Belmiro e a Escravatura

A escravatura era o tema escolhido para o post e comecei a escrevê-lo motivado pelas notícias de que hoje em dia na Líbia se pode comprar uma pessoa por cerca de €400. Entretanto morreu o Belmiro de Azevedo, comecei a ler e ouvir as reacções, todas mais do que previsíveis, e lembrei-me de uma das coisas mais parvas que se dizem constantemente: esta vida (por exemplo a de um empregado por conta de outrem a ganhar o salário mínimo) é uma escravatura, somos todos escravos do sistema/capitalismo .

Primeiro o Belmiro. Bastou-lhe ter sido empresário, criado riqueza, revolucionado indústrias e ter sido patrão de milhares para ser detestado pelas esquerdas mais esquerdas. No mundo em que essas pessoas gostavam de viver ninguém podia possuir mais do que X, ninguém trabalhava sem ser sob direcção do Estado, ninguém fazia concorrência  a nada, ninguém na hora da morte podia deixar o fruto do seu trabalho aos descendentes. Felizmente esse mundo sempre foi  rejeitado e continua a ser, excepto onde o modelo é mantido à força, a única maneira de instalar e manter. Um individuo  no twitter  listou  os talhos e mercearias que fecharam por causa da chegada da grande distribuição, presume-se que preferia o modelo antigo e que ainda faça as suas compras dessa maneira. Não conheço nenhum sítio onde não haja ainda pequenas lojas, não tantas como havia mas ainda há, pelo que os consumidores têm  escolha. Surpreendentemente, escolhem um sítio mais acessível, com mais variedade e invariavelmente mais barato, é estranho.

Depois, este explorador ganancioso e sem coração torrou milhões para dotar o país de mais um jornal diário, no critério editorial do qual  nunca quis ter uma  palavra a dizer. Se não fossem directores passados e presentes a assegurá-lo bastaria  ler o Público para perceber que se a intenção do Belmiro com o jornal fosse guiar a opinião pública para o lado direito a coisa estava-lhe  a correr muito mal desde o princípio. Os políticos passam horas a tentar, com maior ou menor grau de sucesso, influenciar o que se publica nos jornais. Este era dono do jornal e nunca ligou para lá, mas nem isso moveu o Bloco, principal beneficiário do Público, a apoiar um voto de pesar, ao menos pela contribuição para a pluralidade da imprensa.

Outro motivador do escárnio e desprezo pelo homem é a sempre presente inveja, até de um tipo que não nasceu em berço de ouro, pegava ao serviço todos os dias às 8, subiu a pulso e  construiu um império. Os verdadeiros heróis, aqueles que são louvados pela Assembleia da República, são os que nunca criam nem produzem a ponta de um corno, nunca pagam um salário com o próprio dinheiro, nunca são responsabilizados financeiramente pela sua prestação, votam o tamanho do próprio salário e privilégios    e levam uma vida de retórica e teoria, feita de lutar por poder, manter o poder, estender influência e combater os de pensamento oposto . São esses os bons da História.

Em 1997 deixei a universidade, queria fazer outras coisas e precisava de dinheiro. Fui trabalhar para o Modelo como repositor de mercearias. Quem se lembra desses tempos sabe bem que não havia assim muitos empregos para jovens sem formação superior em que fosse só chegar e começar a trabalhar. Os talhos e mercearias de que o outro lamenta a sorte era negócios familiares por definição, que não cresciam nem empregavam. Recebia o ordenado mínimo, subsídio de turno e todas as demais contribuições previstas pela lei. Essa oportunidade que tive de avançar na vida não foi o Estado que ma deu, não foi o pequeno comércio e muito menos algum Gabinete de Observação da Interação Social da Osga Mediterrânica, o género de organismo estatal que hoje prolifera e emprega boa parte da juventude saída das universidades, com ou sem conclusão do currículo é irrelevante, se se tiverem os padrinhos certos e o cartão de militante apropriado para a época. A oportunidade devo-a ao  Belmiro de Azevedo e à sua importação  de um novo modelo de distribuição e serviços. A minha passagem por lá não foi muito longa mas sempre me foi explicado e demonstrado que podia ter ali uma carreira. As carpideiras do salário mínimo ignoram, ou preferem ignorar, que um repositor de mercearias motivado, dinâmico e interessado pode progredir, se eu tivesse queda e vontade para aquilo hoje podia ser director de um Modelo, formado na casa. Claro, não há progressões automáticas de carreira , conceito idiota que só podia existir mesmo no Estado, mas há oportunidade de subir na vida. Há é que trabalhar um bocado.

Irrita-me que se fale de escravatura relacionada com emprego de baixo salário por duas razões, a primeira é que a definição de escravatura está à disposição no dicionário , tal como também está a definição de quem usa conscientemente uma palavra errada para descrever uma realidade. A segunda razão é que existem milhões de escravos verdadeiros hoje em dia, pelo que dizer que alguém que tem um emprego em que ganha pouco é um escravo é uma falta de respeito.

A Líbia tornou-se um estado falhado e agora o passado é irrelevante, a culpa da situação é do Ocidente, nomeadamente do Clinton e do Sarkozy que promoveram a queda do Kadafi. Note-se que o Kadafi não tem culpa nenhuma da situação do país que governou com mão de ferro durante 42 anos, culpado do que se lá passa é de quem o derrubou, que presumivelmente devia ter continuado a tolerar autocracia e tudo o que vem com ela. O facto de os próprios líbios se terem revoltado em massa nunca diz nada aos defensores dessa visão, para os quais meia dúzia de operacionais da CIA com umas malas de dinheiro conseguem levar um povo à revolta, mesmo que se viva  bem no país. O sistema é bom, funciona , as pessoas estão contentes com a vida e as perspectivas de futuro, chegam duas agências governamentais estrangeiras, incendeiam uma nação e rebenta uma guerra civil. Fico sempre fascinado com este raciocínio.

Isto não quer dizer que as potências ocidentais sejam inocentes ou que as suas motivações sejam nobres, alguém que acredite em motivações nobres da parte de algum Estado ou seus representantes deve procurar outro tema para estudar. O que quero dizer é que o facto de haver hoje em dia escravatura na Líbia é apenas o ressurgir de uma pratica cultural  ancestral que apenas tinha sido reprimida. É o relembrar da relação que sempre houve entre os povos árabes do Norte de África e os povos negros do Sul do Saara. Se o Ocidente tem culpa no que se passa lá hoje é a culpa de não ter mantido no lugar um sistema que reprime esses instintos e práticas.

Creio que se vai construir em Lisboa um monumento aos escravos do Império, e eu acho bem, para que se preserve a memória e a noção de que o Portugal ultramarino construi-se muito em cima disso, para que se continue a abandonar  a ideia romantizada do  navegador e colono benévolo, para que se lembre que Portugal foi o país que mais escravos transportou para as Américas. É saudável lembrar isso, não se pode nem deve polir a História.

Em 2008 levei um barco para Mystic , no Connecticut , terra que é inteira um museu marítimo . Como a História que me interessa mais é a naval, conhecia bem os navios negreiros e foi por eles e as suas histórias que o horror indescritível da escravatura me bateu pela primeira vez. Quando a Marinha Real Inglesa começou a caçar os negreiros no Atlântico sabiam que estava um por perto porque se houvesse um negreiro vinte milhas a barlavento eles cheiravam-no , muito antes de o verem. Os navios negreiros, especialmente depois de os Ingleses terem banido o tráfico, eram construídos para  um equilíbrio entre velocidade, capacidade de carga e manobrabilidade, e isso fez  deles dos veleiros mais extraordinários de sempre.

Em Mystic corri tudo à procura de um, em modelo, em planos, em filmes. Nada , o Museu é a cidade inteira, em terra e no mar, e não encontrei uma só referência ao tráfico de escravos na terra que construiu a esmagadora maioria dos barcos usados pelos americanos nesse tráfico. Desde essa visita os EUA tiveram um presidente negro e fizeram um esforço maior por enfrentar a sua História (hoje  a ser paulatinamente desfeito) pelo que talvez já se fale de negreiros em Mystic, mas o que me ficou da visita foi essa vontade de varrer o Mal para debaixo do tapete, coisa que entre muitas outras permite que hoje um tipo que tem um salário baixo e uma vida vazia se considere um escravo.

No debate nacional sobre a escravatura vejo que  para muita gente escravatura é o tráfico atlântico de escravos africanos pelos europeus. Isso é uma visão redutora  e quando vemos em 2017 pessoas a serem vendidas vale a pena lembrar alguns factos que me parece não são suficientemente lembrados:

  • A escravatura existe no Mundo desde que duas sociedades ou grupos diferentes se encontraram e guerrearam.
  • A escravatura está não só prevista como justificada e autorizada no Antigo Testamento e foi a base de algumas das maiores realizações da História, desde a Democracia Ateniense ao Império Romano.
  • Cristo foi crucificado e considerado um inimigo simplesmente por defender que todos os homens eram iguais, logo, pondo em risco a escravatura que era a base de quase  todas as sociedades da época. O que a “sua igreja” tolerou, aprovou e promoveu depois da sua morte no que diz respeito à escravatura fala pelas intenções e motivações reais da mesma.
  • Dado que igreja de Cristo não foi capaz de cumprir a sua mais básica função, fazer com que os homens se amassem uns aos outros  em 1800 anos, coube a argumentos racionais e a homens políticos como Wilberforce ou Lincoln guerrearem contra o flagelo. O clero não liderou nada, alguns clérigos mais humanos participaram nos movimentos anti esclavagistas mas das altas hierarquias, nada.
  • No tráfico Atlântico a maior parte dos escravos embarcados para as Américas eram vendidos aos traficantes europeus quer por árabes que só se dedicavam à “caça” quer por outros africanos.
  • Além destas imagens aterradoras que chegam da Líbia é sabido há muito que nas monarquias árabes do Golfo sempre houve e continua a haver escravos.

Isto tudo para dizer que a verdadeira escravatura  é um fenómeno  muito maior, muito mais enraizado e muito mais actual, que é um insulto grave descrever salários baixos como escravatura e que se há culturas e sociedades que a desprezam há mais de um século, como a nossa, há outras nas quais ainda se tolera e pratica. É a essas que temos que criticar e denunciar, não é a nossa que já fez o que tinha a fazer:  banir e tornar a prática abominável e inaceitável.  Agora resta-nos erguer o tal monumento, explicar às crianças o que é a escravatura mas sem lhes mentir nem fazer passar outra coisa por escravatura, explicar-lhes  o que a nossa nação fez no passado  e perseguir e castigar os que o fazem hoje em dia.

Qualquer homem que crie oportunidades para que pessoas possam ter uma opção para ganhar a sua vida está a fazer precisamente o contrário de um esclavagista: está a proporcionar Liberdade às pessoas. Da minha parte, obrigado Belmiro de Azevedo, houvesse mais como ele.

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Populismos

Continua a farsa na Catalunha, agora completa com um golpe de teatro e a fuga de Puigdemont para a Bélgica, para não ser preso e julgado. Depois destes meses em que os estrangeiros que não conheciam a figura puderam ver o seu nível, ideias e estatura, finalmente pode aquilatar-se também a sua coragem e confiança na causa pela qual mergulhou a Catalunha na confusão e divisão: não existem.

Um verdadeiro aspirante a estadista, por oposição a um cacique regional atingido por um ataque de megalomania, teria exposto a sua ideia e  o seu caminho e tinha-o percorrido até ao fim, se o fim fosse uma cela, seria uma cela, como testemunho da luta contra injustiça e opressão do Estado espanhol. Um gajo do calibre do Puigdemont agita, mente, troca-se todo, confunde, hesita  e por fim foge com medo das consequências dos seus actos. Mais ou menos por esta altura os apoiantes locais da independência catalã já estão a renegar o homem e a separar calmamente uma boa ideia de uma  má execução, dispositivo que justifica ideias de merda desde a aurora dos tempos, mais famosamente o comunismo, que até hoje, e já estou convencido de que até sempre, vai ter gente a defendê-lo com essa tese : a ideia é boa, a execução é que foi má. Ah, percebo, é muito possível, é pena é que só se aplique a causas tradicionalmente de esquerda por não tenho memória de ouvir uma alminha que seja a dizer por exemplo “o fascismo até tinha aspectos positivos, infelizmente foi implementado por gente má”. Não, o fascismo é inapelavelmente mau mas o comunismo tem nuances e eu que gosto tanto de uns como de outros fico com vontade de os mandar todos….nem sei.

O Público descobriu símbolos fascistas numa manifestação pela unidade de Espanha, e fez disso notícia. Pois é, símbolos fascistas, que vergonha, já foices e martelos vêm-se regularmente em tudo o que seja manifestação, mas isso já não é notícia, é normal, é saudável, é positivo que em 2017 tenhamos que levar diariamente com o branqueamento e normalização do comunismo, fico doente. Entretanto o mesmo jornal , sobre a vitória eleitoral de um candidato de direita na Austria diz que os populismos estão aí , é um artigo escrito por uma jornalista que até ganhou um prémio por um trabalho na Grécia em 2011 mas que não encontrou lá nenhum populista, só encontrou esperança, e  nem aqui ao lado o Podemos lhe cheira a populismo, é evidente que para esta senhora populismo só existe à direita.

Vi este videozinho sobre a História da Catalunha , partilhado por uma daquelas pessoas que simpatiza com o independentismo porque o governo central é de direita e cuja opinião mudaria imediatamente se em Madrid mandassem socialistas e na Catalunha fosse a direita a querer independência.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fxavier.basoko%2Fvideos%2F10215022689947829%2F&show_text=0&width=560

 Está muito interessante mas não consegui ver nele um único argumento ou justificação para um estado Catalão independente.Não sei se estas pessoas acham que basta contar a História de uma terra para lhe conferir  automaticamente direito à independência ou se acham que devemos voltar atrás e rever todas as decisões históricas criadas por força das armas, negando-lhes as consequências e a validade. “Se foi à bruta, não vale”, ora aí está um bom princípio para repensar a História e as fronteiras da Europa.

Na guerra de Sucessão Espanhola os catalães decidiram apoiar o candidato ao trono que acabou por perder , Barcelona foi ocupada em 1714 e sofreu as consequências de ter lutado pelo lado que perdeu. Lutaram, perderam, acabou. Séculos mais tarde, na Guerra Civil espanhola mais uma vez alguns catalães decidiram lutar contra o Estado central.cMais uma vez perderam, mais uma vez se afirmou que a Catalunha é uma região de Espanha sem apelo nem agravo, e depois da autonomia conquistada e votada, depois de a Espanha se ter tornado uma democracia moderna, um Estado feito de muitas regiões, em que os cidadãos têm as mesmas liberdades e garantias que os das outras regiões,  pensava-se que a questão estava finalmente resolvida mas enquanto houver revolucionários por vocação, enquanto houver políticos ambiciosos e sem escrúpulos, enquanto houver pontos de fricção para semear a discórdia, enquanto houver intelectuais prontos a teorizar e enquadrar qualquer  “revolução” , nenhum assunto está encerrado.

Os comunistas e seus sucedâneos falam em primeiro lugar no sagrado direito à auto determinação dos povos  (com a URSS funcionava muito bem, essa autodeterminação dos povos) e já vi as comparações mais absurdas possível, por exemplo perguntarem-me se eu também era contra a independência de Timor Leste. É uma comparação estúpida mas estou habituado, tal como não me espanta ver lembrado que “em 1640 éramos nós”, como se o Hegel tivesse mesmo razão e a História caminhasse ao longo de uma linha  com um sentido claro e inevitável que faz com que haja um estado natural para uma terra ou região, e esse estado natural seja  uma entidade independente.

Enquanto não me mostrarem sinais claros de opressão, de discriminação e de injustiças sofridas por cidadãos por serem catalães; enquanto não me mostrarem em que é que uma Catalunha independente diferiria para melhor de uma Catalunha região de Espanha; enquanto não me apontarem o que é que os Catalães ganhavam com a independência além de orgulho que nunca pagou contas a ninguém, e mais importante que tudo, enquanto não provarem que há uma maioria do povo catalão a querer independência, não acredito no mérito da causa.

Uma notícia bastante reveladora dos processos morais de boa parte destes independentistas: Os 33 deputados dos partidos independentistas catalães não renunciaram aos seus lugares em Madrid aquando da declaração de independência, mostrando bem que há ligações que se podem quebrar mais facilmente que outras e que é mais fácil pedir aos outros que renunciem a certos privilégios do que renunciar aos nossos. Cambada de hipócritas interesseiros que passa  a vida a fulminar Madrid mas largar o seu lugarzinho e mordomias, tá quieto.

Tal como o líder independentista se queixou  de que a acção do governo central era  contra a constituição depois de renegar a mesma constituição, estes senhores exigem um país para si mas  querem ser deputados noutro país, ter voto na matéria em decisões do país que querem abandonar. Parece-me bem.

Tenho alguma pena dos milhões de catalães que estavam satisfeitos com a sua condição de catalães, espanhóis e europeus e que sabiam que os seus problemas não se resolvem com uma mudança de regime e estado político. Que estão a ver o seu país revirado por ideólogos e demagogos  , vizinho contra vizinho, e que agora encaram meses largos de convulsões políticas, consequências económicas negativas e agitação em geral, e vão sair disto mais pobres ( ou menos ricos) do que eram, acabe como acabar.

Para que não se fique a pensar que o facto de sermos uma nação com 900 anos em que toda a gente fala a mesma língua e tem  a mesma religião nos torna imunes a este género de delírios, aqui fica a página do Movimento pela Independência do Algarve , que tem no facebook 260 seguidores e em 2011 anunciava  a criação do seu braço armado. Tivémos sorte,  a Brigada Medronho não fez atentados em defesa da autodeterminaçao da Nação Algarvia mas ainda vai a tempo. O ridículo não mata e isso às vezes é pena.

O Afrobeneficiário

Há muitas pessoas a quem o  presente não basta. Os nossos dias, com as suas lutas, dramas e glórias, com as suas  questões fundamentais, dúvidas importantes e  ameaças claras não são suficientes para ocupar os cérebros de pessoas que precisam de outro estímulo e outros combates. Muitos  encontram esse estímulo e essas causas no passado.

À falta de se poder propor uma solução concreta para um problema intratável, seja por ser manifestamente impossível seja por não sermos capazes, podemos sempre culpar quem veio atrás, e isto vale para tudo. Essa pessoa por sua vez faz o mesmo, e é por isso que é um exercício em grande medida fútil, a menos que se consiga apontar a origem e o começo claros da coisa, e é um exercício conveniente quando os “culpados” já estão todos mortos. Os problemas de Portugal começaram com d.Afonso Henriques, os do Sporting começaram com o visconde de Alvalade, os das colónias com o Infante D.Henrique.

Há um problema actual e muito antigo, o racismo , ao qual o Público dedicou recentemente uma série especial  No último artigo da série pessoas do género que descrevi falam sobre o tema . Fiquei com a impressão de que este especial teve como objectivo fazer-nos sentir mal como uma nação que tanto colonizou e escravizou. Que é devida uma qualquer forma de demonstração colectiva de arrependimento e contrição.

Francisco de Sousa  olha para um documento  em que estão registados escravos detidos pelos seus antepassados, e fica chocado. A partir daí, como não pode fazer mais nada sobre isso dado que se passou há séculos, fala sobre o assunto e pensa-o. Partilha o seu choque com os outros. Incita os outros a sentirem-se chocados e pessoalmente incomodados com uma coisa que se passou há 200 anos.  Compreende que a História de Portugal a partir de 1415 é uma história de conquista e colonialismo. Sendo uma pessoa do século XXI, conquista e colonialismo também o chocam e ofendem, e armado com essa ofensa e choque aí vai ele re visitar a História, vê-la e julgá-la à luz do que sabemos e somos em 2017. Com uma teoria unificadora  que nem os intervenientes tinham , é  juíz do passado, sabe quem foram os maus, os bons e os neutros. “Dá-lhe um curto circuito” quando ouve a música conquistador, uma cançoneta que fala das viagens e conquistas dos portugueses. Se calhar aprovaria uma balada negra  a amaldiçoar as gerações de  navegadores e emigrantes.

Passámos de uma História largamente ficcionada , empurrada pelo governo nacionalista, cheia de gestas e heróis em que a podridão ia para debaixo do tapete e era tudo glorioso para propostas como a do pessoal deste especial do Público, que defende que nos flagelemos sobre as vilezas cometidas pelos nossos antepassados e que falemos mais delas. De passar de uma visão rósea e heróica a uma negra e malvada ainda acabamos por ficar sem saber se houve alguma coisinha de bom, se podemos celebrar e admirar alguma coisa da nossa História ou se o melhor mesmo é criar já um imposto especial cujo produto reverta em favor dos cerca de 300 milhões de pessoas que serão hoje descendentes dos escravos feitos e detidos por portugueses; de compensar os descendentes daqueles a quem os portugueses fizeram mal no Oriente e um Dia Nacional da Expiação em que mandamos as criancinhas em procissão  até ao Cais das Colunas a pedir perdão por nós às gerações passadas. Completa-se com  uma Direcção Geral do Passado que se ocupe de nos fornecer o julgamento certo sobre a História: Uma pessoa quer saber sobre a Restauração de 1640 , faz um requerimento e de lá mandam um ofício com a interpretação dos acontecimentos à luz do que se sabe hoje. Neste caso podemos celebrar o fim de um jugo estrangeiro mas devemos lamentar a renovação do poder da aristocracia, pelo que o saldo é quase neutro. Já as Invasões Napoleónicas são inequivocamente negativas ,ou talvez BB1,  o 25 de Abril inequivocamente  positivo e por aí adiante.

Diz o senhor no artigo : a nossa “auto-estima” como país “está muito agarrada ao orgulho” do período da Expansão. Questiona: “Esses ‘Descobrimentos’ acabam a partir do momento em que os portugueses chegam à costa africana e começam a matar pessoas para fazer negócio. Qual o problema de contar essa história?” . Para ele  o período da expansão não é motivo de orgulho porque se mataram pessoas. O que ele descreve  ligeiramente como “chegar à costa Africana” é , em 1417 , um feito que ele não  tem capacidade nem conhecimento para imaginar quanto mais para avaliar. Pensa que os portugueses se levantaram um belo dia  e iam a caminho de outro sítio quando “chegaram” à costa africana e , como é normal, começaram a matar gente. Sim , no fundo os “descobrimentos” (nunca esquecer as aspas) foram isso : chegar lá e matá-los. Todo o resto, as viagens , a Ciência, as descobertas geográficas,as trocas politicas,a miscigenação, o progresso naval, as trocas culturais, as trocas e  avanços económicos, a História de séculos do país “acaba” porque se matou gente.

A História não é boa nem má em agregado, foi o que foi e desconfio bastante de quem propõe aplicar juízos de valor gerais a acontecimentos e processos velhos de séculos. Podem-se e devem-se condenar certos acontecimentos ou práticas, mas com o conhecimento de que isso não muda nada e não esquecendo de lembrar as que também foram boas, ou pelo menos tão boas quanto as outras foram más. O senhor Francisco Sousa dá esta longa entrevista ao Público na qualidade de afrobeneficiário,  a palavra inventada para descrever quem beneficiou de lucros de África. É  um biólogo que gosta da música dos palops, o que para o jornal parece que chega para se falar de cátedra sobre História e racismo e inventar designações. Sr Sousa, boletim informativo : todos os Portugueses são afrobeneficiários, tem que inventar uma palavra que descreva mais especificamente a sua angústia particular. E já agora , a música dos palops que tanto o apaixona não existiria como a conhecemos sem a expansão ultramarina.

Se queremos lutar contra um problema , neste caso o racismo, creio que o que há a fazer não é com que toda a gente se sinta mal por causa do passado colonial e esclavagista de Portugal, o que há a fazer é falar e perceber e educar sobre como é que são as relações raciais hoje , ensinando a História  sem nos querer responsabilizar por ela . Para resolver o problema da poluição nas cidades não é preciso dissertar sobre as fornalhas de carvão da revolução industrial e se alguém acha que nos vamos tornar um país melhor generalizando e externalizando sentimentos de culpa histórica, pense duas vezes.

Se me viessem com  um documento a mostrar que antepassados meus tinham tido       (ou sido) escravos acho que a  minha reacção seria “e o que é que eu tenho a ver com isso?” .

Para acabar , e mesmo sabendo que o objectivo do Público era discutir a situação em  Portugal gostaria que o Francisco Sousa, que ficou  chocado ao saber que os tetravôs tinham escravos e não pode ouvir o “conquistador”, nos desse uma opinião, pode ser mesmo da perspectiva do biólogo amador de música africana, sobre o que é que causará a existência de escravatura  hoje em dia e o que é que ele se propõe fazer quanto a isso. Há milhões de escravos HOJE em mais de 10 países mas o que o preocupa  são os escravos que havia há 200 anos.

Intimidação na Bola

O Público decidiu levar para a primeira página o que começa com uma questão que um jornalista se colocou a ele próprio: há na decoração do túnel dos balneários de Alvalade alguma coisa possivelmente reprovável? Encontrou , nuns 20 metros de túnel onde só passam as equipas , forrados de cima abaixo de fotografias de adeptos a sentir pelo seu clube , duas particularmente chocantes : um besunta de tronco nú , cara embrulhada numa t-shirt e de braço estendido , e outro elemento com uma espécie de capacete/máscara , um acessório bizarro e talvez intimidatório se nos cruzássemos com ele numa rua escura , agora numa bancada de um estádio cheio é mais ridículo que bizarro. O Hugo Daniel Sousa , jornalista do Público , acha que esses dois , e o espírito que eles representam , pode ser intimidatório , quiçá ofensivo , para a equipa visitante , e incita á violência. Os visitantes nunca estão habituados a pressões tão poderosas como a visão de dois ultras mais passados que o normal . Desconcentra-os , fere-os na sua sensibilidade . Por seu lado os da casa , exaltados por aquela demonstração de violência latente , podem ser mais sarrafeiros que o costume e chamar mais vezes “preto” e “cabrão” aos adversários . O seu instinto jornalístico convenceu-o de que tinha ali uma história , por isso foi saber se a UEFA tinha elogiado e aprovado a nova decoração , e parece que não , o que obviamente é gravíssimo . Pelos vistos na UEFA há um comité para regular a maneira como os clubes decoram as suas instalações , e é possível que não tenham sido consultados. É que eu até me tinha queixado dos azulejos , se soubesse que podia , mas entretanto habituei-me a eles.
De volta ao túnel da exaltação da violência , os olhares mais distraídos podiam perder o gigantesco BEM VINDOS que se sobrepõe mesmo à foto ameaçadora do gordo , e o personagem do capacete à Hannibal Lecter da Brandoa focou as atenções de tal maneira que todas as outras dezenas de fotos de bancadas cheias de adeptos tal e qual elas são em Alvalade ( normais) não mereceram atenção nem comentário.Isto foi notícia de primeira página no Público , pelo menos na versão online ,mas não há aqui links para essa casa .

As claques são o que são. Num país livre um grupo de malucos da bola tem o direito a juntar-se e organizar-se para apoiar o seu clube. Por isso não podem acabar, ponto final . Se há crimes , que os há , cabe investigar , prender e julgar . O Sporting entregou ao MP um disquinho muito práctico com os dados de todos os membros das claques , que são todos sócios , e a Polícia conhece bem os elementos mas objeccionáveis . Há muito mais palavreado e exposição mediática do que danos.
Jornalismo como este não serve propósito nenhum , a não ser tentar causar embaraço ao Sporting na véspera de um jogo crucial , ainda por cima tendo em conta que as fotos e demais decoração estão lá desde Agosto , o que não abona muito pelo critério editorial do Público . Não havia história nenhuma no País e no Mundo que achassem mais importante , mesmo que tivesse que ser sobre Futebol? Se calhar amanhã à noite os Super Dragões vão largar fogo à bancada , e depois o Público pode fazer uma peça sobre a influência da decoração do túnel , para a qual eles tinham chamado a atenção.

Há 10 anos levei pela primeira vez o meu sobrinho ao futebol , tinha ele 5 anos. Um Sporting – Porto como este mas ainda no estádio José de Alvalade , comprei-lhe um equipamento completo , fomos para a bancada nova , e ganhámos .
Amanhã vou com ele outra vez , mas não há equipamentos nem outras prendas e sou eu que vou à pála , com o cartão de um amigo dele . Tempos de crise …mas pelo menos há-de sempre haver a possibilidade de uma noite de espectáculo e vitória.