Pressão da Igreja

Aí temos o carnaval à porta, outra ocasião que me é indiferente e não foram os posts dos meus amigos de Alcobaça mascarados nas palhaçadas do costume eu nem me lembrava que existia. Já houve um tempo, na época em que fazia coisas porque os meus amigos faziam coisas, em que saí umas vezes mascarado, e lembrei-me há bem pouco tempo da mais memorável.

Estava a pensar sobre tanto que o mundo mudou em 20 anos e no que era aceitável dantes e não é aceitável hoje e lembrei-me da vez que nos mascarámos, uns 10, à Klu Klux Klan, com cruz a arder e tudo. Hoje as pessoas têm que pensar quatro vezes nas implicações de tudo e pensar muito bem em quem é que podem ofender, e a espontaneidade é uma das vítimas do politicamente correcto. Já fui mais detractor do famoso politicamente correcto do que sou porque acho que é melhor fazer um esforço para não ofender ninguém do que ser tudo à balda, mas isso deve-se muito ao facto de viver sozinho e muito longe de qualquer centro urbano e não ter que aturar malucos nem pensar cuidadosamente em cada interacção ou acção, não vá o diabo tecê-las. Se não falas com ninguém não podes ofender nem chocar ninguém, assim se resolve um problema antes dele aparecer.

Mas falava de Carnaval e suas tradições e brincadeiras, a mais importante de todas é, creio eu, a possibilidade de brincar e gozar com tudo. Crítica social, fantasia e sátira embrulhada em festa, sempre foi isso o Carnaval. Uma terra de tradição carnavalesca fortíssima é Torres Vedras e já lá deve andar tudo ao rubro,  vejo hoje uma notícia que em circunstâncias normais me tinha passado com um encolher de ombros, dada a minha não relação com carnaval, mas  nestes tempos que vivemos e com o que continua a saber-se, não sou capaz de deixar passar.

Então Torres Vedras instala todos os anos um monumento ao Carnaval, uma paródia escultórica. Este ano uma das figuras era a Nossa Senhora da Bola, uma escultura igual às tradicionais da Nossa Senhora mas com uma bola de futebol em vez de uma cara. O escultor recebeu prontamente a chamadinha telefónica da Câmara que , perante pressões da Igreja, o instava a retirar a peça.

Ora, têm vindo a público nos últimos meses toda a sorte de relatórios, investigações, denúncias e confirmações de uma quantidade assustadora de  abusos sexuais dos mais nojentos que há e com uma tónica comum : praticados por padres católicos sobre os mais fracos ao seu cargo , cuidado ou sob a sua orientação. Houve uma altura, como sempre, em que havia denúncias mas andou-se na fase da negação. Era uma campanha dos ateus ou coisa assim. Já não, até o chefe máximo da organização admite, assume e lamenta. Lamenta muito, farta-se de rezar pelas vítimas.

Por cá um dos directores gerais disse na semana passada que havia registo de uns dez casos, pouquíssimo se pensarmos no número de padres. Sim , só dez, muito poucos, o melhor era nem falar mais nisso. Outro canalha que, se houvesse inferno, ia ter que se retorcer bem para lhe escapar porque quem ajuda, desculpa e encobre o criminoso fica com boa parte do crime colada a si.

No outro dia abri um artigo do NYT que falava de um relatório a descrever como dezenas de freiras eram regularmente abusadas por padres e que as que engravidavam eram  levadas a abortar. Tive um refluxo gástrico , estive para escrever sobre isso na altura mas pensei , não, é sórdido demais, ninguém merece.  Agora acho que merecem tudo.

A coisa é de tal maneira que em Roma se reuniram 115 bispos a discutir os abusos sexuais  na Igreja. Como sempre ao retardador, agora que a verdade não pode mais ser varrida para debaixo do tapete, a Igreja tenta lidar com o nojo e a hipocrisia de décadas. Como se trata de um culto religioso, por definição irracional, os fiéis vão aceitar qualquer explicação que lhes seja oferecida pela cúpula e qualquer reacção lhes vai parecer boa e adequada ( o Papa falará sobre isto ex cathedra e como tal, será infalível) e se não parecer , encolhem os ombros e dizem que as vias do senhor são misteriosas e isto é só mais um teste à fé,  há homens maus em todo o lado e vamos sair disto reforçados e purificados.

Até vir essa conclusão do Papa, que entretanto veio comparar os abusos a rituais pagãos não resistindo a tentar encontrar  escapatória retórica, a Igreja e os seus representantes deviam andar , como se costuma dizer, colados às paredes. Não mexer uma palha , não soltar um pio, não dar uma entrevista nem emitir uma opinião até acabar esta reunião magna e o Papa falar por todos, sob pena de se enterrarem mais ainda ou de aparecerem com um discurso que corre o risco de estar desactualizado e ser contraditório quando o infalível falar para a semana.

No meio desta tempestade em que meio mundo olha de esguelha e o outro meio com asco, o que é que faz a Igreja de Torres Vedras? Apresenta uma queixa porque um escultor instalou uma senhora da Fátima com cara de bola no monumento ao Carnaval. Foi o que os incomodou, sentiram-se atacados e forçados a reagir.

Isto diz muito sobre este clero, que durante décadas  abafa , encobre e não castiga os crimes mais sórdidos praticados no seu seio mas que se sente beliscado na sua dignidade e forçado a chamar os poderes à atenção quando se brinca com os seus mitos e crenças. Agora já todos os padres, leigos e beatos e tudo, todos  já acham que a “denúncia é uma obrigatoriedade de todos”. Criaram no Verão passado um sistema para lidar com um problema que tem pelo menos 100 anos.

Ficamos então à espera de uma explicação para o facto de mais uma vez a Igreja Una Santa Católica e Apostólica mostrar que muitas  vezes não é nenhuma dessas coisas.  O Cardeal Patriarca admite um estudo sobre os abusos sexuais na igreja portuguesa, uma verdadeira posição de força e determinação perante um problema tão grave. Cada vez tenho mais dificuldade em perceber como é que se pode ter  confiança numa instituição com esta história e este modo de operar.

Disse há pouco o Papa no twitter: “Todo o abuso é uma monstruosidade. Na ira justificada das pessoas, a Igreja vê o reflexo da ira de Deus. Temos o dever de ouvir atentamente este grito silencioso.”

É pena que Deus não seja capaz de manifestar  a sua ira directamente e faça tudo por reflexos, e também é pena que não tenha reflectido a sua ira um bocado mais cedo.

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A Influencer de Deus

O nosso presidente é católico apostólico romano e crê na Igreja Una e Santa, como sem dúvida afirma todos os Domingos. Tudo bem , felizmente  todos os portugueses podem afirmar e praticar a crença religiosa que lhes calhou no berço, ou aquela a que se converteram, ou nenhuma, e o presidente não é excepção.

A  questão é que , também felizmente, pela nossa Constituição, o Estado é laico, o que creio que significa que toda a gente tem liberdade de professar uma religião mas o Estado não tem nenhuma, só tem a obrigação de assegurar essa liberdade. Sendo assim, as pessoas que não são religiosas ou que têm outra religião que não o catolicismo podem justamente ter objecções quando vêm o presidente embarcar com uma comitiva considerável para o Panamá, para participar de festividade católicas em representação dos portugueses , à conta do orçamento geral do Estado.

Essa representação, sem dúvida importante para os católicos, devia ter ficado a cargo de um quadro superior da instituição. Ia um bispo , a expensas da sua diocese, e levava quem quisesse. Se o cidadão Marcelo quisesse ir ver o Papa ao Panamá e agitar lencinhos coloridos em nome da esperança ou lá o que é que lá se faz, pegava no seu cartãozinho de crédito, tirava uns dias de férias e lá ia, mas não, temos que pagar todos.

Não está em causa que a esmagadora maioria dos portugueses seja católica e goste de ver o festival do Panamá e de lá ver portugueses a marcar presença, o que está em causa é um princípio constitucional, o da laicidade do Estado que o presidente  representa, e representa cada vez pior.

O que se passa no Panamá é um festival religioso internacional, juntam-se crentes de todos os países para ouvir a mensagem, recarregar baterias e sair de lá com as suas convicções reforçadas pelo facto de confirmarem ao vivo que há milhares de pessoas em todo o mundo a pensar como eles. A mensagem ouvida ao vivo é outra coisa, as palavras soam diferente se as ouvirmos proferidas num palco rodeados de correligionários entusiásticos, é a mesma diferença entre ouvir um disco em casa ou ao vivo. A música não deixa de ser a mesma mas a intepretação entusiasma mais.

Como a maior parte das pessoas, herdei a fé dos meus pais sem ninguém me perguntar nada. Cresci católico como teria crescido muçulmano se tivesse nascido no Egipto ou Baptista se tivesse nascido no Sul dos Estados Unidos. Lembro-me muito bem do papa João Paulo II, ou melhor, de ouvir falar nele, porque além de católica a minha família era muito ligada a Fátima, e ele também. Também presto atenção a política desde pequeno, e lembro-me perfeitamente de ouvir falar no General Jaruselsky, da resistência e desafio do sindicato Solidariedade em Gdansk e do apoio fortíssimo de João Paulo II a quem lutava contra as ditaduras comunistas.  Também me lembro de aprender que o Papa era o Vigário de Cristo na Terra, o que quer dizer que o Papa fala por Cristo, logo, fala pelo Filho de Deus que é  igualmente Deus por via do mistério da Santíssima Trindade. Existe o dogma da infalibilidade do Papa em matéria de fé ou moral ,  e há aqui alguma margem de manobra porque esta infalibilidade é ex cathedra , ou seja , pode haver duas categorias de pronunciamentos papais, os que são , vá lá, oficiais, feitos a partir do Trono de S.Pedro, e o resto, pelo que o papa tanto pode ser infalível como não ser .

 João Paulo II não apreciava o socialismo , passo a citar , traduzido daqui:

“O erro fundamental do socialismo é de natureza antropológica. O Socialismo considera o indivíduo simplesmente como um elemento, uma molécula no organismo social, pelo que o bem do indivíduo é completamente subordinado ao funcionamento do mecanismo socio-económico. Do mesmo modo o socialismo mantém que o bem do indivíduo pode ser realizado sem referência à sua livre escolha (…)

Este é um simples exemplo de entre muitos, e não tendo que ir buscar encíclicas ou pronunciamentos ex cathedra ou fora da cátedra, toda a gente se lembra da importância que o Papa teve não só na queda do socialismo na Polónia como na Alemanha, e por extensão, no fim da Guerra Fria. Infalível falando do trono ou falível falando do palanque, o Vigário de Cristo da Terra nos anos 80 criticava  o socialismo. A Igreja fez dele um santo mas o Vigário dos nossos dias é muito diferente. No tempo intermédio houve outro, do qual sinceramente só lembro a figura um tanto sinistra e alguma ideias retrógradas até para um Papa , e hoje temos aquele a que os católicos mais novos se referem , num querido esforço de familiaridade, como Papa Chico.

Até eu, que me tresmalhei do rebanho mas vou vendo o que se passa, o considerei, e considero uma lufada de ar fresco depois do anterior que era uma lufada de incenso e mofo. Trato afável, expressão de bonomia e uma tentativa de conduzir  a sua igreja à defesa dos mais fracos e oprimidos. Ninguém que tenha a noção do que é a Igreja Católica pode esperar que esta se reforme por acção de um homem, vigário escolhido ou não, é apenas um homem. Apesar disso podia esperar-se mais alguma coisinha sobre dramas, opressões e injustiças do nosso mundo, mas está visto que não, ou só sobre algumas. O Vigário de Cristo hoje, ao contrário de há 30 anos, é um homem de esquerda e tem os mesmo reflexos de todas as pessoas de esquerda, que não são maus nem bons mas não são de estimar em alguém que fala por centenas de milhões e , mais importante do que isso, em nome de Deus, que ao que sei e do modo como mo representam, não é de esquerda nem de direita.

Sobre a desgraça que se desenrola na Venezuela o Papa não consegue ter uma posição forte contra a tirania como o seu antecessor JP II teve quanto à Polónia. O máximo que consegue é pedir que se reze pela Venezuela e apelar à paz e à justiça, é mais ou menos o que faz  a Miss Universo. Ou ninguém tem rezado nada pela Venezuela ou não está a resultar, mas resultados nunca foram maneira de avaliar a eficácia das preces.

O Papa Chico, nas sua modernidade , também usa o Twitter e hoje escreveu isto:

Com o seu sim Maria é a mulher que maior influência teve na história. Sem redes sociais foi a primeira influencer, a influencer de Deus.” 

Não sei se Maria é a mulher com mais influência na História, creio que alguns Chineses ou Indianos podem apresentar objecções mas aqui o Papa está apenas a prolongar a velha tradição de fazer equivaler a História com a História do Ocidente. Além do mais o papel de Maria foi ser impregnada pelo Espírito Santo e parir Jesus Cristo, corrijam-me se estou errado, e isto é mais uma vez o relegar da importância da mulher a veículo de gerar pessoas. Não consta que haja declarações de Maria nem acções notáveis de Maria (à excepção de reparar que se tinha acabado o vinho nas bodas de Canaan, é sempre uma observação meritória e que alguém tem que fazer) , o que a fez então ser a mulher mais influente da História foi ser a mãe de Cristo. E nem sequer foi escolha sua , porque presumo que este “sim” a que se refere o Papa seja o “sim” que Maria disse quando o Arcanjo Gabriel  lhe veio comunicar que ela ia ter uma criança especial, ou seja, foi um sim que equivaleu a um “que remédio”, não é fácil de imaginar que outra hipótese teria Maria nem consta que o arcanjo lhe tivesse dado uns dias para aceitar ou não.

Mas o que me fez começar a escrever isto quando vi o tweet foi a referência aos “influencers” pelo Vigário de Cristo na Terra. Para quem não sabe , um “influencer” é uma pessoa invariavelmente jovem, bonita e bem apresentada cujo principal atributo é ter muitos seguidores nas redes sociais, e esse influenciar relaciona-se sobretudo com influenciar hábitos de consumo. Não há no instagram “influencers” de correntes filosóficas nem científicas mas há centenas e centenas de influencers de moda, comida , viagens e entretenimento, é uma espécie de nicho em que os mal preparados e falsos  mostram vidas artificiais e influenciam os pobres de espírito a seguir indicações que eles são pagos para dar. No fundo não são mais do que publicitários.

Claro que Maria não foi a primeira “influencer” de nada, ainda Maria era pequenina e já estavam velhas as dançarinas , actores , poetas ou atletas  que apregoavam isto ou aquilo às massas, que os queriam copiar nem que fosse num pequeno ponto. Também o uso desta imagem pelo Papa mostra a concepção de uma História que começou  há cerca de 2000 anos no Médio Oriente. Pior , muito pior que isso é o uso do termo “influencer de Deus”, que é ao mesmo tempo um legitimar da cultura dos influencers que devia ser contrariada pela igreja , pela toxicidade que deve ser aparente a qualquer pessoa de bom senso que preze a vida espiritual, e uma tentativa triste de parecer jovem e actual, escolhendo uma das vertentes mais assustadoras e vazias da cultura das redes sociais.

Já agora, Deus , apesar de omnipotente, omnipresente e omnisciente continua sem conseguir fazer chegar a sua mensagem directamente a cada um, continua a precisar de influencers. Não sou eu que o digo, é o Vigário de Cristo na Terra.

 

Milagre!

Se fosse precisa prova de que ver notícias pela televisão não serve para ficarmos informados esta história dos miúdos presos na gruta veio reforçar a ideia. Durante não sei quanto tempo não se falou de outra coisa, desapareceram assuntos que há pouco eram gravíssimos, tal como no mês passado não falaram de outra coisa sem ser do Sporting, e o que é interessante é que vai tudo em manada. É como as minhas ovelhas, para as levar para algum lado basta-me que uma arranque numa direcção, as outras vão logo todas atrás, nunca falha. Na imprensa é o mesmo, começa um a falar, começam todos e em pouco tempo todos os canais estão a falar do mesmo. Ridículo.

Seria altura, penso eu na minha ignorância, para um director de informação de um canal decidir cobrir outro tópico e ser alternativa, mas não. Parece que têm medo de falhar se não falam do mesmo que os outros todos falam, e como a relevância de qualquer tema é bastante subjectiva, isto torna-se um bocado doente.

Quase todos os dias a meio da manhã vou beber um café e nesta semana todos os dias, quando olhava para a televisão o tema era a caverna da Tailândia. Amanhã será outra coisa qualquer, vão uns a reboque dos outros e só largam quando os outros largarem.Vi especialistas em meditação a explicar como a meditação pode ter ajudado as crianças, vi   mergulhadores a explicar em detalhe penoso o que é aparente para toda a gente em cinco segundos (é difícil e perigoso mergulhar em cavernas) e vi os órgãos de comunicação social a enviarem pessoas à Tailândia, porque é sabido que se não tivermos um tuga em directo no local não somos capazes de perceber o que se está a passar só com a informação que chega de lá. Gastaram rios de dinheiro para acrescentar ZERO, não me admirava nada que tivessem entrevistado um português de férias na Tailândia para dar a sua opinião abalizada e pertinente ou encontrado um tailandês que tem um primo que um dia passou pelo Portoe  que estava chocado e esperançoso.

Espero que alguém  tenha perguntado que raio de ideia  é ir enfiar-se numa caverna reconhecidamente perigosa com um grupo de garotos, mas se o professor é um herói para os Tailandeses não serei eu a acusá-lo de inconsciência e irresponsabilidade, eles é que sabem e a eles é que  diz respeito. Salvaram-se todos, herói. Se morressem todos, vilão, mesmo que ele tivesse feito exactamente a mesma coisa. Curioso. Também fica mais uma para a longa lista de respostas que tenho para dar a quem periodicamente se interroga “mas as Forças Armadas servem para quê, mesmo?” .

Igualmente curioso mas muito mais divertido é o título desta notícia do Público de hoje : Milagre ou ciência?Não se sabe .  Não se sabe??  Milagre seria os 13 tivessem aparecido à entrada da gruta sozinhos sãos e salvos, ou se  as águas tivessem descido sem explicação, mas  atinge-se um cúmulo quando se chama milagre a uma operação internacional de resgate da qual se conhecem todos os passos, todos os intervenientes, todo o equipamento e métodos usados. Sabemos como desapareceram, como sobreviveram, como foram encontrados e como foram resgatados e nada em nenhum passo sugere intervenção sobrenatural, mas nunca falta quem queira agradecer o que não percebe ao que não conhece.

Tenho uma pergunta para os defensores de tese do milagre na Tailândia:

O Vaticano avança que os bispos católicos do Congo lançam um apelo para que se salvem milhares de crianças que morrem de fome, neste preciso momento.  O mesmo  deus omnipresente e omnipotente que tornou possível o salvamento de  12 miúdos tailandeses presos numa caverna  está a deixar morrer milhares de crianças à fome no Congo de tal maneira que  até os seus vigários na Terra apelam aos Homens que façam alguma coisa, porque pelos vistos deus não é capaz. Ou não tem tempo. Ou não quer. Alguém quer avançar uma explicação para isto? Ah,  não se incomodem, já sei : as vias do Senhor são misteriosas. Corre tudo bem: Aleluia, Deo Gratias. Corre tudo mal : ah , humanidade malvada. Ninguém me explica isto.

Semântica

Em relação ao último post, fizeram-me ver que há uma diferença entre a anulação de um casamento religioso e um divórcio, a igreja permite e opera os primeiros mas continua a proibir  e condena os segundos. O Papa agilizou o processo de anulação, numa tentativa de que deixasse de ser apenas privilégio dos ricos e bem ligados e passasse a ser acessível a mais pessoas.

Perante isto fui ver quais os motivos reconhecidos pela igreja para anular um casamento celebrado por ela, quais as causas de nulidade. São 19 e são as seguintes:

1. Falta de capacidade para consentir (cânon 1095)
2. Ignorância (cânon 1096)
3. Erro (cânones 1097-1099)
4. Simulação (cânon 1101)
5. Violência ou medo (cânon 1103)
6. Condição não cumprida (cânon 1102)

7. Idade (cânon 1083)
8. Impotência (cânon 1084)
9. Vínculo (cânon 1085)
10. Disparidade de culto (cânon 1086,- cf cânones 1124s)
11.. Ordem Sacra (cânon 1087)
12. Profissão Religiosa Perpétua (cânon 1088)
13. Rapto (cânon 1089)
14. Crime (cânon 1090)
15. Consangüinidade (cânon 1091)
16. Afinidade (cânon 1092)
17. Honestidade pública (cânon 1093)
18. Parentesco legal por adoção (cânon 1094)

19. Falta de forma canônica na celebração do matrimônio (cânones 1108-1123)

Se se verificar uma ou mais destas condições num casamento católico ele pode ser declarado nulo. As minhas questões são estas, e não me estou a armar em sofista nem a tentar ser engraçadinho, estou a tentar perceber:

-Se depois de se celebrar um casamento se concluir que existe uma destas condições se pode anular o mesmo casamento, qual é a diferença entre fazer isso e permitir um divórcio? Porque não simplesmente autorizar o divórcio se se verificar uma das condições?

-Qual é o fundamento para a distinção que permite que seja possível declarar  um casamento nulo e impossível permitir um divórcio, já que na prática e no fim de contas o começo e o fim são idênticos: havia um casamento  e deixa de haver?

-Qual é no fundo a diferença entre um casamento anulado e um divórcio, além da semântica?

Se alguém que saiba quiser gastar  cinco minutos a explicar-me isto, agradeço.

 

 

 

Que não separe o Homem…

…o que um ritual cultural uniu, excepto em casos julgados meritórios por pessoas que nunca foram  casadas  mas que sabem tudo sobre o casamento e mediante o pagamento de determinada quantia.

Fiz um esforço de memória e concluí que dos 9 casamentos aos quais fui nos últimos 20 anos só 2 permanecem “em vigor”, o resto acabou, apesar das juras , votos e bênçãos. Durante décadas a Igreja católica defendia  que o divórcio era uma coisa demoníaca, um pecado, intolerável., de tal maneira que um católico que se divorciasse era na prática excomungado, porque para eles fazia  sentido  as uniões serem eternas mesmo que o casal acabasse a odiar-se e a fazer-se mutuamente  a vida num inferno. Faz parte daquela noção de que o sofrimento é bom, a Deus  “oferecem-se  sacrifícios”, e não estou a falar dos Maias ou dos Hindus, estou a lembrar-me por exemplo do que me diziam na catequese, sofrer e sacrificar-me agrada a Deus, na altura isso não me levantou problema nenhum porque tinha 9 anos, mas chegada a idade da Razão e com o desenvolvimento da faculdade do raciocínio comecei a estranhar porque razão  o Deus do amor gostaria de ver os seus filhos sofrer. A resposta para isto, claro está, é que as vias do Senhor são misteriosas e fora da compreensão do Homem, excepto dos homens (mulheres não) que sentem a vocação e por isso se tornam os representantes de Cristo na Terra, para esses as vias são conhecidas,  esses sabem sempre o que é que agrada e desagrada ao Senhor, nunca se coibindo de nos explicar como viver e o que fazer. “Explicar” é uma forma de expressão.

Durante milénios os clérigos cristãos aterrorizaram as populações com o Inferno. Se não fizerem a vontade de Deus como nós a explicamos, vão arder para sempre nas fornalhas do demo. Isto foi parte integrante e fundamental do cristianismo e deriva do facto de se ter percebido cedo que a promessa de vida após a morte não era o suficiente para motivar e controlar as pessoas, além da promessa de algo improvável era necessária uma ameaça, e assim se inventou o Inferno, que ainda estava de boa saúde e era anunciado nos púlpitos do mundo há muito pouco tempo, até que o último Papa veio dizer, por outras palavras, que era uma aldrabice milenar, uma criação humana para pôr as pessoas na ordem,  que devíamos deixar de pensar no Inferno.

Não tenho dúvidas de que milhares de católicos pensantes disseram nessa altura “espera lá , então isto é assim? Tanta Verdade, tanta certeza, tanta infalibilidade e de um ano para o outro elimina-se um dos pilares da doutrina e segue tudo como dantes?“.  Alguns terão migrado para seitas e cultos cristãos que não reconhecem o Papa e se sentem mais confortáveis com o fundamentalismo, outros acharam que já chegava de hipocrisia e inconsistência e abandonaram a prática, outros ainda , a maioria, suponho, encolheram os ombros e continuaram como se nada fosse, fazendo de conta que uma revolução  doutrinária dessa envergadura não tinha consequências. Era uma actualização, porque mesmo que nos digam que “esta e só esta é a Verdade” nada impede  que as mesmas pessoas passado uns tempos digam “afinal esta é que é a Verdade”. Confunde-me bastante.

O casamento era uma das instituições  sagradas da igreja, tão sagrada que até é inadmissível uma união entre pessoas do mesmo sexo. A realidade era diferente, as pessoas juntam-se e separam-se sem que o Todo Poderoso tenha alguma coisa a ver com isso e apesar da invocação “que não separe o Homem…” , o  Homem separa constantemente. E quando não é o Homem a separar são os próprios representantes de Deus, desde que o actual Papa agilizou os procedimentos que o número de pedidos para acabar com as sagradas uniões duplicou em Portugal e o próprio clero pode declarar nulo e separar o que Deus uniu, é interessante.

Eu sou um bocado literalista  e tinha a impressão que  “sagrado” significa inviolável , com qualidades superiores e merecedor de respeito absoluto. Afinal não, pelos vistos até para a Igreja o que é sagrado hoje pode deixar de o ser  amanhã , mediante um processo administrativo e o pagamento de uns meros 1500€. Até faz algum sentido, vem na tradição iniciada com a santa prática das indulgências, em que num dia estávamos condenados ao tal inferno mas no próximo, se pudéssemos pagar, ficávamos outra vez puros e redimidos. Podem-me apontar que os 1500€ são para cobrir despesas burocráticas, não é só pagar e seguir como era com as indulgências. É verdade, mas isso não altera o fundamental: há maneira de dar a volta ao Sagrado, o que já se sabia na prática mas ainda não estava confirmado na doutrina.

Lamento muito por todas as pessoas que viveram vidas miseráveis presas a uniões nocivas só porque era ilegal separarem-se; sinto por todos os que, não suportando mais as tais uniões, se separaram mesmo e sofreram o ostracismo de uma  igreja à qual queriam continuar a pertencer. Para todas essas pessoas esta última “inovação” deve ser bastante amarga.

Terra Santa

Tenho três  problemas fundamentais com os israelitas e com os palestinianos, e tenho grande satisfação com o facto de a minha opinião ser irrelevante e não ter voto numa matéria tão séria.

Começando pelos israelitas, é  óbvio que o seu mito fundador é precisamente isso, um mito, se não aceitassem a Torah com palavra final do divino e base da organização das coisas  é provável que ao longo dos milénios tivessem evoluído num modelo diferente de povo, comunidade, nação. Sempre achei dos maiores testemunhos e tributos à  dissonância cognitiva necessária para se ser religioso o facto de os Judeus se considerarem o Povo Eleito. Se são o povo eleito e sofreram o que sofreram em 3000 anos e ainda sofrem hoje, nem quero pensar no que seria se fossem um povo ignorado por Jeová, tipo os escandinavos. Segundo pelo menos um historiador Jerusalém  foi atacada  52 vezes, capturada e recapturada 44 vezes, assediada 23 vezes e destruida duas vezes, não há cidade no mundo com um registo de violência extrema comparável com este, ligar isto com “Religiões de Paz” é certamente exercício para cínicos frios que não percebem a “espiritualidade” que envolve aquilo. A espiritualidade sempre foi um dos maiores impulsionadores da violência entre os homens,e é normal que numa terra que concentre espiritualidade em doses massivas como Jerusalém a barbárie se mostre mais, porque todos os beligerantes estão convictos de que são justos, fazem o trabalho de deus, vão ganhar a vida eterna com a sua violência e os seus oponentes são condenados por um poder mais alto.  Cada um tem o seu livro onde está escrito que eles têm razão, cada um acha os livros dos outros uma mentira e é assim que funciona a terra santa.

Sem narrativas bíblicas e corânicas desapareceria  imediatamente grande parte do racional que faz com que se guerreie e odeie tanto no Médio Oriente, mas as narrativas religiosas estão para ficar, quanto mais não sejam que dão muito jeito às narrativas políticas.

O outro problema fundamental que tenho com os israelitas é a desproporção das reacções , ainda no outro dia li a notícia de um grupo de colonos atacado à pedrada que respondeu como fogo de armas automáticas. Aqui há uns anos os israelitas abordaram um cargueiro turco que acreditavam levar armas, foram ameaçados com paus, responderam a tiro. Caem dois foguetes artesanais em Israel, levantam voo dois F15 e reduzem a entulho outro quarteirão de Gaza. Tenho ideia que  o livro deles prescreve “olho por olho” mas parece-me que eles observam mais “cabeça por olho”, que algumas pessoas podem achar boa estratégia, eu gosto de apreciar as coisas pelos resultados, desde que nasci que os israelitas estão em guerra com os árabes , sem sinais de acalmar pelo que acredito que o objectivo não é conseguir viver em paz.

E aí o terceiro problema: é para mim claro que os israelitas, ou a parte deles que tem sido governo nos últimos anos e claro, a brigada das trancinhas que não toca em mulheres  e acha que passar os dias a abanar-se frente a uma parede  recitando versos ancestrais é uma ocupação válida, não tem interesse nenhum em encontrar paz com os vizinhos. Desde a política dos colonatos ao modo como são tratados os árabes que vivem em Israel até aos periódicos nivelamentos de Gaza onde mantêm milhões de pessoas literalmente prisioneiras numa lixeira , não vejo rigorosamente nada que me indique que Israel esteja interessado numa paz duradoura, que só se pode conseguir com concessões.Se cedemos zero ao nosso inimigo não podemos esperar que ele ceda X e fique quieto, parece-me básico.

Com os palestinianos tenho logo em primeiro lugar um problema comum aos outros, a narrativa dominada pela superstição, a justificação religiosa para as suas neuroses e projectos. O segundo problema é a vitimização , os árabes são historicamente desunidos, os países árabes são atrasados e corruptos e é fácil culpar os sionistas por problemas que se eles não fossem assim conseguiam resolver sozinhos. Em vez de aceitarem a sua quota parte de culpa pelos seus falhanços culpam os judeus, esquecendo que antes de ser criado o Estado de Israel  a Palestina eram montes e pastores de cabras por onde a modernidade não passava, e continua a ter dificuldade em passar. A corrupção épica das lideranças árabes não ajuda, comparada com a dos judeus que podem não ser imunes à corrupção mas ao menos têm eleições, partidos diversos, tribunais e imprensa livre, só por isso já estão num patamar superior.  Se os palestinianos  e os países árabes trabalhassem mais em construir instituições e modernizar as economias a vida não lhes era tão amarga.

O terceiro problema é a retórica e o culto da violência, que no fundo radica na religião e que prescreve a guerra santa, a recompensa do martírio e o castigo divino dos inimigos. Também os árabes não param para se interrogarem sobre a razão pela qual Alá o todo poderoso está a levar tanto tempo a castigar os seus inimigos, andam naquilo há décadas, um foguete ali, uma bomba aqui, para ira divina parece-me bastante medíocre.

No fundo ambos os lados são culpados do mesmo: baseiam as suas queixas e razões em lendas e esperam a destruição total do inimigo. Assim não pode haver paz. O resto do mundo observa , a Europa ocupa-se mais da parte retórica e teórica tipo manifestações , boicotes e votos de protesto, a América é mais prática e sustenta a maquinaria de guerra de Israel, que tem os cérebros e tecnologia própria mas ainda assim depende dos biliões americanos para o músculo. O “processo de paz no Médio Oriente” é uma  abstracção que ouço desde que me lembro, nunca em altura nenhuma pensei “olha, se calhar aquilo agora tem hipóteses de melhorar”. O primeiro assunto que me lembro de comentar com os amigos na escola, porque coincidiu com o aparecimento do Público em 1990, foi a invasão do Kuwait primeiro pelo Saddam e depois pelos Estados Unidos. Até hoje olha-se para a Terra Santa e sua vizinhança e é difícil ver paz nalgum lado,instabilidade ou guerra aberta da Líbia ate à fronteira da Turquia , do Yemen ao Iraque.

Diz -se que a religião protege do desespero, e é provável, mas se protege do desespero também impede de reconhecer uma situação desesperada como tal, e parar. Encoraja a persistir no erro quando tudo demonstra que o caminho escolhido não tem saída, impele a pensar num milagre que tanto pode vir como não vir, creio que são menos as vezes em que vem. Esta negação do desespero incita a nunca pensar  noutro ponto de vista, noutra alternativa, noutra possibilidade. Já se perderam muitas causas que muita gente nunca quis nem quer dar como perdidas.

Chega o Trump, o oposto da ponderação, compromisso e equilíbrio. Desde que chegou ao poder que faz pouco mais do que contentar clientelas e apoiantes (o plano dele para os impostos é uma prova obscena) , e enfurecer os críticos e adversários. Esta decisão de reconhecer Jerusalém capital de Israel é uma oferta antes de mais aos Evangélicos, grande proporção dos seus apoiantes e uma das  seitas mais hipócrita e atrasada do mundo ocidental. Para os Evangélicos Jerusalém tem um valor altíssimo e não é por simpatia pelo povo Judeu, é porque é de lá, ou lá , que vai começar a “rapture”, nem sei como isso se traduz, um evento religioso em que os fiéis vão todos subir ao céu, vivos. Já falharam umas quantas datas preconizadas mas isso nunca impediu que se avançassem novas datas. Os Evangélicos exigem que Jerusalém esteja  em “mãos amigas” e exigem luta aberta com o Islão . Com este reconhecimento de Jerusalém Trump agrada aos Evangélicos, aos judeus sionistas (que não são todos), e à base puramente racista que quer confrontação com os árabes e muçulmanos em geral. As consequências não são importantes, nem o facto de esta decisão não contribuir em nada para o avanço daquela que é a possível solução defendida pelos moderados e realistas por todo o mundo : dois estados com Jerusalém como Cidade Internacional.

O Trump não veio contribuir para nenhuma espécie de paz, só veio imprimir outro ritmo ao ciclo.

Reflexão Dominical

Aqui há uns meses, como prova de que nunca estamos verdadeiramente a salvo em lado nenhum, um casal de Testemunhas de Jeová chamou-me ao portão, ou melhor: o cão começou a ladrar, fui ver quem era, eram as Testemunhas de Jeová. Propunham-me alguns minutos para falar sobre Jesus, olhei para eles como se me tivessem proposto  fazer-me sócio do Benfica e recusei, resistindo à tentação de os convidar a discutir comigo por exemplo a viagem dos pinguins e dos koalas desde o Monte Ararat até à Antártica e à Austrália depois do Dilúvio ou o episódio em que  Deus mandou  dois ursos despedaçar 42 crianças  porque gozaram com a careca do profeta Eliseu  (Livro dos Reis, 2, versos 23 e 24, que isto não se inventa).

É de notar que os ateus não se organizam nem andam por aí a fazer proselitismo, primeiro porque não é fácil chegar ao pé de uma pessoa e dizer “venho-lhe falar do nada “, depois porque é difícil, dado que não há organização de espécie nenhuma, ganhar dinheiro com o ateísmo, ao contrário da mina que sempre foi a religião. Isso pode dever-se ao facto de que se  uma pessoa acredita no Antigo Testamento não é difícil fazê-la acreditar que tem que dar dinheiro ao mensageiro, do mesmo modo que se uma pessoa é céptica e desconfiada tem muita dificuldade em pagar por algo que não se explica nem demonstra nem vê.

Ainda ontem assisti aqui a uma peça de teatro  (não só há ocasionalmente Testemunhas de Jeová como  há ocasionalmente teatro, isto é muito mais do que se possa suspeitar), uma adptação de uma peça chamada Nunca Nada de Ninguém, de Luísa Costa Gomes, à qual o encenador decidiu, por razões que no meu filistinismo  me ultrapassam largamente, juntar uma secção em que conta a história de Job, um abastado e devoto lavrador a quem Deus resolve testar tirando-lhe tudo,  incluindo os filhos, por sugestão de Satanás. Estes testes divinos são muito pedagógicos, o pobre Job nem sequer tinha dúvidas na sua fé mas pelo sim pelo não, talvez num momento de aborrecimento, o deus do amor e misericórdia achou que devia  dar-lhe cabo da vida, para ver a reacção. Entre este deus de amor e um , sei  lá ,  Ahura Mazda dos Persas , antes o Ahura Mazda que ao menos acreditava quando os homens lhe diziam que eram fiéis, sem ter que os reduzir a nada  só para ter a certeza.

Tirando perturbações mentais e lavagens cerebrais como as que evidenciam seitas e cultos como as Testemunhas de Jeová, hoje em dia a maioria das  pessoas , mesmo religiosas, já percebeu que o Antigo Testamento é mitologia simbólica . Os milhões de católicos que vão acorrer às igrejas em mais um Domingo acreditam por exemplo na Evolução e na universalidade da noção de Bem, ou seja, que um árabe ou um yanomani pode ser bom e fazer o Bem mesmo não estando  inscrito no colectivo .  Ainda assim, existe uma grande variedade de premissas e dogmas dos católicos que não resistem assim lá muito bem a uma análise racional e acabam a ter que  ser defendidos pela Fé. Não é por nada que a Fé é um oposto da Razão,  a capacidade de crer sem provas e sem aplicar um raciocínio lógico.

Acabei de escrever um email a um dos meus melhores amigos, católico, a propôr-lhe um exercício para realizar amanhã na missa, e depois lembrei-me de o propôr aqui também. Este amigo é doutor, daquela espécie rara que é doutor por ter feito um doutoramento, e em História, pelo que se ri comigo a bom rir de coisas como a Arca de Noé. Também porque tem um sentido de humor parecido com o meu e passávamos muito tempo a dizer parvoíces e rirmo-nos delas. Desde que vim para aqui morar que só o vejo muito raramente, uma vez por ano de fugida, e desta vez tínhamos combinado que quando nos encontrássemos íamos falar de Deus a sério, sem sermos ridículos. Sucede que já sei que não vai haver tempo,  provavelmente quando nos encontrarmos no mês que vem vai ser mais numa ocasião curta que só vai dar para beber umas minis e falar de futebol e política com o resto da rapaziada, será difícil uma discussão séria sobre isto. Sendo assim , e como gosto de encorajar dúvidas , propus-lhe o seguinte exercício:

Que amanhã na altura de recitar o Credo faça uma pausa mental e considere bem cada frase e cada palavra que está a dizer.

A liturgia é feita de fórmulas e rituais, muitos deles com séculos e séculos. Toda a gente baptizada e criada no catolicismo como eu aprende a repeti-las desde criança, torna-se uma coisa automática que se recita de cor. A minha transição de católico a agnóstico (considerei-me agnóstico durante muitos anos até que ficar em cima da cerca para ver o que acontece deixou de me parecer a atitude certa)  deveu-se a uma espécie de epifania num Domingo, depois de ter assistido a cerca de quinhentas missas sem pensar duas vezes no que estava ali a dizer, porque tinha aprendido a responder desde pequenino. Foi como se me tivessem dado uma bofetada na cara, porque no fim de contas eu não acreditava que Deus foi o criador do Céu e da Terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis e  que Cristo nasceu do pai antes de todos os séculos; não professava um só baptismo para a remissão dos pecados, nem sequer concordava com a noção de pecado. Já não acreditava, conforme ampla evidência, na santidade e unidade da Igreja  e certamente não esperava a ressurreição dos mortos, esta última por razões mais ligadas à Física e à Biologia. Se, pensando bem, eu não cria nestas coisas, como é que era capaz de me levantar ali no meio de dezenas de pessoas e afirmar em voz alta que acreditava?

Seguiu-se uma curta fase em que passava as missas em silêncio até que finalmente me deixei de hipocrisias.

Lembremo-nos que até ao Concílio Vaticano II, em 1969, a missa católica era celebrada em Latim. Não tenho dados nenhuns sobre isto mas suspeito muito de que a percentagem de fiéis que sabe e consegue acompanhar Latim, fosse  em 1600 fosse em 1969 ou que seja hoje, é muito, muito reduzida. Não concebo nenhuma razão para que se celebre um ritual numa língua que os participantes não compreendem, nenhuma além de manter a exclusividade da interpretação e explicação, desencorajar  questões e estabelecer a autoridade  do clero.

Tal como disse ao meu amigo, se depois de pensarem bem nas palavras do Credo concluírem que sim, que realmente, conscientemente e inequivocamente creem naquela lista de coisas, vão ficar com a fé reforçada e retirar paz, confiança  e satisfação de proclamar em público “É nisto que eu creio”. Caso contrário, é ir fazendo mais   perguntas  e não ter medo das conclusões.