Entretanto na Polónia…

…60 mil fascistas de vários graus, desde o skinhead mais cepo à avozinha mais beata e  nostálgica saíram à rua para celebrar a independência do país e gritar por uma Europa branca e por “mais Deus”. Quanto à segunda, parece-me um pedido ou exigência estranha mas é assim desde sempre: Deus, apesar de omnipotente, omnisciente e omnipresente, precisa sempre de quem fale por ele, de quem o defenda, de quem proteste por ele, castigue os seus inimigos  e reclame a sua presença, porque ele sozinho pelos vistos não consegue. É uma omnipotência um pouco estranha, um poder que apesar de ser universal e absoluto tem umas certas dificuldades em impôr-se e em comunicar directamente, tem que ser sempre por mensageiros e sinais.

Quanto à Europa mais branca e presumivelmente mais católica, podia dizer “boa sorte com isso, contrariar  tendências demográficas com manifestações não revela grande  inteligência” mas é verdade que manifestações pressionam governos que depois inventam políticas para contrariar a realidade, que normalmente acabam por falhar, criando mais insatisfação e alimentando  um círculo vicioso.

Acredito que também na política e na sociedade se observa a III Lei de Newton : Para  toda a acção há sempre uma reacção oposta e de igual intensidade. Os tempos em que se manifestam estas reacções podem não ser os mesmos da Física, mas mesmo que seja anos depois , as reacções inevitavelmente aparecem. Se vemos milhares a marchar pelas ruas de bandeiras vermelhas é de esperar que as bandeiras pretas não venham  muito atrás.

Em Portugal isto não é aparente  porque levámos uma injecção de 48 anos que tornou o lado preto da moeda inaceitável e porque nunca vimos o lado vermelho a sério. Os Polacos tiveram o infortúnio de passar a maior parte do pós guerra debaixo das bandeiras vermelhas, por isso hoje por lá é tão aceitável ser de um dos vários partidos de extrema direita como cá é aceitável ser do PCP ou do BE.  Apesar disso acho que, depois do advento das redes sociais e dos jornais com a possiblidade de os leitores deixarem o seu comentário anónimo, ninguém duvida que temos por cá umas boas centenas de milhar de cripto fascistas e muitos mais simpatizantes da causa, ou causas.

De todos os países da  UE a Polónia é o que mais sofreu às mãos do nazismo e do comunismo e por isso , num mundo mais racional, seria de de esperar que fosse o mais predisposto a encontrar o caminho do meio e a renegar extremismos, mas um mundo racional é quase utópico por isso aí temos os Polacos a eleger um governo que tende mais para a direita do que seria confortável e uma população que apesar de ser dos países com menos imigrantes e gente de outras cores e credos é das que menos gosta deles.

Eu não sou um gajo muito tolerante, tenho os meus preconceitos, há coisas de que não gosto e preferia que não existissem, por exemplo o Islão ou os hipsters , mas sou antes de mais  um gajo prático e a seguir  respeitador dos direitos dos outros , incluindo o direito a serem enganados, a acreditarem em fábulas, a vestirem-se como lhes apetecer e, resumidamente, a fazerem  o quiserem das suas vidas. Desde que me seja permitido ter o meu espaço inviolável, viver de acordo com a minha consciência, e desde que não se ande por aí a maltratar pessoas por quererem fazer o mesmo, ou por características que estão fora do seu controlo tipo a etnia ou o sexo, por mim já não está mau.  O mundo é muito grande e complexo e para isto ir funcionando é preciso esse caldear, equilibrar e sintetizar de todas as forças e ideias. Parece-me  cada vez mais difícil.

Por isso incomoda-me ver estas coisas, ver os extremistas a ganhar força e voz a cada dia, a  ignorarem ou negarem a História, ver ambos os lados a alimentarem-se do progresso dos adversários e do medo que provoca,  ver as vozes da moderação a perder força na torrente de mentiras, propaganda  e demagogia que escorre pela TV e internet como o proverbial esgoto a céu aberto e se alastra a todos os sectores da sociedade. O Guardian , jornal britânico que eu considero pouco, passou um mês a rufar o tambor para o nacionalismo Catalão para hoje vir lamentar o nacionalismo Polaco. São incoerências dessas que me fazem acreditar que os melhores tempos da Europa começaram no fim da segunda guerra e estão a chegar ao fim, só   espero mais divisão, polarização, atrito e conflito.

 

PS: Também estou a perder a esperança de ver o Sporting campeão este ano.

PS II -Quanto à indignação do dia, a história do Panteão, o que fica é que o nosso primeiro ministro nunca tem culpa nem é responsável por nada que não seja positivo e que Portugal é governado ao ritmo das redes sociais, sondagens  e focus groups. 

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Bertrand Russel e o Comunismo

Cá deixo a versão portuguesa deste pequeno texto do Bertrand Russel sobre o comunismo. Duas notas prévias, isto não é um texto magistral do calibre habitual de Russel nem foi escrito como manifesto, é só uma pequena dissertação incluída num livro de ensaios de âmbito mais alargado. A segunda , foi escrito em 1956 , muito antes da invasão da Checoslováquia e das obras de Soljenitsin , para citar dois pontos que serviram para explicar aos lúcidos a realidade do sistema soviético e da teoria subjacente. 12 anos antes dos tanques russos entrarem em Praga e mostrarem ao mundo a fraternidade soviética já Russel percebia bem o que estava em causa.

“Em  relação a qualquer doutrina política há que pôr duas questões: 1) os princípios teóricos são válidos? 2) É provável que a  sua prática política leve a um aumento da felicidade humana? Pela minha parte, creio que os princípios teóricos do comunismo são falsos e penso que as suas práticas  são de modo a produzir um incomensurável aumento da miséria humana.

As doutrinas teóricas do comunismo derivam de Marx, na sua maior parte. As minhas objecções a Marx são duas : é confuso e o seu pensamento é quase inteiramente inspirado pelo ódio.

Chega-se à  doutrina das mais valias, que supostamente demonstra  a exploração dos assalariados no capitalismo, de duas maneiras : a) aceitando sub-repticiamente a doutrina da população de Malthus, que Marx e todos os seus discípulos repudiam explicitamente; b) aplicando a teoria de Ricardo ao valor dos salários mas não aos preços dos artigos manufacturados.

Marx ficou completamente satisfeito com o resultado, não pela concordância com os factos ou pela coerência lógica mas porque é calculado para  provocar fúria nos assalariados. A sua doutrina de que todos os eventos históricos foram motivados pela luta de classes é uma imprudente e falsa extensão à história universal de certos eventos proeminentes em França e Inglaterra há cem anos. A sua crença de que existe uma força cósmica chamada Materialismo Dialéctico que governa a história humana independentemente   das vontades humanas é mera mitologia.

Apesar disso os seus erros teóricos não teriam tido muita importância excepto pelo facto de, tal como Tertuliano ou Carlyle, o seu principal desejo era ver os seus inimigos castigados, e importava-se pouco com o que acontecia aos seus amigos no processo.

 A doutrina de  Marx era suficientemente má, mas os desenvolvimentos por que passou com Lenin e Stalin tornaram-na muito pior. Marx tinha ensinado que haveria um período revolucionário de transição a seguir à vitória do proletariado numa guerra civil e que durante esse período o proletariado, de acordo com a prática usual depois de uma guerra civil , iria privar de poder político os seus inimigos vencidos. Esse período seria a ditadura do proletariado. Não devia ser esquecido que na visão profética de Marx a vitória do proletariado chegaria depois de este ter crescido até ser a vasta maioria da população.

Desse modo a ditadura do proletariado concebida por Marx não era essencialmente anti democrática. Na Rússia de 1917, porém, o proletariado era uma percentagem pequena da população, sendo a grande maioria camponeses. Foi decretado que o partido Bolchevique era a parte do proletariado com consciência de classe e que um pequeno comité de líderes era a parte do partido bolchevique com consciência de classe. A ditadura do proletariado tornou-se deste modo na ditadura de um pequeno comité e por fim de um só homem , Estaline.

Como o único proletário com consciência de classe, Estaline condenou milhões de camponeses a morrer de fome e milhões de outros ao trabalho forçado em campos de concentração.Chegou ao ponto de decretar que as leis da hereditariedade seriam   doravante diferentes do que tinham sido até ali e que até os genes devem obedecer a decretos dos soviéticos em vez dos de Mendel, esse padre reaccionário. Não consigo de modo nenhum perceber como  é possível que algumas pessoas que são simultaneamente humanas e inteligentes tenham conseguido encontrar alguma coisa de admirável nos vastos campos de escravos produzidos por Estaline.

Sempre discordei de Marx. A minha primeira crítica hostil foi publicada em 1896, mas as minhas objecções ao comunismo moderno são mais profundas que as minhas objecções a Marx.É o abandono da democracia que  acho particularmente desastroso Uma minoria apoiando o seu poder nas actividades de uma polícia secreta será sempre cruel, opressiva e obscurantista. Os perigos do poder irresponsável foram geralmente reconhecidos durante os séculos XVIII e XIX  mas os que esqueceram tudo o que foi dolorosamente aprendido nos dias da monarquia absoluta voltaram ao pior da idade média sob a curiosa ilusão que estavam na vanguarda do progresso.

Há sinais de que com o passar do tempo o regime russo se tornará mais liberal. Apesar de isto ser possível é muito longe de ser garantido.Entretanto, todos os que prezam não só a arte e a ciência mas uma suficiência de pão e liberdade do medo de que uma palavra descuidada da sua criança ao professor possa condená-los a trabalhos forçados na remota Sibéria, devem fazer o que estiver ao seu alcance para preservar nos seus países um modo de vida mais próspero e menos servil.

Existe quem, oprimido pelos males do comunismo, seja levado a concluir  que o único modo de combater esses males é  uma guerra mundial.Considero isso um erro.A dada altura tal política poderia ter sido possível mas agora a guerra tornou-se tão terrível e o comunismo tão poderoso que ninguém pode dizer o que restaria de uma guerra mundial e seja o que for que restasse seria provavelmente tão mau como o comunismo dos dias de hoje. Esta previsão não depende dos efeitos inevitáveis da destruição em massa por meio de bombas de hidrogénio e talvez de epidemias engenhosamente propagadas. O modo de combater o comunismo não é a guerra. O que é necessário em complemento dos armamentos que vão dissuadir os comunistas de atacar o Ocidente é uma diminuição dos motivos para descontentamento nas partes menos prósperas do mundo não comunista.

Na maiorias dos países da Ásia existe uma pobreza abjecta que o Ocidente deve aliviar na medida em que está ao seu alcance. Existe igualmente uma grande amargura causada por séculos de domínio Europeu insolente na Asia. Deve lidar-se com isto com uma combinação de tacto paciente com anúncios dramáticos renunciando às relíquias de domínio branco que sobrevivem na Asia.  O comunismo é uma doutrina criada a partir da pobreza , ódio e conflito. A sua disseminação só pode ser parada diminuindo a área de pobreza e ódio.

Este gráfico mostra a evolução da pobreza absoluta no mundo desde 1820. É notório que a tendência era já de queda quando o Marx avisava que só o socialismo nos podia salvar e que continuou e continua a  cair . Os comunistas que me façam um desenho a explicar como é possível que esta evolução coincida com a expansão e consolidação do capitalismo global, que era suposto só trazer miséria às massas. Feliz centenário.

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Centenário da Revolução

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Chato como sou com os comunistas até parecia mal se deixasse passar a data sem dizer nada sobre  os cem anos da revolução bolchevique na Rússia. Estimo que cem anos depois, com a poeira mais do que assente e com duas gerações enterradas, depois de mais de 20 anos para analisar os escombros e  a História, ouvir as pessoas, ver os sítios e contabilizar a  herança, todos já temos uma opinião sólida sobre o Comunismo e o sistema soviético. Algumas pessoas solidificam a sua opinião assegurando-se de que informação que não seja aprovada pelo Comité Central ou que seja posterior a 1989 não deve ser considerada.

A imprensa nestes dias esteve repleta de especiais  e artigos sobre o tema, há para todos os gostos, felizmente. Se estivéssemos num país comunista no dia 7 tínhamos que ir todos para a rua bater palmas, devia bastar dizer isso para encerrar de vez o debate sobre comunismo mas é impossível.

No DN  acharam por bem ir buscar um representante da espécie, nada  menos que o líder máximo dos comunistas portugueses, para falar sobre o tema. O camarada Jerónimo, que  como todos os seus é impermeável aos factos e insiste em ter uma História só para si , brindou-nos com um texto que poderia dar vontade de rir não fora a morte, miséria e opressão que ele nem refere de passagem.

Uma pessoa mais equilibrada podia perfeitamente fazer uma apologia do Comunismo cem anos depois e ao mesmo tempo fazer uma crítica e reconhecimento do mal que foi feito e dos erros cometidos, mas não. É engraçado notar que ele usa os mesmos termos, as mesmas frases, a mesma terminologia quer esteja a falar na Assembleia do República, na festa do Avante ou num artigo de jornal, o tom é sempre o mesmo e as patranhas também, desde a caracterização da revolução de Outubro, envernizada  como um movimento popular, até à velha história dos Bolcheviques terem vencido os Nazis sozinhos. Se apresentarem ao Jerónimo três calhamaços de historiadores credenciados, de três países diferentes, que documentem todo o auxílio material  dos Aliados aos Russos o camarada vai dizer : campanha de desinformação, manipulação e intoxicação, que é como é classificada toda a informação que contradiga a versão aprovada pelo Comité.

Jerónimo apresenta vários números, estatísticas  e listas sobre o extraordinário desenvolvimento tecnológico, económico, científico e social da URSS e uma pessoa (uma pessoa que pense) pergunta: mas então com todo esse desenvolvimento e avanço social porque é que aquilo caiu tudo como um castelo de cartas? As causas, para além de significativos factores externos, radicaram fundamentalmente num “modelo” que se afastou e entrou mesmo em contradição com os valores e ideais do socialismo, tiveram como resultado um grande salto atrás nos direitos e conquistas dos trabalhadores e dos povos.” 

Acho  estranho que o “modelo” que deu tão  bons resultados  afinal fosse  “afastado dos valores e ideais”, e nesta altura alguém devia tentar fazer ver ao Jerónimo  (ou a um  comunista de estimação que por acaso tenham, eu tenho dois)  que ou o modelo era como eles dizem que era e teve bons resultados ou não era , era um desvio e  caiu por causa disso. Defender as conquistas do comunismo para logo a seguir dizer que acabou porque não era bem comunismo é que não pode ser. Não pode ser, se quisermos respeitar a Lógica e  o significado das palavras, mas isso nunca foi o forte dos comunistas.

Sobre os mortos, as purgas, as fomes, os gulags, as limpezas étnicas, a polícia política, as ingerências, as guerras….nem uma palavra. Todos os detractores do comunismo, aos olhos dos comunistas, estão  ao serviço do grande capital , os nossos livros de História são mentira , as entrevistas dos sobreviventes do comunismo são todas mentira . Isto para mim está ao nível da negação do Holocausto nazi  e é uma ofensa à Humanidade.

Se no próximo 28 de Maio aparecesse num jornal um artigo  a enaltecer  partes positivas e  avanços  do Estado Novo havia  motins,  linchava-se o autor e fechava-se o jornal. Até podia tentar equilibrar a peça e falar de colonialismo , da Pide ou da miséria e falta de educação que não valia a pena, foi tudo mau, o fascismo, ou a nossa variedade, foi tão ignóbil como as outras e não se pode dar liberdade aos inimigos da liberdade, fascismo nunca mais e coiso. Entretanto temos um idoso soldador de formação cuja educação foi feita TODA no marxismo leninismo mais retrógrado e ortodoxo que alinha um texto pejado de mentiras ofensivas e ridículas a branquear um dos sistemas e regimes mais assassinos e destrutivos que o Mundo já viu, e é normal, é parte do processo democrático. Incrível. Mais me arrepia quando vejo jovens de 20 anos a debitar a cassete sem falhas, porque um velho comunista ainda é como o outro, viveu os tempos, acreditou, era uma ideia bonita, até arriscou ir preso por ser comunista, o caminho foi longo, custa mudar. Como é que se pede a uma pessoa que esteve presa por ser comunista que renegue o  comunismo? Diferente , muito diferente é ver um jovem de 20 anos a fazer a apologia da URSS e do comunismo,   tem o seu quê de sinistro.

Como Portugal ainda não é um país comunista ainda há debate e podem-se contestar e confrontar opiniões e ideias , e o artigo do Jerónimo foi prontamente seguido por outro artigo, do José Milhazes, a endireitar o registo. Este J.Milhazes foi daqueles que foi para a URSS com os olhos a brilhar e a sonhar com os amanhãs que cantam mas depois de muitos anos lá viu a realidade e tem passado o resto do tempo a contá-la cá e nesse artigo rebate impecavelmente os delírios do camarada Jerónimo.

Muitas pessoas dizem que o comunismo é uma boa ideia que foi mal aplicada. Eu digo que não, que é abominável e seria abominável mesmo se todos os preceitos e princípios fossem aplicados, e a aversão é simples de explicar : o comunismo nega o Indivíduo, desvaloriza o particular e a propriedade privada, obriga à acção   colectiva  e prescreve uma determinada orientação e organização para a sociedade. Eu acredito nos direitos do Indivíduo , na iniciativa e propriedade privada, defendo que a Sociedade não precisa de ser dirigida por nenhum comité central ou regional, que as decisões económicas devem estar nas mãos dos agentes económicos e que as desigualdades são uma característica e não uma anomalia. Defendo que o Estado deve ter intervenção e papel  limitados e que os cidadãos devem ser livres de ir e vir, comprar e vender , ler e escrever , ouvir e falar, tudo coisas que foram sempre impossíveis  no comunismo, e depois estes gajos ainda têm a lata de andar a comemorar os 100 anos da doença.

Tal como critico o Jerónimo por escrever loas aldrabonas sem ser capaz de apontar um defeito também sou capaz de apontar um resultado positivo da Revolução de Outubro: o medo que os bolcheviques instilaram no Ocidente e que levou a muitas evoluções importantes , nomeadamente no campo dos direitos dos trabalhadores. Foi o medo do perigo vermelho que pôs governos e capitalistas no caminho de reformas que beneficiaram toda a gente. É curioso como não foram os comunistas mas o medo dos comunistas a trazer essa mudança, e nem aí lhes concedo muito mérito, primeiro porque é causar mudança por meio de ameaça, real ou velada, e não me parece que seja etica ou moralmente muito meritório, e segundo porque nada nos garante que sem Revolução de Outubro as coisas não iam mudar na mesma. As teorias e as ideias circulavam, as queixas dos trabalhadores eram semelhantes em todo o lado,  e os capitalistas , tal como os comunistas ,  não comem criancinhas e até se diz que alguns têm mesmo um coração.

O número de pessoas que não sabe que Nazi é a abreviatura de Nacional Socialismo  é demasiado elevado, tal como é demasiado elevado o número de pessoas que não consegue ser contra o totalitarismo seja ele qual for, de direita ou esquerda , pela simples razão de ser totalitatismo, que não consegue aceitar que Nazismo e Comunismo não passam de duas faces da mesma moeda com muitíssimo mais em comum do que uns e outros gostavam de dar a entender.

Termino pedindo emprestada a reflexão de uma das mentes mais brilhantes  que o Mundo já conheceu e uma das figuras que mais admiro , Bertrand Russel , que neste texto de 1956 , quando na Europa ainda se podia acreditar na causa, explica sucintamente porque não é comunista .  Se amanhã o dia me correr bem traduzo-o para publicar aqui, porque há que lutar contra ideias más que pelos vistos não morrem, uma pessoa pode pensar que mais vale não lhes ligar e depois quando dá por ela tem comunistas no governo .

Outras Independências

A Catalunha continua ao rubro, os cabecilhas da conspiração (ou líderes patrióticos, consoante o ponto de vista), fogem para a Bélgica,  os que têm coragem  regressam e vão dentro. Por cá confundem-se presos políticos com políticos presos e o número de especialistas em Direito Constitucional espanhol explodiu. Eu não sei se a prisão deles é legal e justificada ou não mas, como sou contra este processo,  gostei de ver. Esta foto mostra o projecto de líder a exibir orgulhosamente 5 notificações judiciais  consecutivas pelo seu continuado incumprimento da lei. Agora já não tem tanta pressa nem orgulho no facto e fica com a defesa um bocado fragilizada:  “Eu sabia bem que estava a quebrar a lei mas nunca pensei que levassem isto tão a sério a ponto de a querer aplicar!”.

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De qualquer maneira, posso ter-me rido por ver a demagogia ir de cana mas prender (não este, que não tem tomates,  os outros todos)   parece-me  contra producente,  não acalma ninguém nem resolve nada, antes pelo contrário. É dar argumentos aos adversários de mão beijada, mesmo que o peso todo da lei esteja do lado do estado central, prender opositores serve mais a oposição do que outra coisa, a menos que estejamos a falar de um sítio como a Rússia ou a Venezuela, em que é uma técnica normal e, a julgar ela durabilidade dos regimes,  bastante eficaz. De um país como  Espanha esperava-se outra coisa, mas  os espanhóis nunca foram conhecidos por serem macios.

Vale a pena nesta altura lembrar duas outras tentativas relativamente recentes de independência, uma falhou, a outra teve sucesso.

A primeira foi a da Escócia, em 2014. Ora a Escócia é um país  há muito tempo,  faz parte de um Reino Unido em conjunto com a Inglaterra, Gales e a Irlanda do Norte e desde sempre que muitos escoceses contestam essa união e pedem o regresso a uma Escócia independente, só aí já têm um caso muito mais forte que os catalães, querem voltar  a ser uma nação. A chachada histórica que foi o filme Braveheart fez crescer exponencialmente a simpatia pela causa independentista, desde  1934 que existe um partido independentista, que foi concorrendo a eleições, espalhando a sua mensagem e o seu programa até que ganhou maioria na Escócia autónoma e finalmente a questão chegou a referendo.

Se há povo pouco revolucionário é o britânico,  é uma das coisas que eu admiro neles, directamente relacionada com a fleuma,  qualidade que aprecio muito. Ao longo de uns mil anos de História tiveram uma revolução, em 1688, que estabeleceu a monarquia constitucional. Há quem diga que nem essa devia ser chamada “revolução”, foi mais o culminar de um processo longo de afirmação do poder do Parlamento que até passou por uma guerra civil e uma república que durou dez anos.

O Reino Unido não tem uma constituição escrita como a maior parte dos países mas tem um corpo de leis e jurisprudência de séculos que explica e regula o modo como o Reino é Unido. Perante a agitação dos escoceses, os políticos britânicos fizeram o que fazem os políticos sofisticados e inteligentes, sentaram-se a negociar o modo como se podiam responder às aspirações de um grupo crescente de cidadãos. Duvido que houvesse na lei britânica provisão para uma secessão de um dos países que compõem o Reino Unido, mas num processo que devia ser exemplar houve anos de negociação e organizou-se um referendo em 2014.

84% dos escoceses votaram, eliminando logo aí dúvidas quanto à validade do resultado,  55,3% dos votantes disseram que a Escócia estava bem assim, 44,7% queriam um estado soberano, ficou assim. O referendo, por não ter sido organizado à margem da lei, foi livre , aberto, precedido de uma campanha de informação (e propaganda) de ambos os lados e resolveu a questão do separatismo escocês (até chegar o brexit, mas isso já é outra questão) . Hoje em dia a própria líder do Partido Nacional Escocês afasta novas tentativas de referendo e secessão, muito porque há consciência clara de que as pessoas iam ficar mais pobres  e a economia ia sofrer, e porque ainda há políticos que acreditam que a sua principal tarefa é melhorar a vida real e o dia a dia das pessoas e não fornecer-lhes  ilusões, panaceias e banha da cobra.

Não houve motins, não houve prisões, não houve debandada de empresas nem fugas de políticos, mais uma vez os britânicos mostraram ao mundo como funciona uma democracia moderna e se agora vai para lá uma salganhada medonha por causa do brexit devem-na pura e simplesmente ao populismo e ao calculismo pessoal de alguns políticos, as mesmas causas dos problemas na Catalunha.

No outro extremo da escala política e social temos o Sudão do Sul, nação  independente desde 2011 por secessão do Sudão , país que apesar de não conhecer pessoalmente tenho como sendo o fim do mundo. Passei quase uma semana no Mar Vermelho a navegar ao largo do Sudão e da Eritreia, do outro lado é a Arábia Saudita e tirando um furacão no Atlântico não me lembro de ter tanto medo no mar, só de pensar que se tivesse que arribar a um porto seria  um porto no Sudão arrefecia-me o sangue.

Algumas pessoas se calhar ainda se lembram do Darfur, até se fez  uma cançoneta pop que teve muito sucesso e  ajudou a chamar a atenção para causa. Andava toda a gente angustiada com  o genocídio das tribos negras do sul pelos árabes do norte e a atenção que isto trouxe à região encorajou os separatistas do Sul, a atenção internacional pelo genocídio e o facto de uns 75% do petróleo do Sudão estarem no Sul.

Como estes independentistas lutavam contra um regime liderado por um gajo que até tem mandato de captura pelo Tribunal de Haia, o ocidente, na ânsia de ser bonzinho e certamente também com um olho no petróleo, apoiou o separatismo do Sudão do Sul. Intensificou-se a guerra e declarou-se a independência. Lembro-me perfeitamente de ler um artigo na National Geographic, cheio de fotos lindas a leonizar o chefe dos independentistas e cheio de perspectivas melosas e optimistas para a nova nação e lembro-me  de pensar : estes não aprenderam rigorosamente nada em cinquenta anos de independências africanas.

O período de atenção da imprensa e, por conseguinte, da opinião pública, mede-se em dias e como o mundo apresenta constantemente dezenas de pontos de fome,  peste, guerra e cataclismos vários, hoje já ninguém quer saber daquilo para nada.  Continua a guerra e a miséria no Darfur , que curiosamente continua parte do Sudão depois de ter sido o caso que mais contribuiu para a criação do Sudão do Sul.

E que tal vai a jovem nação do Sudão do Sul, 6 anos depois da independência? Vai como seria de esperar, guerra civil, miséria, corrupção e  ódio tribal A guerra civil demorou só dois anos a rebentar  e os sudaneses do sul são tão ou mais miseráveis do que eram como simples sudaneses. Eu não passo de um curioso destas coisas,  que lê uns livros e acompanha umas notícias e espanta-me a sério como é que a generalidade dos políticos e especialistas  envolvidos nas organizações internacionais não viu tal como eu que a coisa nunca ia resultar. A ONU deve ter uma percentagem enorme de funcionários e oficiais que ou são muito ingénuos ou são estúpidos ou são completamente cínicos e andaram lá a ajudar a organizar uma independência que sabiam ia correr assim.

Falo destes dois casos não para dizer que nenhum territorio deve ser independente mas sim que têm que ser observadas um número de condições antes de se falar nisso. Na Escócia havia condições, havia processo, cumpriu-se a vontade das pessoas. No Sudão não havia condições nem processo e  cumpriu-se a vontade dos poderes de facto. Na Catalunha há condições mas não se criou nem respeitou um processo, agora tenta-se cumprir a vontade de uma minoria mas já está tudo tão inquinado que não acredito que haja salvação, entendendo como salvação um compromisso que garantisse antes de mais a paz e tranquilidade na Catalunha e depois o tal processo, desta vez um a sério liderado por gente séria , para  perceber e medir  com legalidade as intenções dos catalães e agir de acordo.

Como se não houvesse já bastantes detalhes patéticos nesta história, hoje a Venezuela veio exigir à Espanha respeito pelas liberdades e libertação dos presos políticos.  Passei quinze minutos a tentar encontrar uma frase para rematar isto mas não consigo.

Populismos

Continua a farsa na Catalunha, agora completa com um golpe de teatro e a fuga de Puigdemont para a Bélgica, para não ser preso e julgado. Depois destes meses em que os estrangeiros que não conheciam a figura puderam ver o seu nível, ideias e estatura, finalmente pode aquilatar-se também a sua coragem e confiança na causa pela qual mergulhou a Catalunha na confusão e divisão: não existem.

Um verdadeiro aspirante a estadista, por oposição a um cacique regional atingido por um ataque de megalomania, teria exposto a sua ideia e  o seu caminho e tinha-o percorrido até ao fim, se o fim fosse uma cela, seria uma cela, como testemunho da luta contra injustiça e opressão do Estado espanhol. Um gajo do calibre do Puigdemont agita, mente, troca-se todo, confunde, hesita  e por fim foge com medo das consequências dos seus actos. Mais ou menos por esta altura os apoiantes locais da independência catalã já estão a renegar o homem e a separar calmamente uma boa ideia de uma  má execução, dispositivo que justifica ideias de merda desde a aurora dos tempos, mais famosamente o comunismo, que até hoje, e já estou convencido de que até sempre, vai ter gente a defendê-lo com essa tese : a ideia é boa, a execução é que foi má. Ah, percebo, é muito possível, é pena é que só se aplique a causas tradicionalmente de esquerda por não tenho memória de ouvir uma alminha que seja a dizer por exemplo “o fascismo até tinha aspectos positivos, infelizmente foi implementado por gente má”. Não, o fascismo é inapelavelmente mau mas o comunismo tem nuances e eu que gosto tanto de uns como de outros fico com vontade de os mandar todos….nem sei.

O Público descobriu símbolos fascistas numa manifestação pela unidade de Espanha, e fez disso notícia. Pois é, símbolos fascistas, que vergonha, já foices e martelos vêm-se regularmente em tudo o que seja manifestação, mas isso já não é notícia, é normal, é saudável, é positivo que em 2017 tenhamos que levar diariamente com o branqueamento e normalização do comunismo, fico doente. Entretanto o mesmo jornal , sobre a vitória eleitoral de um candidato de direita na Austria diz que os populismos estão aí , é um artigo escrito por uma jornalista que até ganhou um prémio por um trabalho na Grécia em 2011 mas que não encontrou lá nenhum populista, só encontrou esperança, e  nem aqui ao lado o Podemos lhe cheira a populismo, é evidente que para esta senhora populismo só existe à direita.

Vi este videozinho sobre a História da Catalunha , partilhado por uma daquelas pessoas que simpatiza com o independentismo porque o governo central é de direita e cuja opinião mudaria imediatamente se em Madrid mandassem socialistas e na Catalunha fosse a direita a querer independência.

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 Está muito interessante mas não consegui ver nele um único argumento ou justificação para um estado Catalão independente.Não sei se estas pessoas acham que basta contar a História de uma terra para lhe conferir  automaticamente direito à independência ou se acham que devemos voltar atrás e rever todas as decisões históricas criadas por força das armas, negando-lhes as consequências e a validade. “Se foi à bruta, não vale”, ora aí está um bom princípio para repensar a História e as fronteiras da Europa.

Na guerra de Sucessão Espanhola os catalães decidiram apoiar o candidato ao trono que acabou por perder , Barcelona foi ocupada em 1714 e sofreu as consequências de ter lutado pelo lado que perdeu. Lutaram, perderam, acabou. Séculos mais tarde, na Guerra Civil espanhola mais uma vez alguns catalães decidiram lutar contra o Estado central.cMais uma vez perderam, mais uma vez se afirmou que a Catalunha é uma região de Espanha sem apelo nem agravo, e depois da autonomia conquistada e votada, depois de a Espanha se ter tornado uma democracia moderna, um Estado feito de muitas regiões, em que os cidadãos têm as mesmas liberdades e garantias que os das outras regiões,  pensava-se que a questão estava finalmente resolvida mas enquanto houver revolucionários por vocação, enquanto houver políticos ambiciosos e sem escrúpulos, enquanto houver pontos de fricção para semear a discórdia, enquanto houver intelectuais prontos a teorizar e enquadrar qualquer  “revolução” , nenhum assunto está encerrado.

Os comunistas e seus sucedâneos falam em primeiro lugar no sagrado direito à auto determinação dos povos  (com a URSS funcionava muito bem, essa autodeterminação dos povos) e já vi as comparações mais absurdas possível, por exemplo perguntarem-me se eu também era contra a independência de Timor Leste. É uma comparação estúpida mas estou habituado, tal como não me espanta ver lembrado que “em 1640 éramos nós”, como se o Hegel tivesse mesmo razão e a História caminhasse ao longo de uma linha  com um sentido claro e inevitável que faz com que haja um estado natural para uma terra ou região, e esse estado natural seja  uma entidade independente.

Enquanto não me mostrarem sinais claros de opressão, de discriminação e de injustiças sofridas por cidadãos por serem catalães; enquanto não me mostrarem em que é que uma Catalunha independente diferiria para melhor de uma Catalunha região de Espanha; enquanto não me apontarem o que é que os Catalães ganhavam com a independência além de orgulho que nunca pagou contas a ninguém, e mais importante que tudo, enquanto não provarem que há uma maioria do povo catalão a querer independência, não acredito no mérito da causa.

Uma notícia bastante reveladora dos processos morais de boa parte destes independentistas: Os 33 deputados dos partidos independentistas catalães não renunciaram aos seus lugares em Madrid aquando da declaração de independência, mostrando bem que há ligações que se podem quebrar mais facilmente que outras e que é mais fácil pedir aos outros que renunciem a certos privilégios do que renunciar aos nossos. Cambada de hipócritas interesseiros que passa  a vida a fulminar Madrid mas largar o seu lugarzinho e mordomias, tá quieto.

Tal como o líder independentista se queixou  de que a acção do governo central era  contra a constituição depois de renegar a mesma constituição, estes senhores exigem um país para si mas  querem ser deputados noutro país, ter voto na matéria em decisões do país que querem abandonar. Parece-me bem.

Tenho alguma pena dos milhões de catalães que estavam satisfeitos com a sua condição de catalães, espanhóis e europeus e que sabiam que os seus problemas não se resolvem com uma mudança de regime e estado político. Que estão a ver o seu país revirado por ideólogos e demagogos  , vizinho contra vizinho, e que agora encaram meses largos de convulsões políticas, consequências económicas negativas e agitação em geral, e vão sair disto mais pobres ( ou menos ricos) do que eram, acabe como acabar.

Para que não se fique a pensar que o facto de sermos uma nação com 900 anos em que toda a gente fala a mesma língua e tem  a mesma religião nos torna imunes a este género de delírios, aqui fica a página do Movimento pela Independência do Algarve , que tem no facebook 260 seguidores e em 2011 anunciava  a criação do seu braço armado. Tivémos sorte,  a Brigada Medronho não fez atentados em defesa da autodeterminaçao da Nação Algarvia mas ainda vai a tempo. O ridículo não mata e isso às vezes é pena.

Solidariedade Estatal

Entre as primeira reacções aos incêndios florestais que devastaram a região de Pedrógão Grande esteve a  contestação ao “aproveitamento político” das mortes. Qualquer pessoa que salientasse as culpas claras do governo na tragédia era logo  lembrada de que os outros também tiveram culpa. Tiveram, mas agora há só uns que podem fazer algo, os que governam, e esses não fizeram nem uma fracção do que deviam.

O governo disse que estava a ser feito tudo  que podia ser feito e que se iam retirar as devidas conclusões. Nem foi feito o que devia ter sido feito  nem se retiraram  as devidas conclusões, como se viu pelo relatório da comissão de Pedrógão Grande e como se demonstrou pelo regresso da desgraça  na semana passada, ardeu o Pinhal de Leiria e mais uns milhares de hectares e morreram outra vez dezenas de pessoas e animais, de mortes horrendas.

Em vez de passar a ver os incêndios como prioridade nacional  a seguir a Pedrógão Grande o governo, a 1 de Outubro, o fim da época de incêndios, encerrou os postos  de vigia florestal  . Alguém disse que se calhar não era das melhores ideias que já se tinham tido na Protecção Civil e a burocracia , dez dias depois, lá reactivou os postos. Se nenhum cidadão , se nenhum jornalista alertasse para o facto os postos eram para fechar até Maio, pelas contas e planos de uma agência governamental que se ocupa de proteger as vidas dos cidadãos.

Essa mesma agência foi remodelada na Primavera passada com as nomeações de pessoas que talvez não fossem as mais qualificadas e experientes para os postos, uma pessoa tem que questionar o critério. Parece-me senão ideal pelo menos justificado que se nomeiem pessoas de confiança política, mas sempre que esteja assegurada a competência, senão estão a defraudar os cidadãos nas suas expectativas. Mais uma vez não foi o caso, a competência actual da Protecção Civil e do seu belo SIRESP  está tristemente à vista de todos.

Ainda o chão estava quente em Pedrógão Grande, mais ou menos na altura em que o Costa encomendava um focus group à custa do erário público para aquilatar da sua popularidade, um amigo meu de Alcobaça pegou numa camionete, foi à cooperativa agrícola , carregou-a de fardos de palha e abalou para Castanheira de Pêra, uma das terras devastadas pelo fogo.

Desde esse dia, até hoje e sem indicações de parar, todas as semanas o João Luís, agora ajudado por vários outros, angaria e recolhe donativos, compra ração para animais e vai levá-la às populações. Já apareceu na TV, está sempre a “agitar” , a fazer propaganda, a animar as pessoas.Mais importante, constantemente dá conta do dinheiro que recebe e gasta, publica extractos, talões, facturas, todo o dinheiro que lhe entregam para comprar ração. Focou-se numa coisa simples e de primeira necessidade, já levou toneladas de ração, salvou centenas de animais e ajudou a minorar as dificuldades das pessoas que perderam  quase tudo.

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A sua operação é muito simples e é um belíssimo exemplo de solidariedade. Há centenas de milhar de pessoas sem o espírito e a energia do João Luís , que também sofrem com os incêndios e querem ajudar. A maioria desses olha para o Estado, e é má escolha.

Desde o IVA que pagam os donativos para várias campanhas até ao que se gasta na burocracia passando pelos tempos de espera, a solidariedade organizada pelo Estado deixa muito a desejar. Pior do que a pouca eficiência e roubo do imposto, é a selectividade.

O cidadão faz um depósito para “ajuda às vítimas” e o que quer e espera é ver a sua ajuda chegar  às pessoas desgraçadas. O Estado naturalmente sabe melhor, recolhe o junta os donativos e depois destribui segundo o seu critério superior e iluminado.

Ficámos a saber que quem quis ajudar e depositou dinheiro no Bordel na Caixa Geral de Depósitos contribuiu para se renovarem  e melhorarem  os Hospitais de Coimbra  , que receberam meio milhão do fundo de ajuda às vítimas. Renovar e melhorar hospitais é incumbência do Estado e não deve ser feito com donativos de caridade públicos. Se não são capazes de ter os hospitais em condições, admitam. Peçam donativos para isso.   Tenho a certeza de que as pessoas não contribuíram para a renovação dos hospitais, contribuíram para ajudar as vítimas, e esse meio milhão de euros desviados dava , por exemplo, para dar cinco mil euros a cem famílias vítimadas pelos fogos, que não as salva mas ajuda a enfrentar a situação. Cuidados de saúde  já estão garantidos , ou não? Até vem na Constituição, não me digam que este governo não consegue fazer cumprir a Constituição?

Se não conseguem identificar necessidades básicas e imediatas das populações e responder-lhes, como o João Luís e a sua camioneta das rações, peguem no dinheiro e mandem a GNR dá-lo às pessoas, vivo num envelope, elas de certeza que sabem melhor do que o Estado o que é lhes falta mais. A quais pessoas? Comecem pelas famílias que ficaram sem casa e pelos familiares dos mortos, não deve ser muito complicado encontrá-los mas nunca fiando, isto são as mesmas pessoas que compraram helicópteros que nunca voam e a poucos dias de arder o Pinhal de Leiria ainda não tinham lido o relatório sobre o Pedrógão Grande .

Além de ser imoral desviar e usar donativos para fins selectivos também não fica bem usá-los para coisas que são responsabilidade do Estado , como equipamento para os bombeiros. Tal como o Hospital de Coimbra , o equipamento do bombeiros deve ser  financiado pelo Estado, se o governo não consegue, admita-o.

Como parece que o Costa ainda não atingiu, admitir essas falhas do Estado e do governo seria um passo importante para nos proteger a todos de futuros incêndios e outras catástrofes, mas parece-me que mesmo, mesmo fundamental para o país e a merecer atenção e investimento considerável do Orçamento é o descongelamento das carreiras dos funcionários públicos. Invista-se nisso,  para carros de bombeiros e hospitais logo aparecem uns donativos.

Uma espécie de independênciazinha

Depois do drama, da encenação, das hipérboles e das declarações apaixonadas, o chefe dos independentistas da Catalunha falou ao povo que se concentrava na  praça e o via na TV,  centenas de milhar de pobres escravos de Espanha, cansados de séculos de opressão e miséria, aguardavam a esperada e histórica declaração de libertação. Acreditavam  que a sua vida melhoraria mesmo se em vez de viverem na Catalunha, região autónoma de Espanha, passassem a viver  na República da Catalunha. Puigdemont compôs a franja e disse  que declara  a independência… mas fica suspensa. Ou seja , não há independência nenhuma.                      DLzGf8OXcAAcaQ-

Como começou a ver a vida a andar para trás, como se tornou aparente que milhões de catalães estavam contra a ideia, que ninguém na Europa se oferecia para mediar a questão quanto mais reconhecer um estado catalão, que as empresas debandavam e os particulares começavam a levar as suas poupanças para outro lado, que a Fitch avisou  que o rating de Barcelona caía logo com a independência, e assim sucessivamente… teve que se vergar à realidade. Todos os inconvenientes e problemas óbvios que os independentistas nunca discutiam ficaram de repente muito mais próximos e evidentes, e o sr Puigdemont pedalou para trás na melhor tradição dos demagogos quando as suas mentiras são expostas. Junta-se assim ao grupo liderado pelo Tsipras, grupo de políticos que agitam as paixões da população com ideias fortes, amanhãs que cantam  e promessas de toda a ordem para na hora H baquearem e dizerem “afinal as coisas não podem ser bem como eu vos tinha dito”, por mil outras palavras. Outro mestre da demagogia é o Pablo Iglésias, que depois de meses a agitar sem papas na língua não só pelo confronto da Catalunha com o estado central mas pela  independência real  já veio elogiar o Puigdemont pela sua sensatez. Pela sensatez que demonstrou em não fazer o que o Iglésias defendia. Na mesma declaração e mostrando bem o grau de alucinação que vai na sua vida, comparou a Espanha à Turquia. É surreal.

Fiquei satisfeito pelo que na prática é a suspensão da declaração de independencia  porque como escrevi aí atrás temia que a loucura prosseguisse a fundo, que o Puigdemont fosse de palavra e coragem e declarasse mesmo que nascia ali a República da Catalunha, e seguia-se senão o caos algo parecido.

Não tenho conhecimento de mais nenhuma declaração de independência de validade diferida, de alguma ocasião em algum  país em que um dirigente ou movimento tenha feito uma algazarra e espalhafato épico para depois subir ao palanque e dizer “Vencemos! Havemos de ser independentes, um dia mais tarde e consoante decorrer o diálogo com todas as partes!!!”  Absolutamente ridículo.  Explica  Nuno Rogeiro:

O artigo 4º, n.4, da Lei 202-00065/11, dita do referendo, aprovada pelo parlamento catalão em sessão conturbada de 6 de Setembro deste ano, diz que o mesmo hemiciclo precisa de declarar a independência, concretizar os seus efeitos e iniciar o processo constituinte, 48 horas depois da publicação dos resultados da mesma consulta, se estes resultarem em mais votos «sim» do que «não».

A suspensão deste processo não tem cabimento legal, face à norma referida.

Ou seja: viola-se não só a Constituição espanhola, mas a lei do estado a ser.

Daí a desilusão dos que queriam «independência já». E o ceticismo dos que querem uma «negociação», mas sem saber qual.

Não aplaudo  a conduta do estado espanhol nesta história, podiam ter levado as coisas sem usar a força, mas tirei-lhes o chapéu e ri-me bastante quando o Rajoy perguntou ao governo catalão se afinal tinham declarado independência ou não .

É que há leis, leis que não ficam obsoletas só porque mudam os governantes, leis que não são  imutáveis mas que obedecem a preceitos para serem alteradas, e  se não acreditamos nisto mais vale dizer que o melhor é tudo ao molho e fé em deus, venha a lei do mais forte, das maiores manifestações, de quem tem maiores audiências, de quem fala mais alto.

A minha aposta é que depois deste festival vai tudo ficar na mesma por muitos e bons anos. Ficam também a animosidade e divisões criadas pelos independentistas, que certamente não vão desistir, e o prejuízo económico para a região.

O meu voto é que os dirigentes catalães se concentrem mais em fazer a sua terra funcionar melhor e em melhorar a vida dos habitantes, coisas que se podem bem fazer sem mudar o regime político nem precisam de um estado independente.

 

PS: Finalmente há acusação ao Sócrates, um documento com 4000 páginas! Eu e mais uns milhões bons de portugueses estamos plenamente convencidos de que o homem é um corrupto  que enriqueceu ilegalmente  à conta do cargo, e para isso não é preciso ler as 4 mil páginas, é uma opinião baseada no antigo adágio, quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem. 

Que ainda haja quem defenda o homem, que apresenta 24 milhões de euros numa conta da Suíça depois de uma passagem por S.Bento onde ganhava uns 5 mil por mês, ou 10 que fossem,  é das coisas mais extraordinárias que já vi. Que haja que seja capaz de dizer que uma acusação formal de 31 (!) crimes é uma cabala é extraordinário. Que haja advogados a defendê-lo, é preciso e é o trabalho deles, agora que haja gente que ainda espera pela sentença  para se pronunciar, é demais. Este processo é necessário para saber se há condenação e pena, e aos olhos da justiça o homem ainda é inocente, mas isso é aos olhos da justiça, que devia  ser ceguinha, não queiram que nós também o sejamos. Para mim qualquer pessoa que defenda o Sócrates ou está a ser pago para isso ou é estúpido.