Negócios Autárquicos

-Vais votar nestas  eleições? , perguntava-me um amigo francês que mora cá

– Voto sempre.

-E votas em quem ?

– Eu  voto sempre contra os comunistas e socialistas, mas nas autárquicas abro uma excepção, voto mais pelas pessoas do que pelos partidos.

-E  nas legislativas,  votas na direita?

-O meu voto aí  não é por uns , é contra os outros. Eu sei que vai dar ao mesmo mas para mim a diferença é importante.

O meu amigo franziu o sobrolho,  tentei explicar melhor com os exemplo de todos os que votaram no Macron para impedir que a Le Pen avançasse, é o mesmo princípio. De qualquer maneira acho a divisão direita/esquerda muito ultrapassada, gostava de ver o debate e a escolha fazer-se entre colectivismo e individualismo ou estatismo e privatismo. Gostava de ver um partido liberal   mas em Portugal não existe política além da luta entre os que controlam o Estado e os que querem controlar o Estado, o papel dele não se discute  e é para continuar assim. Quem me dera estar errado mas isto é uma coisa cultural, pelo menos desde o Marquês de Pombal que o Estado é não o recolhido autor das regras ,o fiscalizador da justiça e o operador da partilha , derradeiro porto de abrigo de infelicidade própria ou pobreza alheia, mas o salvador da sociedade, o motor da economia, o distribuidor mor da riqueza, em suma , o dedo demonstrador do sentido clarificador da História . Um partido que venha reclamar e lutar pela redução do papel e influência do Estado em Portugal vai  lutar contra quase 300 anos de história e tradição, é um combate muito assimétrico.

Nestas eleições autárquicas devo votar no incumbente, tal como nas últimas também o fiz, e o incumbente perdeu. O actual presidente da Câmara é um tipo educado e calmo , comunica bem, representa bem o concelho e as suas políticas são as mesmas dos outros e da região, por arrasto: gerir empréstimos e fundos europeus,  fazer projectos de candidatura a mais fundos, empregar pessoas quer façam falta quer não e em geral manter isto a andar, devagarinho mas a andar. Num município como este não se pode vir com ideias revolucionárias nem rupturas, aliás, duvido que algum município do país seja capaz de alguma ruptura.

O presidente anterior, de outro partido, disse famosamente que “dão-me dinheiro para museus, faço museus”, este não é muito diferente e o critério de investimento rege-se pelo dinheiro que “dão”. Parece que finalmente parámos nos 8 museus num concelho de 1800 pessoas, agora há dinheiro para incubadoras de empresas, faz-se uma, quer faça falta quer não. Os outros não fariam nada de diferente, o PSD é tão  estatista como  o PS pelo que a comparação é entre seis de um e meia dúzia de outro. O PS leva a vantagem de ser o partido do Governo Regional, logo, este tende a favorecer e ouvir mais os autarcas da sua cor .

Por isso os critérios do eleitor nas autárquicas devem ser, a meu ver, os da honestidade e competência. A competência é fácil de avaliar, o cidadão olha à sua volta, compara com o que via há 4 anos, depois vai ver as contas (eu sei que é raro o cidadão que quer ver as contas) e os projectos e decide com esses elementos se há competência ou não. A honestidade é diferente, não está propriamente à vista e é muito mais difícil de avaliar.

Por exemplo, sabe-se agora que o Fernando  Medina, actual presidente e  candidato do PS à Câmara de Lisboa, não só é um às da imobiliária como tem uma sorte dos diabos. Vendeu um apartamento que tinha por mais 36% do que o que lhe tinha custado,  até aí tudo normal, o mercado das casas de luxo em Lisboa está em alta. Depois comprou outro apartamento, maior e melhor, só que desta vez o mercado funcionou ao contrário e a proprietária vendeu-o por 23% menos do que o que lhe tinha custado.

Isso só por si já é suficiente para levantar dúvidas, como é que num mercado em alta (a justificação, clara, para as mais valias que fez com a venda da outra casa) uma pessoa decide vender um apartamento que comprou por 800 e tal mil euros por 600 e tal mil. Ou bem que o mercado está em alta ou bem que o mercado está em baixa, os dois ao mesmo tempo não pode ser. Podemo-nos interrogar  sobre um presidente de câmara que ganha cerca de €3500/mês e compra um apartamento de €650000 mas isso é o menos, sobretudo vendo que a mulher do sr Medina é a sra Stephanie Silva , filha de Jaime Silva, antigo ministro de José Sócrates, adjunta de Medina quando este era secretário de Estado no mesmo Governo e advogada associada sénior na sociedade PLMJ. Uma pessoa não passa uma vida familiar na política a viver de salários mensais, isso está estabelecido há muitos anos e é claro para toda a gente.

Estas informações tirei-as deste artigo no Público, cheio de factos, com o título “Medina fez dois bons negócios com casas em Lisboa”.  Bons negócios, sem dúvida, mas isto leva-me a pensar como seria o título se por exemplo se soubesse que o Passos Coelho tinha feito bons negócios como este. Ou talvez seja um título sarcástico, porque para  além do absurdo de alguém comprar uma casa em Lisboa por 850 mil para a vender por 650 mil com o mercado em alta dez anos depois  há o pormenor de a proprietária vendedora se chamar  Isabel Teixeira Duarte. Por feliz e inusitada coincidência, a Teixeira Duarte, SA  beneficia de  contratos por ajuste directo com a CML.

O que me fez quase cair da cadeira a rir foi que o sr Medina, sem se rir, diz que não sabia que a proprietária tinha ligação  à construtora Teixeira Duarte. Sim,  porque é normal uma pessoa comprar uma casa sem saber o nome do vendedor e além disso Teixeira Duarte é um apelido muito comum e uma marca  insignificante  no meio empresarial. Foi daquelas coincidências felizes.

O sr Medina vai ganhar as eleições e estas negociatas e favores entre políticos e empresários  e a sua impunidade só podem surpreender os ingénuos. Não sei se ele foi bom ou mau presidente, não quero saber de Lisboa para nada, o que não gosto é que me façam de parvo. Nem o senhor Medina , que  acha normal ganhar 3500€ por mês e ir viver para uma casa que vale 850mil, diga o que disser o papel , e que ainda por cima tem a lata descomunal de dizer que não sabia que a senhora Teixeira Duarte tinha ligações à Teixeira Duarte,  nem os lacaios do poder que se apressam a defendê-lo, mostrando assim que acham bem que um político seja favorecido num negócio em centenas de milhar por uma empresa que subsequentemente recebe tratamento preferencial.

Podem embrulhar-me isto tudo em legalês e explicar todos os pormenores que fazem com que esta bosta fumegante seja perfeitamente legal, e também é óbvio que a história aparece por oportunismo eleitoral, mas isso  não muda a verdade: a um político ou governante que recebe favores particulares em troca de favores públicos chama-se CORRUPTO.

 

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Rendimento Básico Universal

Há 4 anos ouvi falar pela primeira vez na ideia de rendimento universal garantido, um programa mediante o qual toda a população sem excepção recebe do Estado uma subvenção mensal que teoricamente permite uma subsistência digna.

À primeira vista pareceu-me má ideia, por um número de razões entre as quais a falta de incentivo ao trabalho, o facto de que qualquer coisa que o Estado dá a uma pessoa é tirada a outra e  o incentivo à migração em massa para os países que implementassem esse programa. Parecia-me que se por exemplo em Portugal o Estado desse o equivalente ao ordenado mínimo a cada cidadão íamos ter muito depressa falta de gente para fazer trabalhos que pagam precisamente o ordenado mínimo. Dir-me-ão que não, que ia servir para complementar o rendimento de pessoas que iam continuar a fazer trabalhos duros e desagradáveis como recolher lixo (trabalho que devia ser pago muito acima do mínimo) mas se isso seria verdade nalguns casos em muitos outros serviria apenas para que as pessoas se encostassem. Igualmente não via razão para pessoas que já têm vencimentos fortes passarem a receber mais um cheque só por existirem, que é o que tinha que ser feito para a coisa ser mesmo universal.

O rendimento universal continua a ser estudado,projectos-piloto continuam a ser testados por exemplo na Finlândia e eu mudei de ideias, não por me ter convertido ao colectivismo e aos méritos da redistribuição mas porque tenho a certeza, na medida em que alguém pode ter alguma certeza quanto ao futuro, de que dentro de poucas décadas simplesmente não vai haver trabalho para toda a gente.

Não vale a pena falar muito sobre a automação, sobre como hoje em dia fábricas enormes produzem  milhares de artigos , sejam camiões ou porta chaves, com poucas dezenas de trabalhadores; como as máquinas já produzem outras máquinas; como na agricultura tarefas que requeriam dezenas de pessoas há 20 anos hoje são feitas por uma aos comandos de um robot. Isso é automação, que progressivamente elimina trabalhos físicos desde a Revolução Industrial e é uma questão sobejamente debatida: à medida que os trabalhos duros, perigosos e repetitivos iam sendo automatizados as pessoas iam ser mais e melhor instruídas e passavam a outros trabalhos e serviços, um nível superior de prestação fora do alcance dos robots, um caminho virtuoso que permitia a libertação dos trabalhos sujos e duros e a dedicação a trabalhos menos exigentes fisicamente e que requeriam perícias além da força física e atenção fixa. Como nenhum robot conseguia pensar, tudo o que envolvesse associações de ideias, conclusões, análises, iniciativas e decisões, tinha forçosamente que ser feito por humanos, que dominando a informação dominariam sempre esta nova economia, porque os robots não escreviam canções, não faziam cirurgias nem ensinavam Física. Isso era no passado.

Dantes só as profissões de colarinho azul, como lhes chamam os anglo saxónicos, estavam sujeitas a desaparecer vítimas da automação. Com a entrada em cena e o progresso galopante da Inteligência Artificial, a longo prazo nenhuma profissão está a salvo, nenhuma actividade está fora do alcance de uma máquina. Já não são só os taxistas e camionistas que vão desaparecer porque já há, agora, carros e camiões que andam sozinhos, e só não há navios (declaradamente) porque o meio marítimo é menos fácil que uma estrada. Os algoritmos de tradução, como pode comprovar quem os usa há alguns anos, melhoram literalmente de mês para mês e se bem que falta muito tempo para traduzirem Shakespeare já traduzem satisfatoriamente documentos legais ou comerciais. Os tradutores são uma espécie em vias de extinção, tal como os assistentes legais dado que há algoritmos que conseguem peneirar toneladas de documentos legais e encontrar por exemplo o precedente que se procura numa fracção do tempo que demoraria a um humano. Já há algoritmos de diagnóstico medico que superam a média dos médicos humanos e programas informáticos mais capazes de transmitir conhecimento a um aluno do que a maioria dos professores humanos. A destruição e violência que exigia centenas de homens há 30 anos hoje é levada a cabo por um soldado frente a um computador a milhares de quilómetros de distância, apoiado por algoritmos que sintetizam e analisam toda a informação que lhe chega.Ao invés de contratar um guia turístico um turista instala uma app no seu telemóvel que o conduz pelas ruas , identifica marcos e explica História.

Actividades que ainda há meia dúzia de anos exigiam legiões de  empregados, como a distribuição  postal , estão quase a não exigir nenhum por via dos drones e novos sistemas de localização e condução . O cretino do Trump dizia que ia salvar os empregos das minas de carvão numa época em que mesmo que houvesse muita procura de carvão são cada vez precisos menos trabalhadores para o extrair e processar, mesmo que o carvão fosse uma coisa óptima o emprego nesse sector ia sempre cair. Nesta ilha o Estado encarrega-se, e bem, da manutenção das bermas da estrada e é um encontro   comum : uma dúzia de homens (nesta actividade a igualdade de género também não interessa nada)  de roçadora na mão a mondar as valetas estrada fora, trabalho  que não requer nível de instrução absolutamente nenhum. A câmara do meu concelho está em vias de adquirir um tractor que faz o que esses doze fazem com um homem aos comandos, com a respectiva poupança. O que é que vão fazer esses homens?

A tendência nas nossas sociedades é cada vez mais a interacção das pessoas com máquinas e mesmo quando interagem umas com as outras há já quase sempre uma máquina pelo meio ou por perto, especialmente nos meios urbanos. Já podemos fazer as compras do supermercado em casa e se hoje são entregues por um humano amanhã será um drone, tal como a caixa do supermercado já hoje é substituída por uma máquina. Um dos meus primeiros empregos, repositor de mercearias nas prateleiras de um supermercado, já é feito hoje em dia por robots em vários sítios. Desde a construção à administração, desde o policiamento à agricultura, já não se vai lidar só com automação mas igualmente com os sistemas de IA que analisam dados e informação e agem em conformidade.

É verdade que esta organização e modo de produção vai sempre exigir humanos , mas mesmo que fôssemos todos engenheiros de sistemas e técnicos superiores daqui  a 25 anos não haverá  que fazer para toda a gente, é uma simples questão de números. Quando damos uma olhadela aos sistemas de ensino da maioria dos países e à massa humana analfabeta ou semi analfabeta que se conta em biliões e vai permanecer assim, é fácil concluir que será impossível empregar toda  a população a um nível, digamos, satisfatório.

É por isso que se os governantes (que em muitos aspectos seriam substituídos com vantagem por algoritmos) querem manter a paz têm que começar a pensar seriamente no problema do desemprego galopante que vai acompanhar o crescimento da automação e, sobretudo, da inteligência artificial. Os optimistas dizem que vão sempre ser criadas novas actividades e profissões que ainda hoje são desconhecidas, e isso foi verdade desde a Revolução Industrial ate aqui, mas a inteligência artificial e o seu progresso vertiginoso muda a equação. Quando as máquinas já fazem outras máquinas e já estão a caminho de conseguir fazer tarefas que há 20 anos era impensável conseguirem, como um diagnóstico médico, controlo de tráfego aéreo ou mais prosaicamente, cozinhar uma refeição, parece-me aparente que caminhamos mesmo para uma era de desemprego massivo que vai afectar todas as profissões a médio prazo.

Uma solução será  então o Rendimento Garantido, que faz com que o problema da subsistência esteja resolvido e pode não só evitar a miséria generalizada da parte da população que vai sempre permanecer estúpida, ignorante e sem qualificações como pode libertar a criatividade de uma parte enorme da população, todas as pessoas que têm o tal jeito para uma coisa mas têm que fazer outra para subsistir.

Pode fazer florescer as artes, coisa que eu nunca valorizei muito sendo um bocado filisteu mas reconheço que é uma ocupação válida porque permite não só ao indivíduo realizar-se como proporcionar prazer a outros, independentemente da questão de quem paga pelo  quê. Outro exemplo, uma pessoa que não tenha que ir trabalhar das 9 às 5 para pagar as contas pode dedicar-se a causas nobres como solidariedade e voluntariado social ou cuidados a animais abandonados. Pode-se eliminar uma grande quantidade de stress da vida das pessoas ao mesmo tempo que os empreendedores, hiper activos  e ambiciosos podem continuar stressados a  trabalhar e prosseguir os seus sonhos , ideias, projectos  e esquemas com mais segurança e estabilidade ao mesmo tempo que os madraços podem continuar a sê-lo  sem o estigma relativo que isso hoje implica . As pessoas podem deixar de labutar em empregos que  odeiem e os façam infelizes sabendo que não caem na penúria e muitos podem prosseguir actividades que não são rentáveis nem servem para nada mas que os realizam e lhes dão prazer, como observar pássaros, aprender mirandês  ou estudar  teologia.

Para evitar convulsões , colapsos e conflitos sociais que podem fazer os que vimos até aqui uma brincadeira, para que a sociedade seja mais pacífica  e “feliz” acredito que os Senhores do Mundo vão ter mesmo que arranjar maneira de implementar o rendimento universal num futuro a médio prazo.

Depois queixem-se

Não há nesta altura no mundo  governante que eu deteste mais que o Trump, e isto inclui vermes como  Mugabe ou  Maduro. No Terceiro Mundo (perdão por usar este anacronismo mas para mim ainda faz sentido) ainda é como o outro, as instituições são fracas , corruptas ou ambas, a população não é educada e informada e a imprensa raramente é livre pelo que é mais fácil um ditador instalar-se e permanecer lá. Quando há uma ruptura do calibre de um Trump, quando uma democracia ocidental elege uma figura daquelas, primeiro há choque mas depois há que procurar  as razões, e podem já todos ter-se esquecido mas foram mais do que dissecadas nos meses seguintes às eleições e era bom voltar a elas numa altura em que, ao retardador como é nosso timbre, começamos a importar debates e movimentos que nos EUA já têm décadas. Há gente que parece só estar à espera da deixa dos americanos para falar, vi uma jornalista pelos vistos famosa, chamada Alexandra Lucas Coelho,  a defender um monumento aos índios e africanos ao lado do Padrão dos Descobrimentos. Não achar que se deve deitar abaixo já não é mau, mas não deve tardar.

Além das mentiras , demagogias , matrafices e “hacks” da última campanha eleitoral americana , além das lutas internas entre Republicanos e  além da inépcia dos Democratas houve um factor muito importante em jogo, para mim o mais importante: quase metade dos eleitores  da América fartou-se  dos insultos, reclamações, condescêndencia, exigências e teorias sociológicas avançadas da intelectualidade urbana de esquerda, que só vê o seu umbigo e olha para o resto como atrasados e iludidos.

Cansaram-se de serem chamados de primitivos, intolerantes, anacrónicos, de lhes atirarem à cara a maldade das suas tradições e da sua cultura, de lhes ridicularizarem as crenças . Cansaram-se de ver que tudo é decidido longe, pela elite sofisticada , fartaram-se de ver os sociólogos de Berkeley a ditar regulamentos para o Wisconsin, cansaram-se de ver a imprensa e a TV nacionais centrarem-se nas Costas e ignorarem o resto do país. Chamam-lhe fly over country e não é a brincar, é uma extensão imensa onde vivem dezenas de milhões de pessoas que são excluídas dos debates nacionais e quando não são excluídos é para serem menosprezadas. São racistas? Muitos são, mas nem os que o são gostam de ser chamados racistas, quanto mais os que não são, ou acham que não são…

Pessoas religiosas e tradicionalistas a terem que levar com o debate das casas de banho para  transexuais, a verem a linguagem a ser policiada e normalizada, a verem garotos a levantarem queixas  por se sentirem ofendidos nas suas convicções por dá cá aquela palha. Pessoas a verem as suas vizinhanças e cidades a ter uma população cada vez mais de cor e religião diferente e a ser-lhe martelado que isso é bom. Pode ser ou pode não ser.

Depois de terem mais prosperidade material do que conseguem fazer com ela os americanos passaram à guerra cultural, liberais contra conservadores. Toda a gente deu por adquirido que havia dinheiro que chegasse para tudo e empregos para toda a gente que os quisesse, começaram a ocupar-se da famosa justiça social, onde manda uma regra velha e universal que pode ser exprimida cruamente assim : quem não chora não mama, e outra que diz que o importante é culpar alguém e exigir que alguém , normalmente o Estado, faça alguma coisa.

O problema não era a política externa, a produtividade, os impostos, as infraestruturas, a educação, a saúde. Os problemas nas últimas décadas têm sido coisas como o casamento gay, as chamadas causas fracturantes nas quais se especializam grupos políticos como o Bloco de Esquerda, quanto mais não seja porque o lastro técnico necessário para escrever uma lei sobre igualdade de género é uma fracção do necessário para , por exemplo, negociar um acordo de comércio externo ou reformar uma política fiscal. Por outras palavras , é mais fácil e imediato e qualquer actriz de teatro consegue falar horas sobre justiça social sem mentir ao passo que nem dez minutos aguenta se lhe pedirem para explicar o impacto da política agrícola comum na produção de vinho, por exemplo.

As causas fracturantes também se tornaram populares por serem mais emocionais, ninguém se exalta a falar de vias férreas ou portos de águas profundas, mas falem lá da co-adopção e têm para horas de exaltação, já para não  falar do aborto. Com estas  e outras questões  se passam horas nos parlamentos, juntando as discussões a  votos ridículos de louvor e pesar e infindáveis comissões que servem sobretudo para engonhar, criar ilusão de progresso , ocupação e encher os proverbiais chouriços. O cidadão conservador e tradicionalista vê isto e franze o sobrolho.

Quando os debates mais populares são desse género, causas que uns apoiam e outros abominam,  quando uns menosprezam e ridicularizam os outros, basta vir um aldrabão encartado como o  Trump para levar uma das metades. Basta ter o discurso fácil, basta fazer uma das metades rever-se nele, basta prometer um fim aos abusos e aos ataques, basta falar no mesmo tom . Não tem que saber fazer mais nada, não tem que mostrar serviço na área que se propõe dirigir, basta saber falar para o seu público , apelar-lhe  aos instintos , medos e aspirações básicas e os ânimos estão de tal maneira exaltados nesta idade das overdoses de informação, 3/4 dela manipulada, que no dia das eleições a escolha é fácil. Dá para os dois lados, ninguém se iluda, o processo básico que elege populistas à esquerda elege-os à direita.

No caso dos americanos foi a histeria do politicamente correcto , da engenharia social, do multiculturalismo como valor superior e objectivo, da perseguição e demonização dos outros,  que lá pôs o Trump.

Os guerreiros da justiça social por cá ganham saúde e gritam alto, são declaradamente contra uma quantidade de coisas, desde o heteropatriarcado aos sacos de plástico, agora descobriram que é mau haver coisas para meninos e meninas e em todas essas lutas olham de cima para baixo para os que ou não concordam ou nem sequer querem saber. São pessoas que não percebem bem o conceito de empatia , que é diferente do de simpatia, não temos que simpatizar mas devemos tentar compreender . Enervam muita gente, insultam muita gente, agridem as convicções de muita gente, muitas vezes com uma arrogância que nada justifica.

Custa-lhes, é-lhes virtualmente impossível aceitar que haja pessoas religiosas, que defendam que a vida começa com a concepção e é sagrada, que vão a touradas, têm carros grandes, acham que a homossexualidade é um mal, o casamento é exclusivo para reprodução, o aquecimento global é uma invenção, um travesti é uma aberração e usar drogas é crime. Pessoas que defendem a pena de morte, são contra a imigração , não gostam de gente de outras cores nem de quem depende de subsídios estatais para sobreviver. Eu não partilho nenhuma dessas  convicções mas não considero quem as tem um inimigo ou inferior  e haveria  muito menos problemas se conseguíssemos todos funcionar assim, não é desistir da discussão , é reconhecer que há mais pontos de vista válidos, mesmo que não concordemos com eles.

Os modernos guerreiros da justiça social não acreditam que todos esses milhões de pessoas têm uma palavra a dizer, o direito a fazerem-se ouvir e voto na matéria no que diz respeito ao gverno e leis da Nação. Acham que é gente para calar, que se deve reduzir à sua ignorância e que todos os que não concordam com eles são estúpidos. Isto é profundamente irritante.

Um dia qualquer aparece um candidato a defender  precisamente todas essas coisas que a imprensa e os círculos urbanos sofisticados abominam e têm por consignadas ao caixote do lixo da história. Um candidato bem falante, de discurso articulado, que fala, como o Trump, aos medos, convicções  e aspirações dessas pessoas e de repente, num dia de eleições,  a inteligentsia , entre duas dentadas de sushi num rooftop da capital pega no seu ipad  e enquanto lê mais um artigo na Monocle e partilha uma foto com o seu amigo cisgénero dinamarquês que está na Malásia constata que há muita gente no resto do país que tem ideias ,preocupações e concepções do mundo muito diferentes, que toda essa gente vota e que, olha, quem diria , elege um populista com um plano para pôr isto na ordem, não obstante sondagens e colunas de opinião que garantiam ser impossível.

Depois vão passar anos a queixar-se, sem perceberem  que a culpa foi deles.

 

Meninos e meninas

Vai uma grande comoção no meios pensantes e discursantes por causa dos estereótipos de género. Uma vez que já  resolvemos   o problema do déficit, da dívida externa , da competitividade da economia, da sustentabilidade da segurança social e agora que o país tem resposta segura contra  calamidades naturais e outras ameaças, é normal que nos passemos a preocupar com coisas sérias e cruciais, de verdadeiro interesse nacional, como por exemplo porque raio é que o azul é para meninos e o rosa para meninas.

Sim, apesar de pessoas de raciocínio mais limitado quererem fazer passar a ideia de que há problemas e ameaças mais reais e graves à sociedade  (a dívida, os incêndios descontrolados, o racismo, a corrupção) do que os estereótipos de género, há muitas pessoas das  vanguardas intelectuais  para as quais esses são agora a questão primordial. Se não ouviram falar disto nos últimos dias, óptimo para vocês, passem à frente e ignorem este post.

Um filho de uma grande amiga minha , miúdo que me mete medo porque vejo-o claramente como deputado do PC ou do Bloco aos 22 a regular-nos a vida sem nunca ter tido um emprego, que foi criado como todos os outros, vestido de azul em bebé e a brincar com bolas e carrinhos, acha e grita  que a Porto Editora , por ter partes de livros diferentes para meninos e meninas, é de um grande atraso moral e mental e não devia ser permitida em 2017. Este jovem aspirante a fiscal da moral rejubilaria se o comissariado encerrasse a empresa como castigo, e as consequências económicas que se lixassem , primeiro porque esta juventude militante tem pouquíssima noção de como funciona uma economia e depois porque o que interessa é o plano moral superior em que  alegadamente se encontram. Os conservadores são todos estúpidos e atrasados.

Como ele há cada vez mais, até que os socialistas rebentem outra vez com as finanças públicas e as pessoas voltem a ter preocupações mais mundanas e reais. Um dos catalizadores destes debates é o site feminista “Capazes”, onde se luta pela igualdade do que não é igual.

As mulheres sofrem muita injustiça, desde sempre mas  menos agora, menos no Ocidente, desde que o capitalismo permitiu um nível de prosperidade e liberdade individual que o socialismo sempre negou, mas ainda assim há muita injustiça e tratamento desigual. Isso é mau e deve ser combatido.

Daí a reclamar-se igualdade vai uma distância bastante grande porque da ultima vez que pude observar de perto uma mulher pude confirmar que as desigualdades são biológicas , físicas e mentais, por estranho e ofensivo que pareça uma mulher é diferente de um homem, tem partes diferentes e pensa de maneira diferente. Pode igualmente parecer estranho a muita gente mas é assim por todo o reino animal, a fêmeas diferem sempre dos machos e é isso que faz evoluir e progredir as espécies, a diferença entre machos e fêmeas. Na minha humilde opinião este devia ser o ponto de partida no debate, mas é muito possível que esteja errado e que o ponto de partida deva ser a noção  de igualdade.

Acredito  e defendo que uma mulher deve receber o mesmo salário pelo mesmo trabalho. Acredito que uma mulher deve ter  os mesmos direitos que um homem. Acredito que uma mulher deve ser livre de determinar sozinha o seu modo de vida e de não ser sujeita a opressões e agressões, mas isso é por defender  o direito fundamental à vida, liberdade e procura da felicidade para todos. Não sou contra o assédio sexual das mulheres, sou contra o assédio sexual.Não sou contra a violência sobre as mulheres, sou contra a violência.É assim tão complicado?

Se lutássemos por isso, se as feministas lutassem por isso, reconhecendo as diferenças fundamentais entre os géneros, a luta seria menos amarga e chegar-se-ia lá mais depressa. Mas não , há demasiados mestrados em ciências de género e gente que é paga para encontrar e aumentar problemas, para amplificar problemáticas , e com isso se distraem as pessoas do fundamental , que é garantir a liberdade , segurança e  direitos iguais para todos.

Ninguém me convence que deixar de vestir as meninas de rosa e os meninos de azul contribui para uma sociedade melhor, até porque pelo menos no que diz respeito à sexualidade não vai ser a cor do babygrow que vai determinar nada , como deviam estar fartas de saber as feministas&outros activistas. Se a menina tiver aptidão e gosto por números podem-lhe encher o quarto de barbies que ela vai querer é fazer contas, e se o menino tiver talento para  cozinheiro  podem dar-lhe centenas de carrinhos que ele vai pensar é em refogados. Podem contrariar isto dizendo que os talentos, tendências e aptidões não são inatos, eu acho que são mas mais uma vez , posso estar errado, gostava que me corrigissem, se for o caso.

O problema não está em haver livros , cores e brinquedos para meninos e meninas , está em haver pais que não prestam suficiente atenção aos seus filhos para perceberem o que eles são e para onde querem ir, e se os pais não tiverem essa sensibilidade podem vesti-los de castanho claro ou magenta e dar-lhes igual proporção de carrinhos e bonecas que não vai fazer diferença nenhuma. O problema está mais em haver pais que se projectam nos seus filhos e os condicionam, para aqui ou para ali, do que em haver diferenças em como vestem as crianças ou nos  livros que lhes lêem  filmes que os põem a ver.

Quanto à questão das quotas obrigatórias, eu acho que fazem falta mais mulheres em posições de chefia, mas o argumento para conseguir isso não pode ser o da igualdade, porque ou bem que há ou bem que não há e não vejo as Capazes a reclamar quotas para mulheres nos serviços de recolha do lixo nem nas minas ou na construção civil, nem me lembro de ouvir pessoas a reclamar que há poucos enfermeiros ou educadores de infância. O modo de ter mais mulheres no topo não é forçar o topo, é criar condições para que todas as mulheres possam subir até onde conseguirem.

A questão de fundo e  a luta para mim deve ser pela  igualdade de direitos e oportunidades e  pelo respeito pela liberdade individual de todos. Se são contra o azul para os meninos e o rosa para as meninas, têm bom remédio : usem outras cores nos vossos filhos, chamem-nos por números ou outros vocativos até eles escolherem o próprio nome e sexo, não lhes comprem livros que distingam entre sexos e contem-lhes apenas histórias politicamente correctas e formatadas à modernidade  mas deixem de querer impor determinada visão do mundo a todos, deixem de querer ser os polícias dos costumes.

Da minha parte se tivesse filhos vestia-os sempre todos de preto , só por causa das coisas.

Semana do Mar & Turismo

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A Semana do Mar já começou , há nestes dias na Horta mais actividades do que é possível uma pessoa ver ou participar, incluindo dezenas de concertos de musica ao vivo e outros eventos, do lado do mar há dezenas de provas numa variedade enorme de modalidades. Só me interessam duas coisas, a regata de botes baleeiros  no Sábado, na qual vou levar o bote  S.Pedro, e os barcos para o Pico para onde espero ir assim que puder.  Quanto à preparação para a regata, está tudo dito aí mais atrás. Se não ficar em último já não fico triste e  se ficar em último não é  vergonha nenhuma. Chama-se Regata da Casa do Pessoal da RTP pelo que suponho que  parte dela vá ser transmitida pela RTP Açores, quem tem curiosidade pode tentar ver, começa às duas da tarde de Sábado, 15:00 no continente.

Não conheço a ilha do Faial toda mas quase, e estou fartinho da Horta, em condições normais não é uma cidade que me encante, se lhe juntarmos a multidão que para lá vai andar nestes dias, pior. Por isso assim que estiver feito o trabalho relativo aos botes e a menos que aconteça algum imprevisto (há que guardar sempre espaço para imprevistos) , passo o canal para o Pico, onde nunca estive e que estou há tempo demais para conhecer. Tenho lá um amigo novo e outro mais antigo  e tenho sítios e coisas que quero ver.

Vamos uma semana para competir uma tarde, vamos ter muito tempo livre por causa dos turistas. Tinha escrito uma página inteira a dizer mal dos turistas ressalvando que esta ilha precisa muito deles para não acabarmos todos funcionários públicos, eu em particular preciso deles para lhes vender cerveja artesanal, por isso são uma coisa a tolerar e acolher nem que seja de sorriso amarelo, mas mais uma vez encravam-nos a vida e estorvam-nos.  Parte das tripulações foi na segunda de madrugada com os botes no navio de passageiros, o resto era para ir na Sexta mas estava tudo em lista de espera e nada nos garantia estar na Horta no Sábado, pelo que mudei os bilhetes para amanhã, quando nos podiam confirmar a viagem. Pouco a pouco começo a tomar iniciativas e responsabilidades, mais do que gostaria mas há coisas em que ou sou eu ou não é ninguém . Para o regresso estamos à mesma em lista de espera, possivelmente até quarta feira, e uma semana fora não é fácil, especialmente para quem não quer , não precisava nem planeava gastar dinheiro com umas férias. Enquanto durarem as provas náuticas somos acolhidos e alimentados pelo Clube Naval da Horta mas a festa acaba no Domingo e não é legítimo esperar que nos sustentem até Quarta, alguma despesa vai sempre acontecer.

Os voos estão repletos, o pessoal da SATA aqui é cinco estrelas mas andam a  aturar muito problema e reclamação, não pára a enchente de turistas e há viagens canceladas e atrasadas constantemente, no Sábado passado foram os Xutos que vinham cá tocar mas tiveram que voltar para trás, o pessoal não gosta dessas coisas.  Parece que pariu aqui a galega e esta história dos voos todos cheios é um bocado má, agora no nosso caso concreto é uma  viagem “desportiva” mas aqui na ilha já há muitas pessoas com dificuldades em comparecer a consultas médicas e exames , e isso é muito mais sério. Caso não saibam , daqui ao médico especialista vai-se de avião, tal como para análises e exames, e no meu entender seriam os turistas a ficar em lista de espera sempre que houvesse um residente  a querer ou precisar de viajar.

É um tema muito falado na imprensa e um debate actual, muita gente pensa que o turismo está descontrolado e em níveis exagerados, principalmente as pessoas que não beneficiam directamente do turismo  e os que se pelam por taxar e controlar tudo o que mexa. Eu cresci numa casa de Turismo de Habitação, das primeiras do país, e o dia em que os meus pais a decidiram vender foi dos mais felizes da minha vida, quase que me traumatizaram uns 20 anos de estranhos e entrarem-me pela casa dentro. Dada a loucura da procura aqui um amigo propôs-me no outro dia ir ficar com ele e alugar a minha casa , parece que a  minha reacção foi como se me tivesse proposto comprar-me o cão . Tolero os turistas mas há limites e a minha propriedade está para lá desses limites.

Mesmo que não contasse lucrar com o turismo  vendendo  a cerveja artesanal, nunca seria completamente contra porque compreendo o valor que trazem à economia toda . Além do mais todos nos devíamos sentir elogiados e orgulhosos por tantos estrangeiros quererem vir visitar e apreciar a nossa terra. Vejo que o Bloco e o PC estão muito preocupados, mas eles ficam sempre preocupados por ver pessoas a ganhar dinheiro com as suas propriedades e o seu engenho sem terem que se sindicalizar ou dar metade ao Estado e inventam logo oito problemas laterais para animar a rapaziada, passando se for preciso por cima de  contradições engraçadas como : cinco mil somalis desempregados para sustentar, bom , cinco mil ingleses para gastar dinheiro, mau. Entretêm-se com questões de lana caprina como a distinção entre turismo e turistificação mas no fundo  o que os apoquenta é haver gente a ganhar dinheiro sem sofrer carga fiscal e regulamentação adequada.Como de costume, têm  uma imagem ideal do turismo como o aceitam, o que ande fora disso tem que ser combatido e vão lutar para adaptar a realidade à sua ideia e não o contrário.

Por aqui só vejo benefícios (não obstante a impreparação da SATA) e estou preparado para perder algum do meu  sossego  e tranquilidade , que para muitas pessoas é pasmaceira desértica. Duvido de que apareçam  construções tipo Algarve, as estradas são as que há, o aeroporto não pode crescer e há aí muito mato e muitos trilhos para o pessoal andar com espaço bastante.Os turistas que para aqui vêem não largam lixo nem andam bêbados em público, não há barulho e em geral têm uma atitude muito respeitosa, de apreciação e paciência . Espero ver mais empregos, mais trabalho, mais actividades, mais ofertas, mais serviços. Idealmente apareceria uma “mini easyjet” privada com meia dúzia de avionetas para fazer voos inter ilhas, concorrer com a SATA e dar mais uso aos aeroportos do arquipélago.

Não duvido de que vai haver muito em breve quem se queixe também aqui dos turistas, mas o Verão está a acabar, daqui a dois meses já quase ninguém vem para aqui e o turismo volta a ser um problema exclusivo dos lisboetas e dos jornalistas.

 

PS: Já tinha escrito e publicado isto quando vi no twitter um cartaz do PNR contra o turismo. É muito raro lembrar-me de que o PNR existe por isso nunca falo nele. É normal que a extrema direita partilhe preocupações e proponha soluções semelhantes à extrema esquerda, neste caso partilham a xenofobia, que para o PNR é mais natural, nos outros vem mais disfarçada. Espero que o PNR não desapareça porque mesmo os malucos devem podem ter voz e liberdade de expressão.

 

 

O Busílis

bu·sí·lis 
(origem duvidosa)

substantivo masculino 

Parte mais importantemais central ou mais difícil de algo.

CERNEDIFICULDADE

 As touradas e a Venezuela são duas discussões  que me têm ocupado algum tempo, não parece à primeira vista mas são discussões com coisas em comum, nomeadamente o problema de não se ir  ao cerne, ao fundamental , ao busílis da questão.

Quanto às touradas, partilhei uma peça sobre touros de fogo , uma prática milenar no país vizinho que consiste em pegar fogo aos cornos de um touro e largá-lo a correr pelas ruas. Como é à noite o efeito visual é mais forte, e faz sempre parte de alguma festa em honra de um santinho qualquer. Deve vir lá nos escritos ancestrais do cristianismo que não só o Homem deve dominar as outras espécies como está autorizado a atormentá-las à vontade. Um dos santos , um italiano chamado Francisco , era muito amigo dos animais e consta que andava por todo a lado a dizer que éramos todos criaturas de Deus e devíamos ter compaixão mas ainda há muito católico que não lhe passa cartucho. Tem uma ordem em seu nome e  o actual líder mundial dos católicos adoptou o seu nome mas em religião a  coerência dos fiéis é uma coisa um pouco rara. As mesmas pessoas que vão a uma missinha no Domingo de manhã à tarde são capazes de ralhar  contra os pretos e os gays e os refugiados e à noite vão ver touros a correr com os cornos a arder.

O Papa Francisco disse num tweet (e num encíclica, calculo) : É contrário à dignidade humana fazer animais sofrer ou morrer desnecessariamente”. Sucede que os católicos são especialistas em escolher as partes que lhes interessam e descartar as que não lhes agradam ou não lhes dão jeito. Se houvesse moral nisto e se essa gente tivesse integridade na Fé ouvia o que diz o Papa e bania imediatamente touradas e outras brincadeiras que consistem em atazanar animais para diversão, e falo no Papa porque por alguma razão todos os países onde há “tauromaquia” são católicos e aposto o que quiserem que a esmagadora maioria dos aficionados se define como católico.

A verdade que eu vejo é esta : qualquer espectáculo tauromáquico consiste em atazanar o touro para lhe provocar comportamentos que divertem as pessoas . Já pedi várias vezes a pessoas que gostam de touradas que me digam se estou errado, que me corrijam , que me iluminem, mas até hoje ainda não ouvi nem li nem vi  ninguém honesto que possa negar isto.Os argumentos em defesa da tauromaquia são sempre os mesmos:

-É uma tradição cultural milenar

-Há muitas pessoas que gostam

-Envolve muito dinheiro

– É para isso que se criam touros bravos

Dão-me estes argumentos e esperam que por isso se continue a tolerar e promover o que são sem sombra  de dúvida  maus tratos a animais como espectáculo. A escravatura, o tráfico de droga,a prostituição infantil, a caça a espécies protegidas e até a guerra pode ser defendida com os 3 primeiros argumentos, quanto ao último, desculpem lá mas entre criar uma raça só para a atormentar e não a criar…a escolha não me parece complicada.

Na Idade Média  e até ao início do século XIX, atiçavam-se cães a touros e ursos e a populaça aplaudia. Há uma  noção fantástica , negada pela Igreja até lhe ser possível, que é a Evolução, e a Evolução não é só um conceito biológico, é também social e cultural. Começou a olhar-se de modo diferente para os cães e hoje em dia em qualquer país civilizado se alguém quiser  promover uma luta de cães ou de cães contra touros vai  preso. Para os touros ainda se olha como em 1600, bestas bravas que devem e podem ser “lidadas” e enfernizadas para diversão.

Ainda espero ver  e ouvir um aficionado a admitir honestamente : é verdade, os touros sofrem e são afligidos, é essa aflição do touro que provoca o espectáculo, e eu não me importo com isso, não me importo e até gosto de ver um touro a ser atazanado e a reagir. É esse o busílis da questão, admitam.

 

O outro tema é a Venezuela e o caos que lá grassa. Ouço e leio muitos argumentos , dizem-me que dantes era  pior, nos governos da oligarquia. Para os comunistas e pessoas que são comunistas mas têm uma certa vergonha de se designarem como tal apesar de não apresentarem designação alternativa (tipo o Sousa Santos), a minha questão  é esta, e bem simples  : Se Chavez foi eleito em 1999, se o chavismo governa a Venezuela há 18 anos, como é que a responsabilidade da situação é da oposição ou do estrangeiro?

18 anos de poder , incluindo uma nova constituição que foi saudada como triunfo do socialismo, e o que há  para  mostrar é isto? Os nossos socialistas mandam há dois, aceito sem problemas que muitos dos falhanços e fracassos se devam ao que vem de trás, mas 18 anos? Mas estão a brincar com isto? Se 18 anos de poder quase absoluto não chega para criar alguma coisa que se veja, se em 18 anos 75% das pessoas estão contra o governo e um maço de notas não compra um pão, quando há pão, a culpa é dos outros? Quanto tempo é preciso a um projecto socialista para se impor e resultar? 30 anos? 40?

E a oposição, e aqui é que está o busílis desta questão, a oposição tem direito a existir ou não? É que na Venezuela, ainda no tempo do Chavez, fechavam-se jornais e TVs que fossem do contra, metiam-se políticos na cadeia e correligionários nas empresas, censuravam-se as notícias, desfavoreciam-se oponentes políticos, cerceavam-se liberdades e , tal como hoje, perseguia-se , insultava-se e prendia-se a oposição. Queria ouvir de uma vez por todas um comunista, bolivarianista ou parecido a admitir que a oposição não se pode permitir, porque é isso que é evidente: não se dá espaço, não se dá voz , não se admite que haja quem seja contra.

Dos portugueses adeptos deste marxismo tropical que deixou a Venezuela como está, só se ouve que a oposição e os protestos são  manipulados (gostava de saber como é que se manipulam 75% da população de um país para ser contra um governo benevolente e competente mas essa parte já não explicam)  e chamam democracia a um regime que não tolera oposição. Esse é que é o busílis.

Tal como no caso das touradas, gostava de ver um comunista ter a coragem de admitir o cerne na questão:  não se pode dar espaço nem representação nem poder a quem é contra o governo, só pode haver um partido .

É uma tristeza e uma vergonha.

Os Escuteiros, Trump e Marcelo

Fui escuteiro vários anos, até à idade em que tem piada e vale a pena , lá pelos 16. Depois disso, é bom para quem quer  orientar e organizar os pequenos. O Escutismo ensina trabalho de equipa, respeito pela natureza, desenrascanço, criatividade, serviço cívico, descoberta dos espaços abertos e leva os miúdos para a rua e o mato, coisa que acho muito importante , hoje mais do que nunca, quando cada vez mais a população é urbana e a juventude é digital.

Recomendo a toda a gente com filhos pequenos, até a religião que é forçosamente parte das actividades do CNE não é nada de grave, há o respeito por tradições e rituais mais não há nenhuma lavagem cerebral nem imposições drásticas e de qualquer maneira não é levado mais a sério do que a maior parte das pessoas leva a religião, são umas fórmulas que se observam e umas coisas que se dizem, uma missa aos Domingos, procissões nos dias santos e essas coisas.  Para os religiosos sérios há outras organizações de jovens mais, digamos, militantes na parte da fé que se asseguram de que os miúdos não começam a pensar ou questionar enquanto acampam.

Todos os Verões há grandes acampamentos de escuteiros pelo mundo fora que juntam dezenas de milhar de jovens e os padres e políticos, na devida medida e proporção, incrustam-se como fazem sempre que podem e que há multidões. Nos Estados Unidos o Presidente é o chefe Honorário dos Escuteiros. O actual Presidente americano é um burgesso mentiroso, ignorante , indecente e sem um pingo de classe, de um egocentrismo sem paralelo na História moderna. Quem duvida disto é porque não se deu ao trabalho, ou não é capaz , de ver e ouvir os seus discursos e intervenções , desde a campanha até por exemplo ontem à noite.

Não é por ele ser de direita , xenófobo ou elitista que me mete nojo, a direita tem tanta legitimidade para governar como a esquerda, é por ele ser uma besta acabada que domina mal a própria língua , é capaz de se contradizer na mesma frase e não ter maneiras. Quando uma pessoa diz “sou muito rico” e “sou  muito inteligente” as probabilidades são que não seja  uma coisa nem outra. Quando um político tem que vir dizer que “não há caos na administração” a probabilidade é o caos estar instalado.

É ver e ouvir, está tudo registado mas a maior parte das pessoas não se quer dar a esse trabalho ou infelizmente tem que depender de traduções. Tenho um amigo americano que votou nele esperando somente política de emigração forte e um Supremo Tribunal de Justiça conservador, o resto não lhe  importa. Tenho um familiar que o apoia pela simples razão de que ele quer e está a tornar o aborto mais difícil, o resto não importa. Não me lembro de detestar tanto uma figura pública e isto não abate porque costumo ver o Stephen Colbert  e outros como o John Oliver e o Seth Meyers que vão expondo  e comentando as misérias morais da administração Trump e do próprio com um sentido de humor cáustico que pelo menos alivia. Podemos rir-nos dele, já não é mau.

Então o Trump, que nunca perde a oportunidade de falar para uma audiência cativa , foi discursar perante 40 mil escuteiros, e foi tão confrangedor que até o chefe dos escuteiros pediu desculpa. O Obama também se dirigiu aos escuteiros em jamborees, mas em alturas em que tinha que trabalhar ( este não se preocupa com isso) fazia-o em vídeo e deixava uma mensagem de motivação , apreciação e encorajamento à juventude e aos seus sonhos. Este javardo foi para lá fazer campanha, falar de política partidária , de  “matar o Obamacare”, remoer a sua “vitória eleitoral”, gabar-se e , entre outras coisas que deviam chocar qualquer pai de uma criança a ouvir um político, deu um exemplo de sucesso segundo ele o entende , o de um industrial americano do século passado, que ficou rico. O Trump escreve com os pés, tem o vocabulário de um miúdo de 12 anos, massacra a semântica a cada parágrafo e isso nota-se ainda mais quando fala de improviso, por isso isto não é a tradução literal, é mais compreensível . O discurso todo está aqui . Então esse  industrial trabalhou muito na construção e  ao fim de 20 anos “foi-lhe oferecido muito dinheiro pela sua companhia , e vendeu-a por uma quantia tremenda. Comprou um iate muito grande e teve uma vida muito interessante.Não vou mais longe do que isto, porque vocês são escuteiros e não vos vou dizer o que ele fez …. Digo? Devo dizer-vos? (aplauso) .Vocês são escuteiros mas sabem da vida.Vocês conhecem a vida.”

É sabido que a medida do sucesso na América é em grande parte o dinheiro, mas ainda assim pessoas decentes trabalham na ideia de que há , ainda vai havendo, valores superiores e especialmente quando se fala à juventude deve-se fazer um esforço por inspirar para as coisas como deviam ser e não como são, para termos a tal esperança num mundo melhor. Este animal não tem esses pruridos nem deveres de consciência, nem sequer tem consciência e por isso achou apropriado referir como exemplo de sucesso na vida um milionário que vendeu a empresa , comprou um iate e passou a fazer coisas que se hesitam em comentar frente a crianças. É este o Presidente americano, e continua a haver quem o apoie por cá.

Por cá também há acampamento nacional, e o nosso Presidente lá foi. Não encontrei nenhum discurso mas não é preciso: conhecendo a peça sei que vai dizer precisamente o que os ouvintes esperam ouvir numa ocasião destas, que deve ser politicamente neutra. Vai homenagear, reconhecer o trabalho e a história do CNE, não me espantava que tivesse sido escuteiro e vai motivar os jovens a trabalhar por um Portugal melhor. Mais uma ou duas banalidades e declarações óbvias e está ali feito o seu trabalho. 300 selfies, alguns abraços e fica toda a gente contente. Antes assim, mil vezes.

 

PS: a Venezuela está em estado de sítio , morrem pessoas às dezenas e oposição arrisca-se a ser visitada em casa a meio da noite pelas milícias do regime. Foi preciso chegar aqui para que figuras como Daniel Oliveira, Rui Tavares ou as manas Mortágua criticassem o Maduro e a herança do Chavez. Passaram 13 anos a defendê-los enquanto dezenas de pessoas (humildemente incluo-me no número, está tudo aí escrito) diziam que ia acabar mal, só podia acabar mal. Agora já acham que está mal. Além desses a quem as evidências impedem de continuar a defender o Socialismo Venezuelano temos outros como Louçã e o Sousa Santos, para os quais a crise se explica pela queda dos preços do petróleo. Não me consta que algum jornalista lhes tenha perguntado : Então o preço do petróleo só caiu para a Venezuela? E as dezenas de outros países produtores de petróleo em que ainda há papel higiénico e fraldas nos supermercados e a polícia não anda  a matar gente na rua? Como é que isso se explica?