O Estado quer saber de ti.

Tenho um velho amigo com uma paixão pelo vinho, começou por ser só apreciador mas aos poucos e poucos tornou-se produtor. Começando com uma pequena vinha e adega antiga da família, que recuperou, adquiriu mais vinhas, renovou a adega, alistou os serviços de um enólogo, deu um nome à produção e tem contado com os muitos amigos com que é abençoado na altura das podas, vindimas e dos trabalhos do lagar.

A vinha era como um passatempo, um pretexto para juntar amigos e apreciar vinho, que como todas as outras coisas, tem um sabor especial  se é feito por nós. O vinho é  presença certa em todas as jantaradas e patuscadas , felizmente frequentes, e um presente apreciado para amigos e conhecidos.

Anteontem falei com ele ao telefone, comprou há pouco outra vinha e está a planear a comercialização. Não lhe dei novidade nenhuma quando lhe recomendei com todas as forças que antes de investir seja o que for nesse sentido se certifique  bem de todas as exigências que lhe vão fazer e dos encargos em que vai incorrer, porque neste país para cada três pessoas que trabalham deve haver uma cuja função é fazer as regras , fiscalizar e cobrar esse mesmo trabalho.

É perfeitamente possível que , contas feitas, o meu amigo ganhe  mais em continuar a fazer o seu vinho para si e a sua família e amigos do que investir e trabalhar mais para o poder vender, enredando-se numa teia de regulamentos, burocracia, taxas e impostos que lhe vão consumir tempo e recursos e assegurar que quando fizer as contas ao fim do ano conclua que mais lhe valia estar quieto, há custos que não se traduzem em números nem quantias mas não é por isso que são menos importantes.

Isto a propósito de uma informação que recebi hoje e que me deixou literalmente estupefacto, e para me espantar em Portugal é preciso muito, por exemplo esta rábula do Berardo não me surpreendeu em nada. Nem em método, nem em protagonistas, nem em resultados nem em reacções e muito menos em consequências.

Como já contei aqui, agora trato de uma unidade de Alojamento Local, perfeitamente legalizada, tal como o meu trabalho . Hoje à conversa com um amigo que tem uma dessas unidades ele pergunta-me:

-Preenches os papéis do SEF?

-SEF? Não, ninguém me falou disso, não sei nada.

-É obrigatório, tens que guardar cópia da identificação dos hóspedes, preencher um impresso para cada um e introuduzir os dados no sistema deles.

-A sério? Deve ser só para os extra comunitários…

-Olha que não…

Fui confirmar com outros amigos, que estão a entrar em desespero com as exigências burocráticas e fiscais  que se amontoam e lhes consomem horas, e é verdade, mas não se fica por aí.  O Estado, depois de desenhar arbitrariamente regras para permitir a instalação de um negócio, tantas vezes regras  idiotas como a exigência de uma televisão; depois de subir as taxas até ao máximo; além de querer saber quem são os  clientes e guardar os seus dados,  exige que nós mesmos introduzamos esses dados no seu sistema informático e declaremos regularmente e detalhadamente a frequência e rendimentos do nosso estabelecimento. Quando, a quem e por quanto. Todos os clientes , nacionais, europeus ou não europeus.

Ora, eu sou liberal mas não sou  libertário  nem acredito na desregulação absoluta, acredito na necessidade de  regras e na inevitabilidade e utilidade dos impostos mas isto ultrapassa os meus limites do que é aceitável, porque da última vez que verifiquei existia livre circulação de pessoas e bens no espaço da União Europeia e um cidadão tem direito à sua privacidade. Dizem-me agora que o Estado exige saber e registar quem viaja, onde fica e a que preço, é demais.

Se estes selvagens continuarem no poder, que é o mais provável, dentro em breve vamos ter que introduzir no Grande Irmão os recibos de todas as nossas despesas, submeter o itinerário das nossas deslocações e declarar todos os nossos consumos. Devem acompanhar isto com questionários sobre as nossas preferências e hábitos, que de resto os algoritmos já devem ser capazes de fazer pelo nosso uso de smartphones, cartões bancários e redes sociais , e assim poder assegurar a Sociedade Harmoniosa, como de resto já se faz na China, onde ao cidadão é atribuído um “score social” , recolhido pelos métodos de sempre do socialismo e no fascismo : vigias e informadores, que hoje são electrónicos, incansáveis e abrangentes. Já chegámos às portas da distopia totalitarista, e eu só reparei no ponto a que se tinha chegado quando me bateu à porta e me foi  exigido que participe.

O nosso governo actual regala-se com a criação de Comissões, Observatórios, Secretarias, Direcções Gerais e Autoridades, onde se acolhem e trabalham aqueles cuja vocação e função é controlar, fiscalizar e condicionar.   George Orwell devia ser leitura obrigatória nas escolas, se o objectivo fosse educar e não replicar e aceitar.

Como disse, não fazia ideia desta exigência aos ALs, que faz lembrar os métodos das ditaduras, mesmo a quem como eu nunca viveu sob uma. Vou informar a minha patroa, que creio também não ter conhecimento disto e creio que vai ter um choque. Vou-lhe dizer duas coisas, a primeira é que tenho vergonha de pedir a identificação aos hóspedes e de lhes explicar a razão, a segunda é que essa tarefa suja não estava prevista no nosso acordo de trabalho e para pedir e processar esses dados, para  fazer o trabalho nojento do Estado, que me custa em tempo e dignidade, vai ter que me pagar mais, lamento.

Não fora a necessidade do dinheiro e dizia-lhe que não contasse comigo, mais depressa ia lavar as retretes do que ser o sabujo que regista e comunica ao Estado quem vem e quem vai. Vai-me custar tremendamente a primeira vez que tiver que pedir a identificação e explicar a razão por que o faço, há coisas em que o Estado nos agride materialmente, como com a cobrança coerciva dos impostos que sustentam a Casta, mas isto é uma “agressão filosófica”, uma agressão aos meus princípios e aos princípio de toda a gente que acarinha Liberdade e Privacidade . Ainda nem estou bem em mim.

O facto de para a maioria das pessoas isto ser uma questão trivial é uma das razões pelas quais chegámos aqui.

 

 

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Evolução para a Guerra

Todos os períodos históricos têm os seus pessimistas e profetas da desgraça, desde sempre que existem indivíduos que vêm o futuro negro, desde os autores do Eclesiastes até ao Shopenhauer,  passando pelo Voltaire e personagens como Cassandra ou  o nosso Velho do Restelo. Por cada visionário de olhos brilhantes há um realista com as mãos na cabeça, e a evolução da Sociedade e da Espécie continua, com umas consequências magníficas e outras macabras.

A questão principal é a velocidade a que as coisas começaram a mudar no último século, comparando com os 30 séculos precedentes, comparando com o início do tempo em que se começaram a tirar apontamentos e registar coisas.  “Antigamente”, até à Revolução Industrial, a regra era que 99% da população ia levar uma vida basicamente igual à dos pais, avós e bisavós, todas as mudanças, fossem na paisagem, no clima, na economia ou na organização social eram imperceptíveis no curto prazo.

Entre os Templários criarem as notas de crédito e o seu uso se generalizar passaram mais de 600 anos. Entre o Tim Berners Lee criar a Internet e o seu uso se generalizar passaram 30.

Uma pessoa no tempo das Invasões Francesas  respirava um ar de composição idêntica ao de uma no tempo do Viriato, mil e setecentos anos antes , essa mesmo pessoa hoje em dia, duzentos  anos depois, era capaz de morrer se se materializasse em  Lisboa e respirasse fundo.

Desde que nasci até ter uns 25 anos ouvia música no mesmo suporte que os meus pais e avós, o disco de vinil. Nos 20 anos seguintes já passei por CD, minidisc, mp3 e já vamos no streaming.

Ninguém consegue parar isto, o que é um bocado assustador porque se por um lado apreciamos e gozamos os frutos de toda esta evolução e mudança, por outro vamos tomando consciência de que esta evolução tem custos elevados, em certos casos tão elevados que são insuportáveis.

Para mim os custos mais elevados estão na política, ainda mais do que no ambiente. O Homem já mostrou que se é alguma coisa é adaptável, há milhares de anos que vivem humanos nas tundras geladas e nos desertos ressequidos e o Homo Sapiens não corre nenhum risco de extinção, ao contrário de muitas outras espécies. O que faz a política é decidir e determinar quais os grupos e indivíduos que prosperam e quais os que sofrem e desaparecem , e de onde eu vejo as coisas a noção de “bem comum”  interpreta-se como “bem comum aos do meu grupo”, provavelmente sempre foi assim mas agora é tudo exacerbado e amplificado.

Com a revolução das tecnologias de comunicação e a sua perversão pelos interesses mais daninhos cada vez se divide mais o mundo e a política é feita do confronto entre “nós” e “eles” , mesmo quando essa divisão é artificial.  Rebentadas e esgotadas as ideologias clássicas, quando a população está anestesiada pelo “entretenimento” e vidrada nas possibilidades infinitas de alienação que tem  no seu telemóvel, o sucesso político está nas mãos de quem consegue criar, explorar e maximizar as divisões.

Em vez de aceitarmos que o Socialismo trouxe coisas positivas e que o Capitalismo é o melhor sistema de organização económica, simultâneamente; em vez de procurarmos uma síntese das respostas de ambos aos problemas , em vez de rejeitarmos o que de negativo têm ambos , aferramo-nos aos “da nossa equipa” e diabolizamos os outros, trafica-se em absolutos, não se concede nem se recua, encara-se qualquer cedência como uma derrota e culpa-se sempre, sempre, o adversário, que demasiadas vezes se pensa como inimigo.

Como mais uma vez se comprovou, desta feita em Espanha com o surgimento do Vox, também a Terceira Lei de Newton se aplica na política, para cada acção haverá uma reacção correspondente. Os extremos alimentam-se do extremo oposto.

E os extremismos obviamente vivem da manipulação da opinião e das ideias “prontas a pensar”, vivem de jogar com os medos e inseguranças das pessoas e fazê-las crer que eles podem mudar as coisas a seu favor. Quando os métodos de transmissão de ideias eram as conversas, os livros e os jornais, a manipulação não era uma tarefa simples e exigia um certo domínio não só da retórica como do assunto em causa. Essa barreira desapareceu com a comunicação de massas e a possibilidade de fazer chegar seja que informação for a todas as pessoas ,  ao mesmo tempo que se conhecem os tais medos e aspirações de cada indivíduo, porque alegremente os comunicamos ao Mundo.

O Trump provou que não é preciso sabe falar, ser culto e dominar os temas para se chegar ao poder, basta conhecer o público alvo. Idem o Bolsonaro, idem o Orban, idem a fornada de proto ditadores que (a minha aposta) vão entretanto deixar de ser proto ditadores para assumirem o cargo em pleno e juntarem-se a outros de facto , como o Putin e o Kim, que de resto o Trump não se cansa de elogiar enquanto humilha aliados, e isso não revolta gente suficiente. Há 20 anos era impensável um país com uma democracia e instituições estabelecidas como os EUA dar o poder a um homem como o Trump, tenho bem na memória a candidatura do democrata Howard Dean que foi forçado a abandonar por se considerar ridículo e indigno de um estadista um grito que ele deu num comício. O Trump mente cerca de 8 vezes por dia, demonstra todos os dias uma ignorância vastíssima e  tem uma vida feita de desrespeitar mulheres, minorias, a verdade  e a Lei  mas tem uma esperteza enorme e sabe entusiasmar os seus, e isso basta.

E isto tudo para chegar à guerra que vem aí . De vez em quando percorro os arquivos deste blog à procura de previsões que fiz ou coisas que antecipei e que não aconteceram e até agora estou bastante satisfeito com o registo porque ainda não encontrei  nenhuma  relevante (não quer dizer que não haja , com este são 1350 posts e sou tão falível como o próximo) , vou deixar aqui mais esta:

Antes de o ano acabar os Estados Unidos vão declarar guerra ao Irão ou intervir na Venezuela.

É dos livros de História que o principal aliado e muleta de um ditador ou aspirante a ditador é o inimigo externo, real ou imaginado. Num país com uma história e tradição belicista como os EUA isso funciona ainda melhor porque a maioria das pessoas não só não tem a noção do que é como rejeita cabalmente  (até vir este presidente) o governo de um  déspota.          Um conflito militar  sempre foi relativamente fácil de provocar  (acabei há pouco uma história da queda de Cartago que explica lindamente como os romanos provocaram a Terceira Guerra Púnica ) e  é-o muito mais hoje em dia , fruto da tal aceleração incrível da tecnologia e do modo como ela permite criar uma mensagem e disseminá-la, mesmo que seja demonstravelmente falsa.

Acossado por todas as investigações ao seu passado e presente criminoso e pela revolta que provoca nas pessoas de bem providas de capacidade de raciocínio , o poder do Trump basea-se no bom desempenho  económico do país e no racismo e extremismo que ele alimenta e quem tem mais eco no país que os Americanos gostam de admitir.  Decorre uma guerra comercial com a China que soa bem quando é anunciada dos palanques dos comícios mas que é desastrosa economicamente, e quando a economia começar a piorar, quando a maioria das pessoas começar a perceber que a sua vida não está a melhorar como prometido, quando o apoio ao presidente começar a tombar, vai aparecer o “Casus Belli” e a nação vai juntar-se em torno do líder para lutar contra os maus, contra os inimigos, e os principais candidatos são os  governos do Irão e da Venezuela.

Uma guerra para desviar o foco, entreter o povo, enriquecer mais ainda os lobis do armamento e fazer-se passar por duro e valente.  A tecnologia avança a um ritmo incrível, a sociedade altera-se com ela mas há coisas que nunca mudam.

 

Rebelião da Extinção

Em 1962 a americana  Rachel Carson publicou um livro chamado Silent Spring , ou Primavera Silenciosa , em que  pela primeira vez se alertava o mundo para a outra face do uso dos pesticidas que por essa altura começaram a revolucionar a agricultura. Como cientista, estudou principalmente o efeito do DDT nos humanos e noutras espécies animais e quem leu aquilo com atenção ficou alertado para o perigo emergente.

Foi há 57 anos e foi a origem da consciência ambiental moderna. O problema foi que as pessoas com poder de decisão e voto na matéria, ou seja, governos, agricultores e produtores de químicos, puseram num prato da balança os riscos e no outro as vantagens  e decidiram que as segundas compensavam largamente os primeiros, e foi sempre em crescendo químico até há bem pouco tempo .

Uns anos mais tarde, em 1989, apareceu outro livro, e esse já o li, chamado O Fim da Natureza, de Bill McKibben, a primeira vez, tanto quanto sei, que se chamou a atenção para as mudanças causadas pelo Homem e suas possíveis consequências, a primeira descrição do Antropoceno, como alguns designam agora a nossa era. Esse passou muito mais despercebido que o primeiro, além de ser tão ou mais importante, principalmente porque a conclusão das observações do autor sobre as alterações climáticas potencialmente catastróficas causadas pela acção humana era a seguinte : só há duas maneiras de lidar com este problema , ou acção reflexiva , contrariando e contendo directamente os efeitos perigosos, ou simplesmente um modo de vida mais humilde.

Isto foi há 30 anos, numa altura em que as democracias liberais capitalistas triunfavam em toda a linha, a História tinha chegado ao fim como dizia o F. Fukuyama, caminhávamos para a Democracia, Abundância e Paz e a última coisa que quem quisesse ser ouvido por multidões devia recomendar era uma vida mais humilde. Aliás, essa recomendação nunca passou muito bem nem nunca foi levada muito a sério em nenhum período histórico, não acabou bem por exemplo para Jesus Cristo e os pregadores da simplicidade, humildade e despojamento sempre foram relegados para a caixa dos excêntricos , quando não dos hipócritas. 

Era o nosso direito divino e destino natural  (manifesto, no caso dos americanos) ,  dominar e explorar a Natureza, e nisto vivemos e progredimos séculos, até que inovações o motor de combustão interna e o modo de produção capitalista aceleraram o processo até se tornar imparável. Os efeitos eram raros , espaçados e dispersos, as vantagens imensas e aparentes, e foi preciso virar o século e a comunicação de massas chegar a toda a gente para começarmos a perceber o sarilho em que nos metemos.

Os mais atentos (não era o meu caso, apesar de ter lido o McKibben) sabiam há décadas mas a generalidade da população não sabia e grande parte não queria saber. O facto de a causa ambientalista ter sido impulsionada pelos herdeiros dos hippies e financiada tantas vezes por inimigos do Ocidente (como a Rússia com o Greenpeace)  não ajudava nada à sua aceitação pela população em geral, que tradicionalmente só consegue ver um problema quando este lhe cai em cima e desconfia sempre , por vezes com razão, dos alarmes que vão soando. O Al Gore  acertou em cheio no título do seu documentário “Uma Verdade Inconveniente”. Ninguém  gosta de ver posto em causa o seu modo de vida, especialmente quando este é confortável, como o é o da sociedade ocidental, por mais reclamações e queixas que se façam.

Chegamos a 2019 , já haverá muito poucas pessoas que não estejam convencidas da gravidade do problema e das suas causas, mesmo que subsista uma espécie de debate entre os que negam a origem humana das alterações e os outros, mas ambos as aceitam, sobrando uns quantos trastes  ideológicos como o Trump que não só se nega a admitir que o aquecimento global é real e recusa sequer pensar em tomar medidas para o mitigar como elimina tentativas de protecção ambiental feitas pelo antecessor.

Mas hoje toda a gente sabe, toda a gente discute e toda a gente tem a sua posição, nem que seja de indiferença ou negação, no sentido de recusa em aceitar a realidade.  Como eu vejo as coisas os problemas principais são de 3 tipos, todos ligados : esgotamento dos recursos ; explosão demográfica e as alterações climáticas propriamente ditas,  como o aumento dos fenómenos metorológicos extremos  (uma das muitas razões que me fez abandonar a navegação oceânica) .

A soma destes 3 é simultâneamente causa e consequência de conflitos e tensões políticas que facilmente podem escalar, por exemplo : desertificação no Sahel aumenta a  miséria – aumenta o fluxo migratório –  os imigrantes não se integram bem – sobe a xenofobia – demagogos aproveitam-se dela para chegar ao poder, instala-se um regime autoritário. Isto já está a acontecer,  isso também veio alarmar a opinião pública e as coisas começam a mexer…à superfíce pelo menos.

Entra em cena a Greta Thunberg , de quem já falei aqui , moça que admiro e que temo  que não vá acabar bem, não por ser perseguida pela Exxon Mobil mas por ser  a face visível de um movimento caótico, vago e megalómano.  Esta moça iniciou na sua terra uma greve escolar para obrigar o governo a agir contra as as alterações climáticas, a greve tornou-se viral e global e   deu um impulso enorme a um movimento denominado Extinction Rebellion . cujo objectivo é  o exercício de pressão sobre os governantes e o público para aumentar a conscientização sobre a crise climática.[4]

Andei a ler manifestos e vídeos de acções e  propaganda destes e de de outros movimentos , e sofrem todos de dois problemas graves : acreditam que os governantes conseguiriam, mesmo que quisessem, tomar o género de medidas radicais necessárias a um combate eficaz às alterações climáticas e ignoram a principal mensagem do Bill McKibben : a chave está na redução drástica dos consumos , coisa que , parafraseando o Al Gore, é uma verdade inconveniente. Os rebeldes apelam à desobediência civil e resistência pacífica, não apelam nem exigem a redução drástica do tráfego automóvel e aéreo, o abandono da comida processada , dos guarda roupas cheios, das frutas todo o ano nos supermercados  e dos 300 canais de TV . Não têm, que eu tenha visto , nenhuma proposta de política económica concreta, nenhum programa de acção além de exigir que os governos façam alguma coisa.

Se amanhã o governo francês, por exemplo, decretasse o fecho das refinarias mais poluentes da França isto ia trazer ar muito mais limpo na zona mas ia mandar para o desemprego milhares, provocar o aumento do preço dos combustíveis e o aumento da refinação nos países vizinhos. Se a Nigéria parasse  de explorar petróleo e expulsasse as multinacionais o delta do Níger ia ficar muito mais limpo mas milhares de nigerianos ficavam sem emprego, a Shell mudava a tralha para Angola ou México ou qualquer dos outros países onde opera e o benefício total seria muito pequeno. Podíamos estar aqui a noite toda a dar exemplos destes para ilustrar uma verdade simples:

Um problema global não se resolve com soluções locais, e acreditar na eficácia de uma grande reunião de governos mundiais para resolver o problema é do campo da alucinação, não sei se lhes passaram despercebidas coisas como a conferência do Rio ou de Paris onde o que ficou claro foi que  entendimentos globais raramente passam da retórica e das declarações de intenções. Por isso  mesmo que os governos tivessem poder decisivo, um acordo global e acção consequente sobre isto é uma miragem, uma coisa só julgada possível por adolescentes como a Greta e  ingénuos de todas as idades.

Preparemo-nos para muitas notícias sobre a “rebelião” e zero resultados além de medidas simbólicas e pontuais. Como estratégia de combate a um problema grave, bloquear , manifestar e revoltar com exigências de que se faça alguma coisa mas não sabemos bem o quê, é muito fraquinho. Mas a estética está lá toda e é apelativa, especialmente porque permite às pessoas ventilar a frustração e identificar , apontar e atacar culpados  (os governos, as multinacionais) , ter a sensação de que se está a contribuir para a resolução do problema e esquecer a gravidade da nossa contribuição diária para a degradação ambiental , com os nossos actos e consumos , mesmo os mais banais.

A rebelião devia ser contra o consumismo, uma rebelião que não precisa de bandeiras, líderes, slogans,  discursos nem manifestações,  uma rebelião individual causada por uma decisão racional e consciente e devia ser essa a mensagem e exemplo destes activistas. Sem essa redução dos consumos não há nenhuma sustentabilidade, equilíbrio ou recuperação possível, e sendo assim creio que o foco devia ser todo para o modo como viver e sobreviver às alterações climáticas e não em carregar contra  moínhos de vento,  defender causas perdidas e exigir que outros façam alguma coisa.

 

Anticlimático

Ao fim de longos meses de espera o procurador especial Mueller entregou o seu relatório sobre as relações entre a campanha do Trump e a Rússia. A frase que encheu os jornais e televisões foi “não se provou que houvesse conspiração entre  o Trump e a  sua campanha e os Russos”. A festa entre os trumpistas, liderada, claro está, pelo próprio, foi enorme, em proporção ao desalento em pessoas como eu. Não é grave, porque há várias questões importantes saídas disto.

-Não ficou estabelecida nenhuma colusão mas há meia dúzia de antigos membros da campanha Trump presos por manobras que incluem encontros com agentes russos e há cidadãos russos arguidos, pelo que se pode dizer que afinal não se vê chama mas a fumarada é bem real.

-Uma parte da investigação era sobre a alegada colusão, a outra sobre obstrução à justiça pelo presidente. O relatório diz que “não pode confirmar nem desmentir” e o Trump, incapaz de falar sem mentir, veio logo berrar em maiúsculas que foi “totalmente exonerado”. Isto é ofensivo porque se ninguém ainda tema cesso ao relatório todos tiveram acesso ao resumo feito pelo Attorney General e o que está lá muito claramente explicado é que “não se retirou uma conclusão, de uma maneira ou de outra”. Isto, para aquela raça de canalhas sem princípios que mentem como respiram, equivale a “exoneração total”, fica registado.

-Fica o fraco consolo de saber que esta que agora terminou foi uma de 17 investigações ao presidente, que deve ser tão investigado por ser boa pessoa, sempre escorreito e honesto. Também há o consolo de ver que o apoio ao presidente não diminuiu nem cresceu, ou seja, ninguém mudou de opinião sobre ele por causa disto.

-O que o público conhece é um relatório de 4 páginas sobre um relatório de 400. Quem compilou essas 4 páginas foi o AG, que além de ser apoiante do presidente já defendeu que este deve estar acima da lei enquanto presidente.  Isto não chega para tranquilizar e encerrar a questão, toda a gente quer ver o relatório completo e há que perguntar bem alto como é que uma “caça às bruxas” como o maníaco, na sua total e completa ignorância sobre História lhe estava sempre a chamar, como é que uma investigação acaba com meia dúzia de tipos presos e trinta e tal acusados pode ser irrelevante , como é que  se tem a lata de dizer que não havia lá nada.

Livre da investigação, o Trump e o seu governo podem agora continuar descansados a tornar a América grande, as duas últimas que ouvi são que vai prosseguir a campanha para desmantelar o Obamacare sem nada de eficaz que o substitua, eficaz no sentido de assegurar cuidados de saúde a todos e uma que parece inventada mas é verdadeira: a secretária da Educação é uma bilionária  que ocupa o posto porque pagou para isso, nada na sua história a indica para seja o que for ligado à educação e como o déficit está a explodir há que “apertar o cinto”, diz a senhora, que tem cinco iates se não estou em erro. Uma das coisas que vai neste apertar de cinto,  necessário entre outras coisas devido aos biliões em reduções de impostos para os milionários, é o financiamento para os Paraolímpicos. Os Paraolímpicos, que são a oportunidade para os deficientes competirem e se realizarem como os outros. Não deve haver no mundo muita gente que consiga ser contra os Paraolímpicos mas a administração Trump consegue, ao mesmo tempo que berra que esta é a melhor economia de sempre vai  retirar 16 milhões ao desporto adaptado. Vale a pena referir que  no contexto de um orçamento dos EUA 16 milhões de dólares  é quase um erro de arredondamento.

Sem a esperança da investigação do Mueller, que nos meus sonhos ia fazer o Trump demitir-se ou pelo menos não se voltar a candidatar, já acredito que ele pode perfeitamente ganhar outra vez para o ano. Não há nenhuma canalhice, mentira, ofensa, desonestidade, incompetência ou absurdo que lhe retirem o apoio que tem, não só dos eleitores como de todos os políticos que têm o seu destino colado ao dele e por isso comem tudo o que ele lhes põe à frente. Há que aguentar, só uma crise económica séria vai tirar de lá aquele tipo,e nem isso é certo. Tenho que me conformar.

Por cá ao menos não temos problemas por ter um presidente criminoso, mentiroso patológico  e semi analfabeto, ao menos isso. O nosso está noutro nível, é só um bocado parvo e inconsequente,  hoje por exemplo achou que era bom escrever para o correio dos leitores de um jornal a explicar em 9 pontos onde andam e o que fazem os seus familiares, para que não se julgue  (mesmo que ninguém lhe tivesse perguntado nada nem acusado de nada) que ele entra em favorecimentos à família. O último ponto é a esclarecer  que ninguém o nomeou para presidente, foi o povo que votou nele. Caso houvesse dúvidas.

 

Sessão de terapia

Lamento mas tenho que ralhar outra vez sobre o Trump e o número de defensores que ele tem no nosso país, número que felizmente já teve uma evolução negativa mas ainda assim persiste. Pessoas como o Nuno Rogeiro continuam a defender o homem e a tentar menorizar os que o criticam e denunciam pensando que a ressalva “mesmo que não simpatize com ele”  lhes limpa a folha e permitirá no futuro dizer “ah, eu nunca simpatizei com ele” como se isso desculpasse o apoio que lhe dão.

Ontem o presidente esteve no Vietname. Curiosamente, grande parte dos seus apoiantes são militaristas que não se incomodam com o facto, provado, de que ele pagou para lhe inventarem uma desculpa médica para não prestar serviço militar com a sua geração na guerra do Vietname. Pior que um desertor ou um refractário, acções que mesmo assim necessitam de alguma coragem, o Trump é um entre muitos que ficou no seu país e no seu conforto de milionário, corrompendo médicos com o seu privilégio  enquanto os outros iam lá malhar com os costados e morrer. É hoje o Comandante Supremo das Forças armadas, eu ainda me lembro da comoção que foi quando se soube que o Bush Jr, na mesma altura , tinha prestado serviço militar na Guarda Nacional na segurança do Texas. Ao menos foi incorporado, fez recruta e prestou serviço numa unidade.

Nesta visita ao Vietname foi encontrar-se com o maluco da Coreia do Norte, ditador hereditário que mantém o seu povo prisioneiro e sub nutrido e manda matar opositores. Se bem estão lembrados aquando da primeira cimeira uma carrada de idiotas veio gritar “estão a ver, o Trump já conseguiu o acordo com o Kim!“. Não conseguiu nada , nem antes nem agora, não há acordo de espécie nenhuma como é fácil de confirmar, o que ontem se ouviu do Trump foi criticar o Obama por não ter conseguido um acordo. Falou também no caso do americano que passou lá 15 anos de trabalhos forçados e torturas e que morreu em consequência disso. O presidente diz que acredita no ditador, que acredita que ele não sabia de nada nem sabe do que se passou. Tal como no caso dos jornalistas assassinados pelos russos ele diz que acredita no Putin e no caso do jornalista  desmembrado pelos sauditas ele acredita no príncipe saudita, mais uma vez, a terceira,  diz que acredita num ditador. Quem é que tem opinião diferente? Os serviços secretos e de informações americanos, que estão naturalmente satisfeitíssimos com um presidente que não só se orgulha de não ler relatórios como os contradiz publicamente porque se acha mais esperto que todos. Por três vezes o Trump prefere acreditar em ditadores, aceita a palavra deles contra as evidências e contra a indicação dos serviços de informações mais poderosos  do mundo, por acaso os seus, e isso é aceitável para os defensores dele. É de trepar pelas paredes acima em desespero.

Na semana passada, há gravações disto, o gabinete falava à imprensa sobre acordos de comércio com a China. O Secretário do Comércio explicou a diferença entre um acordo e um memorando de entendimento, corrigindo o presidente, que ficou visivelmente agastado, corrigiu, ou pensou que corrigiu,  o secretário do comércio de uma maneira absurda  e terminou com este a fazer como se faz com uma criança birrenta para ela se calar: Está bem , de agora em diante não lhe chamamos mais Memorando de Entendimento, chamamos sempre Acordo. E é assim , diz quem lá trabalha, o dia a dia daquele governo. Mesmo quando não sabe, ou sobretudo quando não sabe, ele pensa que sabe e não suporta ser contrariado.

Vão-se fazendo as contas e a última contagem diz que o Trump faz 5 afirmações incorrectas ou falsas por dia, ainda há pouco tempo li um discurso dele em que até sobre cães ele consegue mentir, no caso era sobre as capacidades dos pastores alemães. É patológico e não tem limites, já se passou há muito tempo daquele nível em que se trata das mentiras habituais e esperadas nos políticos, tipo “acabou a austeridade” ou “eu não tinha conhecimento desse problema” para um chorrilho constante de mentiras que entre outras coisas cumprem a função de saturar as pessoas e de já ninguém querer saber ou dar importância. Chegámos ao ponto em que comentadores e políticos encolhem os ombros perante a mentira do dia e dizem, ah , é o Trump a ser Trump, não se pode ligar a essas coisas. Não só pode como deve , e tolerar esta corrosão total da confiança  e da idoneidade que se espera dos governantes é medonho.

O Bill Clinton enfrentou um processo de impugnação por ter mentido sobre as suas relações extra conjugais com uma estagiária Este homem mente sobre tudo, desde a sua declaração de impostos até ao seu passado, passando pelas relação com potencias estrangeiras e incluindo as declarações públicas que faz, e lá vai fazendo o seu caminho de corrupção , enriquecimento e incompetência, é assombroso. Entendo perfeitamente que os republicanos se sintam forçados a apoiá-lo, não só não querem ir contra a base eleitoral dele, quase a mesma que a sua, e muito menos perder os doadores, gente impecável como a NRA, as farmacêuticas e a indústria do carvão. Como são políticos, no dia em que ele cair vão imediatamente dizer que sempre viram as coisas mal encaminhadas e tentaram avisar mas estavam de mãos atadas. Isso é natural.

Agora, que gente como o Nuno Rogeiro (falo dele hoje por causa de uma troca ontem no FB que foi reveladora disto tudo) continue com uma atitude ambígua dando o seu apoio semi velado e temperado pelo disclaimer “mas não simpatizo com ele” já me incomoda mais.

Então ontem , enquanto o Grande Negociador estava a ser humilhado por mais um ditador no Vietname, em Washington houve umas 9 horas de depoimentos do ex advogado do Trump perante o Congresso. Esse homem foi condenado, até ver, a 3 anos de prisão por coisas que fez ao serviço do Trump, entre elas entregar um cheque a uma actriz pornográfica com a qual o candidato apoiado pelos Evangélicos e a direita religiosa teve um encontro sexual enquanto a sua terceira mulher estava grávida. Tudo normal.

Durante mais de 9 horas esse advogado caido em desgraça confirmou  o que toda a gente atenta, com dois neurónios funcionais e sem palas ideológicas nos olhos já descobriu há anos : o Trump é um racista, mentiroso e vigarista e a sua empresa e negócios funcionam muito como a Máfia. O dr Rogeiro acha que o advogado não tem credibilidade  e não apresentou provas. Porque os arrependidos da Máfia que ajudaram, nos EUA e em Itália, a meter na cadeia dezenas de padrinhos, eram todos pessoas de altíssima credibilidade e foi por isso que foram arrolados como testemunhas. Além disso ao super informado e sagaz doutor da actualidade internacional escapou um ponto, não se tratava ali de um julgamento , era uma audiência congressional, mas isso agora não interessa  nada, como não houve vídeos nem documentos assinados pela mão do Trump a incriminar-se, aquilo não valeu nada. Muito bem.

Por falar em máfia , é o meu consolo e esperança que há um homem nesta altura a trabalhar com toda esta gente e todos estes documentos e todas estas ligações criminosas, um homem de reputação tremenda, carreira admirável e personalidade de aço, o Procurador Mueller. Este homem é o total oposto do Trump, começando logo pelo Vietname: enquanto o Trump se escondia pagando a médicos para lhe inventarem doenças o Mueller, que até por questão de estudos podia ter sido isento do serviço, alistou-se como voluntário e foi lá ser dos mais condecorados e valorosos oficiais da guerra. Foi 12 anos director do FBI e investigou e condenou mafiosos como John Gotti, e por isso conhece bem os meandros e modos de pensar dessa canalha e certamente ri-se quando tentam atacar a credibilidade de um informador arrependido. O Trump nunca se cala e fala da investigação todos os dias, aterrorizado como está por ela. O Mueller nunca abre a boca, só se exprime por meio das comunicações e diligências judiciais . Nesta investigação, que o génio tenta desvalorizar todos os dias, já foram proferidas 37 acusações e já há pelo menos 4 associados do Trump atrás das grades, não está mau para uma caça às bruxas.

Tenho esperança nas instituições americanas, tenho esperança que o homem caia, mas não muita, sei que não há impossíveis nem limites quando se trata de hipocrisia política , corrupção e desinformação. Também sei que se chegar esse dia feliz todos os inteligentes que hoje o desculpam , racionalizam e apoiam vão ser capazes ou de um mortal à retaguarda ou de entrar pelo caminho do golpe, sempre o mais fácil. Uma cabala do “estado profundo”. Muitos irão apontar que ele vai cair por alguma coisa de trivial tipo fuga aos impostos , espero que alguém lembre essas pessoas que foi por uma coisa assim que se prenderam mafiosos como o Al Capone e que quando se luta contra criminosos qualquer dos crimes serve para os arrumar.

O que o Trump é está à vista de todos os que se dêem ao trabalho de olhar. Os que preferem ignorá-lo   por terem  em vista objectivos estratégicos e ideológicos mais largos hão-de pagar por isso. Ou melhor, deviam pagar por isso, mas eu até  vislumbro a possibilidade de ele voltar a ser candidato, ser reeleito e depois fazer eleger o filho em 2024.

Eu sei que há problemas muito maiores para Portugal, para os Açores e para esta ilha, e sei que há coisas muito mais interessantes e histórias que valem muito mais a pena mas isto dá comigo em maluco e escrever estas coisas é uma espécie de terapia.

Do SRS até ao Trump passando pela Espanha e o Brexit.

Janeiro arrasta-se sempre e parece que nunca mais acaba, Fevereiro passa num instante e Março é o pior mês, no que diz respeito ao tempo por aqui,  ainda há muito vento e chuva, muito que penar.

Fui ao hospital da Horta a uma consulta , deslocação que implica sempre um voo e 3 dias. Quando cheguei ao balcão à hora prescrita a senhora disse-me “olha que não tens nenhuma consulta marcada“. Olhei bem para ela, pedi-lhe que por favor não me tratasse por tu e dei-lhe um bocadinho de tempo para corar à vontade  e analisar bem o material de que é feito o balcão antes de lhe pedir que, se fosse possível, tentasse saber qual tinha sido o problema uma vez que me tinham ligado precisamente dali a informar da marcação e tinham coordenado a minha deslocação com as Flores.

-O senhor por favor sente-se ali que eu vou saber e já lhe digo.

Não custa nada e aumenta-se a quantidade global de civilidade. O que se passou foi que faltava o resultado de umas análises que foram a fazer ao continente e sem elas não há razão para o especialista me ver. Nem vale a pena lamentar o erro ou falha administrativa que me fez perder 3 dias quase completos e fez o estado pagar mais um voo e ainda despesas de deslocação,  que  devolvem. Espero que seja entretanto porque entre esta deslocação e a de Janeiro já tenho a receber algum dinheiro que não será muito mas  faz-me bastante falta. Além do mais a Horta em Fevereiro só interessa a alguns faialenses e a quem nunca a viu antes pelo que nem se pode dizer que se aproveita o passeio.

Já estou há mais de um mês à espera dessa tal consulta, por padrões do SNS/SRS nem é muito e eu não me queixo , é  a tal vantagem de manter as expectativas baixas , já é muito bom haver médicos que eventualmente nos vão ver à borla e medicamentos  quase pagos pelo Estado. Se entretanto passar mais um mês sem o raio da consulta e a minha situação se degradar há uma ambulância para me levar ao centro de saúde e um avião para um hospital , e lá me hão-de reparar outra vez, até ao dia em que não. Eu não dou muita coisa por garantida, tenho a noção de que isto está tudo preso por arames e esses arames são as impressoras do Banco Central Europeu.

Daí decorre que a maneira melhor de assegurar a manutenção do nosso nível de vida e as possibilidades de o melhorar é defender a continuidade do projecto europeu, mas isto parece que cada vez é menos consensual. Políticos com vencimentos e reformas de políticos afirmam que está mal , é pernicioso. Falta democracia , gritam os que têm as suas necessidades e dos seus filhos bem asseguradas. Estávamos melhor dantes, clamam os desmemoriados, os  imbecis, os comunistas e os fascistas. Não somos os únicos a eleger para o parlamento europeu deputados que são contra o parlamento europeu, os ingleses têm o UKIP , cujo ex líder é das poucas pessoas que eu gostava de ver pendurado pelos pés num candeeiro de uma avenida, nós mandamos comunistas que acham que isto funcionaria muito melhor se tivéssemos aderido ao Pacto de Varsóvia nos tempos áureos do comunismo, quando o Cunhal dizia para quem o queria ouvir que não estavam interessados em instalar aqui uma democracia parlamentar. Continuam aí,   cheios de tempo de antena, até vão arregimentando jovens que não encontram problema nenhum em arvorar a foice e o martelo enquanto se esganiçam a tirar nazis debaixo de cada pedra, é incrível.

Aqui ao lado em Espanha o Socialismo do Século XXI não está a correr muito bem. O Sanchez, verdadeiro dandy sem noção que não viu nada de mal  ir usar o avião da presidência para ir a um concerto de rock e a um casamento de um familiar, está a enterrar aquilo tudo. Usando o truque do nosso Costa decidiu fazer uma jeringoncia quando perdeu as eleições, e foi-se juntar com a escumalha das Espanhas : o  Podemos, cujo líder consegue ao mesmo tempo falar pelos direitos das mulheres e apresentar um programa numa TV propriedade da República Iraniana; falar contra os abusos das classes endinheiradas e viver num chalet de 600 mil quando há 4 anos dizia que estava bem era no seu apartamentozeco com a pia cheia de louça suja, e renegar um líder que há menos de um ano defendia insultando quem o criticava. Os outros são os independentistas da Catalunha , uma seita de ideólogos e demagogos  sequiosos de poder e peritos em inventar e explorar agravos tendo tudo em conta menos os reais e concretos interesses dos Catalães.

Fizeram de exumar os restos do ditador Franco uma questão que não podia esperar , puseram a agenda “progressiva” na frente de tudo, escarafuncharam feridas mal saradas , das quais a Espanha tem bastantes, associaram-se com os terroristas da ETA, promoveram o separatismo Basco, enervaram os Canários e os Galegos, deram fôlego aos comunistas neolíticos da Andaluzia, enfim , a Jeringoncia fez muito pouco  de bom e caiu  fim de uns 6 meses  mas o preço vai ser maior do que mais instabilidade e necessidade de coligações e enfraquecimento dos partidos tradicionais: aí têm o surgimento do Vox , porque esqueceram-se de ler a História e a Sociologia do seu próprio país e não perceberam  que se puxarem tudo de repente e com sofreguidão para a esquerda, a direita vai reagir, e se puxarem à bruta vão ter uma reacção à bruta; se tentam desmembrar a Espanha vão ter a oposição daqueles, e são muitos, para os quais a Espanha una é mais do que constitucional, é sagrada. Atrás dessa  chegam todas as posições típicas da direita radical, agora têm 50 mil pessoas na praça Colón de braço estendido e ficam muito surpreendidos e agastados. Amanhem-se.

Mais acima , a Inglaterra está a 40 dias do descalabro, já só o que equivaleria a um milagre pode evitar isso. Já vi pessoas, incluindo pessoas de responsabilidade, a dizer “sobrevivemos à guerra, vamos sobreviver a isto”, como se a guerra tivesse sido decidida por votação e apresentada como uma coisa para melhorar a vida de todos. Agora  “vamos sobreviver” já é uma linha aceitável, é surreal. Li um tweet de um influente jornalista pro brexit que dizia mais ou menos ” acabo de esquiar à vontade entre a Suíça e a Alemanha e creio que a Suíça não é membro da UE” , foi prontamente destruído por milhares de mensagens furiosas que o acusavam, justamente, de ter feito campanha pelo Brexit e a 50 dias do prazo ainda não sabia o que era o Espaço Shengen. Outras explicavam-lhe em termos nada caridosos que se experimentasse esquiar através dessa  fronteira com um saco de mercadorias comerciais às costas as coisas seriam bastante diferentes.

Foi gente dessa que tornou possível o Brexit, gente que tem férias na neve e se acha muito esperta.  O Jeremy Corbyn e o Partido Trabalhista só não levam a palma dos mais incompetentes e vergonhosos porque o governo e os Conservadores agarraram o prémio  firmemente. Dois anos de oposição sem nunca ser capaz de definir exactamente o que é que o Labour queria e defendia, sempre a ver de que lado soprava o vento, a 40 dias do prazo, quando os negociadores da UE já admitem que os ingleses vão às negociações como pro forma porque nem sequer sabem o que querem, vê deputados do seu partido a desertar, mais sete este semana,  e continua a apanhar bonés. A primeira ministra passa mais tempo em Bruxelas (3 dos seus deputados também desertaram, esses têm a desculpa de não se quererem associar mais à catástrofe) como se as pessoas que ela precisa de convencer estivessem lá e não no Parlamento e nas ruas da Grã Bretanha. Não sei como é que a senhora ainda não teve um esgotamento nervoso e desistiu. Na Irlanda já se fartaram de avisar que no dia a seguir a ser instalada uma fronteira física entre  o Ulster e a República recomeçam as bombas, e ninguém , isto parece anedota mas é verdade e é muito triste, ninguém sabe como é que se pode resolver a questão dessa fronteira. A 40 dias do prazo.

Espero, ainda espero, que quando olharem para o abismo consigam recuar em vez de saltar, tenho quase a certeza que se mesmo no dia 28, a véspera,  o governo britânico pedisse uma extensão do prazo e um referendo  a UE ia aceder com alívio. Ia certamente haver algum desagrado e protestos em Inglaterra, alguns deles violentos, mas é para isso que existe a polícia de choque.

Duas pessoas ficarão especialmente  contentes se se concretizar o Brexit: O Putin, a figura mais sinistra da Eurásia que trabalha para a desgregação e divisão do Ocidente, e o Trump, tive que mesmo agora apagar aqui 3 adjectivos que tinha para ele porque tento alguma decência nisto . Anteontem esse criminoso*  semi analfabeto e vendido declarou o Estado de Emergência dos EUA, por causa da ideia peregrina do muro da fronteira , que ele sabe bem que não vai ser construído mas continua a usar como arma política. No discurso em que anunciou a declaração de Estado de Emergência disse , e cito, porque isto não são notícias falsas , é ele a falar e eu ouvi :

Eu não precisava de fazer isto“. Ora, se não precisava não é uma emergência, e este cretino diz estas coisas sem se dar conta que quando a decisão for, como vai, para os tribunais, os juízes vão dizer isso mesmo : isso contraria a definição de emergência. E depois ainda discuto com gajos no twitter que dizem que “ele joga xadrez a quatro dimensões”. Nem damas, quanto mais. É outra razão que tenho para viver : quero ver o dia em que esse homem cai.

E isto já vai longo, já me aliviei aqui de uns nervos ,  está cumprida a função.

 

*Não tenho problema em chamar-lhe criminoso sem ver nenhuma sentença transitada em julgado por uma razão simples e que para mim basta : uma das muitas empresas falhadas do Trump foi uma universidade. Como a maior parte , era fraudulenta, Constituiu-se uma acusação e o caso foi a tribunal. Em 2018 o Trump pagou 25 milhões de dólares para ajustar o processo, ou seja, para ser retirada a acusação e compensar os queixosos. Agora digam-me, se vos acusarem de fraude e vocês não tiverem cometido fraude, vão pagar 25 milhões de dólares para acabar com o processo? Pois, não vão. E fraude é crime, ergo, o Trump é um criminoso.

Vício Social Virtual

Costumo levantar-me às 6.30, a única razão para isso é que dessa hora em diante os cães já não me deixam dormir. Não sei se é aceitável hoje  em dia dizer “os cães” referindo-me a um cão e uma cadela, talvez haja uma maneira mais correcta de dizer isso em sociedade  mas eu cada vez vivo menos em sociedade, e não vivo menos ainda porque não posso.

Estou viciado nas redes sociais, como com os alcoólicos o primeiro passo para a recuperação é admitir que temos um problema, eu gostava muito de reduzir o meu uso da coisa para aí nuns 3/4 mas não é fácil. No caso do facebook, cada vez mais um veículo de publicidade e de exposição confrangedora de níveis de ignorância épicos, a questão maior é que se abandono aquilo perco contacto com dezenas de amigos que me são queridos e não quero isso. Por outro lado entrsitece-me ver que caí na armadilha de apreciar a exposição e os “likes”, a mania de dizer coisinhas espirituosas ou pretensamente espirituosas e inteligentes e ficar a apreciar as reacções.

Não tiro fotos só para mim, tiro para as mostrar, não caí na doença das selfies e as fotos muito raramente, quase nunca, são de mim, mas ainda assim há um impulso para a “publicação” que não havia dantes e isso incomoda-me um bocado.  O instagram é um pouco diferente, só me serve mesmo para partilhar fotos dos meus animais sem dizer nada, não vejo mal nenhum nisso, não me estou a tentar “promover” nem ser engraçadinho, estou só a mostrar coisas que acho bonitas a pessoas que gostam do mesmo que eu, nomeadamente animais. Não gasto lá tempo nenhum.

Já o twitter é outra doença porque há um sem fim de pessoas interessantes a dizer coisas interessantes, inteligentes e com piada, é possível filtrar o esgoto e participar no debate, e mandar o comentariozinho ou laracha, seja a que nível for. Mas isto vicia e consome demasiado tempo e no fundo o retorno, para quem não leva aquilo muito a sério, é quase nulo. Há algum porque permite seguirmos uma quantidade de pessoas bem informadas e posicionadas que nos permitem saber coisas importantes sobre temas que nos interessam e que não chegam à imprensa, e permite ver contraditório, discussão e troca de argumentos, coisa que ao que sei está ausente das televisões sem ser pela rama , às doses de dois minutos e levada a cabo pelos profissionais da coisa que já levam argumentos enlatados e prontos a consumir e o discurso é formatado para o telespectador médio, que não é muito exigente.

Dantes sentia-me muito bem comigo próprio por não ver televisão, mas se trocamos a televisão pela internet e acabamos  por passar o mesmo tempo naquilo o ganho não é assim muito grande, excepto talvez na qualidade do que consumimos e no facto de que as redes nos permitirem de certa maneira curar e seleccionar a informação.

Noto um aumento enorme de publicidade no FB e um aumento igualmente enorme de posts de extrema direita como nunca vi antes.Não gosto do que estou a ver, porque tenho uma boa ideia  das características  do meu concidadão  típico e do seu nível de educação e informação e sei que há terreno fértil para a expansão da extrema direita. Isto só me faz  execrar ainda mais a extrema esquerda que tem tido rédea solta nos últimos anos, eu acredito que também na política se aplica a Terceira Lei de Newton e para cada acção podemos esperar uma reacção.

Este é ano de eleições, creio que é muito possível o PS  ganhar a maioria absoluta, o que teria como única vantagem a perda de influência e controlo dos comunistas. também creio que o partido do Ventura vai chocar muita gente pelo seu desempenho, felizmente, e tal como a extrema esquerda, a extrema direita divide-se em facções e também há o PNR que irá agrupar os mais grunhos. O A.Ventura convencerá os menos radicais, a demagogia de todas as cores vai chegar a novos máximos. Pela minha parte conto votar e mesmo “fazer campanha” pela Iniciativa Liberal, não só porque me identifico com o programa deles, coisa que nunca me aconteceu com partido nenhum,  mas também porque adoro ver os nervos e as tentativas de desvalorização e obfuscação pela parte da esquerda, e as de menorização da parte da direita. Se Portugal tem alguma tradição política não é certamente o liberalismo, pelo que 2% de votos para a causa já seriam uma vitória enorme.

Está um dia lindo, tenho centenas de coisas para fazer e metade da manhã já foi consumida frente ao computador, é isto que tem que acabar.