Rendimento Básico Universal

Há 4 anos ouvi falar pela primeira vez na ideia de rendimento universal garantido, um programa mediante o qual toda a população sem excepção recebe do Estado uma subvenção mensal que teoricamente permite uma subsistência digna.

À primeira vista pareceu-me má ideia, por um número de razões entre as quais a falta de incentivo ao trabalho, o facto de que qualquer coisa que o Estado dá a uma pessoa é tirada a outra e  o incentivo à migração em massa para os países que implementassem esse programa. Parecia-me que se por exemplo em Portugal o Estado desse o equivalente ao ordenado mínimo a cada cidadão íamos ter muito depressa falta de gente para fazer trabalhos que pagam precisamente o ordenado mínimo. Dir-me-ão que não, que ia servir para complementar o rendimento de pessoas que iam continuar a fazer trabalhos duros e desagradáveis como recolher lixo (trabalho que devia ser pago muito acima do mínimo) mas se isso seria verdade nalguns casos em muitos outros serviria apenas para que as pessoas se encostassem. Igualmente não via razão para pessoas que já têm vencimentos fortes passarem a receber mais um cheque só por existirem, que é o que tinha que ser feito para a coisa ser mesmo universal.

O rendimento universal continua a ser estudado,projectos-piloto continuam a ser testados por exemplo na Finlândia e eu mudei de ideias, não por me ter convertido ao colectivismo e aos méritos da redistribuição mas porque tenho a certeza, na medida em que alguém pode ter alguma certeza quanto ao futuro, de que dentro de poucas décadas simplesmente não vai haver trabalho para toda a gente.

Não vale a pena falar muito sobre a automação, sobre como hoje em dia fábricas enormes produzem  milhares de artigos , sejam camiões ou porta chaves, com poucas dezenas de trabalhadores; como as máquinas já produzem outras máquinas; como na agricultura tarefas que requeriam dezenas de pessoas há 20 anos hoje são feitas por uma aos comandos de um robot. Isso é automação, que progressivamente elimina trabalhos físicos desde a Revolução Industrial e é uma questão sobejamente debatida: à medida que os trabalhos duros, perigosos e repetitivos iam sendo automatizados as pessoas iam ser mais e melhor instruídas e passavam a outros trabalhos e serviços, um nível superior de prestação fora do alcance dos robots, um caminho virtuoso que permitia a libertação dos trabalhos sujos e duros e a dedicação a trabalhos menos exigentes fisicamente e que requeriam perícias além da força física e atenção fixa. Como nenhum robot conseguia pensar, tudo o que envolvesse associações de ideias, conclusões, análises, iniciativas e decisões, tinha forçosamente que ser feito por humanos, que dominando a informação dominariam sempre esta nova economia, porque os robots não escreviam canções, não faziam cirurgias nem ensinavam Física. Isso era no passado.

Dantes só as profissões de colarinho azul, como lhes chamam os anglo saxónicos, estavam sujeitas a desaparecer vítimas da automação. Com a entrada em cena e o progresso galopante da Inteligência Artificial, a longo prazo nenhuma profissão está a salvo, nenhuma actividade está fora do alcance de uma máquina. Já não são só os taxistas e camionistas que vão desaparecer porque já há, agora, carros e camiões que andam sozinhos, e só não há navios (declaradamente) porque o meio marítimo é menos fácil que uma estrada. Os algoritmos de tradução, como pode comprovar quem os usa há alguns anos, melhoram literalmente de mês para mês e se bem que falta muito tempo para traduzirem Shakespeare já traduzem satisfatoriamente documentos legais ou comerciais. Os tradutores são uma espécie em vias de extinção, tal como os assistentes legais dado que há algoritmos que conseguem peneirar toneladas de documentos legais e encontrar por exemplo o precedente que se procura numa fracção do tempo que demoraria a um humano. Já há algoritmos de diagnóstico medico que superam a média dos médicos humanos e programas informáticos mais capazes de transmitir conhecimento a um aluno do que a maioria dos professores humanos. A destruição e violência que exigia centenas de homens há 30 anos hoje é levada a cabo por um soldado frente a um computador a milhares de quilómetros de distância, apoiado por algoritmos que sintetizam e analisam toda a informação que lhe chega.Ao invés de contratar um guia turístico um turista instala uma app no seu telemóvel que o conduz pelas ruas , identifica marcos e explica História.

Actividades que ainda há meia dúzia de anos exigiam legiões de  empregados, como a distribuição  postal , estão quase a não exigir nenhum por via dos drones e novos sistemas de localização e condução . O cretino do Trump dizia que ia salvar os empregos das minas de carvão numa época em que mesmo que houvesse muita procura de carvão são cada vez precisos menos trabalhadores para o extrair e processar, mesmo que o carvão fosse uma coisa óptima o emprego nesse sector ia sempre cair. Nesta ilha o Estado encarrega-se, e bem, da manutenção das bermas da estrada e é um encontro   comum : uma dúzia de homens (nesta actividade a igualdade de género também não interessa nada)  de roçadora na mão a mondar as valetas estrada fora, trabalho  que não requer nível de instrução absolutamente nenhum. A câmara do meu concelho está em vias de adquirir um tractor que faz o que esses doze fazem com um homem aos comandos, com a respectiva poupança. O que é que vão fazer esses homens?

A tendência nas nossas sociedades é cada vez mais a interacção das pessoas com máquinas e mesmo quando interagem umas com as outras há já quase sempre uma máquina pelo meio ou por perto, especialmente nos meios urbanos. Já podemos fazer as compras do supermercado em casa e se hoje são entregues por um humano amanhã será um drone, tal como a caixa do supermercado já hoje é substituída por uma máquina. Um dos meus primeiros empregos, repositor de mercearias nas prateleiras de um supermercado, já é feito hoje em dia por robots em vários sítios. Desde a construção à administração, desde o policiamento à agricultura, já não se vai lidar só com automação mas igualmente com os sistemas de IA que analisam dados e informação e agem em conformidade.

É verdade que esta organização e modo de produção vai sempre exigir humanos , mas mesmo que fôssemos todos engenheiros de sistemas e técnicos superiores daqui  a 25 anos não haverá  que fazer para toda a gente, é uma simples questão de números. Quando damos uma olhadela aos sistemas de ensino da maioria dos países e à massa humana analfabeta ou semi analfabeta que se conta em biliões e vai permanecer assim, é fácil concluir que será impossível empregar toda  a população a um nível, digamos, satisfatório.

É por isso que se os governantes (que em muitos aspectos seriam substituídos com vantagem por algoritmos) querem manter a paz têm que começar a pensar seriamente no problema do desemprego galopante que vai acompanhar o crescimento da automação e, sobretudo, da inteligência artificial. Os optimistas dizem que vão sempre ser criadas novas actividades e profissões que ainda hoje são desconhecidas, e isso foi verdade desde a Revolução Industrial ate aqui, mas a inteligência artificial e o seu progresso vertiginoso muda a equação. Quando as máquinas já fazem outras máquinas e já estão a caminho de conseguir fazer tarefas que há 20 anos era impensável conseguirem, como um diagnóstico médico, controlo de tráfego aéreo ou mais prosaicamente, cozinhar uma refeição, parece-me aparente que caminhamos mesmo para uma era de desemprego massivo que vai afectar todas as profissões a médio prazo.

Uma solução será  então o Rendimento Garantido, que faz com que o problema da subsistência esteja resolvido e pode não só evitar a miséria generalizada da parte da população que vai sempre permanecer estúpida, ignorante e sem qualificações como pode libertar a criatividade de uma parte enorme da população, todas as pessoas que têm o tal jeito para uma coisa mas têm que fazer outra para subsistir.

Pode fazer florescer as artes, coisa que eu nunca valorizei muito sendo um bocado filisteu mas reconheço que é uma ocupação válida porque permite não só ao indivíduo realizar-se como proporcionar prazer a outros, independentemente da questão de quem paga pelo  quê. Outro exemplo, uma pessoa que não tenha que ir trabalhar das 9 às 5 para pagar as contas pode dedicar-se a causas nobres como solidariedade e voluntariado social ou cuidados a animais abandonados. Pode-se eliminar uma grande quantidade de stress da vida das pessoas ao mesmo tempo que os empreendedores, hiper activos  e ambiciosos podem continuar stressados a  trabalhar e prosseguir os seus sonhos , ideias, projectos  e esquemas com mais segurança e estabilidade ao mesmo tempo que os madraços podem continuar a sê-lo  sem o estigma relativo que isso hoje implica . As pessoas podem deixar de labutar em empregos que  odeiem e os façam infelizes sabendo que não caem na penúria e muitos podem prosseguir actividades que não são rentáveis nem servem para nada mas que os realizam e lhes dão prazer, como observar pássaros, aprender mirandês  ou estudar  teologia.

Para evitar convulsões , colapsos e conflitos sociais que podem fazer os que vimos até aqui uma brincadeira, para que a sociedade seja mais pacífica  e “feliz” acredito que os Senhores do Mundo vão ter mesmo que arranjar maneira de implementar o rendimento universal num futuro a médio prazo.

Anúncios

A Festa

Volta a Festa do Emigrante, o ponto alto do ano nas Lajes e o fim de semana em que se vê aqui mais gente. Muitos emigrantes vêm ver as famílias e matar saudades, muitos estudante vêm de férias, muitos turistas vêm fazer turismo. Gosto de trocadilhos e ri-me bastante com a festa do irritante. Até aqui, onde os turistas se contam por poucas centenas durante dois meses  a presença de um número maior de pessoas parece que incomoda alguma coisa, mas é só brincadeira, tal como a referência à mosca de verão. O que é certo é que a maioria dos habitantes  aprecia muito o sossego e tranquilidade, e se bem que gosta da animação (e rendimentos) deste fim de semana, fica tudo satisfeito quando acaba.

Está a ilha cheia de emigrantes, é verdade que a América faz engordar e que as segundas gerações perdem o Português num instante. Como agora há wifi por todo o lado a ilha é mais atractiva, podem fazer milhares de quilómetros para vir para aqui olhar para os telemóveis. Noto que as criancinhas hoje (noto porque raramente vejo tantas todas juntas) estão muito mais fáceis de domesticar, é só por-lhes um telemóvel ou tablet na mão e eles criam-se sozinhos, se forem alimentados de vez em quando. Há as excepções , por exemplo dos filhos dos hippies (uso o termo muito liberalmente) , ainda ontem  vi um que está a começar a andar, um “franco alemão” sebento,  andrajoso e lindo que andava a gatinhar e a apanhar beatas do chão e metê-las na boca, apanhei-o e passei-o à mãe mas não disse nada, nem ela, porque não há problema nenhum. 8 ou 80 , ou andam vestidos de marca em ambientes esterilizados e entretidos por electrónica ou andam à solta a apanhar e comer coisas do chão.

Como nas antigas sociedades rurais, a festa anual é a altura de toda a gente “descer à vila” ao mesmo tempo, encontrar-se e falar dos assuntos da comunidade. Eu continuo  sem pertencer bem aos locais nem aos estrangeiros, com amigos e conhecidos dos dois lados e sempre tentando um equilíbrio. Do lado dos hippies ouvi protestos e incitamentos à sabotagem de uma draga que anda a tirar areia da costa. Pessoas que vivem em casas de madeira sem electricidade odeiam que se extraia areia, principalmente porque não precisam de areia e acham, com certa razão, que se toda a gente vivesse em casas de madeira sem electricidade o ambiente global sofria menos. Quanto à sabotagem , não é propriamente a táctica mais eficaz para combater excessos da indústria mas diziam-me que sim, que já o fizeram muito em França e na Alemanha. Perguntei por casos de sucesso além de barulheira e aparecerem na televisão a dizer coisas, mas não foi possível, ninguém se lembrava de um exemplo de sucesso mas certamente que os há. Por azar não foi nenhum em que estes estivessem envolvidos. No caso da draga que aí anda a acção de sabotagem nem sequer foi ponderada  a sério, principalmente porque parte da tripulação da draga é cabo verdiana. As acções variam de gravidade consoante a etnia de quem as pratica, estou sempre a aprender com os hippies.

Também aproveito para lhes moer a cabeça com o Português, eles sabem que eu falo francês e inglês mas com os que cá vivem, ou dizem que cá vivem, falo sempre em Português, pelo menos até ficarmos amigos ou até me cansar da brincadeira e querer mesmo fazer-me entender, o que nem sempre é o caso. Conheci um iatista americano que me foi apresentado como tendo feito 13 travessias do Atlântico e ficou a olhar para mim todo contente à espera de reacção, que foi “ah sim?” com a mesma expressão que teria se me dissesse que gostava de vinho tinto. Mais um cheio de observações condescendentes sobre a ilha, os Açores e Portugal, eu posso ser uma pessoa bastante ácida quando começam com esse género de conversa,  digo muitas vezes cobras e lagartos do meu país mas não gosto nada nem fico quieto ao ver estrangeiros a fazê-lo. Discutia-se o nosso porto.

-Há um espanhol que se calhar conheces, tem uma escuna e vinha cá muitos anos.Ele implorou que em vez da marina pusessem poitas de amarração e um pontão de espera…mas foi isto.

-A sério? Um turista espanhol implorou e nem assim fizeram nada? Mas o que é que ele esperava? Há um projecto, bom ou mau, e ele pensava que se pedisse eles davam-lhe ouvidos?Por ter uma escuna? Por ser estrangeiro?

-Ele tem cá uma casa…

-De férias, não lhe dá voto na matéria.E lembro-me bem desse senhor, no ano em que abriu a marina andou aí a ralhar por todo o lado sobre o preço, disse que ia para a Terceira e nunca mais cá vinha de barco. Eu disse que era estranho ele vir cá anos a fio e ancorar e só porque há uma marina deixa de cá vir. Porque é que não continuou a ancorar descansado sem ligar à marina, já que não faz falta nenhuma?

O homem foi encontrar outra pessoa para partilhar as suas opiniões sobre os nossos defeitos e eu fiquei encostado a um  poste com a minha mini na mão a ver o movimento, satisfeito da vida. O ano passado por esta altura estava a meio caminho entre a Nova Zelândia e as ilhas Fiji, ainda nem por um minuto que seja senti saudade da vida que decidi deixar para trás e já me disseram que “pareço outro” este ano, com mais energia, mais bem disposto, até com melhor postura . A melhor postura deve-se ao yoga, o resto deve-se a ter acabado com a vida de vagabundo.Consumía-me a incerteza do para onde vou e quando vou, consumía-me deixar casa e cão atrás meses a fio, consumiam-me as saudades quando estava fora, foi a melhor coisa que fiz nos últimos anos e pelos vistos nota-se.

No Sábado à tarde convidaram-me para sair no S.Pedro, o segundo bote baleeiro do clube, e nunca é preciso pedir-me  duas vezes. O Presidente da Câmara tinha pedido ao Clube Naval para ter os barcos todos na água nessa tarde, já que nunca o conseguem fazer como devia , que seria todos os Sábados em que o tempo permitisse.Quando cheguei ao porto vi que havia três turistas a quem tinha sido prometido um passeio no bote, só me chateei porque acho que deviam pagar para andar nele. Pediram-me para em vez de ir no bote sair com um Raquero com dois moços, lá andámos um bocado às voltas na baía, disse-lhes que este Verão ainda íamos escolher um dia bom e dar a volta à ilha nesse barco, ficaram entusiasmadíssimos e eu gosto da ideia. O Raquero  navegou ontem depois de um ano parado, sempre que me apetecer agora saio com ele, enquanto espero por desenvolvimentos na política do clube naval. Parece que a demissão do presidente afinal era revogável, estou a ponto de escrever um memorando para o Presidente da Câmara, que tem que ser o árbitro nesta coisa, com a minha visão sobre o clube e as suas perspectivas. Digo a quem me quer ouvir (e é um tema muito falado nestes dias) que estou disposto a integrar uma lista para a direcção e a tomar conta da secção de vela se houver uma pessoa reconhecidamente  capaz, íntegra e organizada  para liderar a lista, e há pelo menos um nessas condições. Sem surpresa nenhuma já se diz por aí que eu quero mandar no clube naval, eu rio-me.

Encheram-se os restaurantes montados em tendas , como todos os anos comi cabrito assado três vezes seguidas, houve um porco assado no espeto que foi fotografado por dezenas de turistas que só vêm coisas dessas nas famosas “feiras medievais”. Parece que já há mais feiras medievais do que havia na Idade Média. Houve um desfile do novo clube motard liderado pelo presidente na sua Suzuki 500 e o meu vizinho que já tem mais de 70 anos numa moto  de três rodas daquelas com uma caixa atrás e que é o seu meio de transporte diário, foi muito engraçado. Participou no “desfile” (descem a avenida, dão a volta à rotunda , sobem a avenida, não passa de 600 metros) uma Kawasaki 1100 que veio… do Corvo, sítio onde é impossível uma moto daquelas passar da terceira velocidade, fartei-me de rir.

Seguiram-se as marchas com  os miúdos das escolas, a única filarmónica que resta  na ilha e uma marcha que veio do Pico, senão me engano. Houve artistas convidados, na sexta foi a Rute Marlene, que não é propriamente um  género musical que eu aprecie mas esteticamente funciona muito bem, especialmente já com uns copos de vinho. Ontem eram os Blind Zero que já é muito mais “a minha praia” mas começaram a tocar à meia noite e eu a essa hora já não estava muito capaz porque tinha passado a tarde toda de tasca em tasca, surpreende-me o número de pessoas que me querem pagar bebidas mas é mesmo assim, já começava a ter certas dificuldades, fui para casa.

Tinham-me pedido colaboração para o desfile de hoje , que previa os barcos todos do clube naval em cima de reboques com os miúdos em cima e queriam que eu fosse com eles no tal Raquero, declinei e lembrei que não fazia bem nenhum ao S.Pedro ter o mastro e as velas levantados e ser carregado com 7 homens para  ser passeado num reboque fora da água. A  ideia de homenagem aos antigos baleeiros é bonita mas primeiro devia-se pensar na saúde do bote e uma coisa dessas esforça-lhe muito a estrutura toda e não se deve fazer. Como se largou a chover não sei se cancelaram o desfile ou não, se parar de chover ainda vou mais logo ver a partida do ferry e ver se ainda sobrou algum cabrito no forno. Para o ano há mais.

Casamento

Este fim de semana tenho um casamento, evento que felizmente não me aparece na agenda há uns bons 10 anos.Por um lado por já ter passado a revoada de matrimónios da minha geração, do meu círculo quem era para casar de cerimónia e grande festa já o fez há muito tempo. Por outro porque passei grande parte do tempo fora do país  e agora é bem claro que ir daqui para o continente para um casamento é improvável. Os dois ou três amigos que mereceriam o esforço, não os vejo de maneira nenhuma a caminhar para lá, os meus sobrinhos estão a décadas dessa possibilidade e o mais velho tem mais juízo do que isso, a ser também não está para breve. Há outra razão, é sabido que fazer-se parte de um casal aumenta em pelo menos 50% a probabilidade de se ser convidado para coisas.

Uma das razões pelas quais me agrada não ter que participar em cerimónias e banquetes é que isso me ia obrigar a comprar roupa apropriada, mesmo que não fosse um fraque nem uma coisa muito cara envolvia sempre peças de roupa que eu só ia usar nesse dia. Se me convidam para uma cerimónia em que toda a gente vai “bem vestida” não me agrada aparecer de calças de ganga e t-shirt. Há ocasiões em que o conformismo me parece ser a atitude certa.

Por isso estou contente pelas características deste casamento no Sábado, em termos de vestuário, basta-me escolher roupa limpa e “recente”  (tenho peças de roupa que visto há 25 anos e no outro dia reparei num par de meias remendado pela minha avó, que já morreu há quase 20)  e estou à vontade. Nem o casamento envolve igrejas nem os convidados são pessoas de formalidades e toilettes vistosas e caras. Também a minha prenda, duas caixas de Ovelha Negra que vão ser consumidas ali, vai ser adequada. Ainda pensei em oferecer uma ovelha mesmo  mas isso já era mais generosidade do que me é possível  ter nesta altura.

Os noivos são franceses, ela mora cá há muitos anos , já cá teve duas filhas , em casa (as últimas crianças nascidas nesta ilha) e tem muitos amigos entre os naturais e os estrangeiros.Ele mora cá há menos tempo e é o pai da filha mais pequena, são 4 filhos ao todo. Não é uma família tradicional nem convencional mas é das mais bonitas que conheço e das que “funciona” melhor, e eu passo algum  tempo com eles, somos bastante amigos. Já conhecia os dois últimos companheiros da C, este  é uma melhoria vastíssima e espero bem que,como tudo indica, a sequência esteja encerrada.  Ainda não percebi muito bem quais as razões que os levam a querer formalizar a união  perante o Estado português, deve ter a ver com as crianças e os impostos, não me interessam os detalhes mas sei que os solteiros têm desvantagens quando toca a lidar com o Estado e os bancos e de qualquer maneira é sempre uma bela razão para uma festa.

 

Carry On

Resultados algo  inesperados nas eleições no Reino Unido, os conservadores perderam a maioria parlamentar que há quinze dias pareciam favas contadas. Se por um lado  o Jeremy Corbyn perdeu as eleições, por outro (a sua interpretação) ganhou-as, é um fenómeno nosso conhecido . Ontem à noite muitos por cá sugeriam já uma contraption, geringonça em inglês,  pelos vistos uma criação  recomendável . Hoje sabe-se que não há  geringonça porque o partido mais votado vai mesmo formar governo, com o apoio do Unionistas da Irlanda do Norte, cuja principal política nesta altura é manter fora do governo um homem que era amigo do IRA .

Não estou nem satisfeito nem desapontado com o resultado, no que diz respeito à eEuropa a opção estava tomada desde o Brexit e mesmo que o Corbyn tivesse ganho e desatado a nacionalizar parte da economia, a aumentar os impostos, a construir uma mesquita transgénero orgânica em cada paróquia e a prometer educação e saúde gratuita a todos os povos oprimidos  do Mundo os britânicos iam lidar com isso. Há sempre perdedores.

Esta foto mostra várias coisas que eu admiro na Grã Bretanha : eleições livres às quais qualquer cidadão pode concorrer e  contacto obrigatório dos deputados com os seus constituintes ( Theresa May é a da esquerda, tem que ir ao seu “concelho” no dia das eleições primeira ministra ou não) . E depois admiro a capacidade ímpar que têm de se  rirem deles próprios e de lidar com o ridículo.

democracy

Um candidato foi vestido de Elmo ( à esquerda) , o senhor de branco é o presidente do Monster Raving Loony Party , e a figura do meio é um independente que concorreu com o nome de Lord Buckethead.

A Inglaterra  e o resto da Grã Bretanha, estão muito diferentes  do país um tanto idealizado que me atraía já em pequeno e que continuei a admirar  depois de 20 anos a conviver e  trabalhar para e com britânicos, a passar lá bastante tempo e a ter feito belas amizades. Não tenho palpites sobre o futuro do Reino Unido mas sei que têm uma lista de problemas enorme sendo o maior a negociação do Brexit e outro o terrorismo , misturado com a questão da imigração, e num cenário em que, dizem especialistas que já se enganaram antes, o crescimento económico vai sofrer,logo, menos dinheiro, logo , todos os problemas se agravam.

Nunca fui grande adepto do multiculturalismo, acho que há questões de identidade importantes que não podem ser descartadas e que de qualquer maneira o multiculturalismo não se faz de imposições,  quotas, benefícios e intenções, faz-se do respeito e convivência fazendo toda a gente cumprir um lote de regras comuns e dando a todos o direito de manter e desenvolver partes da sua cultura que não estejam em conflito com a lei e os direitos alheios. Parece-me uma definição simples, a coisa emperra  quando se pensa que o multiculturalismo deve ser promovido como objectivo em si, sou contra isso.

Para outros anglófilos deixo aqui algo que encontrei há pouco e me tem entretido muito, um canal do youtube com clips de um programa da BBC chamado QI , Quite Interesting, apresentado pelo Stephen Fry que tinha um painel de comediantes convidados e era tipo concurso, perguntas por pontos. Tal como a foto em cima, o programa é outro pedaço de bristishness concentrado: clássico e ridículo, sofisticado e pateta, fleumático e bem disposto, culto e disparatado, nostálgico e progressivo.

Invocação e Ascensão, sem comentários

Encontrei duas coisas que fizeram rir bastante, comecei a escrever mas ao fim de duas páginas  fui ler e pensei “que seca, sempre a mesma coisa” , pelo que hoje partilho aqui só  duas informações :

No dia 9 deste mês , com a Lua cheia em Gémeos , observa-se o Dia Mundial da Invocação ,  ” um dia mundial de oração e meditação em que homens e mulheres de todos os caminhos espirituais se juntam num apelo universal à divindade e usam a Grande Invocação . Juntos eles focam a prece invocativa da humanidade por luz,amor e direcção espiritual necessária para construir um mundo de justiça, unidade e paz.”  Os principais centros do evento, que começou em 1952, são Londres, Genebra e Nova Iorque, mas há encontros por todo o Mundo.

A segunda é que está à venda por 13,78€ na wook o livro  “Como dar Aulas de Ascensão” ,

Nesse link não aparece mas na capa da versão pdf figura , entre outras, a Senhora da Fátima.

Pronto, era só isto.

25/4 e o resto

Fiquei sem internet em casa há cinco  dias, a banda larga portátil deixou de trabalhar, estas coisas não são feitas para durar.Disseram-me que substituíam se estivesse na garantia ou me vendiam uma nova, talvez até me dessem uma lá com o esquema dos pontos. Tudo muito bom e muito eficiente só que ir a uma loja Vodafone, só de avião.Tratando de tudo pelo correio  é processo para mais de quinze dias. Insularidade.

Não me transtorna muito e até me faz recuperar horas normalmente gastas a procrastinar e a  pastar em frente ao écran, consumindo tempo com coisas que  podem entreter mas não adiantam grande coisa à vida de uma pessoa nem contribuem para o avanço da causa.

As notícias  mais importantes  encontram-se  facilmente, das eleições francesas só vi um parágrafo, a confirmar Macron/Le Pen na segunda volta, fiquei satisfeito. No dia seguinte ouvi uma declaração na rádio que me pareceu extraordinária. Um ex embaixador chamado Seixas da Costa comentava, com a sua vasta experiência de Paris e da politica, o resultado das eleições.Falava sobre os passos e politicas que Macron ia adoptar, as pessoas que ia convidar, quais vão as suas prioridades e eu pasmei,o senhor ex –embaixador, democrata da velha cepa, dá de tal maneira por certo o resultado que falava como se nem valesse a pena ir a votos  numa segunda volta. Pareceu-me incrível, quanto mais não seja por respeito pelo voto. Não há falta de declarações deste género, até livros escritos, sobre a Presidente Clinton por exemplo, e correu como sabemos, muito devido à  fúria contra uma classe política que está tão habituada a ter tudo sob controle e tem tanta confiança no sistema que neste caso dá a vitória de Macron como um dado adquirido.

Há estudos que demonstram a viabilidade de determinar o resultado da vontade popular sem as pessoas terem sequer que ir votar, governando por, digamos assim, sondagens. Aplicando análise estatística a uma amostra válida da população pode-se inferir a vontade do todo, e agir em conformidade. Não tenho opinião sobre isto, mas tenho opiniões bastante fortes sobre a necessidade de haver sufrágio universal  regular e limpo, as eleições não podem ser só uma formalidade e o resultado delas pode determinar o futuro de um país, logo, menorizá-las como um detalhe ou desrespeitá-las descartando publicamente a hipótese de Le Pen ganhar, é mau. Prognósticos, ao contrário do que defendia o grande lateral direito do FCP João Pinto, têm que  fazer-se antes do jogo, mas o embaixador  estava  a comentar a goleada e implicações de um jogo que ainda não aconteceu, às vezes corre mal.Além do  mais a equipa do Seixas da Costa foi humilhada mas isso não o impediu de se congratular com o resultado.

O 25 de Abril passou-me quase despercebido,o meu vizinho belga perguntou-me se eu queria ver  “o filme do 25 de Abril”, declinei , mais por falta de interesse no cinema em geral e sobretudo na realizadora, que se não a estou a confundir foi uma senhora que subiu na vida  até chegar a ser deputada, pelo PS. O meu vizinho ficou surpreendido ao saber que a deputada Medeiros vive em Paris e lá viveu todo o tempo que foi deputada.Cada um deve viver onde se dá melhor, mas se somos Deputados da República não é pedir muito que se resida na mesma, mas a ela parecia-lhe natural, são pessoas que vivem em mundos muitos diferentes. O filme sobre a revolução até pode ser muito bom e bonito mas  não tenho paciência para uma visão romantizada dos acontecimentos pela lente e perspectiva  de uma artista portuguesa da rive gauche.

 Vimos em vez disso um documentário francês,sou mais de documentários do que de filmes. O meu amigo belga é esquerdista  e como me conhece como visceralmente anti-comunista pensava que eu de alguma maneira era “contra o 25 de Abril”, ou que o lamentava ou que  me era indiferente.

Longe disso. Tinha um ano em 74 , não tenho memórias pessoais  mas cresci e vivi a evolução, sou observador atento e curioso da História e da Politica,só posso ter respeito e agradecimento. Até ver ,tenho por garantido o meu direito a dizer e escrever o que penso, falar e associar-me com quem quero, ler os livros que quero e ir e vir quando quero, dou muito valor a essas coisas, e tenho a impressão de que  que tal como vieram numa madrugada de Abril podem ir noutra madrugada qualquer.

É difícil, não é impensável nem impossível. Há centenas de milhões de pessoas no mundo que não têm esses direitos, há pessoas a trabalhar activamente contra esses direitos onde eles existem  e uma catástrofe natural ou humana pode criar condições para que desapareçam.  Acredito que nenhum país pode ter paz e prosperidade se os cidadãos não tiverem essas liberdades, nós devemo-las ao MFA e ao golpe de Estado do 25 de Abril, há que honrar a data e os protagonistas . O meu amigo ficou surpreendido quando lhe disse (e como fomos vendo no documentário)  que os comunistas não fizeram  revolução nenhuma, conseguiram sim mobilizar-se mais prontamente e já tinham os manuais todos sobre o discurso de revolução, a tomada do poder e o seu projecto de sociedade.Havia certamente comunistas no MFA, mas os objectivos não eram instalar a ditadura do proletariado como sonha o PCP, eram democratizar, desenvolver, descolonizar. Cumpriu-se.

Além de voltarmos a ter liberdades fundamentais, há outro aspecto do 25 de Abril me  dá orgulho no meu país : derrubou-se um regime opressivo com quase 50 anos e democratizou-se o país sem uma guerra civil que teria sido terrível. Quando vemos as histórias de golpes de estado e revoluções pelo mundo percebemos que somos um caso muito raro em que se trouxe a mudança sem derramar sangue,isso não tem preço.

Muitos não vivem bem com a memória da  revolução, desde pessoas que perderam e deixaram tudo em Africa, e foram muitas, a pessoas que simplesmente são de direita dura e estavam confortáveis, material e intelectualmente, na ditadura. Muitos outros vão olhar sempre para o passado com nostalgia simplesmente porque eram novos na altura. Podia ter sido diferente, claro, tudo podia sempre ter sido diferente, melhor, mais justo, mas “foi o que se pode arranjar” e para mim foi bastante bom.

Não vejo a Liberdade em perigo em Portugal, podem faltar-nos muitas coisas e podemos  ter problemas sérios  mas enquanto as pessoas forem livres de pensar, discutir, aprender, questionar, organizar-se  e propor , e se de tempos a tempos se puder mudar de governo, há uma esperança de que se consiga o resto.