Sexta Feira Negra

Não percebo bem porque é que não começámos já a celebrar o Dia de Acção de Graças dos americanos, que se assinala hoje, visto que existe muito potencial comercial de comunicação (ie, jornais e TVs a encher chouriços) e mais um  feriadozinho nunca fez mal a ninguém.

Provavelmente ainda nenhuma luminária importou e promoveu o Dia de Acção de Graças por causa dos tons religiosos da coisa, importa-se tudo quase indiscriminadamente mas há limites, uma tradição que junta famílias em agradecimento pela sorte que têm não tem muito apelo no nosso pós modernismo e iam chover críticas. É uma tradição não só do heteropatriarcado como tem laivos de colonialismo e outros ismos, de Acção de Graças ninguém quer saber até porque hoje em dia, como descobrimos que temos direito a tudo e tudo nos é devido (sim, você merece), não faz sentido agradecer a nada nem a ninguém, muito menos em família, essa outra construção artificial que só serve para perpetuar estereótipos .

Hoje não há Acção de Graças mas amanhã já é Black Friday , uma ocasião que  prezo porque me permite criticar ao mesmo tempo cinco coisas que detesto, a saber:

  • A pequenez  de importar tradições estrangeiras sem a mínima relação com o nosso país
  • A parolice de usar nomes em inglês a torto e a direito.
  • O consumismo desenfreado e a gratificação por via da aquisição de objectos.
  • A vacuidade dos meios de comunicação social que transformam  operações comerciais  em assuntos.
  • A mentalidade de manada que faz com que muitas pessoas  gastem  dinheiro a comprar coisas porque veem os outros a fazer o mesmo.

Amanhã então há que encontrar tempo para ir às compras, quer se precise de alguma coisa quer não, mas que digo, é claro que se precisa, a distinção entre bens necessários e bens supérfluos já se esbateu há muito e tenho a impressão de que uma boa campanha publicitária consegue sempre transformar seja o que for numa coisa que faz falta.

No dia a seguir, o Sábado Lilás , vamos poder ver notícias sobre trânsito infernal, poluição, dificuldades económicas, endividamento de alto a baixo, desintegração social, desigualdades e esgotamento dos recursos, mas tudo isso empalidece perante a possibilidade de passar duas horas no trânsito e outras tantas num barracão com ar condicionado cheio de luzes e gente para comprar um plasma por €432, 16% de desconto, imperdível. Depois , já a usar aquele casaquinho que só custou 65€ e que é o sexto dos casaquinhos que teem lá num armário a abarrotar, vão poder pronunciar-se sobre a desgraça das crianças do Bangladesh que trabalham na indústria do vestuário e  de como as pessoas (as outras) só ligam às aparências.

 

 

 

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Um Professor

Sou filho de um professor e se sei pensar, escrever, ler e contar devo-o não só a ele mas a muitos dos professores que tive. Muitos outros andaram lá a ocupar tempo e espaço, eu deixei de ser aluno há mais de 20 anos mas tenho quase a certeza de que hoje existe o mesmo rácio de professores competentes para professores incompetentes. Qual é exactamente esse rácio? Impossível saber , dado que os sindicatos, com a  justificação absurda de que é difícil, injusto e incerto, se recusam a discutir e implementar um sistema de avaliação funcional,transparente e consequente. A única explicação que encontro para isto é a vontade de proteger os incompetentes e desqualificados.

Como se isso não bastasse, defende-se que para ter uma carreira na Educação basta entrar e lá estar, vamos subindo de escalão à medida que os anos passam, cristalizando uma ideia  que toda a gente que já andou na escola sabe que é falsa: quanto mais velhos, melhores os professores e mais devem ganhar.

Não me vou alongar muito sobre a curiosidade que é ver a dra. Mortágua a apoiar a última greve dos professores, greve que segundo quem a convoca serve  para protestar contra a situação provocada pelo orçamento votado e aprovado pela dra Mortágua. Isto é suficiente para uma pessoa poder pensar que está instalada a loucura mas depois lembra-se do Orwell, não só do que ele antecipou e descreveu mas, muito mais sério, que há pessoas, incluindo as Mortáguas, que citam o Orwell sem se darem conta que também era deles que ele estava a falar quando nos explicava conceitos como o duplopensar . Na cabeça dessas pessoas podemos apoiar um governo e votar-lhe os orçamentos às terças e quintas e às segundas e sextas ir para a rua protestar contra o governo, isto ata-me um nó na cabeça mas tenho a certeza de que há argumentos a favor e que demonstram, de um determindado ponto de vista, que é uma atitude não só legítima como necessária e louvável.

Falo dos professores porque ontem participei numa discussão que ainda me deixa incrédulo, não só por ter participado nela  activamente como pelo tema e teor. Então um amigo partilhou no facebook uma notícia da SIC sobre a conferência organizada pela Sociedade da Terra Plana. 

Podem estar a pensar: Como? Li bem,  isso existe? Não estamos em 2017? Pois é verdade, existe, e eu encolhi os ombros e passei à frente, mais uma americanice. Passado pouco tempo aparece-me outra vez a discussão, porque um amigo do meu amigo tinha comentado, com convicção, que até fazia sentido, estavam a descobrir-se muitas coisas e muitos argumentos em favor da teoria da Terra Plana. Meti-me na conversa, num espírito de galhofa. Tal como um creacionista se arruma com uma só palavra, fósseis, também um terraplanista, na ocasião improvável de encontramos um,  se devia poder arrumar com uma outra: satélites. Passado pouco tempo outro amigo manda-me uma mensagem:

– Não te lembras desse gajo? É o não sei quantos.

-Ah, já me lembro, coitado.

-Queres saber a melhor?É professor.

-Não acredito.

-Melhor ainda: professor de Geografia

Fiquei de olhos esbugalhados. Não podia ser. Fui confirmar. É verdade.Levei a discussão mais a sério e fui ficando cada vez mais chocado, porque o homem é claramente uma pessoa educada, articulada e que sabe argumentar, mesmo que os argumentos sejam inanes sabe expô-los e sabe discutir civilizadamente. A discussão é uma espiral de absurdos, cheguei a introduzir desenhos, sim , desenhos e a minha experiência de navegação oceânica que, tal como a de todos os navegadores desde o século XVI, só é possível porque existem métodos baseados num  facto conhecido, observável e demonstrado matematicamente e empiricamente desde o Pitágoras, há mais de 2500 anos: a Terra é redonda.

Não ponho aqui o link dessa discussão porque não quero estar a  identificar e humilhar o homem publicamente mas se alguém tiver real interesse ou duvidar disto, é só pedir e posso mandá-lo em privado .

Já hoje enviei uma mensagem à escola onde ele lecciona (e que divulga publicamente no seu perfil do FB) a pedir que me informem de como e onde posso apresentar uma queixa formal. Sou um defensor acérrimo da liberdade de se acreditar no que quer que seja que achemos plausível ou simplesmente agradável ou confortador. As convicções e crenças de cada um, mesmo que contrárias à realidade visível, são precisamente de cada um e se não causarem dano a terceiros, haja liberdade de acreditar à vontade. A questão neste caso é  o dano potencial. Este indivíduo, que renega a Geografia , aparece regularmente frente a miúdos em formação para supostamente lhes ensinar Geografia. Ele não refere os lunáticos da Terra plana como curiosidade ou história caucionária para nos lembrar dos perigos da disseminação da informação falsa e sem fundamento. Refere a Terra plana como uma hipótese, e isso não pode ser, tal como não se pode ensinar a Evolução como uma de entre várias teorias possíveis para explicar o Homo Sapiens, pelo menos no Ensino Público.

Não tenho filhos, tenho um sobrinho que nesta altura anda a construir robots no Técnico pelo que já passou o perigo de ser contaminado pela idiotia e outros cinco que  estão para lá do que eu possa fazer, e claro que não tenho nada que me meter na educação deles, mesmo que seja fortíssima em mitologia sem ser vista pelo lado filosófico.Não tenho por isso interesse directo no tema mas sou um cidadão que depende, como todos, das gerações que se estão a educar e nos vão guiar e governar. Deixa-me aterrorizado que se permita literalmente a qualquer pessoa com uma licenciatura ser professor em Portugal. Isto levou-me a imaginar (até dormi mal) a quantidade de coisas que se transmite às crianças por essas salas de aula fora, sem que ninguém , muito menos o sindicato que devia ser o líder dessa luta, diga :

-Temos que conhecer, analisar e avaliar bem as capacidades e convicções das pessoas que se propõem a ensinar as nossas crianças, porque ser professor não é para qualquer um.

Se este indivíduo fosse professor de Português ou de Musica eu não tinha grandes objecções a fazer, pode-se ser ignorante em Ciência e incapaz de raciocíno lógico, pode ser-se crédulo e propenso a ser enganado e apesar disso ser um excelente especialista na disciplina e bom a comunicar com crianças. Um professor de Geografia que admite que a Terra possa ser plana , isso já não se pode tolerar. Já não se devia tolerar.

 

Tecnoforma e “Whataboutism”

Volta e meia passam-se coisas na actualidade nacional que são verdadeiramente exemplares. No meio do debate e indignação sobre o jantar da websummit no Panteão trouxe-se para a discussão o caso da Tecnoforma.

No Panteão tomou-se uma decisão de mau gosto em cima de uma decisão racional que é autorizar em princípio eventos em monumentos. Joana Mortágua (ou Mariana, não as distingo bem), disse que “meteram o património à venda”, lembrando-me assim de mais uma  razão pela qual não sou fã dela nem do seu grupo, falam mal. Não se mete nada à venda, um deputado da Nação devia  falar melhor, mas fazer exames de Português, exigir que pessoas licenciadas o dominem e respeitem e que os deputados tenham um nível cultural acima da média deve ser  fascista. Além do mais vender é muito diferente de arrendar ou concessionar, pessoas com reputação de saberem de economia deviam ter respeito pela exactidão dos termos.

O primeiro ministro, ao ver que a população soube da festa  no Panteão  e  que a parte dela que se interessou pelo caso não achou graça nenhuma, disse logo que aquilo era indigno. Felizmente que a indignidade não é retroactiva e jantares que lá se fizeram antes não mereceram essa classificação.Se ninguém souber, não é indigno. Também confirmou que por cá um membro do governo pode ser responsável por autorizações para coisas indignas que isso não tem consequências.

No “calor do debate” o Público decidiu publicar uma notícia requentada  sobre o caso da Tecnoforma uma empresa de formação profissional que fechou há  anos . Como, arrisco, nuns 80% das empresas de formação profissional na época, houve aldrabice da grossa. Não só se engrupia quem pagava (os horríveis alemães) com todo o género de despesas falsas e actividades fantasma como o que se produzia, em princípio pessoas formadas , estava longe de ser o que se esperava e que o país precisava. Milhares de portugueses passaram por programas de formação e novas oportunidades e saíram pouco melhor do que entraram, mas sempre tiveram umas horas subsidiadas e os formadores, mais os formadores dos formadores e os coordenadores dos formadores dos formadores, safaram-se bem, pagos por tabelas europeias.

O caso da Tecnoforma foi exemplar porque estava ligada ao Relvas e ao Passos Coelho. O Relvas para mim é um modelo de pato bravo arrangista , um chico esperto licenciado instantâneamente que andou na política para fazer negócios, e correu-lhe bem, está milionário e à solta, cheio de amigos poderosos e reconhecidos. O Passos, ao que sei do que li sobre este caso, já não estava ligado à Tecnoforma na altura a que se refere esta investigação por fraude. Não interessa a quem o ataca e sinceramente a mim também não muito, porque acho que qualquer pessoa inteligente com ambições e responsabilidades políticas se deve afastar sempre de coisas em que haja nem que seja um aroma de irregularidade, e esses esquemas sempre tresandaram.  Ainda assim uma pessoa mais distraída podia perguntar, ao ver as redes sociais indignadas com a Tecnoforma  e  uma notícia velha de meses: mas o que tem uma coisa a ver com  a outra?

Ando a passar tempo demais no twitter e faz-me um certo mal aos nervos, não sei se tenho estômago para continuar, porque ou só seguimos pessoas que partilham as nossas ideias ou, se queremos alargar os horizontes e seguir “adversários” tipo comunistas ou benfiquistas, é bom termos muita calma e sermos compreensivos.  Uma das “personalidades” disse , perante aclamação : de cada vez que me disserem Panteão eu digo Tecnoforma. O twitter é bastante tribal e se tivermos muitos seguidores podemos dizer coisas estúpidas que há sempre quem aplauda. Deixei este link como resposta a um tweet tão espirituoso , define “whataboutism” , e este post é sobre isso.

Whataboutism pode ser, com boa vontade,  traduzido como Entãoeaquilismo , e é o processo pelo qual se contraria uma crítica com uma observação pouco ou nada relacionada com o objecto da crítica. Está cada vez mais em uso, porque é fácil e poupa a trabalheira de pensar ,recolher e apresentar argumentos pertinentes. Exemplos:

-O islâmismo  é uma das maiores ameaças à cultura e sociedade europeias.

-E as cruzadas e a inquisição?

-Este governo está a aumentar e consolidar privilégios de funcionários públicos que não têm justificação .

-Gostavas mais quando o Passos cortava as pensões, não era?

-O comunismo criou mais miséria que outra coisa.

-E a devastação ambiental produzida pelo capitalismo?

-O Trump está gravado a orgulhar-se de molestar mulheres.

-E os bicos ao Bill Clinton na sala oval?

-Há demasiados subsídios que distorcem o mercado e desincentivam a criatividade ,a  iniciativa e a concorrência.

-E os subsídios todos que vão para os Açores?

-O Benfica tem a judite e o MP à perna por indícios de corrupção.

-E aquele gajo do Sporting que foi apanhado a fazer um depósito na conta de um árbitro?

Os exemplos são muitos, basta estar atento e encontram-se todos os dias , eu próprio tenho a certeza de que  em dez anos de blog e mais de mil posts sobre muita coisa hei-de ter  recorrido ao processo, mesmo sem o saber, nalguma crítica que fiz. Num mundo feito de imediatismo , de reacções por reflexo, de casos que “incendeiam” num dia para serem esquecidos três dias depois, de inconsequência e superficialidade, cada vez vamos ter mais disto.

Ainda sobre o relacionar do que não tem relação, um indivíduo chamado Aurélio Malva criou um quadro em excel onde contabiliza as referências na imprensa aos casos Panteão e Tecnoforma. Esse quadro excel, mais a diatribe sobre a imprensa de referência  que o acompanha, está neste momento a ser partilhado e aplaudido por milhares por todas as redes. O sr. Malva, que se apresenta como “músico na Brigada Vítor Jara”, logo, muito qualificado para elaborar esses estudos, demonstra  que a imprensa não dedicou nenhuma  atenção à Tecnoforma em comparação com o Panteão, por exemplo vê-se lá que o Público não fez qualquer referência ao caso Tecnoforma entre os dias 11 e 14 deste mês. Esta é a capa do Público de dia 13.

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Em inglês fica sempre melhor

Uma das bandas portuguesas de que gosto são os Clã , que têm uma música muito bonita chamada “Problema de Expressão” , com este verso:

Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.

É uma das nossas modas mais prevalentes e que  a mim me faz trepar pelas paredes por achar que é das mais estúpidas e sem justificação:  tudo em inglês.

-A  cidadezinha  onde cresci, Alcobaça, organiza regularmente um festival literário e de cinema. O programa está aqui , a edição deste ano já acabou mas estive mesmo agora a vê-lo. Dura uma semana, o número de autores de língua inglesa presente é aproximadamente zero, a percentagem de convidados nacionais andará pelos 98%  e  o número de livros ingleses apresentados também anda entre o zero e o dois, não tenho a certeza porque não vi tudo.Os filmes são na esmagadora maioria nacionais e não me consta que o evento sejam transmitido no estrangeiro. Qual é o nome deste festival de livros & filmes? Books and Movies.

-Aveiro tem uma revista que só conheci anteontem, chamada Litoral , e conheci-a porque um grande marinheiro português que muito honra a vela nacional, Renato Conde, recebeu uma distinção pública pela sua carreira numa cerimónia em que a revista atribui prémios. São os Litoral Awards.

– A recente “websummit” é um festival de startup networking empowering  and disruptive technologies em que os participantes estão estatutariamente obrigados a usar um termo em inglês por cada quatro palavras que pronunciem, independentemente da  audiência.

-O mundo do espectáculo carbura a anglicismos e palavras inglesas, artista que não use regularmente essas expressões fica para trás. Desde os anos 60 que  um  “yeah” é quase obrigatório na  música moderna  nacional, a maoria das novas bandas escolhe nomes em inglês e perde-se a conta às  letras de canções em inglês escritas por quem devia ir tentar melhorar o inglês.

-No comércio, serviços e eventos culturais nem vale a pena  pensar em só usar o português, parece que  a língua da modernidade e inovação é obrigatoriamente o inglês, eu vivo numa aldeia perdida onde isso não é aparente  mas quem vive em centros urbanos pode verificar isso facilmente.

-Num mundo que me interessa mais de perto, o da cerveja artesanal , nota-se bem que já existe mais craft beer do que cerveja artesanal e no mundo do hipsterismo , das pessoas cuja filosofia de vida se baseia não no visual mas sim no look ( grandes consumidores de craft beer, nem tudo é negativo…) as coisas acontecem mais frequentemente em inglês do que em português, mesmo se vivem em Cantanhede.

-No turismo , em conformidade com a evidência de que os visitantes procuram sobretudo experiências e vivências locais e autênticas, faz-se questão de que tudo seja apresentado em inglês, desde os nomes aos programas e aos produtos. Traduzir e explicar faz sentido, tudo em inglês logo à partida, já não.

-O Estado naturalmente partilha da doença e baptiza quantidades de coisas em inglês. Desde os anos 50 que todos os ingleses sabem o que é e onde é a Costa Brava , e adoram, nós para evitar confusões  é mais Silver Coast, Allgarve e parvoíces semelhantes.

Ora, há palavras , especialmente no campo da tecnologia e das finanças mas não só, que não têm tradução exacta ou clara, por exemplo stress , roaming ou upgrade, é normal que as pessoas que trabalham nisso os vão usando.   Do mesmo modo, se se trata de um evento inequivocamente internacional, faz sentido marcar isso.  O inglês é a língua dominante , aposto que vai continuar a ser língua de trabalho da UE quando o único país anglófono for a pequena Irlanda e é claro que aprender inglês é do interesse de toda a gente. Agora, que se sinta que é não só normal como positivo e quase mandatório polvilhar o discurso com palavras em inglês, já  me parece bizarro.

No jornalismo até mete medo, e nos sítios onde eles falam uns com os outros tipo o twitter chega a ser delirante, não só o uso dos termos e expressões em inglês (que ao invés de mostrar que dominam a língua só mostra que veem televisão e filmes) como a adopção regular de coisas que leem e veem na imprensa americana , a última é chamar alt right à extrema direita.

Uma parolice pegada, demonstração de preguiça para procurar a palavra certa (temos cerca de 600 mil à disposição, em princípio devia chegar, e hoje quase todos andamos com um dicionário no bolso…) ou simples presunção, a noção  de que se introduzirmos termos em inglês parecemos sofisticados. A mim dá-me sempre a ideia contrária.

Entretanto na Polónia…

…60 mil fascistas de vários graus, desde o skinhead mais cepo à avozinha mais beata e  nostálgica saíram à rua para celebrar a independência do país e gritar por uma Europa branca e por “mais Deus”. Quanto à segunda, parece-me um pedido ou exigência estranha mas é assim desde sempre: Deus, apesar de omnipotente, omnisciente e omnipresente, precisa sempre de quem fale por ele, de quem o defenda, de quem proteste por ele, castigue os seus inimigos  e reclame a sua presença, porque ele sozinho pelos vistos não consegue. É uma omnipotência um pouco estranha, um poder que apesar de ser universal e absoluto tem umas certas dificuldades em impôr-se e em comunicar directamente, tem que ser sempre por mensageiros e sinais.

Quanto à Europa mais branca e presumivelmente mais católica, podia dizer “boa sorte com isso, contrariar  tendências demográficas com manifestações não revela grande  inteligência” mas é verdade que manifestações pressionam governos que depois inventam políticas para contrariar a realidade, que normalmente acabam por falhar, criando mais insatisfação e alimentando  um círculo vicioso.

Acredito que também na política e na sociedade se observa a III Lei de Newton : Para  toda a acção há sempre uma reacção oposta e de igual intensidade. Os tempos em que se manifestam estas reacções podem não ser os mesmos da Física, mas mesmo que seja anos depois , as reacções inevitavelmente aparecem. Se vemos milhares a marchar pelas ruas de bandeiras vermelhas é de esperar que as bandeiras pretas não venham  muito atrás.

Em Portugal isto não é aparente  porque levámos uma injecção de 48 anos que tornou o lado preto da moeda inaceitável e porque nunca vimos o lado vermelho a sério. Os Polacos tiveram o infortúnio de passar a maior parte do pós guerra debaixo das bandeiras vermelhas, por isso hoje por lá é tão aceitável ser de um dos vários partidos de extrema direita como cá é aceitável ser do PCP ou do BE.  Apesar disso acho que, depois do advento das redes sociais e dos jornais com a possiblidade de os leitores deixarem o seu comentário anónimo, ninguém duvida que temos por cá umas boas centenas de milhar de cripto fascistas e muitos mais simpatizantes da causa, ou causas.

De todos os países da  UE a Polónia é o que mais sofreu às mãos do nazismo e do comunismo e por isso , num mundo mais racional, seria de de esperar que fosse o mais predisposto a encontrar o caminho do meio e a renegar extremismos, mas um mundo racional é quase utópico por isso aí temos os Polacos a eleger um governo que tende mais para a direita do que seria confortável e uma população que apesar de ser dos países com menos imigrantes e gente de outras cores e credos é das que menos gosta deles.

Eu não sou um gajo muito tolerante, tenho os meus preconceitos, há coisas de que não gosto e preferia que não existissem, por exemplo o Islão ou os hipsters , mas sou antes de mais  um gajo prático e a seguir  respeitador dos direitos dos outros , incluindo o direito a serem enganados, a acreditarem em fábulas, a vestirem-se como lhes apetecer e, resumidamente, a fazerem  o quiserem das suas vidas. Desde que me seja permitido ter o meu espaço inviolável, viver de acordo com a minha consciência, e desde que não se ande por aí a maltratar pessoas por quererem fazer o mesmo, ou por características que estão fora do seu controlo tipo a etnia ou o sexo, por mim já não está mau.  O mundo é muito grande e complexo e para isto ir funcionando é preciso esse caldear, equilibrar e sintetizar de todas as forças e ideias. Parece-me  cada vez mais difícil.

Por isso incomoda-me ver estas coisas, ver os extremistas a ganhar força e voz a cada dia, a  ignorarem ou negarem a História, ver ambos os lados a alimentarem-se do progresso dos adversários e do medo que provoca,  ver as vozes da moderação a perder força na torrente de mentiras, propaganda  e demagogia que escorre pela TV e internet como o proverbial esgoto a céu aberto e se alastra a todos os sectores da sociedade. O Guardian , jornal britânico que eu considero pouco, passou um mês a rufar o tambor para o nacionalismo Catalão para hoje vir lamentar o nacionalismo Polaco. São incoerências dessas que me fazem acreditar que os melhores tempos da Europa começaram no fim da segunda guerra e estão a chegar ao fim, só   espero mais divisão, polarização, atrito e conflito.

 

PS: Também estou a perder a esperança de ver o Sporting campeão este ano.

PS II -Quanto à indignação do dia, a história do Panteão, o que fica é que o nosso primeiro ministro nunca tem culpa nem é responsável por nada que não seja positivo e que Portugal é governado ao ritmo das redes sociais, sondagens  e focus groups. 

Cometi outra vez o erro de entrar numa discussão no facebook sobre civilizações perdidas, tecnologias alienígenas , mistérios e ocultações governamentais.  A dada altura recomendei este artigo, em que oferecem 7 razões pelas quais as pessoas acreditam em teorias da conspiração. Responderam-me, sem ironia,  com este , que explica que o termo “teoria da conspiração” foi inventado pela CIA.  Ainda me estou a rir , isto não tem preço.

Assédio

Por estes dias ficámos a saber que Hollywood é um antro de maníacos egocêntricos onde impera a vaidade e a sexualidade  como moeda de troca e  meio de pressão e negociação, com rédea solta e desrespeitando normas , regras e decência. Que está repleto de actores, produtores, agentes e outros que se acham tão espectaculares que são irresistíveis e não são abrangidos pelas leis que regem os comuns mortais e que como tal podem fazer o que lhes apetece quando lhes aparece à frente uma mulher que lhes agrada. A novidade é só uma : as vítimas começaram a queixar-se em público.

É preciso ser um bocadinho  básico para não perceber  logo à partida que uma indústria que gira em torno de fantasias, ilusões, sonhos, sexo e publicidade não esteja  contaminada por comportamentos abusivos . Também é preciso uns óculos cor de rosa ou muita ingenuidade para não saber  que legiões de jovens actrizes e actores chegaram ao sucesso e à fama não por serem melhores do que quem  estava ao lado mas por terem dormido com a pessoa certa. Quando a coisa resulta nunca mais se ouve falar no caso, se não resulta , ou se a boa vontade do tubarão já não é necessária, denuncia-se.

Hollywood podia amanhã ser engolida pela falha de San Andreas num tremor de terra que a minha vida não mexia um millímetro nem perdia nada, é a importância que eu dou ao que se  faz lá e a quem lá anda.  Apesar disso , e apesar de me falhar um bocado a solidariedade para com as starlets e vítimas que decidiram entrar na selva mesmo sabendo dos tigres e tarântulas, observo isto com uma certa atenção e interesse porque deste debate, acusações, defesas e condenações estão a sair novas regras que todos devemos perceber e seguir, no nosso próprio interesse.   Observo com satisfação as vítimas de abusos a perder o medo e a falar e denunciar, coisa impossível há dez anos, por falta de meios técnicos. Observo as “estrelas” que se achavam  fenomenais a ver o mundo a chamar-lhes porcos e a negar-lhes a carreira e a posteridade, e acho piada a isso.

Acho menos piada a uma certa hipocrisia que no entanto persiste, a maior delas o facto de o país agora a espumar de ultraje contra os abusadores sexuais ter um presidente que está gravado a gabar-se de ser um predador sexual . Já acho outra vez piada aos contorcionismos dos republicanos e idiotas sortidos para se tentarem safar dessa evidência. Volto a achar menos piada quando vejo que conseguem e que o país pede a cabeça de gente como o Weinstein mas perdoa um presidente que disse que “quando se é famoso pode-se fazer tudo. Agarrá-las pela rata, tudo.” e no fôlego seguinte descreveu graficamente e muito orgulhoso o modo  como assediou uma mulher casada. Passado pouco tempo foi eleito presidente, e ainda há  muita gente que estranha e critica o ódio ao Trump, não lhes ocorrendo que há pessoas que se arrepiam com predadores sexuais, de esquerda ou direita, e não confiam neles para nada. Porque são pessoas más, incapazes de empatia e respeito, que se lixem as opiniões políticas, é uma questão de humanidade.

Também há um aspecto que gostava de referir porque ainda não o vi referido em mais lado nenhum (também é verdade que não ando a ler tudo o que se escreve sobre o tema , nem conseguia mesmo que não fizesse mais nada na vida) : Tenho a impressão de que a qualificação de assédio  tem muito a ver com o nível de atractividade da pessoa em causa. Exemplo, a starlet  chega à Califórnia a sonhar com filmes, conhece Harvey Weinstein  que lhe faz uns avanços, apalpa o rabo e tenta levar para a cama: assédio . A mesma starlet conhece Brad Pitt que lhe faz uns avanços, apalpa o rabo e tenta levar para a cama: engate . É muito provável que esteja  enganado mas muita da qualificação de assédio depende da apreciação que a pessoa assediada faz do assediador. Passo a ilustrar essa relatividade com um exemplo pessoal.

Aqui há dez anos cheguei de barco ao Canadá, a  Yarmouth , vilória portuária da Nova Escócia, depois de mais uma travessia do Atlântico. Uma tarde no bar comentei que precisava de usar a internet para marcar as viagens de regresso , isto era antes do wifi e cyber café era coisa que não havia ali. Uma mulher, mais ou menos da minha idade, com quem já tínhamos (eu e a tripulação) falado nessa tarde, disse-me que eu estava à vontade para usar a ligação em casa dela, era mesmo ali. Aceitei de bom grado e lá fomos os dois. depois de vinte minutos de caminho comecei a estranhar a distância mas depois lembrei-me de que na América do Norte eles têm medidas diferentes das nossas. Casa enorme, no meio de um pinhal, não estava ninguém , mostrou-me o quarto onde estava o computador e disse-me para estar á vontade, vou tomar um duche , se precisares de alguma coisa ,é só dizeres … Eu sempre fui bastante tapado no que toca a mulheres e percebo pouco, a ficha só caiu quando ela entrou pelo quarto de roupão meio aberto e se sentou no braço da cadeira com a mão no meu ombro. Seguiram-se uns minutos confrangedores e muito desconfortáveis durante os quais tentei evadir-me das atenções dela sem ser bruto, o que , olhando para trás, só fez parecer que eu estava a hesitar quando só queria ir-me embora dali o mais rápido possível. Finalmente percebeu que não era o dia, foi-se vestir e levou-me de volta à cidade, viagem bem disposta como se pode imaginar.

Eu considero isto  assédio e lembro-me do episódio com um arrepio de desconforto,  mas só por uma razão: a senhora era um camafeu . Se fosse uma mulher que me atraísse provavelmente hoje falava nisso como uma das melhores tardes da minha vida mas  como era uma mulher que me repugnava, foi assédio. Tenho-me lembrado bastante dessa tarde em Yarmouth quando vejo todas as acusações  a voar pela comunicação social . Em quantos casos não será  o mesmo mecanismo em acção?

De qualquer modo, o tema não é muito difícil nem muito complicado: sexo é uma coisa muito boa mas têm que ser todos crescidinhos e estar  de livre acordo, se não passa a ser uma coisa muito má.

 

PS: Sara Sampaio, a maior exportação da aeronáutica nacional dos últimos anos, foi por alguma razão a uma conferência de tecnologia em Lisboa e disse que “sentiu muitas vezes que foi levada a fazer coisas que não queria”.  O emprego desta moça é desfilar e aparecer semi nua à frente de multidões, emprego  que já lhe rendeu o suficiente para não ter medo de o perder. Quando era levada a fazer coisas que não queria, o  cálculo era diferente. Tudo tem um preço, às vezes é a dignidade,  muitos pagam-no de bom grado.