Reparações

Ando numa fúria interior por causa do Sporting, vou só dizer que não gosto do estilo do Bruno de Carvalho mas espero bem que continue como presidente,  e vou antes escrever sobre máquinas de lavar.

Muitas pessoas acreditam que há uma variedade enorme de produtos que têm obsolescência incorporada, ou seja, são feitos para estarem ultrapassados ou avariarem em pouco tempo. Eu acredito nisso e faz sentido: se somos fabricantes de telemóveis, por exemplo, temos mais interesse em vender um telemóvel à mesma pessoa a cada dois anos do que vender-lhe um que dure 10, ou vender-lhe um automóvel a cada 3, convencendo-a por meio de publicidade que o seu, mesmo que esteja funcional, já não serve. É um dos problemas do capitalismo, que se não fosse alavancado por esta voragem do novo talvez nos tivesse trazido a um ponto diferente na História.

É uma coisa que me ocupa bastante tempo, tentar  fazer a “quadratura” entre os problemas por exemplo ambientais provocados pela necessidade criada de mudar de carro a cada 3 anos e telemóvel a cada 2 e os milhões de empregos e salários proporcionados pela produção desses mesmos carros e telemóveis. O balanço entre os agroquímicos que deitamos na terra e o mal que fazem e os aumentos enormes de produtividade que permitem alimentar biliões a preços comportáveis. Quanto é que vale o sofrimento dos macacos, ratos e demais animais de laboratório e os lucros absurdos das farmacêuticas posto ao lado do sofrimento humano que minoram? Onde está o equilíbrio entre os problemas da exploração e refinação do petróleo e a maravilha que é entrarmos num carro e irmos até onde queremos?

Enfim , questões sem resposta, mas pela minha parte não participo na dança e não  compro alguma coisa porque é moda, nem  deito fora coisas que funcionam , seja um telemóvel seja uma peça de roupa, só porque já há melhor. Não me sinto de algum modo diminuído nem que me falta alguma coisa por o meu carro ter 20 anos,  usar windows 7 de 2009 e calças quase até ao fio . Rio-me bastante quando vejo críticos ferozes do capitalismo que sem se darem conta estão completamente absorvidos no sistema e a sua principal objecção é que o capitalismo não lhes está a proporcionar a eles o nível de vida material a que acham que têm direito, ou alternativamente, que beneficiam de tudo e incomoda-os que os outros não possam beneficiar igualmente, o que é de uma hipocrisia considerável. Este sistema opressivo que destrói o planeta, escrevem no seu Mac enquanto partilham o dia a dia nas redes sociais, pesquisam novos cosméticos, usam o visual da moda e vão de uber para o starbucks discutir as problemáticas transgénero antes da sessão de cinema independente da meia noite. Não devia funcionar assim.

Mas estou a divagar, voltando ao tema, que são reparações, como é fácil de calcular as pessoas aqui, por escassez de comunicações com o exterior, isolamento, uma certa pobreza endémica e o próprio tamanho do mercado que não justifica muitas empresas especializadas, sempre se habituaram a esticar a duração das coisas ao máximo e a reparar tudo até ser mesmo impossível continuar. Apesar de hoje os rendimentos estarem em linha (creio eu) com os do continente e se poder encomendar toda a espécie de tralha  pela internet permanece algum  espírito de desenrasque e recuperação, de utilização do que há até ao fim. Já tive a sorte de experimentar isso pessoalmente, a última vez com o carro, numa avaria em que de certeza um mecânico no continente me tinha feito comprar uma peça nova completa, o meu mecânico aqui cheio de arte e engenho pegou nuns arames e num pedaço de plástico e poupou-me uns €300 e três semanas de carro parado à espera da peça.

Só pude comprar uma máquina de lavar roupa uns anos depois de cá morar, até lá dependia de vizinhos e amigos prestáveis e da enorme economia só atingida por gajos que vivem sozinhos e se estão nas tintas para a  avaliação que os outros fazem do grau de variedade e limpeza do seu vestuário. Foi um belo dia, e não me vou esquecer de ver o tipo da loja que ma vendeu quando ma veio entregar e instalar, a fazer os cerca de 50 metros da canada estreitinha de acesso a minha casa casualmente com a máquina ao ombro e um cigarro nos lábios.

Não mudou muito o meu ritmo de lavagem de roupa mas fiquei independente, e ainda por cima com a possibilidade de fazer o mesmo por um amigo se lhe avaria a máquina, ou de lavar umas máquinas a um conhecido que chegue aí num iate no Verão, já aconteceu. As máquinas de lavar roupa são daquelas coisas que as pessoas tomam por garantidas e já nem imaginam o que seria a sua vida sem uma, eu imagino e por isso gosto tanto da minha. Ao fim de três anos avariou.

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A máquina tem a sua própria casinha,  (essa planta é um cafeeiro, o sobrevivente de 20 pés de um palmo que trouxe do Porto da Lomba há 6 anos quando sonhava em ter uma plantação de café)  e por isso nunca a ouço a trabalhar. Carrego-a , ligo-a e passado umas horas ou na manhã seguinte vou estender a roupa. Por duas vezes a roupa estava ensopada quando abria a máquina, mas eu não me deixo incomodar por pormenores desses, estendia-a a secar a pensar que me tinha enganado num botão ou coisa do género. Isso seria difícil porque a máquina trabalha sempre no mesmo programa e temperatura, tudo é lavado da mesma maneira, mas  depois de secar uma terceira máquina e reparar que a roupa não cheirava lá muito bem é que me lembrei de depois de carregar no botão ficar a ver o processo. A máquina enchia-se de água, dava dois saltos e parava.

Liguei a um amigo electricista para cá vir e já estava a fazer contas à vida, peças, despesa, tempo sem máquina. Ele desmontou a tampa, olhou lá para dentro, pegou num secador de cabelo (acho que não é preciso dizer que não era meu)  passou 5 minutos com o secador apontado à placa electrónica e depois disso a máquina trabalhou como dantes.

Ninguém acredita que algum técnico de reparação de electrodomésticos numa cidade teria outra atitude além de diagnosticar avaria da placa electrónica e ou subsituí-la ou mandá-la para reparação, quiçá pronunciar  a máquina definitivamente avariada e recomendar a compra de uma nova.

A humidade é dos maiores problemas que temos aqui, para as casas, os aparelhos e as pessoas, e é uma guerra constante. Agora tenho uma lâmpada de aquecimento (que usava para os pintos) que montei em cima da máquina de lavar , abro a tampa e deixo-a lá quinze minutos a secar a parte electrónica antes de uma lavagem, e espero com isto estender a duração da máquina por muitos e bons anos.

Uma das coisas mais ridículas que já vi  e me convenceu de que as pessoas  em geral  pensam pouco e mal  e compram seja o que for que lhes souberem impingir foi há cerca de dois anos, um anúncio de uma máquina de lavar roupa com a revolucionária possibilidade de se abrir uma tampa inserida na tampa para juntar uma peça de roupa durante a lavagem. Para aquelas alturas em que a máquina já está a lavar mas chega a criancinha com a camisola que já vestiu uma vez (logo, imunda) e como certamente não tem outra nem pode esperar um dia ou dois, abre-se a tampa  da tampa e resolve-se esse problema.  Haver engenheiros a trabalhar neste tipo de merdas, marketeers a trabalhar para fazer crer que isto faz falta a alguém e consumidores dispostos a pagar mais centenas de euros pela possibilidade de juntar uma peça de roupa durante a lavagem é das coisas que me faz crer que este modelo não tem grande futuro.

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O Fim do Mundo

Não tenho grandes dúvidas de que no dia em que tiver a minha microcervejaria pronta, instalada num edifício em conformidade com todas as normas da indústria tipo III e com todo o minucioso e extenso licenciamento em ordem, o Governo Regional vai legislar no sentido de reconhecer e facilitar a vida aos pequenos produtores de cerveja e isentá-los de exigências pouco justificáveis e  muito dispendiosas, como já se faz no continente.

Na mesma linha , não tenho grandes dúvidas que a acontecer um cataclismo global daqueles de parar tudo e rebentar com a sociedade tal como a conhecemos isso vai acontecer num dia  em que o Sporting esteja a liderar a tabela com 5 pontos de avanço a 2 jornadas do fim.

Quase desde que  comecei a ler  que conheço teorias , projecções  e premonições sobre o fim do mundo e  os cataclismos que nos esperam ao virar da esquina, lembro-me que um dos primeiros livros sérios que li foi  “Os Limites do Crescimento” , devia ter uns 12 anos e fiquei muito assustado e convencido de que se chegasse aos 30 ia ser num cenário miserável, estávamos condenados, os autores do livro defendiam  em 1972 que se estavam a atingir  os limites.

Desde os profetas esgadelhados aos berros pelos desertos do Médio Oriente  nos tempos bíblicos até aos alucinados que ainda hoje  fazem o mesmo nas ruas das grandes cidades, nunca houve falta de anúncios e avisos do Fim, sempre próximo. Tenho um vizinho um pouco distante que abriu um  Centro de Sabedoria Cósmica, de momento é só ele e a mulher na sua sala mas sem dúvida  que os discípulos se vão materializar, tem uma ligação  online permanente com um guru brasileiro que sabe e  pontifica sobre física quântica, metempsicose, ciência alienígena, enfim , fala  sobre tudo com um largo e cativante sorriso. Periodicamente o vizinho avisa via facebook , entre duas citações falsas do Leonardo Da Vinci e do Einstein  e três frases de sua autoria (mal escritas e um tanto absurdas mas apresentadas em belos fundos que lhes dão ar de credibilidade), que grandes mudanças estão para muito breve, aguardemos serenamente. Isto dura há 5 anos e já estive para lhe perguntar o que é que ele entende por breve mas  já aprendi a não me introduzir em debates assimétricos.

Creio que desde que o Homem tomou consciência de que vivia num planeta  num determinado espaço e tempo que começou logo a pensar como é que isto iria acabar.  Com o surgimento da internet e do facebook houve um  aumento exponencial dos malucos com possibilidades de espalhar a sua maluqueira e de bem intencionados com pouca noção da realidade e a possibilidade de chegar a milhares de influênciáveis, e  os fins do mundo têm-se sucedido com relativa frequência.

Na memória tenho dois, o da transição para o ano 2000 que muitos cretinos passaram ajoelhados a rezar e que apesar de o dia 1 de Janeiro de 2000 ter amanhecido tal como o anterior não puseram em causa as suas crenças, apenas avançaram a data, e o de 12/12/2012 , esse com mais influência do Calendário Maia. Os Maias eram um povo avançadíssimo que conseguia ver no calendário astronómico o fim dos tempos mas curiosamente hoje não há civilização Maia, já não havia em 2012,  o próprio  fim não lhes apareceu no calendário.

Já no ano passado apareceram-me vários avisos sérios de que a invasão alienígena estava iminente, era para Setembro. Não sei se repararam mas não aconteceu nada.  Um problema gravíssimo nestas coisas é que o número de visualizações ou visitas de um site ou vídeo converte-se em dinheiro, pelo que há milhares de pessoas não necessariamente ignorantes ou  crédulas que trabalham a inventar e propagar merda, porque é sabido que nasce um tanso a cada minuto e que se mandarmos a 100 pelo menos 10 acreditam, por mais descabelada que seja a proposição. Há milhões de americanos que acreditam que Deus fez Trump presidente , muitos serão pessoas que se riem dos emails do príncipe da Nigéria, demonstrando que há variadíssimos tipos de estúpido, cada um de sua maneira especial.

Voltando ao apocalipse, todos os dias é o fim do mundo para milhares de pessoas e ninguém lúcido concebe um “fim do mundo” como um boom em que isto vai tudo pelos ares e só se salvam os escolhidos, ou mesmo um em que não se salva ninguém. Creio que uma coisa dessas à escala do planeta só seria possível com um impacto de um asteróide enorme ou outro corpo celeste que chocasse contra  a Terra. Para aferir essa possibilidade felizmente hoje não consultamos a ancestral ciência Maia,  as Centúrias  ou o Livro das Revelações , temos entre outros a NASA e a AEE que observam o Cosmos e mais importante do que observar, têm uma noção sólida do que estão a ver e modo de fazer as contas ao que se vai passar a seguir.

Não sei se no caso de detectarem uma trajectória de colisão catastrófica iam preferir não dizer nada e que o Fim apanhasse toda a gente de surpresa ou se iam lançar o alarme e, consequentemente, o caos. Não perco muito tempo a pensar na possibilidade de aviso  porque havendo um asteróide a vir direito à Terra o resultado final é o mesmo, haja aviso ou não haja aviso. Se me perguntarem a preferência digo  que não avisem.

Pode não haver fim de tudo mas pode haver   uma variedade grande de catástrofes naturais ou humanas que causem um nível de destruição com consequências na vida de toda a gente. Por exemplo as Maldivas serem submergidas só afecta  quem lá vive, só é  grave  para eles, mas uma guerra nuclear entre a Coreia do Norte e os EUA já causaria milhões de mortos e teria consequências globais muito sérias.

Há hoje hipóteses que há 10 anos pareciam absurdas mas que  já se voltam a ponderar, como uma invasão Russa da Europa Ocidental (que até já foi bem ensaiada na Ucrânia) ou um conflito aberto entre o Irão e a Arábia Saudita (que hoje decorre  “por procuração” no Yemen mas isso pode bem mudar amanhã) e não há falta de pontos de choque e tensão com potencial de escalada. Para mim a probabilidade mais séria é a de colapsos económicos conduzirem a guerras: quando um governo se vê sem recursos , fragilizado e odiado pelos seus cidadãos existe sempre a tendência de culpar estrangeiros e de organizar distracções em forma de guerra. A Venezuela é um caso concreto, o Maduro nunca hesita em culpar estrangeiros pelos resultados desastrosos da sua governação, os vizinhos temem o caos e degradação social nas suas fronteiras  e já pelo menos desde o Verão passado que há operações e incursões militares na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia. Depois de demonstrar  como se arruína o país com as maiores reservas de petróleo do mundo culpando sempre terceiros, o socialismo bolivarianista pode passar à fase  seguinte , lançar o país na guerra (fome e peste já conseguiram) . Outra  guerra na selva da América Latina não é de consequência global nem pode escalar para nuclear, tal como a subida de um metro do nível do Mar teria consequências graves para muitas cidades e regiões mas não determinaria o colapso das sociedades.

Um derrocada financeira como a que eu, com a minha costela de Cassandra, aguardo para os próximos anos trará dificuldades enormes, uma quebra literalmente brutal do nível e condições de vida de centenas de milhões de pessoas e a oportunidade para os que guardem o sentido de humor se rirem a pensar em como achavam que as coisas estavam terríveis em 2013. Poderá trazer um ou outro conflito e no limite a desintegração de estruturas tipo a União Europeia, mas a vida continuará. Não posso criticar o pessoal do fim está próximo por dizerem que está sempre próximo e depois dizer que espero uma crise económica  para um futuro próximo, deixo aqui o meu prognóstico, vem abaixo em 2019. Espero bem estar aqui em Dezembro de 2019 preso no pelourinho cibernético a levar com tomates podres e escárnio por me ter enganado, caso não me engane não vou estar porque nem vou ter internet .

Com estes pensamentos ia visualizando possíveis futuros da Humanidade, sempre cínico que chegue quanto a invasões de extraterrestres, descidas de entes divinos ou novos dilúvios, e  céptico quanto a quaisquer possíveis causas de caos e destruição geral  que não fossem já bem conhecidas. Leitura recomendada para quem gosta de pensar em como é que isto pode ir tudo com o cão, “Colapso”,(do mesmo autor de “Armas, Germes e Aço”) , um livro que explora histórias e possibilidades de, precisamente, colapso.

Uma noção que ouvia de vez em quando nestes catastrofismos era a “inversão dos pólos”, e com uma certa arrogância, como muitas delas saída da ignorância, pensava que era mais uma criação de esotéricos e proponentes do sobrenatural. Há um Pólo Norte e um Pólo Sul e a simples possibilidade de se inverterem parecia-me absurda, inconcebível.

Pois sucede que não só é uma possibilidade real como  já se deu várias vezes, e eu sabia  zero sobre magnetismo terrestre. Li este artigo que me apareceu por acaso e fiquei a saber quase o mesmo, mas agora sei que esse magnetismo é muito real e  influi em  quase tudo, desde a electricidade até ao crescimento de espécies animais. Às tantas vai-se a ver e existem mesmo auras e pessoas que as vêm  e eu além de cínico sou um bocado estúpido na minha própria categoria.

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Não estou a fazer conta de o ler o livro  mas nessa recensão e nesse artigo que referi levantam a questão das possíveis consequências da tal inversão dos pólos nos nossos dias : catastróficas, à falta de palavra mais forte. Não é preciso ter uma grande imaginação nem elasticidade mental para perceber que uma quebra global de tudo o que é eléctrico significaria o fim do mundo tal como o conhecemos. É das sugestões que faço mais vezes a pessoas urbanas que não se preocupam com emergências nem cenários difíceis: imaginem-se  numa  Lisboa onde não há electricidade durante 3 dias. É mais do que  o suficiente para  o caos. Se este inverter dos pólos se verificar entretanto  esse caos pode ser global.

É bom pensar nisso, é um exercício tão velho como  os Estóicos da Grécia  Antiga que defendiam e propunham a visualização negativa como exercício intelectual, não sei se ajudou muito  a Humanidade mas sei que ajudou os Estóicos em particular e que felizmente chegou até aos nossos dias, não tenho dúvidas que muito gurus contemporâneos falem disso como se acabassem de descobrir a ideia mas devêmo-la a Zenão de Cítio, 3 séculos antes de Cristo.  Se conseguirmos “ver” tudo o que pode correr mal e em que escala,  podemos não só apreciar melhor a situação presente como preparar-nos melhor para eventualidades.

Como se não bastasse o aquecimento global, a poluição, a acidificação e o subir do nível do mar, o derreter das calotes polares, o aumento dos fenómenos meteorológicos extremos,  a contaminação química, as guerras convencionais ou nucleares, as desigualdades galopantes, o Benfica, as epidemias, a corrupção, a estupidificação e o controlo das massas, o triunfo do Ter e Parecer sobre o Ser, a exaustão dos recursos, as ditaduras, a opressão política e as violências de toda a ordem, temos também a inversão dos pólos com que nos preocupar.

A parte mais difícil destes textos é quase sempre o último parágrafo, encontrar a nota adequada para fechar o raciocínio, mas há dias em não me sai nada e tem que se terminar com batotas como esta.

 

O Ministério da Solidão

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Vi a notícia de que o Reino Unido tinha criado o Ministério da Solidão e nem quis acreditar, pareceu-me um sketch de comédia mas é mesmo verdade. Fui confirmar  que os Conservadores continuavam no poder e não os Trabalhistas, que tendem sempre mais a pensar que todos os problemas e questões, sejam económicos sejam sociais, se resolvem com mais organismos estatais, e ainda fiquei mais confundido.

É mesmo  verdade, e a nova Ministra da Solidão é uma senhora que até agora era  Ministra do Desporto, vai acumular as pastas. Começo já por aí , os governos e políticos modernos são sempre polivalentes, de tal maneira que uma pessoa que foi escolhida para tutelar o Desporto é considerada uma escolha natural para se ocupar de um tema como a Solidão, o que o cidadão conclui disto e que a perícia e qualificação em causa é mesmo ser ministro, assim em geral,  se estamos bem ligados, sabemos fazer os barulhos certos e percebemos os meandros da administração pública podemos ser ministros de seja o que for.

Fui ver o CV  da nova  ministra e duas coisas me chamaram a atenção : a primeira é que realmente tem qualificações para Ministra do Desporto, tem o curso de treinadora de futebol e toda a gente sabe que esse é o desporto que interessa. A segunda é o que no fundo a qualifica para Ministra da Solidão, ou de seja o que for: da Universidade saiu para assessora no parlamento e por lá ficou, nunca fez mais nada na vida e por isso tem a experiência correspondente.

Andei a ver notícias e comentários sobre este novo ministério, o primeiro que me saiu foi, sem grande surpresa , um artigo a dizer que a culpa do aumento da solidão é do neoliberalismo. Não podia deixar de ser, todos os dias se confirma que tudo o que é negativo na sociedade contemporânea decorre daí, e por extensão, do capitalismo, ao passo que tudo o que é bom decorre da natureza humana. O artigo começa assim: Anyone who really knows what loneliness is knows it well: that permanent vague aching sensation in your chest …. Tretas!, digo eu que sei uma ou duas coisas sobre solidão, mas se o autor me ouvisse dizer isso ia logo dizer que a chave é “quem sabe verdadeiramente o que é solidão” e como eu acho que a maior parte do artigo são tretas deve ser porque eu não sei verdadeiramente o que é, ele sim.

Nunca deixo de estranhar a relutância em aceitar factos da vida e evoluções sociais sem ter que andar a correr à procura dos culpados, de algo ou alguém a quem apontar para dizer “estão a ver este problema? A culpa é destes gajos”, que faz as pessoas sentirem-se melhor e pensarem que compreendem. No futebol é a mesma coisa, e eu sofro disso às vezes porque o futebol é uma parte da minha vida onde não só aceito como cultivo a irracionalidade: para muita gente nunca perdemos um jogo porque calhou, porque correu mal, porque tivemos azar. Há sempre algo ou alguém a quem se pode culpar. Às vezes é verdade , outras não , mas todos conhecemos quem nunca aceite uma derrota do seu clube e consiga sempre apontar o momento X em que algo alheio ao jogo determinou o resultado.

O Homem evoluiu como animal gregário, tal como os resto dos primatas e outros bichos que ainda vivem em bandos, pela razão  muito simples de que as tarefas essenciais à reprodução da espécie necessitam de esforço de grupo, desde a procura de alimento ao cuidado das crias à defesa de intrusos. Tanto quanto percebo nenhuma espécie animal evoluiria se não fosse pelo menos a dada altura parte de um grupo, nem que fosse  um grupo de dois, o necessário à reprodução. Como  as tarefas da sobrevivência se tornam mais fáceis e produtivas em grupo, foi em  grupo que os primatas evoluíram no caminho para Homo Sapiens. A agricultura, a caça, o cuidado dos pequenos, a transmissão de conhecimentos, a protecção do grupo foi-se fazendo melhor quanto  maior e mais sólido era o grupo, estabeleceram-se hierarquias, organizou-se o trabalho, criaram-se  normas e religiões e em grupo o Homem espalhou-se pela Terra e dominou-a.

A Comunidade é a forma de organização e vida reconhecida como  natural e lógica e a Família a fracção constituinte dessa comunidade. Como isto durou dezenas de milhar de anos é lógico que quem não estivesse integrado num grupo fosse visto como uma anomalia e também é lógico que quem não procriasse fosse visto como não contribuindo com nada para o grupo. Participar nas tarefas colectivas e  procriar, durante milénios era este o sentido da vida. Para muita gente ainda é.

Sucede que as condições e  “regras do jogo” estão a mudar a um ritmo dramático e hoje , ao contrário de há poucas décadas, quem vive sozinho não está condenado nem a uma existência isolada e sub humana nem a ser um peso morto que não contribui com nada. Não só a tecnologia  permite uma vida próspera, produtiva  e preenchida fora de um grupo ou família como muitas pessoas, no número das quais se inclui este vosso criado, encontram satisfação e compensação  na solidão e estão  apetrechadas com  ferramentas espirituais e materiais inconcebíveis há, sei lá, 200 anos, que permitem fazer um cálculo custo-benefício, pôr num prato da balança os inconvenientes da solidão e no outro os inconvenientes de viver em grupo,  e  depois  tomar decisões conscientes.

Viver só não é muitas vezes questão de decisão, se  me perguntam “porque é que nunca te casaste?” eu não digo que decidi ficar solteiro, o que decidi foi, tendo em boa conta essa máxima maravilhosa que diz que mais vale só que mal acompanhado, aceitar sem dramas se a coisa nunca se proporcionasse e não fazer da busca  de um par a demanda de uma vida.

Cada vez há mais gente a viver sozinha e claro que cada vez há mais gente a sentir a solidão, e é por isso que a sociedade cada vez inventa mais coisas para lidar com isso. As redes sociais fervem de gente desesperadamente solitária que ali encontra ilusão de companhia e criticam-nas  por causa disso, mas há cem anos uma pessoa que vivesse sozinha e recebesse uma carta de um familiar ou amigo tinha ali uns minutos de companhia, era a mesma coisa, noutra escala. Vive-se sozinho mas há janelas sobre o mundo ao alcance de todos, formas de comunicação quase perfeitas e um sem número de modos de participar activamente e produtivamente na sociedade mesmo vivendo sozinho, e mais ainda, existem meios para que quem vive sozinho e quer deixar de o fazer possa conhecer e comunicar com literalmente milhões de pessoas nas mesmas circunstâncias e encontrar alguém, pelo que o indivíduo que vive sozinho não deve ser considerado anormal, um triste ou um doente, nem a solidão uma coisa necessariamente negativa. Será negativa para quem não suporta a própria companhia, não se conhece a si mesmo nem esta em paz consigo próprio, isso é outra questão diferente e pessoas assim terão sempre problemas mesmo que sempre acompanhadas.

O problema real e dramático não e a solidão em geral, são as pessoas idosas que se encontram completamente sozinhas no fim da vida sem nunca o terem escolhido nem desejado nem apreciado. A decadência física piora  tudo, vai retirando independência aos poucos e a situação agrava-se com o sentimento de abandono, tantas pessoas que deram tudo e viveram em função de famílias que depois não querem saber deles para nada. Muitos especialistas dizem que este problema é “culpa da sociedade”, eu digo que é culpa de individuos que são umas bestas, não é ” a sociedade” que faz um filho abandonar um pai.

Se é nessas pessoas, nos idosos abandonados, que o governo britânico está a pensar com o seu novo ministério, é positivo, mas ainda assim parece-me  ridícula a noção de que mais uma camada de burocracia estatal vai contribuir para minorar o problema. Não tenho dúvidas nenhumas de que o Reino Unido já possui serviços sociais em quantidade, poder e tamanho suficientes para se dedicar ao problema sem se criar outro ministério. Reforcem-se as redes de apoio domiciliário. Dêm-lhes animais de companhia e condições para os ter.  Melhorem-se e fiscalizem-se as condições dos lares de terceira idade e de outros apoios a idosos sós, não me lembro de muitas funções para o Estado mais importantes que zelar pelo bem estar dos que já deram tudo e merecem um fim digno e em paz.  Sejam criativos,  como os Holandeses, que sem ministério inventaram um sistema em que  estudantes residem à borla em lares de idosos, minorando as eternas dificuldades económicas dos estudantes e alegrando essas casas, dando companhia e movimento aos idosos. É preciso um ministério novo?

Se o governo do UK fosse Trabalhista não tenho dúvidas de que o Bloco ia exigir rapidamente um ministério novo em Portugal, que depois de criar umas dúzias de “lugares” , encomendar uns tantos “estudos” e torrar umas centenas de milhar ia propor mais ou menos o que eu proponho aqui, que de resto não tem nada de original. Como é uma medida dos Conservadores não vão pegar nisso, e ainda bem.

Daqui por 15 dias vou ao lar da Santa Casa aqui das Lajes participar com uns amigos numa sessão de histórias, está-se a trabalhar numa apresentação para alegrar um pouco a tarde daquelas pessoas. Não foi por sugestão da direcção nem de nenhum  ministério, foi por sugestão de indivíduos com compaixão que não precisam do Estado para lhes dizer o que fazer para minorar um problema que está à vista de todos. Entrei lá uma vez, não passei do àtrio   e até me engasguei com o cheiro, uma coisa incrível, nunca pensei, não sei se é o cheiro da morte em espera mas se não é  deve ser  parecido, e nunca mais pensei em lá entrar. Mas vou, aceitei o convite e vou participar pela mesma razão que tento sempre que guie as minhas interacções com os outros ao longo da vida:  faço como  gostava que me fizessem a mim.

 

 

 

Semântica

Em relação ao último post, fizeram-me ver que há uma diferença entre a anulação de um casamento religioso e um divórcio, a igreja permite e opera os primeiros mas continua a proibir  e condena os segundos. O Papa agilizou o processo de anulação, numa tentativa de que deixasse de ser apenas privilégio dos ricos e bem ligados e passasse a ser acessível a mais pessoas.

Perante isto fui ver quais os motivos reconhecidos pela igreja para anular um casamento celebrado por ela, quais as causas de nulidade. São 19 e são as seguintes:

1. Falta de capacidade para consentir (cânon 1095)
2. Ignorância (cânon 1096)
3. Erro (cânones 1097-1099)
4. Simulação (cânon 1101)
5. Violência ou medo (cânon 1103)
6. Condição não cumprida (cânon 1102)

7. Idade (cânon 1083)
8. Impotência (cânon 1084)
9. Vínculo (cânon 1085)
10. Disparidade de culto (cânon 1086,- cf cânones 1124s)
11.. Ordem Sacra (cânon 1087)
12. Profissão Religiosa Perpétua (cânon 1088)
13. Rapto (cânon 1089)
14. Crime (cânon 1090)
15. Consangüinidade (cânon 1091)
16. Afinidade (cânon 1092)
17. Honestidade pública (cânon 1093)
18. Parentesco legal por adoção (cânon 1094)

19. Falta de forma canônica na celebração do matrimônio (cânones 1108-1123)

Se se verificar uma ou mais destas condições num casamento católico ele pode ser declarado nulo. As minhas questões são estas, e não me estou a armar em sofista nem a tentar ser engraçadinho, estou a tentar perceber:

-Se depois de se celebrar um casamento se concluir que existe uma destas condições se pode anular o mesmo casamento, qual é a diferença entre fazer isso e permitir um divórcio? Porque não simplesmente autorizar o divórcio se se verificar uma das condições?

-Qual é o fundamento para a distinção que permite que seja possível declarar  um casamento nulo e impossível permitir um divórcio, já que na prática e no fim de contas o começo e o fim são idênticos: havia um casamento  e deixa de haver?

-Qual é no fundo a diferença entre um casamento anulado e um divórcio, além da semântica?

Se alguém que saiba quiser gastar  cinco minutos a explicar-me isto, agradeço.

 

 

 

Que não separe o Homem…

…o que um ritual cultural uniu, excepto em casos julgados meritórios por pessoas que nunca foram  casadas  mas que sabem tudo sobre o casamento e mediante o pagamento de determinada quantia.

Fiz um esforço de memória e concluí que dos 9 casamentos aos quais fui nos últimos 20 anos só 2 permanecem “em vigor”, o resto acabou, apesar das juras , votos e bênçãos. Durante décadas a Igreja católica defendia  que o divórcio era uma coisa demoníaca, um pecado, intolerável., de tal maneira que um católico que se divorciasse era na prática excomungado, porque para eles fazia  sentido  as uniões serem eternas mesmo que o casal acabasse a odiar-se e a fazer-se mutuamente  a vida num inferno. Faz parte daquela noção de que o sofrimento é bom, a Deus  “oferecem-se  sacrifícios”, e não estou a falar dos Maias ou dos Hindus, estou a lembrar-me por exemplo do que me diziam na catequese, sofrer e sacrificar-me agrada a Deus, na altura isso não me levantou problema nenhum porque tinha 9 anos, mas chegada a idade da Razão e com o desenvolvimento da faculdade do raciocínio comecei a estranhar porque razão  o Deus do amor gostaria de ver os seus filhos sofrer. A resposta para isto, claro está, é que as vias do Senhor são misteriosas e fora da compreensão do Homem, excepto dos homens (mulheres não) que sentem a vocação e por isso se tornam os representantes de Cristo na Terra, para esses as vias são conhecidas,  esses sabem sempre o que é que agrada e desagrada ao Senhor, nunca se coibindo de nos explicar como viver e o que fazer. “Explicar” é uma forma de expressão.

Durante milénios os clérigos cristãos aterrorizaram as populações com o Inferno. Se não fizerem a vontade de Deus como nós a explicamos, vão arder para sempre nas fornalhas do demo. Isto foi parte integrante e fundamental do cristianismo e deriva do facto de se ter percebido cedo que a promessa de vida após a morte não era o suficiente para motivar e controlar as pessoas, além da promessa de algo improvável era necessária uma ameaça, e assim se inventou o Inferno, que ainda estava de boa saúde e era anunciado nos púlpitos do mundo há muito pouco tempo, até que o último Papa veio dizer, por outras palavras, que era uma aldrabice milenar, uma criação humana para pôr as pessoas na ordem,  que devíamos deixar de pensar no Inferno.

Não tenho dúvidas de que milhares de católicos pensantes disseram nessa altura “espera lá , então isto é assim? Tanta Verdade, tanta certeza, tanta infalibilidade e de um ano para o outro elimina-se um dos pilares da doutrina e segue tudo como dantes?“.  Alguns terão migrado para seitas e cultos cristãos que não reconhecem o Papa e se sentem mais confortáveis com o fundamentalismo, outros acharam que já chegava de hipocrisia e inconsistência e abandonaram a prática, outros ainda , a maioria, suponho, encolheram os ombros e continuaram como se nada fosse, fazendo de conta que uma revolução  doutrinária dessa envergadura não tinha consequências. Era uma actualização, porque mesmo que nos digam que “esta e só esta é a Verdade” nada impede  que as mesmas pessoas passado uns tempos digam “afinal esta é que é a Verdade”. Confunde-me bastante.

O casamento era uma das instituições  sagradas da igreja, tão sagrada que até é inadmissível uma união entre pessoas do mesmo sexo. A realidade era diferente, as pessoas juntam-se e separam-se sem que o Todo Poderoso tenha alguma coisa a ver com isso e apesar da invocação “que não separe o Homem…” , o  Homem separa constantemente. E quando não é o Homem a separar são os próprios representantes de Deus, desde que o actual Papa agilizou os procedimentos que o número de pedidos para acabar com as sagradas uniões duplicou em Portugal e o próprio clero pode declarar nulo e separar o que Deus uniu, é interessante.

Eu sou um bocado literalista  e tinha a impressão que  “sagrado” significa inviolável , com qualidades superiores e merecedor de respeito absoluto. Afinal não, pelos vistos até para a Igreja o que é sagrado hoje pode deixar de o ser  amanhã , mediante um processo administrativo e o pagamento de uns meros 1500€. Até faz algum sentido, vem na tradição iniciada com a santa prática das indulgências, em que num dia estávamos condenados ao tal inferno mas no próximo, se pudéssemos pagar, ficávamos outra vez puros e redimidos. Podem-me apontar que os 1500€ são para cobrir despesas burocráticas, não é só pagar e seguir como era com as indulgências. É verdade, mas isso não altera o fundamental: há maneira de dar a volta ao Sagrado, o que já se sabia na prática mas ainda não estava confirmado na doutrina.

Lamento muito por todas as pessoas que viveram vidas miseráveis presas a uniões nocivas só porque era ilegal separarem-se; sinto por todos os que, não suportando mais as tais uniões, se separaram mesmo e sofreram o ostracismo de uma  igreja à qual queriam continuar a pertencer. Para todas essas pessoas esta última “inovação” deve ser bastante amarga.

Natal Lagarto

Um dos últimos comentários  jocosos que ouvi depois da eliminação do Benfica na Taça de Portugal foi “agora já sabemos como os sportinguistas se sentem no Natal”.  A boca vem de demasiados anos em que o Sporting, chegado a Dezembro, já estava afastado da maior parte das competições, senão de todas.  A expressão pegou de estaca mas  este ano , em que o Sporting lidera as tabelas no futebol, futebol feminino, futsal, hóquei a andebol e se mantém com possibilidades de vencer todas as competições, os benfiquistas recorrem a outro género de bocas, como essa.  A questão é que não é verdade, os benfiquistas foram  humilhados na Liga dos Campeões, eliminados da Taça de Portugal e não estão a jogar nada em Dezembro mas não sabem, nem nunca saberão, como se sentiam os sportinguistas em natais passados, por uma razão muito simples: os sportinguistas , além de desiludidos, sentiam-se roubados.

Existem várias diferenças importantes entre os  clubes, uma salta à vista neste facto : Jorge Gonçalves ganhou a presidência do clube, esteve lá cerca de 8 meses até ser corrido depois de se perceber que era um trafulha. Vale e Azevedo  ganhou a presidência do clube depois de ter sido expulso da Ordem dos Advogados por  falta de idoneidade moral e foi presidente 3 anos. Isto  indica um nível muito maior de tolerância a escroques e não me esqueço nunca de que numa altura em que se denunciava e combatia o arqui-corrupto Pinto da Costa, Vale e Azevedo se apresentava como “o Pinto da Costa Vermelho”, ou seja, ele não queria acabar com a corrupção, queria fazê-la trabalhar para a glória do seu clube. Com isto foi levado em ombros na Luz, são coisas destas que mostram que aquela conversa do “são todos iguais”  não vale.

Tal como tolerou e aplaudiu  Vale e Azevedo , a nação benfiquista acolheu, aclamou e deu carta branca a Luís Filipe Vieira, um indivíduo que já tinha passado pelo Alverca FC e cuja herança está patente na situação desse clube  hoje em dia (joga nas distritais) , que era sócio dos 3 grandes ( expliquem-me uma razão válida para isto) , que apresentava no CV uma condenação na justiça por roubo de um camião e que acumulou uma dívida de cerca de 400 milhões ao BPN, logo, ao contribuinte. Pareceu-lhes uma pessoa idónea e talhada para comandar o glorioso, e as vitórias apareceram.

A partir de uma certa altura a coisa começou a cheirar muito mal, tornava-se claro que havia demasiadas coincidências nas escolhas dos árbitros, nas decisões dos mesmos, nos castigos, nas convocatórias das Selecções, nas noticias da imprensa. O que para alguns eram coincidências inocentes para outros eram indícios de que o poder do Benfica ia muito para lá do futebol jogado por 11 em 90 minutos e que se fazia muita coisa no limite , ou mesmo para lá da Lei.

O caso dos vouchers é paradigmático: o Sporting queixava-se das prendas dadas pelo Benfica aos árbitros. Primeiro o Benfica dizia que não dava prendas nenhumas; depois admitiu que dava mas que eram irrelevantes; depois admitiu que eram significativas mas que não suficientes para influenciar os árbitros, e  por fim comprometeu-se a dar vouchers mais pequenos.  A PJ descobriu uma rede de tráfico de cocaína cujo ponto de venda era a porta 18 do Estádio da Luz, não aconteceu nada (ainda) porque se quer fazer crer que isso se podia passar sem que ninguém de responsabilidade no clube soubesse de alguma coisa. Depois há as claques,  como nos outros clubes mas  lá são ilegais, dado que não se registam nem o Estado cumpre a lei que as obriga a registar-se. Mais uma vez diz-se que são todas iguais mas  há pelo menos uma diferença, as do Benfica, além de ilegais,  já vão em dois assassínios.  O presidente diz que não sabia que o clube tinha claques, é talvez o único no país que não sabe. Também está registada uma sua frase lapidar que num país decente lhe teria valido o afastamento do futebol: “não é preciso ter os melhores jogadores se tivermos as pessoas certas nos lugares certos”.  Não acontece nada.  A PJ  investiga outros indícios de corrupção e quer fazer buscas no estádio, um  juiz não permite, bloqueia a investigação. Também esse juiz sente a chama imensa, é Águia de Ouro e a ideia de ver a PJ a devassar a Catedral é-lhe dolorosa demais. Para salvaguardar aparências, dá-se aviso e tempo suficiente para que o clube sanitize e organize os arquivos, e então lá vai a PJ. Lindo. Deputados, ministros , secretários de estado, directores gerais, centenas de funcionários como esses que nunca permitiriam nada na sua esfera que pudesse prejudicar o seu clube garantem a segurança. Enquanto  tudo isto se passa os benfiquistas atiram-nos os 15 anos sem ganhar o campeonato, aldrabam o número de títulos próprios e a data da fundação e mandam-nos jogar à bola.

A equipa era forte, construída com as ligações de Jorge Mendes, o super empresário que criou um esquema brilhante para inflacionar os preços e as cotações dos seus jogadores circulando-os entre os “seus” clubes , ganhando milhões de cada vez que há mudança. Exemplo claríssimo, o  Renato Sanches, que fez uma época boa, foi elevado a craque e estrela pela imprensa para lá de tudo o que seria razoável, a sua convocatória foi imposta na selecção, foi impingido ao Bayern pelo Mendes por uma verba astronómica e  hoje está a ser um flop total …  no Swansea. Mas tinham outros grandes jogadores, e com a protecção dos árbitros, cooperação da imprensa e silêncio das instituições , o clube sagrou-se tetracampeão de futebol.

Entretanto os negócios geniais e a “gestão 10 anos à frente dos outros” começa a mostrar algumas falhas, por exemplo gastam quase 5 milhões para “roubar” o Carrilho ao Sporting, um favor que nos fizeram, e vendem a maior parte dos craques . A equipa este ano ressente-se , desentende-se e começa a perder jogo atrás de jogo.

E  rebenta o escândalo dos emails, na medida em que pode rebentar um escândalo que a imprensa não quer ver exposto. Alguém roubou uma tonelada de emails do Benfica, entre funcionários e dirigentes, e o que se lê  é de vomitar. Mês após mês são claras  nessas trocas de emails as manobras e acções de altos funcionários e dirigentes do Benfica para corromper e influenciar as competições. Escolhem  os árbitros que querem para os jogos que querem; controlam a carreira dos mesmos arbitros, acumulam informação, muitas vezes de cariz mais do que privado, sobre os intervenientes no jogo desde o arbitro aos operadores de câmara; controlam as convocatórias das selecções, alimentam a comunicação social com as narrativas que escolhem; discutem fugas ao fisco e organizam corrupções e chantagens que metem de tudo o que é sórdido no mundo.

A primeira reacção do Benfica foi dizer que os emails eram falsos. Passado algum tempo, quando se viu que se tratava  de mais de 6gb de dados, começaram a dizer que “não havia ali nada”, que afinal eram verdadeiros mas não eram importantes, não havia lá nada de substancial. Ontem ameaçaram com processos judiciais a quem quer que toque naquilo, ou sejam admitem que são verdadeiros e são importantes. Tudo normal.

Começa a haver contestação interna, mas não se pense que é por estarem escandalizados com a corrupção, a contestação só começa agora porque não se vêm resultados positivos. Estivesse a equipa no topo da tabela e ainda em todas as competições e em vez de ouvirmos “espero que se investigue isso tudo, é uma vergonha para o meu clube” ouviríamos “é só azia, joguem mas é à bola”.

Os mais sensatos, cujo amor ao clube levou a nem quererem acreditar quando já tudo indicava que sim, estão agora preocupados e em silêncio. Depois de anos a mandar bocas  agora dizem “eh pá eu nem quero falar nisso, o futebol está um nojo”. Já está há muitos anos, mas quando éramos nós a dizê-lo éramos invejosos e tínhamos mau perder.

Os mais malucos continuam a negar , confundir, fugir para a frente e recorrer a argumentos tremendos como “vocês não ganham nada, essa é que é a verdade”. Se tudo o que está indiciado nestes anos todos, entre vouchers, fuga ao fisco, trafico de droga, corrupção e tráfico de influências, fosse levado  perante um juiz que detestasse futebol, aposto que dava para mandar o clube para a segunda divisão, prender 3 ou 4 e irradiar do futebol mas 6 ou 7. Como sou dos que acredita que a justiça tarda e muitas vezes falha não espero nada disto, a minha consolação é magra e é só uma : deixaram de poder negar a corrupção que praticaram e que lhes deu tantas vitórias, e a nós tantas amarguras, ao menos isso é certo.

Temos no Sporting um presidente que é odiado por muitos, o que não é mau, ele não está lá para agradar ao máximo de pessoas, está lá para agradar aos sócios e está a fazê-lo. As contas do clube são transparentes, em dia, auditadas, e a situação financeira é sólida e próspera. Correu com os empresários sanguessugas, acabaram os jogadores a granel, construiu-se um magnifico pavilhão para as modalidades, que estão vencedoras e de boa saúde. O estádio está quase sempre cheio de adeptos a vibrar com bom futebol. Os rivais podem ( e certamente fazem-no) revirar céus e terra à procura de indícios de corrupção no Sporting, além do episódio do Pereira Cristóvão, com o qual se lidou como deve ser, não há nada, zero.

Por tudo isto não gosto que me digam que “são todos iguais” porque claramente não são.  Podemos não ganhar nada mais um ano, não é muito grave, pode andar de cabeça mais levantada quem perde com  verdade do que quem ganha com mentira.

Sem consciência

Um amigo mandou-me a seguinte anedota: “O que é se diz a uma mulher com os dois olhos negros? Nada, já lhe foi explicado duas vezes”.

Nem respondi. Não se pense que este amigo é um labrego (também tenho amigos labregos, felizmente) sem educação.Tem formação superior e tem o que se chama de “mundo”. Que há violência doméstica em todos os extractos sociais é bem sabido há muito tempo, se não foi a sociologia a explicá-lo foram as telenovelas e os tablóides, já para não falar da ancestral coscuvilhice. O que me espanta mais no caso deste amigo que conta anedotas sobre bater em mulheres é que ele batia na dele. Não era constante nem regular mas volta e meia acontecia e ao fim de muitos anos ela foi-se embora, e hoje está longe, próspera  e muito feliz. Ele está um desgraçado, arruinado de saúde e finanças e sozinho. Na história que conta a ele próprio sobre a decadência, a violência doméstica é um  pormenor menor, um detalhe. Na história que eu conheço foi  o que fez a diferença, e faz-me confusão que ele não tenha consciência disso, tal como não têm consciência disso pessoas que brincam com o tema mesmo sem experiência em primeira mão, ou que o desvalorizam sequer. A violência doméstica, não só o acto isolado mas a maneira como a sociedade lida com isso, é uma questão de civilização, e é pena que muita gente não tenha consciência disso. Vão sempre existir  relações tempestuosas e abusivas, na medida em que vão sempre existir pessoas assim, mas isso não devia ser tratado com tanta ligeireza por ninguém, desde o gajo na mesa do café a dizer “elas sabem porque é que levam” ao juiz que sentencia um caso.

Já me disseram que não sendo casado e por as minhas relações com o sexo oposto primarem pela escassez não posso perceber o que é,  talvez seja verdade mas  também é verdade  que as ofensas à integridade física são  crime, seja entre um casal seja entre desconhecidos.  Agredir as pessoas é crime, e se é crime é por alguma coisa. Sobre  prisões e julgamentos, que  envolvem  queixas, denúncias e processos, de facto não sei muito e por isso nunca serei eu a dizer que uma mulher agredida   devia era fazer isto ou aquilo. Se já é difícil e dúbio uma mulher aconselhar outra sobre algo de que não tem experiência, um homem  tem mais é que ficar caladinho. Sobre a acção da polícia e outras instituições que lidam com isso também não sei suficiente , sei só que  os juízes têm poder de aplicar a Lei com todo o seu peso, que os deputados podem alterar leis e que o governo manda nas instituições tipo Segurança Social. Mais uma vez, não me cabe dizer se  deviam fazer isto ou aquilo. A tarefa de reunir e organizar dados sobre o problema, enquadrá-lo, definir prioridades, criar e avaliar medidas e depois aplicar um programa é dura, complexa e longa, para ser bem feita, e já nem falo da parte em que se mede o sucesso do programa, tenho para mim que é das partes em que se falha mais. Creio que a prioridade devia  ser aumentar e racionalizar o apoio às vítimas, que sai caro mas tem retorno civilizacional .

É difícil saber como reagiríamos na pele de outra pessoa,  não sei  dizer o que faria no lugar de um homem na mesma situação mas nada me indica que reagisse com violência física. Ser propenso à violência nunca a pode justificar. Ah, ele é muito nervoso... Isso não  interessa nada , o mundo está cheio de gente nervosa, paranóica e deprimida que não recorre à violência por causa disso. Se dissessem perante um juiz “ele fez isso porque é muito estúpido”, devia ser tido como atenuante?   Uma das características que distingue os Homens dos outros mamíferos é a capacidade apurada de controlar os instintos. De cada vez que alguém “destranca” e reage com violência a uma situação não violenta está a exibir  o animal que há em si. O animal, é bom repetir.

É dramático que uma mulher que seja vítima de violência doméstica  tenha que fazer um cálculo tão complicado na altura de denunciar, ou não, que é vítima de agressões. E se ganha coragem para se queixar, se decide que já chega, tem que lutar   com um sistema que não está equilibrado. O ex ministro Carrilho foi absolvido  por ter tratado a  mulher a murro e insulto. Há muitos processos diferentes neste caso e entra-se ali num legalês que é bem capaz de demonstrar que a sentença é perfeitamente normal. Não devia ser. Parece que como a mulher é uma pessoa conhecida e instruída devia ter feito mais, ou seja, a culpa ainda é um bocado dela por não ter documentado as agressões e por dizer aos outros que era feliz. O que eu soube deste caso é que ficou provado que o Carrilho injuriava e batia na mulher, e a menos que a  mulher também lhe batesse a ele, a minha modesta opinião é que devia ter ido passar nem que fosse um mês à prisão. Este caso chegou ao jornais, quantas centenas de casos semelhantes correm, ou rastejam, nos  tribunais do resto do país, tanta miséria.

Com esta sentença mediática muito energúmeno ficou a rir-se,  com a consciência reforçada de que uma queixa de violência doméstica não lhe trará mais do que uma inconveniência. Muita mulher voltou a fazer contas à vida e a concluir que não vale a pena.

 

PS: Num post anterior sobre o feminismo critiquei as Capazes por não levantarem campanha contra esta pena suspensas. Foi  uma acusação falsa, falei sem conhecimento de causa, a verdade  é que já falam no caso desde 2016.