O Armagedão

ar·ma·ge·dão
(latim bíblico Armagedondo grego bíblico Armaggedon ou Harmagedondo hebraico har Meggidotopónimo palestinianoMonte Meggido)

substantivo masculino

1. [Religião]  Batalha bíblica entre as forças do bem e do mal. (Com inicial maiúscula.)

2. Guerra ou combate muito importante ou decisivo. (Geralmente com inicial maiúscula.)

Quando tinha uns 14 anos escrevi uma história sobre um tipo que orienta a sua vida por um único eixo: preparação para a catástrofe, que está iminente. Sempre fui pessimista e como tenho uma imaginação bastante fértil, sempre passei muito tempo a pensar nos cenários piores. Muitos anos mais tarde abracei a filosofia dos Estóicos, faz todo o sentido para mim prepararmos e visualizarmos cenários negativos, é uma forma de preparação mental e prática.

A minha procura e decisão de vir viver assim para aqui foi tomada há 15 anos e foi informada por uma lista de possibilidades (nas quais não figurava, admito, uma pandemia assim) que continuam todas válidas e que, receio bem, vão continuar a justificar a minha decisão.

Extremismos políticos, atritos e conflitos sociais, migrações em massa , crises económicas, degradação ambiental : ameaças reais há 20 anos, hoje são ameaças cada vez mais reais e das quais eu, por decidir reduzir o meu consumo e necessidades materiais ao mínimo possível e viver o mais longe possível de um centro urbano numa ruralidade que no limite pode permitir a subsistência, consegui fugir o melhor que é possível.

Não há um único sítio deste planeta onde eu preferisse estar agora, nem um que considere dar-me melhores hipóteses de sobreviver ao que aí vem.

A sobrevivência já não é essencial para mim, no sentido em que não me angustia, se morrer amanhã vou sem remorso  nem, espero, grande trepidação. Isto deve-se a não só acreditar que a morte é o fim de tudo , fim  normal e pertinente a todos os organismos vivos e no sentido em  que acredito que fiz e às vezes excedi o melhor que podia ter feito com a minha vida. Não é que “já tenha dado o que tinha a dar” mas é a consciência de que já está bom assim.

O que me angustia neste dias em que as minhas teorias da catástrofe se preparam para ser demonstradas é o sofrimento que se vai abater sobre uma população e geração que nunca viveu nem nunca foi preparada para nada parecido com isto  e não está nem podia estar informada e consciente sobre o que se passa.

E o que se passa não é só o aumento de casos e a propagação do vírus com consequentes mortos.

O que se passa é que as engrenagens da economia global estão a parar. As tribos políticas estão a armar-se , literal e figurativamente. As narrativas estão a ser produzidas e aceites, ou rejeitadas, mas a serem produzidas e disseminadas. O sistema de saúde, que já estava a ranger por todos os lados com a pressão normal de uma sociedade envelhecida, vai ser tomado  por milhares de doentes graves, e alguma coisa tem que ceder. As cadeias logísticas vão quebrar e os abastecimentos vão faltar. As tensões sociais podem ir para um lado ou para o outro mas de cada vez que vocês  cantam o Kumbaya e vão acender velinhas à janela eu lembro-me é de vizinhanças a matarem-se nas ruas , porque somos todos Humanos e o Medo, a Incerteza, a Necessidade e a Desordem são uma combinação explosiva.

Os europeus e americanos da minha geração são os que viveram os melhores tempos da História, é o que eu acredito. Por sempre esperar uma coisa destas ao virar da esquina é que me enervavam tanto os que protestavam, se indignavam , criticavam, faziam greves e manifestações  por coisas que daqui a um ano vão parecer triviais e irrelevantes.

Fomos felizes e poucos de nós o soubemos, menos que todos as pessoas de Esquerda, sempre com o seu discurso “isto é terrível, estamos na miséria, isto é uma degradação, que vidas desgraçadas estamos a levar” . Podem puxar o lustro ao discurso que vão ter razões reais para o fazer, se não me enganar por muito.

E para o fim uma das consequências piores disto: a necessidade , de resto um impulso natural, de encontrar culpados. SEMPRE que as sociedades se viram perante crises de qualquer tipo, aparece o impulso de encontrar um culpado e atacá-lo quanto mais forte o problema e  quanto menor for a possibilidade de o resolver . É sabido pelos políticos desde os tempos bíblicos , o  Bode Expiatório tem que estar sempre à mão.

Já vemos o PC chinês a propagar a ideia de que vírus foi trazido pelos americanos e os americanos a chamarem-lhe “vírus  chinês”,  essa  retórica só vai escalar. Por cá temos os “socialistas” contra “os liberais”, a esquerda contra a direita , os conspiracionsitas contra a Razão, os idiotas contra qualquer coisa que lhes permita ralhar e dizer mal. No século XIV uma das consequências da ignorância generalizada era essa perseguição dos bodes expiatórios: a qualquer desgraça que aconteça e não saibamos explicar , é porque foram os judeus. Milhões morreram por isso, e criou-se uma cultura de inventar culpados e  castigá-los que levou ao Holocausto séculos mais tarde.

Não temos liderança capaz, eu agora abstenho-me de criticar o governo porque em tempos de crise é muito preciso um governo e este é o que temos, é com este que temos que ir à guerra, mas não me calo com o tipo que ocupa o cargo de Presidente, um tipo que nos dias em que o país mais precisa de ser assegurado , moralizado e mobilizado vem dizer via telemóvel que quarta feira lá se verá, que não pode decidir nada sozinho. É um asco, espero que possa pagar , politicamente, claro está, por toda esta indecisão, hesitação e cobardia.

Já os  EUA são liderados por um homem que há 15 dias dizia que o virus era uma manobra da oposição e ontem declarou estado de emergência. Isto devia ser humilhação suficiente para um homem dar um tiro na cabeça mas ele não tem consciência, logo não sofre com essas coisas. Aquilo está em risco de implodir,  tal como o nosso modo de vida do Ocidente Liberal e o sistema que o sustentou.

A única coisa que mudou na minha vida para cumprir à risca todas as indicações da DGS foi começar a lavar as mãos mais vezes. Tive que suspender a minha conta no FB porque não estou preparado para a exposição de toda a mediocridade e alarvidade que já lá existe, elevado à potência “pandemia”.  Não quero ver os apelos, as iniciativas, as piadas secas, as teorias da conspiração, as rezas, a boçalidade , as correntes e todo esse lixo que, diga eu o que disser, vai ser o apoio de muita gente em tempos em que poucos são capazes de ficar quietos a ler um livro e não concebem a existência sem estímulos externos constantes.

Aqui há 4 meses o problema do mundo era o aquecimento global. Eu tentava manter-me informado e estava certamente preocupado mas ainda assim achava graça aos activistas em histeria com uma “ameaça existencial à espécie humana” que se traduzia em , essencialmente , a temperatura aumentar 3 graus até 2050.

Nem isso é uma ameaça existencial nem o COVID19 é, porque a espécie humana é muito mais resiliente do que se possa pensar. O mundo não ia acabar em 2050 por estar 3 graus mais quente, mas ia mudar muito. A questão é que ia mudar ao longo de 30 anos, agora vamos enfrentar mudanças radicais de um ano para o outro.

Nada me daria tanto gosto como daqui por 3 meses estar a aqui a engolir um belo sapo gordo e viscoso e dar palmadinhas nas costas a todos por a coisa afinal não ter sido tão má. Há 15 dias que me sinto como aqueles gajos nos filmes catástrofe que sabem o que se vai passar e desesperam porque à volta dele ninguém acredita. As pessoas já  acreditam que o virus é grave , está em propagação, pode matar e que é preciso ficar em casa. Não acreditam tanto, ou não entendem bem por não querer ou não poder, é o colapso que tudo isto já está a causar e pode causar ainda mais, porque como dizia o Murphy, se pode correr mal, vai correr mal.

Coragem, agarrem-se ao que puderem e preparem-se para dias muito difíceis. Se eles não vierem não perdem grande coisa, se eles vierem sofrem menos.

Não há condições

Ao longo dos anos este blog foi sendo encontrado, por acaso ou por pesquisa, e fui perdendo aquela liberdade total que tinha de escrever o que me ia na alma fosse sobre o que fosse. Ia para o vazio e pronto, era como gritar do alto de uma montanha, ninguém ouve mas faz bem à alma.

Depois empregadores e clientes do tempo da navegação profissional encontraram isto, tive que apagar certas coisas e comedir-me a falar de matérias  profissionais. Depois alguns amigos , e aí não havia problema nenhum mas lá se ia perdendo o anonimato. A seguir , já a viver aqui , alguns vizinhos, e  aí muita calma, isto é pequenino, há mal entendidos e coisas mal interpretadas ou bem interpretadas mas que podem ser levadas a mal, e junta-se  a desconfiança comum que em certos meios se dá a pessoas articuladas.  “Bem falante” e “bem pensante” não são propriamente elogios. Além disso ninguém a não ser pessoas que prezam e ambicionam fama que ver detalhes da sua vida conhecidos por pessoas que vê regularmente e com quem convive. A seguir, e ainda estou para perceber como foi possível uma coisa dessas, a minha querida mãe encontrou isto, e quase a cada post “que lá chega” recebo um telefonema. Preocupa-se e eu não quero que ela se preocupe.

Já há demasiada gente próxima a ler isto  e eu vejo-me a pensar com calma  antes de  escrever, a pensar  como é que isto vai ser lido por todas estas pessoas, perdi a liberdade dos meus gritos do alto da montanha, dos meus exercícios egoístas, dos desabafos e da minha crítica livre a tudo o que me rodeia, seja na vizinhança próxima ou distante.

Ou começo a limitar-me a formatos de crónica impessoal, a diluir o veneno e a conformar com o raio da imagem que quero que tenham de mim, ou tenho que parar com isto. Todos queremos  passar  uma determinada imagem, quer admitamos quer não. “Qual é o mal em conhecerem as tuas opiniões e pedaços da tua vida?”  Mal, mal não é nenhum, mas isso é só até ao dia em que o mal aparece.

As coisas nunca me correram bem de cada vez que tentei deixar de ser um gajo reservado com tendência ao isolamento e à introspecção, e ao estar a alardear a minha reserva e introspecção estou a traí-las. Tenho nesta altura bastantes e variados problemas, cansaços , lutas que não sei se vou conseguir ganhar e outras que sei que já perdi, estou só à procura de uma  rendição honrosa. Nenhum desses problemas se atenua por os estar a comentar aqui , e podem mesmo agravar-se .

Faço por isso uma pausa, não há o radicalismo de apagar isto, nem sequer digo que acaba, mais mês menos mês há-de aparecer aqui alguma coisa, mas por agora tenho mais é que me calar .

O Ciclo

Levo perto de 30 anos num ciclo que funciona mais ou menos assim:

1 – Estou sozinho e vivo bem com isso

2 – Começo a estar tão satisfeito com a vida e comigo próprio que, inadvertidamente, começo a abrir as defesas contra romantismos e envolvimentos emocionais.

3 – Conheço uma pessoa que  me atrai e que é simpática para mim e invento logo uma longa metragem, baseado em nada excepto simpatia comum e fantasias.

4 – A realidade manifesta-se e o objecto do desejo acaba por se afastar, havendo ou não conhecimento mútuo no sentido bíblico do termo.

5 – Passo meses , às vezes anos, com uma fixação deprimente até que muito lentamente faço as pazes comigo e com o mundo e o resto das pessoas em geral.

6 – Volto ao ponto 1 .

Só estou em frente ao computador em vez de já estar na cama a ler porque espero (foi-me  dito que hoje, o mais tardar ) uma mensagem , uma resposta a uma daquelas cartas em que faço figura de urso e quando percebo que fiz figura de urso já é tarde, já foi . Já não creio que chegue mensagem nenhuma, mas se chegar aposto que sei o conteúdo, já vi este filme . Admiração,  lamento  que seja assim,  és um gajo especial, nunca foi minha intenção, quero muito ficar tua amiga.  Talvez me engane, quem me dera. Só espero que não inclua o clássico “neste momento não quero nenhuma relação”, sinal seguro  de que dentro de uma semana está numa.

Vou agora macerar lentamente durante uns meses, até já tenho uma playlist, esperar nunca mais a ver  e aguardar o regresso ao ponto 1 do ciclo.  Já desisti de pensar que desta é que aprendo , se nem vindo viver para uma ilha pequena e remota me salvei disto é porque não dá.

Há  grandes melhorias  em relação aos primeiros 20 anos do ciclo : agora tenho dois cães e adoro o sítio onde vivo. E também aceito tudo muito melhor,  já sei que é mesmo assim. Como se diz aqui, é isto e disto não passa.

No dia 23 voei para Lisboa preparado para me despedir do meu irmão mesmo que ele não se conseguisse despedir de mim.  No meio de toda a angustia  e tristeza, um ponto de luz : estou em paz com ele, e a melhor maneira de ir ou ver ir é essa.

Os médicos  disseram,  2 ou 3 dias depois de ele ter entrado nos cuidados intensivos , que a situação era crítica, para nos prepararmos e que pelo que os exames mostravam as lesões cerebrais eram incompatíveis com a vida. A frase lesões cerebrais incompatíveis com a vida  não me saiu da cabeça dias a fio e   ficou gravada .

Bom,  nos últimos 3 dias o meu irmão acordou do coma, saiu dos cuidados intensivos e já reage. Extraordinário. Estou radiante.

Passei uma semana em Lisboa mas acabei por voltar a casa  deixando o meu irmão como o encontrei, em coma e com  toda a gente à espera. Teria ficado e suportado bem a vida urbana que acho insuportável em circunstâncias normais mas não podia abandonar o meu trabalho e responsabilidades por mais tempo e o que é certo é que para o meu irmão é igual. Para a família seria talvez melhor eu ficar mas se a vida dele está em suspenso as outras têm forçosamente que continuar.

Prova-se mais uma vez que não há riqueza maior , a seguir à saúde, que ter amigos. Foram e  continuam a ser tocantes não só as mensagens de apoio, que são fáceis de mandar, mas as ofertas de ajuda para o que for preciso, que não são só genuínas com já foram aceites várias, e oferecidas prontamente e com toda a boa vontade.

Igualmente mais uma vez se prova que podemos passar a vida consumidos em preocupações com uma dada coisa e depois o que acontece é algo que nunca nos passou pela cabeça e nos apanha na curva, mostra o que valem essas preocupações com cenários e possibilidades remotas ou menos remotas.

O meu irmão está nos cuidados intensivos neurocríticos em S.José, um amigo mais perspicaz ( que veio da Alemanha para o ver) reparou no autocolante da manutenção de um dos elevadores: expirou em 2017, por lei aquele elevador devia estar selado e no entanto continua a trabalhar, e num hospital. É o elevador 16, que teve a última vistoria nos tempos horríveis da troika e do carrasco do Passos, agora no Tempo Novo há dinheiro para reduzir os horários de trabalho mas como não é elástico não pode chegar a tudo. As histórias de falhas de equipamento e material repetem-se diariamente, hoje ouvi na rádio que o tempo de espera pelo atendimento das chamadas para o 112 tem chegado aos 8 minutos quando a recomendação legal é 7 segundos. O chefe do sindicato diz que falta pessoal, os directores dos serviços , seguindo uma explicação inventada pelo Costa, dizem que se deve a picos de utilização, ou seja, mais uma vez as falhas nos serviços devem-se à utilização que as pessoas fazem deles , é uma maçada.

Relembro que estes governantes, amparados pela pessoa que ocupa o cargo de Presidente da República, tiveram o desplante de afirmar que a redução do horário de trabalho de 40 para 35 horas semanais não se ia reflectir nos custos e na eficiência dos serviços. Ora , eles mentem por deformação profissional mas acreditar numa coisa dessas, como tantos milhares acreditaram, já revela um nível de ignorância que se calhar devia ser incompatível com o direito de voto.

Voltando à condição do meu irmão, a religião tem mostrado toda a sua utilidade, fornecendo às pessoas não só uma esperança de que é possível um desenlace positivo apesar de provas quase esmagadoras contra essa possibilidade como o conforto de poder ocupar o tempo com orações que além de funcionarem como meditação que tranquiliza a mente podem supostamente influenciar esse mesmo desenlace. Evita-se o desespero e tem-se uma narrativa que, se não se explorar nem avançar demasiado o raciocínio, explica e justifica o acontecimento .

Para mim não, já me disseram da melhor vontade e bondade que não me revoltasse, eu retorqui que a condição essencial para haver revolta é reconhecer uma autoridade superior, não a reconhecendo não é possível haver revolta, que por definição tem que ser contra alguma coisa. Continuo receptivo a que me expliquem sem recorrer a “é um mistério insondável” que raio de plano ou objectivo desenhado por uma entidade de amor infinito é que exige fazer 5 criancinhas órfãs e mergulhar duas famílias  em confusão e dor, porque é que um ser omnisciente e ominipotente não consegue levar avante os seus planos e desíginios sem precisar destas coisas. Não sabem responder, sejam leigos sejam teólogos, não conseguem ir além do mistério, para mim não chega, lamento. Também lamento que os clérigos consigam à segunda feira apelar à oração como forma de influenciar um desenlace e à terça, perante um desenlace negativo, dizer que tudo está  conforme o tal plano. Ora se é um plano,  já está feito e sendo divino é perfeito, por isso não serve de nada tentar mudá-lo com preces, mas isto já será raciocínio avançado demais para estas pessoas.

E como lido eu com isto, sem esse apoio espiritual que permite fechar a porta à Razão? Com tristeza profunda e aceitação das leis da biologia a física e limitações das possibilidades humanas,  com  a noção de que somos organismos vivos e como tal vamos invariavelmente todos morrer e que os acasos e possibilidades de algo nos matar são incontáveis,  sempre presentes e incontroláveis.  Acredito que há muitas coisas que não conseguimos explicar mas ainda que o meu irmão se levantasse e falasse amanhã isso não me faria crente, antes pelo contrário, far-me-ia questionar mais ainda esta ideia de um deus que permitia 3 semanas de agonia só para fazer no fim o que podia ter feito no princípio. Seria uma maneira sádica de demonstrar poder, e isso é incompatível com a noção de deus de amor em que os cristãos acreditam. A história de Jó  , por coincidência o diminuitivo pelo que sou conhecido pelos amigos mais velhos e família, chega bem para  mostrar o carácter dessa entidade que se diverte a atormentar os seus “filhos” só para os testar e mostrar poder, uma coisa  atroz. E além do Jó temos também entre outros o demente Abraão, que nível de perturbação mental é preciso ter para ouvir uma voz que diz “mata o teu filho” e dispôr-se a fazê-lo? Hoje em dia uma pessoa assim seria internada compulsivamente, há 3000 mil anos esse episódio fez parte da fundação de uma religião.

Quando voltar a Lisboa, seja para sepultar o meu irmão seja para o abraçar e regozijar-me com o seu regresso do limbo onde está, hei-de querer falar com um ou dois dos  padres que por lá gravitam, todos habituados a pregar aos fiéis, a falar sem contraditório para pessoas que aceitam “é mistério e não podemos saber” como explicação. Tenho  perguntas sérias a fazer-lhes, entre elas “nunca lhe ocorreu a possibilidade de estar aqui a continuar  uma tradição milenar de enganar as pessoas dizendo que é para o bem delas?” e  “o que é que tem contra o desenvolvimento de um raciocínio lógico?” .

Acredito que está a ser feito tudo o que é humanamente possível para salvar o meu irmão e tenho uma esperança ,  minúscula  , que se salve, quer dizer, que volte  como pessoa autónoma, pensante, comunicante  e actuante. Imaginá-lo numa cama como uma planta, indefinidamente, é demasiado terrível, espero muito que não cheguemos aí.

 

 

 

 

Apaguei um artigo que escrevi ontem sobre o poder da oração. Tenho nesta altura um irmão com prognóstico reservado e dezenas de familiares a rezar com convicção, tornar a dar agora a minha opinião sobre a oração não  ajudava nada.

Dia de Portugal

Às oito da manhã estava a carregar no carro uma ovelha com um cordeiro , para levar para uma terra a um quilómetro e meio. Tem sarna, acho eu que tem sarna, está-lhe a cair a lã toda. Desparasitei-a , e ao pequeno, e separei-os das outras. Queria ver se não tinha uma contaminação geral de sarna, até porque ao que sei também se pega aos cães e às pessoas. Daí fui mudar de sítio a mundialmente famosa ovelha negra e o seu cordeiro, que já está maior do que ela mas ainda mama. Essa ovelha é levada da breca e se não estiver numa terra de vedação sem falhas encontra sempre um buraco, e lidera as outras nas fugas.Já me custou muitos quilómetros a pé e alguns vizinhos chateados com a invasão. Agora levei-a para a Costa, juntar-se a outras 13 que lá estão e onde as pastagens estão bem vedadas.

Com isto era quase meio dia, fui encontrar os turistas do dia, saber se estava tudo bem. Está tudo bem e demora-me  cinco minutos. Depois de almoçar fui para o porto, ia-se arriar o Formosa. Na semana passada o mastro do S.Pedro partiu num treino , agora vai ter que se fabricar um novo , de um tronco de criptoméria, e  até lá o S.Pedro fica varado. Agora também  faço parte da tripulação do  Formosa e vou ao campeonato,  que é na Graciosa. Além das saídas para o mar há sempre que fazer no Clube Naval, que como me lembram várias vezes, não é só botes baleeiros.

A saída foi muito boa, pela primeira vez estava a tripulação toda que vai à Graciosa, estava uma tarde belíssima e a cada vez que se sai melhora-se e aprende-se. Não estou nada ansioso por causa do campeonato, primeiro porque não sou eu o oficial, depois porque não andamos aqui para ganhar regatas , só manter aqueles botes a navegar e conseguir levá-los à rampa para participar e marcar presença com os outros todos já é um objectivo que se alcança. Também é importante ter mais uma actividade saudável para os mais novos e menos novos e dar animação ao porto , que tem tido uma dúzia de iates e onde já se nota , finalmente, que o Verão chegou.

Ainda fui à Ponta da Fajã, a pretexto de levar umas cervejas artesenais a uns amigos porque anda mouro na costa e mais não digo. As hortências estão prestes a explodir e o trânsito aumenta a ponto de se verem três carros em fila para entrar num cruzamento.

E ao fim do dia é que fui ver as notícias, e por “notícias” quero dizer o twitter e alguns sites de jornais. Vi que a selecção nacional ganhou outra competição, já jogam sem eu saber em competições que eu nem sabia que existiam , mais um sinal claro de que estou quase curado na doença da bola.

Nem vi nem soube de cerimónias comemorativas, aquela pompa do Estado que só serve para o Estado de glorificar a si próprio e suscitar admiração e respeito. Nenhuma daquelas almas penadas, insignes representantes do Povo, podia dizer ali nada de verdadeiramente relevante ou novo, estão ali só para que  nos lembremos que o Estado e a Nação são eles. De resto o Povo, sendo feriado e havendo festa, “adere”.

Li o discurso do João Miguel Tavares, que foi aclamado por toda a gente lúcida e sensível e criticado por alguns  pirrónicos por uma questão de princípio. Não me lembro de um discurso assim, um retrato tão claro e simples do nosso país, mas também é verdade que não presto assim tanta atenção aos discursos do 10 de Junho. É pena que não passe de um discurso e também duvido que mesmo que  fosse feito por um Primeiro Ministro convicto alguma coisa de fundamental fosse mudar.

Gosto muito de ser português, gosto de viver aqui e não me imagino em mais lado nenhum mas não tenho orgulho particular nisso, especialmente porque não escolhi ser português e é estranho ter-se orgulho num acaso.

Por outro lado, o país é feito por todos nós, a soma das nossas vontades, acções e interacções, culturas, pensamentos, ideias e trabalho e creio que tal como nos castigamos e reprovamos como país nas misérias também é legítimo sentirmos algum orgulho quando vemos as coisas de que gostamos em Portugal. É preciso cultivar essas.