Visitas

O Santa Maria Manuela esteve cá de visita e vai-se hoje embora, não vou falar muito sobre o navio , está tudo aí bem explicado no site oficial, menos uma coisa que não é imediatamente  aparente: esta magnífica peça da nossa história náutica está viva , linda , trabalha e leva longe e alto o nome e a tradição naval do país porque foi comprada e, com isso salva, por uma empresa privada, do Grupo Jerónimo Martins. Ali não entram comissões organizadoras, sindicatos, representantes das secretarias gerais nem se arranjam lugares para correligionários na base da confiança política ou favor prévio. É um belíssimo exemplo para mostrarem a todas as pessoas que acham e pregam que a defesa do património tem que ser  sempre competência do Estado.

Bom, os marinheiros do SMM repararam logo nos botes baleeiros na rampa e no Sábado e Domingo saíram com o Formosa, nós no S.Pedro. Foi a primeira vez em 3 anos que os dois botes arriaram aqui ao mesmo tempo, e isto  porque já é difícil encontrar tripulação para um quanto mais para dois. Foi lindo, há uma grande diferença entre andar a treinar só num bote ou andarmos a par e a medir-nos com outro , passámos duas belíssmas tardes no mar e diria que proporcionámos um bom espectáculo aos Florentinos, só que a esmagadora maioria dos Florentinos não se podia importar menos com os botes baleeiros. “Era enchê-los de gasóleo e largar-lhes o fogo”, foi um dos comentários que já ouvi, eu percebo indiferença e sei bem que o que a mim me encanta pode ser irrelevante para o próximo, mas animosidade clara já me custa mais a perceber.

Sintomático disto é a idade média da nossa tripulação, que anda pelos 55 pela minha estimativa. Fiz publicidade e fiz fazer, passou-se  a palavra, tentou-se entusiasmar alguma juventude para aparecer e tomar interesse, não é apenas a vela como desporto, é o património cultural , a herança dos Açorianos, uma coisa que não existe em mais lado nenhum do mundo. Ninguém se interessa, e os poucos que se interessaram desistiram quando perceberam que envolvia um bocado mais além de andar a passear de bote e ter viagens pagas para as regatas no Verão. Já desisti de tentar perceber ou mudar alguma coisa, o meu interesse é cada vez mais estreito : o S.Pedro está pronto a navegar e tenho mais 6 homens de confiança, disponiblidade  e vontade para o manobrar? Já me chega.

E mulheres?, poderiam perguntar-me, porque é que têm que ser 6 homens? A mim cabe-me encontrar e escolher uma tripulação ( na medida em que não há “veto” de quem manda mesmo a sério…) , e quando já está, não procuro mais. Se há mulheres que se queixam de não haver tripulações femininas ou mistas e que estão à espera de serem convidadas, esperem sentadas. Ir convidar mulheres só porque são mulheres é coisa do heteropatriarcado ou dos estúpidos, eu convidei toda a gente para aparecer logo no princípio da época  e se há mulheres que querem navegar nos botes organizem-se e cheguem-se à frente, se alguma me pedir ajuda, ajudarei como puder mas parece-me que a iniciativa e organização têm que partir delas, aqui ainda não temos quotas obrigatórias nem recebemos circulares do governo a exigir mais disto ou daquilo.

No fim da navegação de ontem fez-se uma patuscada no cais com as omnipresentes lapas grelhadas, foi um bom fim de semana de convívio náutico e , como de costume, os visitantes ficaram encantados com isto.

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O melhor momento da patuscada foi para mim quando uma senhora continental, sofisticada e coiso, quis saber o que é que ia no molho das lapas.

-E aqui, é o quê?

– É o molho , respondeu o sr Mendonça, 70 anos , florentino nascido e criado, tripulante do S.Pedro.

-Sim , mas é o molho de quê?

-É o molho das lapas, põe-se por cima e come-se.

É por estas e outras que eu me dou bem aqui.

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Ófaxavor!

Num dia estava a levar a minha vidinha plácida e lenta entre o cuidado do rebanho e das terras, a produção de cerveja e a preparação e treino nos botes baleeiros, no dia seguinte tornava-me empregado de mesa num restaurante, foi das mudanças mais estranhas e inesperadas da minha vida mas as coisas são mesmo assim.

Aqui há tempos apareceu no facebook  um anúncio em que a melhor e mais famosa unidade hoteleira da ilha procurava um recepcionista. Não morro de amores por turistas, cresci numa casa de turismo de habitação, das primeiras do país, e a permanente intrusão e vai e vem de estranhos na casa deixou-me um trauma que dura até hoje. Apesar disso não vivo do ar e os meus projectos e planos avançam muito lentamente, na medida em que chegam a avançar, e vi naquilo uma oportunidade de melhorar as minhas condições de vida, que materialmente são um bocado precárias.

Fiz a barba, encontrei uma camisa lavada e pouco amarrotada e lá fui no mesmo dia. Não tinha um CV pronto mas expliquei-lhes as minhas qualificações que relevavam para essa função e fiquei à espera de resposta. Expliquei que para mim o Domingo era um dia como os outros e que os únicos dias de folga de que precisava eram 4 em Julho e outros 4 em Agosto, fins de semana prolongados em que vamos à Terceira e ao Faial competir nas regatas de botes baleeiros. O trabalho de recepcionista numa unidade tão pequena não me metia medo nenhum, a pessoa que me entrevistou parecia ter ficado apenas à espera de uma formalidade e eu voltei para casa a pensar que ao fim de 21 anos, altura em que pela última vez piquei um cartão, podia  ter um emprego normal que ia mudar bastante a minha vida. Podia, mas sendo pessimista por natureza fiquei à espera de uma resposta negativa. Nem negativa nem positiva, não me diziam nada,  ao fim de dez dias  liguei para uma amiga que também é amiga da gestora da unidade hoteleira a pedir-lhe que lhe desse um toque, para me informarem da decisão caso se tivessem esquecido, o que é sempre possível. Passados 15 minutos recebi o telefonema, não podiam contratar-me por causa dos 4 dias em Julho e outros 4 em Agosto que eu tinha que tirar por estar comprometido com os botes. Sem problema, até me podiam ter dito simplesmente que tinham encontrado uma pessoa mais adequada, é a coisa mais natural do mundo.

Só que a minha amiga ficou a pensar que eu  andava activamente à procura de emprego e, como boa amiga, lançou-se no networking. Passados dois dias recebo outro telefonema , dos meus vizinhos alemães que têm um restaurante aqui ao lado. Eu pensava que queriam falar comigo sobre a produção de cerveja, já tínhamos discutido possibilidades de sociedade, mas o que eles queriam nesse dia era propôr-me a posição de empregado de mesa, das 6 da tarde ao fim do dia, todo o Verão.

A idéia pareceu-me péssima desde o início por juntar logo três coisas que não me interessam mesmo nada  e que não aprecio: contactar  com desconhecidos , comida e servir turistas. Além disso eu sou um gajo bastante orgulhoso e depois das coisas que fiz na vida, e faço, ser empregado de mesa é uma “despromoção” considerável, e foi esse o segundo  factor que me fez aceitar: faz-nos bem sermos reduzidos de vez em quando, é bom vermos o ego a sofrer um pouco e é bom podermos não só  estar no lugar dos outros como apreciar em que medida é que a opinião dos outros sobre nós varia consoante a nossa ocupação.

O primeiro factor foi obviamente o dinheiro, quando uma pessoa passa dificuldades e lhe oferecem uma oportunidade de as mitigar com trabalho honesto, recusar é para mim impensável. Aceitei logo mas durante essa noite mal dormi e cheguei a pensar em recusar no dia seguinte, mas não fui capaz, comecei no dia 1.

Detesto tudo, excepto as pessoas com quem  trabalho. Além de gostar das pessoas e do dinheiro que me vai resolver alguns problemas imediatos só há duas  coisas positivas :  o restaurante é a dois minutos de casa a pé e todos os dias trago uma caixa de restos para o Rofe, que se anda a consolar (e  a engordar, tenho que resolver isso) . De resto é um exercício de auto controlo, paciência  e esforço, sorriso postiço, horas a correr de um lado para o outro, rodeado de turistas, comida e cheiro a comida. A ver pessoas a gastar num jantar o que me leva ali uma semana a ganhar e aturar gente petulante ou simplesmente parva , que aparece sempre no meio das pessoas normais. Felizmente os patrões concordaram que era melhor ser a outra moça a tratar dos pedidos apesar da minha facilidade com as línguas. Não sei se ia conseguir lidar bem com as questões que nunca acabam :  Isto é o quê?Leva o quê? É feito como? É comida, nesse caso carne, feita ali na cozinha, no fogão. Ainda agora o suicídio do Anthony Bourdain me fez recordar o que eu abomino os glutões, os que vivem para comer e a obsessão nacional com a comida num país em que, para recuperar as palavras do próprio Bourdain “as pessoas ao almoço já estão a falar do que vão jantar”. Há quem ache divertido, eu acho doentio.

Há outra coisa positiva neste trabalho: nunca mais vou entrar num restaurante da mesma maneira, não é que seja ocasião frequente ou que alguma vez tivesse tratado os empregados com alguma coisa mais do que cortesia comum mas agora vejo as coisas de outra maneira, há uma empatia.

Tenho um calendário em que vou riscando os dias até 27 de Setembro, não vão  ser quatro meses nada fáceis mas acho que vou chegar ao fim uma pessoa um pouco melhor.

Respirar

Choveu, não se deram as últimas demãos de tinta no segundo bote. Estão ambos magníficos na rampa. Tenho-me lembrado muito dos livros da saga Aubrey-Maturin, os livros da minha vida, e da descrição  que se fazia na Marinha Real Britânica no tempo das guerras napoleónicas dos navios de  “spit & polish” , que  priviligiavam a pintura,  a limpeza, a perfeição do aparelho, o brilho e o polimento em deterimento da operacionalidade. É como nós, temos os botes lindos, espelhados, brilhantes e sem um risco mas nem temos companhas completas e somos (ainda) uma miséria a navegar.

Um pescador a quem eu mandei um berro no outro dia quando ele estava no cais a mandar bitaites enquanto nós saíamos no bote, a perguntar-lhe se ele queria vir e ensinar-nos ou talvez pegar no leme, chamou-me, ainda pensei que me ia falar dos botes mas foi para me pedir se lhe podia dar uma olhadela na sonda da lancha, que está avariada. Infelizmente não o consegui ajudar, vai precisar de uma nova.

Amanhã há sopas do Espírito Santo e como já 3 pessoas me disseram que não me esquecesse e como é na minha freguesia, vou. Não sou devoto do Espírito Santo nem das outras figuras da Trindade juntas ou separadas e ficava um tanto desconfortável a participar numa coisa que é de devoção, mas vou, é uma tradição quase tão social como religiosa e a tradição é alimentar toda a gente que apareça sem distiguir nem perguntar nada, como verdadeiros cristãos.

Fui visitar amigos e depois de vários assuntos não consegui evitar tocar no que me anda a doer mais, por ter que declinar um convite para um “evento” amanhã à hora da final da Taça. É virtualmente impossível explicar a um estrangeiro que não se interessa por futebol o que significa o futebol para um adepto português, lá me esforcei para dar uma ideia mas está bom de ver que a paixão clubística não tem explicação racional, havendo na minha opinião apenas dois motivos racionais para se apoiar um clube em vez de outro: ou é o clube na nossa terra, bairro, vila ou  cidade ou é o clube onde praticamos um desporto. Nenhum dos casos se aplica a mim nem a milhões e milhões de outros adeptos. Fui-me embora de casa deles a sorrir por a minha amiga francesa, depois de me estar a ouvir por um bocado a falar do Sporting, ter dito.

-Fico contente por saber que sempre há uma parte irracional, emocional e inexplicável na tua vida.

Nesta foto vou ao leme de  uma parte bem racional e que se explica facilmente, se bem que também é bastante emocional. Foi tirada na primeira saída do bote este ano, com a companha que se desfez logo a seguir porque o moço da proa, que manobra a vela a que chamamos gibra por corrupção do inglês jib, teve que voltar ao seu Faial natal e deixou-nos sem uma perícia crucial para a manobra. Agora um dos maiores problemas da minha vida é conseguir aprender e ensinar o suficiente para não fazermos má figura no campeonato em Julho. Quando um dos meus principais problemas e preocupações é esse, tenho que concluir que sou um gajo de sorte.

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Ontem morreram 50 e tal pessoas em Gaza e não me aqueceu nem me arrefeceu, para não falar nos outros milhares que morrem e sofrem de fome, doenças e outras misérias, constantemente. Ia escrever aqui um post sobre a embaixada em Jerusalém, a família do Trump, os líderes do Hamas e o “processo de paz” e talvez um P.S. sobre o bom tempo que chegou, os botes baleeiros, os meus borregos novos ou o meu cão.

Hoje estou aqui de rastos, com a sensação de que o meu mundo desabou, que andei enganado que tempos, que estava tudo à minha frente e não consegui ver nada. Nem me consigo levantar da cadeira e ir respirar fundo e não estou longe do tal nó na garganta.

Isto por causa dos acontecimentos desta tarde, 15/05/2018,  com o  Sporting Clube de Portugal. Um clube de futebol. Um clube de futebol , senhores, eu que sou o gajo que tem a mania que é esperto, racional e frio,  tenho um nó na garganta por causa do que está a acontecer ao meu clube de futebol.

O mundo é um sítio mau e estranho, as pessoas são estranhas e más e isto é horrível.

Abanibi aboebe, idiotas.

Não gosto de festivais de nada, tirando eventuais festivais de bola que o meu clube raramente produz. Aqui na ilha há uns anos um  finlandês que cá vive juntou-se com mais uns amigos e organizou o “Green Dream Festival” , era para ser um festival internacional de música e ecologia, o resultado ficou um pouco  aquém do que se esperava e publicitava, vieram umas sete pessoas. Desde há uns anos para cá fazem  uma coisa a que chamam Azores Fringe Festival , eu chamo-lhe Cringe Festival, este ano a parte que toca a esta ilha  compõe-se de uma sessão de apreciação de cerâmica artesanal, uma patuscada num café local, um artista que vem cá falar de arte e um concerto de um pequeno grupo neo folclórico. A avaliar pelos anos anteriores tomarão parte no festival entre quinze e dezoito pessoas, claro que sou a favor da iniciativa mas não era mau que lhe dessem um nome mais coerente.

Aqui há uns anos fui de Alcobaça à Zambujeira do Mar e voltei no mesmo dia, queria mesmo ver o Peter Murphy mas não queria nada misturar-me com o maralhal por mais tempo do que fosse necessário para isso e nem sequer me imagino a ir a um festival de coisas que me interessam além de música tipo cerveja artesanal. Vou à Semana do Mar na Horta com gosto, é um verdadeiro festival, mas só vou porque me pagam a viagem e vou participar nas regatas.

E no meio dos festivais todos há a Eurovisão. Tive que ir ver de que ano era a única canção de um eurofestival de que ainda me lembrava de ter visto, ouvido, trauteado e que me ficou no ouvido, nem de propósito e estou a falar muito a sério, chamava-se Abanibi aboebe e era de Israel. Fui procurar o ano, 1978 , portanto eu tinha 5 anos e sem dúvida que me ficou na memória por a ter cantado com os meus irmãos que tempos, a sonoridade era bastante infantil e até havia o single lá em casa.

A partir daí nunca mais, não tenho ideia nenhuma de nenhuma edição nem nenhuma canção. O ano passado houve comoção nacional e ninguém escapou, mais uma vez não vi nada, ouvi a canção portuguesa duas vezes, fui ver a letra e escrevi aqui que era uma canção sobre abandono, obsessão, solidão, miséria mental, ilusão, esperança vã, mendicidade afectiva e resignação . Continuo sem me interessar, é por alguma coisa que se chama a certo género de canções “festivaleiras” . Li que íamos organizar o festival este ano, 20 milhões, pensei que no meio da roubalheira, saque e desperdício dos fundos públicos que se vê todos os dias isto não aquecia nem arrefecia, até era boa propaganda ao país. E pelos vistos é um espectáculo que prende milhões, eu quero é que as pessoas sejam felizes e tenham distracções.

Aquilo ia mais uma vez passar-me ao lado quando o Bloco de Esquerda teve mais uma genial inciativa política: a fim de protestar contra a ocupação dos territórios palestinianos e das acções militares de Israel em Gaza e na Síria e que mais há, apelavam a que não se votasse na canção israelita. Leram bem, estas pessoas juntaram-se num comité e concluíram que era importante e consequente uma campanha contra uma canção, mostrando pela enésima vez que podem ter várias noções mas a do ridículo não está entre elas.

Ao que parece a cantora israelita  até faz parte  de uma minoria oprimida, as gordas lésbicas que cantam mal , só isso seria motivo para ter senão a solidariedade pelo menos a tolerância do Bloco, mas não. Não lhes interessa que Israel seja uma democracia com imprensa livre em que no ano passado a marcha gay teve dez vezes mais pessoas do que a de Lisboa , ao passo que os países que o  Bloco prefere apoiar são geridos por fanáticos religiosos que mandam gays dos prédios abaixo, isso é irrelevante na luta.

Não sou fã de Israel nem dos seus métodos, já os critiquei aqui muita vez, sou contra os colonatos, as ocupações  e o bloqueio de Gaza mas não perco de vista as características, projectos e intenções dos inimigos de Israel e seus apoiantes como o Bloco de Esquerda e restantes anti semitas básicos.  Não basta serem anti semitas e terem a lata descomunal de tomar claramente partido por fundamentalistas religiosos contra uma sociedade aberta e moderna ao memso tempo que se dizem humanistas como ainda por cima  promovem iniciativas estúpidas como um apelo ao boicote a uma canção. Nem com as artes , supostamente uma bandeira, conseguem ser  lúcidos , é só raiva cega e vontade de agitar.

No Twitter ontem não se falava de outra coisa senão do festival, alguns tiveram a ideia de divulgar o número de telefone para votar em Israel. Não resisti e votei , e adormeci a rir-me.

 

Muitos Americanos e um Macaense

Num dia normal nem trinta  pessoas chegam a este blog, e apesar do aumento de audiência não fazer parte da lista das preocupações com isto, lista que aliás continua vazia ao fim de 11 anos, não resisto à curiosidade e vou vendo as estatísticas.

Ora, aqui há uns anos, talvez  meia dúzia, comecei a ter uma visita de Macau. Os anos passaram e quase todos os dias, senão todos mesmo, lá me aparece assinalado que alguém em Macau visitou isto . Quero agradecer a essa pessoa , no caso de não ser um bot, por achar isto tão interessante que faz quase parte da sua rotina diária. Um muito obrigado ao leitor/a macaense ou habitante do território, é a única viagem que lamento muito não  ter feito: visitado Macau ainda no tempo da administração portuguesa, não por algum saudosismo de império, por presumir encontrar lá muitos sinais de Portugal ou pensar que me podia desenrascar lá a falar português como noutras ex-colónias, era só  para ter a sensação física de estar do outro lado do Mundo numa terra nominalmente portuguesa. Aterrar (ou aportar…)  nos confins da Ásia no século XX , mostrar identificação portuguesa e seguir, devia ser uma sensação forte.  Essa  presença e administração  para mim era um fenómeno estranho, um anacronismo improvável, outra prova da excepcionalidade e durabilidade dos empreendimentos dos portugueses antigos.

Além do leitor/a  macaense  outra “irregularidade” das estatísticas é que, por alguma razão que gostava  bastante de conhecer, de há uns meses para cá tenho mais visitas dos Estados Unidos do que de Portugal. Por exemplo no momento em que escrevo isto tenho o retumbante tráfego de 14 visitas, 3 de Portugal, 10 dos EUA e a tal de Macau, tem sido sempre nesta proporção e isso já acho muito mais estranho do que ter um leitor regular em Macau.

Acho  bizarro  mas o que não me agrada muito é a possibilidade de haver  pessoas a ler isto  usando tradutores automáticos, que alguém pense que eu escrevo como aparece traduzido incomoda-me um pouco. Experimentem por exemplo introduzir expressões idiomáticas nos tradutores e hão-de se rir muito. Espero que não seja o caso, e mesmo que os leitores tenham consciência das insuficiências dos tradutores automáticos é chato porque apanham uma versão rasca e um tanto confusa destes textos.  Não sendo o caso, e não acreditando muito na coincidência de ter visitas às dúzias de americanos que falam e lêem português, que os há, resta a hipótese de serem emigrantes portugueses que deram com isto e gostaram…ou pelo menos acham interessante.

Uma saudação e agradecimento para  a pessoa de Macau e para esses  americanos, ou lusófonos a viver lá.  Também isto é globalização, e é por coisas assim que eu a aprecio.

Conheço um tipo que entre variadíssimas outras coisas acredita que os extraterrestres andam entre nós e comunicam com alguns de nós; que o 11 de Setembro foi uma fabricação completa; que a ciência moderna é uma aldrabice para gerar lucro; que o 25 de Abril foi obra da CIA e dos Rothshilds; que os Nazis se aliaram a uma raça de saurópodes extraterrestres e que a NASA é uma organização de fachada que só faz encenações e espalha mentiras.

Ontem disse-me que achava pouco credível que o Benfica tenha tanto poder e influência que consiga  corromper e manipular pessoas e instituições na escala sugerida pelos emails roubados.

Já  passaram 24 horas e ainda não digeri isto.