Aí está

Os regimes autoritários nacionalistas estão à vista de quem quiser olhar.  Os elementos estão todos no lugar , desde a xenofobia ao primado da repressão, os inimigos externos, o passado de grandeza, as narrativas religiosas, o controlo da informação, a corrosão das instituições, os entraves à liberdade de imprensa.

Na Hungria, em Itália, na Turquia , na Inglaterra dos Brexiteers, na França da  Le Pen, na Polónia, na China, na Rússia e claro, nos Estados Unidos, o autoritarismo nacionalista ou se instala ou está cada vez mais confortável. A popularidade destes regimes cresce, a democracia liberal anda a perder encanto pelo mundo, ao que parece.

A história de separar as famílias dos emigrantes ilegais na fronteira sul dos Estados Unidos  é sintomática e exemplar de limites que se estão a ultrapassar no Ocidente. Não se trata das condições dos campos ou da legalidade das acções da polícia e do Estado, trata-se simplesmente de constatar que isto são pessoas que não hesitam em fazer sofrer crianças,  traumatizá-las para a vida,  por um objectivo político. É ignóbil, mas o Trump consegue sempre descer mais um degrau na escala da abjecção e apesar de poder acabar com aquilo com um telefonema,  culpa os democratas. Porque não querem reformar a lei geral e dar-lhe o seu muro.

Na Europa os problemas da imigração vão ser cada vez mais importantes , cruciais no caso dos homens fortes que querer  meter ordem nisto e que vão encontrar aí o bombo da festa, o bode expiatório principal. E claro, há que meter  medo a toda a gente para justificar o aumento da militarização e segurança e … a história é conhecida. Na China já existe um dispositivo de pontuação social, são-nos dados e retirados pontos na medida em que temos comportamentos ou palavras que agradem ou não ao Estado. Tipo pontos na carta de condução, ou andas na linha ou as coisas não te correm bem.  É o horror orwelliano, e é já hoje.

Quando pensamos em todos os temas , estruturas e organizações dos estados totalitaristas “clássicos” do Século XX e as imaginamos potenciadas pela revolução digital e de informação, temos que ter medo.

Em Portugal? Duvido bastante, creio que a nossa vacina ainda está dentro do prazo de validade mas o mundo não só dá muitas voltas como dá-as cada vez mais depressa. Ainda ontem vi duas coisas , desculpem a repetição, sintomáticas dessa deriva: uma quantidade enorme de pessoas ofendeu-se, protestou e insultou sem medida porque na marcha do orgulho gay de Lisboa alguém levou uma bandeira do arco íris e no centro a esfera armilar e o escudo de  Portugal. Levantou-se uma celeuma absurda  que mostrou claramente que há muita intolerância e ódio recalcado que quando apanha uma aberta assim , uma ofensa aos símbolos da Nação! , sai cá para fora tipo pus.

O respeito e sentimento todo que tenho pela bandeira do meu país não está nem de perto nem de longe ligado ao estado da bandeira em si, ao modo como foi dobrada ou se foi seguido o protocolo. E os elementos da bandeira são mesmo isso, elementos , pode-se fazer qualquer coisa com eles e toda a gente deve poder andar com a bandeira que quiser… desde que não hasteie a bandeira que quiser num edifício público. Para mim é mais ou menos isto, mas para os nacionalistas  foi uma oportunidade de mostrar  o seu desrespeito pela liberdade e a sua homofobia. Não sei se isto está a crescer ou diminuir em Portugal mas seria importante saber.

A segunda foi o Marcelo numa selfie com duas russas no metro de Moscovo. Tinha ido cumprir esse dever constitucional do presidente que é acompanhar a Selecção Nacional em todas as fases do Mundial. Antes disso tinha sido confirmada a sua actuação com os Xutos  no Rock in Rio e fiquei meio pasmado ( pasmado por completo já não) ao ver uma fila de dezenas de pessoas na feira do livro para tirar uma selfie com ele.

Porque é que isto importa no contexto do autoritarismo nacionalista? Porque este presidente que temos está a escancarar a porta a um candidato cuja  qualificação seja ser famoso, dizer o que as pessoas querem ouvir  e ficar bem na fotografia.

Isto não está muito bem encaminhado –  frase que poderia terminar crónicas deste género há séculos.

 

 

 

 

 

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Os Moralistas

Tenho-me rido  com o modo como a vida está a correr ao Pablo Iglésias nas últimas semanas. Para quem não sabe ,o Pablo Iglésias é uma figura que surgiu em Espanha no tempo da última crise económica e ajudou a criar e dirigir um movimento de extrema esquerda chamado Podemos, que defende  as opções clássicas da extrema esquerda. Se se incomodam com o qualificativo “extrema”, chamem-lhe “radical” , que vai dar ao mesmo e eles próprios se definiram assim muitas vezes.

Com o seu rabo de cavalo e retórica anti-capital e anti qualquer coisas que mostrasse conservadorismo, arvorou-se em paladino da moral o seu cavalo de batalha era a exploração dos pobres pelos ricos, os abusos dos políticos e capitalistas e as desigualdades.

Só vê-lo a defender o Maduro, ainda antes de a Venezuela estar à fome e a ferro e fogo, chegava-me para o considerar um hipócrita perigoso , mas não se pode negar que muitas das injustiças que ele denunciava eram (e são) problemas reais, como a corrupção e a evasão fiscal.

Os anos foram passando, a Espanha , sem ser com ele aos comandos, recuperou da crise , pelo que tantos como os que lhe deram ouvidos quando ouviam que “outra solução é possível” agora também já  sabem que outra solução sem ser a dele também é possível.

 Iglésias recebeu centenas de milhar de euros da Venezuela e do Irão, é legítimo um movimento político financiar-se mas essa é a primeira hipocrisia: É legítimo para nós recebermos dos nossos amigos estrangeiros para fazer a nossa propaganda, mesmo que os amigos sejam autocracias catastróficas, mas  se os outros o fazem são uns vendidos e é uma ingerência, já para não falar da vergonha que é  um país onde há fome generalizada estar a “investir” na política de outro país.

Entretanto Iglésias, que em 2011 dava entevistas na cozinha da sua casa que podia ser uma sub cave em Odivelas com o lava louça cheio e tudo, muito terra a terra, um tipo modesto e normal, a ralhar contra a burguesia e os capitalistas consumistas, subiu na vida. As desigualdades e exageros nos vencimentos dos políticos de carreira permitiram-lhe comprar, mais a sua companheira cuja profissão é deputada, uma bela casa no campo com piscina e tudo por 600 mil euros. Caíram-lhe em cima, muitas vezes esquecendo que o problema não é comprar a casa, é ralhar contra os que querem e compram  casas de luxo no campo.

Seguiu-se outra maravilhosa: afinal a casa não eram 600 mil, era um milhão e tal, mas para evitar a carga total de impostos, declarou esse valor e o resto foi em contado, como fica bem fazer a todo o cruzado da moralização que combate a evasão fiscal dos ricos.

Ri-me a bom rir quando lá foram ao chalet pendurar uma tarja a dizer “Refugiados e Okupas são bem vindos”, é verdade que ele sempre defendeu que quem tinha condições para acolher refugiados tinha uma obrigação moral de o fazer e os okupas eram um movimento legítimo. Não havia grandes condições na sub cave dos subúrbios mas naquele chalet ajardinado já pode receber algumas famílias. A seguir vi  (lamento não ter links mas não será difícil de encontrar) uma entrevista da sua companheira e deputada que é de antologia . A jornalista, uma daquelas a sério, pergunta-lhe sobre a inconsistência de ter um discurso contra os ricos e os políticos e seus investimentos e depois fazer o mesmo, especialmente quando massacraram o anterior ministro das finanças que comprou um apartamento desse valor. A deputada hesita, pensa e responde que é  diferente comprar uma casa para habitar e comprar uma casa para especular. A jornalistas pergunta-lhe:

-Como e que sabe que  Luis de Guindos comprou a casa para especular?

A deputada fica por uns dez segundos num dos mais hilariantes e encavacados silêncios que já vi na TV, levanta-se e vai-se embora.  Já hoje , dia em que soube que na segurança do chalet no campo dos líderes do Podemos estão destacados 8 guardas e 2 viaturas, vi um vídeo do Iglésias aqui há uns anos a fulminar os políticos nos quais o Estado gasta centenas de milhar em segurança, privilégio desnecessário , um abuso, temem o Povo.

Mesmo que o Iglésias levasse uma vida de asceta eu ia ser contra a maior parte das  suas ideias, contra o seu estilo e contra a maior parte das suas propostas.Estas revelações só mostram que além de criticável pela ideologia também é criticável pela hipocrisia e falso moralismo.

Entretanto por cá qualquer trapalhada e confusão entre negócios privados e vida pública dos políticos no governo se pode explicar e descartar com um “foi um lapso” ou “não tinha conhecimento”, e até um deputado do BE, irmão do Podemos em quase tudo, declarou que vivia na sede do partido em Braga mentindo sobre a sua residência em Lisboa para receber mais umas centenas de euros. Creio que ainda não se demitiu,  sem dúvida que estará pronto a apresentar em breve um discurso sobre a necessidade de moralização da vida pública, tema sobre o qual todos os políticos estão de acordo.

 

Judas

Por altura da Páscoa fartei-me de pensar no Judas Iscariotes, volta e meia ocorre-me um tema religioso com possíveis inconsistências e incongruências, gosto de as encontrar e dissecar, à medida das minhas possibilidades.

Judas era um dos doze discípulos de Cristo e fez o percurso de apóstolo com os outros onze. A hipótese que me pus foi de que a história do Judas era um modo  de introduzir um mau da fita e apresentar um exemplo de traição, uma espécie de arquétipo do traidor, que é o que nos ficou do Judas. A primeira coisa de que me lembrei foi  “então Cristo entra em Jerusalém em triunfo no Domingo de Ramos, passa  dias a pregar e correr a cidade seguido por multidões mas quando os sacerdotes do templo o mandam prender precisam de  alguém para apontar quem ele é? Era uma figura que não se distinguia no grupo? Ninguém o conhecia e para não levarem o homem errado pagaram a um dos seus para o apontar?”

É um argumento  fraco, sem grande tracção e que pode ser desmontado (mesmo que por exemplo a morte de Judas tenha versões diferentes consoante o evangelista) , e deixei de pensar no Judas… até que o país em peso voltou a falar do José Sócrates.

Um gajo pensa que já nada na política e jornalismo o consegue surpreender mas esta muito recente onda de “vergonha” que assolou o PS e de contrição pelo apoio dado ao Sócrates no passado deixa-me a pensar que temos aqui uma bela cambada de Judas. Enquanto a multidão aclamava e os milagres se sucediam, seguiam em linha com os outros 11 mas quando chegou a acusação e a polícia para levar o líder, quando a situação pessoal está em risco e há dividendos a tirar da crucificação , esquecem a fidelidade e devoção anterior, levantam-se e apontam-no : é este!

Acho que estou acompanhado por muita gente na minha surpresa  com as  declarações de políticos como o J. Galamba ou jornalistas como a Fernanda Câncio, que durante anos dormiram com o Sócrates , literalmente e figurativamente, e não só nunca desconfiaram de nenhuma irregularidade como atacaram  quem se atrevia a apontar o que para muitos era óbvio: este gajo, para viver assim, está a vender alguma coisa que não é dele, aqui há gato.

Dado que a política é porca e vive muito de  insinuações e meias verdades até compreendo que uns mais ingénuos e menos perspicazes acreditassem na honestidade dele. A partir do momento em que o homem é preso, qualquer pessoa racional pensa : alto, estamos numa choldra mas ainda assim não se  prendem pessoas, ainda menos  um ex primeiro ministro, por meras suspeitas, isto já não  é como na Rússia ou  na Venezuela onde se podem mandar para a cadeia adversários políticos só porque são adversários políticos, tem que haver  alguma coisa de substancial. Alguma coisa mais do que as suspeitas que qualquer pessoa lúcida e atenta coemçou a ter a partir do momento em que se conheceu o caso Freeport ( em 2004!!) ou mais simplesmente ainda, a partir do momento em que se sabe sem margem para dúvidas que o homem mentia sobre as suas habilitações literárias : um mentiroso é um mentiroso .

Em vez de andaram a insultar a justiça e os magistrados e a ir oferecer solidariedade pública ao homem na prisão ( felizmente há vídeo e memória e registos dessa canalhada toda à porta da prisão em Évora, incluindo registo do Pai da Pátria a ameaçar um juiz),  tinham-se mantido em silêncio, ou talvez até conseguissem pensar naquela velha máxima da mulher de César e acreditassem que suspeitas dessa gravidade bastavam para se afastarem do homem. Nada disso, foi um festival de críticas aos acusadores e detractores do Sócrates e ao processo todo. Uma vítima, um injustiçado, uma cabala infame.

Isto durou anos até que quase de repente,  na semana passada e sem nada de novo vir a público sobre o seu processo,  os Socialistas começaram a  dizer que o Sócrates os envergonhava, e este retorquiu desfiliando-se do PS.  Já vi um imbecil famoso do twitter que responde à designação vega9000 a dizer que com isso se separaram as àguas e acredito, dado o nível geral, que haja muito  quem acredite que basta dizer “estamos com vergonha” e ao Sócrates entregar o cartão de militante para o separar o PS, é  extraordinário.

Daqui a pouco não vai sobrar no partido um  que se lembre de que defendeu o Sócrates  e que nunca conseguiu suspeitar de nada. Gostava de saber o que é que provocou este clique que fez com que se começassem a arrepender e a condenar  o homem em série, o que é  que está a fazer os ratos abandonarem o navio a toda a pressa. É um bocado tarde, e espero agora um Judas contemporâneo, um discípulo renegado que o vá apontar inequivocamente aos que o querem prender, entregando às autoridades  um calhamaço de documentos que demonstre sem margem de erro o que toda a gente sabe: o Sócrates é um corrupto e um aldrabão que à falta de tempo de cadeia devia pelo menos desaparecer.

Já agora, por falar em pessoas que nunca desconfiaram de nada não souberam nada nem disseram nada, temos este:

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Passou de se sentar na bancada VIP com o dono disto tudo, certamente sem nunca suspeitar dos tentáculos e métodos usados pelos Espírito Santos, porque apesar de inteligentíssimo e sagaz essa parte era muito difícil, para regressar ao Estoril sentado num “lugar comum”, pago pelo próprio, pensando que com essa encenação reforça a imagem de homem do povo. A seguir ao jogo foi ao balneário tirar uma foto com o vencedor enrolado numa toalha, elevando assim mais uma vez a dignidade do cargo. Temos o que merecemos.

 

 

Títulos

Tentar perceber  o que se passa só pelos títulos dos jornais não é um método muito seguro mas podemos sempre recordar que  o que se passa é o que sempre se passou e vai continuar a passar : os políticos no poder a tentar manter-se lá e a gerir a situação o melhor que sabem e podem (infelizmente não sabem muito e podem menos) , os da oposição a tentar ir para o governo, a maioria da população afogada em impostos para os manter a todos, governo e oposição, no estilo a que estão habituados.

A vergonha, virtude que num político é fatal, continua a primar pela ausência, como mais uma vez nos veio explicar o senhor César :  os políticos das  Regiões Autónomas recebem ajudas de custo para as suas deslocações mas percebeu-se agora que usam o sistema  de modo a, digamos, ficarem com o troco, tendo assim alegremente burlado o Estado em centenas de milhar ao longo dos anos. Comentário do César : é legal e é assim desde 1989. Ah pronto, se é assim desde 1989 não se fala mais nisso.

Também nunca mais vale a pena falar na outra deputada do PS que recebe há muitos anos dinheiro por viver  lá nas berças quando vai-se a ver e vive em Lisboa. Como ela há-de haver outros, de outras cores, não consta que haja alguns com a hombridade de dizer “receber ajudas de custo, sim, receber ajudas de custo para um custo que não existe é ROUBAR e isso não faço”. Faz sim , fazem todos, seguindo uma argumentação certamente  cara a gente como o César : fazem todos, logo, eu também faço e não me chateiem.

Agora o PS propõe aumentar os vencimentos dos gabinetes em 5%. Não é o salário dos eleitos, é o salário dos nomeados, de toda a multidão de assessores e secretários que pelos vistos andam com salários de miséria. O governo anterior , numa tentaiva fraquinha de enviar um sinal e reduzir custos, cortou esses salários em 5%. Como agora se convencionou, sem nenhuma fundamentação real,  que a austeridade acabou, há que voltar a repôr as desiguladades e privilégios da casta dirigente.

É uma questão de prioridades: se o país está endividado até aos olhos, e a piorar, e se o cidadão cada vez está mais agastado e desconfiado com o festival de roubalheira, impunidade  e incompetência de quem nos gere ( no outro dia inventaram um “leilão  de rendas acessíveis”, coisa que deve ter provocado gargalhadas por essa faculdades de economia) , o que há a fazer é aumentar os salários e benesses dos políticos e seus séquitos. Parece-me inteligente, mas assim de uma maneira especial.

Também vi uma foto do Rui Rio ao lado do Costa e o título algo como “já está em preparação a agenda para Portugal em 2020”. Entre o Costa e o Rio via-se o Pedro Nuno Santos, uma sumidade que nos tempos da crise defendia que devíamos dizer  “não pagamos” e fazer tremer a pernas dos banqueiros alemães. Assim que chegou ao governo teve uma epifania e percebeu que não podia ser bem assim, se lhe perguntarem agora aposto que é fã de ter os pagamentos em dia. Esse indivíduo há uns tempos disse “o PS nunca mais vai precisar da direita para governar”, e até é capaz de ter razão porque o que se entende dessa sessão fotográfica e declaração sobre a “agenda para 2020” é que o governo vai ser com o PSD.

Gostava muito que um jornalista perguntasse ao Rui Rio: descreva 3 pontos em que o PSD difere hoje do PS. Se calhar já perguntaram e ele já respondeu mas eu não vi, se alguém souber por favor indique-me.  Tanto quanto sei não há diferenças a não ser talvez de estilo, de resto é meia dúzia de uns para  seis de outros. Os comunistas, pela voz de um gajo que parece que foi o produto de alguém que pediu : por favor desenha-me um comunista, já explicou que o PCP não apoia o governo.É verdade que existe uma diferença entre  viabilizar e apoiar mas há palavras que descrevem bem os que viabilizam aquilo que não apoiam.

Também reparei , ao retardador como de costume, que o Lula finalmente foi dentro. Por cá organizou-se logo (à conta do contribuinte, aposto o que quiserem) uma conferência  “Em Defesa da Democracia”, protagonizada por gente que há décadas louva e apoia os governos mais totalitários do planeta e pessoas cuja notoriedade continua para mim incompreensível, como é o caso de uma mulher que aparece porque é viúva de um escritor famoso. Acho muito bem que se juntem e protestem  contra a prisão dos seus correligionários, que é sempre um golpe  ao contrário da prisão dos adversários que é sempre uma triunfo da justiça. Podiam era fazê-lo com o próprio dinheiro e não conspurcar a noção de democracia: chamavam-lhe “Em Defesa do Lula” e ninguém se podia chatear com isso.

Países de Merda

Já estive em países de merda, assim à cabeça da lista ocorre-me o Haiti e há mais uns quantos que eu considero nessa categoria mesmo sem nunca lá ter estado, tipo a Eritreia, a Moldávia ou a Arábia Saudita. Já ouvi várias vezes portugueses e estrangeiros chamarem a Portugal um país de merda, eu não partilho da opinião mas consigo perceber como é possível chegar a essa conclusão. Não me chocam essas considerações e se alguém se chocar com as minhas isso é-me  indiferente,  porque pessoas privadas podem exprimir as opiniões que quiserem, a menos que vivam num país sem liberdade de expressão, logo por isso candidato à categoria “de merda”. São meras opiniões.

Se somos uma pessoa com responsabilidades políticas ja não é bem assim, tem que haver um filtro e têm que ser observadas determinadas convenções. Um político, seja presidente de uma junta seja de uma nação, não pode dizer o que lhe vem à cabeça, tem que ter consciência da diferença entre a sua posição enquanto cidadão privado e enquanto representante eleito. Para ter essa consciência é preciso que tenha uma logo de início, e algum discernimento, coisas que faltam ao actual presidente dos EUA, que anteontem se interrogava em público porque é que “tinham  tantos imigrantes de países de merda e tão poucos de países como a Noruega”.

É natural que o cidadão Donald ache que países pobres e de gente escura sejam países de merda, mas referir-se publicamente a eles como tal, enquanto presidente, só mostra a quem ainda não tinha reparado que além de racista o homem é estúpido. De resto, qualquer pessoa que sinta necessidade de vir publicamente assegurar que é muito inteligente, um génio mesmo, deixa bem expostas as suas limitações e inseguranças. Nesta historieta dos “países de merda” , o  fait divers trumpiano do dia , o que é mais engraçado é que logo a seguir a essas declarações os fãs da criatura regozijaram-se por finalmente haver alguém que não tem medo de dizer o que pensa, e que pensa como tanta “gente normal”. No dia seguinte e como de costume o Trump veio negar que alguma vez tenha usado a expressão, ou seja, ele não disse aquilo para agradar à sua base nem para mostrar que tem o toque comum e que diz o que os outros têm medo de dizer. Saiu-lhe, disse-o sem pensar, porque é limitado nesse campo, e depois teve vergonha e negou o que disse, desiludindo a base que no dia anterior lhe louvava a coragem e a frontalidade para depois o ver  a pedalar para trás, expondo bem a dimensão da tal coragem e frontalidade.

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Já disse várias vezes que o que me incomoda mais no Trump não são as as suas políticas, concedendo que ele sabe o que é uma política e tem uma própria. Posso não concordar com elas, é diferente de as considerar   ilegítimas. O que me incomoda mesmo, além do egocentrismo desmedido, da  ignorância  e do vocabulário de adolescente, é esta estupidez constante e a disposição para ofender vinda de quem não sabe medir as consequências do que diz e passa a vida atolado em mentiras.

Quanto à dissecação que se anda a fazer da expressão “países de merda”, ou  “shitholes” , é sintomática dos tempos: como toda a gente vê e sabe o que toda a gente anda a dizer, toda a gente se policía e controla o discurso, não só  o próprio como o alheio. Que se faça isso a presidentes, é fundamental. Que se chateiem cidadãos particulares por acharem que certos países são  países de merda, é ridículo. Há quem ache que o politicamente correcto é um avanço civilizacional porque faz com se evite ofender sensiblidades ou pessoas, eu acho que  querer um mundo em que ninguem ofende ninguém é querer um mundo artificial de pessoas auto reprimidas e condicionadas pelos comités que explicam às massas o que se pode dizer e o que não se pode dizer. Pela parte que me toca, e como não represento nada nem ninguém, se eventualmente ofender  X,  tem que ser X a sentir-se ofendido e a pedir satisfações, se for Y a vir pedi-las em nome de X vai-se embora de mãos a abanar, que esta questão das ofensas não funciona por procuração nem interposta pessoa.

 

O PSD vai hoje a votos para escolher o novo líder. Não vi nenhum debate nem andei a ler programas de um ou de outro,  faço conta de nunca mais votar no PSD, mas tenho a minha preferência, que é Santana Lopes. Isto apenas porque Rio já disse que por ele avançava um Bloco Central , coligava-se com o PS. A haver um governo do PS em  coligação prefiro mil vezes que seja com a extrema esquerda, e isto tem uma razão muito simples: com o Bloco e o PCP na oposição a vida é um inferno de protestos, greves, agitação, imprensa histérica, manifestações e “agitação social”. De luta. Como se vê  desde que a geringonça pegou nisto, estando os comunistas e trotskystas no poder ou perto dele o país acalma logo, os jornalistas são muito mais comedidos, as histórias negativas são contextualizadas,  dá-se tudo aos sindicatos para não haver greves e não há manifs e protestos a encravar a vida ao cidadão. Exemplo concreto, neste Inverno em  15 dias morreram 600 pessoas devido ao frio e à gripe. Há 3 anos teríamos actrizes da política a bradar que a austeridade mata e que o governo tem que cair , hoje se alguém do BE ou PC falar sobre isto será para lamentar e exigir que se tomem mais medidas. Os combustíveis vão voltar a subir para os maximos de 2015, a diferença é que nessa altura eram os neoliberais a destruir o tecido produtivo e a sufocar o cidadão para dar lucros às petrolíferas , hoje é a vida, estamos dependentes das flutuações dos mercados e tal. Em 2014 emigraram de Portugal 134000 pessoas, era o desespero , o drama, o desânimo e a revolta. O ano passado emigraram 97000, é um movimento migratório natural e até tem vantagens em termos de remessas.

Porque prezo muito paz e sossego e abomino histerias e exageros prefiro ver a extrema esquerda a comer à mesa do orçamento com os seus princípios em banho maria e a votar a favor apesar de serem contra, do que ver um governo PS/PSD a brigar pelos despojos do Estado com os comunistas a agitar nas margens, para mim o pior dos cenários. Se o PSD tem alguma veleidade de voltar ao poder devia assumir-se como partido de centro direita, como adversário do PS e que rejeita coligações à esquerda, mas  o mais provável é escolherem Rio, que propõe o caminho mais curto para o poder. Muitos milhares que já votaram PSD, como eu, estão satisfeitos por finalmente haver uma alternativa para  quem não defende o socialismo, o estatismo e os arranjos dos que nos governam desde o fim da ditadura: a  Iniciativa Liberal, , uma hipótese de renovação.Espero que na transição de iniciativa cidadã para partido parlamentar não desiludam.

 

Ano Novo

Passei uma semana no continente, é curto demais para uma visita em condições e mal tenho tempo de ver toda a família e amigos mas dá sempre para estar com a família nuclear e aquela meia dúzia de amigos crucial.

Ser largado no aeroporto de Lisboa nas vésperas do natal depois de um ano inteiro numa ilha pequenina é sempre um choque, a confusão, o barulho e a poluição começam logo à saída. Uma pessoa que chegue de uma grande cidade nem repara nessas coisas mas vindo de onde venho chego ali, olho em volta, respiro fundo e abano a cabeça. Como é possível?

Lisboa já esteve muito mais suja, falando  de lixo na rua, mas quer-me parecer que também já a vi mais limpa, não sei se a CML gasta o dinheiro todo em assessores e adjuntos a €4k por cabeça e depois fica sem verba para varredores e camiões do lixo, será uma questão de prioridades, pode haver uns montes de lixo aqui e ali mas podemos estar seguros de que o trabalho político é da melhor qualidade.

Todos os anos gosto de levar os meus 5 sobrinhos pequenos a alguma experiência diferente do que eles fazem todos os dias, é melhor do que oferecer um brinquedo e o ano passado tinha ficado combinado que este ano  íamos a um jogo de futebol. Eles nunca se esquecem e vieram logo saber do jogo, disse-lhes que não dava, não havia nenhum jogo do Sporting que pudéssemos ir ver nessa semana, à hora do jogo em Belém já eu tinha que estar no aeroporto para regressar. A minha sobrinha, que tem 4 anos e 4 irmãos, protestou que “não era justo porque o futebol é para meninos”. Ainda não reflectiu o suficiente sobre a questão do heteropatriarcado e da igualdade de género e eu fiquei sem saber qual a abordagem certa, se dizer-lhe que o futebol também é para meninas ou que íamos fazer outra coisa mais consensual e neutra. Devia enviar um email às Capazes a pedir indicações sobre qual a atitude correcta se a menina se recusa a participar numa actividade porque acha que é para meninos.

Lembrei-me de levá-los a dar uma voltinha de barco no Tejo, ficaram histéricos, pedi recomendações num grupo náutico no FB sobre barcos de aluguer no Tejo. Dantes havia 2 ou 3 barcos de charter, hoje há dezenas. Fiz uns telefonemas e percebi que os preços podiam não ser caros mas estavam bem fora do meu alcance. Uma das minhas expressões favoritas da vida é “quem tem amigos tem tudo” porque se prova verdadeira constantemente, e um amigo disse-me que não podia ir, estava a trabalhar mas que era só eu ir à doca e pegar no barco dele. Agradeci a confiança e a simpatia mas estes 5 são  um bocado índios e manter olho neles é incompatível com manobrar um barco. Outro amigo ofereceu-se para sair connosco no seu veleiro, lá fomos à doca de Alcântara e demos um belíssimo passeio até à Trafaria. O amigo é comunista e benfiquista, os meus sobrinhos ainda não sabem o que é um comunista mas aproveitei a ocasião para lhes explicar que há pessoas boas e amigas mesmo sendo do Benfica. Nisto a minha sobrinha comunica-me que se calhar é do Porto mas perante a minha expressão de tristeza disse-me que ainda estava a pensar. É que gosta muito de azul, critério tão válido como qualquer outro. Se acabar por não ser do Sporting mesmo com toda a lavagem cerebral e influência desavergonhada do tio, antes que seja do Porto.

De Lisboa para Alcobaça e no dia seguinte para as Caldas, cumprir uma tradição de mais de 18 anos, um jantar com os amigos da faculdade. Além da galhofa, da celebração da amizade e de contarmos uns aos outros como vai a vida é bom porque discute-se sempre muita política, coisa que aqui eu não faço por falta de interlocutores. Com aqueles amigos não só tenho a confiança de muitos anos como a vantagem de pontos de vista antagónicos, o que dá sempre pano para mangas. Um dos temas foi este  recente atingir de um novo mínimo na política nacional com a manobra dos partidos para tratarem da própria vidinha, juntando-se discretamente e aprovando sem actas uma nova lei que os isentava de IVA e eliminava o tecto de angariação de fundos. Dois problemas num : o conteúdo da proposta e o modo como foi cozinhada, difícil descobrir qual o mais grave.

A minha amiga simpatizante do Bloco acha que os partidos, como são fundamentais à democracia, se devem financiar assim e ter isenções destas. O comentário do Bloco ( que já vi noutras 3 ocasiões) de que são contra mas votam a favor, não lhe parece repugnante. O PCP também foi contra mas votou a favor e os contornos deste caso são uma nojeira pura, especialmente as declarações de uma deputada do PS (soube depois que é a sua vida desde os 22, tem 44 e nunca fez outra coisa) que disse que a isenção do IVA não prejudicava os cofres do estado, afirmação estúpida e obviamente falsa, mas é o que se pode arranjar.Espera-se agora que o presidente vete esta vergonha.

Quanto à questão da vida estar melhor graças à geringonça, é um facto para todos os funcionários públicos e pessoas que não sabem fazer contas. Ninguém se chateia com as cativações, com a degradação dos serviços, com os aumentos de impostos e  com o nepotismo porque há a percepção que a vida está melhor, e é esse para mim o grande triunfo da geringonça : convencer as pessoas de que isto está melhor por causa deles. O crédito ao consumo  também está a disparar e para muita gente isso é positivo, a mim mete-me medo mas talvez eu esteja enganado e seja bom para a economia.A manobra de transferir 200 milhões a Santa Casa para salvar um banco a falir seria, em 2013, suficiente para pedir a cabeça do primeiro ministro é confirmar que  governo não se importava com as pessoas e queria saber era dos bancos e empresas.Hoje não há problema nenhum , e é a essas e outras semelhantes que se deve o sucesso da geringonça: alteração de percepções sobre factos idênticos.

Houve acordo comum à mesa na excoriação do Trump, flagelo da humanidade e negação da decência na política e os amigos benfiquistas declinaram discutir bola, sabe-se lá porquê têm perdido o interesse.

Outro tema engraçado foram os pernis da Venezuela (tenho amigos de esquerda mas nenhum  defende o Maduro, são de esquerda mas não são estúpidos). Então a Venezuela não pagou a conta, não seguiram os tradicionais pernis de porco para o Natal e o mundo foi brindado com o Maduro a dizer que tinha assinado pessoalmente os cheques para pagar os pernis mas que Portugal os tinha sabotado. Tudo isto é maravilhoso, desde a ideia de ser o presidente a assinar pagamentos de importações até à noção de Portugal sabotar alguma coisa na Venezuela, é muito ridículo junto  mesmo vindo de quem já nos habituou a isso. O que é certo é que houve mais sofrimento para os venezuelanos e que a empresa nacional exportadora (por coincidência propriedade de um ex ministro, mas claro que é só coincidência) vai receber o dinheiro em falta, nem que seja do contribuinte português. É normal e tradicional que déspotas em todas as partes do mundo culpem interferências externas pela própria incompetência e a Venezuela está a testar essa ideia até ao limite.

Queria ir a um encontro da Iniciativa Liberal que decorreu no Saldanha mas nessa altura já estava doente e não conseguia sair, tive pena.Faço conta de lhes confiar o meu voto e queria aproveitar a oportunidade para fazer algumas perguntas e ouvir as pessoas que me poderão representar. Creio que se está a atingir um estado de saturação, que as pessoas se sentem roubadas e enganadas todos os dias pelos partidos com assento parlamentar e que muitos anseiam por uma mudança para lá da velha dicotomia esquerda/direita . Lembro que um ano antes do Macron ser eleito presidente da França o seu movimento era quase desconhecido, o que dá alguma esperança numa escolha que possa ir além dos partidos que há 40 anos dizem o mesmo e se dedicam a colonizar o estado e usá-lo ou a promover ideias do século XIX.  Fiquemos atentos.

Embarquei na sexta feira com febre e sei lá que mais, passei a noite em casa de amigos em Ponta Delgada e na manhã seguinte para a Horta, onde esperava, pelas previsões meteorológicas que via, ficar cancelado um dia ou dois. Depois da hora de atraso da praxe levantámos mesmo, fiquei um tudo nada apreensivo mas sei bem que não só o pessoal da Sata tem melhores fontes de meteorologia do que eu como confio a 100% nas decisões dos pilotos. Mesmo assim aterrámos nas Flores com alguns gritos, orações e muitos aplausos, abanou demais para o meu gosto e pousou numa roda, mas pousou. De volta à minha existência privilegiada em que deixo o carro, aberto, a 40 metros das chegadas e de regresso às Lajes, onde encontrei um cordeirinho acabado de nascer, o cão um bocado deprimido e o gato ausente em parte incerta. A do cordeiro é interessante porque na sexta feira sonhei  que tinham nascido cordeiros, e nessa tarde recebo uma mensagem do amigo que me tomou conta dos bichos a dizer que tinha nascido um. É daquelas coisas que dá que  pensar a gajos cépticos com dificuldades a acreditar no sobrenatural, como eu.

Continuo de cama mas em recuperação franca, a congratular-me por ter trazido caixas de comida sobrada das ceias que me vai manter uns dias evitando-me o suplício de cozinhar. O gato já voltou, o cão esta mais bem disposto e espero passar o ano na cama, provavelmente a dormir. A noite da passagem de ano só teve significado especial para mim quando era novo e era uma noite que se podia passar fora. A partir da altura em que podemos passar fora todas as noites que quisermos perde muito o encanto.

Não há balanços nem listas, coisas que nesta altura saturam tudo, há só a observação de que há um ano comecei a fazer yoga e o que e certo é que ainda lá ando e espero continuar, pela primeira vez uma das famosas “resoluções” foi levada a termo e é para continuar. De resto os meus desejos para 2018 são ver o Sporting  campeão, fazer melhor do que 16º nas regatas de botes baleeiros na Semana do Mar  e finalmente poder iniciar a produção legal de Ovelha Negra  .

 

Pesos, Medidas e Trump, outra vez

Quase todos os dias alguma novidade da administração americana me causa um refluxo gástrico. É verdade que me podia preocupar mais com a nossa administração, mas quanto à nossa já cheguei a uma conclusão: os problemas estruturais de Portugal são insolúveis e enquanto o fundamental estiver assegurado (a pertença à UE e ao Euro) o resto são detalhes, as decisões de peso tomam-se noutras paragens e de qualquer maneira a maioria das pessoas não quer saber. 200 euros em gambas contribuem para  um escândalo nacional, 200 milhões da Santa Casa para um banco a falir não incendeiam as redes sociais.  Não há nada como uma pessoa perceber que a situação não tem remédio para deixar de se preocupar. As pessoas acham importante  saber com quem vai casar o neto da rainha de Inglaterra, como está a saúde do Salvador Sobral e coisas do género, e quem se agasta e preocupa com questões políticas , ainda mais estrangeiras, tem as prioridades trocadas. Por cá está tudo bem.

Já a situação nos EUA me assombra não só pelo impacto num país que me era caro e que conhecia bem mas também  porque nem três clones do João Galamba a falar todos os dias conseguiriam atingir um nível tal de mentira, falta de nível, ofensa e  hipocrisia política como o Trump consegue. Todos sabemos que a política é feita de hipocrisias e distorções mas devia haver mínimos, ou máximos a partir dos quais se retirava a confiança aos governantes, especialmente em democracias, mas não, nem que esfreguem este gráfico na cara dos apoiantes do Trump eles vão admitir que este homem não é de confiar . O Obama, em 8 anos de presidência, mentiu confirmadamente 18 vezes. Este em menos de um ano  já vai em   103.

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Mais do que me chateiam  as mentiras e canalhices do presidente irritam-me muitas  opiniões e análises que vou lendo por cá. Nada me fará mudar de opinião sobre o Trump, especialmente porque pessoas daquela idade não  mudam, e o facto de se conseguir desculpar e apoiar um homem com a estatura moral de uma ratazana de esgoto deixa-me doente.

Claro que se pode concordar com as políticas da sua administração (dizer que são dele é admitir que ele seria capaz de delinear e implementar uma política, já está provado que não é) , se formos contra a imigração, a segurança social e a favor de mão pesada da polícia, por exemplo, é normal que se goste do homem, mas há uma coisa que me tem dado um nó na cabeça e que infelizmente ninguém explica nem , que eu saiba, pergunta claramente aos trumpistas nacionais: como é que aumentar o deficit em 1,3 triliões de dólares é saudado como uma coisa boa? É que as pessoas de direita que apoiam o Trump são as mesmas que, por cá e com o meu apoio, exigem déficits menores e controlados. Essas pessoas agora aplaudem uma explosão do deficit porque se baixaram os impostos, e eu não entendo. Déficit grande é mau cá e bom lá? Se calhar é e eu não percebo. Aplaudem estes cortes de impostos que , segundo todas as análises e cálculos, beneficiam desproporcionalmente os muito ricos, indo ao extremo de incluir um benefício fiscal a quem tenha um jacto particular, e o pessoal aplaude. Um senador republicano em fim de mandato, Bob Corker, anunciou que ia votar contra. Introduziram uma emenda que dava mais beneficios fiscais a quem, como ele e o Presidente, tem empresas imobiliárias, ele mudou de ideias e já votou  a favor, e anunciou isso sem vergonha frente às câmaras.Hienas.

Ontem o presidente anunciou a sua primeira comutação de uma pena, prerrogativa presidencial, a possibilidade de reduzir a pena de alguém que se acredite merecê-lo. Os EUA têm talvez a maior população prisional do mundo, nos milhões atrás das grades haverá milhares de casos de penas desproporcionais ou  controversas e reclusos merecedores. Trump decidiu comutar a pena a um milionário condenado por fraude bancária. 

Não há um limite moral? Por mais que se admirem as políticas, será que se pode continuar a apoiar um homem assim, que nem tenta disfarçar os seus instintos e motivações? Outra : por cá a direita, e mais uma vez com razão, do meu ponto de vista, argumentou que o crescimento económico nestes anos da geringonça se devia principalmente às medidas e reformas do governo anterior. Extraordinário que essas mesmas pessoas publicitem que o crescimento nos EUA neste ano é da “economia Trump”, resultado das políticas desta administração. Mas não vêm a incongruência nisso? Como na história dos déficits bons e deficits maus, aqui o crescimento deve-se a políticas passadas, lá deve-se ao governo actual. É demais.

Gostava de escrever mais sobre a ilha, os animais, os barcos, a cerveja artesanal, a época  e coisas assim mas isto enerva-me de tal maneira que tenho que ventilar, e como o cão e o gato não são sensíveis à problemática, é mesmo aqui.