Dois dias depois de encontrar o uruguaio quase em lágrimas e desespero por causa do barco que tinha que sair da “marina”, estava com os miúdos a lavar os barquinhos da vela ligeira ao pé do porto quando começo a ver a grua enorme a subir a ladeira, seguida pelo maior camião da Câmara municipal, em cima dela o veleiro sem mastro.

A grua, o empilhador gigante, o camião com o rreboque articulado , 4 homens para trabalhar, 6 para ver e gritar, todos estes recursos foram mobilizados para retirar o veleiro do porto e o deixar no parque de estacionamento.

A acompanhar o cortejo , o uruguaio, com as veias dos braços a explodir e o os olhos a brilhar. Fiz -lhe sinal com o polegar para cima, contente por se ter safo, ainda hoje não sei quem pagou aquilo tudo, se é que alguém pagou, e de onde é que vieram as ordens.

– Como correu?

-Terrível, não me avisaram com tempo, não tinha nada preparado, foi tudo a correr, estragaram-me muita coisa do barco na manobra…uma brutidade

– Mas por agora tens o problema resolvido.

-Precisava de uma motosserra…

– Posso empestar-te  a minha mas não é já…

Enquanto decorria este diálogo  o barco estava suspenso pela autogrua do porto que eu não estimo se mexa para um serviço privado por menos de €300 por hora. Vi o meu amigo Beru a aproximar-se.

-Beru, desenrascas  a motosserra a este desgraçado? Ele precisa de cortar os troncos para o berço.

O Beru, melhor pessoa do mundo, foi buscar a sua motosserra a casa, mesmo ali ao lado.

-Eu só preciso dela 15 minutos

-Ele não te vai emprestar a motoserra, vai cortar o que tu lhe pedires

-Mas eu sou capaz de fazer seja o que for com uma motosserra, eu mostro-te!

-É como eu te estou a dizer.

O Beru lá passou meia hora a acertar os troncos para suportarem o veleiro e a grua pôde desmobilizar.

-Obrigado Jorge!

-Homem eu não fiz nada por ti, não me agradeças, a sério. Nada.

-Eu sei que falaste com este e aquele…

– Estou contente por estares safo por agora, mas a sério que não tens nada para me agradecer.

Lá ficou, a ocupar 5 lugares de estacionamento que num verão mais agitado fariam falta, pronto a lançar-se ao trabalho de reparar as avarias que trazia e as que ganhou aqui, mais um hóspede por uns meses. As apostas gerais são que é mais um para morrer ali. Eu tenho mais confiança neste do que nos anteriores proprietários que puseram os barcos ali em seco “para umas reparações” que durarar meses, depois anos, e depois o furacão Lorenzo meteu-os todos no fundo do porto acabando com as especulações.

Desejo-lhe sorte, é um tipo simpático, marinheiro e com perícias que já mostrou bem, já ganhou respeito, espero que encontre os trabalhos que precisa para reparar o barco e seguir viagem, mas também é possível que fique aí anos. Tudo é possível.

 

Marinheiro em apuros

No passado dia 26 entrou no porto das Lajes um veleiro de 9 metros, sem mastro e a mostrar bem o desgaste de muito tempo no mar. A Autoridade Marítima  e o pessoal do porto disseram ao  tripulante que tinha que fazer reparações e seguir o mais depressa possível, o porto está em obras e continuam algumas restrições do estado de alerta, ou calamidade, ou seja lá qual for o estado em que estamos. Tinha passado 76 dias no mar, vindo do Panamá.

3 dias depois estávamos de volta dos botes quando o marinheiro veio ter connosco, como todos os anos os  marinheiros que por ali passam mostram sempre interesse nos botes, e é uma altura em que não me faço rogado em responder a perguntas e falar com os visitantes, especialmente os velejadores.

É Uruguaio, e é mais um aventureiro do mares que anda por aí com equipamentos , orçamentos e planos ultra minimalistas. Encontrei-lhe logo ali um mastro, de um veleiro que foi para o fundo do porto no furacão Lorenzo, o dono vende-o por €500, o que dadas as circunstâncias  é um excelente preço. Ficou entusiasmado , encantado com a ilha, etc.

Felicitei-o pela sorte de ter um passaporte espanhol,  aconselhei-o a esquecer por uns tempos o uruguaio e em tudo o que é administrativo avançar como espanhol. Pessoa de mente aberta, paz num mundo livre, etc, não quis valorizar a vantagem prática que certos passaportes têm sobre outros nem crer  no potencial para causar problemas se andarmos no estrangeiro ora com um ora com outro. Há pessoas que ainda nem vislumbram a capacidade de cruzamento de dados que já está instalada.

Dei-lhe um conselho muito sério e repetido: a situação dele está nas mãos do chefe do Porto e de mais ninguém, e isto por razões principalmente operacionais, ele é que pode decidir e ajudar seja para autorizar e varar o barco seja para reparar o motor. Disse-lhe que falasse com ele quanto antes para ver as alternativas de varar o barco  num canto do porto onde não estorvasse, deixá-lo amarrado noutro canto ou tirá-lo mesmo para fora. Disse-lhe que não era uma pessoa muito fácil mas que já tinha desenrascado muitos iatistas em dificuldades, era possível mas em última análise se ele não gostasse dele não havia grande coisa a fazer.

Estava bem disposto, entusiasmado, e lá foi. Os dias foram passando e nunca mais o vi, passou uma semana e o barco no mesmo sítio, parti do princípio que tinha resolvido o problema. Ontem encontrei-o outra vez no porto, vinha abalado e cheio de nervos, com os olhos inflamados. Tinha estado aos gritos com o chefe do porto, que lhe tinha dito que até sexta feira o barco tem que sair dali. O barco hoje não está em condições de navegar para a Horta nem há sítio na ilha onde possa ficar na água. O uruguaio estava desesperado.

Então sucede que nestes dias encontrou trabalho e decidiu ir ganhar algum. Há sempre trabalho para quem saiba coisas como carpintaria ou possa fazer trabalhos físicos como roçar terras. Foi para outra freguesia, com outro estrangeiro semi permanente de cá e lá passou uns dias, regressando  para perceber que as coisas são muito mais complicadas. Está visto que não é bem vindo no porto, eu também não fui e ainda aqui estou, mas é preciso saber. Sugeri-lhe que se concentrasse em reparar o motor e seguisse para a Horta assim que possível, podia voltar. Que também conseguiria encontrar trabalho na Horta e tudo melhor para reparações. Diz que não tem dinheiro para pagar as reparações e a ancoragem na Horta, são €14 por dia. Então e como é que ias pagar o mastro? Trabalhava aqui. Disse-lhe que se não conseguisse ter o barco pronto a ir a motor para a Horta tinha que ir falar com o Capitão do Porto,  sem dinheiro para pagar uma autogrua e um reboque e um berço, e sem sequer a certeza de que alguém lhe fazia esse serviço, ele não tem grande hipóteses de poder cá ficar e vai ser ainda outro problema.

Nunca deixam de me espantar, estas pessoas que partem assim ao deus dará. Lamentei, não posso fazer nada por ele, já lho disse, nem tenho peso para intereceder nem a minha intercessão o ia ajudar , antes pelo contrário. Ele lembrava-se bem de eu o ter avisado, não se lembrou foi a tempo nem prestou a atenção devida, deixou-se encantar pela ilha. Não lhe disse que o que pesou muito na decisão de o afastar foi ele ter revelado intenção de ficar cá. O chauvinismo está em alta, e sempre esteve forte em certas partes. Talvez se ele tivesse ficado caladinho ( coisa difícil quando se passaram 76 dias sozinho no mar) e tivesse dito que só queria reparar o barco em paz , o que nem era mentira, tinha-se talvez safado melhor.

Não faço ideia do que lhe vai acontecer, não lhe prevejo um futuro nada fácil dê lá isto por onde der. 74239303_10158504894880477_419907413576634554_n

Esta foto foi tirada no dia a seguir à chegada. Nessa manhã chegou o outro veleiro, foi-lhe dito para seguir caminho e seguiu.

A Mudança

Um dos meus tropos favoritos é que já está tudo inventado  há muito tempo, tudo o que fazemos é interpretar e actualizar. É uma expressão destes  magníficos versos do Eclesiastes    :

Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.
Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao  lugar onde nasceu.
O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos.
Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr.
Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.
O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.

Mais ou menos pela altura em que se compilava este livro, viveu em Éfeso , cidade grega que hoje é na Turquia,  Heraclito, um dos primeiros filósofos conhecidos, ou melhor, um dos primeiros pensadores sistemáticos de que o Ocidente tem conhecimento, porque filósofos sempre houve . Resumindo, a ideia fundamental dele sobre o Mundo é a da impermanência, tudo se move, tudo flui, nada permanece igual e a única certeza que podemos ter é que as coisas mudam.

Como é que isto quadra com o Eclesiates e a ideia de que nada é novo debaixo do Sol,  se tudo está em movimento e mudança? Como eu vejo as coisas, há mudança constante mas o fundamental permanece, há uma regeneração e renovação como nas árvores ao longo das estações: mudam mas são as mesmas. Não vemos duas vezes a mesma água no rio, mas é o mesmo rio.  O fundamental que permanece não são regimes políticos, culturas, religiões, paisagens, sociedades, impérios , bens materiais ou realizações humanas. Tudo isso é criado e varrido ao longo dos séculos. O fundamental são coisas como leis da Física que descrevem e explicam realidades objectivas e permanentes como “o Sol nasce todos os dias no Oriente”, ou  “para cada acção há uma reacção” . São realidades demonstráveis como “nascemos, crescemos e morremos” . O fundamental são as motivações,  emoções , ansiedades e aspirações dos Homens, que não mudam.

Todas as gerações são confrontadas com mudanças no seu ambiente, sociedade e cultura, sempre foi assim mas o ritmo acelerou vertiginosamente desde a Revolução Industrial, ou desde o Iluminismo, se preferirem. Na Alta Idade Média uma pessoa vivia exactamente como tinha vivido o seu pai, o seu avô, o seu bisavô e tretravô . Crença, dieta, vestuário, trabalho, posição  e relações sociais, paisagem, rotinas, utensílios, mantinham-se virtualmente inalterados durante séculos.  Hoje é sabido que os nossos avós dificilmente reconheceriam o mundo e a sociedade em que vivemos, e  entre as 3 gerações vivas já se cava um abismo tecnológico e de costumes. Até entre a minha, a geração X que cada vez mais me convenço foi a mais afortunada da História moderna, e  a que me sucede já existe uma distância considerável. Não sei se é aí que os estudiosos marcam a transição mas a diferença maior é entre as gerações que já nasceram com a internet e as que ainda viveram sem ela, porque é a internet o grande catalizador da mudança moderna.

Uma coisa que nunca muda é o franzir do sobrolho dos velhos às realizações e inclinações dos novos e às mudanças que vão aparecendo, e este franzir de sobrolho pode ir desde literalmente franzir o sobrolho até ao desgosto profundo e resistência activa. Lembremos por exemplo o casamento homossexual, coisa que há 50 anos era inimaginável e que hoje poucas pessoas contestam, especialmente a partir da altura em que passaram os anos e se tornou óbvio que a única coisa a que o casamento homossexual conduzia era  a  mais liberdade e possibilidade de felicidade para os homossexuais, sendo absolutamente inócuo e indiferente para todos os restantes.

As mudanças seguem à velocidade da informação digital e o que estou a ver é cada vez mais pessoas a serem completamente ultrapassadas pelas mudanças, e o desconforto natural a que isso leva. O tema que me levou a começar a escrever isto é a demografia.

A composição das populações ocidentais está a mudar, os caucasianos reproduzem-se menos por razões que não vêm agora ao caso, os africanos e asiáticos não. As migrações são um impulso crescente pela natural atracção das sociedades mais ricas e evoluídas do Ocidente e os movimentos de fuga à violência e miséria só vão aumentar, sabendo como sabemos que as alterações climáticas só vão exacerbar essas diferenças. Se num lado temos excesso de população, no outro temos falta, e se bem que isto não é exactamente um sistema de vasos comunicantes, é verdade que a tendência será para o equilíbrio. E é uma verdade incontestável que temos falta de população na Europa, as pessoas vivem mais e das duas , uma: ou se deixam rebentar os sistemas de segurança social, as economias  e os regimes fiscais ocidentais, ou se arranja maneira de manter o ritmo de substituição da população.

Em Portugal este ano pela primeira vez houve mais imigrantes que nascimentos e estamos a assistir a um aumento enorme de novos portugueses, que são fisicamente e culturalmente diferentes dos antigos. Isto está a transtornar muita gente.

Eu não sou multiculturalista, não sou um tipo que se deleite na diferença e na mistura, sempre me pareceu que uma das razões que nos permitiu sobreviver 900 anos como nação foi a homogeneidade e sempre retirei grande conforto de conhecer os portugueses do Minho ao Algarve e às ilhas, saber que não se conseguem distinguir à vista e que têm todos o mesmo fundo e referências culturais. Não é achar que o portuga é de alguma maneira superior a outro qualquer, é achar que é como eu em tudo, é rever-me em todos. Isso está a acabar, é mais aparente para quem vive numa grande cidade e vai causar fricções e atritos de que estamos só a ver ainda o começo.

E o meu ponto é este: a composição étnica do português está a mudar, vai  mudar e não há nada que possamos fazer para o impedir excepto fechar fronteiras e condenarmo-nos com isso à miséria futura. O que está em mudança não é só a cor,  origem e religião (ou falta dela) das populações, são igualmente os paradigmas e as normas sociais, e vão continuar a mudar num sentido que, mais uma vez , vai deixar muito desagrado e não só entre velhos e os que para lá caminham como eu mas também entre os novos que foram educados a ter uma visão rígida do que é uma socieade.

Não gosto nem me sinto confortável com boa parte das mudanças que vejo, sejam étnicas sejam culturais e sociais, também daí a minha decisão de fugir para aqui. Isso não quer dizer que me revolte mesmo que seja simbolicamente, que resista e sobretudo que me consuma em lamentos e preocupações.

A solução é aceitar, é ter consciência da inevitabilidade das mudanças, mesmo das que não compreendemos ou aprovamos, é saber que está  fora do nosso alcance contrariar a mudança e que só nos resta adaptar, seguros no conhecimento de que o fundamental nunca muda. E isto vale para todas as mudanças, como  ensinam os Estóicos há mais de 2000 anos.

Afinal ainda é pior

Segue o ano mais carregado de acontecimentos, digamos assim, de que tenho memória.É claro que dada a avalanche de informação que temos na ponta dos dedos podemos estar o dia todo a ver só notícias más, mas a verdade é que se é possível encontrar coisas positivas e pontos de luz, a conjuntra e o cenário todo são medonhos.

No princípio de Março escrevi um post um bocado apocaliptico e catastrofista, estava genuinamente alarmado e receoso. Depois fui vendo que talvez não fosse tão mau, que era provável ter-me  deixado levrar pela minha imaginação fértil.

Hoje, 3 meses depois, mudei de ideias. Acho que o colapso não é a curto prazo e sim a médio prazo e que o que eu acreditava ser o motor da destruição imediata, a pandemia,  vai ser o motor da destruição paulatina, acompanhando e ajudando o resto dos factores que estão a trabalhar.

Comecemos pelo covid19. A 14 de Março acreditava que a mortandade ia ser mais elevada. Hoje acredito que pode não ser muito elevada mas vai arrastar-se por anos, ou seja, o vírus não vai ser erradicado e as vacinas têm as suas limitações. Se não vamos chegar a ver hospitais de campanha cheios vamos continuar a ver mortes a conta gotas, contabilizadas ao critério e capacidade dos governos. Vamos continuar sujeitos a restrições que são anunciadas como para nossa protecção mas que vai-se a ver e ninguém tem a certeza se são eficazes ou não. Aceitam-se por mentalidade de manada e medo de ser do contra ou arriscar.

Se há coisa eficaz para aterrorizar uma sociedade é uma doença contagiosa e mortal, e isto está a ser aproveitado por vigaristas e escroques que enriquecem com contratos opacos e arbitrários com o Estado ou simplesmente a enganar os ingénuos e ignorantes. Está igualmente a ser aproveitado pelos governos para fazer passar tudo e mais um par de botas, coisas que noutras circunstâncias mereceriam mais escrutínio, debate  e crítica hoje são para avançar a correr, a bem da nação. Se as pessoas têm medo aceitam melhor, isto é sabido há séculos.

A parte económica, tem sido  muito educativa e mostrou-me as minhas limitações, acreditava que num mundo em recessão e com crises de toda a ordem seria dificílimo encontrar recursos para fazer face à destruição económica e a solidariedade entre países ia ser comprometida. Bom, no que toca à União Europeia, pela  46ª vez anunciaram-lhe a morte e a morte não chegou. Se fiquei contente por ver que conseguiram encontrar um consenso fiquei quase estupefacto por ver que afinal era só preciso criar umas manigâncias financeiras e apareciam milhares de milhões de euros para distribuir. Isto quer dizer que é mesmo possível imprimir dinheiro à vontade se se criarem instituições para emprestarem dinheiro umas às outras num círculo permanente. Ainda não percebi muito como é que estas operações que vão dar liquidez aos europeus não vão causar inflação, mas como disse, é porque sou limitado também nesse campo. Pelos vistos não há limite, e isto pede a questão: porque é que não se fez já antes para resolver outros problemas tão graves?

Apareceram os milhões , verdadeiro maná para o governo, que apesar de ter 70 ministros e secretários de estado foi contratar um consultor à sociedade civil, para mim foi um auto atestado de incompetência. Quando cai mais este maná para pagar a perder de vista aplica-se logicamente o velho adágio “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, é burro ou não tem arte”, e eles burros não são. Os milhões que chegam não só salvam a pele ao governo como vão criar fortunas e permitir servir as clientelas e  a corte de Lisboa. Esses milhões não vão fazer com que os problemas desapareçam , porque os problemas são, a maior parte deles, estruturais, e reformas não são o  forte dos nossos governantes.

Ou seja, continuo convencido de que a crise económica vai ser muito severa e longa, com todas as consequências associadas a isso.

Pela parte social, espero que toda a gente que acreditava, ou tinha esperança, de que a pandemia viesse trazer ao de cima o que de melhor as pessoas têm, já tenha percebido que o contrário é muito mais provável. A minha experiência disto não é comum, porque vivo numa aldeia no meio da mar sem ver televisão, os vislumbres que tenho da realidade nas cidades só me faz mais contente por estar aqui mesmo que saiba que muita coisa se passa fora da minha atenção.

A separação física é real e como a doença não se vai evaporar , vai continuar e só vamos saber as consequências reais disto daqui a muitos anos. As barreiras e condicionamentos , a mentalidade de perseguição e denúncia , sempre com o medo como pano de fundo, essas coisas deixam marcas. Quando isso se cruzar com miséria material as coisas ainda ficam piores.

E quando estávamos a debater e sofrer a pandemia, rebenta o caos na América por causa da brutalidade policial. Disso já falei, mas não falei de duas coisas verdadeiramente extraordinárias que se passaram lá e cá. A primeira é que se passou EM DIAS de pensar que a distancia social é vital para sobreviver colectivamente para pensar que protestos massivos de multidões são vitais para sobreviver colectivamente. Atenção, creio que os protestos são justíssimo por razões que já expliquei antes mas não pude deixar de ficar pasmado como os media americanos , e a Esquerda em geral, passaram de martelar na pandemia para ignorar a pandemia. Já a direita americana passou EM DIAS de se revoltar contra o confinamente para exigir tiros para fazer valer recolher obrigatório, uma pessoa fica maluca a ver estas coisas

A segunda foi ver a vontade com que os nossos revolucionários de trazer por casa correram a abraçar a causa, “correr atrás do americano” como o Carlos da Maia e o João da Ega. A cultura woke está ao rubro e os seus líderes e figuras não podiam deixar a oportunidade. Foi extraordinário ver milhares a manifestarem-se em Lisboa menos de 4 dias depois de se ter vincado bem a  necessidade de distanciamento social. Perante uma tragédia recorrente nos EUA os progressistas lisboetas não podiam ficar quietos , nem em tempo de pandemia. Para o Bloco de Esquerda as relações raciais em Portugal estudam-se na Amadora, na Linha de Sintra e na Damaia, o que aprendem lá é como acham que está o país.

Fez-se um 1º de Maio que foi um foco de contaminação porque não se nega o “flex” aos sindicatos, a seguir a Corte juntou-se às centenas numa sala de Lisboa para assisitir à actuação do bobo do momento, enquanto o resto do país se encolhe e sofre com tudo fechado e parado e depois vem o golpe de teatro da manifestação, sinceramente, foi fazer pouco do esforço não só dos profissionais de saúde como do resto de nós, proibidos e impedidos de fazer tantas coisas de que gostamos, em prol da saúde pública.

Não há critério claro nas autorizações ou recomendações da DGS, há arbitrarieade, que é um dos sinais de corrosão da democracia. Não será grave porque a pessoa da presidência explicou que “em democracia há excepções”, e raios me partam se isso não merecia ter passado em destaque em todos os canais e explicado bem às pessoas o que significa dizer aquilo.

Em Março esperava turbulência política e convulsões devidas à pandemia , não esperava este golpe duplo que foi, especialmente para os EU mas que alastra, a explosão dos protestos de motivação racial e o que já estão a fazer na América. Vi o Mayor de Minneapolis a chorar baba e ranho junto ao caixão do George Floyd e pensei logo “que grande impostor!” e 3 dias depois vi-o ser expulso de uma manifestação que exigia desmantelar a polícia. Querem desmantelar a polícia.

Durante décadas meteram-se nas universidades milhares de jovens a estudar os agravos sofridos por minorias, depois a encontrar e criar minorias e depois a produzir discursos sobre esses agravos e a maneira de os compensar. Milhares de pessoas que não sabem apertar um parafuso ou estrelar um ovo, que já nasceram com a internet, convencidos de que são excepcionais, criados no ambiente doentio das universidades policiadoras do discurso e orientadoras dos debates, essa geração cresceu, já ocupa cargos e fornece enquadramento teórico a qulquer grupo activista com uma causa, e demasiadas vezes a causa é a mesma de todos : benefício pessoal.

Teses de doutoramente e colóquios sobre se devemos mudar os pronomes pessoais, sobre micro agressões, sobre as problemáticas da transexualidade, sobre um  mundo dividido entre opressores e vítimas, a preto e branco, uma grande construção teórica que agora amadurece e chega ao poder. Há quem veja nisto uma oportunidade de mudança para melhor, eu estimo bem que sim mas não vejo bem como. É porque estou a ficar velho e já estudei algumas revoluções e movimentos para ter uma boa ideia de como decorrem e acabam. Parte da vitória do Trump deveu-se a este elitismo e arrogância  intelectual que tanto se ocupa de questões sérias como se ocupa de questões de lana caprina e que floresce na confrontação, e está agora a dar-lhe outra vez uma mão na re-eleição com exigências tão absurdas como “desmantelar a polícia” e coisas como oficiais prostrados no chão em contrição , senadores embrulhados em panos africanos e uma série longa de coisas ridículas que está longe de estar encerrada.

Os nosso macacos de imitação acorreram à chamada dos irmãos da América e dezenas de pessoas que presumo terem começado a ler História há pouco apressaram-se a lembrar coisas como o facto de Lagos ter sido porto de escravos ou o Infante ter pessoalmente dinamizado o tráfico. E lá vamos nós outra vez , lançados no debate estéril entre os luso tropicalistas fascizóides que idolatram o Império e os progressistas que lhe chamam Empresa de Destruição Maciça e parecido. Como sempre no meio, os moderados sofrem a ver  os radicais a ajudar sem querer o André Ventura.

Isto só se vai complicar e extremar mais, é a minha infeliz aposta.

PS: no meio desta avalanche de merda é fácil esquecer que as histórias sobre “a natureza a curar-se” eram só isso, histórias. As alterações climáticas continuam a galope e irreversíveis. E na semana passada houve na Rússia uma fuga de 20 mil toneladas de gasóleo que agora correm livremente pela paisagem e que parece estar relacionada com o derreter da camada “permafrost”. Se ainda não estão deprimidos que chegue aconselho uma pesquisa rápida sobre a “permafrost” e o que está em causa com o seu descongelar.

Não há Boas Notícias

A América num momento perigoso, talvez seja um cliché nas televisões nestes dias, eu não tenho dúvidas de que é perigoso. O racismo não aumentou mas está a ser mais  filmado e mais pessoas vêm e pensam no que se passa.  Mais pessoas estão a perceber o que é o racismo sistémico, aquele racismo que não é  umas pessoas não gostarem de outras por causa da cor, é  como a sociedade estabeleceu mecanismos que mantêm as minorias em desvantagem permanente. Não basta estar escrito na Constiuição que todos são iguais perante a lei se depois não há garantias e a prática mostra o contrário.

Pela milionésima vez a polícia americana foi deter um indivíduo e usou de uma brutalidade enorme que acabou por provocar a morte do homem depois de 9 minutos de agonia. Houve vídeo e estalou a revolta , primeiro em Minneapolis e depois foi alastrando. Há sempre a gota de água, e o copo de ocasiões destas está cheio , e está tudo  muito documentado. Quando pensamos em todos os incidentes semelhantes que não foram filmados ou se aceitou sem mais a versão da polícia, dá para parar e pensar.

Toda a raiva e frustação rebenta , juntam-se os delinquentes e criminosos que são legião em todos bairros pobres e degradados do mundo e a violência tem que alastrar. A polícia intervém, de uma maneira que merece destaque. No fim da primeira guerra do Golfo os EU ficaram com enormes reservas de material militar sem uso e decidiram que o melhor a fazer era distribuí-las pelas polícias, começando um processo real de militarização das polícias que segue ainda hoje e que faz com que uma cidadezeca qualquer tenha carros blindados e ponha na rua homens que parece que vão entrar em Falujah nos velhos tempos. Esta abundância de material junta-se a outra característica das polícias de todo o mundo, que é a relação natural com a violência, ao fim ao cabo são agentes de coerção. Toda a pessoa que vá para polícia tem no mínimo tolerância à violência e no máximo, gosto por ela. Não dou palpites sobre a proporção mas creio estar mais para o lado dos que não se importam e até gostam. Outro ingrediente  que se junta à mistura, a retórica do presidente, que sempre encorajou publicamente a aproximação dura e sempre mostrou mais simpatia pelos nacionalistas e supremacistas brancos do que pelos que lutam pelos direitos civis.

Ainda outro factor que sempre contribuiu para agravar o problema da violência policial nos EUA são os sindicatos de polícia, e a objecção é a mesma que se faz aos outros sindicatos: existem para proteger todos os membros, bons e maus, com o foco exclusivo e estreito no interesse dos seus membros, e protegem-nos sempre.

Haverá outros ingredientes que  não me ocorrem agora mas esta panela de pressão rebentou em Minneapolis e depois, como sempre, a violência gera mais violência. Mais de 400 cidades viram protestos , a grande maioria pacíficos, mas houve mais angústia com as pilhagens do que com o facto de se estar a ver a nação a revoltar-se  contra si própria e reprimir-se a si própria. Houve um pico de indignidade no dia em que  decidiram trazer unidades militares para DC e se juntou um grande protesto frente à Casa Branca. Estava declarado recolher obrigatório para as 7 e às seis e meia mandou-se limpar a praça, o que foi feito com cavalos, bastões, balas de borracha e gás lacrimogéneo. Era uma manifestação pacífica. Quiseram abrir alas para o presidente ir tirar uma foto com uma bíblia na mão frente a uma igreja. Ele não consegue citar um verso que seja da bíblia. Assim se brutalizam os cidadãos para uma foto de propaganda quase blasfema , o ultraje aumentou ainda mais por todo o país e no dia seguinte mais gente desafiou o recolher obrigatório. O general Mattis quebrou o voto de silêncio e publicou um artigo destruidor mas pior que isso foi o memorando  do Estado Maior da Forças Armadas. Em poucas palavras , sentiram a necessidade de lembrar o dever constitucional deles e o que são ordens e missões ilegais, depois do presidente ter passado o dia a falar em mandar avançar as tropas.

Sábado espera-se um milhão de pessoas em Washington, o país vai de certeza levantar-se outra vez em protestos e o Trump a ver cada vez mais as paredes a fechar-se, denunciado por todos os lados, a tombar nas sondagens, cada vez mais dependente do núcleo duro de fiéis, tudo isto tendo como pano de fundo uma pandemia , 40 milhões de desempregados , a imprensa histérica e as redes sociais a  acicatar, todos os dias, 24/7 .

O Trump só é homem para responder a isto ou com violência, partindo do princípio que ele está longe, ou com mentiras e obfuscação, ou com ambas, porque ele não tem as qualidade de liderança e de estadista para tempos destes. Nem as tinha para tempos calmos, quanto mais para isto. Faltam 5 meses para as eleições, muita água vai correr debaixo da ponte e muita loucura vai ainda acontecer.

O Porta Tapetes de Yoga

Anda o diabo à solta na América, por cá ainda é mais a idiotice e imposturice à solta e por todo o lado, quer-me parecer, cavalga a loucura.

Entre um lado e outro e tudo o que se tem passado nas últimas semanas não faltaria pano para mangas de crónicas e opiniões. Racismo, violência, opressão sistémica, abusos de autoridade, crise económica, demagogia e desinformação, tudo em vídeo e em tempo real, estou contente por ser testemunha destes tempos e contente por não ter 20 anos e estar agora a tentar aperceber um sentido nisto e a projectar uma vida.

Vou  antes falar de um  produto que vi à venda no facebook, um porta tapetes de yoga.

Estamos em tempo de questionar a economia capitalista e inventar novas alternativas, coisas sustentáveis e equitativas. Queremos novos modelos de produção e consumo, queremos preços justos e um fim ao enriquecimento exagerado. Queremos valorizar mais o colectivo e estar mais em contacto e sintonia com o ambiente.

Isto é uma posição moderada, todos certamente já viram posições mais radicais, desde a rapaziada que quer instalar guilhotinas nas praças aos que querem proibir a carne passando por confiscar o dinheiro dos ricos, nacionalizar tudo, proibir o gasóleo e em geral alinhar os chakras do mundo, a bem ou a mal.

Essa rapaziada está ao rubro, energizada pela crise do covd19, que como todas as crises, traz a possibilidade de mudança. A maior parte crê que é mais importante acabar com este sistema do que ter antes um melhor para o substituir, pensando talvez que uma vez que haja vácuo este vai ser preenchido pelos bons, o importante é deitar o sistema abaixo, um novo e melhor vai nascer por geração espontânea. Deve ser por causa da  Era de Aquario.

Numa Nova Economia o motivo não seria o lucro e sim a partilha, não a acumulação e sim a distribuição. Para tal é preciso que toda a gente participe, criando e distribuindo. Entre as tribos mais contestatárias e apologistas de grandes mudanças espirituais e materiais costumam encontrar-se os adeptos do yoga.  (nota: já pratiquei, defendo, aprovo e não tenho dúvidas sobre os benefícios do yoga, para não pensarem que é mais uma tirada pirrónica contra uma coisa de que não gosto).

Esperava-se, ou eu esperava, que os adeptos e proponentes da nova economia em primeiro lugar defendessem bases novas, não apenas mais do mesmo mas nacionalizado e com outras cores e energias. Por isso achei tanta graça a este exemplo de um produto criado por alguém dessa nova geração e sensibilidade e apresentado como exemplo positivo de iniciativa económica.

Ora, um tapete de yoga é geralmente uma tira de espuma que custa €4 e se vende por esse preço como tira de espuma ou por €25 como tapete de yoga. O yoga é uma actividade que não requer nada além do tal tapete ,  no limite nem mesmo isso. Esperava-se que essa fosse uma das características preferidas dos praticantes, sinal de simplicidade, mas não, como em tudo na vida, podem juntar-se acessórios. Qualquer pessoa consciente, verde, etc, nesta altura do campeonato devia estar a descartar precisamente tudo o que é acessório e a focar-se no essencial, mas o que reparei já há bastante tempo é que as pessoas não procuram nem defendem realmente um sistema melhor para todos, defendem um sistema melhor para si.

O porta tapetes é isto:

101002968_558837774825623_7377293444042981376_n

Alguém criou um produto que pode ser subsituído com vantagem por um pedaço de cordel, para proteger algo que não se estraga e poder pendurar ao ombro algo que pesa 200 gramas. Um objecto completamente desnecessário, com um processo de fabrico longuíssimo e que no fim é forçosamente mais caro do que o objecto de que pretende ser um acessório. Este porta tapetes pode ser arte ou artesanato mas não é realmente um “produto” , não tem utilidade prática nem é nenhuma evolução nem nenhuma forma melhor de fazer alguma coisa. Serve para as pessoas terem mais um objecto bonito, coisa que é bem aceite se for um porta tapetes de yoga mas mal aceite se for um mercedes e no entanto o princípio de base é o mesmo: compramos coisas que não servem para nada por que gostamos de fazer isso. Uns podem mais , outros menos, mas é a produção desses bens que faz a economia andar.

Se querem mudar a economia têm que mudar os seus princípios. Se não conseguem ou não querem mudar os princípios, inventem um tapete  melhor ou uma maneira melhor de fazer yoga sem tapete em vez de um porta tapetes, senão estão a fazer exactamente o mesmo que os outros fazem há décadas, só numa escala mais pequena.

O Apocalipse, actualizado.

Passou mais um mês e o sistema não se desconjuntou todo, uma parte dos meus receios eram infundados e fico contente por isso. Já se sabe muito mais  sobre o vírus do que se sabia em Janeiro, tranquiliza-me ver que afinal não é tão letal como se receava e foi controlado sem colapso dos serviços de saúde e dezenas de milhar de mortos. E esta é a única parte em que os meus receios iniciais diminuíram, em tudo o resto mantêm-se e reforçam-se.

Já antes da pandemia poucas pessoas sensatas e observadoras acreditavam no governo, neste ou noutro, os governos quase por definição estão impedidos de contar as verdades todas à população, e isso é partindo do princípio que sabem essas verdades, o que nem sempre se verifica.

Para dar um exemplo desta cultura de aldrabice que mina a confiança dos mais atentos , lembro que o PM, no início de Março, anunciou que o SNS tinha mais de 1000 ventiladores. Isto tem piada porque hoje o secretário de estado da saúde disse que tinham chegado da China 400 ventiladores, ficando assim a capacidade nos 700. Daqui decorre que o Costa estava a mentir, mais uma vez, mas certamente que foi para o nosso bem, para não nos alarmar.  Um governo não devia dizer em Março “estamos numa luta existencial pela nossa sobrevivência” para em Maio dizer “o nosso pior inimigo é o medo”, não fica lá muito bem. Mesmo que boa parte dos mecanismos e realidade do vírus sejam ainda desconhecidas, deve haver uma unidade de mensagem da liderança e não foi isso que eu vi, mesmo na minha existência priviligiada em que vejo muito poucas mensagens da liderança. A retórica da “guerra contra o vírus” enfurece-me por ser descabida e prejudicial mas isso merece um post inteiro.

Do lado da economia, não sou o melhor para contas mas se não via possibilidade de recuperação rápida e relativamente indolor nem que  tivéssemos podido curar e vacinar e voltar aos anteriores modos de convivência, numa realidade que está para durar só vejo mais miséria a crescer, com tudo o que ela traz. Os críticos dos liberais, sempre prontos com uma vergastada sobre a prioridade à economia e às contas, têm agora a oportunidade de demonstrar como se consegue evitar miséria humana sem  a prioridade na criação de riqueza, por meio de sorrisos, calor humano, aplausos, solidariedade, interseccionalidade e outros conceitos modernos que não dão de comer a ninguém. Criar e, sim, distribuir, que eu sou liberal mas não sou doido e sei que riqueza tem que ser distribuída para aproveitar à sociedade mas o problema  nisto é que os governos teoricamente mais equipados para essa distribuição , os encabeçados por socialistas, são-no só nominalmente, aqui ou na vizinha Espanha o que se vê mais são fortunas feitas e existências plácidas à conta do orçamento do Estado em vez de uma política fiscal sã, do encorajamento e apoio a quem cria riqueza  e uma justiça capaz de castigar todos os abusos.

O que me metia medo há dois meses continua a meter, agora com uma possível agravante: o eventual colapso do sistema não chegou em meses impulsionado pela quebra nos serviços de saúde e com dezenas de milhar de mortos mas poderá ir chegando, ao longo de muitos meses. E isso seria uma agravante porquê? Porque quando o sofrimento é lento e espaçado as pessoas habituam-se, quando nos roubam 5 centimos por dia ao longo de um ano não reagimos como se nos roubassem €20 de repente. É diferente irem-nos tirando uma liberdade de cada vez ao longo de meses do que perdê-las todas numa revolução ou golpe de estado. Isto é uma agravante porque pessoas habituadas não protestam, aceitam tudo, quando muito ralham um bocado, mais agora que há meios de ralhar, soltar vapor , ventilar, faz-se um comentário numa rede social ou assina-se uma petição e já se sente que se contribuiu. Perdem-se liberades aos poucos e quando se dá por ela, é tarde, já foi.

Vi hoje um video feito na Alemanha em que centenas de casais estão dentro dos seus automóveis alinhados em frente a um palco onde um individuo passa o que muitos consideram música, era uma “rave drive in”. O público tinha uma espécie de bastões de neon que agitavam pela janela, iam apitando (esse género de música  acompanha-se bem à buzina) e fazendo sinais de luzes e toda a gente parecia radiante com aquilo. Contentes e dispostos a repetir, gente que há dois meses ia a concertos e festas com milhares de pessoas agora, porque lhes disseram, aceitam com um sorriso que a partir daqui e pelo menos até uma vacina, têm que fazer aquelas figuras.

Por cá, e isto tive que ir confirmar por me parecer  sátira, querem pôr semáforos a controlar o acesso às praias depois de umas regras para as creches que me convenceram de que o objectivo só podia ser ou desencorajá-las de abrir ou tornar-lhes a vida num inferno. Os burocratas da DGS e outras dezenas de organismos públicos com o dedo em tudo estão no céu, têm quase carta branca que é dada pelo medo das pessoas e pelo governo que prefere errar por excesso do que por defeito. Talvez tenham razão, mas quando chegar a altura de pagar a factura espero  que não a tentem passar a outro. Entretanto educadoras de infância desesperam a arranjar maneiras de maneter as crianças a  metro e meio umas das outras  e sem partilhar brinquedos e mais de metade dos restaurantes do país não tem condições de trabalhar com a avalanche de regras, a minha preferida nesse campo é a que determina que pessoas que vivam em casas diferentes não podem comer juntas. Como se espera fazer o controlo desta medida, é mistério. Produzem regras porque não sabem fazer outra coisa, quanto maiores as burocracias maior a produção.

Quando há 78 regras para o “acesso seguro às praias” ao mesmo tempo que qualquer pessoa pode entrar num autocarro cheio desde que leve uma máscara, temos que questionar o critério dessas  regras e restrições e sobretudo a sua utilidade. E  há outra parte notável sobre estas regras : como ontem o próprio Presidente da República explicou com todas as palavras sobre o seu caso pessoal dos mergulhos na praia, há sempre um esquema para contornar , ou não fosse isto Portugal. Metade delas não são para cumprir e não vai acontecer nada.

Do lado da economia, só existe uma entidade capaz de manter o país  à tona, como de resto o faz há mais de 20 anos, a União Europeia. Entregues a nós próprios, vamos rapidamente para os anos 80 do século passado, e o problema é que a União Europeia não está propriamente a respirar saúde. Todos os países estão com deficits a explodir por causa do virus, o Brexit já tinha dado um abanão na estrutura, temos os Europeus do Norte agastados com os dos Sul e vice versa (2008 outra vez, para mim sempre foi certinho) e um terceiro elemento, a degradação das instituições quando um estado membro, no caso a Hungria, já prende pessoas por criticar o governo e fecha jornais e universidades. Nisto tudo o BCE tem que dar mangueiradas  nas impressoras para as arrefecer e eu gostava de saber mais de economia para perceber qual é o limite disto, por quanto  tempo mais vão poder continuar a imprimir dinheiro antes da inflação começar a subir.

Juntemos a isto a corrupção épica que já se vê  nas traficâncias entre governos, industrias, estados e amigos nesta  nova “economia covid” e mais uns pós de populismo ,tipo o do meu homónimo sempre à espera de que as coisas corram mal para avançar com a sua demagogia e sinceramente, gostava de ver um optimista, alguém que perante estes cenários, que nem são os piores possíveis, diga que tem confiança num futuro melhor. Gostava de saber qual é o segredo dessas  pessoas além da alienação. A alienação não é uma coisa necessariamente negativa.

Voltando à parte clínica do vírus, nota-se perfeitamente uma sensação de “o pior já passou” , que junto com “não foi assim tão mau” leva a desvalorizar o risco, já para não falar da disseminação de “documentários” inanes como um chamado Plandemic (nunca uma coisa tão básica e tão estúpida desinformou tanta gente na História da Humanidade) que convenceu milhões de que isto é tudo uma aldrabice.  Entretanto na China  mais de 100 milhões (!) de pessoas vão voltar ao confinamento, os contágios e mortes voltaram a aumentar, vai começar tudo outra vez para esses.

As Regras

Não fora a pandemia e  já estaríamos a trabalhar nos botes, um já estaria a navegar ainda que com a pintura do ano passado e um inverno um bocado rigoroso em cima, o outro a reparar as mazelas da época passada. Já havia  interessados, homens e mulheres, para equipas de vela e remo e vontade de navegar e eu cheio de expectativas e ideias para o meu primeiro verão à frente do Clube Naval. Se tivessemos equipas de vela e remos masculinas, femininas e mistas e participado no campeonato e na Semana do Mar e lançado á água dois ou tres optimists com miúdos, um “embrião”de escola de vela, para mim teria sido uma alegria e um  triunfo… mas o verão foi cancelado. Não há iates , não há regatas, não há festas, não há campeonato regional, não há aulas náuticas.

Ficou tudo em suspenso mas agora começo a ver como e em que moldes podemos retomar a actividade do clube. Desde o tempo do Heraclito que sabemos que a única coisa permanente é a mudança mas para uma mudança deste nível, por toda a Sociedade e em dois meses, não estava  preparado e acho que ninguém estava. Uma coisa é a preparação individual e pessoal, a preparação para a mudança na nossa esfera. Outra é a mudança generalizada e a convivência e gestão de uma revolução  que afecta tudo e se ramifica por todo o lado.

Ando à espera de saber quando é que é permitido a 7 pessoas  juntarem-se em proximidade para arriar um bote baleeiro e ir navegar.Pelas novas regras da náutica de recreio podem ir 4 pessoas, para nós não chega. Como vivemos na Época das Regras e  em tempos de medo e ansiedade geral, não posso basear-me no meu senso comum , juntar a companha e arriar o bote, coisa que faria sem problemas se o bote fosse meu, mas não é.

Como responsável pelo clube naval não posso arriscar não só penalizações e atritos com a Autoridade Marítima ou a GNR como  muito menos a desaprovação e crítica social que se seguiria imediatamente. E atenção, a crítica não seria tanto no sentido de “olhem aqueles a pôr em risco a saúde pública” mas sim “olhem para eles a não cumprir as regras”, porque  regras, mesmo as arbitrárias e mal fundamentadas, são regras. Temos uma história longa de respeitinho e obediência que facilita esta imposição de regras mas os nossos tempos são novos  noutros aspectos.

Estas novas regras são impostas perante uma ameaça clara, concreta e com risco mortal (não discuto o grau, mas risco real) , uma doença contagiosa, e isso leva as pessoas a não hesitar em obedecer, ou pelo menos a protestar menos. Hoje, numa escala imensamente maior do que nas pandemias ou epidemias anteriores, a confiança na capacidade de quem  faz as  regras é posta em causa  todas as horas. Quando se disseminam modelos, análises, teorias , opiniões, especulações e dados a uma velocidade enorme por toda a gente, e quando há vozes dissonantes e visões em conflito misturadas com agendas políticas, as regras podem ser ainda mais perigosas porque provocam repulsa e aumentam os atritos no dia a dia já cheio de tensões.

Por outras palavras, se ninguém tem a certeza de que o acesso livre  à praia é prejudicial ou benéfico para a saúde pública mas se  fazem 25 regras de acesso às praias, é normal esperar um número grande de pessoas que diz  não quero saber, vou à praia como sempre fui. É normal que os que não vão à praia depois os critiquem e pode-se esperar confusão séria quando puserem a GNR a controlar se se vai surfar ou só apanhar sol, de fita métrica na mão , ou a contar o número de banhistas para ver se está conforme o decreto.

Para manter a ordem pública é preciso que as pessoas a entendam e aceitem, e se vão prender pessoas na praia (como já acontece em vários países) enquanto todas as manhãs centenas se enfiam em transportes públicos para ir trabalhar, perdem toda a razão e legitimidade. Cada regra que não é entendida ou aceite dificulta o entendimento e aceitação de todas as outras.

Agora estou de olho na Horta e no Pico, assim que os vir arriar os botes  é sinal de que se pode, aproveito a deixa e a cobertura e também vamos. Entretanto é preciso esperar por mais clarificação da miríade de regras que nos vai reger a vida nos próximos tempos. Isto é um inferno para toda a gente mas para os individualistas , liberais e libertários tem mais uns círculos extra.

 

O Despertar

A pandemia tem potencial para irritar toda a gente, independentemente da crença ou convicção há motivos para dar com qualquer um em maluco ou pelo menos para obrigar a querer desligar, parar de pensar e focar-se só na tarefa mecânica mais à mão.

No topo da minha lista vem o arco íris e o “vai ficar tudo bem”, gostava de saber quem inventou ou iniciou a disseminação desse slogan ridículo, mentiroso e enganador, deve estar nalgum manual de política ou comunicação que é preciso passar uma mensagem de esperança e aqueles indigentes mentais optaram por dourar a pílula e motivar por intermédio de uma afirmação demonstravelmente falsa. A vida não é cinema, isto não é a história do pai que inventa brincadeiras para o filho se distrair dos nazis e nós não temos 5 anos, como tal não devia bastar o paizinho dizer que vai ficar bem para sorrirmos e seguirmos com a nossa vida. Não lhes perdoo a infantilização da população.

Continuo convencido de que a  maioria das pessoas não sabe bem o que está a acontecer. Eu não sei, em termos de situação de saúde pública, o que está a acontecer,  nem  se o vírus é tão letal/contagioso/perigoso/extraordinário como nos dizem. Não sei se seria melhor confinar toda a gente mais tempo ou deixar as coisas andar e que Deus reconheça os seus, morre sempre muita gente , etc. O que sei  desde muito cedo é que a mera existência da doença e sua progressão pôs em marcha um processo imparável com ramificações impossíveis de contabillizar , quase todas, na minha visão, negativas.

Não vai ficar tudo bem e quanto mais cedo pararem com isso melhor.

Depois, o júbilo encapotado dos ambientalistas. Durante anos a minha principal crítica às exigências de Novos Planos Verdes e quejandos era  ( além de serem Planos, já vamos a essa parte) que se recusavam a contabilizar e falar sobre o empobrecimento que  exigiria a redução das activdades económicas e  consumo necessária às reduções de emissões que eles declaravam essenciais. Muito pensamento mágico, muito unicórnio, muita confiança na tecnologia ao mesmo tempo que se pretendia pear e cercear  o motor da evolução tecnológica: o interesse económico. As Gretas falavam sempre das misérias que íamos sofrer pelo aumento da temperatura global, raramente das misérias que  provocariam os encerramentos de metade das indústrias que queriam encerrar. Essa parte ficava para os outros se preocuparem e de qualquer maneira a pobreza é sempre culpa do capitalismo.

TODOS os ambientalistas que conheço são viajantes dedicados, e acreditavam, talvez ainda acreditem, que as viagens prejudiciais são as dos ricos ociosos,  dos homens de negócios a ir para reuniões ou dos vendedores da globalização, porque as viagens deles eram sempre, obviamente, experiências de conhecimento pessoal e contacto com o outro que não eram prejuciais a nada, desde que levassem uma garrafa de alumínio em vez de plástico e um porta moedas artesanal de sarja em vez de nylon. Os outros são turistas, os ambientalistas são todos viajantes.

Agora, como metade deles ainda não tem a noção da depressão que se avizinha e cava todos os dias, e porque só estudam a História a partir da Industrialização, estão contentes por as pessoas terem que circular e consumir menos, por obrigação. Eu concluo que se tivessem poder já tinham tomado uma série de medidas autoritárias  tipo recolher obrigatório e transportes racionados. Vive aqui um americano que sugeriu num fórum público, ouvi eu, racionar electricidade e desligá-la a partir das 22, coisas que talvez na terra dele lhe tivessem valido ser atirado pela janela mas aqui não, é um cool bro, um dude, completamente woke sempre pronto a apontar o que de mal e atrasado se faz aqui e como tudo seria melhor se nós o ouvíssemos.

Toda essa gente só vai ver a miséria que esta quebra da produção global vai trazer quando lhe entrar pela porta adentro, o desejado e exigido “decrescimento” vai doer mas nessa altura vão começar a ralhar a dizer que outro decrescimento é possível, não querem este, querem outro, e continuar a diabolizar os que sempre fizeram tudo para manter o crescimento. Se crescia era porque crescia, se pára de crescer é porque não devia parar desta maneira. De que maneira  devia parar? De alguma maneira fantasiosa, de acordo com um plano justo. 

Dos conceitos mais simples, racionais  e bonitos que existem é o de Ordem Espontânea, a ideia do surgimento espontâneo de ordem no caos aparente; o surgimento de vários tipos de ordem sociais a partir de uma combinação de indivíduos auto-interessados que não tentam intencionalmente criar ordem. A evolução da vida na Terra, a linguagem humana, e uma economia de livre-mercado têm sido propostos como exemplos de sistemas que evoluíram através de uma ordem espontânea. 

Resumidamente, as coisas organizam-se do modo mais conducente ao equilíbrio se forem deixadas seguir o seu curso e se todos puderem agir livremente. Os Homens já tentaram muitas vezes gizar planos para a Sociedade, foi sempre desatroso quando passou das fantasias teóricas. Desde o Grande Salto em Frente do Mao aos planos quinquenais dos comunistas passando pela solução final nazi, quando meia dúzia, ou um todo poderoso iluminado se sentou a traçar um  plano para a organização da Sociedade acabou em miséria, morte e destruição. Os que não acabaram em tragédia simplesmente falharam ou não atingiram os objectivos com que tinham começado. Isto deve-se ao facto de uma sociedade e economia ser simplesmente a soma de milhões de interacções e estas são impossíveis de prever, controlar e dirigir fora de uma distopia totalitária. Se queremos viver numa sociedade livre temos que estar preparados para aceitar que as acções livres vão sempre ter consequências boas e más e que é fisicamente impossível prevê-las ou condicioná-las.

Daí a minha surpresa quando vejo pessoas com mais de 20 anos e alguma educação a dizer que “está na altura de mudarmos o modelo”, como se este modelo que agora aparentemente soçobra tivesse sido implantado por alguém ou algum grupo e como se fosse possível “mudar o modelo” como quem muda o software de uma máquina. Como se  o feudalismo tivesse terminado porque a sociedade “decidiu” acabar com ele ou a  industrialização tivesse surgido por decisão de um grupo. É idiótica a crença nesse poder de decisão colectivo para mudar paradigmas. Há neste momento centenas de milhar de pessoas , nem todos com insuficiências educacionais ou cognitivas , convencidas de que seria possível alterar a  organização social  e económica sem ser à força e/ou  num processo  que geralmente se chama “correr atrás do prejuízo”, reagir  como se pode a acontecimentos mais ou menos inesperados.

Reclama-se que por alguma espécie de magia, por algum fenómeno que nunca se viu até hoje, a humanidade faça isto ou aquilo, como se se convocasse a Humanidade para decidir e implementar mudanças. Como numa reunião de condomínio ou AG de um clube.O  estatismo disseminou uma falsa sensação de poder colectivo, depois de séculos em que os donos do Estado fizeram o que queriam seguindo os seus interesses individuais convencendo as pessoas de que estavam a organizar tudo quando se limitavam a supervisionar e condicionar onde podiam.

“É preciso um novo despertar humanista!” Demasiada  gente, principalmente a nova leva de demagogos que compõe a indústria dos influenciadores , palestrantes, aspirantes a políticos  e  apóstolos de seitas variadas, apela a uma elusiva “tomada de consciência” como se acreditassem, e muitos sem dúvida acreditam, que esta pandemia e  colapso vão unir de alguma forma a humanidade e podem provocar mudanças positivas e deliberadas. “Respirem fundo, afinal a vossa pressa não fazia assim muito sentido, certo?” dizem esses intrujões a partir das suas posições confortáveis, como se a consequência de uma pessoa ter que ficar em casa sem trabalhar um mês fosse apenas a perda do salário desse mês ou o que deixou de produzir. Gente  incapaz de ter um visão de conjunto, ver o que se passa no mundo além da sua cidade e cultura  ou ver com calma a extensão enorme das zonas cinzentas entre o bom e o mau e que, por não querer ou não ser capaz de fazer de outro modo, simplifica constantemente o que é complexo, oferece soluções pontuais para problemas recorrentes e explicações redutoras para situações que atingem a Espécie inteira e duram séculos.

Os governos andam a fazer horas extraordinárias  para inventar financiamento para manter a coisa à tona mas , de onde eu vejo as coisas, é  impossível controlar ou reverter a sangria, muito por imperativos humanitários e muito por causa da brigada d’ “o dinheiro não é tudo” que geralmente diz isso porque não entende bem o dinheiro. Eu estou longe de entender a fundo mas convenci-me de que pelo menos entendo mais do que por exemplo o ex presidente do Brasil que veio dizer num tweet que, e não estou a brincar nem a inventar, o governo devia imprimir dinheiro para dar às pessoas porque como o consumo caiu não há risco de inflação. Isto devia ter causado um ataque cardíaco em muitos economistas mas felizmente o Lula está na prisão e não na presidência, foi substituído por um que está na presidência mas devia estar na prisão, pobre Brasil.

Lá, cá e  um pouco por todo o lado  é aparente para mim que todos  estes meses de despesa a aumentar e receita a extinguir , sem termo à vista, só têm um fim possível,  mas espero estar enganado e que se mostre o quão pouco eu sei de economia e finanças. Tanto no Brasil como cá e na maioria dos países a evolução parece-me muito má mas nós andamos aqui há 900 anos,  já vimos pior e vamos aguentar no mesmo sítio com mais ou menos convulsões e miséria mas há um país que me quebra o coração, os Estados Unidos, todos os dias que olho para lá ou falo com amigos lá vejo a quebra  lenta e evitável de uma grande nação e do seu lugar na liderança do Mundo, é uma dor de alma. Também aí espero muito estar enganado.

E para o fim outro cancro dos nossos dias, o conspiracionismo, a tendência a explicar aquilo que não se  compreende com recurso a processos de intenções, preconceitos, ao rejeitar  da noção de Acaso e Coincidência, à negação do Método Científico e sobretudo ao recurso ilimitado  à imaginação. Não é um fenómeno novo, como a maior parte dos nossos problemas, acompanha-nos desde o começo das sociedades: os ignorantes na busca de protagonismo por sentirem que sabem alguma coisa que os outros não sabem, por sentirem o poder de ter uma explicação que desafia o poder vigente ou o conhecimento estabelecido e assim faz deles especiais, reduz os outros e lhes valoriza um conhecimento que não é conhecimento por nenhuma medida racional do termo. Rebeldia, contestação e dissidência, tudo valores estimáveis, são pervertidos  e desvirtuados por legiões de crentes unidos pela tecnologia moderna na paranóia, difamação e total alheamento da realidade. A partir do momento em que se tornou possível dizer, com razão ou não, que a propria realidade é manipulável, abriu-se a porta  a tudo. Podem encontrar hoje as teorias mais abstruzas, dementes , malévolas e sem sentido nenhum que vão a seguir encontrar milhares de pessoas que não só acreditam nelas como estão dispostas a espalhá-las e a actuar sobre essa crença. É medonho e desmoralizante.

Dois exemplos: há 6 meses acreditavam  que a conspiração global estava a instalar a tecnologia de reconhecimento facial no mundo todo. Hoje acreditam que a conspiração global trouxe o uso obrigatório das  máscaras faciais que tornam essa tecnologia inútil. Como os religiosos, quando chegam a um beco sem saída lógica argumentam que as vias dos conspiradores são misteriosas mas um dia se saberá.

O segundo, tive há pouco uma troca muito instrutiva no facebook com uma conhecida que já tendia ao alternativo mas com a pandemia queimou completamente. Ela acha que a tecnologia 5G tem efeitos dramáticos na saúde humana e  é promovida por uma elite  conspiratória, recusando aceitar a informação científica pública sobre essas radiações. A minha questão: se o 5G, como rede de comunicações, vai ter pelo menos a mesma cobertura que o actual 4G que já cobre tudo, e se é mortal e destruidora, exactamente onde e como é que vão viver essas elites conspiratórias e que comunicações vão eles  usar?

Foi o suficiente para ela chutar para canto e ir-se embora, mas sei perfeitamente que outros com mais traquejo na irracionalidade vão defender não só que essas pessoas têm um antídoto para radições como até se for preciso que têm uma rede global de comunicações própria ou vivem no espaço sideral.  Os mesmos pensadores  que, sem prova nenhuma,  inventaram o conceito de actores de crise e sempre que deparados, como agora em Nova Iorque, com calamidades públicas, dizem que aquilo são tudo actores pagos para interpretar aqueles papéis. Chegando a este ponto a pessoa que não quer perder a própria sanidade e a calma  tem que abandonar o convívio e o contacto com eles, mas sempre consciente de que o mal está feito e eles nunca se vão convencer, nunca. É sempre tudo falso. Um tempo de caos, incerteza e medo só faz essas pseudo explicações e teorias florescerem, e aqui não me preocupa assim muito se cem ou duzentos cretinos  acham que os judeus inventaram o covid19 e o 5G em conjunto com o Bill Gates para nos vacinar obrigatoriamente a todos, mas exprimentem olhar para a Índia, por exemplo, onde basta um desses mentecaptos levantar uma acusação  tipo “o covid foi trazido pelos muçulmanos” para desencadear um pogrom assassino. Isto já se passa hoje em dia.

Por tudo isto, não, não vai vai haver nenhum despertar, nenhum regenerar, nenhuma alteração geral da ordem das coisas por acordo , plano ou projecto comum, por muito que isso custe aos idealistas.

Gostava muito de ver uns raios de optimismo e esperança. Dos melhores tempos que passo  são os poucos momentos com a filha de uma das minhas melhores amigas, que tem cinco anos e não percebe nada, só brincamos e rimos muito. Talvez me faça  falta, admito, mais convívio humano em vez de estar sempre a remoer comigo mesmo. As probabilidades disso, já pequenas em épocas normais e muito por características minhas, quase desapareceram com esta praga que nos isola, fixa e separa a todos.

É  preciso pensar que não vai ficar tudo bem mas dias melhores virão.

 

A Máscara Social

Fui à Junta de Freguesia buscar um pacote de máscaras,  agora aqui são  obrigatórias. Vêm numa caixinha com o logotipo do governo, não ser o do PS já não é mau, para as pessoas não se esquecerem de quem é que trata de nós e nos dá coisas. Por alguma razão que desconheço decidiram chamar-lhes “máscaras sociais”.

Desde Janeiro que todas as semanas vou ao centro de saúde fazer um tratamento e desde que isto começou e me disseram para o fazer, uso lá uma máscara. Detesto a máscara mas não me vou armar em parvo, vou usar mesmo  que numa ilha que continua encerrada e onde nunca houve casos as máscaras não sirvam  para absolutamente nada a não ser fazer lixo e incomodar. Mais uma vez fica exposto o problema de haver soluções nacionais para problemas que se manifestam de formas diferentes em sítios diferentes.

O governo regional emitiu ontem legislação que decretava , entre DEZENAS de outras regras, a “obrigatoriedade do uso de máscara social nos transportes públicos e privados, aéreos, marítimos e terrestres, em veículos pesados ou ligeiros”. Li isto e pensei que tinha que passar a andar de máscara no carro, mas passadas umas horas, presumo que  perante a confusão gerada, o director regional lá explicou que se referia apenas a transportes colectivos. Acho sempre muita graça quando os burocratas passam dias a produzir discurso legislativo para depois terem que explicar o que queriam dizer, a capacidade de síntese, clareza e simplificação é rara.

Achei muito instrutivo o processo das máscaras desde o início da pandemia, como a DGS passou  de dizer que não se recomendavam até  serem obrigatórias. Uma das  justificações avançadas para isso não é incompetência ou incapacidade de decidir, é que não queriam provocar uma corrida às máscaras para não haver escassez para os profissionais de saúde. Como é normal, não se podem tratar as pessoas como adultos responsáveis e tem que se lhes mentir, isso é o modo de funcionamento dos governos, se dissessem à população todas as verdades que conhecem talvez houvesse uma revolução no dia seguinte. Ainda assim eu preferia que tentassem .

Vou usar a máscara, aqui inútil, por duas razões:  a primeira é porque é obrigatório, logo, a polícia, que aqui sofre particularmente de tédio e tem muito tempo livre, vai fiscalizar e multar. A segunda é a ausência total de anonimato , não estou para ser vilipendiado por toda a gente agora convencida da indispensabilidade da máscara e com o nível de paranóia mediática perto do vermelho.

E como é que vou no meu tremendismo catastrofista sobre a pandemia? Aliviou-se por um lado, vi que em Portugal e no resto do mundo desenvolvido os serviços de saúde têm conseguido responder, não se confirmou o descalabro que eu antecipava ainda que a mortandade seja alta. Não tenho grandes dúvidas de que isso se deve ao distanciamento e confinamento, faltaria  saber se as vidas salvas compensam o desastre económico provocado mas  não são contas que eu peça nem saiba ou queira fazer.

No resto, mantenho os meus receios todos e acrescento um que agora está a tomar dimensão maior e mais clara, por todo o lado : a corrupção e o aproveitamento da pandemia para negociatas entre os governos e os seus familiares e amigos. Quando há compras feitas por estados a coberto de “necessidade imperiosa e urgente” usando e abusando dos ajustes directos e outras ferramentas opacas, estão abertas as portas para se fazerem fortunas às custas do medo, sofrimento, ignorância e corrupção. Como sempre, de resto.