Em inglês fica sempre melhor

Uma das bandas portuguesas de que gosto são os Clã , que têm uma música muito bonita chamada “Problema de Expressão” , com este verso:

Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.

É uma das nossas modas mais prevalentes e que  a mim me faz trepar pelas paredes por achar que é das mais estúpidas e sem justificação:  tudo em inglês.

-A  cidadezinha  onde cresci, Alcobaça, organiza regularmente um festival literário e de cinema. O programa está aqui , a edição deste ano já acabou mas estive mesmo agora a vê-lo. Dura uma semana, o número de autores de língua inglesa presente é aproximadamente zero, a percentagem de convidados nacionais andará pelos 98%  e  o número de livros ingleses apresentados também anda entre o zero e o dois, não tenho a certeza porque não vi tudo.Os filmes são na esmagadora maioria nacionais e não me consta que o evento sejam transmitido no estrangeiro. Qual é o nome deste festival de livros & filmes? Books and Movies.

-Aveiro tem uma revista que só conheci anteontem, chamada Litoral , e conheci-a porque um grande marinheiro português que muito honra a vela nacional, Renato Conde, recebeu uma distinção pública pela sua carreira numa cerimónia em que a revista atribui prémios. São os Litoral Awards.

– A recente “websummit” é um festival de startup networking empowering  and disruptive technologies em que os participantes estão estatutariamente obrigados a usar um termo em inglês por cada quatro palavras que pronunciem, independentemente da  audiência.

-O mundo do espectáculo carbura a anglicismos e palavras inglesas, artista que não use regularmente essas expressões fica para trás. Desde os anos 60 que  um  “yeah” é quase obrigatório na  música moderna  nacional, a maoria das novas bandas escolhe nomes em inglês e perde-se a conta às  letras de canções em inglês escritas por quem devia ir tentar melhorar o inglês.

-No comércio, serviços e eventos culturais nem vale a pena  pensar em só usar o português, parece que  a língua da modernidade e inovação é obrigatoriamente o inglês, eu vivo numa aldeia perdida onde isso não é aparente  mas quem vive em centros urbanos pode verificar isso facilmente.

-Num mundo que me interessa mais de perto, o da cerveja artesanal , nota-se bem que já existe mais craft beer do que cerveja artesanal e no mundo do hipsterismo , das pessoas cuja filosofia de vida se baseia não no visual mas sim no look ( grandes consumidores de craft beer, nem tudo é negativo…) as coisas acontecem mais frequentemente em inglês do que em português, mesmo se vivem em Cantanhede.

-No turismo , em conformidade com a evidência de que os visitantes procuram sobretudo experiências e vivências locais e autênticas, faz-se questão de que tudo seja apresentado em inglês, desde os nomes aos programas e aos produtos. Traduzir e explicar faz sentido, tudo em inglês logo à partida, já não.

-O Estado naturalmente partilha da doença e baptiza quantidades de coisas em inglês. Desde os anos 50 que todos os ingleses sabem o que é e onde é a Costa Brava , e adoram, nós para evitar confusões  é mais Silver Coast, Allgarve e parvoíces semelhantes.

Ora, há palavras , especialmente no campo da tecnologia e das finanças mas não só, que não têm tradução exacta ou clara, por exemplo stress , roaming ou upgrade, é normal que as pessoas que trabalham nisso os vão usando.   Do mesmo modo, se se trata de um evento inequivocamente internacional, faz sentido marcar isso.  O inglês é a língua dominante , aposto que vai continuar a ser língua de trabalho da UE quando o único país anglófono for a pequena Irlanda e é claro que aprender inglês é do interesse de toda a gente. Agora, que se sinta que é não só normal como positivo e quase mandatório polvilhar o discurso com palavras em inglês, já  me parece bizarro.

No jornalismo até mete medo, e nos sítios onde eles falam uns com os outros tipo o twitter chega a ser delirante, não só o uso dos termos e expressões em inglês (que ao invés de mostrar que dominam a língua só mostra que veem televisão e filmes) como a adopção regular de coisas que leem e veem na imprensa americana , a última é chamar alt right à extrema direita.

Uma parolice pegada, demonstração de preguiça para procurar a palavra certa (temos cerca de 600 mil à disposição, em princípio devia chegar, e hoje quase todos andamos com um dicionário no bolso…) ou simples presunção, a noção  de que se introduzirmos termos em inglês parecemos sofisticados. A mim dá-me sempre a ideia contrária.

Centenário da Revolução

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Chato como sou com os comunistas até parecia mal se deixasse passar a data sem dizer nada sobre  os cem anos da revolução bolchevique na Rússia. Estimo que cem anos depois, com a poeira mais do que assente e com duas gerações enterradas, depois de mais de 20 anos para analisar os escombros e  a História, ouvir as pessoas, ver os sítios e contabilizar a  herança, todos já temos uma opinião sólida sobre o Comunismo e o sistema soviético. Algumas pessoas solidificam a sua opinião assegurando-se de que informação que não seja aprovada pelo Comité Central ou que seja posterior a 1989 não deve ser considerada.

A imprensa nestes dias esteve repleta de especiais  e artigos sobre o tema, há para todos os gostos, felizmente. Se estivéssemos num país comunista no dia 7 tínhamos que ir todos para a rua bater palmas, devia bastar dizer isso para encerrar de vez o debate sobre comunismo mas é impossível.

No DN  acharam por bem ir buscar um representante da espécie, nada  menos que o líder máximo dos comunistas portugueses, para falar sobre o tema. O camarada Jerónimo, que  como todos os seus é impermeável aos factos e insiste em ter uma História só para si , brindou-nos com um texto que poderia dar vontade de rir não fora a morte, miséria e opressão que ele nem refere de passagem.

Uma pessoa mais equilibrada podia perfeitamente fazer uma apologia do Comunismo cem anos depois e ao mesmo tempo fazer uma crítica e reconhecimento do mal que foi feito e dos erros cometidos, mas não. É engraçado notar que ele usa os mesmos termos, as mesmas frases, a mesma terminologia quer esteja a falar na Assembleia do República, na festa do Avante ou num artigo de jornal, o tom é sempre o mesmo e as patranhas também, desde a caracterização da revolução de Outubro, envernizada  como um movimento popular, até à velha história dos Bolcheviques terem vencido os Nazis sozinhos. Se apresentarem ao Jerónimo três calhamaços de historiadores credenciados, de três países diferentes, que documentem todo o auxílio material  dos Aliados aos Russos o camarada vai dizer : campanha de desinformação, manipulação e intoxicação, que é como é classificada toda a informação que contradiga a versão aprovada pelo Comité.

Jerónimo apresenta vários números, estatísticas  e listas sobre o extraordinário desenvolvimento tecnológico, económico, científico e social da URSS e uma pessoa (uma pessoa que pense) pergunta: mas então com todo esse desenvolvimento e avanço social porque é que aquilo caiu tudo como um castelo de cartas? As causas, para além de significativos factores externos, radicaram fundamentalmente num “modelo” que se afastou e entrou mesmo em contradição com os valores e ideais do socialismo, tiveram como resultado um grande salto atrás nos direitos e conquistas dos trabalhadores e dos povos.” 

Acho  estranho que o “modelo” que deu tão  bons resultados  afinal fosse  “afastado dos valores e ideais”, e nesta altura alguém devia tentar fazer ver ao Jerónimo  (ou a um  comunista de estimação que por acaso tenham, eu tenho dois)  que ou o modelo era como eles dizem que era e teve bons resultados ou não era , era um desvio e  caiu por causa disso. Defender as conquistas do comunismo para logo a seguir dizer que acabou porque não era bem comunismo é que não pode ser. Não pode ser, se quisermos respeitar a Lógica e  o significado das palavras, mas isso nunca foi o forte dos comunistas.

Sobre os mortos, as purgas, as fomes, os gulags, as limpezas étnicas, a polícia política, as ingerências, as guerras….nem uma palavra. Todos os detractores do comunismo, aos olhos dos comunistas, estão  ao serviço do grande capital , os nossos livros de História são mentira , as entrevistas dos sobreviventes do comunismo são todas mentira . Isto para mim está ao nível da negação do Holocausto nazi  e é uma ofensa à Humanidade.

Se no próximo 28 de Maio aparecesse num jornal um artigo  a enaltecer  partes positivas e  avanços  do Estado Novo havia  motins,  linchava-se o autor e fechava-se o jornal. Até podia tentar equilibrar a peça e falar de colonialismo , da Pide ou da miséria e falta de educação que não valia a pena, foi tudo mau, o fascismo, ou a nossa variedade, foi tão ignóbil como as outras e não se pode dar liberdade aos inimigos da liberdade, fascismo nunca mais e coiso. Entretanto temos um idoso soldador de formação cuja educação foi feita TODA no marxismo leninismo mais retrógrado e ortodoxo que alinha um texto pejado de mentiras ofensivas e ridículas a branquear um dos sistemas e regimes mais assassinos e destrutivos que o Mundo já viu, e é normal, é parte do processo democrático. Incrível. Mais me arrepia quando vejo jovens de 20 anos a debitar a cassete sem falhas, porque um velho comunista ainda é como o outro, viveu os tempos, acreditou, era uma ideia bonita, até arriscou ir preso por ser comunista, o caminho foi longo, custa mudar. Como é que se pede a uma pessoa que esteve presa por ser comunista que renegue o  comunismo? Diferente , muito diferente é ver um jovem de 20 anos a fazer a apologia da URSS e do comunismo,   tem o seu quê de sinistro.

Como Portugal ainda não é um país comunista ainda há debate e podem-se contestar e confrontar opiniões e ideias , e o artigo do Jerónimo foi prontamente seguido por outro artigo, do José Milhazes, a endireitar o registo. Este J.Milhazes foi daqueles que foi para a URSS com os olhos a brilhar e a sonhar com os amanhãs que cantam mas depois de muitos anos lá viu a realidade e tem passado o resto do tempo a contá-la cá e nesse artigo rebate impecavelmente os delírios do camarada Jerónimo.

Muitas pessoas dizem que o comunismo é uma boa ideia que foi mal aplicada. Eu digo que não, que é abominável e seria abominável mesmo se todos os preceitos e princípios fossem aplicados, e a aversão é simples de explicar : o comunismo nega o Indivíduo, desvaloriza o particular e a propriedade privada, obriga à acção   colectiva  e prescreve uma determinada orientação e organização para a sociedade. Eu acredito nos direitos do Indivíduo , na iniciativa e propriedade privada, defendo que a Sociedade não precisa de ser dirigida por nenhum comité central ou regional, que as decisões económicas devem estar nas mãos dos agentes económicos e que as desigualdades são uma característica e não uma anomalia. Defendo que o Estado deve ter intervenção e papel  limitados e que os cidadãos devem ser livres de ir e vir, comprar e vender , ler e escrever , ouvir e falar, tudo coisas que foram sempre impossíveis  no comunismo, e depois estes gajos ainda têm a lata de andar a comemorar os 100 anos da doença.

Tal como critico o Jerónimo por escrever loas aldrabonas sem ser capaz de apontar um defeito também sou capaz de apontar um resultado positivo da Revolução de Outubro: o medo que os bolcheviques instilaram no Ocidente e que levou a muitas evoluções importantes , nomeadamente no campo dos direitos dos trabalhadores. Foi o medo do perigo vermelho que pôs governos e capitalistas no caminho de reformas que beneficiaram toda a gente. É curioso como não foram os comunistas mas o medo dos comunistas a trazer essa mudança, e nem aí lhes concedo muito mérito, primeiro porque é causar mudança por meio de ameaça, real ou velada, e não me parece que seja etica ou moralmente muito meritório, e segundo porque nada nos garante que sem Revolução de Outubro as coisas não iam mudar na mesma. As teorias e as ideias circulavam, as queixas dos trabalhadores eram semelhantes em todo o lado,  e os capitalistas , tal como os comunistas ,  não comem criancinhas e até se diz que alguns têm mesmo um coração.

O número de pessoas que não sabe que Nazi é a abreviatura de Nacional Socialismo  é demasiado elevado, tal como é demasiado elevado o número de pessoas que não consegue ser contra o totalitarismo seja ele qual for, de direita ou esquerda , pela simples razão de ser totalitatismo, que não consegue aceitar que Nazismo e Comunismo não passam de duas faces da mesma moeda com muitíssimo mais em comum do que uns e outros gostavam de dar a entender.

Termino pedindo emprestada a reflexão de uma das mentes mais brilhantes  que o Mundo já conheceu e uma das figuras que mais admiro , Bertrand Russel , que neste texto de 1956 , quando na Europa ainda se podia acreditar na causa, explica sucintamente porque não é comunista .  Se amanhã o dia me correr bem traduzo-o para publicar aqui, porque há que lutar contra ideias más que pelos vistos não morrem, uma pessoa pode pensar que mais vale não lhes ligar e depois quando dá por ela tem comunistas no governo .

Irma

Ontem escrevi um post sobre o furacão Irma e as Ilhas Virgens, depois apaguei-o porque era malvado. Tinha duas vertentes , uma resume-se em “20 anos a ir aí e a aturar-vos o racismo, a gabarolice, a preguiça, o queixume, a antipatia, a chulice, a falsidade, a fé  arcaica, a corrupção, a incompetência, não me peçam agora que tenha pena“. A outra vertente era : um trilião e meio em dinheiro lavado e escondido pelas offshores e parque de diversões de metade dos milionários e bilionários do mundo e agora querem que as pessoas façam donativos para reconstruir isso?Não.

Isto deu para duas páginas mas depois arrependi-me porque aquilo pode ter muitos defeitos mas vive lá muita gente que não tem culpa nenhuma  e agora não só perdeu quase tudo como ficou com o país literalmente devastado. Não se pode esperar pelos políticos para fazerem alguma coisa, porque como recentemente fomos lembrados por cá, não devemos confiar no Estado para nos proteger nem para reconstruir depois de uma  tragédia. Se eventualmente reconstrói alguma coisa podemos estar seguros de que gasta 10 para fazer o que se podia fazer com 6, porque de  tudo o que toca o Estado fica com uma parte, é da sua natureza, o monstro tem que se alimentar.

Há milhares de europeus e americanos  aos quais um deslizamento de terras que matou 500 na Serra Leoa o mês passado não aqueceu nem arrefeceu mas que a imagem de uma ilha das Caraíbas reduzida a entulho mesmo sem mortos já impressiona muito e dá vontade de ajudar com o que puderem. Ninguém , muito menos os ricos e famosos, passa férias na Serra Leoa ou no Bangladesh por isso as catástrofes por esses sítios são menos dramáticas.

A “comunidade” dos iates ficou meio histérica, como se o Irma tivesse aparecido do nada e não andassem por ali furacões todos os anos. Apreciei particularmente um casal de brasileiros que tinha um catamaran nas Ilhas Virgens, que afundou. “Depois de três anos nas Caraíbas, é uma tristeza enorme, blah blah blah , buáaa buáa” e é quase certo que além de centenas de mensagens de solidariedade vão receber donativos para refazer a sua vida, que consiste em andar de barco e falar disso. Não resisti a juntar o meu comentário à longa sequência de solidariedade e encorajamento, perguntei : ” a opção de zarpar para Sul o mais rápido possível nunca foi considerada?” Sem surpresa , fiquei sem resposta , nem sei se o meu comentário ainda lá está.

É que o Irma já se via a vir há muitos dias. Os marinheiros de cruzeiro  modernos passam 8/10 do seu tempo de viagem em terra e desse tempo metade é passada   ao computador a dizer ao mundo que são tão fixes e isto é espectacular.

Podiam usar algum desse tempo a ver a trajectória esperada do furacão, que em 2017 já é bem estimada. Se andavam pelo Caribe há 3 anos podiam ter-se dado ao trabalho de ter um plano para a estação dos furacões, que, por incrível que pareça , se repete todos os anos. Como sabe qualquer marinheiro que lá ande , a latitude de  12º N marca o começo da “cintura dos furacões”, o que quer dizer que eles se mantêm acima disso.Um marinheiro mais previdente, chegada a época, desce para St.Vincent, Grenada ou Trinidad onde já está senão completamente a salvo pelo menos com probabilidades muitíssimo  mais reduzidas de ser apanhado, em Trinidad por exemplo não há registo de um furacão. Se não quer passar o Verão todo lá em baixo pelo menos à aproximação de um foge para lá, são 3 dias, e em bem menos do que isso chegavam por exemplo a Guadeloupe que já ficou mais ou menos incólume. Não, estes navegadores de pacotilha  e dezenas de outros  que agora gemem porque ficaram sem barco  deixaram-se ficar, amarraram-se melhor ao cais, deitaram mais âncoras e defensas, rezaram e puseram posts no facebook enquanto viam um furacão de categoria 5 a aproximar-se. É contra intuitivo mas é verdadeiro, os danos piores numa tempestade sofrem-se em terra , não é no mar, e se bem que a ideia não é ir enfrentar o furacão no mar mas sim fugir dele, só a ideia de ir para o mar com um furacão a 500 milhas faz tremer as pernas a muita gente, preferem a falsa segurança de ficar num porto. Má decisão. Repito, desde que o Irma se mostrou ameaçador para as Ilhas Virgens houve mais do que tempo para que quem lá estivesse fugir para segurança, mas para isso seria preciso serem marinheiros e não turistas que andam de barco,  pelo que houve dezenas de iates  perdidos por ignorância e incúria , e o que me mete certos nervos é ver esta gente lacrimejante a fazer-se passar por vítima/herói que sobreviveu ao furacão mas vai precisar de ajuda para “refazer a vida”.

As Ilhas Virgens vão recuperar, quanto mais não seja porque umas são as Ilhas Virgens Britânicas e outras são as Americanas e  nestas alturas  independência,autonomia,  soberania e coisas assim passam para terceiro plano e nunca mais se ouvem até tudo estar a correr bem outra vez. Se não fossem as metrópoles aquilo era como a Serra Leoa , mas essas coisas não se dizem, fica mal. Se Barcelona fosse arrasada por um furacão de categoria 5 passavam todos a espanhóis dedicados e orgulhosos num instante.

Continuo a esperar nunca mais ir às Caraíbas, mesmo que o meu ex patrão esteja a esfregar as mãos e a fazer muitos contactos  porque houve milhares de barcos destruídos que têm que ser substituídos, e alguém os tem que lá levar, vão estar ocupados durantes anos. Nunca dizer nunca, mas mesmo que fosse uma viagem de turismo tenho meia dúzia de sítios aos quais voltava de boa vontade, nenhum deles nas Caraíbas. Vou ficar a ver que parte dos lucros da industria financeira vão ser taxados extraordinariamente para reconstruir aquilo, podiam fazê-lo sozinhos amanhã mas esse pessoal sabe muito e vai esperar que outros paguem a conta. Nem estranhava que o Richard Branson , que tem lá uma ilhota , fosse receber auxílio para a reconstruir.

Desejo-lhes sorte, mais ou menos na medida em que eles me desejam a mim,  não me esqueço de onde vivo e que já este inverno isto pode ir tudo com o cão, aqui não há tremores de terra nem erupções vulcânicas mas há vento que chega para tudo, há menos de 20 anos passou por aqui um ciclone que marcou 250kms/h ,porque o contador só ia até 250kms/h. Aqui as casas e estradas são mais bem construídas que lá e a infraestrutura em geral é mais sólida mas é  fácil haver   estragos sérios. Há que estar preparado, não é que eu seja crente em alguma coisa mas  fazer  pouco da desgraça alheia para ela depois nos bater á porta é das piores coisas  que pode haver, não me quero ver nessa situação. Excepto no futebol ,  posso dizer que me deu um belo gozo ver o benfas levar duas em casa do CSKA.

O Busílis

bu·sí·lis 
(origem duvidosa)

substantivo masculino 

Parte mais importantemais central ou mais difícil de algo.

CERNEDIFICULDADE

 As touradas e a Venezuela são duas discussões  que me têm ocupado algum tempo, não parece à primeira vista mas são discussões com coisas em comum, nomeadamente o problema de não se ir  ao cerne, ao fundamental , ao busílis da questão.

Quanto às touradas, partilhei uma peça sobre touros de fogo , uma prática milenar no país vizinho que consiste em pegar fogo aos cornos de um touro e largá-lo a correr pelas ruas. Como é à noite o efeito visual é mais forte, e faz sempre parte de alguma festa em honra de um santinho qualquer. Deve vir lá nos escritos ancestrais do cristianismo que não só o Homem deve dominar as outras espécies como está autorizado a atormentá-las à vontade. Um dos santos , um italiano chamado Francisco , era muito amigo dos animais e consta que andava por todo a lado a dizer que éramos todos criaturas de Deus e devíamos ter compaixão mas ainda há muito católico que não lhe passa cartucho. Tem uma ordem em seu nome e  o actual líder mundial dos católicos adoptou o seu nome mas em religião a  coerência dos fiéis é uma coisa um pouco rara. As mesmas pessoas que vão a uma missinha no Domingo de manhã à tarde são capazes de ralhar  contra os pretos e os gays e os refugiados e à noite vão ver touros a correr com os cornos a arder.

O Papa Francisco disse num tweet (e num encíclica, calculo) : É contrário à dignidade humana fazer animais sofrer ou morrer desnecessariamente”. Sucede que os católicos são especialistas em escolher as partes que lhes interessam e descartar as que não lhes agradam ou não lhes dão jeito. Se houvesse moral nisto e se essa gente tivesse integridade na Fé ouvia o que diz o Papa e bania imediatamente touradas e outras brincadeiras que consistem em atazanar animais para diversão, e falo no Papa porque por alguma razão todos os países onde há “tauromaquia” são católicos e aposto o que quiserem que a esmagadora maioria dos aficionados se define como católico.

A verdade que eu vejo é esta : qualquer espectáculo tauromáquico consiste em atazanar o touro para lhe provocar comportamentos que divertem as pessoas . Já pedi várias vezes a pessoas que gostam de touradas que me digam se estou errado, que me corrijam , que me iluminem, mas até hoje ainda não ouvi nem li nem vi  ninguém honesto que possa negar isto.Os argumentos em defesa da tauromaquia são sempre os mesmos:

-É uma tradição cultural milenar

-Há muitas pessoas que gostam

-Envolve muito dinheiro

– É para isso que se criam touros bravos

Dão-me estes argumentos e esperam que por isso se continue a tolerar e promover o que são sem sombra  de dúvida  maus tratos a animais como espectáculo. A escravatura, o tráfico de droga,a prostituição infantil, a caça a espécies protegidas e até a guerra pode ser defendida com os 3 primeiros argumentos, quanto ao último, desculpem lá mas entre criar uma raça só para a atormentar e não a criar…a escolha não me parece complicada.

Na Idade Média  e até ao início do século XIX, atiçavam-se cães a touros e ursos e a populaça aplaudia. Há uma  noção fantástica , negada pela Igreja até lhe ser possível, que é a Evolução, e a Evolução não é só um conceito biológico, é também social e cultural. Começou a olhar-se de modo diferente para os cães e hoje em dia em qualquer país civilizado se alguém quiser  promover uma luta de cães ou de cães contra touros vai  preso. Para os touros ainda se olha como em 1600, bestas bravas que devem e podem ser “lidadas” e enfernizadas para diversão.

Ainda espero ver  e ouvir um aficionado a admitir honestamente : é verdade, os touros sofrem e são afligidos, é essa aflição do touro que provoca o espectáculo, e eu não me importo com isso, não me importo e até gosto de ver um touro a ser atazanado e a reagir. É esse o busílis da questão, admitam.

 

O outro tema é a Venezuela e o caos que lá grassa. Ouço e leio muitos argumentos , dizem-me que dantes era  pior, nos governos da oligarquia. Para os comunistas e pessoas que são comunistas mas têm uma certa vergonha de se designarem como tal apesar de não apresentarem designação alternativa (tipo o Sousa Santos), a minha questão  é esta, e bem simples  : Se Chavez foi eleito em 1999, se o chavismo governa a Venezuela há 18 anos, como é que a responsabilidade da situação é da oposição ou do estrangeiro?

18 anos de poder , incluindo uma nova constituição que foi saudada como triunfo do socialismo, e o que há  para  mostrar é isto? Os nossos socialistas mandam há dois, aceito sem problemas que muitos dos falhanços e fracassos se devam ao que vem de trás, mas 18 anos? Mas estão a brincar com isto? Se 18 anos de poder quase absoluto não chega para criar alguma coisa que se veja, se em 18 anos 75% das pessoas estão contra o governo e um maço de notas não compra um pão, quando há pão, a culpa é dos outros? Quanto tempo é preciso a um projecto socialista para se impor e resultar? 30 anos? 40?

E a oposição, e aqui é que está o busílis desta questão, a oposição tem direito a existir ou não? É que na Venezuela, ainda no tempo do Chavez, fechavam-se jornais e TVs que fossem do contra, metiam-se políticos na cadeia e correligionários nas empresas, censuravam-se as notícias, desfavoreciam-se oponentes políticos, cerceavam-se liberdades e , tal como hoje, perseguia-se , insultava-se e prendia-se a oposição. Queria ouvir de uma vez por todas um comunista, bolivarianista ou parecido a admitir que a oposição não se pode permitir, porque é isso que é evidente: não se dá espaço, não se dá voz , não se admite que haja quem seja contra.

Dos portugueses adeptos deste marxismo tropical que deixou a Venezuela como está, só se ouve que a oposição e os protestos são  manipulados (gostava de saber como é que se manipulam 75% da população de um país para ser contra um governo benevolente e competente mas essa parte já não explicam)  e chamam democracia a um regime que não tolera oposição. Esse é que é o busílis.

Tal como no caso das touradas, gostava de ver um comunista ter a coragem de admitir o cerne na questão:  não se pode dar espaço nem representação nem poder a quem é contra o governo, só pode haver um partido .

É uma tristeza e uma vergonha.

Actualidades

Faço um esforço  para não dar aqui muitas opiniões sobre política, por exemplo para não alienar algum comunista que goste de vela e barcos ou alguma pessoa religiosa que aprecie historietas  das ilhas. Parece que é bom ter um “público alvo” e o sucesso faz-se de identificar esse alvo e trabalhar para ele. O “sucesso” para mim não se faz disso e não gosto muito de calibrar o discurso para tentar agradar  a este ou aquele, por isso de vez em quando tem que ser.

-Depois de ter, como um tolo, acreditado nas primeiras informações do governo , ainda não sei o que se passou em Tancos e nem sei se alguém sabe. Já li tantas declarações contraditórias de altas patentes e políticos que chego aqui e acho que ou me escapou alguma coisa, ou então é mesmo assim, não é para esclarecer nem ninguém é responsável.Como já passaram mais de quinze dias, não interessa nada. Demitem-se, voltam a nomear-se os mesmos, foi assalto, foi erro de inventário, era material obsoleto, não era obsoleto. O ministro que tutela esta salganhada lá continua,  a fazer o que pelos vistos é um bom trabalho.

-Depois de ter, como um tolo, acreditado nas primeiras informações do governo,ainda não sei quantas pessoas morreram no incêndio de Pedrógão Grande e nem sei se alguém sabe. Agora o número de mortos está em segredo de justiça, o que me parece um bocado estranho, não percebo qual a razão de o número de mortos de uma catástrofe não ser público, mas o que é certo é que o segredo de justiça em Portugal é um bocado inútil, volta e  meia o Correio da Manhã publica coisas que deviam ser segredo de justiça e o próprio Presidente da Assembleia da República, o segundo magistrado da Nação, já disse com a classe que o caracteriza que se está a cagar para o segredo de justiça.Eu também, e nisso partilho da opinião do excelentíssimo, não me estou tão a cagar é para políticos que abafam problemas, gosto de saber quem são. Uma senhora lembrou-se de fazer uma investigação e chegou a contas diferentes sobre os mortos do incêndio, a acusação principal que lhe fazem é como esta :

https://www.facebook.com/plugins/post.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Frui.calafate%2Fposts%2F1579767878712935&width=500

Dizer que alguém não deve/pode ir fazer comentários à televisão sem ter as contas todas pagas é imbecil, é um critério que levaria a um esvaziamento das televisões e jornais (nem seria mau) e levanta a pergunta : onde é que ele entrega a declaração do IRS que lhe permite fazer estes comentários públicos? E por exemplo o Presidente do SLB, que em dívidas conhecidas vai em mais de 300 milhões?Pode falar e dar opiniões ou devia era estar calado? Ridículo. Anda a confundir-se criticar a falta de informação e responsabilidade do governo com “aproveitar mortos para fazer política”, isto devem ser tudo pessoas que ou não querem saber quantos morreram e porquê, estão no seu direito, ou acreditam em tudo o que diz o governo, também estão no seu direito. Entretanto o país continua  arder e se se critica o governo por isso é aproveitamento político. Dantes era dever patriótico, agora em Portugal os incêndios são uma inevitabilidade, e calem-se mas é , seus abutres a querer fazer política com mortos.

-Um candidato a presidente de câmara veio dizer que muitos  ciganos vivem do estado e pensam que estão acima da lei. Disse uma coisa que , vincando o MUITOS, é uma verdade evidente que ninguém contrariou porque ninguém pode contrariar. É destratado pela comunicação social e pelos bem pensantes, que enchem páginas a escoriá-lo mas não fazem o que deviam, se a afirmação os incomoda assim tanto: mostrar que é falso ou, na impossibilidade de fazer isso, mostrar o que é que falhou em 40 anos de “políticas” e “investimentos”, porque das duas uma : ou não falhou nada e assim está bem ou falhou alguma coisa e tem que haver responsáveis. O Bloco de Esquerda,sempre na vanguarda da defesa dos direitos das minorias e das mulheres, até conseguiu que se obriguem empresas a ter quotas de género mas está caladinho que nem um rato sobre o tratamento das meninas e mulheres ciganas no seio da sua comunidade. Não é segredo, basta perguntar-lhes, é com orgulho que as tratam como tratam, mas isso já não incomoda o Bloco. Para que se veja quão claro é o tema “ciganos”, até uma pessoa que nos últimos anos tem alinhado bem à esquerda, Pacheco Pereira, bate aqui no ponto certo,sem dúvidas sobre o que está em causa. Para o Bloco, problema é dizer-se mal dos ciganos, não é haver mal para dizer. Ou isso ou casamentos combinados de adolescentes e meninas que não podem ir à escola são aceitáveis  ou não, consoante a etnia. Também gostava de ver o PAN opinar sobre o tratamento dos animais nas comunidades ciganas, também aí deve haver excepções culturais para comunidades minoritárias e vítimas de discriminação e racismo, que por o serem podem ter cães , cavalos e burros à fome, frio  e  porrada bruta que já não é problema, é multiculturalismo.

Temos a seguir a Caixa Geral de Depósitos, que depois de encerrar balcões ,despedir uns 2500 funcionários e sugar uns 250 milhões do contribuinte em “recapitalização” ,  prepara-se  para aumentar o custo de ter lá uma conta . Isto para mim sempre foi das coisas mais odiosas dos bancos : se vocês tiverem seis dígitos no vosso saldo não pagam nada, se tiverem menos de três, pagam. Lógica do demónio, daquelas coisas que faz as pessoas enfurecerem-se com os bancos. Dados estes quatro singelos exemplos da gestão da CGD sob um governo esquerdíssimo, eu pergunto, mais uma vez: para que serve ao cidadão haver um banco público? A resposta é fácil e consensual, mas nunca  a vão ouvir de um político: para financiar projectos esquemas de interesse político e dar emprego a amigalhaços.

Sobre empregos especiais , uma pérola de um homem que é especialista na matéria e tem toda uma vida dedicada a esse combate, Carlos César:

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A pergunta era “quantas pessoas da sua família não trabalham para o Estado?”, mas como para ele o assunto está encerrado, pronto, não se fala mais nisso.Nem sei quem é que anda aí com a ideia peregrina de que os políticos devem responder sobre os seus actos e sobre a gestão da coisa pública e que não são eles que decidem quando um assunto está encerrado.

Antes de finalizar, lembrar que o PSD fez ontem um ultimato ao governo sobre não sei quê, só por si o suficiente para se aferir da qualidade da oposição, está em conformidade com a do governo.

Por fim , um quadro de uma das mais importantes reformas do PS para salvar o país, para ilustrar o apelo que vou fazer aos meus sobrinhos quando eles tiverem idade (porque é provável estar tudo na mesma em Portugal daqui a 10 anos) : arranjem um emprego no Estado a menos que queiram trabalhar mais, ganhar menos e serem responsáveis  pelo que fazem. Idealmente juntem-se a uma juventude partidária ou à juventude partidária do Bloco que não é como as outras porque é do Bloco e faz acampamentos onde se estuda  O Capital e se dança contra o racismo. Alguns deles vão chegar a deputados.   Portugal é isto, um gajo brinca mas às vezes custa.

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Polvos Extraterrestres

Um dos efeitos colaterais da internet é permitir e potenciar a difusão das teorias mais abstruzas e dos raciocínios mais imbecis ao alcance do intelecto humano. Antes da internet só havia duas maneiras de publicitar  teorias como a viagem dos Templários ao Brasil ou a origem extra terrestre das pirâmides: persuadiam-se as pessoas pessoalmente, por meio de discursos e comunicações,  ou arranjava-se maneira de editar um livro por canais que não necessitam de escrutínio dos pares nem validação independente como exige a Ciência.  Nunca me vou esquecer de uma “conferência” da Sociedade Gnóstica a que assisti nas Caldas da Rainha em 1994, pela primeira vez pude apreciar ao vivo uma pessoa a debitar as coisas mais absurdas como quem fala de coisas sérias e provadas, coisas como antigas raças de proto-homens com 6 metros de altura.

Pessoas que conseguiam misturar os extraterrestres com a cabala e os Maias e que acreditam em tudo, desde que não venha de fontes tradicionais e oficiais. Pessoas que recusam o Método Científico sem se darem ao trabalho de ver o que significa e de onde vem e que ignoram voluntariamente que é a base de nossa sociedade e avanço como espécie. Pessoas que dizem que os grandes centros de investigação científica estão cheios de iludidos , trafulhas e vendidos e depois publicam vídeos de um guru brasileiro a explicar com desenhos perante um quadro negro que os extraterrestres estão entre nós, sem oferecer uma única prova. Pessoas que não sabem o que são provas e que são capazes de afirmar que o Homem nunca foi à Lua.

Para todas essas pessoas a internet foi uma bênção. Sem pausarem para reconhecer que a própria internet é fruto do método científico aplicado, usam-na não para pesquisar factos e provas e procurar as conclusões de quem leva décadas de investigação aturada mas sim  para inventar factos e provas e vê-los onde não existem. Dantes era difícil fingir credibilidade, hoje qualquer alucinado faz um site que visualmente é legítimo e sério, e depois dão-lhe nomes como “Centro para a Investigação do Futuro”  e estão prontos a tirar e publicar as conclusões mais absurdas que nada além da imaginação suporta. Há milhares de sites e grupos desses, por exemplo a noção de que a terra é plana é defendida hoje por milhares de pessoas por meio de sites como este, com a aparência de seriedade e credibilidade.  Há milhões de pessoas para as quais uma explicação rápida e “alternativa” é melhor que uma científica, especialmente depois de misturada com agendas políticas, por exemplo , havendo raiva contra as farmacêuticas e o seu foco no lucro é mais natural aceitar tangas tipo “camponês descobriu há anos a cura do cancro mas a indústria esconde-o” . O facto de as petrolíferas não estarem interessadas no fim dos combustíveis fósseis é,  para essas pessoas, prova de uma conspiração malévola e não a consequência lógica e legítima do negócio público  das mesmas. Se acreditarmos que a política mundial é decidida por vinte banqueiros judeus à volta de uma mesa torna-se tudo mais simples, claro e fácil de perceber, dá muito menos trabalho e explica tudo.

Ontem li no facebook que “cientistas concluem que o ADN dos  polvos não é deste mundo”

Já tinha lido sobre a excepcionalidade da biologia dos polvos,mesmo a nível molecular , e  como a “notícia” revelava um estudo publicado na Nature, fui ler. O texto pegava nas observações do estudo  e nas incógnitas que levanta para concluir que os polvos eram extraterrestres.A conversa que se seguiu contém, além de erros ortográficos,  umas curiosidades reveladoras que sublinhei.

Jv-   Quem conclui é a autora do artigo, não são cientistas.

Amigo – Ai ai os centistas, aqueles srs que sao pagos para dizerem o que os seus clientes querem? Esses sao sujos e que hoje em dia raramente dizem o que pensam???

JV- É mais uma questão de formação.Não podemos dizer que tirámos conclusões sobre biologia molecular se não estudámos biologia molecular nem a sabemos explicar. Eu também não a tenho, mas estive a ver o artigo na Nature em que essa autora ( que não tem formação científica) se baseia e refere como fonte. Se me mostrares uma referência que seja a realidades extraterrestres nesse estudo, pago-te um jantar.

A – Boa. Falta pouco para se falar na tv. Esse jantar vai saber bem eheheh

JV-  Não quero saber de TV para nada nem temos que esperar, isto é uma questão muito concreta: onde é que no estudo sobre os polvos que serve de base a esse artigo se refere a possibilidade de origens extraterrestres .

A- Eu nao acredito por causa de estudos nem provas. Eu faço os meus estudos eu faço as minhas provas. Nao existe nenhum estudo concreto que diga que a macrobiotica cura doenças. Exemplo, No meu caso e após muitos anos de estudo e depois de pratica- la, eu conclui de inumeras experiencias comigo e noutras pessoas, que funciona. Nao tomo medicamentos á mais de doze anos. Hoje em dia nao faz sentido estar á espera de estudos para tirar conclusoes… Nao te posso ajudar com algo que nao acredito. Desculpa…
Outro exemplo, a civilazaçao da atlantida estimasse ter 10000 anos segundo as minhas fontes. Esse assunto sempre me fascinou. Para saber mais dela nao vou procurar historiadores. Vou procurar antes num livro de plato que eu acredito ter acesso a informaçao de fora.
Sao formas diferentes de abordar temas.

JV-  Tudo bem, o meu “problema” não é com métodos ou teorias alternativas, é com o modo e a forma de apresentar informação e de se anunciarem “descobertas”, muito concretamente neste caso, no título do artigo, que é falso. Isto não significa que os polvos não sejam extraterrestres, mas os cientistas , até ver, não concluíram isso. No que diz respeito a fazeres os teus próprios estudos e provas,de facto é uma forma diferente de abordar os temas,mas se resulta para ti,força!

A – sim mas estas partilhas no fb para mim sao apenas uma forma de expandirmos ideias diferentes. É logico que existe muito lixo, mas o lixo faz parte da vida. Tenho uma balde em casa com lixo…

Perante  este argumento em defesa da disseminação do lixo  retirei-me da conversa, mas apareceu logo outro alternativo com esta contribuição:

Só um promenor o Platão nem sequer existiu o socrates não escreveu uma unica linha…mas uma coisa é certa pela analise dos mitos da criação vamos pelo menos na 3 humanidade e a história que nos ensinam na escola é no minimo idiota.

Um gajo que a defende a validade dos mitos da criação diz-nos na mesma frase que o que nos ensinam na escola é no mínimo idiota, há que apreciar com calma.

Quanto ao Platão, o meu amigo, que baseava nele todo o seu conhecimento sobre a Atlântida, diz que não sabe se existiu ou não, é para ele um pormenor irrelevante que a  sua explicação sobre a Atlântida se baseie em algo  que nem ele sabe o que é.

Daqui para a frente tenho que tentar separar as opiniões deste meu amigo sobre ciência das suas opiniões em geral, como se costuma fazer com assuntos que podem ser delicados. No futebol, ignoramos facilmente que um amigo seja doente terminal de uma clubite oposta à nossa, mesmo que isso o torne por vezes irritante não o torna um cretino, é uma questão de coração. Na política, ninguém tem problemas, acho , em reconhecer que pessoas que apoiam sistemas ou métodos opostos aos nossos preferidos não são menos inteligentes nem têm menos defesas legítimas dos seus pontos de vista. Na religião convivemos com pessoas de diferentes crenças,ou falta delas, e não as achamos imbecis por acreditarem, ou não.  No que toca à ciência para mim já não há essa tolerância, a partir do momento em que se nega a validade geral  da ciência moderna mostra-se uma limitação intelectual muito grande.

Que se critique a ciência, faz parte. Que se questionem conclusões e aplicações, é necessário. Que se proponham novas hipóteses,é do que vive a Ciência. Que se negue e desvalorize a ciência é simplesmente  estúpido.

O Manifesto e a Venezuela

Entre outras coisas estou a ler o Manifesto do Partido Comunista, sobretudo porque faz parte da enorme lista de obras do domínio público que organizações capitalistas como a Amazon , na sua ânsia de controlar o pensamento e a verdade, põem à disposição do público , sem custos . Volta e meia passo uns tempos a peneirar as ofertas de livros electrónicos e tudo o que me desperte vagamente o interesse , embarca.

Estou a ler o Engels mas também tenho em espera o Bastiat , e sempre que pego em autores que para mim são controversos e  criticáveis penso na possibilidade de nesse momento haver num canto do mundo um socialista ou comunista a pensar , bom , identifico-me com o  marxismo, faz todo o sentido para mim mas pelo sim pelo não deixa-me alargar um pouco o horizonte e ver o que diz este  Hayek , por exemplo. Já uma vez propus aqui uma troca de livros , gostava que alguém fizesse o exercício comigo, pessoas de tendências contrárias trocavam dois livros que achassem fundamentais e obrigavam-se a lê-los, criticá-los  e comentá-los depois, acho que  seria interessante , se alguém se encontra em campo oposto ao meu e quer aceitar , tenho livros para a troca e leio qualquer coisa.

O Manifesto dos comunistas , que ainda hoje lhes marca a ortodoxia, começa por explicar em detalhe a evolução e realizações da burguesia , e a cada página eu dava por mim a dizer “é verdade, é extraordinário e ainda bem que foi assim”, já em 1848 era bem aparente a revolução social trazida pela ascensão da burguesia e o fim do feudalismo, e hoje, com a  visão 20/20 que todos temos ao olhar para trás podemos avaliar os benefícios para a Humanidade e a distância percorrida desde então.

Temos , grosso modo, de um lado o Capitalismo e do outro o Socialismo , em versões mais ou menos duras. Desde  o primeiro momento em que o capitalismo foi identificado pelos seus oponentes que da sua descrição faz parte isto : “o capitalismo comporta em si a semente da sua destruição e as suas contradições vão levar inevitavelmente ao seu fim”. Já vamos em 170 anos de decadência do capitalismo , decadência cientificamente observada, diziam , e no entanto no meu tempo de vida não tenho visto nada mais que falhanços ignominiosos e trágicos de sistemas socialistas e a expansão do capitalismo a todo o globo , acompanhada de progresso científico e material sem precedentes. Os resultados não estão  mal para um sistema condenado à nascença e estão  um pouco aquém das expectativas  para o  sistema cientificamente descrito e previsto como o mais indicado , justo e vantajoso,  que ia redimir a Humanidade. Está difícil.

Das coisas que me incomoda mais é ver pessoas a pegar na análise que Engels fez à sociedade no fim do século XIX e nas suas receitas e apelos e achar que são pertinentes hoje. As condições e relações de trabalho em 1840 eram atrozes. Todos devemos muito aos lutadores contra as injustiças , explorações e misérias, que com mobilizações, denúncias, manifestações  e greves lutaram por condições decentes. Como estudante de História nunca posso negar a dívida colectiva que temos para com os socialistas do século XIX .

A questão é :  o que é que fazemos quando  atingimos um objectivo , se esse objectivo é  a nossa razão para viver ? Imaginem um discípulo directo do Engels a dar uma volta pelos subúrbios industriais da Inglaterra no século XIX e a inventariar as condições de vida e trabalho dos operários, ou cinquenta anos mais tarde a passear pelo Alentejo e descrever como viviam os camponeses. Agora peguem nesse mesmo indivíduo , tragam-no para 2017 e ponham-no  por exemplo na Auto Europa a acompanhar um dia de trabalho de um empregado e depois a segui-lo até casa e conhecer a sua família. Estão a ver onde é que eu vou com isto? Os trabalhadores hoje trabalham e  vivem em condições que nem sequer eram sonhadas pelos trabalhistas de há 150 anos , e no entanto o discurso dos comunistas é o mesmo . 

As tácticas e estratégias dos comunistas & derivados hoje em dia são comparáveis às da National Rifle Association ,  a associação dos entusiastas das armas nos EUA : os seus objectivos declarados já foram cumpridos há muito , mas como admiti-lo seria admitir a sua irrelevância e o facto de que já não estão lá a fazer nada de produtivo,o que se faz é criar sempre novas ameaças, inventar inimigos, descobrir  novos alvos , manter os níveis de exaltação da população e um sentimento não só de que as coisas estão muito más como de que eles têm a solução.

Vejamos  a evolução destes  indicadores fundamentais ,  desde 1990 : fome , pobreza , literacia, mortalidade infantil e poluição. Os anos 90 coincidem com o que os anti capitalistas chamam ataque neo liberal , a desregulação e liberalização de mercados e o intensificar da globalização. O que o capitalismo e o liberalismo trouxeram foi isto :

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Haverá sem dúvida quem duvide dos números destas instituições , mas essas pessoas já há muito tempo que deixaram de ler este post (ou este blog) e teriam muita dificuldade em apresentar números alternativos credíveis.

Dadas as mudanças enormes que vemos nas relações sociais e de trabalho, na tecnologia e na comunicação  desde 1870 seria de esperar que os autoproclamados defensores dos trabalhadores tivessem adaptado o seu discurso, os seus objectivos e os seus métodos mas não é isso que vejo. O PCP ainda hoje não crê no valor da propriedade privada, por exemplo , e defende uma economia centralmente planificada, os resultados desses modos de organização estão à vista de todos, tal como os resultados de sistemas que defendem a livre iniciativa. Apesar de todo este progresso visível o  PCP , BE e sectores do PS continuam a apostar no socialismo e a aplaudir quem se reclama socialista , e eu chegado aqui já me convenci de que nada os fará mudar de opinião.

Está nestes dias a terminar na Venezuela a última experiência de socialismo em larga escala, e está a acabar em grande : A economia encolheu 10% no ano passado e chegado o fim deste ano estará 23% mais pequena que em 2013.Este ano a inflação anda pelos 1600% . 3/4 da população venezuelana perdeu peso , numa média de 8,7kg por pessoa devido à escassez de alimentos. Isto sem nenhuma guerra nem catástrofe natural, deve-se exclusivamente à má gestão do país, um país riquíssimo em petróleo e cujos líderes conseguiram desbaratar tudo . Como de costume , seja em países socialistas ou capitalistas , as elites estão bem e recomendam-se.Comecei a escrever este post por causa deste video  que vi há pouco: O presidente da Televisão Venezuelana é encontrado nos Estados Unidos às compras, a apreçar uma TV de 2500$ e é confrontado por um Venezuelano.

 

Não me choca muito o facto de o chefe da televisão estatal de um país em crise profunda levar vida de rico, não me espanta a hipocrisia dos que todos os dias denunciam os EUA e nunca perdem uma oportunidade de lá ir, o que me tira do sério são os pacóvios que engolem e vão continuar a engolir a ideia de que os socialistas (ou bolivarianistas ou o raio) são melhores que os outros e que realmente se importam com as desigualdades e as pessoas e não com a sua própria vidinha e posição, que se quer quanto mais confortável melhor. Acham que  são diferentes, reclamam  superioridade moral por serem socialistas, depois todos os dias se vêm coisas assim, dá um certo asco.

A Venezuela ( onde vive meio milhão de portugueses e luso descendentes, convém lembrar) é a última demonstração prática do falhanço do socialismo mas não o é para todos,  dentro de  pouco tempo vamos passar à fase da negação. Até agora as desculpas apresentadas para a calamidade são clássicas : são sabotadores internos e a oposição traidora ; são os comerciantes a só querer lucros (os imorais) ,  é a queda do preço do petróleo (que desgraçadamente só afectou a Venezuela , azar do caraças) ; é a CIA.

 Assim que for mais evidente ainda que essas coisas não explicam nada e que o problema foi mesmo o sistema orgulhosamente socialista que o Chavez montou e encorajou , aposto o que quiserem que o discurso dos que sempre apoiaram o regime vai mudar e vamos passar a ouvir : aquilo não era socialismo verdadeiro.

Isto é uma lástima porque passam 170 anos desde o Manifesto , já houve tanta morte , revolução , convulsão e sofrimento em nome do socialismo que começa a cansar perceber que afinal ainda não foi desta que vimos o verdadeiro Socialismo em acção. Esqueçam o que ouviram em 1999 e nos anos do petróleo em alta em que o Chavez arrotava postas de pescada, construía bairros sociais todos os dias e criava uma população dependente do Estado: aí era a beleza do Socialismo em marcha .

Agora que chegamos à conclusão sobre a qual  tantos se fartaram de avisar, agora que se vê claramente a  herança do Chavez (que   muitos como eu esperavam logo na sua morte em 2013) , em breve leremos as Raqueis Varelas e os Boaventuras Sousas Santos a explicar-nos que não, o Socialismo foi corrompido e abandonado a dada altura. Deve ter sido mais ou menos pela mesma altura em que se acabou o dinheiro.

O  Maduro é apenas o último da galeria global de autocratas falhados que arruínam países enriquecendo-se,  e ao seu clube de amigos,  e  aos quais nunca vai faltar o coro de estúpidos a justificar,  pondo a culpa noutro lado qualquer. A próxima vez, seja ela onde for, vai ser igual.

Vejo mesmo agora no twitter um deputado do PCP a dizer isto  “os EUA podem armar a burguesia, o governo não pode armar o povo.Tá certo”.  Isto  comentando a decisão do Maduro de comprar (não há comida , atenção) 500 mil espingardas para armar os seus camisas castanhas  boinas vermelhas , acho que é uma conclusão apropriada para este texto.

Escrita

Sei que nunca  vou ser um escritor no sentido comum do termo porque  me falta o que é comum a todos os escritores decentes :  a pulsão incontrolável de escrever ou a disciplina para escrever mesmo quando não se tem vontade nenhuma. Fora disto não há nada , não há talento que resista à falta de prática e perseverança nem há qualidade em textos escritos em esforço.

Todos os “gurus” da escrita ( farto-me de rir quando vejo pessoas a dar “cursos de escrita criativa” e nas suas qualificações há um blog e um livro publicado pela Chiado Editora)  insistem em que é preciso forçar a palavra , trabalhar a frase ,  lutar contra a folha em branco , insistir , apagar e voltar  escrever , sempre. Eu até concordo , mas muitas vezes o resultado é mau  quando os produtos  dessa insistência são publicados .

Vivemos na época da auto publicação em que deixou de existir a condição primordial que existia ainda há 20 anos : para publicar alguma coisa tem que haver pelo menos uma revisão do texto por alguém qualificado e o texto tem que ser julgado interessante por pelo menos mais uma pessoa . Hoje é escrever e carregar no botão , na net é à borla , se querem publicar um livro em papel quaisquer 1000€ fazem de vocês um autor. A qualidade está diluída numa torrente de banalidades e mediocridade , a aparência e/ou fama  dos autores  vende textos , os correctores ortográficos automáticos camuflam limitações e insuficiências e a “barulheira” é tal que uma pessoa se perde facilmente .

Sabem qual é o livro mais vendido em Portugal nesta altura ? “O meu Plano do Bem” , a autora é uma personalidade da televisão e a sinopse do livro é medonha , é o género de coisa que só interessa a quem lê colunas sociais e que pensa que por ler aquilo poderá ficar mais perto de uma vida como a da autora , ignorando que ser  bonito e famoso não se aprende nos livros nem se atinge com planos de cinco etapas. Aposto o que quiserem que se a senhora fosse uma anónima de  Fornos de Algodres podia levar aquilo às editoras que quisesse que ninguém lhe passava cartucho , aquilo existe e foi publicado porque a autora é bonita e famosa e isso atrai as pessoas , mesmo que os textos sejam amálgamas recicladas  de pseudo filosofias de bem estar e inanidades básicas tipo aquelas em que se especializou Gustavo Santos , um indivíduo que diz , sob aplausos tremendos , coisas assim :

Só aquele que ousa, por sua livre e espontânea vontade, abandonar o rebanho da indolência para fazer o seu próprio destino é que alcançará, verdadeiramente, o total poder da alma que é.

Aqui o que não é óbvio é confuso , como seria de esperar de um gajo que  fala longamente sobre “assumir a alma” , mas  ele é um referencial no mercado da auto ajuda , mercado ao qual os portugueses chegaram como é normal com cinquenta anos de atraso, o que por uma vez lhes confere uma  vantagem : têm para trás de si cinquenta anos de  produção alheia para requentarem e adaptarem .

No segundo lugar da   lista dos livros mais vendidos vem a JK Rowling , e isso para mim demonstra outro factor poderoso nisto das escolhas de leitura: a moda. Não devia ser assim mas é , e tal como na questão da roupa fico estupefacto ao ver que a maioria das pessoas usa como critério para as suas escolhas o que os outros usam ou lêem : Isto usa-se muito sempre foi o suficiente para eu não usar uma coisa desde que saí da adolescência , a única época da vida em que é aceitável querermos fazer e parecer como os outros .

Na   minha proposta de “rotina 2017” reservei os Sábados para escrever , ou pelo menos umas horas dos Sábados ( era para ter começado anteontem mas tive uma matança de um porco) , em  que vou esforçar-me por escrever uma página mesmo que não me ocorra nem me apeteça nada. Isto não quer dizer que a regularidade ou qualidade dos posts aqui vai melhorar, quer só dizer que é  um exercício que vou levar mais a sério , para minha própria edificação e melhoramento , não esperando mais do que provocar um sorriso aqui , uma reflexão ali , talvez algum enervamento num comunista que aqui venha por acaso num dia de textos sobre política.

Talvez  no fim de algumas dezenas de   Sábados me encontre com um monte de páginas interessante sobre os dois únicos temas sobre os quais  eu poderia escrever alguma coisa de qualidade : viagens marítimas à vela ou a vida numa ilha pequena e remota.

Por falar nisso , no outro  dia escrevi aí ,  a propósito de já nem sei bem o quê , “ilha isolada” . Ninguém reparou e eu deixei ficar como exemplo de um problema que eu aponto aos outros mas do qual não estou livre : as dezenas de erros e  incorrecções que lemos todos os dias , e ninguém se importa muito.

PS: estou a ler o Ensaio sobre a Lucidez , do J.Saramago , já vou na página 70 e tal e ainda não encontrei um único ponto de interrogação , está-me a fazer muita confusão.

Protestos

Sou 100% a favor de manifestações , de apoio ou repúdio , e acho que um país em que a população não se manifesta regularmente não é muito saudável. Existem manifestações e existem protestos violentos , e para apoiar ou desculpar esses já preciso de estar convencido primeiro de que a situação é desesperada e depois de que a violência pode de facto ajudar a resolver o problema.

Não é o caso da esmagadora maioria de protestos violentos de que vou tomando conhecimento , e não é certamente o caso dos motins que se têm visto de grupos a protestar contra o Trump. O pessoal que acha que está na “resistência” ao presidente vai ser uma das primeiras linhas da sua defesa : “estão a ver como são os que não gostam do Trump? Além  dessa publicidade negativa e de possivelmente adquirirem cadastro  não vão conseguir mais nada ,  vão contribuir para a queda do Trump mais ou menos na mesma medida em que o Que se Lixe a Troika contribuiu para a saída da troika de Portugal.

A América ainda é um país livre com instituições evoluídas ( lembrem-se , este é o quadragésimo quinto presidente em 240 anos , nós vamos em 22 em 107 anos  e desses só 7 foram lá postos em eleições “decentes” , pelo que é preciso cuidado quando criticamos o sistema eleitoral americano , mesmo quando permite eleger figuras extraordinárias e polarizadoras.

É engraçado notar como as eleições americanas entusiasmam as pessoas , e não foi só este ano pelo insólito todo da coisa . Que as pessoas se interessem , opinem e comentem sobre uma realidade que lhes diz relativamente pouco respeito , é normal. Que achem que de alguma forma conseguem alterar , influenciar  ou fazer  diferença pelas suas acções já me surpreende muito mais. Antes das eleições um grupo de celebridades que eu nunca tinha visto ( excepto o F.Alvim) fez um vídeo em que os participantes diziam para a câmara “I give a Fuck”, uma expressão idiomática de calão significando que eles se importavam com o resultado das eleições. Vi o vídeo e deixou-me com uma questão : porquê? além da autopromoção , o que é que eles esperavam alcançar com aquilo, eles que nem votam na eleição? Esperavam que um americano indeciso por acaso visse no youtube uma dúzia de desconhecidos a dizer por outras palavras que não se estão a cagar para o resultado , e isso falo-ia  agir? Não percebo , tal como não percebo a manifestação que vai haver amanhã em frente à embaixada dos EUA em Lisboa . Vai haver uma Marcha das Mulheres em Washington, naturalmente para protestar contra o Trump . Parece-me adequado , no sítio certo e na altura certa e gostava de ver dois milhões de manifestantes nessa marcha.

Ir para a porta da embaixada em Lisboa com um sucedâneo da Marcha das Mulheres é simplesmente ridículo, mas há sempre candidatos e é o que vai acontecer amanhã .

Estou a tornar-me chato com o Trump e voto aqui deixar o assunto por uns tempos bons . Não ouvi o discurso inaugural mas está aqui na íntegra. A palavra de ordem é patriotismo , que como sabemos resvala facilmente para o nacionalismo , que por sua vez , mesmo que venha cheio de intenções nobres , dá sempre cobertura e possibilita  um sem número de malfeitorias.  De resto não há surpresa, há demagogia , análises  trocadas  , promessas e soluções impossíveis, diagnósticos errados. Não há retórica elevada , é um discurso para o mínimo denominador comum e aparece lá, desligada , claramente porque tinha que ser inserida nalgum lado, esta frase :

The bible tells us how good and pleasant it is when God’s people live together in unity” .

” A bíblia diz-nos como é bom e agradável quando o povo de Deus vive junto em unidade” .

Talvez diga , não sei , mas é uma frase que obriga a  pensar no que é que entendemos por “povo de Deus” ,  “agradável” e “unidade” ,  e que sobretudo revela que os que defendem a separação  entre Religião e Estado não podem esperar boas coisas da nova administração.Por outro lado, tenho a certeza de que podemos esperar  um sem fim de ocasiões cómicas e  as sátiras e   polémicas não vão ter descanso . Do  ponto de vista do simples espectador que sou , isso é bom. E poucos sabem isso tão bem como o novo Presidente.

Deixo aqui para os possíveis interessados este documento relativo ao dossier mais importante que ando a analisar neste momento aqui no mundo real , o prazo está a chegar  , está a ocupar-me muito tempo em cálculos e comparações e a decisão está difícil .

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O 45º

Hesitei em escrever sobre isto porque a investidura do  Trump  como 45º Presidente dos EUA é  um facto que não tem uma influência por aí além na minha vida , nem na da maioria dos portugueses ,  além disso é um  tema martelado ad nauseam e ainda por cima não tenho nada de particularmente relevante ou original para dizer sobre isto.

Estou mais triste do que outra coisa qualquer , desiludido com a América de que gosto tanto e que se deixou chegar a este ponto. É verdade que o Obama largou  20 ou 70 bombas por dia , conforme em quem quisermos acreditar , e que a dívida dos EUA explodiu no seu mandato , mas revolvem-se-me as entranhas ao ver o Obama comparado desfavoravelmente com o Trump ou quando ouço pessoas a dizer coisas do género  pois, o Trump é um bocado maluco mas o Obama era um banana . Não há dificuldade  em encontrar gente a denegrir a Presidência Obama e que  reserva julgamento sobre o que fará o Presidente Trump , dando-lhe o benefício da dúvida. Dar o benefício da dúvida a um homem assim é como abrir o galinheiro e dar o benefício da dúvida à raposa .

A minha objecção principal nem é contra as políticas dele, na medida em que se pode dizer que ele anunciou políticas concretas e compreensíveis, mesmo não concordando. Mesmo que tivesse sido  eleito a prometer a colectivização da economia, que remédio , aturava-se até às próximas eleições, é a democracia .O meu problema com o Trump , que não vai desaparecer mesmo que a  América improvavelmente entre numa era de paz e maior prosperidade , é o seu carácter.

Qualquer pessoa que veja dez minutos de declarações públicas do Trump e que não seja muito rústico ou adepto fanático  consegue perceber que o homem tem um ego gigante e um pavio curtíssimo ;  tem uma falta de respeito enorme pelos adversários ; tem uma relação muito liberal com os factos ; mente sobre qualquer coisa a qualquer altura , fala mal ,  é senhor de uma arrogância desmedida ;  resumindo , é um labrego que pode viver num apartamento que parece o Palácio de Versailles mas não deixa de ser um labrego , e é muito por isso que tanta gente votou nele : “ele fala como as pessoas normais” dizem as pessoas anormais que pensam que é bom um presidente falar como um taxista , em forma e conteúdo.

Detesto o gajo pelo que é como pessoa , não tem muito a ver com o proteccionismo que ele defende nem sequer com as propostas fiscais que vão enriquecer os que já são ricos ou mesmo com a expansão do orçamento para a guerra ou a eliminação  de regras ambientais e redução do sistema de saúde . É ele , é aquele ar de espertalhão , aquele gabar-se constantemente , aquelas demonstrações regulares de ignorância e incompetência , é o seu percurso empresarial que é uma falácia enorme e uma história de trafulhices e abusos, é o responder com maldade e vingança a críticas ,  é o dar cargos à família , é o rodear-se de cretinos , desde gente que pensa que o mundo foi criado em 6 dias há 8 mil anos até adeptos do KKK . Enfim , é tudo muito mau e tudo em volta do homem me repugna .

A última prova do surrealismo a que isto chegou foi ver o Putin , comentando alegações escabrosas feitas ao Trump , afirmar que as prostitutas russas são as melhores do mundo. É o nível a que o Donald Trump trouxe a política internacional, agarrem-se bem que isto vão ser quatro anos do caraças.

Estou a ouvir a emissão da BBC World porque sou um snob que aprecia jornalismo e não aprecia  traduções e o que me fascina mais são as declarações dos apoiantes do Trump que foram para Washington celebrar e que acham que ele vai trabalhar para melhorar a vida do Homem Comum. Alguns destes imbecis de entre os que votaram Trump nem sabiam que o Affordable Care Act , que lhes dá acesso a um seguro de saúde , é o mesmo que Obamacare , cuja promessa de eliminação os deixou muito contentes.

Na saída do Obama uma palavra especial para outro dos meus ódios de estimação , o Julien Assange. Aqui há uns anos antes de se esconder afirmou , com a cagança característica, que quando a América libertasse o soldado Manning , condenado por implicação na divulgação de  documentos classificados, ele se entregaria à justiça americana para enfrentar as acusações . O Obama  indultou o Manning. O Assange diz que não se entrega  ,  como homem íntegro que é.