Países de Merda

Já estive em países de merda, assim à cabeça da lista ocorre-me o Haiti e há mais uns quantos que eu considero nessa categoria mesmo sem nunca lá ter estado, tipo a Eritreia, a Moldávia ou a Arábia Saudita. Já ouvi várias vezes portugueses e estrangeiros chamarem a Portugal um país de merda, eu não partilho da opinião mas consigo perceber como é possível chegar a essa conclusão. Não me chocam essas considerações e se alguém se chocar com as minhas isso é-me  indiferente,  porque pessoas privadas podem exprimir as opiniões que quiserem, a menos que vivam num país sem liberdade de expressão, logo por isso candidato à categoria “de merda”. São meras opiniões.

Se somos uma pessoa com responsabilidades políticas ja não é bem assim, tem que haver um filtro e têm que ser observadas determinadas convenções. Um político, seja presidente de uma junta seja de uma nação, não pode dizer o que lhe vem à cabeça, tem que ter consciência da diferença entre a sua posição enquanto cidadão privado e enquanto representante eleito. Para ter essa consciência é preciso que tenha uma logo de início, e algum discernimento, coisas que faltam ao actual presidente dos EUA, que anteontem se interrogava em público porque é que “tinham  tantos imigrantes de países de merda e tão poucos de países como a Noruega”.

É natural que o cidadão Donald ache que países pobres e de gente escura sejam países de merda, mas referir-se publicamente a eles como tal, enquanto presidente, só mostra a quem ainda não tinha reparado que além de racista o homem é estúpido. De resto, qualquer pessoa que sinta necessidade de vir publicamente assegurar que é muito inteligente, um génio mesmo, deixa bem expostas as suas limitações e inseguranças. Nesta historieta dos “países de merda” , o  fait divers trumpiano do dia , o que é mais engraçado é que logo a seguir a essas declarações os fãs da criatura regozijaram-se por finalmente haver alguém que não tem medo de dizer o que pensa, e que pensa como tanta “gente normal”. No dia seguinte e como de costume o Trump veio negar que alguma vez tenha usado a expressão, ou seja, ele não disse aquilo para agradar à sua base nem para mostrar que tem o toque comum e que diz o que os outros têm medo de dizer. Saiu-lhe, disse-o sem pensar, porque é limitado nesse campo, e depois teve vergonha e negou o que disse, desiludindo a base que no dia anterior lhe louvava a coragem e a frontalidade para depois o ver  a pedalar para trás, expondo bem a dimensão da tal coragem e frontalidade.

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Já disse várias vezes que o que me incomoda mais no Trump não são as as suas políticas, concedendo que ele sabe o que é uma política e tem uma própria. Posso não concordar com elas, é diferente de as considerar   ilegítimas. O que me incomoda mesmo, além do egocentrismo desmedido, da  ignorância  e do vocabulário de adolescente, é esta estupidez constante e a disposição para ofender vinda de quem não sabe medir as consequências do que diz e passa a vida atolado em mentiras.

Quanto à dissecação que se anda a fazer da expressão “países de merda”, ou  “shitholes” , é sintomática dos tempos: como toda a gente vê e sabe o que toda a gente anda a dizer, toda a gente se policía e controla o discurso, não só  o próprio como o alheio. Que se faça isso a presidentes, é fundamental. Que se chateiem cidadãos particulares por acharem que certos países são  países de merda, é ridículo. Há quem ache que o politicamente correcto é um avanço civilizacional porque faz com se evite ofender sensiblidades ou pessoas, eu acho que  querer um mundo em que ninguem ofende ninguém é querer um mundo artificial de pessoas auto reprimidas e condicionadas pelos comités que explicam às massas o que se pode dizer e o que não se pode dizer. Pela parte que me toca, e como não represento nada nem ninguém, se eventualmente ofender  X,  tem que ser X a sentir-se ofendido e a pedir satisfações, se for Y a vir pedi-las em nome de X vai-se embora de mãos a abanar, que esta questão das ofensas não funciona por procuração nem interposta pessoa.

 

O PSD vai hoje a votos para escolher o novo líder. Não vi nenhum debate nem andei a ler programas de um ou de outro,  faço conta de nunca mais votar no PSD, mas tenho a minha preferência, que é Santana Lopes. Isto apenas porque Rio já disse que por ele avançava um Bloco Central , coligava-se com o PS. A haver um governo do PS em  coligação prefiro mil vezes que seja com a extrema esquerda, e isto tem uma razão muito simples: com o Bloco e o PCP na oposição a vida é um inferno de protestos, greves, agitação, imprensa histérica, manifestações e “agitação social”. De luta. Como se vê  desde que a geringonça pegou nisto, estando os comunistas e trotskystas no poder ou perto dele o país acalma logo, os jornalistas são muito mais comedidos, as histórias negativas são contextualizadas,  dá-se tudo aos sindicatos para não haver greves e não há manifs e protestos a encravar a vida ao cidadão. Exemplo concreto, neste Inverno em  15 dias morreram 600 pessoas devido ao frio e à gripe. Há 3 anos teríamos actrizes da política a bradar que a austeridade mata e que o governo tem que cair , hoje se alguém do BE ou PC falar sobre isto será para lamentar e exigir que se tomem mais medidas. Os combustíveis vão voltar a subir para os maximos de 2015, a diferença é que nessa altura eram os neoliberais a destruir o tecido produtivo e a sufocar o cidadão para dar lucros às petrolíferas , hoje é a vida, estamos dependentes das flutuações dos mercados e tal. Em 2014 emigraram de Portugal 134000 pessoas, era o desespero , o drama, o desânimo e a revolta. O ano passado emigraram 97000, é um movimento migratório natural e até tem vantagens em termos de remessas.

Porque prezo muito paz e sossego e abomino histerias e exageros prefiro ver a extrema esquerda a comer à mesa do orçamento com os seus princípios em banho maria e a votar a favor apesar de serem contra, do que ver um governo PS/PSD a brigar pelos despojos do Estado com os comunistas a agitar nas margens, para mim o pior dos cenários. Se o PSD tem alguma veleidade de voltar ao poder devia assumir-se como partido de centro direita, como adversário do PS e que rejeita coligações à esquerda, mas  o mais provável é escolherem Rio, que propõe o caminho mais curto para o poder. Muitos milhares que já votaram PSD, como eu, estão satisfeitos por finalmente haver uma alternativa para  quem não defende o socialismo, o estatismo e os arranjos dos que nos governam desde o fim da ditadura: a  Iniciativa Liberal, , uma hipótese de renovação.Espero que na transição de iniciativa cidadã para partido parlamentar não desiludam.

 

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Ano Novo

Passei uma semana no continente, é curto demais para uma visita em condições e mal tenho tempo de ver toda a família e amigos mas dá sempre para estar com a família nuclear e aquela meia dúzia de amigos crucial.

Ser largado no aeroporto de Lisboa nas vésperas do natal depois de um ano inteiro numa ilha pequenina é sempre um choque, a confusão, o barulho e a poluição começam logo à saída. Uma pessoa que chegue de uma grande cidade nem repara nessas coisas mas vindo de onde venho chego ali, olho em volta, respiro fundo e abano a cabeça. Como é possível?

Lisboa já esteve muito mais suja, falando  de lixo na rua, mas quer-me parecer que também já a vi mais limpa, não sei se a CML gasta o dinheiro todo em assessores e adjuntos a €4k por cabeça e depois fica sem verba para varredores e camiões do lixo, será uma questão de prioridades, pode haver uns montes de lixo aqui e ali mas podemos estar seguros de que o trabalho político é da melhor qualidade.

Todos os anos gosto de levar os meus 5 sobrinhos pequenos a alguma experiência diferente do que eles fazem todos os dias, é melhor do que oferecer um brinquedo e o ano passado tinha ficado combinado que este ano  íamos a um jogo de futebol. Eles nunca se esquecem e vieram logo saber do jogo, disse-lhes que não dava, não havia nenhum jogo do Sporting que pudéssemos ir ver nessa semana, à hora do jogo em Belém já eu tinha que estar no aeroporto para regressar. A minha sobrinha, que tem 4 anos e 4 irmãos, protestou que “não era justo porque o futebol é para meninos”. Ainda não reflectiu o suficiente sobre a questão do heteropatriarcado e da igualdade de género e eu fiquei sem saber qual a abordagem certa, se dizer-lhe que o futebol também é para meninas ou que íamos fazer outra coisa mais consensual e neutra. Devia enviar um email às Capazes a pedir indicações sobre qual a atitude correcta se a menina se recusa a participar numa actividade porque acha que é para meninos.

Lembrei-me de levá-los a dar uma voltinha de barco no Tejo, ficaram histéricos, pedi recomendações num grupo náutico no FB sobre barcos de aluguer no Tejo. Dantes havia 2 ou 3 barcos de charter, hoje há dezenas. Fiz uns telefonemas e percebi que os preços podiam não ser caros mas estavam bem fora do meu alcance. Uma das minhas expressões favoritas da vida é “quem tem amigos tem tudo” porque se prova verdadeira constantemente, e um amigo disse-me que não podia ir, estava a trabalhar mas que era só eu ir à doca e pegar no barco dele. Agradeci a confiança e a simpatia mas estes 5 são  um bocado índios e manter olho neles é incompatível com manobrar um barco. Outro amigo ofereceu-se para sair connosco no seu veleiro, lá fomos à doca de Alcântara e demos um belíssimo passeio até à Trafaria. O amigo é comunista e benfiquista, os meus sobrinhos ainda não sabem o que é um comunista mas aproveitei a ocasião para lhes explicar que há pessoas boas e amigas mesmo sendo do Benfica. Nisto a minha sobrinha comunica-me que se calhar é do Porto mas perante a minha expressão de tristeza disse-me que ainda estava a pensar. É que gosta muito de azul, critério tão válido como qualquer outro. Se acabar por não ser do Sporting mesmo com toda a lavagem cerebral e influência desavergonhada do tio, antes que seja do Porto.

De Lisboa para Alcobaça e no dia seguinte para as Caldas, cumprir uma tradição de mais de 18 anos, um jantar com os amigos da faculdade. Além da galhofa, da celebração da amizade e de contarmos uns aos outros como vai a vida é bom porque discute-se sempre muita política, coisa que aqui eu não faço por falta de interlocutores. Com aqueles amigos não só tenho a confiança de muitos anos como a vantagem de pontos de vista antagónicos, o que dá sempre pano para mangas. Um dos temas foi este  recente atingir de um novo mínimo na política nacional com a manobra dos partidos para tratarem da própria vidinha, juntando-se discretamente e aprovando sem actas uma nova lei que os isentava de IVA e eliminava o tecto de angariação de fundos. Dois problemas num : o conteúdo da proposta e o modo como foi cozinhada, difícil descobrir qual o mais grave.

A minha amiga simpatizante do Bloco acha que os partidos, como são fundamentais à democracia, se devem financiar assim e ter isenções destas. O comentário do Bloco ( que já vi noutras 3 ocasiões) de que são contra mas votam a favor, não lhe parece repugnante. O PCP também foi contra mas votou a favor e os contornos deste caso são uma nojeira pura, especialmente as declarações de uma deputada do PS (soube depois que é a sua vida desde os 22, tem 44 e nunca fez outra coisa) que disse que a isenção do IVA não prejudicava os cofres do estado, afirmação estúpida e obviamente falsa, mas é o que se pode arranjar.Espera-se agora que o presidente vete esta vergonha.

Quanto à questão da vida estar melhor graças à geringonça, é um facto para todos os funcionários públicos e pessoas que não sabem fazer contas. Ninguém se chateia com as cativações, com a degradação dos serviços, com os aumentos de impostos e  com o nepotismo porque há a percepção que a vida está melhor, e é esse para mim o grande triunfo da geringonça : convencer as pessoas de que isto está melhor por causa deles. O crédito ao consumo  também está a disparar e para muita gente isso é positivo, a mim mete-me medo mas talvez eu esteja enganado e seja bom para a economia.A manobra de transferir 200 milhões a Santa Casa para salvar um banco a falir seria, em 2013, suficiente para pedir a cabeça do primeiro ministro é confirmar que  governo não se importava com as pessoas e queria saber era dos bancos e empresas.Hoje não há problema nenhum , e é a essas e outras semelhantes que se deve o sucesso da geringonça: alteração de percepções sobre factos idênticos.

Houve acordo comum à mesa na excoriação do Trump, flagelo da humanidade e negação da decência na política e os amigos benfiquistas declinaram discutir bola, sabe-se lá porquê têm perdido o interesse.

Outro tema engraçado foram os pernis da Venezuela (tenho amigos de esquerda mas nenhum  defende o Maduro, são de esquerda mas não são estúpidos). Então a Venezuela não pagou a conta, não seguiram os tradicionais pernis de porco para o Natal e o mundo foi brindado com o Maduro a dizer que tinha assinado pessoalmente os cheques para pagar os pernis mas que Portugal os tinha sabotado. Tudo isto é maravilhoso, desde a ideia de ser o presidente a assinar pagamentos de importações até à noção de Portugal sabotar alguma coisa na Venezuela, é muito ridículo junto  mesmo vindo de quem já nos habituou a isso. O que é certo é que houve mais sofrimento para os venezuelanos e que a empresa nacional exportadora (por coincidência propriedade de um ex ministro, mas claro que é só coincidência) vai receber o dinheiro em falta, nem que seja do contribuinte português. É normal e tradicional que déspotas em todas as partes do mundo culpem interferências externas pela própria incompetência e a Venezuela está a testar essa ideia até ao limite.

Queria ir a um encontro da Iniciativa Liberal que decorreu no Saldanha mas nessa altura já estava doente e não conseguia sair, tive pena.Faço conta de lhes confiar o meu voto e queria aproveitar a oportunidade para fazer algumas perguntas e ouvir as pessoas que me poderão representar. Creio que se está a atingir um estado de saturação, que as pessoas se sentem roubadas e enganadas todos os dias pelos partidos com assento parlamentar e que muitos anseiam por uma mudança para lá da velha dicotomia esquerda/direita . Lembro que um ano antes do Macron ser eleito presidente da França o seu movimento era quase desconhecido, o que dá alguma esperança numa escolha que possa ir além dos partidos que há 40 anos dizem o mesmo e se dedicam a colonizar o estado e usá-lo ou a promover ideias do século XIX.  Fiquemos atentos.

Embarquei na sexta feira com febre e sei lá que mais, passei a noite em casa de amigos em Ponta Delgada e na manhã seguinte para a Horta, onde esperava, pelas previsões meteorológicas que via, ficar cancelado um dia ou dois. Depois da hora de atraso da praxe levantámos mesmo, fiquei um tudo nada apreensivo mas sei bem que não só o pessoal da Sata tem melhores fontes de meteorologia do que eu como confio a 100% nas decisões dos pilotos. Mesmo assim aterrámos nas Flores com alguns gritos, orações e muitos aplausos, abanou demais para o meu gosto e pousou numa roda, mas pousou. De volta à minha existência privilegiada em que deixo o carro, aberto, a 40 metros das chegadas e de regresso às Lajes, onde encontrei um cordeirinho acabado de nascer, o cão um bocado deprimido e o gato ausente em parte incerta. A do cordeiro é interessante porque na sexta feira sonhei  que tinham nascido cordeiros, e nessa tarde recebo uma mensagem do amigo que me tomou conta dos bichos a dizer que tinha nascido um. É daquelas coisas que dá que  pensar a gajos cépticos com dificuldades a acreditar no sobrenatural, como eu.

Continuo de cama mas em recuperação franca, a congratular-me por ter trazido caixas de comida sobrada das ceias que me vai manter uns dias evitando-me o suplício de cozinhar. O gato já voltou, o cão esta mais bem disposto e espero passar o ano na cama, provavelmente a dormir. A noite da passagem de ano só teve significado especial para mim quando era novo e era uma noite que se podia passar fora. A partir da altura em que podemos passar fora todas as noites que quisermos perde muito o encanto.

Não há balanços nem listas, coisas que nesta altura saturam tudo, há só a observação de que há um ano comecei a fazer yoga e o que e certo é que ainda lá ando e espero continuar, pela primeira vez uma das famosas “resoluções” foi levada a termo e é para continuar. De resto os meus desejos para 2018 são ver o Sporting  campeão, fazer melhor do que 16º nas regatas de botes baleeiros na Semana do Mar  e finalmente poder iniciar a produção legal de Ovelha Negra  .

 

Pesos, Medidas e Trump, outra vez

Quase todos os dias alguma novidade da administração americana me causa um refluxo gástrico. É verdade que me podia preocupar mais com a nossa administração, mas quanto à nossa já cheguei a uma conclusão: os problemas estruturais de Portugal são insolúveis e enquanto o fundamental estiver assegurado (a pertença à UE e ao Euro) o resto são detalhes, as decisões de peso tomam-se noutras paragens e de qualquer maneira a maioria das pessoas não quer saber. 200 euros em gambas contribuem para  um escândalo nacional, 200 milhões da Santa Casa para um banco a falir não incendeiam as redes sociais.  Não há nada como uma pessoa perceber que a situação não tem remédio para deixar de se preocupar. As pessoas acham importante  saber com quem vai casar o neto da rainha de Inglaterra, como está a saúde do Salvador Sobral e coisas do género, e quem se agasta e preocupa com questões políticas , ainda mais estrangeiras, tem as prioridades trocadas. Por cá está tudo bem.

Já a situação nos EUA me assombra não só pelo impacto num país que me era caro e que conhecia bem mas também  porque nem três clones do João Galamba a falar todos os dias conseguiriam atingir um nível tal de mentira, falta de nível, ofensa e  hipocrisia política como o Trump consegue. Todos sabemos que a política é feita de hipocrisias e distorções mas devia haver mínimos, ou máximos a partir dos quais se retirava a confiança aos governantes, especialmente em democracias, mas não, nem que esfreguem este gráfico na cara dos apoiantes do Trump eles vão admitir que este homem não é de confiar . O Obama, em 8 anos de presidência, mentiu confirmadamente 18 vezes. Este em menos de um ano  já vai em   103.

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Mais do que me chateiam  as mentiras e canalhices do presidente irritam-me muitas  opiniões e análises que vou lendo por cá. Nada me fará mudar de opinião sobre o Trump, especialmente porque pessoas daquela idade não  mudam, e o facto de se conseguir desculpar e apoiar um homem com a estatura moral de uma ratazana de esgoto deixa-me doente.

Claro que se pode concordar com as políticas da sua administração (dizer que são dele é admitir que ele seria capaz de delinear e implementar uma política, já está provado que não é) , se formos contra a imigração, a segurança social e a favor de mão pesada da polícia, por exemplo, é normal que se goste do homem, mas há uma coisa que me tem dado um nó na cabeça e que infelizmente ninguém explica nem , que eu saiba, pergunta claramente aos trumpistas nacionais: como é que aumentar o deficit em 1,3 triliões de dólares é saudado como uma coisa boa? É que as pessoas de direita que apoiam o Trump são as mesmas que, por cá e com o meu apoio, exigem déficits menores e controlados. Essas pessoas agora aplaudem uma explosão do deficit porque se baixaram os impostos, e eu não entendo. Déficit grande é mau cá e bom lá? Se calhar é e eu não percebo. Aplaudem estes cortes de impostos que , segundo todas as análises e cálculos, beneficiam desproporcionalmente os muito ricos, indo ao extremo de incluir um benefício fiscal a quem tenha um jacto particular, e o pessoal aplaude. Um senador republicano em fim de mandato, Bob Corker, anunciou que ia votar contra. Introduziram uma emenda que dava mais beneficios fiscais a quem, como ele e o Presidente, tem empresas imobiliárias, ele mudou de ideias e já votou  a favor, e anunciou isso sem vergonha frente às câmaras.Hienas.

Ontem o presidente anunciou a sua primeira comutação de uma pena, prerrogativa presidencial, a possibilidade de reduzir a pena de alguém que se acredite merecê-lo. Os EUA têm talvez a maior população prisional do mundo, nos milhões atrás das grades haverá milhares de casos de penas desproporcionais ou  controversas e reclusos merecedores. Trump decidiu comutar a pena a um milionário condenado por fraude bancária. 

Não há um limite moral? Por mais que se admirem as políticas, será que se pode continuar a apoiar um homem assim, que nem tenta disfarçar os seus instintos e motivações? Outra : por cá a direita, e mais uma vez com razão, do meu ponto de vista, argumentou que o crescimento económico nestes anos da geringonça se devia principalmente às medidas e reformas do governo anterior. Extraordinário que essas mesmas pessoas publicitem que o crescimento nos EUA neste ano é da “economia Trump”, resultado das políticas desta administração. Mas não vêm a incongruência nisso? Como na história dos déficits bons e deficits maus, aqui o crescimento deve-se a políticas passadas, lá deve-se ao governo actual. É demais.

Gostava de escrever mais sobre a ilha, os animais, os barcos, a cerveja artesanal, a época  e coisas assim mas isto enerva-me de tal maneira que tenho que ventilar, e como o cão e o gato não são sensíveis à problemática, é mesmo aqui.

 

Alabama

A primeira coisa que vem à cabeça de muita gente quando ouve “Alabama” é  a canção dos Lynyrd Skynyrd  que toda a gente conhece, mesmo à das pessoas que se riem ao lembrar-se desse estado.  Não há muitos sítios que definam melhor o Sul dos EUA que o Alabama, e tudo o que sei dele, incluindo algumas passagens (não lhes posso chamar bem  visitas) e conversas com nativos  chega para o considerar o fundo  da nação, talvez dispute o título com o Mississipi, dá ideia que a única salvação do Alabama é  a equipa de futebol universitário, que é dominante a nível nacional, e não se pode tomar o futebol universitário como coisa irrelevante. Quem não gosta ou não segue futebol americano não tem lá nada para admirar, até a costa do Golfo do México está morta e degradada.

A história do Estado conta-se em pouco tempo. Os espanhóis foram os primeiros a passar por lá, no século XVI, vindos das suas deambulações por La Florida, sem fazer grande coisa que ficasse. Nos princípios do século XVIII  Instalaram-se  franceses e  fundaram Mobile, ainda hoje o maior porto do Estado. Quem já lá andava há muito tempo eram os índios, mas a esses nunca ninguém perguntou nada. Em 1800, apenas 20 anos antes de o Estado ser criado viviam no território do Alabama 1250 pessoas.Ou melhor, brancos, porque o resto não contava. No primeiro ano como Estado já lá viviam 127000 e acelerou  o processo inspirado pela teoria do Destino Manifesto que dizia que  Deus os levou àquela terra em reconhecimento da  virtude deles e que podiam fazer como entendessem, desde que de acordo com a Bíblia. Os selvagens, como tal, são para  expulsar e exterminar. Foi rápido, devido à desproporção de forças e ao influxo gigantesco de imigrantes europeus. Irónico, o ressentimento de tantos descendentes desses  imigrantes contra os novos imigrantes.

Depois do massacre e expulsão dos índios, a escravatura. Importaram-se centenas de milhar de africanos ou de pessoas que já não eram africanas por terem nascido na América mas eram tratados como bichos na mesma, e continuou a exploração. Em 1860 rebenta a Guerra Civil,  o Alabama foi dos primeiros a pegar em armas para defender os direitos dos estados , nomeadamente o direito a ter outras pessoas como propriedade. Não havia grande contradição, no Alabama de  hoje 78% da população é Protestante e desses, 49% são Evangélicos. ainda hoje mais de metade das pessoas do Alabama acredita no mundo criado em 6 dias, em  Eva  feita a partir de uma  costela de Adão e  na cobra falante. Tentei saber a proporção exacta de crentes em  Portugal, lamento mas não me apeteceu procurar muito e não encontrei, mas acredito e espero que a percentagem que aceita a Evolução seja muitissimo maior, tal como a dos que  não procuram orientação literal e fixa na Bíblia. No Alabama sempre houve mais pessoas que adoram e estudam a Bíblia literalmente, e sendo assim , encontraram  lá consolo e justificação para terem e maltratarem outras pessoas, especialmente sendo as outras pessoas filhos de Ham, como são biblicamente os africanos. Tem a ver com a história do Noé, pai de Ham, mas não me vou alongar sobre  imbecilidades senão isto nunca mais acaba.

O Sul perdeu a guerra civil mas se lá andarem hoje fartam-se de ver a cada passo muito orgulho nos  derrotados. Os escravos foram libertados mas como está bom de ver não basta uma lei, ainda por cima uma lei que levou a uma guerra, para que as pessoas comecem a olhar para as outras de modo diferente, ou,  vá lá, como pessoas. Os negros sempre tiveram a vida desgraçada no Alabama do pós guerra civil, com uma fracção dos direitos dos brancos e sempre, sempre sujeitos a toda a espécie de discriminações, abusos e violências, a começar pelas do Estado.  É ler “To Kill a Mockingbird”, por exemplo . O romance por excelência de denúncia e alarme contra  os preconceitos e iniquidades causadas pelo  racismo  nos EUA  passa-se  no Alabama. Como redenção na desgraça, mostra-nos que no meio dos animais se pode sempre erguer um Atticus Finch,  que há justos em todos os cantos do Mundo.

A segregação racial, o KKK, o criacionismo nas escolas, durante toda a metade do século passado o Alabama ia ficando para trás enquanto o resto da América evoluía na direcção de reconhecer igualdade de direitos  entre raças, que já chegou em teoria mas ainda não chegou na prática. O Alabama permanecia firme no século XIX, e figura alto numa das minhas histórias preferidas, que li nesta Biografia de África:

Em 1957 Richard  Nixon, então Vice Presidente, foi ao Gana por ocasião da celebração da independência do país. Num cocktail depois das  cerimónias oficiais Nixon aproximou-se de um jovem impecavelmente vestido que ele tomou como  Ganês e perguntou-lhe:

-Então, que tal é ser livre?

-Não faço ideia, senhor. Sou do Alabama.

E nesta base se desenvolveu  o Alabama, que só chegava às notícias por causa da luta dos Direitos Civis. Rosa Parks tornou-se heroína da nação ao recusar-se a ceder o seu lugar a um branco no autocarro, no Alabama. Martin Luther King jr fazia discursos tremendos e marchas de protesto enormes, no Alabama. O KKK incendiava igrejas e enforcava pessoas a meio da noite, no Alabama.

Chegamos a 2017 e o presidente é um indivíduo que não se cansa de dizer que ama o Alabama e os seus valores, o que não surpreende dado que é o mesmo que foi processado pelo Estado nos anos 80 por só aceitar  inquilinos brancos nos seus prédios em NY, que se diz muito cristão apesar de já ir no terceiro casamento escabroso e  não vale a pena começar a tentar listar a podridão do homem senão nunca mais me despacho, ele é a podridão em forma de gente.

O lugar de senador do Alabama vagou e ontem houve eleição especial para o substituir. O candidato democrata era um homem conhecido por ser o procurador que processou membros do KKK pelo assassínio de quatro  meninas quando puseram uma bomba numa igreja , lá no tempo em que a América era Grande . O candidato republicano era um ex juiz chamado Roy Moore, conhecido entre outras coisas por ter sido condenado e demitido pelo Supremo Tribunal por ter mandado instalar no relvado do seu  tribunal uma placa com os 10 Mandamentos. Acredita e diz para quem o quer ouvir que Deus tem que ser  fonte da Lei, como dizem os Ayatolahs, e não aceita ( juiz, atenção) a separação constitucional entre Estado e Igreja sem a qual, concordam todos os lúcidos, não pode existir verdadeira democracia. É  declaradamente contra os direitos dos homossexuais , acha que devia ser ilegal e também  disse que ” eliminar as emendas constitucionais depois da décima eliminava muitos problemas do país”. 

A 13a emenda aboliu a escravatura ; a 14a confere protecção igual a todos os cidadãos; a 15a proibe a negação do direito de voto baseado na raça; a 19a dá o direito de voto às mulheres e a 22a instituiu termos de mandato para os presidentes. Já dá para ter uma ideia razoável do pensamento político deste homem. Apareceu num comício vestido de cowboy, a mostrar uma pistola e tudo, e ontem foi votar  a cavalo.Não percebo de cavalos nem sei montar  mas  achei cómico e toda a gente que percebe de equitação se fartou de rir, porque se o homem alguma vez soube montar, já foi há muitos anos,  fez uma triste figura.

Também de há muitos anos vieram acusações um bocado sórdidas: O juíz Moore, na altura procurador nos seus 30 anos, gostava de miúdas adolescentes, andava atrás delas , “namorava” com elas, algumas de 14 anos. Foi proibido de entrar num centro comercial por andar a importunar as moças. Se é crime não sei, mas mostra uma pessoa um bocado nojenta. Nestes dias se  se fala de nojo na política americana o Trump não anda longe, e claro está, acabou a apelar ao voto no Moore para Senador. Um racista que defende a teocracia e é um alegado abusador de menores. Categoria. Classe. Sentido de Estado.

Deitei-me a pensar na eleição (é estranho mas é verdade, e nem conheço ninguém no Alabama…) e hoje para variar tive boas notícias pela manhã, o Moore perdeu. Os resultados foram 49.9% para 48.4%, margem finíssima mas prevaleceu a decência. Claro que o Trump já veio dizer que sempre soube que o Moore ia perder, confirmando que está sempre ao lado dos seus amigos e apoiantes e que é um homem de convicções. No Alabama que vive no século XXI respirou-se de alívio e ganhou-se alento, em Washington consta que agora só falta aprovar o novo regime fiscal, feito isso os oligarcas já têm o que querem e já podem deixar cair o presidente, esse palhaço que é uma vergonha para a América. E que tem 55% de apoio no Alabama.

 

 

 

 

 

O Assessor

Este Natal vou passar algum tempo com os meus sobrinhos mais novos e espero falar com eles sobre carreiras futuras. Existe um sector em que vai continuar a haver grandes oportunidades de avanço e criação, o tecnológico, pelo que a aposta mais segura são as Ciências Exactas e as Engenharias, é por onde passa todo o futuro. Se fossem para enfermagem ou medicina seria sinal de que os ia ver ainda menos, parece que a maioria dos jovens médicos nacionais está só à espera de terminar a especialidade para se mudar para um país que pague o que eles acham que devem receber. Se forem como o tio terão algumas dificuldades naturais com os números e as fórmulas e uma carreira na Ciência será muito difícil.

Vou desencorajá-los das Letras e das Artes, primeiro porque (odeiem-me,  artistas unidos) acho que mais um ou menos um não faz diferença nenhuma, a Humanidade não avança por mais um soneto,  acorde ou pintura. Para me convencerem do contrário teriam que me explicar que a actual  avalanche de produção artística que temos disponível (e da qual não somos fisicamente capazes de usufruir de 1/10 sequer) não satisfaz as necessidades humanas correntes . Tenho para mim que estamos bem servidos, não ganhamos nada em incentivar medíocres e os génios não precisam de incentivos nem se acanham ou recuam por serem desencorajados.

As Ciências Sociais são um bom caminho para duas coisas, primeiro, o que eu escolhi,  perceber um pouco melhor como isto funciona e como é que se sabe como isto funciona. É óptimo para ficarmos cínicos e perdermos a esperança, ou ficarmos militantes  e perdermos a noção. É um caminho de satisfação puramente pessoal, para quem entenda o conhecimento  como um fim em si. Profissionalmente, a saída dos cursos de Ciências Sociais vai estar sempre ligada ao ciclo da governação: havendo socialistas no poder contratam-se mais sociólogos, genericamente falando. Estando os menos socialistas no poder, contratam-se menos, isto muito porque em Portugal quem tem que dar a fazer a sociólogos é o Estado, daí os períodos de expansão ou contracção. Agora estamos em expansão e vamos estar até pelo menos às próximas eleições ou bancarrota, o que acontecer primeiro. A Sociologia não é  a única Ciência Social, é certo, mas dado o tamanho da nossa economia e das nossas empresas, alguém que faça um mestrado em Demografia, por exemplo, tem 99% de hipóteses de trabalhar para o Estado e 85% de hipóteses de esse trabalho ser a ensinar. Inventei agora essas probabilidades  mas não deve andar longe disso.

O Direito é a opção por defeito de toda a gente  que aspira a formação superior mas não tem uma vocação clara e específica,  é aquele curso que dá para fazer de quase tudo e confere o almejado tratamento de doutor assim que se conclui a licenciatura, uma das nossas idiossincrasias mais bizarras . Li há muitos anos que o número de advogados era um dos principais problemas dos Estados Unidos, não será o nosso mas talvez para lá se caminhe, uma sociedade em que  há excesso de gente a argumentar, justificar, criar casos e litigar , tudo coisas que fazem falta mas que não deviam criar a sua própria procura , como é o caso nos EUA. A cultura de processar por tudo e por nada nasce daí, do trabalho infatigável de hordas de advogados que mais não fazem do que procurar rentabilidade em agravos sofridos por outros, reais ou imaginados. Não é muito saudável para a sociedade.

Se os meus sobrinhos não mostrarem uma vocação, talento ou ambição vincada, de serem astronautas ou canalizadores ou cozinheiros ou arquitectos, vou-lhes recomendar vivamente que considerem a profissão de assessor, em Portugal não conheço nenhuma que tenha tantas vantagens e tão poucos inconvenientes.

Assessor:  Pessoa que tem como função profissional auxiliar 

um cargo superior nas suas funções. 

Como não existe nenhum curso de assessor em que se possam matricular quando chegar a altura, vou ter que lhes fazer um plano de estudos e progressão. Começam bem posicionados porque são lisboetas. O governo está em Lisboa, tudo o que importa passa por lá, o resto do país é paisagem pelo que só pelo facto de serem lisboetas já têm meio caminho andado para o topo da carreira da assessoria.

A seguir, a educação. É essencial matricularem-se numa universidade, e quanto mais renomada , melhor. Isto não é  por causa da exigência curricular, é porque é nas melhores universidades que se conhecem os rebentos das elites e se socializa com os aspirantes à casta do governo, sejam os que lá vão parar por morgadio seja por mérito próprio. Depois da matrícula o passo principal é a participação em tudo o que seja “vida académica” aquela expressão que engloba tudo o que os estudantes fazem menos estudar. É preciso entrar nas disputas das associações académicas que rivalizam entre si para ver quem tem maior capacidade de organizar sessões de alcoolemia colectiva e música de merda ao vivo. Este passo é precedido de um muito mais crítico: a inscrição numa juventude partidária. Aqui há que ser pragmático, eu vou-lhes sugerir que se filiem na JS, isto porque pelos meus cálculos quando eles andarem pela universidade já o país foi outra vez à falência e voltou a ser resgatado, estando por essa altura numa fase de expansão, tradicionalmente a fase que cabe ao PS, que nessa altura vai estar a contratar em grande, como agora.

A seguir à filiação na jota e a fazerem o tirocínio na demagogia, combate político e manipulação da comunicação nas brincadeiras das Associações de Estudantes devem prestar alguma atenção ao CV, ou seja, ir fazendo uma ou outra cadeira aqui e ali. Como foi  demonstrado, neste país temos ministros e primeiros ministros com licenciaturas obtidas na Farinha Amparo, só agora alguns ministros e secretários de estado se começam a sentir escrutinados e (primeira grande vantagem do mundo da assessoria) dos assessores ninguém quer saber as qualificações. “Frequência suspensa do curso de Direito da U.Católica” dá perfeitamente.

O passo seguinte, escolher os amigos e ser-lhes leal. Aqui é preciso algum discernimento e não se podem favorecer os amigos mais inteligentes ou íntegros mas sim os mais espertos e desenrascados, sobretudo porque os primeiros raramente acabam na política. Não podem querer aquele das respostas lentas e ponderadas, a aposta é no que tem sempre resposta para tudo e nunca se atrapalha com nada. Os que nunca se envergonham e que adoram falar em público, é desses que o aspirante a assessor se deve aproximar e cultivar a amizade. Quanto maior for o círculo de amigos da juventude e da associação , melhor, é o princípio do networking, é nas “lides universitárias” que se começam a tecer as redes que nos têm a todos  nas suas malhas.  Nesta fase é muito importante não dar passos em falso, e o melhor para isso é não fazer nada, nunca tomar iniciativa nenhuma mas estar sempre disposto a seguir as  iniciativas dos outros, e ser sempre lembrado como um gajo de confiança que colaborava sempre em vez de um  gajo que teve uma data de ideias falhadas e/ou estúpidas e que fazia muitas perguntas. Se se falar pouco também se arriscam  poucas asneiras, pelo que o silêncio colaborativo e o apoio entusiástico a decisões já provadas correctas são fundamentais. É nesta fase que se deve começar a amealhar grande reserva de lugares comuns da profundidade de um  “é necessária uma política de mudança”, e  “queremos incentivar sinergias que promovam a resiliência” porque é essa língua que se fala lá e quanto mais cedo se começar a praticar, melhor.

Se neste espaço de tempo em que constrói a sua rede e aprende o vocabulário o futuro assessor  encontrar tempo para estudar, melhor, e se houver tese, que seja sobre um assunto pertinente ao Estado, tipo “A Influência do Período de Rotação de  Escala nos Recursos Humanos da Administração Pública da África Portuguesa” ou “Práticas de Comunicação Intermodal nas Políticas Contemporâneas de Transportes Urbanos” , temas que não interessam a ninguém nem contribuem para grande coisa mas que conferem lastro ao indivíduo e permitem que este se apresente como “dr não quantos, autor de trabalhos académicos na área da administração pública”.

Ao fim de dois ou três anos nestas ocupações universitárias haverá uma campanha eleitoral, aí o aspirante a assessor tem que dar tudo por tudo e por uma vez mostrar dinamismo e iniciativa, isto porque numa campanha não há muito que inventar : trata-se de fazer barulho, diminuir o adversário e fortalecer o candidato. São sempre precisos “colaboradores incansáveis”, e numa campanha eleitoral o futuro assessor tem oportunidade de provar a sua lealdade, dedicação e capacidade de trabalho, a colar cartazes, distribuir panfletos,conduzir carrinhas com megafones ou a desenvolver  outras actividades do género, tão necessárias à democracia moderna. Não há campanha vencedora sem espólio, e o espólio  tem  invariavelmente a forma de lugares no Estado. O facto de o termo comum ser “lugar” já diz muito sobre este processo. Ora o futuro assessor  tem que ser esperto e nunca se posicionar como candidato a coisa nenhuma, delegado de nada , nem sub nem vice nem, em resumo, nenhuma posição que implique responsabilidade e escrutínio, mesmo que esse escrutínio seja à portuguesa, ou seja, largamente teórico e sempre manso. O assessor deve, isso sim , esperar que um dos seus amigos, ou amigo de um amigo, seja  alçado à tal directoria, ministério  ou vereação para aí sim, ser contratado como assessor e poder descansar.

Um assessor não é eleito e enquanto dura o seu contrato  junta os habituais benefícios do vulgar funcionário público aos abusos egrégios da classe política. Sobre as qualificações do assessor e a sua necessidade só responde quem o contrata, que pode dizer o que quiser e não é obrigado a nada. Se apetecer ao senhor vereador contratar a louraça  que tem o 12º nas Novas Oportunidades mas que é muito amiga do seu amigo, nada o impede de o fazer, mesmo que já tenha 3 assessores.

Como o trabalho dos políticos é fluido, o dos assessores ainda é mais, isto para dizer que esqueçam relógios de ponto ou mesmo horários ou controlo de qualquer espécie , se a assessoria for mesmo boa nem precisam de pôr os cotos na repartição ou direcção geral que ninguém repara e ao fim do mês cai sempre na conta. Se o director geral ou secretario de estado faz merda da grossa ninguém nunca sabe quem é o assessor, ou seja, responsáveis políticos podem eventualmente ser condenados por tropelias várias e ser reconhecidos publicamente como escroques ou incompetentes, mas o assessor ficou lá atrás da cortina, ninguém soube, sabe ou quer saber quem era a figura.

Como não me pagam para isto ( e não me quero deprimir mais) não fui saber o regime de segurança social a que estão sujeitos os assessores nem quais são os seus contratos de trabalho . No entanto sei que é uma excelente opção de carreira , observação confirmada  pelas notícias que têm vindo a público sobre um caso paradigmático deste Festival Nacional da Assessoria , a Câmara Municipal de Lisboa. Podem ler mais detalhes aqui, e chorar .

Além dos que já lá estavam, a CML prepara-se para contratar 124 assessores para apoiar 17 vereadores, o que dá mais de 7 assessores por vereador. Desta fornada de funcionários sem dúvida imprescindível ao bom funcionamento da CML fazem parte muitos indivíduos que eram candidatos autárquicos em listas partidárias mas não foram eleitos, assim se repõe essa injustiça causada pela má vontade e relutância dos eleitores em votar nas pessoas certas. E esta alegre rapaziada que sem dúvida se vai esfalfar em prol do munícipe e chega carregadinha de qualificações técnicas como está bom de ver, receberá até um máximo de 3700€ , começando em todo o caso nos €2500. Se é preciso apoio técnico, abre-se um concurso e contratam-se técnicos especializados para o quadro, mas isto penso  eu que tenho assim ideias delirantes. Na vida real é esta demência de um vereador precisar de 6 ou 7 assessores a mais de 3000€ por mês cada um , e poder contratar pura e simplesmente quem lhe apetecer. Não e preciso ser uma àguia para calcular  que quem fez a lei que gere as contratações foram as pessoas que fazem as contratações.

Quando o arraial acabar o assessor  já terá no seu currículo outra  assessoria, mais o correspondente aumento da sua rede de contactos e favores, e estará equipado para prosseguir na sua carreira. Se o seu partido perder poder há mais de 160 fundações, institutos e outras  instituições públicas em Portugal onde cabe sempre mais um, onde nunca se paga mal e onde se reconhecem sempre os Pais da Democracia e seus afilhados. Além dessas opções não esquecer o grande sector económico do Estado onde jóias da coroa tipo CGD ou RTP estão lá também para isso, acolher  amigos e retribuir favores, e para onde se pode a qualquer hora do dia nomear para assessor um amigo que necessite.

Os assessores nunca são reconhecidos pelo público; nunca são responsabilizados por nada; nunca se exigem respostas ou acções aos assessores; nunca têm que ir a votos nem têm a sua competência ou qualificação questionada. Apesar disso podem ter uma carreira longa e lucrativa, seguindo os progressos e deambulações de um político pelos corredores e caves do poder. Quando isso acabar , ou se eventualmente o patrono do assessor acaba na prisão, pode sempre dedicar-se ao lobbying, a nobre arte de convencer os políticos a fazer o que é melhor para a nossa empresa ignorando o seu dever jurado de fazer o que é melhor para o país. É lindo.

Existe uma variação sobre o tema das assessorias que são os lugares em conselhos de administração, conselhos fiscais, consultivos e outros órgãos de entidades públicas, onde também floresce a arte de fazer pouco ou nada por muito dinheiro. Essas são posições usualmente reservadas à espécie  acima do assessor, um director geral ou  secretário de estado já pode aspirar a uma sinecura dessas para lhe compor o orçamento e tratar do Natal na neve. Que ninguém pense que isto está para mudar, se não mudou com a troika não vai ser agora, e a razão é simples: a classe política nunca vai votar nada que a prejudique, ponto final.

Nesta questão dos lugares públicos de nomeação e do tamanho da administração pública há um facto que eu gosto de referir porque ilustra bem diferenças de cultura e abordagem ao tema : os Estados Unidos da América têm 325 milhões de habitantes e o Supremo Tribunal de Justiça é composto por 9 juízes. Portugal tem 10 milhões de habitantes e o nosso Supremo Tribunal de Justiça tem 64 juízes. Concluam à vontade.

Para terminar quero pedir desculpa aos  assessores públicos que são qualificados, dominam a sua matéria, foram seleccionados por mérito, trabalham horas longas , são íntegros e  têm espírito de serviço público.Há-de haver alguns.

Terra Santa

Tenho três  problemas fundamentais com os israelitas e com os palestinianos, e tenho grande satisfação com o facto de a minha opinião ser irrelevante e não ter voto numa matéria tão séria.

Começando pelos israelitas, é  óbvio que o seu mito fundador é precisamente isso, um mito, se não aceitassem a Torah com palavra final do divino e base da organização das coisas  é provável que ao longo dos milénios tivessem evoluído num modelo diferente de povo, comunidade, nação. Sempre achei dos maiores testemunhos e tributos à  dissonância cognitiva necessária para se ser religioso o facto de os Judeus se considerarem o Povo Eleito. Se são o povo eleito e sofreram o que sofreram em 3000 anos e ainda sofrem hoje, nem quero pensar no que seria se fossem um povo ignorado por Jeová, tipo os escandinavos. Segundo pelo menos um historiador Jerusalém  foi atacada  52 vezes, capturada e recapturada 44 vezes, assediada 23 vezes e destruida duas vezes, não há cidade no mundo com um registo de violência extrema comparável com este, ligar isto com “Religiões de Paz” é certamente exercício para cínicos frios que não percebem a “espiritualidade” que envolve aquilo. A espiritualidade sempre foi um dos maiores impulsionadores da violência entre os homens,e é normal que numa terra que concentre espiritualidade em doses massivas como Jerusalém a barbárie se mostre mais, porque todos os beligerantes estão convictos de que são justos, fazem o trabalho de deus, vão ganhar a vida eterna com a sua violência e os seus oponentes são condenados por um poder mais alto.  Cada um tem o seu livro onde está escrito que eles têm razão, cada um acha os livros dos outros uma mentira e é assim que funciona a terra santa.

Sem narrativas bíblicas e corânicas desapareceria  imediatamente grande parte do racional que faz com que se guerreie e odeie tanto no Médio Oriente, mas as narrativas religiosas estão para ficar, quanto mais não sejam que dão muito jeito às narrativas políticas.

O outro problema fundamental que tenho com os israelitas é a desproporção das reacções , ainda no outro dia li a notícia de um grupo de colonos atacado à pedrada que respondeu como fogo de armas automáticas. Aqui há uns anos os israelitas abordaram um cargueiro turco que acreditavam levar armas, foram ameaçados com paus, responderam a tiro. Caem dois foguetes artesanais em Israel, levantam voo dois F15 e reduzem a entulho outro quarteirão de Gaza. Tenho ideia que  o livro deles prescreve “olho por olho” mas parece-me que eles observam mais “cabeça por olho”, que algumas pessoas podem achar boa estratégia, eu gosto de apreciar as coisas pelos resultados, desde que nasci que os israelitas estão em guerra com os árabes , sem sinais de acalmar pelo que acredito que o objectivo não é conseguir viver em paz.

E aí o terceiro problema: é para mim claro que os israelitas, ou a parte deles que tem sido governo nos últimos anos e claro, a brigada das trancinhas que não toca em mulheres  e acha que passar os dias a abanar-se frente a uma parede  recitando versos ancestrais é uma ocupação válida, não tem interesse nenhum em encontrar paz com os vizinhos. Desde a política dos colonatos ao modo como são tratados os árabes que vivem em Israel até aos periódicos nivelamentos de Gaza onde mantêm milhões de pessoas literalmente prisioneiras numa lixeira , não vejo rigorosamente nada que me indique que Israel esteja interessado numa paz duradoura, que só se pode conseguir com concessões.Se cedemos zero ao nosso inimigo não podemos esperar que ele ceda X e fique quieto, parece-me básico.

Com os palestinianos tenho logo em primeiro lugar um problema comum aos outros, a narrativa dominada pela superstição, a justificação religiosa para as suas neuroses e projectos. O segundo problema é a vitimização , os árabes são historicamente desunidos, os países árabes são atrasados e corruptos e é fácil culpar os sionistas por problemas que se eles não fossem assim conseguiam resolver sozinhos. Em vez de aceitarem a sua quota parte de culpa pelos seus falhanços culpam os judeus, esquecendo que antes de ser criado o Estado de Israel  a Palestina eram montes e pastores de cabras por onde a modernidade não passava, e continua a ter dificuldade em passar. A corrupção épica das lideranças árabes não ajuda, comparada com a dos judeus que podem não ser imunes à corrupção mas ao menos têm eleições, partidos diversos, tribunais e imprensa livre, só por isso já estão num patamar superior.  Se os palestinianos  e os países árabes trabalhassem mais em construir instituições e modernizar as economias a vida não lhes era tão amarga.

O terceiro problema é a retórica e o culto da violência, que no fundo radica na religião e que prescreve a guerra santa, a recompensa do martírio e o castigo divino dos inimigos. Também os árabes não param para se interrogarem sobre a razão pela qual Alá o todo poderoso está a levar tanto tempo a castigar os seus inimigos, andam naquilo há décadas, um foguete ali, uma bomba aqui, para ira divina parece-me bastante medíocre.

No fundo ambos os lados são culpados do mesmo: baseiam as suas queixas e razões em lendas e esperam a destruição total do inimigo. Assim não pode haver paz. O resto do mundo observa , a Europa ocupa-se mais da parte retórica e teórica tipo manifestações , boicotes e votos de protesto, a América é mais prática e sustenta a maquinaria de guerra de Israel, que tem os cérebros e tecnologia própria mas ainda assim depende dos biliões americanos para o músculo. O “processo de paz no Médio Oriente” é uma  abstracção que ouço desde que me lembro, nunca em altura nenhuma pensei “olha, se calhar aquilo agora tem hipóteses de melhorar”. O primeiro assunto que me lembro de comentar com os amigos na escola, porque coincidiu com o aparecimento do Público em 1990, foi a invasão do Kuwait primeiro pelo Saddam e depois pelos Estados Unidos. Até hoje olha-se para a Terra Santa e sua vizinhança e é difícil ver paz nalgum lado,instabilidade ou guerra aberta da Líbia ate à fronteira da Turquia , do Yemen ao Iraque.

Diz -se que a religião protege do desespero, e é provável, mas se protege do desespero também impede de reconhecer uma situação desesperada como tal, e parar. Encoraja a persistir no erro quando tudo demonstra que o caminho escolhido não tem saída, impele a pensar num milagre que tanto pode vir como não vir, creio que são menos as vezes em que vem. Esta negação do desespero incita a nunca pensar  noutro ponto de vista, noutra alternativa, noutra possibilidade. Já se perderam muitas causas que muita gente nunca quis nem quer dar como perdidas.

Chega o Trump, o oposto da ponderação, compromisso e equilíbrio. Desde que chegou ao poder que faz pouco mais do que contentar clientelas e apoiantes (o plano dele para os impostos é uma prova obscena) , e enfurecer os críticos e adversários. Esta decisão de reconhecer Jerusalém capital de Israel é uma oferta antes de mais aos Evangélicos, grande proporção dos seus apoiantes e uma das  seitas mais hipócrita e atrasada do mundo ocidental. Para os Evangélicos Jerusalém tem um valor altíssimo e não é por simpatia pelo povo Judeu, é porque é de lá, ou lá , que vai começar a “rapture”, nem sei como isso se traduz, um evento religioso em que os fiéis vão todos subir ao céu, vivos. Já falharam umas quantas datas preconizadas mas isso nunca impediu que se avançassem novas datas. Os Evangélicos exigem que Jerusalém esteja  em “mãos amigas” e exigem luta aberta com o Islão . Com este reconhecimento de Jerusalém Trump agrada aos Evangélicos, aos judeus sionistas (que não são todos), e à base puramente racista que quer confrontação com os árabes e muçulmanos em geral. As consequências não são importantes, nem o facto de esta decisão não contribuir em nada para o avanço daquela que é a possível solução defendida pelos moderados e realistas por todo o mundo : dois estados com Jerusalém como Cidade Internacional.

O Trump não veio contribuir para nenhuma espécie de paz, só veio imprimir outro ritmo ao ciclo.

Urbanidade e Desigualdade

Não percebo bem como é que “urbanidade” acabou como sinónimo de cortesia ou civilidade, quanto mais leio, vejo e ouço sobre a vida nas cidades menos faço essa ligação. Urbanidade devia ser antes sinónimo de indiferença, confusão e desordem.

No outro dia uma amiga queixava-se de que o vizinho de cima estava a ouvir música muito alto e eu ri-me para mim com a noção de viver sobre a casa de outra pessoa e com a casa de outra pessoa por cima da minha , coisa tão normal  como respirar mas que nunca deixa de me fazer certa impressão.

Dantes dizia que só contemplaria viver numa cidade se fosse milionário, hoje nem isso,  se tivesse muito dinheiro visitava cidades mais frequentemente mas seria incapaz de viver numa. A ideia da vida urbana, o contacto das multidões, o ritmo infernal do trânsito, a pressão comercial a cada esquina e a cada momento, a sujidade e poluição, o custo mais elevado de tudo, a constante comparação e avaliação dos outros que acontece quer se queira quer não, a necessidade de “mostrar  uma boa imagem”, ou seja, estar conforme um padrão seja ele moda seja ele modelo,  tudo isso me deixa muito desconfortável. E as multidões que me fazem impressão não são necessariamente as massas , o “proletariado” que se encontra nos transportes públicos às 7 e meia da manhã, esses fazem-me tanta impressão como uma multidão que se encontre na abertura de uma exposição de arte moderna ou de um concerto numa sala de espectáculos.É gente, tudo gente, tudo igual, seja no Lidl seja no Corte Inglês, gente a mais.

As cidades atraem sempre mais habitantes, o interior perde-os. Um “tuítador” sugeria no outro dia que uma medida boa para combater a desertificação era criar nos municípios do inteiror bibliotecas e centros artísticos , evidenciando assim outro grande problema relativo à desertificação:  os fazedores de opinião, jornalistas e políticos só saem de Lisboa e do Porto de férias para ver o folclórico e o pitoresco, fazem fraca ideia das necessidades , aspirações e modos de vida do interior, dos rústicos  que certamente anseiam por instalações de arte moderna e recitais de dança interpretativa quando andam 80kms por uma consulta médica, por exemplo.  Na minha ilha temos uma biblioteca em cada sede de concelho e nenhum artista, NENHUM, fica sem poder criar  o que lhe der na mona por falta de espaço para isso, e não é isso que faz com que a desertificação se inverta. Além do mais  quem propõe “investimentos culturais” do Estado para combater a desertificação não tem bem a noção do que está aqui em causa, que é precisamente a falta de oportunidades e condições para a economia privada florescer e a sobrecarga de impostos sentida por todos e que obriga muitos a viver nas cidades onde estão, sem surpresa, os trabalhos que pagam melhor.

Nas cidades estão os trabalhos que pagam melhor e mais maneiras de gastar o rendimento e a paciência. No outro dia circulou o vídeo de um indivíduo a retirar o bloqueador da roda do carro aplicado pela odiada EMEL. As pessoas em Lisboa ralham contra a falta de estacionamento ao mesmo tempo que ralham contra medidas para disciplinar o estacionamento. Creio que o direito a um lugar conveniente para parar o carro não está na Constituição mas há poucos assuntos que inflamem tanto os lisboetas, que não aceitam que ter um carro numa cidade é um luxo e que os luxos pagam-se.

Esse indivíduo que retirou o bloqueador foi saudado como herói mas não passa de um imbecil, primeiro porque tinha o carro numa zona assinalada de cargas e descargas mas como bom tuga achou que não se aplicava a ele. Depois porque pensou que se ia embora e não lhe acontecia nada, característica comum a todos os infractores menos dotados de capacidade de análise de consequências possíveis   mais estúpidos. Por fim porque se justificou com a pressa de estar no aeroporto, como se isso interessasse a alguém , como se ter pressa para ir ao aeroporto fosse tipo ter um ferido a sangrar no carro ou estar  a fugir de um psicopata, essas sim poderiam ser atenuantes.

Parece que o indivíduo vai pagar pela gracinha cerca de 10 vezes mais do que lhe custaria meter-se no taxi e pagar a multa e o desbloqueio, mas aposto com quem quiser que vai insultar e ralhar e dizer-se vítima da EMEL até ao fim. Do lado da  Câmara ou do governo não vale a pena esperar nada que melhore ou racionalize os problemas do trânsito e dos transportes, muito porque nem uma das pessoas com poder de decisão e influência alguma vez se chega perto de um transporte público, a maioria anda em carros que não paga, com combustível e manutenção que não paga, tem lugares reservados de estacionamento e qualquer multa que eventualmente apanhe por engano é paga pelo Estado, como teve  a bondade de nos explicar o saudoso dr Soares uma vez que o seu carro foi apanhado a mais de 200 na autoestrada. Há uma casta com regras e financiamento próprio, as regras são eles que as fazem , o financiamento somos nós que  fornecemos. Quer queiramos quer não.

Também é boa altura para lembrar aos que não sendo funcionários públicos acreditaram que a geringonça ia acabar com a austeridade, que os preços dos transportes públicos vão voltar a subir  ser actualizados.Depois vamos ouvir discursos sobre as preocupações e intenções dos autarcas  e governantes e fica tudo na mesma, vai crescendo o número de coisas que são aceitáveis e que se toleram porque o governo é de esquerda. Do lado que em princípio representaria a direita e se iria renovar com a saída do Passos, avança a brigada do reumático, entulho estatista que já aí anda há décadas e que vem propôr o mesmo mas de outra cor. Felizmente e finalmente , Portugal já tem um Partido Liberal, tema  a revisitar em breve.

Tal como uma pessoa que viva sozinha sente mais a solidão se viver numa cidade, no meio da multidão, também uma pessoa pobre sente muito mais a sua pobreza numa cidade, onde se cruza constantemente com Maseratis, lojas a vender roupas de luxo e restaurantes que cobram por uma refeição o que ela demora uma semana ou mais a ganhar. Para muita gente este contraste e tensão faz parte das forças e belezas da cidade, para mim é das coisas que  me custa quando estou numa, não só porque também estou na parte inferior da escala mas principalmente porque vejo que da parte das pessoas que andam de Maserati e gastam €300 no trigésimo par de sapatos não há  compreensão nem empatia com quem tem que se desenrascar num mês com menos do que lhes custou a última escapadinha de fim de semana.

Olha olha, este começou agora a preocupar-se com as desigualdades … Não comecei agora nem são as desigualdades em si que me preocupam, o que me preocupa é o modo como são perpetuadas e a falta de noção e vontade dos que poderiam fazer algo para realmente as diminuir. Preocupa-me o modo como se atinge um patamar superior, ou como não se consegue subir de um patamar inferior. Preocupa-me que no nosso país o mérito não valha o mesmo que ligações familiares ou políticas. Preocupa-me que os trabalhadores do sector privado sejam sistematicamente discriminados e mal tratados em detrimento dos do sector público. Preocupa-me o corporativismo, herdado do Estado Novo e de boa saúde, que faz com que por exemplo o sindicato dos médicos se esteja nas tintas para a saúde e o dos professores nas tintas para a educação. Preocupa-me a absoluta falta de vergonha do Estado e seu polvo que (uma de centenas de exemplos odiosos) tem uma empresa que gasta 60 mil euros em cafés , por ajuste directo, e que em 2018 vai gastar cerca de 80 milhões em viagens,  um Estado que permite aos seus operadores melhor posicionados contratarem amigos e família a peso de ouro, competentes ao não, façam falta ou não.

São coisas como estas que fazem aumentar as desigualdades e a sensação de impotência perante elas, e isso é que é terrível. Não são as desigualdades , é perceber que não há hipótese.  Quando estou no meu quintal olho em volta e penso que no ano que vem a vida pode ser melhor e mais bonita, quando estou na Praça da Figueira ou no Colombo olho em volta e interrogo-me como é que isto não rebentou já tudo.

 

Hoje é dia grande de futebol, daqui a nada o meu Sporting  vai medir forças com o poderoso FC Barcelona, em Barcelona, é daqueles jogos em que é permitido sonhar e aconteça o que acontecer , já fizemos uma figura razoável na Liga dos Campeões deste ano. No futebol, que chafurda em lodo nauseabundo com alguns clubes salpicados e outros enterrados até às orelhas, há poucos momentos em que um adepto pode realmente sonhar com transcendências,  glória e alinhamentos planetários favoráveis, hoje é um deles. O Sporting pode vencer o Barcelona, a Juventus de Turim pode empatar ou perder em Atenas e nesse caso passamos à fase seguinte em grande.

Em Lisboa também há um jogo, outro clube vai jogar com uma equipa menor e tentar menorizar o descalabro vergonhoso da sua participação nas competições europeias deste ano. A equipa visitante é da Suíça , uma equipa ridícula que na recepção a esse clube lisboeta lhes aviou cinco secas. Ontem houve “batalha campal” em Lisboa quando os Suíços mostraram demasiado entusiasmo nas celebrações , à noite no Cais do Sodré .

A foto que acompanha esse artigo sobre a “batalha campal” é esta, e foi por vê-la que comecei a escrever isto. Como é que e possível alguém sair de casa à noite para se ir meter aqui?

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