Natureza Pura o caraças

Tirei esta  foto  ontem, a uns 500 metros de minha casa, não é um caminho que faça muitas vezes mas calhou porque fui buscar a filha de uns amigos à escola, viemos a pé por aí acima e aproveitei , já queria uma foto dessa ponte há anos mas nunca passo a pé nessa estrada e não sou  de me deslocar por uma fotografia.

Publiquei-a no Instagram , onde tenho uma conta cheia de ovelhas e cães e algumas, poucas, fotos de cantos bonitos da ilha, geralmente com algum cão ou alguma ovelha a compôr o enquadramento, e volta e meia, no verão, os botes baleeiros. Os meus interesses estéticos.

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Uma amiga comentou “que lindo, a natureza pura!” e eu, que estou muito melhor do que já fui mas ainda assim tenho dificuldades em estar tão calado como seria recomendável e sociável, aproveitei logo a ocasião para explicar que  pouco nesta foto é natural e ainda menos puro.

É uma das minhas irritações de estimação, esta mania de aplicar o rótulo “Natureza Pura” à paisagem açoriana, e à força de repetições  exaustivas e de falta de originalidade,  criatividade e esforço, tornou-se o slogan dos Açores e as pessoas, como a minha amiga que comentou com o cliché por reflexo, ouvem ou vêm “Açores” e é como a campaínha  do cão do Pavlov, não começam a salivar mas dizem “natureza pura!”.

Por definição, o que é natural é o que não é feito nem modificado pelo homem, o que não tem artifíciocomposição ou mistura. 

Acho que isto não é complicado de entender nem controverso, mas às  vezes são as coisas mais simples que causam os maiores mal entendidos. Olhem lá para essa foto outra vez. Há os postes e fios da electricidade, a ponte, duas casas, o caminho e um campo cultivado num socalco. Nem vou entrar no tipo de vegetação, porque para muita gente moderna basta ser uma erva para ser natural, dou isso de barato. Essa foto não mostra nenhuma natureza pura, mostra uma paisagem modificada pelo Homem, e a maior parte da paisagem Açoriana,  que poucos apreciam mais do eu, é assim.

É preciso ser um bocadinho ignorante ou não ligar muito ao significado das palavras para não perceber , assim que se aterra ou aporta em qualquer  das ilhas, que o que vemos não é o trabalho da Natureza, o que vemos, depois de 500 e tal anos de ocupação humana, é uma paisagem moldada e criada pelos esforços do Homem.  Alguém pode descrever os prados da Terceira como naturais, quando levou séculos a desmatar, limpar a pedra, nivelar a terra, bordejar os talhões, semear e cuidar a relva? É isso um prado natural? No Corvo há uma paisagem natural, o Caldeirão, de resto não há em toda a ilha um metro quadrado que não tenha sido modificado pelo Homem. Aqui passa-se quase o mesmo, mas ainda assim , como é uma ilha muito montanhosa, mantém muitas partes que por inacessíveis e improdutivas nunca foram alvo de acção humana, é verdade, mas são poucas. E a maior parte das vezes basta desviarmos ligeiramente o olhar de determinado ponto de extraordinária beleza natural e vimos logo a acção do Homem.

Pode tirar-se esta esta foto (não é minha) deste sítio magnífico porque se fez um caminho  de pedra até lá e se cortaram árvores. A mata que se vê do lado esquerdo é de incensos, ou Pittosporum undulatum, planta originária da Austrália que não chegou aqui por meios naturais nem por obra e graça do espírito santo.

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Por todo o lado vejo pessoas deslumbradas a rotular de beleza natural as infindáveis sebes de hortênsias que nos bordejam as estradas ou as matas de criptomérias , como se as hortênsias tivessem crescido espontâneamente em filas ao longo das estradas ou a separar as terras ou a criptoméria fosse uma espécie endémica.

Se não fossem 500 anos de ocupação e labor humano, se não fosse a agricultura em todas as suas formas, se não fossem as importações, voluntárias ou involuntárias, de espécies vegetais e animais, se não fossem os esforços hercúleos de gerações a modificar constantemente a paisagem, todas as ilhas seriam muito diferentes, nem que fosse no tipo de vegetação.

Só há natureza pura em sítios onde o Homem não passou, ou passou muito ao de leve.  Já são muito poucos no Mundo, e o Arquipélago dos Açores não é um deles. Por isso visitem, sobretudo visitem o Grupo Central e Oriental , apreciem e deslumbrem-se com as belezas destas ilhas, que não faltam, mas não lhe chamem Natureza Pura.  Ou chamem, isto é só mais uma coisa que me irrita mas que no fundo não interessa nada.

O Estado quer saber de ti.

Tenho um velho amigo com uma paixão pelo vinho, começou por ser só apreciador mas aos poucos e poucos tornou-se produtor. Começando com uma pequena vinha e adega antiga da família, que recuperou, adquiriu mais vinhas, renovou a adega, alistou os serviços de um enólogo, deu um nome à produção e tem contado com os muitos amigos com que é abençoado na altura das podas, vindimas e dos trabalhos do lagar.

A vinha era como um passatempo, um pretexto para juntar amigos e apreciar vinho, que como todas as outras coisas, tem um sabor especial  se é feito por nós. O vinho é  presença certa em todas as jantaradas e patuscadas , felizmente frequentes, e um presente apreciado para amigos e conhecidos.

Anteontem falei com ele ao telefone, comprou há pouco outra vinha e está a planear a comercialização. Não lhe dei novidade nenhuma quando lhe recomendei com todas as forças que antes de investir seja o que for nesse sentido se certifique  bem de todas as exigências que lhe vão fazer e dos encargos em que vai incorrer, porque neste país para cada três pessoas que trabalham deve haver uma cuja função é fazer as regras , fiscalizar e cobrar esse mesmo trabalho.

É perfeitamente possível que , contas feitas, o meu amigo ganhe  mais em continuar a fazer o seu vinho para si e a sua família e amigos do que investir e trabalhar mais para o poder vender, enredando-se numa teia de regulamentos, burocracia, taxas e impostos que lhe vão consumir tempo e recursos e assegurar que quando fizer as contas ao fim do ano conclua que mais lhe valia estar quieto, há custos que não se traduzem em números nem quantias mas não é por isso que são menos importantes.

Isto a propósito de uma informação que recebi hoje e que me deixou literalmente estupefacto, e para me espantar em Portugal é preciso muito, por exemplo esta rábula do Berardo não me surpreendeu em nada. Nem em método, nem em protagonistas, nem em resultados nem em reacções e muito menos em consequências.

Como já contei aqui, agora trato de uma unidade de Alojamento Local, perfeitamente legalizada, tal como o meu trabalho . Hoje à conversa com um amigo que tem uma dessas unidades ele pergunta-me:

-Preenches os papéis do SEF?

-SEF? Não, ninguém me falou disso, não sei nada.

-É obrigatório, tens que guardar cópia da identificação dos hóspedes, preencher um impresso para cada um e introuduzir os dados no sistema deles.

-A sério? Deve ser só para os extra comunitários…

-Olha que não…

Fui confirmar com outros amigos, que estão a entrar em desespero com as exigências burocráticas e fiscais  que se amontoam e lhes consomem horas, e é verdade, mas não se fica por aí.  O Estado, depois de desenhar arbitrariamente regras para permitir a instalação de um negócio, tantas vezes regras  idiotas como a exigência de uma televisão; depois de subir as taxas até ao máximo; além de querer saber quem são os  clientes e guardar os seus dados,  exige que nós mesmos introduzamos esses dados no seu sistema informático e declaremos regularmente e detalhadamente a frequência e rendimentos do nosso estabelecimento. Quando, a quem e por quanto. Todos os clientes , nacionais, europeus ou não europeus.

Ora, eu sou liberal mas não sou  libertário  nem acredito na desregulação absoluta, acredito na necessidade de  regras e na inevitabilidade e utilidade dos impostos mas isto ultrapassa os meus limites do que é aceitável, porque da última vez que verifiquei existia livre circulação de pessoas e bens no espaço da União Europeia e um cidadão tem direito à sua privacidade. Dizem-me agora que o Estado exige saber e registar quem viaja, onde fica e a que preço, é demais.

Se estes selvagens continuarem no poder, que é o mais provável, dentro em breve vamos ter que introduzir no Grande Irmão os recibos de todas as nossas despesas, submeter o itinerário das nossas deslocações e declarar todos os nossos consumos. Devem acompanhar isto com questionários sobre as nossas preferências e hábitos, que de resto os algoritmos já devem ser capazes de fazer pelo nosso uso de smartphones, cartões bancários e redes sociais , e assim poder assegurar a Sociedade Harmoniosa, como de resto já se faz na China, onde ao cidadão é atribuído um “score social” , recolhido pelos métodos de sempre do socialismo e no fascismo : vigias e informadores, que hoje são electrónicos, incansáveis e abrangentes. Já chegámos às portas da distopia totalitarista, e eu só reparei no ponto a que se tinha chegado quando me bateu à porta e me foi  exigido que participe.

O nosso governo actual regala-se com a criação de Comissões, Observatórios, Secretarias, Direcções Gerais e Autoridades, onde se acolhem e trabalham aqueles cuja vocação e função é controlar, fiscalizar e condicionar.   George Orwell devia ser leitura obrigatória nas escolas, se o objectivo fosse educar e não replicar e aceitar.

Como disse, não fazia ideia desta exigência aos ALs, que faz lembrar os métodos das ditaduras, mesmo a quem como eu nunca viveu sob uma. Vou informar a minha patroa, que creio também não ter conhecimento disto e creio que vai ter um choque. Vou-lhe dizer duas coisas, a primeira é que tenho vergonha de pedir a identificação aos hóspedes e de lhes explicar a razão, a segunda é que essa tarefa suja não estava prevista no nosso acordo de trabalho e para pedir e processar esses dados, para  fazer o trabalho nojento do Estado, que me custa em tempo e dignidade, vai ter que me pagar mais, lamento.

Não fora a necessidade do dinheiro e dizia-lhe que não contasse comigo, mais depressa ia lavar as retretes do que ser o sabujo que regista e comunica ao Estado quem vem e quem vai. Vai-me custar tremendamente a primeira vez que tiver que pedir a identificação e explicar a razão por que o faço, há coisas em que o Estado nos agride materialmente, como com a cobrança coerciva dos impostos que sustentam a Casta, mas isto é uma “agressão filosófica”, uma agressão aos meus princípios e aos princípio de toda a gente que acarinha Liberdade e Privacidade . Ainda nem estou bem em mim.

O facto de para a maioria das pessoas isto ser uma questão trivial é uma das razões pelas quais chegámos aqui.

 

 

Turistos

Uma das minhas amigas e vizinhas é alemã , já cá vive há quase 20 anos e fala bem português mas ainda tem problemas com os géneros dos substantivos e alegra-me sempre os dias quando me fala dos ovelhos ou dos turistos, e eu não só não a corrijo como agora também digo turisto, estou a combater a ideologia de género.

As pessoas que gerem  ALs  devem ter  histórias engraçadas/estúpidas/irritantes  às toneladas mas eu comecei agora e acho que vou iniciar um registo dos cromos.

Acabo de receber uma confirmação de uma reserva da California , em inglês : ” olá, estamos muito entusiasmados por visitar a ilha e a vossa casa! O meu namorado fala português caso seja necessário para comunicação” .Gostava de lhe responder, em português: “Olá E. , também estamos entusiasmados por vos receber aqui! Ainda bem que o teu namorado fala português, deve ser um português impecável e calha muito  bem porque aqui ninguém fala inglês,  é um dos problemas que temos, e costumamos comunicar  com os hóspedes por sinais,  desenhos e livros de frases, pelo que um hóspede que fala português vai ser uma mudança muito positiva! Sendo assim toda a comunicação daqui para a frente será feita em português, para facilitar. Cumprimentos e até breve!

Claro que não vai ser nada disso, vou ser muito cortês e simpático, e eu sei que só pensar isto faz de mim uma má pessoa mas não consigo evitar. Ainda me vou rir muito com os turistos este ano.

Hoje temos temporal,  creio ser alerta laranja, mas já deixei de acompanhar os alertas coloridos. O problema maior agora é que continuo sem carro e sem data à vista para o voltar a ter, desloco-me numa scooter alugada, que se torna muito inconveniente quando chove ou quando tenho que transportar alguma coisa. Tenho coisas suspensas por isso, tenho terras que preciso de mondar e não tenho como lá levar a roçadora, ovelhas para mudar de sítio e não podem vir em cima da scooter, ração a acabar e tenho que pedir a amigos para ma irem buscar à Associação, isto já para não falar do frio que se rapa . Há 30 anos uma scooter daquelas tinha feito a minha felicidade terrena, hoje é uma incoveniência e uma chatice ter que andar numa, é assim.

Quem também sofre são os cães, principalmenter a Bruma que andava comigo no carro para todo o lado e agora tem que ficar amarrada quando saio, claro que não fica contente nem é bom para ela. O Rofe já estava mais ou menos habituado e tem um “posto” mais confortável que lhe permite entrar em casa e deitar-se num sofá mesmo com o seu cabo de amarração ao pescoço.

Depois de um mês encontrei um mecânico com tempo e um lugar na agenda para me começar a mexer no carro, pelo menos é um avaanço mesmo que entre diagnósticos, encomenda de peças e montagem ainda vão ser semanas. Se puserem um anúncio a dizer “precisa-se de licenciado em ciências da comunicação para a ilha das Flores” se calhar recebem 20 propostas; se procurarem um mecânico qualificado, que faz realmente falta , tinha trabalho com fartura e era bem pago, não aparecxe ninguém.

Tive uma “mini discussão” no twitter com um activista das bicicletas que defendia que a gasolina não é um bem essencial. É pessoal que não faz a mínima ideia do que é a vida e o trabalho no meio rural e pensa que toda a gente pode andar de bicicleta ou transportes públicos. Ficou intrigado quando lhe disse que só o facto de ele falar no estacionamento como um problema mostrava bem que só sabe , e só quer saber, do que se passa nas cidades. São pessoas assim que acabam a legislar e regular, eu gostava de ver aqui o ciclista a subir ladeiras com um saco de ração às costas ou fazer 15 kms à chuva para ir ver animais. Acham que usar automóvel é uma escolha, e até é, é a escolha entre a conveniência e o trabalho prático ou viver como há 150 anos, a pé ou de burro com cargas às costas debaixo de chuva e sol. Dantes é que era puro.

Outra quebra mecânica, a máquina de lavar roupa finalmente cedeu depois de  3 anos de luta contra a humidade reinante que me fazia , no inverno, ter  que estar 5 minutos com um secador de cabelo a secar a placa electrónica antes de a pôr a lavar. Aqui há 15 dias deu três saltos, um estoiro e parou, fui saber de uma possível reparação e decidi deixar de ter máquina de lavar. Felizmente o ano passado abriu no porto uma lavandaria automática que lava 10ks de roupa por 4 €, detergentes incluídos, aberta dia e noite. Fiz as contas e compensa-me mais passar a usar a lavandaria do que reparar ou comprar uma máquina, menos um electrodoméstico a ocupar espaço e consumir electricidade em casa, vou transformar a casota que tinha contruído para a máquina em “paiol” de ferramentas e outras tralhas e passo a ir lavar roupa ao porto de 15 em 15 dias. Sim, 10kgs de roupa de 15 em 15 dias, não me julguem. Ou julguem, dá no mesmo.

Tenho um trabalho novo , graças ao governo  capitalismo global e às regras da UE que permitiram  a uma alemã comprar aqui uma propriedade , recuperá-la e explorá-la em AL. Claro que o governo também faz a sua parte,  afogando a actividade em burocracia tão sensata como a obrigatoriedade de ter uma televisão e um microondas e subindo as taxas tentando chegar àquele ponto em que fazer esse investimento e ter esse trabalho é só marginalmente lucrativo, há que sustentar a casta e sabemos que o lucro é imoral.

Já me ocupava dos jardins dessa propriedade, agora trato também de todo o resto, menos das limpezas. Para quem tem uma espécie de trauma de infância com os turistas é um desenvolvimento interessante, não me vai resolver os meus problemas mas é uma ajuda e não me custa muito, é mesmo ao pé de minha casa e ocupa-me muito menos tempo que o jardim. Já tive muitos  “avisos” e ofertas de ajuda dos meus amigos que já trabalham nisso, incluindo o que desistiu e que eu vou substituir, porque a proprietária é “esquisita” e “difícil”. Agradeci e tal mas lembrei que já trabalho para ela há um ano e nunca tive o mínimo problema, por duas razões.

Primeira, pedi-lhe antes de começar que me explicasse claramente o que é que queria de mim e como queria que eu mantivesse a propriedade. Com isso na mão, basta fazer como ela  quer e não há ocasião para atritos,  já que  ela paga a horas e sem falta. Negociações laborais simples, o truque é evitar ambiguidades e intermediários e aceitar essa proposição tão controversa para muita gente : quem paga, manda .

Segundo, ela é professora universitária e consultora de empresas gigantes e isso ou intimidou  ou causou  uns certos complexos de inferioridade nas relações com os antigos empregados, algumas falhas de comunicação  e o inevitável choque cultural e frustrações de quem vem para aqui fazer negócios vindo de um ambiente muito diferente. Eu navego bem nessas àguas, faço-me sempre entender e entendo bem e depois tenho outra perícia importante neste trabalho, como já me ajudou o ano passado quando fui empregado de mesa : sou capaz de ser simpático, ouvir e mostrar interesse mesmo quando não me interessa nada ouvir .

Um amigo recomendou-me que passe pelo menos meia hora a falar com os hóspedes sobre a ilha, eu disse-lhe que se calhar o método dele mostra que ele gosta muito de se ouvir e parte do princípio que os turistas estão interessados em levar uma seca do porteiro, que é o que somos no fundo.  Alguns estão , outros não, e acho  melhor perguntar se têm alguma questão e se podemos ajudar nalguma coisa do que passar meia hora a oferecer respostas e indicações não solicitadas e aceites por cortesia, porque nem toda a gente é como eu , capaz de interromper uma pessoa e dizer “ok ,ok , eu se precisar de mais alguma coisa logo digo” .

Amanhã recebo os primeiros, os apartamentos estão quase todos cheios até Outubro e estou plenamente convencido de que vai ser um Verão ainda mais complicado que o passado porque o Governo continua a gastar cenenas de milhar em propaganda e subsídios para atrair cá turistas mas a SATA não é elástica , não se compraram mais aviões nem contratou mais gente (se calhar porque o prejuízo da companhia o ano passado ficou nos 53 milhões ) Tal como o ano passado, não há capacaidade para mover toda esta gente e aposto o que queiserem que centenas de residentes vão ter as suas deslocações muito limitadas para haver lugar para os turistas. Isto contribui para irritação dos locais com os turistas e para mais prejuízos para a SATA o contribuinte , porque há que compensar todos, turistas e locais, pelos inevitáveis atrasos e cancelamentos.

Tenho opiniões muito fortes sobre a estratégia para o turismo que está a ser seguida pelos Açores, cujos problemas começam no facto de os decisores lidarem com dinheiro que não é deles e nunca serem responsabilizados por resultados. Esta foto foi tirada na semana passada em S.Miguel, ilha que eu já considero perdida para aquele ideal que continuam a tentar vender. Décadas a mentir dizendo que não queriam turismo de massas nos Açores e depois promovem coisas destas e festejam a ver isto.

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PS:  Perante esta última rábula vergonhosa do PSD, PCP, BE, PS e CDS a propósito do tempo de serviço do professores:   pessoas que seguem a política, gostam de se manter informadas, gostam de pensar nas coisas e não são radicais só têm duas opções de voto nas próximas eleições :  Iniciativa Liberal ou Livre , consoante o lado para o qual se inclinem mais. Continuar a votar nos partidos tradicionais do regime é um absurdo, é acreditar nas mentiras e manobras todas e pactuar com elas, é contribuir para a continuidade de tudo aquilo de que nos queixamos.

Semana do Mar & Turismo

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A Semana do Mar já começou , há nestes dias na Horta mais actividades do que é possível uma pessoa ver ou participar, incluindo dezenas de concertos de musica ao vivo e outros eventos, do lado do mar há dezenas de provas numa variedade enorme de modalidades. Só me interessam duas coisas, a regata de botes baleeiros  no Sábado, na qual vou levar o bote  S.Pedro, e os barcos para o Pico para onde espero ir assim que puder.  Quanto à preparação para a regata, está tudo dito aí mais atrás. Se não ficar em último já não fico triste e  se ficar em último não é  vergonha nenhuma. Chama-se Regata da Casa do Pessoal da RTP pelo que suponho que  parte dela vá ser transmitida pela RTP Açores, quem tem curiosidade pode tentar ver, começa às duas da tarde de Sábado, 15:00 no continente.

Não conheço a ilha do Faial toda mas quase, e estou fartinho da Horta, em condições normais não é uma cidade que me encante, se lhe juntarmos a multidão que para lá vai andar nestes dias, pior. Por isso assim que estiver feito o trabalho relativo aos botes e a menos que aconteça algum imprevisto (há que guardar sempre espaço para imprevistos) , passo o canal para o Pico, onde nunca estive e que estou há tempo demais para conhecer. Tenho lá um amigo novo e outro mais antigo  e tenho sítios e coisas que quero ver.

Vamos uma semana para competir uma tarde, vamos ter muito tempo livre por causa dos turistas. Tinha escrito uma página inteira a dizer mal dos turistas ressalvando que esta ilha precisa muito deles para não acabarmos todos funcionários públicos, eu em particular preciso deles para lhes vender cerveja artesanal, por isso são uma coisa a tolerar e acolher nem que seja de sorriso amarelo, mas mais uma vez encravam-nos a vida e estorvam-nos.  Parte das tripulações foi na segunda de madrugada com os botes no navio de passageiros, o resto era para ir na Sexta mas estava tudo em lista de espera e nada nos garantia estar na Horta no Sábado, pelo que mudei os bilhetes para amanhã, quando nos podiam confirmar a viagem. Pouco a pouco começo a tomar iniciativas e responsabilidades, mais do que gostaria mas há coisas em que ou sou eu ou não é ninguém . Para o regresso estamos à mesma em lista de espera, possivelmente até quarta feira, e uma semana fora não é fácil, especialmente para quem não quer , não precisava nem planeava gastar dinheiro com umas férias. Enquanto durarem as provas náuticas somos acolhidos e alimentados pelo Clube Naval da Horta mas a festa acaba no Domingo e não é legítimo esperar que nos sustentem até Quarta, alguma despesa vai sempre acontecer.

Os voos estão repletos, o pessoal da SATA aqui é cinco estrelas mas andam a  aturar muito problema e reclamação, não pára a enchente de turistas e há viagens canceladas e atrasadas constantemente, no Sábado passado foram os Xutos que vinham cá tocar mas tiveram que voltar para trás, o pessoal não gosta dessas coisas.  Parece que pariu aqui a galega e esta história dos voos todos cheios é um bocado má, agora no nosso caso concreto é uma  viagem “desportiva” mas aqui na ilha já há muitas pessoas com dificuldades em comparecer a consultas médicas e exames , e isso é muito mais sério. Caso não saibam , daqui ao médico especialista vai-se de avião, tal como para análises e exames, e no meu entender seriam os turistas a ficar em lista de espera sempre que houvesse um residente  a querer ou precisar de viajar.

É um tema muito falado na imprensa e um debate actual, muita gente pensa que o turismo está descontrolado e em níveis exagerados, principalmente as pessoas que não beneficiam directamente do turismo  e os que se pelam por taxar e controlar tudo o que mexa. Eu cresci numa casa de Turismo de Habitação, das primeiras do país, e o dia em que os meus pais a decidiram vender foi dos mais felizes da minha vida, quase que me traumatizaram uns 20 anos de estranhos e entrarem-me pela casa dentro. Dada a loucura da procura aqui um amigo propôs-me no outro dia ir ficar com ele e alugar a minha casa , parece que a  minha reacção foi como se me tivesse proposto comprar-me o cão . Tolero os turistas mas há limites e a minha propriedade está para lá desses limites.

Mesmo que não contasse lucrar com o turismo  vendendo  a cerveja artesanal, nunca seria completamente contra porque compreendo o valor que trazem à economia toda . Além do mais todos nos devíamos sentir elogiados e orgulhosos por tantos estrangeiros quererem vir visitar e apreciar a nossa terra. Vejo que o Bloco e o PC estão muito preocupados, mas eles ficam sempre preocupados por ver pessoas a ganhar dinheiro com as suas propriedades e o seu engenho sem terem que se sindicalizar ou dar metade ao Estado e inventam logo oito problemas laterais para animar a rapaziada, passando se for preciso por cima de  contradições engraçadas como : cinco mil somalis desempregados para sustentar, bom , cinco mil ingleses para gastar dinheiro, mau. Entretêm-se com questões de lana caprina como a distinção entre turismo e turistificação mas no fundo  o que os apoquenta é haver gente a ganhar dinheiro sem sofrer carga fiscal e regulamentação adequada.Como de costume, têm  uma imagem ideal do turismo como o aceitam, o que ande fora disso tem que ser combatido e vão lutar para adaptar a realidade à sua ideia e não o contrário.

Por aqui só vejo benefícios (não obstante a impreparação da SATA) e estou preparado para perder algum do meu  sossego  e tranquilidade , que para muitas pessoas é pasmaceira desértica. Duvido de que apareçam  construções tipo Algarve, as estradas são as que há, o aeroporto não pode crescer e há aí muito mato e muitos trilhos para o pessoal andar com espaço bastante.Os turistas que para aqui vêem não largam lixo nem andam bêbados em público, não há barulho e em geral têm uma atitude muito respeitosa, de apreciação e paciência . Espero ver mais empregos, mais trabalho, mais actividades, mais ofertas, mais serviços. Idealmente apareceria uma “mini easyjet” privada com meia dúzia de avionetas para fazer voos inter ilhas, concorrer com a SATA e dar mais uso aos aeroportos do arquipélago.

Não duvido de que vai haver muito em breve quem se queixe também aqui dos turistas, mas o Verão está a acabar, daqui a dois meses já quase ninguém vem para aqui e o turismo volta a ser um problema exclusivo dos lisboetas e dos jornalistas.

 

PS: Já tinha escrito e publicado isto quando vi no twitter um cartaz do PNR contra o turismo. É muito raro lembrar-me de que o PNR existe por isso nunca falo nele. É normal que a extrema direita partilhe preocupações e proponha soluções semelhantes à extrema esquerda, neste caso partilham a xenofobia, que para o PNR é mais natural, nos outros vem mais disfarçada. Espero que o PNR não desapareça porque mesmo os malucos devem podem ter voz e liberdade de expressão.