Judas

Por altura da Páscoa fartei-me de pensar no Judas Iscariotes, volta e meia ocorre-me um tema religioso com possíveis inconsistências e incongruências, gosto de as encontrar e dissecar, à medida das minhas possibilidades.

Judas era um dos doze discípulos de Cristo e fez o percurso de apóstolo com os outros onze. A hipótese que me pus foi de que a história do Judas era um modo  de introduzir um mau da fita e apresentar um exemplo de traição, uma espécie de arquétipo do traidor, que é o que nos ficou do Judas. A primeira coisa de que me lembrei foi  “então Cristo entra em Jerusalém em triunfo no Domingo de Ramos, passa  dias a pregar e correr a cidade seguido por multidões mas quando os sacerdotes do templo o mandam prender precisam de  alguém para apontar quem ele é? Era uma figura que não se distinguia no grupo? Ninguém o conhecia e para não levarem o homem errado pagaram a um dos seus para o apontar?”

É um argumento  fraco, sem grande tracção e que pode ser desmontado (mesmo que por exemplo a morte de Judas tenha versões diferentes consoante o evangelista) , e deixei de pensar no Judas… até que o país em peso voltou a falar do José Sócrates.

Um gajo pensa que já nada na política e jornalismo o consegue surpreender mas esta muito recente onda de “vergonha” que assolou o PS e de contrição pelo apoio dado ao Sócrates no passado deixa-me a pensar que temos aqui uma bela cambada de Judas. Enquanto a multidão aclamava e os milagres se sucediam, seguiam em linha com os outros 11 mas quando chegou a acusação e a polícia para levar o líder, quando a situação pessoal está em risco e há dividendos a tirar da crucificação , esquecem a fidelidade e devoção anterior, levantam-se e apontam-no : é este!

Acho que estou acompanhado por muita gente na minha surpresa  com as  declarações de políticos como o J. Galamba ou jornalistas como a Fernanda Câncio, que durante anos dormiram com o Sócrates , literalmente e figurativamente, e não só nunca desconfiaram de nenhuma irregularidade como atacaram  quem se atrevia a apontar o que para muitos era óbvio: este gajo, para viver assim, está a vender alguma coisa que não é dele, aqui há gato.

Dado que a política é porca e vive muito de  insinuações e meias verdades até compreendo que uns mais ingénuos e menos perspicazes acreditassem na honestidade dele. A partir do momento em que o homem é preso, qualquer pessoa racional pensa : alto, estamos numa choldra mas ainda assim não se  prendem pessoas, ainda menos  um ex primeiro ministro, por meras suspeitas, isto já não  é como na Rússia ou  na Venezuela onde se podem mandar para a cadeia adversários políticos só porque são adversários políticos, tem que haver  alguma coisa de substancial. Alguma coisa mais do que as suspeitas que qualquer pessoa lúcida e atenta coemçou a ter a partir do momento em que se conheceu o caso Freeport ( em 2004!!) ou mais simplesmente ainda, a partir do momento em que se sabe sem margem para dúvidas que o homem mentia sobre as suas habilitações literárias : um mentiroso é um mentiroso .

Em vez de andaram a insultar a justiça e os magistrados e a ir oferecer solidariedade pública ao homem na prisão ( felizmente há vídeo e memória e registos dessa canalhada toda à porta da prisão em Évora, incluindo registo do Pai da Pátria a ameaçar um juiz),  tinham-se mantido em silêncio, ou talvez até conseguissem pensar naquela velha máxima da mulher de César e acreditassem que suspeitas dessa gravidade bastavam para se afastarem do homem. Nada disso, foi um festival de críticas aos acusadores e detractores do Sócrates e ao processo todo. Uma vítima, um injustiçado, uma cabala infame.

Isto durou anos até que quase de repente,  na semana passada e sem nada de novo vir a público sobre o seu processo,  os Socialistas começaram a  dizer que o Sócrates os envergonhava, e este retorquiu desfiliando-se do PS.  Já vi um imbecil famoso do twitter que responde à designação vega9000 a dizer que com isso se separaram as àguas e acredito, dado o nível geral, que haja muito  quem acredite que basta dizer “estamos com vergonha” e ao Sócrates entregar o cartão de militante para o separar o PS, é  extraordinário.

Daqui a pouco não vai sobrar no partido um  que se lembre de que defendeu o Sócrates  e que nunca conseguiu suspeitar de nada. Gostava de saber o que é que provocou este clique que fez com que se começassem a arrepender e a condenar  o homem em série, o que é  que está a fazer os ratos abandonarem o navio a toda a pressa. É um bocado tarde, e espero agora um Judas contemporâneo, um discípulo renegado que o vá apontar inequivocamente aos que o querem prender, entregando às autoridades  um calhamaço de documentos que demonstre sem margem de erro o que toda a gente sabe: o Sócrates é um corrupto e um aldrabão que à falta de tempo de cadeia devia pelo menos desaparecer.

Já agora, por falar em pessoas que nunca desconfiaram de nada não souberam nada nem disseram nada, temos este:

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Passou de se sentar na bancada VIP com o dono disto tudo, certamente sem nunca suspeitar dos tentáculos e métodos usados pelos Espírito Santos, porque apesar de inteligentíssimo e sagaz essa parte era muito difícil, para regressar ao Estoril sentado num “lugar comum”, pago pelo próprio, pensando que com essa encenação reforça a imagem de homem do povo. A seguir ao jogo foi ao balneário tirar uma foto com o vencedor enrolado numa toalha, elevando assim mais uma vez a dignidade do cargo. Temos o que merecemos.

 

 

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O Assessor

Este Natal vou passar algum tempo com os meus sobrinhos mais novos e espero falar com eles sobre carreiras futuras. Existe um sector em que vai continuar a haver grandes oportunidades de avanço e criação, o tecnológico, pelo que a aposta mais segura são as Ciências Exactas e as Engenharias, é por onde passa todo o futuro. Se fossem para enfermagem ou medicina seria sinal de que os ia ver ainda menos, parece que a maioria dos jovens médicos nacionais está só à espera de terminar a especialidade para se mudar para um país que pague o que eles acham que devem receber. Se forem como o tio terão algumas dificuldades naturais com os números e as fórmulas e uma carreira na Ciência será muito difícil.

Vou desencorajá-los das Letras e das Artes, primeiro porque (odeiem-me,  artistas unidos) acho que mais um ou menos um não faz diferença nenhuma, a Humanidade não avança por mais um soneto,  acorde ou pintura. Para me convencerem do contrário teriam que me explicar que a actual  avalanche de produção artística que temos disponível (e da qual não somos fisicamente capazes de usufruir de 1/10 sequer) não satisfaz as necessidades humanas correntes . Tenho para mim que estamos bem servidos, não ganhamos nada em incentivar medíocres e os génios não precisam de incentivos nem se acanham ou recuam por serem desencorajados.

As Ciências Sociais são um bom caminho para duas coisas, primeiro, o que eu escolhi,  perceber um pouco melhor como isto funciona e como é que se sabe como isto funciona. É óptimo para ficarmos cínicos e perdermos a esperança, ou ficarmos militantes  e perdermos a noção. É um caminho de satisfação puramente pessoal, para quem entenda o conhecimento  como um fim em si. Profissionalmente, a saída dos cursos de Ciências Sociais vai estar sempre ligada ao ciclo da governação: havendo socialistas no poder contratam-se mais sociólogos, genericamente falando. Estando os menos socialistas no poder, contratam-se menos, isto muito porque em Portugal quem tem que dar a fazer a sociólogos é o Estado, daí os períodos de expansão ou contracção. Agora estamos em expansão e vamos estar até pelo menos às próximas eleições ou bancarrota, o que acontecer primeiro. A Sociologia não é  a única Ciência Social, é certo, mas dado o tamanho da nossa economia e das nossas empresas, alguém que faça um mestrado em Demografia, por exemplo, tem 99% de hipóteses de trabalhar para o Estado e 85% de hipóteses de esse trabalho ser a ensinar. Inventei agora essas probabilidades  mas não deve andar longe disso.

O Direito é a opção por defeito de toda a gente  que aspira a formação superior mas não tem uma vocação clara e específica,  é aquele curso que dá para fazer de quase tudo e confere o almejado tratamento de doutor assim que se conclui a licenciatura, uma das nossas idiossincrasias mais bizarras . Li há muitos anos que o número de advogados era um dos principais problemas dos Estados Unidos, não será o nosso mas talvez para lá se caminhe, uma sociedade em que  há excesso de gente a argumentar, justificar, criar casos e litigar , tudo coisas que fazem falta mas que não deviam criar a sua própria procura , como é o caso nos EUA. A cultura de processar por tudo e por nada nasce daí, do trabalho infatigável de hordas de advogados que mais não fazem do que procurar rentabilidade em agravos sofridos por outros, reais ou imaginados. Não é muito saudável para a sociedade.

Se os meus sobrinhos não mostrarem uma vocação, talento ou ambição vincada, de serem astronautas ou canalizadores ou cozinheiros ou arquitectos, vou-lhes recomendar vivamente que considerem a profissão de assessor, em Portugal não conheço nenhuma que tenha tantas vantagens e tão poucos inconvenientes.

Assessor:  Pessoa que tem como função profissional auxiliar 

um cargo superior nas suas funções. 

Como não existe nenhum curso de assessor em que se possam matricular quando chegar a altura, vou ter que lhes fazer um plano de estudos e progressão. Começam bem posicionados porque são lisboetas. O governo está em Lisboa, tudo o que importa passa por lá, o resto do país é paisagem pelo que só pelo facto de serem lisboetas já têm meio caminho andado para o topo da carreira da assessoria.

A seguir, a educação. É essencial matricularem-se numa universidade, e quanto mais renomada , melhor. Isto não é  por causa da exigência curricular, é porque é nas melhores universidades que se conhecem os rebentos das elites e se socializa com os aspirantes à casta do governo, sejam os que lá vão parar por morgadio seja por mérito próprio. Depois da matrícula o passo principal é a participação em tudo o que seja “vida académica” aquela expressão que engloba tudo o que os estudantes fazem menos estudar. É preciso entrar nas disputas das associações académicas que rivalizam entre si para ver quem tem maior capacidade de organizar sessões de alcoolemia colectiva e música de merda ao vivo. Este passo é precedido de um muito mais crítico: a inscrição numa juventude partidária. Aqui há que ser pragmático, eu vou-lhes sugerir que se filiem na JS, isto porque pelos meus cálculos quando eles andarem pela universidade já o país foi outra vez à falência e voltou a ser resgatado, estando por essa altura numa fase de expansão, tradicionalmente a fase que cabe ao PS, que nessa altura vai estar a contratar em grande, como agora.

A seguir à filiação na jota e a fazerem o tirocínio na demagogia, combate político e manipulação da comunicação nas brincadeiras das Associações de Estudantes devem prestar alguma atenção ao CV, ou seja, ir fazendo uma ou outra cadeira aqui e ali. Como foi  demonstrado, neste país temos ministros e primeiros ministros com licenciaturas obtidas na Farinha Amparo, só agora alguns ministros e secretários de estado se começam a sentir escrutinados e (primeira grande vantagem do mundo da assessoria) dos assessores ninguém quer saber as qualificações. “Frequência suspensa do curso de Direito da U.Católica” dá perfeitamente.

O passo seguinte, escolher os amigos e ser-lhes leal. Aqui é preciso algum discernimento e não se podem favorecer os amigos mais inteligentes ou íntegros mas sim os mais espertos e desenrascados, sobretudo porque os primeiros raramente acabam na política. Não podem querer aquele das respostas lentas e ponderadas, a aposta é no que tem sempre resposta para tudo e nunca se atrapalha com nada. Os que nunca se envergonham e que adoram falar em público, é desses que o aspirante a assessor se deve aproximar e cultivar a amizade. Quanto maior for o círculo de amigos da juventude e da associação , melhor, é o princípio do networking, é nas “lides universitárias” que se começam a tecer as redes que nos têm a todos  nas suas malhas.  Nesta fase é muito importante não dar passos em falso, e o melhor para isso é não fazer nada, nunca tomar iniciativa nenhuma mas estar sempre disposto a seguir as  iniciativas dos outros, e ser sempre lembrado como um gajo de confiança que colaborava sempre em vez de um  gajo que teve uma data de ideias falhadas e/ou estúpidas e que fazia muitas perguntas. Se se falar pouco também se arriscam  poucas asneiras, pelo que o silêncio colaborativo e o apoio entusiástico a decisões já provadas correctas são fundamentais. É nesta fase que se deve começar a amealhar grande reserva de lugares comuns da profundidade de um  “é necessária uma política de mudança”, e  “queremos incentivar sinergias que promovam a resiliência” porque é essa língua que se fala lá e quanto mais cedo se começar a praticar, melhor.

Se neste espaço de tempo em que constrói a sua rede e aprende o vocabulário o futuro assessor  encontrar tempo para estudar, melhor, e se houver tese, que seja sobre um assunto pertinente ao Estado, tipo “A Influência do Período de Rotação de  Escala nos Recursos Humanos da Administração Pública da África Portuguesa” ou “Práticas de Comunicação Intermodal nas Políticas Contemporâneas de Transportes Urbanos” , temas que não interessam a ninguém nem contribuem para grande coisa mas que conferem lastro ao indivíduo e permitem que este se apresente como “dr não quantos, autor de trabalhos académicos na área da administração pública”.

Ao fim de dois ou três anos nestas ocupações universitárias haverá uma campanha eleitoral, aí o aspirante a assessor tem que dar tudo por tudo e por uma vez mostrar dinamismo e iniciativa, isto porque numa campanha não há muito que inventar : trata-se de fazer barulho, diminuir o adversário e fortalecer o candidato. São sempre precisos “colaboradores incansáveis”, e numa campanha eleitoral o futuro assessor tem oportunidade de provar a sua lealdade, dedicação e capacidade de trabalho, a colar cartazes, distribuir panfletos,conduzir carrinhas com megafones ou a desenvolver  outras actividades do género, tão necessárias à democracia moderna. Não há campanha vencedora sem espólio, e o espólio  tem  invariavelmente a forma de lugares no Estado. O facto de o termo comum ser “lugar” já diz muito sobre este processo. Ora o futuro assessor  tem que ser esperto e nunca se posicionar como candidato a coisa nenhuma, delegado de nada , nem sub nem vice nem, em resumo, nenhuma posição que implique responsabilidade e escrutínio, mesmo que esse escrutínio seja à portuguesa, ou seja, largamente teórico e sempre manso. O assessor deve, isso sim , esperar que um dos seus amigos, ou amigo de um amigo, seja  alçado à tal directoria, ministério  ou vereação para aí sim, ser contratado como assessor e poder descansar.

Um assessor não é eleito e enquanto dura o seu contrato  junta os habituais benefícios do vulgar funcionário público aos abusos egrégios da classe política. Sobre as qualificações do assessor e a sua necessidade só responde quem o contrata, que pode dizer o que quiser e não é obrigado a nada. Se apetecer ao senhor vereador contratar a louraça  que tem o 12º nas Novas Oportunidades mas que é muito amiga do seu amigo, nada o impede de o fazer, mesmo que já tenha 3 assessores.

Como o trabalho dos políticos é fluido, o dos assessores ainda é mais, isto para dizer que esqueçam relógios de ponto ou mesmo horários ou controlo de qualquer espécie , se a assessoria for mesmo boa nem precisam de pôr os cotos na repartição ou direcção geral que ninguém repara e ao fim do mês cai sempre na conta. Se o director geral ou secretario de estado faz merda da grossa ninguém nunca sabe quem é o assessor, ou seja, responsáveis políticos podem eventualmente ser condenados por tropelias várias e ser reconhecidos publicamente como escroques ou incompetentes, mas o assessor ficou lá atrás da cortina, ninguém soube, sabe ou quer saber quem era a figura.

Como não me pagam para isto ( e não me quero deprimir mais) não fui saber o regime de segurança social a que estão sujeitos os assessores nem quais são os seus contratos de trabalho . No entanto sei que é uma excelente opção de carreira , observação confirmada  pelas notícias que têm vindo a público sobre um caso paradigmático deste Festival Nacional da Assessoria , a Câmara Municipal de Lisboa. Podem ler mais detalhes aqui, e chorar .

Além dos que já lá estavam, a CML prepara-se para contratar 124 assessores para apoiar 17 vereadores, o que dá mais de 7 assessores por vereador. Desta fornada de funcionários sem dúvida imprescindível ao bom funcionamento da CML fazem parte muitos indivíduos que eram candidatos autárquicos em listas partidárias mas não foram eleitos, assim se repõe essa injustiça causada pela má vontade e relutância dos eleitores em votar nas pessoas certas. E esta alegre rapaziada que sem dúvida se vai esfalfar em prol do munícipe e chega carregadinha de qualificações técnicas como está bom de ver, receberá até um máximo de 3700€ , começando em todo o caso nos €2500. Se é preciso apoio técnico, abre-se um concurso e contratam-se técnicos especializados para o quadro, mas isto penso  eu que tenho assim ideias delirantes. Na vida real é esta demência de um vereador precisar de 6 ou 7 assessores a mais de 3000€ por mês cada um , e poder contratar pura e simplesmente quem lhe apetecer. Não e preciso ser uma àguia para calcular  que quem fez a lei que gere as contratações foram as pessoas que fazem as contratações.

Quando o arraial acabar o assessor  já terá no seu currículo outra  assessoria, mais o correspondente aumento da sua rede de contactos e favores, e estará equipado para prosseguir na sua carreira. Se o seu partido perder poder há mais de 160 fundações, institutos e outras  instituições públicas em Portugal onde cabe sempre mais um, onde nunca se paga mal e onde se reconhecem sempre os Pais da Democracia e seus afilhados. Além dessas opções não esquecer o grande sector económico do Estado onde jóias da coroa tipo CGD ou RTP estão lá também para isso, acolher  amigos e retribuir favores, e para onde se pode a qualquer hora do dia nomear para assessor um amigo que necessite.

Os assessores nunca são reconhecidos pelo público; nunca são responsabilizados por nada; nunca se exigem respostas ou acções aos assessores; nunca têm que ir a votos nem têm a sua competência ou qualificação questionada. Apesar disso podem ter uma carreira longa e lucrativa, seguindo os progressos e deambulações de um político pelos corredores e caves do poder. Quando isso acabar , ou se eventualmente o patrono do assessor acaba na prisão, pode sempre dedicar-se ao lobbying, a nobre arte de convencer os políticos a fazer o que é melhor para a nossa empresa ignorando o seu dever jurado de fazer o que é melhor para o país. É lindo.

Existe uma variação sobre o tema das assessorias que são os lugares em conselhos de administração, conselhos fiscais, consultivos e outros órgãos de entidades públicas, onde também floresce a arte de fazer pouco ou nada por muito dinheiro. Essas são posições usualmente reservadas à espécie  acima do assessor, um director geral ou  secretário de estado já pode aspirar a uma sinecura dessas para lhe compor o orçamento e tratar do Natal na neve. Que ninguém pense que isto está para mudar, se não mudou com a troika não vai ser agora, e a razão é simples: a classe política nunca vai votar nada que a prejudique, ponto final.

Nesta questão dos lugares públicos de nomeação e do tamanho da administração pública há um facto que eu gosto de referir porque ilustra bem diferenças de cultura e abordagem ao tema : os Estados Unidos da América têm 325 milhões de habitantes e o Supremo Tribunal de Justiça é composto por 9 juízes. Portugal tem 10 milhões de habitantes e o nosso Supremo Tribunal de Justiça tem 64 juízes. Concluam à vontade.

Para terminar quero pedir desculpa aos  assessores públicos que são qualificados, dominam a sua matéria, foram seleccionados por mérito, trabalham horas longas , são íntegros e  têm espírito de serviço público.Há-de haver alguns.

Raríssimas, 2012

Ontem soube que houve uma reportagem de uma televisão sobre uma ONG chamada Raríssimas e pelas reacções que vejo hoje no twitter a reportagem foi boa. Não vi mas não tenho grandes dúvidas do que se lá passa, o nome não me era estranho, fui  aos meus arquivos e encontrei isto, escrito num post que até era sobre a Parque Escolar, outro bom exemplo de descontrolo corrupto.

Ninguém pode ter nada contra este projecto , e até acho que deve receber apoio do Estado. Vi no outro dia uma entrevista da senhora a explicar que as obras estão paradas por falta de verba. Depois vi planos da casa e fotos das obras, só o terreno teve o valor de 2,5 milhões de euros e foi cedido pela câmara municipal, e o que eu pergunto é isto: Se se tivesse sido um bocadinho menos ambicioso , um tudo nada mais modesto , dado um pouco mais de atenção à relação meios/fins , não se poderia já ter a abençoada casinha a funcionar , alojando dignamente as crianças ? Era mesmo preciso aquilo tudo?

Isto foi há 5 anos, de lá para cá calculo que não só  se tenha concluído a palacial “Casa dos Marcos”, com dinheiro do Estado e dos doadores mas também  que a senhora que inventou aquilo tudo se deve ter forrado de dinheiro e benesses que deviam ter sido canalizados para auxiliar as crianças doentes e suas famílias mas foram para embelezar e melhorar a  sua vida privada. Está a ser envergonhada nas redes sociais mas aposto que as centenas de milhar que roubou estão a salvo, e há muitas pessoas sem vergonha que não se importam com minudências como serem julgadas escroques pelo público em geral.

Em 2012 eu não vi ali  corrupção clara  mas vi excesso, desproporção de meios e vaidade pessoal, que são logo bons indicadores que haverá mais coisas mal feitas. Desde logo o problema de se trabalhar com dinheiro doado, seja do Estado seja de particulares, que na maior parte dos casos nunca é tão bem gerido como o próprio. E quando se usam donativos para construir luxo, bandeira vermelha, vai logo contra o propósito e o sentido de “donativo”.  Acredito que mais pessoas tenham reparado nisto mas ou calaram-se ou acharam normal ou os seus protestos e alertas não foram ouvidos, é normal.

São raras as organizações caritativas que não fornecem modos de vida muito confortáveis e prósperos aos seus gerentes e dinamizadores principais. Desde gigantes como a Unicef a ONGs de vão de escada , ninguém duvide que a prioridade primeira é manter a estrutura, como de resto e normal: os donativos vão para a coisa funcionar. Só depois são passados aos recipientes finais dos donativos, e é por isso que o modelo é tão imperfeito, porque as necessidades dos organizadores vão crescendo à medida dos donativos e da ideia da própria importância, e hoje em dia creio que de cada dólar que se dá para as criancinhas subnutridas de África chegarão 10 cêntimos à dita criancinha, o resto fica em salários, rendas , viagens, carros, conferências, enfim , o modo de vida dos profissionais do auxílio humanitário, tudo gente que ainda por cima olha para nós de cima para baixo porque anda a trabalhar para o bem dos outros. Cada vez que vejo no facebook a gajinha branca com as roupinhas coloridas e exóticas abraçada a um monte de miúdos pretos  dá-me logo nervos, é turismo e exibicionismo disfarçado de auxílio humanitário. Gastam €4000 para ir ensinar um semestre de escola primária em Cabo Verde e acham que fizeram alguma coisa de jeito, excepto o enriquecimento pessoal que existe, sem dúvida, mas creio que não era bem esse o objectivo.

Tenho a certeza de que os repórteres de todos os canais tinham para meses se se dedicassem a explorar e expor essa podridão e corrupção que se esconde no sector do  auxílio humanitário e da solidariedade social. Depois da Raríssimas podiam passar à Santa Casa da Misericórdia, instituição criada para auxiliar os mais fracos que agora vai auxiliar um banco que está a falir. Isto, há 3 anos , faria cair o Carmo, a Trindade e o elevador de Santa Justa. Quem propusesse tal coisa era um velhaco neoliberal sem coração disposto a retirar orçamento e a pôr em perigo uma casa de recurso dos desfavorecidos para mais uma vez salvar um banco de gestão ruinosa e corrupta. Hoje ouvem-se os grilos, vai fazer-se a transferência, presumo que em nome da solidariedade social, talvez mesmo da estabilidade. Entretanto ontem vi imagens do Presidente da República a fazer declarações enquanto lhe faziam a barba e um título de uma notícia que informava que o Presidente encontrou um miúdo que, como ele, também dorme pouco. Tudo normal.

Desisto

Uma das coisas que  gosto de identificar e eliminar são esforços e esperanças vãs, e cheguei  ontem a esse ponto no que diz respeito ao futebol. O clube do meu coração é o Sporting , e depois do que vi ontem no jogo da taça da liga lamento mas tenho que desistir porque fico com a sensação de que me estão a tomar por parvo, a mim e a centenas de milhar de outros sportinguistas.

Não vale a pena entrar em detalhes , nenhum benfiquista honesto e  informado nega a influência desmedida do Benfica nas estruturas da bola e a sua capacidade de influenciar os resultados além dos 11 contra 11 durante 90 minutos. Seja por vender a 15 jogadores que valem 5 , seja por encher equipas de jogadores emprestados que depois não jogam em jogos importantes, passando por cortesias como o Estoril ir jogar a taça a um campo do Benfica ou haver presidentes de clubes tipo Arouca que são sócios do Benfica , ninguém duvida que o clube da  Luz é o maior e como tal , tem prerrogativas e privilégios que mais ninguém tem. Sendo o clube com mais adeptos , esta vantagem espelha-se no país em geral, nas redacções dos jornais, na política , nas televisões , nas federações, é lógico que haja mais benfiquistas , e é igualmente lógico que façam sentir a sua influência e puxem pelo seu clube. O problema é quando puxam pelo seu clube quebrando as regras do jogo.

E fazem-no  , constantemente. O Benfica vai ganhando como o FCP o fazia nos anos 90 e aos sportinguistas é aconselhado que joguem mais e que se queixem menos. Para os milhões de devotos do Benfica ganhar não só é natural como é-lhes devido pelo que nem estranham se outros são impedidos de ganhar por golpes de teatro como o penalti de ontem, assinalado por um árbitro cujo benfiquismo é público para quem se der ao trabalho de ver o facebook do homem. É público e mesmo assim nomeia-se esse gajo para apitar o Sporting, são essas coisas que não deviam acontecer num  campeonato honesto mas acontecem constantemente, e o que fazem os benfiquistas : riem-se , chamam-nos calimeros , descartam estas queixas todas como mau perder e depois riem-se outra vez, porque nada vai mudar.

É revelador que o Benfica seja o principal clube português a opor-se ao video árbitro , tecnologia com mais de 20 anos que permite eliminar decisões dúbias permitindo recurso ao video da jogada em tempo real. O Sporting grita por isto há anos , o Benfica opõe-se e esse simples facto basta para mostrar de que lado está quem quer verdade desportiva e quem quer continuar a controlar e influenciar os árbitros.

Com disse, não gosto de esforços nem esperanças vãs , não gosto de me entusiasmar com possibilidades que estão condenadas à partida pelo que desisto de acompanhar o meu clube como  fazia sempre, a bem da minha sanidade e dos meus nervos. Vou tirar a imprensa e os blogs desportivos dos favoritos e ver se passo sem parar posts sobre  bola no FB. Deixar de sair de casa para ir ver os jogos e nem sequer querer saber os resultados.

A minha admiração e aplauso vai para todos os que continuam dia a dia a acompanhar o clube e a apoiá-lo todas as semanas no estádio, são muito fortes. Se tivesse voto nestas eleições votava Bruno de Carvalho , que salvou o Sporting do abismo e devolveu-o aos sócios mas não tem grandes hipóteses quando os árbitros estão controlados e conseguem sempre expulsar um aqui, marcar um penalti ali e  anular um golo acoli , e o glorioso lá vai levado em ombros. Bom proveito. Eu sinceramente já não sou capaz, a vida é muito curta para sofrer tanto por causa de um jogo , e quando o jogo está viciado o melhor é sair , senão de certa maneira pactuamos com os bandidos e os corruptos.

Se o bom senso e a honestidade chegarem ao futebol português e se se implantar  o vídeo árbitro , contra os desejos explícitos do Presidente do Benfica  , volto a interessar-me pelos jogos e a acreditar num campeonato disputado e limpo. Até lá só espero a continuidade da trafulhice .

PS: Jorge Jesus ontem disse que “nunca tinha visto nada igual”. Tinha sim , o que é que estava do outro lado , e dessa perspectiva as coisas são sempre diferentes.

Lesados somos todos

Um dos maiores dramas do nosso país é o inumerismo , ou analfabetismo matemático ,  muito mais difícil de combater por ser mais insidioso , muito por causa das luminárias da Educação moderna que acham que é mais importante um aluno rir às gargalhadas sadias do que decorar a tabuada e currículos que não preparam os alunos para as contas do dia a dia.  Além do mais é bom lembrar que  uma grande parte dos portugueses viveu no tempo da ditadura , cuja restrição da Educação nos deixou esta herança, talvez a mais pesada.

Se muitas pessoas já leem  e escrevem mal , muitas mais ainda não sabem fazer contas nem avaliar quantidades , e isto nota-se depois nas decisões que tomam , relativas por exemplo ao consumo : uma pessoa vê um anúncio de um crédito para um produto com 25% de juro mas não sabe o que isso significa. Uma pessoa tem na cabeça o número do seu vencimento mensal mas é incapaz de computar as suas despesas para saber quanto gasta. Uma pessoa escolhe uma casa nova sem ter maneira de perceber se está ou não dentro das suas possibilidades reais. Uma  pessoa vê um produto em promoção e vai logo comprá-lo porque lhe parece que uma poupança de 2% em algo supérfluo é de aproveitar. Uma pessoa ouve o Governo a falar de percentagens de défice , aumentos ou cortes mas o que fica são os verbos , porque visualizar e perceber realmente os números infelizmente é para poucos.

Na primeira linha dos aproveitadores desta lacuna (não é só em Portugal , fraco consolo)  estão os bancos , que seguros de que a maior parte dos seus clientes não sabe fazer contas permitem-se apresentar-lhes quaisquer números  e cargas de letra miudinha. 

Aqui há uns anos umas centenas de cidadãos decidiram investir as suas poupanças  no BES. Sendo na maior parte semi analfabetos matemáticos não perceberam aquilo que estavam a comprar e não questionaram os vendedores que , como era de rigor nesses tempos , venderam banha da cobra às toneladas. O BES rebentou e estes investidores ficaram a arder. Não me incomoda nada  , a ignorância só é desculpa até certo ponto e o que é certo é que  estas pessoas perderam dinheiro mas podiam igualmente ter ganho dinheiro , e nem numa nem noutra circunstância o erário público  deve ser tido ou achado , era um negócio entre os investidores privados e um banco privado. Se os investidores não tinham os recursos intelectuais para perceber que corriam um risco, temos pena.

Mas isto é Portugal , e agora que vivemos numa época de afectos o primeiro ministro decidiu usar o dinheiro de todos para compensar alguns por terem feito um investimento que correu mal. Não bastava o desbaratar constante de fundos , não bastavam as dívidas contraídas pelo Estado que por definição nos calham , o PM acha que o Estado também está cá para compensar investimentos particulares falhados. Os “lesados do BES agradecem a bênção” e o Costa mostra toda a sua dimensão de estadista , vai compensar estas pessoas e acabar por ser aplaudido , mesmo por aqueles que vêm os seus impostos servir para pagar más decisões de outros. Isto lembra um bocado as ajudas estatais à agricultura , em anos de secas ou cheias ou contrariedades , o Estado ajuda . Em anos de colheitas excepcionais ou mercados altos ( também existem , raramente se ouve falar deles mas são reais), os lucros ficam em casa. Costa tem muito medo de manifestações , sendo a maior parte organizada por sindicatos , estão nesta altura todas sob controlo ( a factura vai chegar mais tarde) mas manifestações como a destes tristes dos “lesados do BES” não têm nenhum Arménio Carlos que as regule e faça acontecer ou cancelar consoante manda o Comité Central , pelo que são mais imprevisíveis e potencialmente danosas. O PM  não gosta de conflitos nem tensões e enquanto os puder resolver pagando com dinheiro que não há a pessoas que não têm justa causa , é o que vai continuar a acontecer.

Noutro sector , há uma companhia de teatro em Lisboa que está para fechar. Fecha porque não há dinheiro. Se não há dinheiro é porque o que fazem não rende , não tem público suficiente . A mim , e a uns 80% dos portugueses , arrisco , isto é absolutamente indiferente. Ainda no outro dia acho que perdi uma “amiga” muito ligada ao teatro porque lhe disse precisamente isso , que é uma arte que se desaparecesse do mundo amanhã a minha vida não mudava um milímetro. Quando sentimos uma ligação forte a uma coisa é difícil imaginar que outros só sintam indiferença pela mesma coisa , mas é assim .

A libelinha afectuosa que é o actual Presidente acha que não , que tudo tem que ser sentido por todos e já foi fazer não sei o quê, talvez tirar uma selfie , com a companhia de teatro em perigo, e certamente vai agitar para que salvem a Cornucópia . Para ele , como para o Costa , estes salvamentos são óptimos porque não lhes saem do bolso , ou melhor , saem na medida em que também são contribuintes , mas permitem-lhes encher a boca e ganhar pontos a  distribuir  o dinheiro de muitos por causas de poucos. Se o Presidente sente assim tanto como causa nacional o fim de uma companhia de teatro em Lisboa tem bom remédio : faça uma campanha a incentivar as pessoas a ir ao teatro e passe um cheque pessoal à Cornucópia. Senão esteja mas é quietinho dois minutos e tente ler  mais sobre o que é ser  um Estadista.

Vamos lá um bocadinho , PT .

Em Março  passado , cansado de de ter que ir à biblioteca ou a um ponto de wifi publico de cada ver que precisava ou queria ligar-me à Internet decidi comprar uma banda larga móvel. Fui ao estabelecimento da PT aqui na ilha, mas a menina disse-me aquilo não era uma Loja PT como tal (uma pessoa pode ser desculpada por pensar isso , com o símbolo da PT por cima de o que aparenta mesmo ser uma loja) , havia uma série de coisas PT que eles não faziam nem vendiam. Para a banda larga móvel , deu-me um número para ligar , para a PT , para encomendar eu próprio . Se fossem ela na loja , explicou-me , como não há em stock tinha vir internamente , mas de navio , pelo que eram 15 dias sólidos .Se eu ligasse para lá directamente ( sem ter que passar pelo representante da PT aqui na ilha, faz sentido ) eles já mandavam por correio expresso e eram só 3 dias. Têm aquilo bem organizado. Liguei , passei que tempos ao telefone e lá me chegou a pen em 4 dias . Não funcionava , liguei outra vez. “Leve a uma Loja PT que trocam-lha logo” , disse-me a menina. Não duvido , mas eu para a Loja PT mais próxima tenho que ir de avião , e se as pessoas com o logótipo da PT aqui me tratarem da troca leva o tempo de dois navios , um mesinho.
“Então pode mandar o senhor, que sempre é mais rápido” , o que era indiscutível. Mandei o equipamento avariado , a minha custa , e mandaram-me outro , que já funcionava , mas na medida em que há rede móvel, e aqui a cobertura não é total. Nem forte. Em minha casa só há rede à janela ,encostadinho à janela  e mesmo assim são dois tracinhos , três num dia bom. Para ter o computador ligado liguei a pen a uma extensão usb e pendurei-a na janela dentro de um passador de cozinha de  metal , antena hi tech  que acrescenta um tracinho à recepcção.Às vezes . Mas mesmo levando-o  para sítios com cobertura completa a velocidade da ligação é de fazer perder a paciência , mesmo dando por adquirido que não se podem ver vídeos ou sites com aplicações gráficas muito elaboradas a menos que se deixe o computador ligado a noite toda. Quis tirar umas fotos ao ecran para ilustrar aqui a lentidão disto mas não me sai nada perceptível , têm que confiar em mim se digo que as velocidades vão entre 1kbps e 200kbps , sempre mais perto do um do que do 200 . Para quem , como eu , não está bem seguro do que realmente significa kbps basta dizer que não é raro aparecer nos downloads “faltam 3 dias e 14 horas” e outras coisas assim . O Skype , só com voz , abrir um vídeo do you tube ou similar , mesmo daqueles curtos , é pelo menos meia hora e com documentos importantes e coisas tipo compras e reservas online ainda é preciso ter mais cuidado com as vezes que a ligação “cai” a meio da operação. Nas repartições e serviços ouço muita  vez : desculpe lá a espera , sabe , a Internet aqui… Pois , já sei.
Como contei aqui , resolvi devolver o “equipamento” à PT e cancelar o contrato. Como era a primeira vez que tinha um contrato para coisas como as que a PT vende não estava preparado para ter mais uma lição de como se ganha dinheiro e de como as letrinhas pequeninas , que ninguém lê a partir do momento em que toma a decisão de comprar ou contratar alguma coisa , são o diabo.
Aparentemente o contrato que assinei com a PT implicava uma clausula de rescisão igual ao valor do contrato inteiro , se estivesse descontente e quisesse abandonar o serviço tinha que pagar à mesma as mensalidades todas do ano contratado. Isto é animador e um conforto para os clientes da PT.  Depois soube outra coisa que me tinha escapado , mas essa mais por minha culpa do que por prácticas insidiosas , deixem-me dar largas a minha irritação ,  a fazer os contratos e a vendê-los. Não percebi , mesmo se o esforço para explicar fosse pequeno , que os 16€ por mês eram só para eu ter a pen em casa , porque se por acaso  pensasse em usá-la  já era outra história diferente , pagava-se à parte .
Bom , já que estava preso com aquilo, fui usando , mas sem perceber bem o preço de cada email , de cada foto posta no facebook ou cada revista lida online. É muito caro , é insultuoso  , estes gajos compram Internet à tonelada e vendem à grama com um lucro tipo tráfico de cocaína. Fui ao continente em Junho e , siderado com a velocidade da Internet , deixei-me ir , usei quando quis e descarreguei coisas que me fartei . Quando finalmente chegou a conta , queriam mais de cem euros por um mês de Internet, eu pensei, estão é malucos , desliguei aquilo , meti na prateleira e ignorei as facturas. Ora ignorar facturas nunca é bom , como os nossos políticos deviam saber há muito tempo. Quando voltei de viagem no mês passado  tinha cartas de advogados a ameaçar procedimento judicial , a PT queria 320€ e a TMN 87€ . Resignei-me ,  a dívida não ia desaparecer por eu a achar uma extorsão abusiva , e paguei-a. Liguei para os advogados a saber em que estado iam as ameaças de procedimento judicial , quando lhe disse do que se tratava a senhora respondeu-me como se eu fosse um bocadinho simples por acreditar que ia haver procedimento judicial por 320€ . Se calhar sou mesmo , sei lá , se me mandam uma carta de um escritório de advogados a ameaçar-me com procedimento judicial iminente tendo a acreditar e fazer alguma coisa .
Voltei a ligar para a PT , para saber porque é que vinham duas entidades diferentes cobrar-me e facturar-me serviços , entre TMN , PT e Sapo já são 3 e só assinei contrato com uma . Mandaram-me segundas vias das facturas todas e explicaram-me o belo contrato que eu tinha assinado de livre e espontânea vontade. Não houve erro , são mesmo aqueles valores. Depois prestei mais atenção e vi que as factura da PT cobram-me sob a designação “banda larga” . Como pude confirmar junto do próprio call center da PT , que fiz para ter a certeza que “banda larga” é mesmo aquilo que as pessoas acham que é , e que não existe aqui . Não há , zero , népia , andam há anos a prometer a ligação da fibra óptica à ilha mas até ver , 10kbps e poupa-o.
A Provedoria do Cliente da PT foi mais do que solícita e rápida a esclarecer-me sobre o dinheiro todo que eu lhes devia e paguei , mas estranhamente há uma semana que aguardo resposta ao meu último email :
-Gostaria de saber que comentário merece à Provedoria o facto de a PT me facturar e cobrar um serviço que não está disponível onde eu vivo.
Posso perder o meu tempo mas isto não pode ficar por aqui , vamos lá brigar um bocadinho.