Aí está

Os regimes autoritários nacionalistas estão à vista de quem quiser olhar.  Os elementos estão todos no lugar , desde a xenofobia ao primado da repressão, os inimigos externos, o passado de grandeza, as narrativas religiosas, o controlo da informação, a corrosão das instituições, os entraves à liberdade de imprensa.

Na Hungria, em Itália, na Turquia , na Inglaterra dos Brexiteers, na França da  Le Pen, na Polónia, na China, na Rússia e claro, nos Estados Unidos, o autoritarismo nacionalista ou se instala ou está cada vez mais confortável. A popularidade destes regimes cresce, a democracia liberal anda a perder encanto pelo mundo, ao que parece.

A história de separar as famílias dos emigrantes ilegais na fronteira sul dos Estados Unidos  é sintomática e exemplar de limites que se estão a ultrapassar no Ocidente. Não se trata das condições dos campos ou da legalidade das acções da polícia e do Estado, trata-se simplesmente de constatar que isto são pessoas que não hesitam em fazer sofrer crianças,  traumatizá-las para a vida,  por um objectivo político. É ignóbil, mas o Trump consegue sempre descer mais um degrau na escala da abjecção e apesar de poder acabar com aquilo com um telefonema,  culpa os democratas. Porque não querem reformar a lei geral e dar-lhe o seu muro.

Na Europa os problemas da imigração vão ser cada vez mais importantes , cruciais no caso dos homens fortes que querer  meter ordem nisto e que vão encontrar aí o bombo da festa, o bode expiatório principal. E claro, há que meter  medo a toda a gente para justificar o aumento da militarização e segurança e … a história é conhecida. Na China já existe um dispositivo de pontuação social, são-nos dados e retirados pontos na medida em que temos comportamentos ou palavras que agradem ou não ao Estado. Tipo pontos na carta de condução, ou andas na linha ou as coisas não te correm bem.  É o horror orwelliano, e é já hoje.

Quando pensamos em todos os temas , estruturas e organizações dos estados totalitaristas “clássicos” do Século XX e as imaginamos potenciadas pela revolução digital e de informação, temos que ter medo.

Em Portugal? Duvido bastante, creio que a nossa vacina ainda está dentro do prazo de validade mas o mundo não só dá muitas voltas como dá-as cada vez mais depressa. Ainda ontem vi duas coisas , desculpem a repetição, sintomáticas dessa deriva: uma quantidade enorme de pessoas ofendeu-se, protestou e insultou sem medida porque na marcha do orgulho gay de Lisboa alguém levou uma bandeira do arco íris e no centro a esfera armilar e o escudo de  Portugal. Levantou-se uma celeuma absurda  que mostrou claramente que há muita intolerância e ódio recalcado que quando apanha uma aberta assim , uma ofensa aos símbolos da Nação! , sai cá para fora tipo pus.

O respeito e sentimento todo que tenho pela bandeira do meu país não está nem de perto nem de longe ligado ao estado da bandeira em si, ao modo como foi dobrada ou se foi seguido o protocolo. E os elementos da bandeira são mesmo isso, elementos , pode-se fazer qualquer coisa com eles e toda a gente deve poder andar com a bandeira que quiser… desde que não hasteie a bandeira que quiser num edifício público. Para mim é mais ou menos isto, mas para os nacionalistas  foi uma oportunidade de mostrar  o seu desrespeito pela liberdade e a sua homofobia. Não sei se isto está a crescer ou diminuir em Portugal mas seria importante saber.

A segunda foi o Marcelo numa selfie com duas russas no metro de Moscovo. Tinha ido cumprir esse dever constitucional do presidente que é acompanhar a Selecção Nacional em todas as fases do Mundial. Antes disso tinha sido confirmada a sua actuação com os Xutos  no Rock in Rio e fiquei meio pasmado ( pasmado por completo já não) ao ver uma fila de dezenas de pessoas na feira do livro para tirar uma selfie com ele.

Porque é que isto importa no contexto do autoritarismo nacionalista? Porque este presidente que temos está a escancarar a porta a um candidato cuja  qualificação seja ser famoso, dizer o que as pessoas querem ouvir  e ficar bem na fotografia.

Isto não está muito bem encaminhado –  frase que poderia terminar crónicas deste género há séculos.

 

 

 

 

 

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Sofrer até Deus querer

Desejo a todos os deputados que votaram contra a despenalização da eutanásia uma agonia prolongada no leito de morte, já para lá da idade de recuperação possível. Desejo-lhes, a eles  e às famílias, anos e anos de olhar para o tecto sabendo que não há cura, é para a morte que se caminha e há que continuar a sofrer. Porquê? Porque é a vontade de Deus. Como é que temos a certeza disso? Não temos.

Não esperava que este debate e votação fossem acontecer , só quando um grupo do CDS publicou um cartaz em que avisava que “a eutanásia mata” é que percebi que o tema tinha voltado, desliguei outra vez por ter uma boa noção do nível dos nossos deputados e das nossas “campanhas de sensiblização”. Felizmente não houve referendo, já é demais o número de pessoas que confunde eutanásia com eugenismo e o nosso nível cultural , neste tipo de debates, é sempre marcado pela religião. A nação fidelíssima e catolicíssima continua a carregar todos os preconceitos e ideias da sua religião, não percebe nem admite bem os que já deixaram essa religião para trás e pior, continua a querer (e conseguir) impôr as visões religiosas a toda a gente. Levaste àgua pela cabeça abaixo em pequenino e recitaram umas fórmulas mágicas na ocasião? Parabéns, és um católico e daqui em diante tens uma série de coisas que não podes pôr em causa nem questionar.

Tenho a ideia de que a Constituição impõe a separação clara entre Igreja e Estado mas apesar disso , como vimos mais uma vez ontem, muitas vezes o Estado legisla em conformidade com a Igreja, mesmo frente a oposição clara. Façam um exercício intelectual e tentem pôr de lado os argumentos religiosos como a sacralidade absoluta da vida humana e depois avaliem a questão da morte assistida. Em qualquer sistema moral que não esteja prisioneiro de dogmas de religião o caso contra  a despenalização da eutanásia é fraquíssimo, mas o nosso, com todas as hipocrisias inerentes, é de base católica e assim fica.

A minha querida mãe é muito devota e tem muitas expressões engraçadas, aqui há uns tempos, depois de resolvidos uns problemas difíceis que tive, dizia-me uma das suas favoritas: “Deus aperta mas não afoga”. A minha querida mãe acredita e ama um Deus que se entretém a apertar os pescoços das pessoas só para ver até quando é que aguentam, e depois, na sua magnanimidade , omnipotência e amor, larga o aperto e recolhe a gratidão dos seus filhos por não os ter afogado. Isto é hediondo, esta glorificação e aceitação do sofrimento. Mesmo que acreditassemos que as escrituras são a palavra factual de Deus, mas que Deus é esse que se contenta e alegra  com sacrifícios e sofrimento? Alguém me responde ou tem que ser a chapa cinco,  as vias são misteriosas , que dá sempre para tudo?

Defendo que os cristãos, ou os adeptos de qualquer outra religião, devem ter toda a liberdade de seguir, acreditar e praticar o que lhes pareça bom e plausível. Defendo igualmente que os cristãos, e os outros, devem deixar os que não acreditam levar a vida como lhes aprouver e deixá-los arcar com as consequências.  Não façam nada, nunca, que vá contra a vossa doutrina (claro que aqui a hipocrisia abunda e fede, milhares destes católicos anti eutanasia rebentam com outros  mandamentos numa base diária), não participem em nada que vos ofenda, e assim asseguram a vossa integridade.

Agora, deixem é em paz todos aqueles que não têm o mesmo conjunto de regras e que sobretudo não vos querem obrigar a fazer nada. Nem sequer o Estado tinha que intervir na eutanásia via SNS, bastava que autorizassem clínicas particulares a fazê-lo, e pronto, resolvia-se a questão. Mas não, celebre-se um Te -Deum, a justiça prevaleceu e milhares de moribundos agonizantes vão penar por mais uns meses, a custo enorme em dinheiro, ansiedade, tristeza e desgaste das famílias, prolongando assim um fim inevitável. Deus vai ficar certamente contente com todo esse acréscimo de sofrimento que pelos vistos lhe agrada.

Este negar da possibilidade de pôr  condignamente termo a uma existência completa que chega ao seu fim, prolongando o sofrimento humano até já não ser possível, é das coisas mais amorais que conheço na nossa sociedade. Amorais e estúpidas.

O Último Jogo do Sporting

Amanhã é a final da Taça de Portugal, não tenho memória de um jogo tão envolvido em drama como este. Este drama deve parecer ridículo para quem não liga ao futebol e divertido para todos os que querem a ruína do clube ou que perseguem interesses particulares e que usam o clube como um simples meio.

Pedindo desculpa aos leitores aos quais o tema compreensivelmente enoja, e pedindo-lhes que me desculpem a fraqueza, não sou capaz de deixar isto passar sem fazer (mais) alguns comentários.

  • É preciso  compreender que nenhum adepto de nenhum clube quer o bem de outro clube. Estou a falar de adepto e não de simpatizante ou curioso, e se um benfiquista ou portista me disser que quer o bem do Sporting está a ser hipócrita. Pode ser-lhe indiferente, pode não lhe querer mal, mas certamente que não lhe deseja honestamente sucesso .
  • É preciso perceber o trabalho que este presidente fez no clube. As contas são públicas e claras, com mais ou menos engenharia financeira o clube recuou da beira do precipício e CRESCEU. Isso incomoda e ameaça muita gente.
  • É preciso compreender que durante décadas o SCP foi coutada de um grupo selecto que entre herdeiros do fundador e restante círculo de pessoas de classe olhavam para aquilo como uma espécie de clube de campo, um passatempo. Um dos últimos presidentes do desastre, Soares Franco, demorou-se ontem mais tempo na televisão numa entrevista a excoriar este presidente do que costumava dedicar diariamente ao clube. Esta classe não pode nunca perdoar ter sido afastada e tudo faz e fará para voltar ao poder.
  • É preciso compreender a toxicidade e massacre de falsa informação que surgiu nesta última semana, quando o SCP está à beira de ganhar o segundo título da época, o que normalmente irrita quem não só não ganhou nada como nunca se cansou de apregoar que o SCP não ganharia nada. Para  segunda feira está prevista uma operação financeira importante, que devia ser torpedeada por todos os meios.
  • É preciso compreender que a melhor maneira de abafar notícias más é promover outras piores e não é preciso procurar muito para ver revelações sobre os adversários suficientes para levantar o caos e provocar demissões  num país mais equilibrado que o nosso.
  • É preciso ter a noção do poder dos grupos de comunicação social quando escolhem um alvo e entender que   50 pessoas vêm o barro que é atirado à parede mas  só 5 eventualmente vêm quando não cola. Além disso, e isto não é novo desta semana, a dualidade de critérios na imprensa e a facilidade com que se mente e manipula é por demais evidente, dou quatro  exemplos que vi em três dias: 1, BdC anuncia conferência de imprensa sobre a situação, toda a gente especula , ele diz que não se demite . “Jornalistas” comentam um para o outro , em directo : “BdC não se demitiu como esperávamos” . 2 , revelam-se suspeitas de corrupção do Estoril , título e comentário na TV : “O Estoril foi corrompido pelo Sporting e alegadamente pelo Benfica”. O nível e qualidade da prova são idênticos. 3 , uma TV passa o dia todo a promover : Jorge Jesus vai apresentar provas contra BdC. Chega o fim do dia e JJ desmente pessoalmente ter provas de seja o que for. 4, Alardea-se que os patrocinadores desertam o SCP, o SCP esclarece, com todos os documentos pertinentes, que o mais importante desses está em incumprimento com o clube há meses, ou seja, aproveitou a onda para se livrar de um contrato que não consegue cumprir. Qualquer grunho com uma selfie com o presidente é apresentado como amigo dele e por isso tudo o que diga é aceite sem contraditório,  publicações do calibre de uma TV guia   a fazerem capas sobre uma das filhas do BdC em termos escabrosos, nada está seguro, tudo se viola e achincalha e publica-se seja o que fôr desde que sirva para incendiar.
  • A lista podia continuar,  assim se difunde uma imagem de desagregação que o adepto médio não tem estômago, tempo ou interesse em desmontar ou perceber.

Apesar de reconhecer e estar verdadeiramente agradecido por tudo o que fez pelo clube acredito que o BdC já não tem condições de continuar, muito por causa da imagem e anticorpos criados nos próprios adeptos,  muito por sua culpa, por causa do estilo, de todas as guerras que comprou, da incontinência verbal, de várias atitudes pouco dignas e da defesa e proximidade dos hooligans.

Espero ver investigadas até ao fim todas estas alegações e indícios de corrupção e os culpados punidos, sejam quem forem, e o clube se for caso disso. Quanto à vergonha que se passou em Alcochete, espero igualmente conhecer a verdade e ver os culpados punidos, mas a verdade não é o que está nos jornais no dia seguinte, é o que se descobrir pelas investigações, interrogatórios e processos na justiça.

Bruno de Carvalho há-de sair , mas não é quando os queques de Lisboa , os clubes adversários e os jornais e televisões  quiserem e exigirem , é quando os sócios quiserem e como mandam os estatutos.

Aos abutres e hienas que dizem a rir-se que o Sporting vai acabar amanhã ou que vai fechar na segunda feira quero mandar aqui veementemente e sem desculpas para a real puta que vos pariu . O Sporting não é um grupo de hooligans, um presidente desequilibrado ou o brinquedo de uma elite. São centenas e centenas de milhar de pessoas de bem, atletas e adeptos  que construíram e vão manter o Clube como o  que tem mais títulos desportivos no mundo inteiro. O Sporting vai sempre competir e jogar , desde o futebol nem que seja na distrital  até ao ténis de mesa no campeonato do mundo, e de cabeça erguida.

Uma final é sempre um jogo importante, mas a de amanhã é só mais uma na História.

 

Estado de Choque

Uma das muitas vantagens de viver aqui é não ter que conviver com adeptos dos clubes rivais tão ferrenhos como eu, nunca os ouvir nem aturar. Bastava-me não ir ao mais importante café da vila em dias de jogo, e não me custava nada ouvir uma  boca cruzada de vez em quando, entrava-me por um ouvido e saía-me por outro, até porque o nível do debate que ouço é quase sempre inane.

Claro que conheço vários portistas e benfiquistas mas nunca me chatearam, por uma  simples razão : eu nunca os chateei  a eles. Toda a gente sabe  que eu sou  do Sporting porque todos os jogos lá estava em frente à TV num café, e quando esse fechou, no outro, mas sempre. Quando o SLB foi campeão ouvi um foguete  e passaram na estrada ao pé de casa uns 5 carros a apitar, depois passaram para baixo e foi só isso, este ano com o FCP foi só o foguete.

Não tenho TV, uma das principais razões de nunca desconfiar muito nem me fartar do Bruno de Carvalho, nunca o via nem o ouvia e muito menos aos abjectos programas de TV que moem e remoem e regurgitam e voltam a remoer questões e pormenores de merda com um nível de merda, em todos os canais.  Como é que sei que eram abjectos se não os via? Porque me bastavam excertos de 5 ou 10 segundos que ia apanhando na net e porque lia o suficiente sobre os comentadores e jornalistas em sentido lato que durante anos fizeram de fomentar a discórdia e espalhar intrigas e  ódio o seu ganha pão.

Via as capas dos jornais quase todos os dias e sempre soube que um dos mais graves problemas do desporto português era ter 3 jornais  desportivos diários . Como somos um país que não se interessa por desporto que não seja o futebol esses três jornais dedicam 95% ao futebol e têm que arranjar material para encher páginas todos os dias, dia após dia, num país do tamanho do nosso. Quem não sabe, inventa, e eles nunca se fizeram rogados. Não sei como é possível alguém acreditar que um jornalista português se especializa em desporto e não tem um clube preferido, mas é o que se fingiu acreditar e talvez ainda finja. As pessoas que seguem o tema compreendem-me perfeitamente, às outras não as vou estar a enojar com exemplos.

O meu avô era sócio 1900 e tal do SCP e o meu tio materno era Leão de Ouro, esse tio morreu o mês passado e teve com isso a graça de ser  poupado a isto que vivemos hoje, ia-lhe partir o coração. Ofereceu-me uma assinatura do jornal do clube, pensei, se é para saber como vão as equipas e o clube realmente mais vale confiar nos meus do que nesta seita que, comprovadamente, faz todo o dia fretes aos adversários e além do mais não tem nada de realmente importante a informar. As TVs fazem directos de um aeroporto se uma equipa vai jogar ao estrangeiro ou se chega um jogador, certamente que não sou o único a achar isso um absurdo mas sempre foi assim. Como é possível?

Quando o meu sobrinho mais velho tinha 5 anos cheguei um dia a casa da minha irmã e comecei-lhe a falar de futebol. “Sou do Benfica”, tentou ele. Peguei-lhe, fomos ao estádio (felizmente mora ali ao pé) , comprei-lhe um equipamento completo com nome nas costas e tudo ( felizmente nessa altura podia) e no fim de semana seguinte fomos ver um Sporting – FCP que vencemos com um golo do Marius Niculae. Remédio santo, o meu sobrinho  é sportinguista de gamebox, e  percebe muito mais de bola do que eu, por ter jogado…nas escolas do SCP, e se calhar até podia ter dado um bom trinco ou defesa central mas felizmente teve juízo.

No mês passado ao telefone os outros cinco sobrinhos pequenos que tenho fizeram questão de me lembrar que este ano no Natal era para irmos  ver o Sporting como eu tinha prometido, eles nunca se esquecem, moem a cabeça ao meu irmão com isso e eu já fazia contas à vida e ao calendário. Já lhes tinha dito que nós não ganhamos sempre, aliás, ganhamos muito raramente , mas que isso não é tudo. O importante é dar sempre o melhor, jogar com lealdade,  e lutar até ao fim. Para nós que não jogamos, o importante é a festa,os amigos , a conversa, a emoção e saber que de cada vez que começa um jogo nós temos sempre a possibilidade de o ganhar. Estas últimas já não me lembro de lhas ter dito mas acreditava nisso e certamente que lho diria se este Natal fôssemos a Alvalade. Creio bem que não vamos. Já não tenho condições para arcar com a responsabilidade de ter sido quem pegou a doença do futebol  àquelas crianças.

Ainda estou em estado de choque com as notícias dos últimos dias, primeiro com o vandalismo na academia em Alcochete. É-me muito difícil compreender como é que um adepto de um clube faz uma coisa daquelas, o que é que eles esperavam com aquilo, o que é que pensaram que ia acontecer? Que se iam safar? Que os jogadores iam jogar melhor? Que ninguém ia saber? Que 99,9% dos adeptos não os iam detestar para todo o sempre? Como é que se atinge um grau tão alto de estupidez e maldade colectiva a ponto de ir bater nos atletas do próprio clube? De tantos “agentes desportivos” em que podiam bem ter enfiado uns pares de bofetadas  (o Expresso hoje fez uma notícia com o título : NOS estaria a pensar rescindir o contrato com o Sporting” , apreciem  esse título com calma, publicado depois de a NOS ter desmentido qualquer intenção dessas) foram agredir os jogadores . Ah , estás a ver , também tu a incentivar a violência, não estou a incentivar nada, estou a dizer , depois dos factos, que entenderia melhor se tivessem sido outros os alvos.

Depois das cenas miseráveis em Alcochete, quando ainda andava aqui à procura da rolha, a pensar quem me dera ter um sportinguista com mais de dois neurónios aqui ao pé, de preferência um amigo, com quem falar e desabafar sobre isto, a pensar na vergonha imensa que uma acção dessas traz ao clube e em tudo o que levou a isso , eis que sou brindado com a noticia de que a PJ prendeu dirigentes do SCP, indícios de corrupção. Ainda não me aguentava bem de pé e ia caindo outra vez.

Há um ano que se revelam regularmente indícios de corrupção e tráfico de influências de outro clube , não via acontecer nada mas mantinha as esperanças . No dia a seguir a  serem revelados esses indícios no meu clube há logo prisões. Como é que vocês se sentiam? Não só verem  confirmadas as suspeitas de sempre de que em Portugal há dois ou três pesos e  outras tantas medidas como afinal, o vosso clube, que vocês acreditavam não uma virgem pura mas ao menos um clube com quanta dignidade quanto possível manter no futebol, também é corrupto. Um presidente cujo cavalo de batalha era a verdade desportiva também permitiu isso. Traição da mais vil.

Como não acredito que em Portugal se prendam pessoas, tarde ou cedo, por meras suspeitas, não faço como a esmagadora maioria dos adeptos adversários que, até hoje, quando os confrontávamos com os indícios claros de corrupção no seu clube, nos mandavam jogar à bola e diziam que não havia ali nada a não ser  inveja, ressabiamento  e cabalas.

O que fazem ou não aos outros já não me interessa, não espero que aconteça nada, quem pode é que manda,  o que espero e exigiria se pudesse exigir alguma coisa era que no Sporting a direcção se demita já , toda,  que  a direcção seguinte extinga as claques e interdite em perpetuidade os hooligans do estádio.Depois disso, a serem provadas as acusações de corrupção, que tudo indica ser fácil ( não tanto como ler 5gb de emails oficiais de um clube mas ainda assim fácil) , que nos façam a única coisa que pode aliviar um pouco a humilhação tremenda por que passam agora todos os sportinguistas honrados : descida de divisão , para as distritais se for preciso, e retirada dos títulos que tenham sido conquistados com práticas corruptas.  Expiação.

Domingo é a final da Taça de Portugal. Os jogadores já disseram que vão a jogo. O treinador, não faço idéia mas deixem um  dos juniores orientar a equipa que vai dar ao mesmo. As bancadas vão estar cheias de leões profundamente tristes e envergonhados mas que nunca abandonariam a equipa. O presidente da república , ambas as palavras deliberadamente com minúsculas , já disse que não se sentiria à vontade  na tribuna com o que ainda é , queiramos ou não , o presidente do clube. Também acordou agora  para a violência e corrupção no desporto e não pode deixar de cavalgar a onda, a única coisa que sabe fazer . Já lhe tenho asco.

Talvez haja violência, basta irem as claques em peso com as tarjas e cores para atrair muito sportinguista que não é de claque nenhuma e está cheio de vontade de lhes dar um bocado do próprio veneno. Piorar não pode, eu gostava de os ver a levar nos cornos do Jamor até Carcavelos à frente da polícia de choque, esgotei a tolerância, todo o bem que fizeram ao clube sob a forma de apoio durante os jogos foi por água abaixo. Com grupos organizados de adeptos tem que ser à inglesa, importamos tanta merda do estrangeiro todos os dias , as coisas boas tardam ou não chegam.

A final da Taça costuma ser uma festa mas este ano, mesmo que o SCP ganhe o jogo, o que está muito longe de ser garantido, não vai haver festa nenhuma nos corações dos verdadeiros sportinguistas, o mal está feito e o tempo de recuperação de  coisas destas mede-se em anos.

Quanto ao que agora calculo estarem a debitar os comentadores e politicos e jornalistas, todos a falar sobre o que deve ser feito , desconfio que não vai ser feito nada ou quase nada. Se bem conheço estes calhordas calculo que se vá criar mais um organismo estatal com mais uns directores e subdirectores a peso de ouro para encomendar uns estudos que vão concluir que há muita violência e corrupção no futebol e que é imperioso fazer alguma coisa. Os jornais e as televisões vão prosseguir tal e qual. O  FCP é campeão pelo que não tem interesse nem vontade de mudar nada e até porque o seu processo já foi arquivado. O SLB está protegido por 6 milhões de adeptos,  juízes, primeiros ministros, inspectores, jornalistas e  todos os bons chefes de família e todas as cúpulas que podem decidir e metem medo a quem tem cu, como se costuma dizer. Cabe ao SCP, agora atolado nesta miséria, expurgar-se a si próprio, aguentar a humilhação, descer de divisão se for preciso e renovar-se. Se descermos de divisão recupero o meu antigo número de sócio,  volto a pagar quotas e levo os meus sobrinhos à bola, para lhes explicar que somos um grande clube, tão grande como os maiores da Europa mas que estamos a jogar com o Cascalheira e o Real de Massamá por causa de ganância, falta de carácter, desonestidade e mentira, e se não querem acabar a jogar com os cascalheiras da vida têm que evitar essas coisas como a peste.

O Diogenes era um filósofo cínico que costumava andar pelas ruas da sua cidade de Sínope, carregando uma lanterna durante o dia , dizia que estava à procura de um homem honesto. É desse homem que o Sporting Clube de Portugal precisa agora, um homem tão difícil de encontrar que é precisa uma lanterna à luz do dia.

 

 

Judas

Por altura da Páscoa fartei-me de pensar no Judas Iscariotes, volta e meia ocorre-me um tema religioso com possíveis inconsistências e incongruências, gosto de as encontrar e dissecar, à medida das minhas possibilidades.

Judas era um dos doze discípulos de Cristo e fez o percurso de apóstolo com os outros onze. A hipótese que me pus foi de que a história do Judas era um modo  de introduzir um mau da fita e apresentar um exemplo de traição, uma espécie de arquétipo do traidor, que é o que nos ficou do Judas. A primeira coisa de que me lembrei foi  “então Cristo entra em Jerusalém em triunfo no Domingo de Ramos, passa  dias a pregar e correr a cidade seguido por multidões mas quando os sacerdotes do templo o mandam prender precisam de  alguém para apontar quem ele é? Era uma figura que não se distinguia no grupo? Ninguém o conhecia e para não levarem o homem errado pagaram a um dos seus para o apontar?”

É um argumento  fraco, sem grande tracção e que pode ser desmontado (mesmo que por exemplo a morte de Judas tenha versões diferentes consoante o evangelista) , e deixei de pensar no Judas… até que o país em peso voltou a falar do José Sócrates.

Um gajo pensa que já nada na política e jornalismo o consegue surpreender mas esta muito recente onda de “vergonha” que assolou o PS e de contrição pelo apoio dado ao Sócrates no passado deixa-me a pensar que temos aqui uma bela cambada de Judas. Enquanto a multidão aclamava e os milagres se sucediam, seguiam em linha com os outros 11 mas quando chegou a acusação e a polícia para levar o líder, quando a situação pessoal está em risco e há dividendos a tirar da crucificação , esquecem a fidelidade e devoção anterior, levantam-se e apontam-no : é este!

Acho que estou acompanhado por muita gente na minha surpresa  com as  declarações de políticos como o J. Galamba ou jornalistas como a Fernanda Câncio, que durante anos dormiram com o Sócrates , literalmente e figurativamente, e não só nunca desconfiaram de nenhuma irregularidade como atacaram  quem se atrevia a apontar o que para muitos era óbvio: este gajo, para viver assim, está a vender alguma coisa que não é dele, aqui há gato.

Dado que a política é porca e vive muito de  insinuações e meias verdades até compreendo que uns mais ingénuos e menos perspicazes acreditassem na honestidade dele. A partir do momento em que o homem é preso, qualquer pessoa racional pensa : alto, estamos numa choldra mas ainda assim não se  prendem pessoas, ainda menos  um ex primeiro ministro, por meras suspeitas, isto já não  é como na Rússia ou  na Venezuela onde se podem mandar para a cadeia adversários políticos só porque são adversários políticos, tem que haver  alguma coisa de substancial. Alguma coisa mais do que as suspeitas que qualquer pessoa lúcida e atenta coemçou a ter a partir do momento em que se conheceu o caso Freeport ( em 2004!!) ou mais simplesmente ainda, a partir do momento em que se sabe sem margem para dúvidas que o homem mentia sobre as suas habilitações literárias : um mentiroso é um mentiroso .

Em vez de andaram a insultar a justiça e os magistrados e a ir oferecer solidariedade pública ao homem na prisão ( felizmente há vídeo e memória e registos dessa canalhada toda à porta da prisão em Évora, incluindo registo do Pai da Pátria a ameaçar um juiz),  tinham-se mantido em silêncio, ou talvez até conseguissem pensar naquela velha máxima da mulher de César e acreditassem que suspeitas dessa gravidade bastavam para se afastarem do homem. Nada disso, foi um festival de críticas aos acusadores e detractores do Sócrates e ao processo todo. Uma vítima, um injustiçado, uma cabala infame.

Isto durou anos até que quase de repente,  na semana passada e sem nada de novo vir a público sobre o seu processo,  os Socialistas começaram a  dizer que o Sócrates os envergonhava, e este retorquiu desfiliando-se do PS.  Já vi um imbecil famoso do twitter que responde à designação vega9000 a dizer que com isso se separaram as àguas e acredito, dado o nível geral, que haja muito  quem acredite que basta dizer “estamos com vergonha” e ao Sócrates entregar o cartão de militante para o separar o PS, é  extraordinário.

Daqui a pouco não vai sobrar no partido um  que se lembre de que defendeu o Sócrates  e que nunca conseguiu suspeitar de nada. Gostava de saber o que é que provocou este clique que fez com que se começassem a arrepender e a condenar  o homem em série, o que é  que está a fazer os ratos abandonarem o navio a toda a pressa. É um bocado tarde, e espero agora um Judas contemporâneo, um discípulo renegado que o vá apontar inequivocamente aos que o querem prender, entregando às autoridades  um calhamaço de documentos que demonstre sem margem de erro o que toda a gente sabe: o Sócrates é um corrupto e um aldrabão que à falta de tempo de cadeia devia pelo menos desaparecer.

Já agora, por falar em pessoas que nunca desconfiaram de nada não souberam nada nem disseram nada, temos este:

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Passou de se sentar na bancada VIP com o dono disto tudo, certamente sem nunca suspeitar dos tentáculos e métodos usados pelos Espírito Santos, porque apesar de inteligentíssimo e sagaz essa parte era muito difícil, para regressar ao Estoril sentado num “lugar comum”, pago pelo próprio, pensando que com essa encenação reforça a imagem de homem do povo. A seguir ao jogo foi ao balneário tirar uma foto com o vencedor enrolado numa toalha, elevando assim mais uma vez a dignidade do cargo. Temos o que merecemos.

 

 

O Museu das Descobertas

Li  um artigo  só  porque tinha no título “choldra“, é um termo de que gosto muito, ainda o ano passado ano reli Os Maias e quase me arrepiei com a quantidade de parágrafos que podiam  ter sido escritos hoje.

Não vou comentar o artigo, digo só que o achei deprimente e realista, acho que não se consegue ser realista sem ser um bocado deprimente e pela parte que me toca já desisti de esperar que Portugal mude para melhor. É uma choldra mas é a nossa choldra, e ou emigramos (hoje já não é um drama emigrar como foi durante o governo do Passos) ou aceitamos e seguimos com a nossa vida o melhor que pudermos. Portugal é isto e disto não passa, para usar uma expressão comum aqui na ilha. Quanto mais cedo aceitarmos isso mais poupamos os nervos e melhor  podemos organizar a nossa vida.

Bom, estava então a deprimir-me um bocado com o artigo quando vejo que há um projecto para a criação de um Museu das Descobertas, em Lisboa como não podia deixar de ser.

Uma das características da nossa choldra é que na cabeça do que entre nós passa por elite Portugal é Lisboa e “descentralizar” é um termo que deve sempre permanecer teórico e abstracto e nunca, mas nunca ser  aplicado consequentemente, como  ficou demonstrado pela rábula da mudança do Infarmed para o Porto. É um termo a utilizar por políticos em campanha pela província,  para esquecer na viagem de regresso à capital.

E onde querias tu um Museu das Descobertas sem ser em Lisboa?” Assim de repente ocorre-me Lagos , onde viveu grande  parte da sua vida uma figura que teve alguma importância nas Descobertas e é conhecido por Infante D.Henrique. Lagos foi  o porto de onde partiram as primeiras verdadeiras viagens de descoberta e  foi o centro da navegação  e expansão Atlântica durante décadas. Mas não  deve ser,  Lagos já tem turismo que chegue, ou talvez turismo a mais  (acho que isso agora é um problema, como não podia deixar de ser depois de termos turismo a  menos) , se calhar até alguém sugeriu isso mas os outros riram-se todos com a ideia de fazer uma coisa dessas  fora de Lisboa.

Sobre este futuro museu não sei mais nada, nem me vou dar ao trabalho de saber, só soube pelo mesmo artigo que existe polémica. Ao que percebo há um grupo de historiadores e cientistas  sociais que tem objecções, ou à própria existência do museu, ou ao seu nome, ou a ambas. Deixem-me adivinhar, a liderar o contingente dos historiadores está o Fernando Rosas, do lado dos “cientistas” está o Sousa Santos. Ponho “cientistas” entre aspas porque em fazendo meia dúzia de  cadeiras que tenho em atraso há  mais de 20 anos davam-me um papel a dizer que sou licenciado em ciências sociais, isso bastaria para me apresentar como “cientista social” mas o meu sentido de humor tem limites .

Como lembra o autor do artigo e como dizia o João da Ega, “aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete”. Substituindo o paquete pela internet e a easyjet e acrescentando à lista as causas e indignações, isto é  verídico cento e tal anos depois de ter sido escrito. Nos países anglo saxónicos e boa parte do resto da Europa hoje caminha-se sobre brasas e não só as figuras públicas se torcem e retorcem para evitar ofender seja o que for (este torcer e retorcer só é possível a quem não tem espinha dorsal) como nunca pára a denúncia e indignação com o que sai fora do cânone da “modernidade” e dos estabelecido como correcto. Exemplo recente, no Reino Unido dois tripulantes de um salva vidas foram despedidos porque tinham canecas com mulheres nuas e o comissário político que os controla escandalizou-se e arranjou maneira de os despedir. Em 2018 é ofensivo que marinheiros profissionais bebam o seu café em canecas com um desenho ou foto de uma mulher nua. Este pessoal  ofende-se com muito pouco, e isso só é grave porque de cada vez que se ofendem com merdas sem jeito nenhum arranjam maneira de encravar a vida ao próximo.

Então parece que falar em “descobertas” ofende ou incomoda muita gente. As ciências sociais (sem aplicar o método científico por ser impossível neste caso) proclamam que  a expansão marítima foi negativa, para não usar palavras mais fortes. A historiografia de esquerda abomina-a e nunca perde uma oportunidade de apresentar os seus protagonistas como bestas furiosas e quem os admira hoje como reaccionários fascistóides e insensíveis.

Quero fazer dois comentários, o primeiro quanto à objecção ao termo “descobertas”. Diz-se que Índias e outras paragens não foram descobertas porque já lá existia gente e essa gente, mais os vizinhos, já sabia naturalmente da existência dessas terras. Isto é um bocado como dizer que o Fleming não descobriu a penicilina, uma vez que sempre existiu penicilina, já lá estava, e só porque o Fleming foi o primeiro a identificá-la e descrevê-la isso não quer dizer que a tenha descoberto, é isso? A Marie  Curie não descobriu nenhuma radioactividade porque  sempre houve radioactividade. Este pessoal nunca descobre um restaurante ou um livro, visto que já existiam antes de os encontrarem e já eram conhecidos por outros. Parece-me um argumento miserável.

Que já houvesse habitantes nas terras alcançadas pelos portugueses de 500 não tem nada a ver com terem sido descobertas,  como de resto qualquer dicionário pode confirmar. Se é de palavras isoladas que estamos a falar, nada como usar um dicionário. Se na Europa ninguém sabia da existência do Brasil por mais gente  que lá houvesse, se ninguém nunca tinha falado no Brasil nem fazia ideia nenhuma de que aquela terra ali existia, segue que quem a encontra, localiza, descreve e divulga a descobriu, e isto aplica-se ao Brasil e a todas as outras terras das quais os portugueses foram os primeiros a dar notícias na Europa. É eurocentrismo? Talvez, mas uma vez que somos europeus, vivemos na Europa e estamos a discutir História da Europa não é descabida uma visão europeia , ou é? Em que circunstâncias é que se poderia então falar em Descobertas?

Nunca ouvi dizer que os portugueses descobriram a Índia, descobriram sim o caminho marítimo para lá, podemos contar isso como uma descoberta ou não, uma vez que os oceanos e seus cabos e ventos sempre lá estiveram? É a verdadeira questão de lana caprina que prolifera nas academias e de vez em quando sai cá para fora quando querem dar prova de vida ou envolver-se nos debates da moda, obviamente importados da estranja.

O segundo comentário é quanto aos julgamentos de valor que se fazem dos portugueses de 500 e suas acções. Gente que consegue desculpar e justificar  Castros e Lenines em 2 parágrafos fica agastadíssima com a veneração a um Gama ou Albuquerque. Interesso-me por história colonial e da Expansão desde que me lembro , começou pelos sonhos incendiados em garoto por livros como a versão juvenil da Peregrinação do Adolfo Simões Muller e outras glorificações dos descobrimentos (leituras que não foram estranhas à carreira profissional que segui e à vontade enorme de seguir as esteiras dos navegadores) e está hoje numa visão realista , ninguém me consegue surpreender com  mais um exemplo das barbaridades e crueldades perpetradas no Ultramar e suas motivações.Mais de 20 anos de leituras e viagens tiraram-me as ilusões que tinha quando era garoto e  conheço suficientemente bem a História. Nem de propósito terminei ontem de reler um dos vários livros de VS Naipaul que esclarece bem o tema, nesse caso é a história de Trinidad.  Assim de repente e para quem quer uma introdução rápida às iniquidades e misérias do colonialismo sugiro mais dois,  A Brevíssima  Relação da Destruição das ÍndiasO Soldado Prático , este último comprei-o quando ainda romantizava as Descobertas, a pensar que era sobre a vida diária de um soldado português na Índia e acabou por ser dos livros que mais me chocou na vida, destruiu-me as ilusões quanto à organização e gestão do Império Português e às acções dos portugueses por lá. Equlibrem com qualquer livro do Charles Boxer, bom para dar a dimensão real da coisa e pôr as corrupções e violências em perspectiva e contraste com os avanços e construções.

Um dos problemas é que os que vituperam e demonizam os colonizadores (alguns sem dúvida verdadeiros demónios) partem de uma premissa improvável: tinha sido melhor para, por exemplo, os Guaranis, se o Cabral nunca tivesse descoberto (ou descrito, ou localizado, o que quiserem) o Brasil.  Não sabemos, não temos nem nunca teremos maneira de saber e dizer que só  levámos destruição e caos é ignorar tudo o que também lá criámos, o valor de todas as trocas e o valor para a Europa dessa descoberta. Se não fossem os portugueses seriam os Espanhóis, se não os Espanhóis seriam os Holandeses, o que é mesmo certo é que dada a assimetria tecnológica nunca seriam os Guaranis a atravessar o Atlântico e a descobrir Portugal. É impossível afirmar que não fora o Infante e Cabral e todos os outros os Guaranis , ou os Bantus ou qualquer outro povo, ia ter uma existência muito melhor. Isso é história contra factual e vale o que vale, vale um exercício. Será que a nossa vida seria melhor se não tivesse havido  conjura e Restauração em 1640? Nunca vamos saber.

Outro problema: a ideia falsa mas muito difundida de que os Guaranis, ou os Hindus, viviam numa tranquila, pura e pacífica existência quando  chegaram os portugueses e deram cabo de tudo. Quando por exemplo o Gama chegou a Calicut o Samorim era a autoridade única e absoluta;  uma  vida humana valia pouco mais que nada, a escravatura e o sistema de castas eram regra há séculos, o comércio estava nas mãos  de mercadores estrangeiros e a guerra com os vizinhos (tal como em África e na Amazónia) era o modo de vida aceite e comum. Os indígenas Caribs faziam expedições com milhares de guerreiros às ilhas vizinhas só para capturar e comer outras tribos,  não é razão para lhes roubar a terra mas também mostra que paraísos plácidos e incorruptos existiam era na cabeça das pessoas. É outra que devemos ao Rousseau com o seu delírio do  bom selvagem .

Neste livro , que não recomendo aos “anti descobrimentos” nem a almas sensíveis que se chocam  com grandes feitos de armas e são mais de dar as mãos e cantar o Kumbaya, há uma tabela muito interessante com todos os soberanos do Indostão desde o ano 1001 até 1754. Em 750 anos tiveram 64 soberanos , desses 64, 25 foram assassinados,  vários  pelos próprios filhos. Mais de 1/3 dos soberanos morreu assassinado, aquilo já eram terras de violência extrema e instabilidade quando os portugueses lá chegaram e assim continuaram. Os escravos levados da costa ocidental africana para as Américas eram na sua maioria comprados a outros  indígenas, e quando não a outros indígenas , a árabes que desde há séculos desciam para a África sub sahariana ( ocidental e oriental) nas suas razzias e capturavam e comerciavam gente. Não inventámos nada, a não ser técnicas de navegação e só a extensão dessas, e os feitos marítimos perfeitamente assombrosos, deviam chegar para nos encher de orgulho. Claro que para reconhecer a dimensão de um feito marítimo é preciso compreender alguma coisa sobre navios, navegação e alto mar e para isso os livros não chegam.

Não há que branquear ou escamotear as atrocidades feitas durante a expansão mas por favor nem sequer me tentem convencer com a teoria  que pretende que invadimos um mundo pacífico, ordenado e justo, que fomos nós que levámos a opressão e a guerra e que se os tivéssemos deixado estar  tinha sido melhor para todos.

Não sei quem foi que disse que Portugal deu novos Mundos ao Mundo mas tenho para mim que é verdade, que é o nosso maior legado e contribuição,  termos iniciado a Globalização,  para o bem e para o mal. Quem é contra a globalização e as trocas e contactos entre povos distantes tem que admitir que prefere cada um no seu cantinho, cada raça sua raça sem misturas e  sem comércios. Quem diz que outra globalização é possível  não vive neste mundo e não se lhe pode prestar atenção.

Façam o Museu, não se armem em parvos e chamem-lhe Das Descobertas, façam-no por exemplo na Cordoaria já que é inconcebível que não seja em Lisboa, e encham-no de artefactos, representações  e documentos que mostrem como era a vida cá em 1400, como era a vida no Brasil , África e Índias em 1500, como é que os portugueses lá chegaram, o que é que levaram, construíram e trouxeram   e quais foram as consequências , boas e más,  dessa chegada e presença, para o país, a Europa e o Mundo. Estou seguro de que é possível, assim haja vontade e se excluam da organização os fanáticos dos dois lados, conseguir o equilíbrio necessário entre a visão romântica e a visão dramática, e depois deixem os juízos de valor para cada visitante.

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Termino com mais uma sugestão de leitura sobre o tema, um livro recente chamado “Conquistadores” , que tem a vantagem de ser escrito por um estrangeiro, logo, com um olhar  distanciado e imune às nossa quezílias e posturas internas. Detalha e ilustra bem a aventura extraordinária das Descobertas sem poupar no sangue, horrores e iniquidades mas sem nunca  desvalorizar a bravura,  determinação,  resistência e capacidades quase inacreditáveis daquelas gerações.

PS: vejo hoje que as carcassas da academia desceram das suas torres bafientas para propôr que o museu se chame “Museu da Interculturalidade”. Típico, este pessoal vive no seu universo e nem bate a pestana a propôr para nome do museu uma palavra que uma boa metade  da população não percebe e nem eles próprios conseguem definir sem um subsídio de investigação científica e 72 páginas de elocubrações.

 

Viva o Plástico

O plástico foi das maiores invenções da Humanidade mas como faz parte integrante da vida quotidiana há décadas poucos reconhecem e reparam nisso. Menos ainda conseguem imaginar o que seria a vida  sem plástico e tomam os confortos, comodidades e avanços da Modernidade por garantidos. Consegue-se  ao mesmo tempo utilizar o plástico e demonizar o plástico, coisa que a mim me surpreende um pouco, é um bocado como com o capitalismo, sistema que apesar de ser a origem da modernidade como a conhecemos é todos os dias aviltado e combatido por quem beneficia dele.

Está na moda falar dos problemas causados pelo plástico, nomeadamente ambientais, e não há dia que passe sem um ou seis vídeos no FB a mostrar uma praia cheia de lixo ou toneladas de plástico a flutuar no oceano.

A esses vídeos seguem-se  comentários indignados, é o plástico, é o capitalismo, é a ganância, é a inconsciência, há que exigir uma alternativa ao plástico, há que usar menos plástico. Das centenas de indignados e preocupados há uma mão cheia que toma uma atitude, e geralmente a atitude é levar um saco de pano às compras, deixar de pedir palhinhas com as bebidas e ralhar no facebook contra os outros. Estou à espera de ver um vídeo sobre um   millenial que em vez de moer a cabeça sensibilizar os outros e invectivar o plástico tenha tomado uma atitude séria, consequente e exemplar e eliminado  o plástico da sua vida.

É que isso é perfeitamente possível, é é um bocado incómodo, desconfortável e exige sacrifícios, por isso o que se faz são actos simbólicos e exigências que alguém faça alguma coisa.

Já não tenho paciência para quem me quer fazer culpado do problema  como membro da sociedade ocidental capitalista. Percebo bem quem se choca, eu já vi mais mar que a maioria dos ambientalistas vai ver a vida toda, já vi desgraças ambientais e já me choquei muita vez,  mas o que é sério e para mim triste é que com as exigências e recriminações  se está a falhar o alvo e a confundir um problema gravíssimo, que é o plástico que acaba no mar, na orla costeira e pelas ruas, com outra coisa que é a produção e utilização de plástico, e quer-se reduzir a segunda pensando que isso vai reduzir a primeira. Não vai.

O problema é o lixo, não a sua existência, que é inevitável mas a sua presença nos sítios errados. Se eu for ali acima à lixeira, tirar meia dúzia de fotos e as puser no facebook com a legenda “isto passa-se na ilha das Flores, reserva da Biosfera” aposto que se segue indignação, revolta  e invectivas a tudo. Mas a ilha é habitada, os habitantes produzem lixo, o lixo tem que  ir para algum lado e ali está contido e é tratado. Corram a ilha toda, desde a costa  até aos montes e matos e dificilmente encontram  uma ponta de plástico. Ou seja, aqui toda a gente usa plástico à vontade mas uma ínfima fracção o deita fora do sítio certo e temos um sistema de recolha e tratamento, por isso não é um problema.

Agora andem duas mil e poucas milhas para Oeste daqui e vão ver por exemplo uma cidade como Port au Prince nesse buraco infernal que é o Haiti. Não há tratamento nem recolha de resíduos, os esgotos são a céu aberto e todo o lixo vai dar ao mar. Passados meses parte dele aparece aqui, muito espalha-se por esse Atlântico. O mesmo na Indonésia, no Bangladesh, em grande  parte da China e na maior parte de Africa: as pessoas usam plástico pelas mesmas razões que nós usamos só que o descartam  por todo o lado, por razões também conhecidas: ignorância, falta de educação e falta de interesse e capacidade dos estados e governos.

Tal como a poluição  atmosférica não tem fronteiras , a marítima também não, por isso podia-se interditar e eliminar o uso do plástico em Portugal que as nossas costas e os nossos mares iam continuar cheios de lixo.

Isto não é óbvio para toda a gente, ou se é óbvio é difícil de ser dito porque implica uma crítica ao terceiro mundo e a todos os países, infelizmente são muitos, que não conseguem, não podem ou nem querem resolver o seu problema dos resíduos.

Já estou cansado de ver o plástico tratado como uma praga ou veneno quando a praga é a falta de consciência e educação, já me farta ver todos os dias exigido o fim ou redução do plástico e nunca, mas nunca ver exigido e valorizado o tratamento do lixo, que é o verdadeiro problema.