha, estão muito diferentes  do país um tanto idealizado que me atraía já em pequeno e que continuei a admirar  depois de 20 anos a conviver e  trabalhar para e com britânicos, a passar lá bastante tempo e a ter feito belas amizades. Não tenho palpites sobre o futuro do Reino Unido mas sei que têm uma lista de problemas enorme sendo o maior a negociação do Brexit e outro o terrorismo , misturado com a questão da imigração, e num cenário em que, dizem especialistas que já se enganaram antes, o crescimento económico vai sofrer,logo, menos dinheiro, logo , todos os problemas se agravam.

Nunca fui grande adepto do multiculturalismo, acho que há questões de identidade importantes que não podem ser descartadas e que de qualquer maneira o multiculturalismo não se faz de imposições,  quotas, benefícios e intenções, faz-se do respeito e convivência fazendo toda a gente cumprir um lote de regras comuns e dando a todos o direito de manter e desenvolver partes da sua cultura que não estejam em conflito com a lei e os direitos alheios. Parece-me uma definição simples, a coisa emperra  quando se pensa que o multiculturalismo deve ser promovido como objectivo em si, sou contra isso.

Para outros anglófilos deixo aqui algo que encontrei há pouco e me tem entretido muito, um canal do youtube com clips de um programa da BBC chamado QI , Quite Interesting, apresentado pelo Stephen Fry que tinha um painel de comediantes convidados e era tipo concurso, perguntas por pontos. Tal como a foto em cima, o programa é outro pedaço de bristishness concentrado: clássico e ridículo, sofisticado e pateta, fleumático e bem disposto, culto e disparatado, nostálgico e progressivo.

Invocação e Ascensão, sem comentários

Encontrei duas coisas que fizeram rir bastante, comecei a escrever mas ao fim de duas páginas  fui ler e pensei “que seca, sempre a mesma coisa” , pelo que hoje partilho aqui só  duas informações :

No dia 9 deste mês , com a Lua cheia em Gémeos , observa-se o Dia Mundial da Invocação ,  ” um dia mundial de oração e meditação em que homens e mulheres de todos os caminhos espirituais se juntam num apelo universal à divindade e usam a Grande Invocação . Juntos eles focam a prece invocativa da humanidade por luz,amor e direcção espiritual necessária para construir um mundo de justiça, unidade e paz.”  Os principais centros do evento, que começou em 1952, são Londres, Genebra e Nova Iorque, mas há encontros por todo o Mundo.

A segunda é que está à venda por 13,78€ na wook o livro  “Como dar Aulas de Ascensão” ,

Nesse link não aparece mas na capa da versão pdf figura , entre outras, a Senhora da Fátima.

Pronto, era só isto.

25/4 e o resto

Fiquei sem internet em casa há cinco  dias, a banda larga portátil deixou de trabalhar, estas coisas não são feitas para durar.Disseram-me que substituíam se estivesse na garantia ou me vendiam uma nova, talvez até me dessem uma lá com o esquema dos pontos. Tudo muito bom e muito eficiente só que ir a uma loja Vodafone, só de avião.Tratando de tudo pelo correio  é processo para mais de quinze dias. Insularidade.

Não me transtorna muito e até me faz recuperar horas normalmente gastas a procrastinar e a  pastar em frente ao écran, consumindo tempo com coisas que  podem entreter mas não adiantam grande coisa à vida de uma pessoa nem contribuem para o avanço da causa.

As notícias  mais importantes  encontram-se  facilmente, das eleições francesas só vi um parágrafo, a confirmar Macron/Le Pen na segunda volta, fiquei satisfeito. No dia seguinte ouvi uma declaração na rádio que me pareceu extraordinária. Um ex embaixador chamado Seixas da Costa comentava, com a sua vasta experiência de Paris e da politica, o resultado das eleições.Falava sobre os passos e politicas que Macron ia adoptar, as pessoas que ia convidar, quais vão as suas prioridades e eu pasmei,o senhor ex –embaixador, democrata da velha cepa, dá de tal maneira por certo o resultado que falava como se nem valesse a pena ir a votos  numa segunda volta. Pareceu-me incrível, quanto mais não seja por respeito pelo voto. Não há falta de declarações deste género, até livros escritos, sobre a Presidente Clinton por exemplo, e correu como sabemos, muito devido à  fúria contra uma classe política que está tão habituada a ter tudo sob controle e tem tanta confiança no sistema que neste caso dá a vitória de Macron como um dado adquirido.

Há estudos que demonstram a viabilidade de determinar o resultado da vontade popular sem as pessoas terem sequer que ir votar, governando por, digamos assim, sondagens. Aplicando análise estatística a uma amostra válida da população pode-se inferir a vontade do todo, e agir em conformidade. Não tenho opinião sobre isto, mas tenho opiniões bastante fortes sobre a necessidade de haver sufrágio universal  regular e limpo, as eleições não podem ser só uma formalidade e o resultado delas pode determinar o futuro de um país, logo, menorizá-las como um detalhe ou desrespeitá-las descartando publicamente a hipótese de Le Pen ganhar, é mau. Prognósticos, ao contrário do que defendia o grande lateral direito do FCP João Pinto, têm que  fazer-se antes do jogo, mas o embaixador  estava  a comentar a goleada e implicações de um jogo que ainda não aconteceu, às vezes corre mal.Além do  mais a equipa do Seixas da Costa foi humilhada mas isso não o impediu de se congratular com o resultado.

O 25 de Abril passou-me quase despercebido,o meu vizinho belga perguntou-me se eu queria ver  “o filme do 25 de Abril”, declinei , mais por falta de interesse no cinema em geral e sobretudo na realizadora, que se não a estou a confundir foi uma senhora que subiu na vida  até chegar a ser deputada, pelo PS. O meu vizinho ficou surpreendido ao saber que a deputada Medeiros vive em Paris e lá viveu todo o tempo que foi deputada.Cada um deve viver onde se dá melhor, mas se somos Deputados da República não é pedir muito que se resida na mesma, mas a ela parecia-lhe natural, são pessoas que vivem em mundos muitos diferentes. O filme sobre a revolução até pode ser muito bom e bonito mas  não tenho paciência para uma visão romantizada dos acontecimentos pela lente e perspectiva  de uma artista portuguesa da rive gauche.

 Vimos em vez disso um documentário francês,sou mais de documentários do que de filmes. O meu amigo belga é esquerdista  e como me conhece como visceralmente anti-comunista pensava que eu de alguma maneira era “contra o 25 de Abril”, ou que o lamentava ou que  me era indiferente.

Longe disso. Tinha um ano em 74 , não tenho memórias pessoais  mas cresci e vivi a evolução, sou observador atento e curioso da História e da Politica,só posso ter respeito e agradecimento. Até ver ,tenho por garantido o meu direito a dizer e escrever o que penso, falar e associar-me com quem quero, ler os livros que quero e ir e vir quando quero, dou muito valor a essas coisas, e tenho a impressão de que  que tal como vieram numa madrugada de Abril podem ir noutra madrugada qualquer.

É difícil, não é impensável nem impossível. Há centenas de milhões de pessoas no mundo que não têm esses direitos, há pessoas a trabalhar activamente contra esses direitos onde eles existem  e uma catástrofe natural ou humana pode criar condições para que desapareçam.  Acredito que nenhum país pode ter paz e prosperidade se os cidadãos não tiverem essas liberdades, nós devemo-las ao MFA e ao golpe de Estado do 25 de Abril, há que honrar a data e os protagonistas . O meu amigo ficou surpreendido quando lhe disse (e como fomos vendo no documentário)  que os comunistas não fizeram  revolução nenhuma, conseguiram sim mobilizar-se mais prontamente e já tinham os manuais todos sobre o discurso de revolução, a tomada do poder e o seu projecto de sociedade.Havia certamente comunistas no MFA, mas os objectivos não eram instalar a ditadura do proletariado como sonha o PCP, eram democratizar, desenvolver, descolonizar. Cumpriu-se.

Além de voltarmos a ter liberdades fundamentais, há outro aspecto do 25 de Abril me  dá orgulho no meu país : derrubou-se um regime opressivo com quase 50 anos e democratizou-se o país sem uma guerra civil que teria sido terrível. Quando vemos as histórias de golpes de estado e revoluções pelo mundo percebemos que somos um caso muito raro em que se trouxe a mudança sem derramar sangue,isso não tem preço.

Muitos não vivem bem com a memória da  revolução, desde pessoas que perderam e deixaram tudo em Africa, e foram muitas, a pessoas que simplesmente são de direita dura e estavam confortáveis, material e intelectualmente, na ditadura. Muitos outros vão olhar sempre para o passado com nostalgia simplesmente porque eram novos na altura. Podia ter sido diferente, claro, tudo podia sempre ter sido diferente, melhor, mais justo, mas “foi o que se pode arranjar” e para mim foi bastante bom.

Não vejo a Liberdade em perigo em Portugal, podem faltar-nos muitas coisas e podemos  ter problemas sérios  mas enquanto as pessoas forem livres de pensar, discutir, aprender, questionar, organizar-se  e propor , e se de tempos a tempos se puder mudar de governo, há uma esperança de que se consiga o resto.

Yoga

Desde que ouvi falar em yoga  pela primeira vez que me pareceu uma coisa muito boa. Não consigo imaginar uma crítica ou objecção a uma prática que promove e treina a respiração e a flexibilidade do corpo e só havia uma razão para não ter pelo menos experimentado antes: não acredito em começar coisas que não podem ter continuidade e a minha vida passada não me garantia um mês no mesmo sítio.

Já a viver aqui conheci pessoas que praticam e  ensinam yoga , declinei sempre as ofertas porque não queria começar uma coisa que ia ter que abandonar em breve e não conheço ninguém que tenha verdadeiro sucesso nalguma coisa de que se ocupa de vez em quando , um bocadinho aqui outro ali.

Chegou Janeiro deste ano, o ano em que me sedentarizei , e quando recebi o convite nem hesitei , não só porque há muito tempo que estava convencido dos benefícios físicos da prática como a moça que dá as aulas é uma jóia , em todos os aspectos . Antes que comecem a dizer “pois pois, queres é ir ver a rapariga… ” digo já que não , ela tem namorado que por acaso também vai às aulas e ainda por cima é um tipo porreiro , ainda somos capazes de nos tornar amigos e eu tenho um mecanismo (que já amaldiçoei muita vez) que me “desliga” o interesse por mulheres comprometidas , mesmo que estejam comprometidas com ursos, o que não é o caso.

A segunda feira é o dia , começámos com 4 pessoas e hoje já lá foram dez e já se fala em sessões duas vezes por semana. Ao fim de cinco  aulas posso dizer que o benefício até ver é mental , é a satisfação e vontade de fazer alguma coisa pelos meus pulmões que têm mais 20 anos que eu e pelas minhas articulações , que me dão muito jeito e que gostava de manter operacionais durante mais uns anitos .

A todas as pessoas que já pensaram fazer yoga mas adiam sempre, permito-me dizer que a única razão  válida será não terem possibilidades ( talvez por causa do sítio onde vivem) de pagar por aulas , nesse caso é difícil. De  resto, vergonhas e complexos e inseguranças não devem ter lugar nenhum, uma pessoa vai lá , assume que está no grau zero e quer aprender e isso justifica todas as dificuldades ,  “faltas de jeito” e mesmo incapacidade física de fazer certos exercícios . Não há nada de ridículo numa pessoa que se esforça por melhorar .  Duvido muito que alguém vá a aulas de yoga para ficar a ver como se está a sair a pessoa do lado ,  qualquer instrutor decente sabe fazer o aluno ficar à vontade e aquilo não é um desporto nem uma competição , tanto quanto percebo é a actividade ideal para cada um prosseguir ao seu ritmo e na medida das suas capacidades , que vão forçosamente melhorando com o tempo.

Não é preciso aceitar nenhuma “filosofia de vida” , não é preciso juntar-se a uma equipa ,  comprometer-se com um “programa” ou  traçar e perseguir objectivos . É só ir lá e passar uma ou duas horas a fazer simples exercícios que melhoram a capacidade respiratória , a flexibilidade e a postura , e isso , como se diz aqui , não tem defeito nenhum.

Miss Helsínquia

A Finlândia aparece na imprensa sobretudo quando se fala de educação e dos seus famosos resultados.Eu  admiro muita coisa no norte da Europa em geral e na Escandinávia em particular  mas não há nenhum factor social , político ou económico que me faça esquecer ou minimize o principal : nesta altura na Escandinávia os dias têm cerca de 3 ou 4  horas de luz e 20 de escuridão gelada, vão vocês para lá.

Há coisa de 15 anos passei 3 semanas na Suécia a visitar um amigo. Era uma cidade pequena , Karlstadt , e era Março pelo que os dias já tinham mais de seis horas de luz. Nessa altura já havia no país muitos refugiados e imigrantes , especialmente do Médio Oriente , e fiquei surpreendido ao saber que uma família chegada à Suécia recebia do Estado uma casa completamente equipada , uma subvenção de cerca de mil euros e coisas como transportes públicos gratuitos e  nenhuma obrigação de trabalhar . Parecia  que nascer no Afeganistão era suficiente para merecer a generosidade do Estado Sueco, achei incrível e pensei que os suecos ainda não tinham descoberto  a questão dos incentivos e não percebiam bem a cultura e sociedade de onde provinham estes novos habitantes.

Não fez grande diferença  enquanto todos os Suecos tinham direito a enormes benefícios do Estado mas as coisas foram mudando , o número de emigrantes explodiu e as despesas também. O debate sobre vantagens e desvantagens económicas da imigração é forte , eu até ver ainda aceito que há mais vantagens que desvantagens , pelo lado da economia , mas pelo lado social vejo cada vez menos , porque não sou um multiculturalista e tenho visto suficientes tentativas e processos de “integração”. Nunca mais me esqueço de que um grande amigo meu , meio holandês meio português , viveu muitos anos em Amsterdão a pagar renda a um senhorio turco , ao qual o Estado deu um apartamento e que depois voltou para a Turquia para viver dos rendimentos. Histórias assim são às dezenas , e depois os políticos espantam-se muito com a subida da xenofobia .

Esta generosidade delirante com os imigrantes funcionou por um lado como íman : “venham para cá, não têm que trabalhar e dão-vos tudo só porque são afegãos!” e por outro como catalisador de ressentimentos e divisões. Se eu morasse em Molenbeek  ficava furioso se a minha rua fosse fechada ao trânsito todos os dias para se encher de muçulmanos de rabo para o ar a recitar as suas fórmulas mágicas. Ninguém pára isso para não ofender os muçulmanos , ofender os ateus já se pode à vontade, se calhar porque os ateus não são propensos a rebentar com quem não concorda com eles.

Para supostamente combater estas tensões  entrou  a brigada do politicamente correcto , aquele sector sem espinha dorsal que postula que tudo vale o mesmo , tudo merece o mesmo , criticar é ser intolerante , valores identitários são coisas do passado , opiniões contrárias são ofensivas , devemos respeitar mesmo que o respeito não seja recíproco ,  a lista é longa e foca-se sobretudo nos direitos das minorias e dos recém chegados, mesmo que seja a custo dos direitos das maiorias instaladas. É o pessoal que acha que se devem dar medalhas aos que chegam em último , que ninguém deve ter o seu trabalho avaliado , que as crianças devem aprender o que lhes apetecer na altura , que todas as pessoas são maravilhosas e únicas e que se ao menos nos conseguíssemos dar todos bem…. nunca conseguimos , nunca vamos conseguir e esta gente cada vez me irrita mais porque com as boas intenções vêm acções e posições absurdas e tentativas de instaurar uma realidade alternativa por decreto.

Veja-se o último concurso Miss Helsínquia. Começo por dizer que acho estes concursos de beleza  repugnantes e que num mundo menos hipócrita as mulheres não se prestavam a essas figuras , mas há que lembrar que uma mulher que num dia clama contra a sexualização do comércio ou objectificação das mulheres é bem capaz de na manhã  seguinte encher a cara  de produtos químicos porque lhe dizem que fica mais bonita , comprar roupa de que não precisa pela mesma razão e é capaz de passar horas a consumir coisas como revistas e programas de TV sobre moda. A culpa será dos homens que as objectificam , raramente das próprias que se esforçam por ser objecto de desejo.

Este ano aposto que a Miss Universo vai ser outra vez do planeta Terra , lembro que o Donald Trump era até há bem pouco tempo um dos maiores organizadores e exploradores destes concursos de beleza , são precisas determinadas características pessoais para isso , algumas são as mesmas  necessárias a ser um proxeneta de sucesso.

Os concursos de beleza pretendem avaliar o gado as concorrentes  por critérios não só físicos mas também de outra índole, tipo saber tocar piano , mais 3 pontos. Amar criancinhas , 2 pontos, ser contra a fome no mundo, 1 ponto. Depois disso há , calculava eu , o factor “representatividade” , ou seja , em geral era sempre esperado que a Miss Gabão fosse preta e a Miss Suécia fosse branca , por uma razão lógica : a maioria esmagadora das pessoas nesses países é assim , se vamos procurar a mais bonita das Gabonesas é normal que não escolhamos uma ruiva. Os anos passaram e a demografia mudou , hoje em dia já ninguém se espanta muito se a Miss França for árabe… desde que seja a mais bonita, com o grau de incerteza que isso implica.

Este ano a Finlândia elevou a fasquia do politicamente correcto no concurso de Miss Helsínquia e , a meu ver, cobriu-se de ridículo.  A Finlândia tem cerca de 6 milhões de habitantes e cerca de 6% de residentes de origem estrangeira. Apesar disso achou-se que a mulher mais bonita de Helsínquia e que melhor representa a Beleza Finlandesa é esta moça :

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Não vem mal nenhum ao mundo se a miss não sei quê vier de uma minoria , mesmo de uma minoria minúscula que esteja  o mais longe possível de representar o padrão físico do país, agora quando  elegem  um camafeu destes  só porque é de uma cor diferente , para se mostrarem muito avançados e tolerantes, já perderam a noção das coisas.