O Estado quer saber de ti.

Tenho um velho amigo com uma paixão pelo vinho, começou por ser só apreciador mas aos poucos e poucos tornou-se produtor. Começando com uma pequena vinha e adega antiga da família, que recuperou, adquiriu mais vinhas, renovou a adega, alistou os serviços de um enólogo, deu um nome à produção e tem contado com os muitos amigos com que é abençoado na altura das podas, vindimas e dos trabalhos do lagar.

A vinha era como um passatempo, um pretexto para juntar amigos e apreciar vinho, que como todas as outras coisas, tem um sabor especial  se é feito por nós. O vinho é  presença certa em todas as jantaradas e patuscadas , felizmente frequentes, e um presente apreciado para amigos e conhecidos.

Anteontem falei com ele ao telefone, comprou há pouco outra vinha e está a planear a comercialização. Não lhe dei novidade nenhuma quando lhe recomendei com todas as forças que antes de investir seja o que for nesse sentido se certifique  bem de todas as exigências que lhe vão fazer e dos encargos em que vai incorrer, porque neste país para cada três pessoas que trabalham deve haver uma cuja função é fazer as regras , fiscalizar e cobrar esse mesmo trabalho.

É perfeitamente possível que , contas feitas, o meu amigo ganhe  mais em continuar a fazer o seu vinho para si e a sua família e amigos do que investir e trabalhar mais para o poder vender, enredando-se numa teia de regulamentos, burocracia, taxas e impostos que lhe vão consumir tempo e recursos e assegurar que quando fizer as contas ao fim do ano conclua que mais lhe valia estar quieto, há custos que não se traduzem em números nem quantias mas não é por isso que são menos importantes.

Isto a propósito de uma informação que recebi hoje e que me deixou literalmente estupefacto, e para me espantar em Portugal é preciso muito, por exemplo esta rábula do Berardo não me surpreendeu em nada. Nem em método, nem em protagonistas, nem em resultados nem em reacções e muito menos em consequências.

Como já contei aqui, agora trato de uma unidade de Alojamento Local, perfeitamente legalizada, tal como o meu trabalho . Hoje à conversa com um amigo que tem uma dessas unidades ele pergunta-me:

-Preenches os papéis do SEF?

-SEF? Não, ninguém me falou disso, não sei nada.

-É obrigatório, tens que guardar cópia da identificação dos hóspedes, preencher um impresso para cada um e introuduzir os dados no sistema deles.

-A sério? Deve ser só para os extra comunitários…

-Olha que não…

Fui confirmar com outros amigos, que estão a entrar em desespero com as exigências burocráticas e fiscais  que se amontoam e lhes consomem horas, e é verdade, mas não se fica por aí.  O Estado, depois de desenhar arbitrariamente regras para permitir a instalação de um negócio, tantas vezes regras  idiotas como a exigência de uma televisão; depois de subir as taxas até ao máximo; além de querer saber quem são os  clientes e guardar os seus dados,  exige que nós mesmos introduzamos esses dados no seu sistema informático e declaremos regularmente e detalhadamente a frequência e rendimentos do nosso estabelecimento. Quando, a quem e por quanto. Todos os clientes , nacionais, europeus ou não europeus.

Ora, eu sou liberal mas não sou  libertário  nem acredito na desregulação absoluta, acredito na necessidade de  regras e na inevitabilidade e utilidade dos impostos mas isto ultrapassa os meus limites do que é aceitável, porque da última vez que verifiquei existia livre circulação de pessoas e bens no espaço da União Europeia e um cidadão tem direito à sua privacidade. Dizem-me agora que o Estado exige saber e registar quem viaja, onde fica e a que preço, é demais.

Se estes selvagens continuarem no poder, que é o mais provável, dentro em breve vamos ter que introduzir no Grande Irmão os recibos de todas as nossas despesas, submeter o itinerário das nossas deslocações e declarar todos os nossos consumos. Devem acompanhar isto com questionários sobre as nossas preferências e hábitos, que de resto os algoritmos já devem ser capazes de fazer pelo nosso uso de smartphones, cartões bancários e redes sociais , e assim poder assegurar a Sociedade Harmoniosa, como de resto já se faz na China, onde ao cidadão é atribuído um “score social” , recolhido pelos métodos de sempre do socialismo e no fascismo : vigias e informadores, que hoje são electrónicos, incansáveis e abrangentes. Já chegámos às portas da distopia totalitarista, e eu só reparei no ponto a que se tinha chegado quando me bateu à porta e me foi  exigido que participe.

O nosso governo actual regala-se com a criação de Comissões, Observatórios, Secretarias, Direcções Gerais e Autoridades, onde se acolhem e trabalham aqueles cuja vocação e função é controlar, fiscalizar e condicionar.   George Orwell devia ser leitura obrigatória nas escolas, se o objectivo fosse educar e não replicar e aceitar.

Como disse, não fazia ideia desta exigência aos ALs, que faz lembrar os métodos das ditaduras, mesmo a quem como eu nunca viveu sob uma. Vou informar a minha patroa, que creio também não ter conhecimento disto e creio que vai ter um choque. Vou-lhe dizer duas coisas, a primeira é que tenho vergonha de pedir a identificação aos hóspedes e de lhes explicar a razão, a segunda é que essa tarefa suja não estava prevista no nosso acordo de trabalho e para pedir e processar esses dados, para  fazer o trabalho nojento do Estado, que me custa em tempo e dignidade, vai ter que me pagar mais, lamento.

Não fora a necessidade do dinheiro e dizia-lhe que não contasse comigo, mais depressa ia lavar as retretes do que ser o sabujo que regista e comunica ao Estado quem vem e quem vai. Vai-me custar tremendamente a primeira vez que tiver que pedir a identificação e explicar a razão por que o faço, há coisas em que o Estado nos agride materialmente, como com a cobrança coerciva dos impostos que sustentam a Casta, mas isto é uma “agressão filosófica”, uma agressão aos meus princípios e aos princípio de toda a gente que acarinha Liberdade e Privacidade . Ainda nem estou bem em mim.

O facto de para a maioria das pessoas isto ser uma questão trivial é uma das razões pelas quais chegámos aqui.

 

 

Evolução para a Guerra

Todos os períodos históricos têm os seus pessimistas e profetas da desgraça, desde sempre que existem indivíduos que vêm o futuro negro, desde os autores do Eclesiastes até ao Shopenhauer,  passando pelo Voltaire e personagens como Cassandra ou  o nosso Velho do Restelo. Por cada visionário de olhos brilhantes há um realista com as mãos na cabeça, e a evolução da Sociedade e da Espécie continua, com umas consequências magníficas e outras macabras.

A questão principal é a velocidade a que as coisas começaram a mudar no último século, comparando com os 30 séculos precedentes, comparando com o início do tempo em que se começaram a tirar apontamentos e registar coisas.  “Antigamente”, até à Revolução Industrial, a regra era que 99% da população ia levar uma vida basicamente igual à dos pais, avós e bisavós, todas as mudanças, fossem na paisagem, no clima, na economia ou na organização social eram imperceptíveis no curto prazo.

Entre os Templários criarem as notas de crédito e o seu uso se generalizar passaram mais de 600 anos. Entre o Tim Berners Lee criar a Internet e o seu uso se generalizar passaram 30.

Uma pessoa no tempo das Invasões Francesas  respirava um ar de composição idêntica ao de uma no tempo do Viriato, mil e setecentos anos antes , essa mesmo pessoa hoje em dia, duzentos  anos depois, era capaz de morrer se se materializasse em  Lisboa e respirasse fundo.

Desde que nasci até ter uns 25 anos ouvia música no mesmo suporte que os meus pais e avós, o disco de vinil. Nos 20 anos seguintes já passei por CD, minidisc, mp3 e já vamos no streaming.

Ninguém consegue parar isto, o que é um bocado assustador porque se por um lado apreciamos e gozamos os frutos de toda esta evolução e mudança, por outro vamos tomando consciência de que esta evolução tem custos elevados, em certos casos tão elevados que são insuportáveis.

Para mim os custos mais elevados estão na política, ainda mais do que no ambiente. O Homem já mostrou que se é alguma coisa é adaptável, há milhares de anos que vivem humanos nas tundras geladas e nos desertos ressequidos e o Homo Sapiens não corre nenhum risco de extinção, ao contrário de muitas outras espécies. O que faz a política é decidir e determinar quais os grupos e indivíduos que prosperam e quais os que sofrem e desaparecem , e de onde eu vejo as coisas a noção de “bem comum”  interpreta-se como “bem comum aos do meu grupo”, provavelmente sempre foi assim mas agora é tudo exacerbado e amplificado.

Com a revolução das tecnologias de comunicação e a sua perversão pelos interesses mais daninhos cada vez se divide mais o mundo e a política é feita do confronto entre “nós” e “eles” , mesmo quando essa divisão é artificial.  Rebentadas e esgotadas as ideologias clássicas, quando a população está anestesiada pelo “entretenimento” e vidrada nas possibilidades infinitas de alienação que tem  no seu telemóvel, o sucesso político está nas mãos de quem consegue criar, explorar e maximizar as divisões.

Em vez de aceitarmos que o Socialismo trouxe coisas positivas e que o Capitalismo é o melhor sistema de organização económica, simultâneamente; em vez de procurarmos uma síntese das respostas de ambos aos problemas , em vez de rejeitarmos o que de negativo têm ambos , aferramo-nos aos “da nossa equipa” e diabolizamos os outros, trafica-se em absolutos, não se concede nem se recua, encara-se qualquer cedência como uma derrota e culpa-se sempre, sempre, o adversário, que demasiadas vezes se pensa como inimigo.

Como mais uma vez se comprovou, desta feita em Espanha com o surgimento do Vox, também a Terceira Lei de Newton se aplica na política, para cada acção haverá uma reacção correspondente. Os extremos alimentam-se do extremo oposto.

E os extremismos obviamente vivem da manipulação da opinião e das ideias “prontas a pensar”, vivem de jogar com os medos e inseguranças das pessoas e fazê-las crer que eles podem mudar as coisas a seu favor. Quando os métodos de transmissão de ideias eram as conversas, os livros e os jornais, a manipulação não era uma tarefa simples e exigia um certo domínio não só da retórica como do assunto em causa. Essa barreira desapareceu com a comunicação de massas e a possibilidade de fazer chegar seja que informação for a todas as pessoas ,  ao mesmo tempo que se conhecem os tais medos e aspirações de cada indivíduo, porque alegremente os comunicamos ao Mundo.

O Trump provou que não é preciso sabe falar, ser culto e dominar os temas para se chegar ao poder, basta conhecer o público alvo. Idem o Bolsonaro, idem o Orban, idem a fornada de proto ditadores que (a minha aposta) vão entretanto deixar de ser proto ditadores para assumirem o cargo em pleno e juntarem-se a outros de facto , como o Putin e o Kim, que de resto o Trump não se cansa de elogiar enquanto humilha aliados, e isso não revolta gente suficiente. Há 20 anos era impensável um país com uma democracia e instituições estabelecidas como os EUA dar o poder a um homem como o Trump, tenho bem na memória a candidatura do democrata Howard Dean que foi forçado a abandonar por se considerar ridículo e indigno de um estadista um grito que ele deu num comício. O Trump mente cerca de 8 vezes por dia, demonstra todos os dias uma ignorância vastíssima e  tem uma vida feita de desrespeitar mulheres, minorias, a verdade  e a Lei  mas tem uma esperteza enorme e sabe entusiasmar os seus, e isso basta.

E isto tudo para chegar à guerra que vem aí . De vez em quando percorro os arquivos deste blog à procura de previsões que fiz ou coisas que antecipei e que não aconteceram e até agora estou bastante satisfeito com o registo porque ainda não encontrei  nenhuma  relevante (não quer dizer que não haja , com este são 1350 posts e sou tão falível como o próximo) , vou deixar aqui mais esta:

Antes de o ano acabar os Estados Unidos vão declarar guerra ao Irão ou intervir na Venezuela.

É dos livros de História que o principal aliado e muleta de um ditador ou aspirante a ditador é o inimigo externo, real ou imaginado. Num país com uma história e tradição belicista como os EUA isso funciona ainda melhor porque a maioria das pessoas não só não tem a noção do que é como rejeita cabalmente  (até vir este presidente) o governo de um  déspota.          Um conflito militar  sempre foi relativamente fácil de provocar  (acabei há pouco uma história da queda de Cartago que explica lindamente como os romanos provocaram a Terceira Guerra Púnica ) e  é-o muito mais hoje em dia , fruto da tal aceleração incrível da tecnologia e do modo como ela permite criar uma mensagem e disseminá-la, mesmo que seja demonstravelmente falsa.

Acossado por todas as investigações ao seu passado e presente criminoso e pela revolta que provoca nas pessoas de bem providas de capacidade de raciocínio , o poder do Trump basea-se no bom desempenho  económico do país e no racismo e extremismo que ele alimenta e quem tem mais eco no país que os Americanos gostam de admitir.  Decorre uma guerra comercial com a China que soa bem quando é anunciada dos palanques dos comícios mas que é desastrosa economicamente, e quando a economia começar a piorar, quando a maioria das pessoas começar a perceber que a sua vida não está a melhorar como prometido, quando o apoio ao presidente começar a tombar, vai aparecer o “Casus Belli” e a nação vai juntar-se em torno do líder para lutar contra os maus, contra os inimigos, e os principais candidatos são os  governos do Irão e da Venezuela.

Uma guerra para desviar o foco, entreter o povo, enriquecer mais ainda os lobis do armamento e fazer-se passar por duro e valente.  A tecnologia avança a um ritmo incrível, a sociedade altera-se com ela mas há coisas que nunca mudam.

 

Agricultura Biológica

Quando há acções de formação nos Serviços Agrícolas vou sempre, mesmo que não tenham relação muito directa com o meu tipo de agricultura. Infelizmente não há muitas  acções destas porque não é fácil nem barato trazer os formadores, noutros sítios vão e vêm no seu carro, aqui implica avião, hotel, etc.  Inscrevo-me sempre por duas  razões, a primeira é  oportunidade de aprender alguma coisa à borla, a segunda é o contacto com as pessoas, os poucos participantes que não conhecíamos ficamos a conhecer e é bom trocar umas ideias sobre interesses comuns e conviver um bocado.

A formação não é uma brincadeira, foram 8 dias de 7 horas, eu nem tinha pensado nisso quando me inscrevi e foi uma disrupção na minha vida, que tirando um ano aqui e seis meses ali, muito episodicamente, nunca se organizou à volta de um horário das 9 às 5 com uma hora para almoço.

É um bocado misterioso para mim como é que se passam anos e anos a levantar de manhã para ir picar cartão num serviço de que se pode gostar ou não, passar lá o dia todo, voltar a casa ao fim da tarde e no dia seguinte repetir. No caso das mulheres, imensas das quais fazem isso e depois ainda voltam para casa para a limpar , lavar roupa, cozinhar e tratar de eventuais crianças, a coisa ultrapassa a minha capacidade de entendimento.

Também por isso, por ter evitado uma vida preso a uma máquina de ponto, sou um gajo de muita sorte e não há nenhum conforto nem bem material que pudesse ter adquirido numa profissão com horário de trabalho regular que me compensasse poder acordar de manhã e pensar “ora bem , então hoje vou fazer o quê?”.

Essa decisão aqui está sempre dependente do tempo que faz, estamos sempre a ver a previsão e ver quando é que se pode fazer alguma coisa na rua, e chegando ao fim o Inverno há uma lista enorme de ocupações e trabalhos a ser feitos . A minha lista actual tem 17 tarefas que  oscilam entre uma hora e um dia inteiro e 14 dessas só podem ser feitas se não chover, e estava a acumular porque a Primavera anda tarda um pouco.  Foi por isso  que me custou um bocado passar os primeiros dias bons do ano sentado numa sala a ouvir preleções sobre Agricultura Biológica, ou melhor, o Modo de Produção Biológico , que é  um sistema global de gestão das explorações agrícolas e de produção de géneros alimentícios que combina as melhores práticas ambientais, um elevado nível de biodiversidade, a preservação dos recursos naturais, a aplicação de normas exigentes em matéria de bem-estar dos animais e método de produção em sintonia com a preferência de certos consumidores por produtos obtidos utilizando substâncias e processos naturais.

É o sistema que se praticava antes de haver mecanização, introdução de agroquímicos e produtos fitossanitários , antes da agricultura industrial, mas utilizando todo conhecimento científico e técnico acumulado desde lá, acompanhado do conhecimento das consequências da agricultura industrial para os solos, climas e bio diversidade.

Se virem este símbolo num produto significa que  ele seguiu as regras do Modo de Produção Biológico, sendo por isso além de  mais benéfico para a saúde  muito mais benéfico para a sustentabilidade ambiental.

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Se eu quisesse passar a vender borregos com esse rótulo não tinha que mudar  nada na minha exploração, já tenho tudo conforme no lado do bem estar animal, mas tinha que deixar de lhes dar as rações de reforço que dou no Inverno, porque as rações disponíveis aqui têm todas componentes OGM e o custo de importar rações biológicas é proibitivo. Tinha além disso que pagar uma taxa anual para financiar os testes e medidas de controlo e lidar com uma, mais uma , burocracia. À minha escala não se justifica de maneira nenhuma, nem que  passasse a vender a carne ao dobro.

Há amigos interessados em serem certificados, estão a debater-se com outro custo da ultra insularidade , tal como é difícil e custoso trazer cá os formadores também o é trazer cá os técnicos do controle e certificação periodicamente.

Já tive reservas não quanto à agricultura biológica em si mas quanto à sua capacidade para alimentar tanta gente, globalmente. Continuo com reservas mas já creio que seria possível alimentar toda a gente com uma reconversão da agricultura a estes métodos mas dependeria de muitos factores virtualmente impossíveis,  como alterações generalizadas nos hábitos alimentares. Além disso ia provocar, ou exigir, uma revolução no sistema de distribuição e transporte global que não creio nada provável e ia sobretudo exigir o fim de um problema tremendo, o desperdício.

A razão que me fez acreditar que é  possível produzir o suficiente de modo biológico foi saber que aproximadamente um terço dos alimentos produzidos globalmente são perdidos ou deitados fora “Bastaria” acabar com esse desperdício e podia produzir-se o bastante, sobretudo porque há também a hidroponia, método que permite produzir sem solo e tem muito menos impacto que a agricltura convencional e tem a vantagem fenomenal de poder ser feita em meio urbano.

Sendo Portugal e este processo envolvendo  entidades públicas e privadas e muita burocracia, é esperado que haja alguma corrupção e/ou falta de rigor. Se já escasseiam meios para fiscalizar as actividades agrícolas em geral, outro nicho ainda mais exigente em termos de controle e procedimentos não veio ajudar, e claro que há episódios  e casos de aldrabice, mas creio que regra geral quem se dedica ou interessa por este tipo de agricultura não busca a rentabilidade acima de tudo, ou melhor, não a busca a qualquer preço.

Talvez o maior obstáculo à generalização do modo de produção biológico seja o sistema global de agro indústria e distribuição instalado e lucrativo,  esse sistema não se  vai simplesmente converter ao localismo biológico e orgânico, essas  Bayers , Auchans e Monsantos cujos presidentes gerem mais dinheiro que o Primeiro Ministro de Portugal .  Particularmente para a Monsanto, a generalização do modo de produção biológico significaria o fim, pura e simplesmente. Não há que contar com isso, mas pode-se contar com um esforço e progresso nesse sentido, o sentido de ir tomando melhor conta dos solos, da água e do ar e  produzir  e consumir comida de uma maneira mais racional .

 

 

 

O Chef Kiko

Ambos os meus avós se chamavam Francisco, ambos respondiam ao diminuitivo Chico, tal como dois tios com esse nome, dos dois lados, e tenho um primo Chico. As coisas mudam , as pessoas mudam, existe mobilidade social, seja real seja percepcionada ou almejada, e até pode ser horizontal em vez de vertical, mas existe mobilidade e modas e essas coisas notam-se também nos nomes. Para minha relativa surpresa o meu nome de família vai na   quarta ou quinta geração de Franciscos mas acabaram os Chicos, o meu sobrinho Francisco é mais conhecido por Kiko, e tive pena.

Tal como os nomes assinalam a pertença ou pretensão de pertença a determinado grupo, como fica sempre patente nos encontros entre Constanças e Vanessas , entre Salvadores e Leandros , os diminuitivos fazem o mesmo e ainda o agravam, tirando qualquer possibilidade ao portador do nome de se distanciar desse mesmo grupo. Mesmo que esteja sempre calado, na altura em que a mãe o chama, à porta da escola , com um sonoro “Quico, venha cá!” , o Chico está arrumado, vai ser beto a vida toda e dar-se só  com os outros betos , o que desconfio faça parte dos objectivos de muitos pais.

É claro que ser “beto” ou seja o que for que é o contrário de “beto” não tem nada de negativo em si e uma pessoa não é melhor ou pior por causa do nome, proveniência ou pronúncia, mas estas divisões e designações fazem parte dos nossos preconceitos e esquemas mentais para enquadrar e perceber o mundo  e isto tudo para dizer que quando vejo alguém com mais de 14 anos a responder ao nome “Kiko” reviro logo os olhos.

Já trazia então este  preconceito quanto aos Kikos, a juntar ao meu preconceito contra os glutões gastrónomos e indiferença perante a culinária em geral,  quando me deparei  com a história do dia e fiquei a conhecer o Kiko Martins, lisboeta, cozinheiro e empresário.  Então o Kiko, apesar de ser um cozinheiro famoso e de ter meia dúzia de restaurantes em Lisboa e publicado  livros de receitas, apesar de ter nascido Kiko, como tal, bem na vida, é um moço ambicioso e pensou que fama nunca é demais.Apareceu um dia com um comunicado à imprensa a dizer , numa folha completa, que  tinha sido convidado pela NASA para participar num concurso de culinária espacial , que tinha vencido.

Com o espírito crítico e profissionalismo que lhe reconhecemos, a comunicação social publicou o comunicado assim como vinha, sem questionar se um rapaz tão charmoso, bem educado e reconhecido podia estar a aldrabar. O chefe Kiko aterrou na Portela de cachecol da Selecção ao pescoço, saudado entusiasticamente pela família e fãs e prosseguiu na ordenha do prémio o mais que conseguiu, incluindo aparecer vestido de astronauta no programa da outra que fala aos gritos.

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Nenhum dos órgãos de comunicação se lembrou de entrar no google e ir ver mais sobre este concurso de cozinha espacial organizado pela NASA que tinha convidado o chef , senão tinha visto logo que isso não existia e tinha ligado ao homem a perguntar  então pá?

Não, foi tudo aceite publicado e durou até agora. Apanhado na sua mentirinha o Kiko já fez questão de explicar que “foi tudo uma questão de semântica”, explicação que satisfez os seus fãs e deu vontade de rir aos que sabem o que é semântica, porque as diferenças entre a realidade e a fantasia neste caso vão muito para além da semântica , por exemplo ser convidado a participar num concurso    e concorrer a esse concurso  são coisas distintas. A NASA não organizou nada, nunca o convidou para nada, o concurso era organizado por uma entidade vagamente relacionada com a  NASA e era dedicado às batatas.

Isto é mais ou menos como se eu dissesse que fui convidado pelo  Sporting para fazer parte da equipa para o ano e depois sabia-se que eu tinha ido inscrever-me para fazer testes no Sporting da Covilhã e eles ficaram de me dizer alguma coisa.

Enquanto andava a ler matérias sobre isto fiquei a saber que o chef Kiko é um profissional de sucesso , reconhecido e premiado no seu meio e com uma carreira sólida. Isto obriga á pergunta: porquê fazer uma coisa destas? Se fosse um principiante a tentar ser falado e criar reputação não seria menos grave mas compreendia-se, agora o que é que leva  uma pessoa de créditos firmados a expôr-se desta maneira ao ridículo com uma mentirinha  que não lhe adiantava nada mas que lhe está a custar bastante, é para mim um mistério completo. Será só vaidade e egocentrismo?

Comecei a escrever este blog há mais de 15 anos, apaguei a  primeira parte dele mas mesmo assim ainda estão aí muitas histórias dos meus “tempos áureos” da navegação. Desde tempos imemoriais que os marinheiros são grandes aldrabões, para se safarem melhor em terra e porque no meio do mar não está ninguém para depois os vir contradizer quando contam histórias de temporais , ilhas perdidas , mil perigos e aventuras . Como nunca escrevi isto com o intuito de ser famoso , ganhar dinheiro ou  arregimentar “seguidores” nunca me passou pela cabeça inventar pormenores ou mesmo histórias inteiras, por mais fácil que fosse quanto mais não seja porque tenho uma imaginação  fértil . Talvez a principal razão para isso além de que mentir é errado é que “se dissermos sempre a verdade nunca temos que nos lembrar de nada”. Se começamos a introduzir mentiras a vida torna-se num esforço para não nos esquecermos da história que contámos e para não sermos apanhados , sempre sob a ameaça de sermos expostos como aldrabões. Para algumas pessoas com distúrbios de personalidade isso não importa ou nem chega a ser considerado, a maioria das pessoas tem sentimentos como vergonha e dignidade e não se quer expor a essas possibilidades.

Já vi que o chefe Kiko não está preocupado com as consequências de ter sido apanhado a expandir e ornamentar  a verdade e tenho quase a  certeza que nenhum dos seus fãs vai deixar de o ser. Seria bom  que os jornalistas aproveitassem este episódio para interiorizar que não se podem publicar comunicados à imprensa tal como eles chegam às redacções, é seu dever confirmar a informação antes de a publicar. Seria bom mas não vai acontecer.

 

 

Principais Notícias

É esse o título que me aparece quando abro o Google Notícias, um agregador que é suposto trabalhar com um algoritmo tão avançado que consegue detectar as notícias que me interessam mais.  Mostrando que os algoritmos só funcionam se os alimentarmos com informação, senão dão resultados quase aleatórios, a primeira notícia que me aparece é “José Castelo Branco manda recado a juiz Neto de Moura”. O facto de este Castelo Branco ser uma pessoa famosa a quem se dá atenção é muito revelador do que somos e onde estamos como país e sociedade. Também reveladora da nossa condição é esta questão do Juiz Neto de Moura, que conseguiu a rara proeza de ter o país em peso, ou pelo menos a parte audível e legível do país, contra ele. A única coisa que tenho a acrescentar ao que já toda a gente disse é que acho uma vergonha (a juntar aos milhares de vergonhas nacionais) que haja  juízes  isentos de custos judiciais. “De acordo com o Artigo 4º (Isenções) do Regulamento da Custas Processuais, “estão isentos de custas”, entre outros, “os magistrados e os vogaisdo Conselho Superior da Magistratura, do Conselho Superior do Ministério Público ou do Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais que não sejam magistrados, em quaisquer ações em que sejam parte por via do exercício das suas funções“.Como já ganham pouco, têm poucas regalias e pouco poder, ainda estão isentos destes custos. Tá bem.

A seguir, “Portugal lamentou a Angola os incidentes no bairro da Jamaica” . Esta é um bocado surreal, eu pensava que o bairro da Jamaica era no Seixal e que as pessoas que lá vivem são portuguesas mas parece que não, parece que afinal aquilo é uma espécie de colónia angolana que tem que estar debaixo da atenção do governo de Angola .

Creio que  o que há a lamentar é que aquelas pessoas vivam na pobreza e nas condições ( num município governado pelo PCP há 40 anos) que invariavelmente geram crime e delinquência , e não vejo para que  é  chamada Angola ao caso nem de onde é que vem a necessidade de sequer discutir com um país estrangeiro a actuação da polícia , mas os nossos governantes lá sabem a quem é que devem contas.

Em terceiro, “Protecção Civil alerta para agravamento das condições…” tem sido a história deste inverno aqui, uma saturação de mau tempo, ainda hoje vai aqui  um temporal desfeito e vai ser mais uma semana de chuva e vento forte, estou cansado, não, saturado disto. Mas já ouvi os primeiros cagarros e já há uns rebentos nas árvores pelo que não é só o calendário que diz que o Inverno está a acabar.

A seguir, “Guaidó conseguiu entrar na Venezuela” , muito para desconsolo dos comunistas por todo o lado que continuam a defender o Maduro e a dizer que o Guaidó não tem legitimidade. O que eu sei é que o Guaidó quer eleições e o Maduro não, isso já diz alguma coisa, e também sei (ou creio saber)  porque aprendi há pouco tempo a custo de andar a vasculhar em sites como o  do Departamento dop Tesouro Americano que é quem impõe sanções, que a história das mesmas é mal contada na imprensa.  Ora, a narrativa dos comunistas conta que a economia venezuelana foi pelo cano por causa das sanções. Mas estas sanções são de dois tipos: ou a proibir cidadãos e companhias americanas de investir na Venezuela , nomeadamente na PDVSA, ou, a maior parte e a que enfurece mais o regime, a congelar contas offshore e restringir os vistos de viagem de altos funcionários do regime. A primeira priva a Venezuela do malvado investimento  capitalista americano que era sempre uma coisa má mas só que não, a segunda estraga a vidinha aos oligarcas que já não podem ir às compras a Miami nem esconder os milhões que roubam e traficam. Uma verdadeira opressão. O Daniel Oliveira fazia no outro dia uma pergunta retórica no twitter, sobre qual o motivação do Trump para interferir na Venezuela , eu retoqui a perguntar qual será a do Putin e do Rohani mas estranhamente não tive resposta. Os EUA metem-se nos assuntos da Venezuela por imperialismo e interesse , os Russos e os Iranianos é por solidariedade e razões humanitárias.

Seguinte , “Trevor Noah pede desculpa depois de brincar com o conflito entre a Índia e o Paquistão”. Primeiro, lembrar que há conflito aberto entre a Índia e o Paquistão, duas potências nucleares. Os paquistaneses abateram pelo menos um caça indiano, houve barragens de artilharia e movimentações de brigadas blindadas na fronteira e baixas de parte a parte. Dizem os especialistas que as coisas estão a acalmar depois do Paquistão ter libertado o piloto do avião abatido. O Paquistão, como mais fraco, pobre e pequeno tem mais interesse em acalmar as coisas, mas este conflito não é novo , Caxemira é uma chaga aberta e com os regimes de ambos os lados a puxar para o nacionalismo a coisa pode correr mal muito rapidamente.

E quem é o Trevor Noah? Um comediante sul africano emigrado nos EUA que teve, na minha opinião, o azar de ter sido escolhido para substituir um dos mais brilhantes humoristas e satiristas que os EUA já tiveram, o Jon Stewart, que teve juízo e reformou-se cedo. Foi assim como se o Herman José tivesse decidido reformar-se a meio do Herman Enciclopédia e tivessem lá posto o Nilton. Não acho grande piada ao Noah, de tal maneira que nunca mais vi o Daily Show, nem fui ver que piada é que ele disse sobre a Índia e o Paquistão..mas ainda bem que fez piadas, e é sinal dos nossos tempos que foi obrigado a pedir desculpa.

A seguir, o sapo24 pergunta “Bernie Sanders, pode um socialista ser presidente dos Estados Unidos?” Não, é a resposta simples. Se for, publico aqui um vídeo a comer uma foto 5×8 do Bernie Sanders a ser confirmado presidente, com a Internacional a tocar em fundo e com o punho esquerdo cerrado.

Segue-se a secção “Portugal” , começando com “SEF contrata 132 funcionários em planos de contingência para o Brexit”. Na altura que escrevo isto faltam 602 horas para o Brexit, tenho um contador. Acho bem que por cá haja planos de contingência e que se consiga lidar com os transtornos que vão acontecer aos britânicos residentes e visitantes. Aqui a 500 metros mais abaixo há uma casinha lindamente recuperada por um casal de reformados ingleses que cá  passa todos os verões. Têm a casinha, conta bancária, um barco de pesca e uma motoreta, todas as suas posses, hábitos e planos estão em risco. como eles há dezenas de milhar e creio que quanto mais não seja por aí , pelo impacto negativo na vida de todos esses britânicos que vivem cá ou visitam, também vamos sofrer.

O Notícias ao Minuto fala sobre “os riscos de retirar o leite à alimentação sem intolerância à lactose”. Arrisco dizer que não existem riscos nenhuns nesse caso. O risco que existe e aumenta é para a indústria dos lacticínios, que entre intolerâncias reais e imaginadas e o activismo de gerações que entre outras coisas estão a perceber que para se ordenhar uma vaca tem que se lhe tirar o vitelo, está a ver os lucros futuros ameaçados. Como já há muitas décadas que os lacticínios são uma indústria como as outras , esta puxa os seus cordéis e faz lobbying e propaganda pelo leite.

Notícia verdadeiramente importante, o Vaticano anuncia que daqui a um ano vão ser abertos os arquivos do Papa Pio XII, ou seja, relativos ao período da Segunda Guerra Mundial. Isto é importante porque o papel da igreja católica durante o Holocausto é discutido há décadas e sempre foi ângulo de ataque , finalmente vai poder  conhecer-se ao pormenor a política do Vaticano nesses dias. Já há 13 anos que uma equipa prepara os arquivos, que começaram a ser organizados a pedido do anterior Papa, e esta organização e preparação já está a ser apontada como “sanitização” mas seja como for cerca de 16 milhões de páginas vão obrigatoriamente permitir esclarecer o tema. É daqui a um ano que vamos saber se a igreja era ou não anti semita. Eu digo que era, mas que isso nunca chegaria ao ponto de tolerar os horrores dos nazis, vamos ver.

E por hoje chega da página das notícias principais que me são servidas pelo Google.

 

Roupa de Homem

De vez em quando leio ou ouço uma queixa de uma mulher sobre a calçada portuguesa e quando é possível a primeira coisa que faço é ver o que  tem calçado. A maior parte das vezes a pessoa consegue apontar as desvantagens para as articulações e os problemas de aderência do pavimento e ao mesmo tempo  leva parte da sua vida de saltos altos sem que essas objecções lhe ocorram ou sem que lhe passe pela cabeça deixar de usar saltos altos porque dão cabo das articulações, fazem mal à coluna , aos pés e têm péssima aderência.

Resolver a questão da  calçada portuguesa, cujos problemas são sentidos principalmente por quem usa saltos altos ou solas lisas, implicava re-pavimentar ruas e avenidas inteiras em centenas de cidades e vilas, perdendo-se de caminho um ofício  centenário que espalhou muitas vezes arte pelo chão do país. Resolver o problema pessoal da calçada portuguesa implica mudar de sapatos.  Não vivo numa cidade com calçadas nem tenho noção muito apurada das tendências e usos de vestuário e calçado mas nunca vi uma campanha pelo abandono dos saltos altos quer fosse por saúde ou conforto, nem consta que estejam em desuso. Como em Portugal as mulheres vestem e calçam o que lhes apetece e creio que até para vestimentas formais há sapatos rasos, sou forçado a concluir que gostam de andar de saltos altos.

Esta conversa vem a propósito deste artigo que me apareceu à frente e que fui ler  por achar o título estúpido. Quando o título é estúpido o resto raramente desaponta.

Mudar para roupas de homem ensinou-me que o mundo não quer que as mulheres andem muito confortáveis”. 

Como sou, às vezes para minha  desvantagem,  bastante literalista, comecei por logo por implicar com a história do mundo querer ou não querer. O mundo não quer nada, o mundo comporta mais de 7 mil  milhões de pessoas que querem coisas diferentes, e se vamos ignorar isso e falar no que o mundo quer para as mulheres temos que lembrar que desses 7 mil milhões mais ou menos metade são precisamente mulheres.

Esta escritora passou a usar roupas de homem e descobriu coisas como bolsos e decisões mais simples, tipo um par de calças é um par de calças. Descobriu que as roupas de homem são feitas mais para  cobrir do que para revelar. Apesar de se considerar uma intelectual que sempre esteve à vontade com o seu corpo e que obviamente se interessa pelo tema,  nunca tinha pensado no constrangimento social que é a roupa.  Cito :

Desde que experimentei roupas de homem, a minha regra geral tem sido só usar roupa com que me sinto confortável e que me permite fazer as minhas próprias escolhas sobre  quanto do meu corpo quero que chame a atenção.

Cabe lembrar que  este artigo está arquivado na categoria “género”, “feminismo” e “moda” e uma pessoa tem que se rir a pensar que foi-lhe  preciso, já adulta,  vestir umas calças e uma camisa para perceber que o que interessa é estarmos confortáveis e que nós é que decidimos quanto mostramos. Esta não chega a ideóloga do movimento nem deve ser a estrela dos debates.

Já que a autora escreve aquele título acusando o mundo de querer que as mulheres andem desconfortáveis e depois se esquece de desenvolver, quero sugerir que não é nada disso, que se há alguma imposição é das mulheres a elas próprias, que não me consta que haja homens heterossexuais interessados nas discussões técnicas sobre roupa feminina que ocupam um terço do artigo, que as coisas que são consideradas desconfortáveis e constrangedoras, como saltos altos, alças de soutiens ou sei lá que mais, seriam talvez obrigatórias por todo o lado  há 50 anos mas em 2019 só nos países muçulmanos mais atrasadinhos tipo Arábia Saudita é que as mulheres não se podem vestir como lhes apetecer e uma mulher de verdadeiro valor e mérito não o perde pelo modo como aparece vestida, isso  parece-me  um dos pontos básicos do feminismo mas eu sou só um gajo que anda aqui a ver se percebe.

Se as mulheres usam coisas desconfortáveis é porque querem ou  conformar com uma imagem que têm da mulher ideal , tal  como os homens têm a sua imagem do homem ideal, ou  conformar com a imagem que acham que para o homem é a mulher ideal. Isto leva-nos à história dos padrões de beleza, mas pelo menos de onde eu vejo o mundo há certamente padrões de beleza, mas são de beleza física que tem pouco a ver com a roupa que se usa. As feministas podem com justiça queixar-se de que grande parte dos homens prefere (e nunca tem) mulheres mais  ou menos ao estilo de Hollywood e da Tv da época, e isso pode ser pernicioso, concordo, mas raramente vem atrelado à roupa que se usa,  lembremos o adágio do batom e do porco e creio que fica explicado.

Numa indústria global de biliões e numa era de compras instantâneas e escolha infindável  não haverá falta de opções  para as mulheres que querem usar roupa simples , prática e confortável, e se querem usar roupa de homem, força, já há muitas que o fazem, especialmente as que não querem impressionar os homens. É daí que vem a “opressão” das roupas desconfortáveis: a necessidade e desejo de impressionar.

Não é o mundo que obriga ninguém a nada, é a  ideia de que  o mundo quer e espera alguma coisa de nós que nos obriga a tudo.

 

 

Pressão da Igreja

Aí temos o carnaval à porta, outra ocasião que me é indiferente e não foram os posts dos meus amigos de Alcobaça mascarados nas palhaçadas do costume eu nem me lembrava que existia. Já houve um tempo, na época em que fazia coisas porque os meus amigos faziam coisas, em que saí umas vezes mascarado, e lembrei-me há bem pouco tempo da mais memorável.

Estava a pensar sobre tanto que o mundo mudou em 20 anos e no que era aceitável dantes e não é aceitável hoje e lembrei-me da vez que nos mascarámos, uns 10, à Klu Klux Klan, com cruz a arder e tudo. Hoje as pessoas têm que pensar quatro vezes nas implicações de tudo e pensar muito bem em quem é que podem ofender, e a espontaneidade é uma das vítimas do politicamente correcto. Já fui mais detractor do famoso politicamente correcto do que sou porque acho que é melhor fazer um esforço para não ofender ninguém do que ser tudo à balda, mas isso deve-se muito ao facto de viver sozinho e muito longe de qualquer centro urbano e não ter que aturar malucos nem pensar cuidadosamente em cada interacção ou acção, não vá o diabo tecê-las. Se não falas com ninguém não podes ofender nem chocar ninguém, assim se resolve um problema antes dele aparecer.

Mas falava de Carnaval e suas tradições e brincadeiras, a mais importante de todas é, creio eu, a possibilidade de brincar e gozar com tudo. Crítica social, fantasia e sátira embrulhada em festa, sempre foi isso o Carnaval. Uma terra de tradição carnavalesca fortíssima é Torres Vedras e já lá deve andar tudo ao rubro,  vejo hoje uma notícia que em circunstâncias normais me tinha passado com um encolher de ombros, dada a minha não relação com carnaval, mas  nestes tempos que vivemos e com o que continua a saber-se, não sou capaz de deixar passar.

Então Torres Vedras instala todos os anos um monumento ao Carnaval, uma paródia escultórica. Este ano uma das figuras era a Nossa Senhora da Bola, uma escultura igual às tradicionais da Nossa Senhora mas com uma bola de futebol em vez de uma cara. O escultor recebeu prontamente a chamadinha telefónica da Câmara que , perante pressões da Igreja, o instava a retirar a peça.

Ora, têm vindo a público nos últimos meses toda a sorte de relatórios, investigações, denúncias e confirmações de uma quantidade assustadora de  abusos sexuais dos mais nojentos que há e com uma tónica comum : praticados por padres católicos sobre os mais fracos ao seu cargo , cuidado ou sob a sua orientação. Houve uma altura, como sempre, em que havia denúncias mas andou-se na fase da negação. Era uma campanha dos ateus ou coisa assim. Já não, até o chefe máximo da organização admite, assume e lamenta. Lamenta muito, farta-se de rezar pelas vítimas.

Por cá um dos directores gerais disse na semana passada que havia registo de uns dez casos, pouquíssimo se pensarmos no número de padres. Sim , só dez, muito poucos, o melhor era nem falar mais nisso. Outro canalha que, se houvesse inferno, ia ter que se retorcer bem para lhe escapar porque quem ajuda, desculpa e encobre o criminoso fica com boa parte do crime colada a si.

No outro dia abri um artigo do NYT que falava de um relatório a descrever como dezenas de freiras eram regularmente abusadas por padres e que as que engravidavam eram  levadas a abortar. Tive um refluxo gástrico , estive para escrever sobre isso na altura mas pensei , não, é sórdido demais, ninguém merece.  Agora acho que merecem tudo.

A coisa é de tal maneira que em Roma se reuniram 115 bispos a discutir os abusos sexuais  na Igreja. Como sempre ao retardador, agora que a verdade não pode mais ser varrida para debaixo do tapete, a Igreja tenta lidar com o nojo e a hipocrisia de décadas. Como se trata de um culto religioso, por definição irracional, os fiéis vão aceitar qualquer explicação que lhes seja oferecida pela cúpula e qualquer reacção lhes vai parecer boa e adequada ( o Papa falará sobre isto ex cathedra e como tal, será infalível) e se não parecer , encolhem os ombros e dizem que as vias do senhor são misteriosas e isto é só mais um teste à fé,  há homens maus em todo o lado e vamos sair disto reforçados e purificados.

Até vir essa conclusão do Papa, que entretanto veio comparar os abusos a rituais pagãos não resistindo a tentar encontrar  escapatória retórica, a Igreja e os seus representantes deviam andar , como se costuma dizer, colados às paredes. Não mexer uma palha , não soltar um pio, não dar uma entrevista nem emitir uma opinião até acabar esta reunião magna e o Papa falar por todos, sob pena de se enterrarem mais ainda ou de aparecerem com um discurso que corre o risco de estar desactualizado e ser contraditório quando o infalível falar para a semana.

No meio desta tempestade em que meio mundo olha de esguelha e o outro meio com asco, o que é que faz a Igreja de Torres Vedras? Apresenta uma queixa porque um escultor instalou uma senhora da Fátima com cara de bola no monumento ao Carnaval. Foi o que os incomodou, sentiram-se atacados e forçados a reagir.

Isto diz muito sobre este clero, que durante décadas  abafa , encobre e não castiga os crimes mais sórdidos praticados no seu seio mas que se sente beliscado na sua dignidade e forçado a chamar os poderes à atenção quando se brinca com os seus mitos e crenças. Agora já todos os padres, leigos e beatos e tudo, todos  já acham que a “denúncia é uma obrigatoriedade de todos”. Criaram no Verão passado um sistema para lidar com um problema que tem pelo menos 100 anos.

Ficamos então à espera de uma explicação para o facto de mais uma vez a Igreja Una Santa Católica e Apostólica mostrar que muitas  vezes não é nenhuma dessas coisas.  O Cardeal Patriarca admite um estudo sobre os abusos sexuais na igreja portuguesa, uma verdadeira posição de força e determinação perante um problema tão grave. Cada vez tenho mais dificuldade em perceber como é que se pode ter  confiança numa instituição com esta história e este modo de operar.

Disse há pouco o Papa no twitter: “Todo o abuso é uma monstruosidade. Na ira justificada das pessoas, a Igreja vê o reflexo da ira de Deus. Temos o dever de ouvir atentamente este grito silencioso.”

É pena que Deus não seja capaz de manifestar  a sua ira directamente e faça tudo por reflexos, e também é pena que não tenha reflectido a sua ira um bocado mais cedo.