Da Corrupção e Desonra

Um tema seguro para ventilar e soltar vapor é uma das figuras que tem o condão de me pôr mal disposto quando o vejo, só por olhar para ele, o Trump.

Há um relatório de 400 páginas , resultado de uma investigação minuciosa feita por uma das organizações mais poderosas do mundo que documenta e demonstra que o presidente obstruiu a justiça e que a sua campanha teve relações com potencias adversárias, e  ainda ontem, para que só restassem dúvidas na mente dos cretinos, o Procurador Mueller falou pela primeira vez para dizer que só não constituiu arguido o presidente porque isso não é possível. Não sei se é pela Constituição ou por outra razão, mas um presidente em exercício não pode ser constituído arguido, não fora isso e o homem já estaria a responder por vários crimes.

Isso é uma coisa.

O que se passou ontem no Japão já é de arrancar os cabelos e abandonar a esperança, foi o sinal, para quem ainda precisava de um , que a miséria moral e  a corrupção de princípios e leis alastra , impregna-se, normaliza-se.

A Armada americana tem um destroyer chamado John McCain. Ora, o senador McCain veio de uma longa linhagem de soldados e foi herói de guerra. Era da juventude dourada nos anos 60  mas avançou para servir o seu país no Vietname, era piloto de caça, foi abatido e sobreviveu anos de cativeiro e torturas que lhe deixaram sequelas permanentes porque se recusou a ser libertado para servir a propaganda do Vitecong. Enquanto isso outro membro da juventude dourada da mesma geração, o Donald, cobarde como sempre foi nem sequer teve a coragem de fugir do país para não ser incorporado, ou pelo menos ser capaz de mexer os cordelinhos para ficar numa unidade segura, como o G.W Bush. Não, o papá pegou no livro de cheques e encontrou um médico corrupto que lhe diagnosticou uma condição abstruza que ningúem sabe definir, nem o próprio ( bone spurs)  e repetiu o “exame” e o “diagnóstico”  até ao fim da guerra.

McCain voltou ao seu país para ser governador e senador republicano, Trump nunca saiu e continuou a sua carreira de vigarice e basófia. Passam os anos e o McCain, como homem com honra, quebrou fileiras do seu partido e denunciou a fraude Trump. O homem, mesquinho e vingativo como é, nunca lhe perdoou, chegando ao absurdo de declarar, quando lhe perguntaram como é que era possível ele desvalorizar a opinião sobre defesa nacional de um veterano herói de guerra e líder político, que “preferia os que não se deixavam capturar”. Asco e vómito logo aí, mas ainda havia mais indignidades, entre elas ter feito uma birra porque a família do McCain náo lhe agradeceu o funeral de Estado.

Chega então aquele verme em visita de Estado ao Japão, e o USS John McCain está lá destacado. Ora, à volta de todos os autocratas narcisistas e alienados gravita sempre uma corte de sicofantas rastejantes cuja função na vida é agradar ao chefe, dizer-lhe o que ele quer ouvir, confirmar-lhe as opiniões e atacar os seus inimigos. Os estudiosos dos regimes autoritários chamam-lhe “trabalhar para o líder”.

Estas doninhas viscosas, à vista do USS John McCain e sua tripulação, perceberam logo, e bem, que a vista daquilo ia enervar o líder e potencialmente lançá-lo numa das suas tiradas incoerentes e raivosas. Pediram por isso ao comandante que tapasse o nome do navio e desse licença aos marinheiros  (que usam o nome do seu navio no boné) . Se o pedido  já era inconcebível aqui há poucos anos, o comandante aceder era impensável. Mas a  Marinha, neste caso o comandante do navio, para sua eterna vergonha e ignomínia, acedeu. Já vi fotos da lona a tapar o nome, sempre a parte que leva o orgulho da unidade e da tripulação, sempre conferido para honrar uma memória e inspirar valor. Taparam-no para não incomodar o entulho humano que ocupa o posto de presidente, e quando se chega aqui, quando as Forças Armadas, garante máximo da separação dos poderes e da independência de um país se baixam a este ponto, podemos esperar tudo, tudo de mau.

Já não vale a pena esperar que vozes da razão se levantem nem que “alguns homens bons” tomem uma posição. Basta ler o twitter do homem ou ouvir as suas diatribes diárias  para ver que não há  ali  nenhum espaço para a Razão. A América tem muito que amargar, e o mundo por arrasto.

Evolução para a Guerra

Todos os períodos históricos têm os seus pessimistas e profetas da desgraça, desde sempre que existem indivíduos que vêm o futuro negro, desde os autores do Eclesiastes até ao Shopenhauer,  passando pelo Voltaire e personagens como Cassandra ou  o nosso Velho do Restelo. Por cada visionário de olhos brilhantes há um realista com as mãos na cabeça, e a evolução da Sociedade e da Espécie continua, com umas consequências magníficas e outras macabras.

A questão principal é a velocidade a que as coisas começaram a mudar no último século, comparando com os 30 séculos precedentes, comparando com o início do tempo em que se começaram a tirar apontamentos e registar coisas.  “Antigamente”, até à Revolução Industrial, a regra era que 99% da população ia levar uma vida basicamente igual à dos pais, avós e bisavós, todas as mudanças, fossem na paisagem, no clima, na economia ou na organização social eram imperceptíveis no curto prazo.

Entre os Templários criarem as notas de crédito e o seu uso se generalizar passaram mais de 600 anos. Entre o Tim Berners Lee criar a Internet e o seu uso se generalizar passaram 30.

Uma pessoa no tempo das Invasões Francesas  respirava um ar de composição idêntica ao de uma no tempo do Viriato, mil e setecentos anos antes , essa mesmo pessoa hoje em dia, duzentos  anos depois, era capaz de morrer se se materializasse em  Lisboa e respirasse fundo.

Desde que nasci até ter uns 25 anos ouvia música no mesmo suporte que os meus pais e avós, o disco de vinil. Nos 20 anos seguintes já passei por CD, minidisc, mp3 e já vamos no streaming.

Ninguém consegue parar isto, o que é um bocado assustador porque se por um lado apreciamos e gozamos os frutos de toda esta evolução e mudança, por outro vamos tomando consciência de que esta evolução tem custos elevados, em certos casos tão elevados que são insuportáveis.

Para mim os custos mais elevados estão na política, ainda mais do que no ambiente. O Homem já mostrou que se é alguma coisa é adaptável, há milhares de anos que vivem humanos nas tundras geladas e nos desertos ressequidos e o Homo Sapiens não corre nenhum risco de extinção, ao contrário de muitas outras espécies. O que faz a política é decidir e determinar quais os grupos e indivíduos que prosperam e quais os que sofrem e desaparecem , e de onde eu vejo as coisas a noção de “bem comum”  interpreta-se como “bem comum aos do meu grupo”, provavelmente sempre foi assim mas agora é tudo exacerbado e amplificado.

Com a revolução das tecnologias de comunicação e a sua perversão pelos interesses mais daninhos cada vez se divide mais o mundo e a política é feita do confronto entre “nós” e “eles” , mesmo quando essa divisão é artificial.  Rebentadas e esgotadas as ideologias clássicas, quando a população está anestesiada pelo “entretenimento” e vidrada nas possibilidades infinitas de alienação que tem  no seu telemóvel, o sucesso político está nas mãos de quem consegue criar, explorar e maximizar as divisões.

Em vez de aceitarmos que o Socialismo trouxe coisas positivas e que o Capitalismo é o melhor sistema de organização económica, simultâneamente; em vez de procurarmos uma síntese das respostas de ambos aos problemas , em vez de rejeitarmos o que de negativo têm ambos , aferramo-nos aos “da nossa equipa” e diabolizamos os outros, trafica-se em absolutos, não se concede nem se recua, encara-se qualquer cedência como uma derrota e culpa-se sempre, sempre, o adversário, que demasiadas vezes se pensa como inimigo.

Como mais uma vez se comprovou, desta feita em Espanha com o surgimento do Vox, também a Terceira Lei de Newton se aplica na política, para cada acção haverá uma reacção correspondente. Os extremos alimentam-se do extremo oposto.

E os extremismos obviamente vivem da manipulação da opinião e das ideias “prontas a pensar”, vivem de jogar com os medos e inseguranças das pessoas e fazê-las crer que eles podem mudar as coisas a seu favor. Quando os métodos de transmissão de ideias eram as conversas, os livros e os jornais, a manipulação não era uma tarefa simples e exigia um certo domínio não só da retórica como do assunto em causa. Essa barreira desapareceu com a comunicação de massas e a possibilidade de fazer chegar seja que informação for a todas as pessoas ,  ao mesmo tempo que se conhecem os tais medos e aspirações de cada indivíduo, porque alegremente os comunicamos ao Mundo.

O Trump provou que não é preciso sabe falar, ser culto e dominar os temas para se chegar ao poder, basta conhecer o público alvo. Idem o Bolsonaro, idem o Orban, idem a fornada de proto ditadores que (a minha aposta) vão entretanto deixar de ser proto ditadores para assumirem o cargo em pleno e juntarem-se a outros de facto , como o Putin e o Kim, que de resto o Trump não se cansa de elogiar enquanto humilha aliados, e isso não revolta gente suficiente. Há 20 anos era impensável um país com uma democracia e instituições estabelecidas como os EUA dar o poder a um homem como o Trump, tenho bem na memória a candidatura do democrata Howard Dean que foi forçado a abandonar por se considerar ridículo e indigno de um estadista um grito que ele deu num comício. O Trump mente cerca de 8 vezes por dia, demonstra todos os dias uma ignorância vastíssima e  tem uma vida feita de desrespeitar mulheres, minorias, a verdade  e a Lei  mas tem uma esperteza enorme e sabe entusiasmar os seus, e isso basta.

E isto tudo para chegar à guerra que vem aí . De vez em quando percorro os arquivos deste blog à procura de previsões que fiz ou coisas que antecipei e que não aconteceram e até agora estou bastante satisfeito com o registo porque ainda não encontrei  nenhuma  relevante (não quer dizer que não haja , com este são 1350 posts e sou tão falível como o próximo) , vou deixar aqui mais esta:

Antes de o ano acabar os Estados Unidos vão declarar guerra ao Irão ou intervir na Venezuela.

É dos livros de História que o principal aliado e muleta de um ditador ou aspirante a ditador é o inimigo externo, real ou imaginado. Num país com uma história e tradição belicista como os EUA isso funciona ainda melhor porque a maioria das pessoas não só não tem a noção do que é como rejeita cabalmente  (até vir este presidente) o governo de um  déspota.          Um conflito militar  sempre foi relativamente fácil de provocar  (acabei há pouco uma história da queda de Cartago que explica lindamente como os romanos provocaram a Terceira Guerra Púnica ) e  é-o muito mais hoje em dia , fruto da tal aceleração incrível da tecnologia e do modo como ela permite criar uma mensagem e disseminá-la, mesmo que seja demonstravelmente falsa.

Acossado por todas as investigações ao seu passado e presente criminoso e pela revolta que provoca nas pessoas de bem providas de capacidade de raciocínio , o poder do Trump basea-se no bom desempenho  económico do país e no racismo e extremismo que ele alimenta e quem tem mais eco no país que os Americanos gostam de admitir.  Decorre uma guerra comercial com a China que soa bem quando é anunciada dos palanques dos comícios mas que é desastrosa economicamente, e quando a economia começar a piorar, quando a maioria das pessoas começar a perceber que a sua vida não está a melhorar como prometido, quando o apoio ao presidente começar a tombar, vai aparecer o “Casus Belli” e a nação vai juntar-se em torno do líder para lutar contra os maus, contra os inimigos, e os principais candidatos são os  governos do Irão e da Venezuela.

Uma guerra para desviar o foco, entreter o povo, enriquecer mais ainda os lobis do armamento e fazer-se passar por duro e valente.  A tecnologia avança a um ritmo incrível, a sociedade altera-se com ela mas há coisas que nunca mudam.

 

Anticlimático

Ao fim de longos meses de espera o procurador especial Mueller entregou o seu relatório sobre as relações entre a campanha do Trump e a Rússia. A frase que encheu os jornais e televisões foi “não se provou que houvesse conspiração entre  o Trump e a  sua campanha e os Russos”. A festa entre os trumpistas, liderada, claro está, pelo próprio, foi enorme, em proporção ao desalento em pessoas como eu. Não é grave, porque há várias questões importantes saídas disto.

-Não ficou estabelecida nenhuma colusão mas há meia dúzia de antigos membros da campanha Trump presos por manobras que incluem encontros com agentes russos e há cidadãos russos arguidos, pelo que se pode dizer que afinal não se vê chama mas a fumarada é bem real.

-Uma parte da investigação era sobre a alegada colusão, a outra sobre obstrução à justiça pelo presidente. O relatório diz que “não pode confirmar nem desmentir” e o Trump, incapaz de falar sem mentir, veio logo berrar em maiúsculas que foi “totalmente exonerado”. Isto é ofensivo porque se ninguém ainda tema cesso ao relatório todos tiveram acesso ao resumo feito pelo Attorney General e o que está lá muito claramente explicado é que “não se retirou uma conclusão, de uma maneira ou de outra”. Isto, para aquela raça de canalhas sem princípios que mentem como respiram, equivale a “exoneração total”, fica registado.

-Fica o fraco consolo de saber que esta que agora terminou foi uma de 17 investigações ao presidente, que deve ser tão investigado por ser boa pessoa, sempre escorreito e honesto. Também há o consolo de ver que o apoio ao presidente não diminuiu nem cresceu, ou seja, ninguém mudou de opinião sobre ele por causa disto.

-O que o público conhece é um relatório de 4 páginas sobre um relatório de 400. Quem compilou essas 4 páginas foi o AG, que além de ser apoiante do presidente já defendeu que este deve estar acima da lei enquanto presidente.  Isto não chega para tranquilizar e encerrar a questão, toda a gente quer ver o relatório completo e há que perguntar bem alto como é que uma “caça às bruxas” como o maníaco, na sua total e completa ignorância sobre História lhe estava sempre a chamar, como é que uma investigação acaba com meia dúzia de tipos presos e trinta e tal acusados pode ser irrelevante , como é que  se tem a lata de dizer que não havia lá nada.

Livre da investigação, o Trump e o seu governo podem agora continuar descansados a tornar a América grande, as duas últimas que ouvi são que vai prosseguir a campanha para desmantelar o Obamacare sem nada de eficaz que o substitua, eficaz no sentido de assegurar cuidados de saúde a todos e uma que parece inventada mas é verdadeira: a secretária da Educação é uma bilionária  que ocupa o posto porque pagou para isso, nada na sua história a indica para seja o que for ligado à educação e como o déficit está a explodir há que “apertar o cinto”, diz a senhora, que tem cinco iates se não estou em erro. Uma das coisas que vai neste apertar de cinto,  necessário entre outras coisas devido aos biliões em reduções de impostos para os milionários, é o financiamento para os Paraolímpicos. Os Paraolímpicos, que são a oportunidade para os deficientes competirem e se realizarem como os outros. Não deve haver no mundo muita gente que consiga ser contra os Paraolímpicos mas a administração Trump consegue, ao mesmo tempo que berra que esta é a melhor economia de sempre vai  retirar 16 milhões ao desporto adaptado. Vale a pena referir que  no contexto de um orçamento dos EUA 16 milhões de dólares  é quase um erro de arredondamento.

Sem a esperança da investigação do Mueller, que nos meus sonhos ia fazer o Trump demitir-se ou pelo menos não se voltar a candidatar, já acredito que ele pode perfeitamente ganhar outra vez para o ano. Não há nenhuma canalhice, mentira, ofensa, desonestidade, incompetência ou absurdo que lhe retirem o apoio que tem, não só dos eleitores como de todos os políticos que têm o seu destino colado ao dele e por isso comem tudo o que ele lhes põe à frente. Há que aguentar, só uma crise económica séria vai tirar de lá aquele tipo,e nem isso é certo. Tenho que me conformar.

Por cá ao menos não temos problemas por ter um presidente criminoso, mentiroso patológico  e semi analfabeto, ao menos isso. O nosso está noutro nível, é só um bocado parvo e inconsequente,  hoje por exemplo achou que era bom escrever para o correio dos leitores de um jornal a explicar em 9 pontos onde andam e o que fazem os seus familiares, para que não se julgue  (mesmo que ninguém lhe tivesse perguntado nada nem acusado de nada) que ele entra em favorecimentos à família. O último ponto é a esclarecer  que ninguém o nomeou para presidente, foi o povo que votou nele. Caso houvesse dúvidas.

 

Sessão de terapia

Lamento mas tenho que ralhar outra vez sobre o Trump e o número de defensores que ele tem no nosso país, número que felizmente já teve uma evolução negativa mas ainda assim persiste. Pessoas como o Nuno Rogeiro continuam a defender o homem e a tentar menorizar os que o criticam e denunciam pensando que a ressalva “mesmo que não simpatize com ele”  lhes limpa a folha e permitirá no futuro dizer “ah, eu nunca simpatizei com ele” como se isso desculpasse o apoio que lhe dão.

Ontem o presidente esteve no Vietname. Curiosamente, grande parte dos seus apoiantes são militaristas que não se incomodam com o facto, provado, de que ele pagou para lhe inventarem uma desculpa médica para não prestar serviço militar com a sua geração na guerra do Vietname. Pior que um desertor ou um refractário, acções que mesmo assim necessitam de alguma coragem, o Trump é um entre muitos que ficou no seu país e no seu conforto de milionário, corrompendo médicos com o seu privilégio  enquanto os outros iam lá malhar com os costados e morrer. É hoje o Comandante Supremo das Forças armadas, eu ainda me lembro da comoção que foi quando se soube que o Bush Jr, na mesma altura , tinha prestado serviço militar na Guarda Nacional na segurança do Texas. Ao menos foi incorporado, fez recruta e prestou serviço numa unidade.

Nesta visita ao Vietname foi encontrar-se com o maluco da Coreia do Norte, ditador hereditário que mantém o seu povo prisioneiro e sub nutrido e manda matar opositores. Se bem estão lembrados aquando da primeira cimeira uma carrada de idiotas veio gritar “estão a ver, o Trump já conseguiu o acordo com o Kim!“. Não conseguiu nada , nem antes nem agora, não há acordo de espécie nenhuma como é fácil de confirmar, o que ontem se ouviu do Trump foi criticar o Obama por não ter conseguido um acordo. Falou também no caso do americano que passou lá 15 anos de trabalhos forçados e torturas e que morreu em consequência disso. O presidente diz que acredita no ditador, que acredita que ele não sabia de nada nem sabe do que se passou. Tal como no caso dos jornalistas assassinados pelos russos ele diz que acredita no Putin e no caso do jornalista  desmembrado pelos sauditas ele acredita no príncipe saudita, mais uma vez, a terceira,  diz que acredita num ditador. Quem é que tem opinião diferente? Os serviços secretos e de informações americanos, que estão naturalmente satisfeitíssimos com um presidente que não só se orgulha de não ler relatórios como os contradiz publicamente porque se acha mais esperto que todos. Por três vezes o Trump prefere acreditar em ditadores, aceita a palavra deles contra as evidências e contra a indicação dos serviços de informações mais poderosos  do mundo, por acaso os seus, e isso é aceitável para os defensores dele. É de trepar pelas paredes acima em desespero.

Na semana passada, há gravações disto, o gabinete falava à imprensa sobre acordos de comércio com a China. O Secretário do Comércio explicou a diferença entre um acordo e um memorando de entendimento, corrigindo o presidente, que ficou visivelmente agastado, corrigiu, ou pensou que corrigiu,  o secretário do comércio de uma maneira absurda  e terminou com este a fazer como se faz com uma criança birrenta para ela se calar: Está bem , de agora em diante não lhe chamamos mais Memorando de Entendimento, chamamos sempre Acordo. E é assim , diz quem lá trabalha, o dia a dia daquele governo. Mesmo quando não sabe, ou sobretudo quando não sabe, ele pensa que sabe e não suporta ser contrariado.

Vão-se fazendo as contas e a última contagem diz que o Trump faz 5 afirmações incorrectas ou falsas por dia, ainda há pouco tempo li um discurso dele em que até sobre cães ele consegue mentir, no caso era sobre as capacidades dos pastores alemães. É patológico e não tem limites, já se passou há muito tempo daquele nível em que se trata das mentiras habituais e esperadas nos políticos, tipo “acabou a austeridade” ou “eu não tinha conhecimento desse problema” para um chorrilho constante de mentiras que entre outras coisas cumprem a função de saturar as pessoas e de já ninguém querer saber ou dar importância. Chegámos ao ponto em que comentadores e políticos encolhem os ombros perante a mentira do dia e dizem, ah , é o Trump a ser Trump, não se pode ligar a essas coisas. Não só pode como deve , e tolerar esta corrosão total da confiança  e da idoneidade que se espera dos governantes é medonho.

O Bill Clinton enfrentou um processo de impugnação por ter mentido sobre as suas relações extra conjugais com uma estagiária Este homem mente sobre tudo, desde a sua declaração de impostos até ao seu passado, passando pelas relação com potencias estrangeiras e incluindo as declarações públicas que faz, e lá vai fazendo o seu caminho de corrupção , enriquecimento e incompetência, é assombroso. Entendo perfeitamente que os republicanos se sintam forçados a apoiá-lo, não só não querem ir contra a base eleitoral dele, quase a mesma que a sua, e muito menos perder os doadores, gente impecável como a NRA, as farmacêuticas e a indústria do carvão. Como são políticos, no dia em que ele cair vão imediatamente dizer que sempre viram as coisas mal encaminhadas e tentaram avisar mas estavam de mãos atadas. Isso é natural.

Agora, que gente como o Nuno Rogeiro (falo dele hoje por causa de uma troca ontem no FB que foi reveladora disto tudo) continue com uma atitude ambígua dando o seu apoio semi velado e temperado pelo disclaimer “mas não simpatizo com ele” já me incomoda mais.

Então ontem , enquanto o Grande Negociador estava a ser humilhado por mais um ditador no Vietname, em Washington houve umas 9 horas de depoimentos do ex advogado do Trump perante o Congresso. Esse homem foi condenado, até ver, a 3 anos de prisão por coisas que fez ao serviço do Trump, entre elas entregar um cheque a uma actriz pornográfica com a qual o candidato apoiado pelos Evangélicos e a direita religiosa teve um encontro sexual enquanto a sua terceira mulher estava grávida. Tudo normal.

Durante mais de 9 horas esse advogado caido em desgraça confirmou  o que toda a gente atenta, com dois neurónios funcionais e sem palas ideológicas nos olhos já descobriu há anos : o Trump é um racista, mentiroso e vigarista e a sua empresa e negócios funcionam muito como a Máfia. O dr Rogeiro acha que o advogado não tem credibilidade  e não apresentou provas. Porque os arrependidos da Máfia que ajudaram, nos EUA e em Itália, a meter na cadeia dezenas de padrinhos, eram todos pessoas de altíssima credibilidade e foi por isso que foram arrolados como testemunhas. Além disso ao super informado e sagaz doutor da actualidade internacional escapou um ponto, não se tratava ali de um julgamento , era uma audiência congressional, mas isso agora não interessa  nada, como não houve vídeos nem documentos assinados pela mão do Trump a incriminar-se, aquilo não valeu nada. Muito bem.

Por falar em máfia , é o meu consolo e esperança que há um homem nesta altura a trabalhar com toda esta gente e todos estes documentos e todas estas ligações criminosas, um homem de reputação tremenda, carreira admirável e personalidade de aço, o Procurador Mueller. Este homem é o total oposto do Trump, começando logo pelo Vietname: enquanto o Trump se escondia pagando a médicos para lhe inventarem doenças o Mueller, que até por questão de estudos podia ter sido isento do serviço, alistou-se como voluntário e foi lá ser dos mais condecorados e valorosos oficiais da guerra. Foi 12 anos director do FBI e investigou e condenou mafiosos como John Gotti, e por isso conhece bem os meandros e modos de pensar dessa canalha e certamente ri-se quando tentam atacar a credibilidade de um informador arrependido. O Trump nunca se cala e fala da investigação todos os dias, aterrorizado como está por ela. O Mueller nunca abre a boca, só se exprime por meio das comunicações e diligências judiciais . Nesta investigação, que o génio tenta desvalorizar todos os dias, já foram proferidas 37 acusações e já há pelo menos 4 associados do Trump atrás das grades, não está mau para uma caça às bruxas.

Tenho esperança nas instituições americanas, tenho esperança que o homem caia, mas não muita, sei que não há impossíveis nem limites quando se trata de hipocrisia política , corrupção e desinformação. Também sei que se chegar esse dia feliz todos os inteligentes que hoje o desculpam , racionalizam e apoiam vão ser capazes ou de um mortal à retaguarda ou de entrar pelo caminho do golpe, sempre o mais fácil. Uma cabala do “estado profundo”. Muitos irão apontar que ele vai cair por alguma coisa de trivial tipo fuga aos impostos , espero que alguém lembre essas pessoas que foi por uma coisa assim que se prenderam mafiosos como o Al Capone e que quando se luta contra criminosos qualquer dos crimes serve para os arrumar.

O que o Trump é está à vista de todos os que se dêem ao trabalho de olhar. Os que preferem ignorá-lo   por terem  em vista objectivos estratégicos e ideológicos mais largos hão-de pagar por isso. Ou melhor, deviam pagar por isso, mas eu até  vislumbro a possibilidade de ele voltar a ser candidato, ser reeleito e depois fazer eleger o filho em 2024.

Eu sei que há problemas muito maiores para Portugal, para os Açores e para esta ilha, e sei que há coisas muito mais interessantes e histórias que valem muito mais a pena mas isto dá comigo em maluco e escrever estas coisas é uma espécie de terapia.

Paris já está a arder?*

Escrevi um rascunho deste post a semana passada, tinha ido beber um café, coisa que não faço todos os dias e muito menos no Inverno, e na TV passavam imagens de uma carga da polícia de choque nos Campos Elísios.Fiquei a ver um bocadinho, com um certo gosto por várias razões. Uma , são franceses , que como povo não me são simpáticos. Duas,  já estou na fase de acreditar que isto não pode de maneira nenhuma continuar  em paz,  uma paz que me parece que ninguém valoriza.Quer-me parecer  que  ninguém ouve os centristas e os moderados e que cada vez há mais gente que acredita que a solução para as suas dificuldades do dia a dia passa por uma espécie qualquer de ruptura violenta.

Já tinha visto que havia manifestações e protestos, muita  gente anda a partilhar uma informação que acho muito relevante, creio que em França o salário mínimo são 1400€, a gasolina subiu para um preço ainda menor do que o que nós pagamos e esse aumento dos combustíveis foi o suficiente para inflamar a rapaziada. Também é sabido que em França proliferam grupos de , digamos, jovens desenquadrados e marginalizados, noutros sítios conhecidos por corrécios e delinquentes, de várias cores e religiões cujo sentido da vida é a bordoada, eles até têm um nome para isso e desde há muitos anos que podemos ver o que se tornou uma tradição de ano novo dessa juventude : incendiar automóveis às centenas. São jovens incompreendidos e rebeldes dizem uns , são delinquentes comuns dizem os reaccionários radicais. Juntando isso às taxas de desemprego jovem e aos subsídios estatais que fazem com que estar desempregado nem seja  assim um drama muito grande para muita juventude, quer  dizer que mão de obra para motins e distúrbios nunca falta.

Antes das últimas eleições francesas  um canal  que eu via de vez em quando  em casa do meu vizinho mostrou  um trabalho de “opinião pública”, entre outros entrevistou duas famílias de férias a almoçar numa esplanada, o operador de câmara foi mauzinho e mostrou a mesa cheia de marisco e vinho branco e aquelas bestas, que tinham feito centenas de kms nos seus carros do ano para gozar as suas férias na praia com mariscadas, nem viam o absurdo e o insulto que era  queixarem-se de que as coisas estavam muito mal, os seus direitos ameaçados e o nível de vida a cair. Os famosos “protestos de barriga cheia” , que nós conhecemos tão bem, sempre foram das coisas que mais asco me deram.

Para muitas pessoas estes protestos em França por pagarem o gasóleo mais barato que o nosso enquanto  ganham o dobro querem  dizer que nós somos uns tansos e mansos, a mim diz-me que os franceses, que acham que inventaram o protesto popular,  ainda acreditam que distúrbios, bloqueios e manifestações lhes resolvem o problema, e quando não têm um problema inventam um.

A quem acha que resolvem,  quero lembrar o mais famoso dos protestos revolucionários de sempre, precisamente a Revolução Francesa. Em 1789 os revoltosos derrubaram o regime com um banho de sangue e a boca cheia de Liberdade, Igualdade e Fraternidade  e  em 1804 , meros 15 anos depois (faz hoje anos, por isso peguei no rascunho e publico isto), estavam a coroar Napoleão Bonaparte Imperador dos Franceses  e o homem  já estava bem lançado no seu projecto de ser Imperador da Europa. Foi um projecto que nós pagámos com muito sangue e tesouro, por três vezes, mas os amigos são os franceses e os pérfidos são os ingleses. Ainda ninguém me conseguiu  explicar porque é que um imperador é melhor que um rei mas aquela gente ganhou a fama de ser a pátria da liberdade  depois da Revolução e pronto, assim ficou.

Vi  há pouco um pequeno clip de umas dezenas de manifestantes com o colete amarelo a dançar  a macarena no meio de uma auto estrada. Eu acredito que se as coisas estão más ao ponto de se bloquearem as vias públicas, restringir o movimento de toda a gente e confrontar a polícia, o caso é muito grave e  a luta é séria. Se transformam aquilo numa palhaçada, lá se vai a credibilidade e simpatia. Noutro tom, vi instalada uma guilhotina em tamanho real  na praça do Louvre, e  chamem-me o que quiserem mas eu estou sempre do  lado oposto aos que gostam de execuções públicas, reais ou figuradas. (nota:  foi em 1977 que os franceses guilhotinaram uma pessoa pela última vez, lembrem isto quando vos vierem com merdas sobre os franceses e os direitos humanos)

É claro que parte daquele arraial é  feito pelos que não fazem outra coisa e vivem para o protesto e as manifestações, incluindo hooligans, neo nazis, bolcheviques modernos, socialistas revolucionários e muitos outros que acham que é a coisa francesa a fazer, mas tem que haver líderes e organizadores e gostava de saber se algum jornalista já foi perguntar a esses cabecilhas e porta vozes, dado que todos exigem a demissão do governo, qual é que é o plano para o dia seguinte e em que medida é que a demissão do governo vai fazer baixar o preço da gasolina ou aumentar os salários ou baixar os impostos, a menos que esta gente toda acredite, como é muito possível, que os governos imprimem e distribuem o dinheiro que querem e controlam toda a economia.

Causam-se prejuízos de milhões, lança-se o caos na vida de centenas de milhar, cai o governo,  e depois? Avança o homem ou mulher providencial com a bala de prata, a panaceia para os males modernos? Ou somos adeptos do para já vamos assim e depois logo se vê? É que eu aplico esse princípio muita vez na minha vida, mas acredito que não se pode nem deve trabalhar assim na gestão dos Estados, nunca dá bom resultado. Exemplo bem actual, o descalabro do Brexit.

Os franceses são dos povos mais ricos e que têm vidas mais confortáveis no mundo inteiro, fazerem esta destruição e caos  por causa do aumento da gasolina, ou porque estão descontentes com a economia e o aumento de preço foi o catalisador  é, entre outras coisas, uma certa falta de respeito e consideração por sociedades em verdadeira crise, seja económica, social ou política.

E ainda há aqui outro problema: somos todos muito democratas, concordamos que a democracia representativa é o melhor regime possível e gostamos de ter regularmente eleições livres… excepto quando não são os nossos que são eleitos ou quando a realidade não se mostra conforme as nossas expectativas, aí passa ser legítimo derrubar governos nas ruas. O governo agora ou reprime e aguenta ou vacila e cede , não é uma escolha que eu gostasse de ter que fazer. Com o meu pacote de pipocas na mão gostava de ver mesmo Paris a arder,  o governo a cair e o poder passar para as mãos de um comité de cidadãos numa praça, com a boca cheia de slogans, abstracções e demagogia, pronto a duplicar os salários e cortar em metade os preços por decreto. Passados meses entraria um Melenchon , que é um Maduro com educação e sofisticação; ou uma Le Pen, que é o Trump de saias e  alfabetizado. Quero ver isso, e quero ver esta gente toda que hoje  berra e rasga as vestes com as malfeitorias da União Europeia, quero vê-los a lidar com a alternativa.

 

 

*Paris já está a arder ? é um livro sobre a libertação de Paris dos nazis, depois da derrota vergonhosa, rendição e anos de colaboracionismo entusiástico pontuado por episódios de resistência esporádica e organizada, financiada e treinada pelos ingleses e americanos. Outras pessoas interpretam esses anos de outra forma e não tem muito a ver com a situação actual, escolhi-o para título porque soa bem nesta altura.

Dispensa de lógica

Há cerca de 7 anos criei uma empresa, por ignorância, ingenuidade e optimismo injustificado. Essa  empresa, que já extingui com grande custo,  foi o meu curso intensivo sobre o modo como o Estado opera, depois de quase 20 anos de existência pacífica e livre em que nem desconfiava das manigâncias que se fazem na Administração Pública e ganhava a vida sem contacto de espécie nenhuma com ministério,  autoridade ou direcção geral de seja o que for.

Pouco tempo depois da criação da empresa recebi um email da AT a dizer-me que tinha um email a consultar na Via CTT. Como nessa altura não partia do princípio de que o aparelho administrativo está repleto de idiotias e absurdos pelo que podemos sempre esperar um a bater-nos à porta, pensei: Não faz sentido nenhum mandarem-me um email a dizer que tenho um email, ainda por cima não sei o que é a Via CTT, pelo que a AT, se tem alguma coisa a comunicar-me, vai-me mandar a mensagem ou para o meu email que pelos vistos conhecem, ou para  a minha morada física, que também conhecem.  Ah ah ah.

Então um génio qualquer da administração, ou grupo deles, decidiu que todos os contribuintes deviam passar a ter , quer quisessem quer não , quer fosse necessário quer não, uma caixa de correio electrónica nos CTT.  Achei  isso estúpido e abusivo demais para ser verdade e não me dei ao trabalho de ir configurar uma nova conta de email para poder receber os periódicos avisos de extorsão. Correu-me mal porque a AT decidiu mesmo que ou aderíamos à Via CTT ou não nos mandavam avisos e quando recebi pelo correio a multa ( para isso já se lembraram da minha morada) era tarde demais. É em ocasiões assim  que dou muito valor à interdição que temos de ter armas de fogo porque imagino bem alguém a quem o Estado faz uma brincadeira destas a perder a cabeça, entrar numa repartição e correr tudo a tiro.

Extingui a empresa este ano  ( uma empresa que nunca chegou a fazer uma transacção ou um movimento mas que o Estado me cobrou forte e feio para existir , e depois para extinguir) e com isso deixei de ouvir falar na via CTT até ontem , quando vi uma notícia que devia ser para emoldurar como exemplo do funcionamento do Estado : ” Contribuintes que não aderiram à Via CTT podem pedir dispensa de multa” 

Leram bem , “pedir dispensa de multa”. Então o Estado primeiro obriga toda a gente a aderir a um serviço de email redundante e desnecessário; usa esse serviço como meio exclusivo de comunicação, sabendo que grande parte dos contribuintes não sabe ou não quer usá-lo; a seguir, perante o incumprimento de pessoas que, em casos como o meu, nem sabiam que estavam em incumprimento , desata a multar os cidadãos e empresas. Finalmente, quando a burrada se torna aparente, oferece uma “dispensa de multa”, conceito novo e cheio de potencial. Não é um perdão nem uma anulação, dispensam-nos de uma multa na qual incorremos porque o Estado nos obrigou a usar um serviço desnecessário, sem avisar.  Eu vi a notícia na Lusa mas gostava de saber que meios vai usar o Estado para informar a generalidade das pessoas que foi multada de que pode ser dispensada, e gostava de ver um jornalista, se ainda houver para aí algum, a perguntar ao senhor que manda nesse departamento, se o facto de se estar a dispensar pessoas de pagar a  multa não é a admissão de que a multa não faz sentido, e não fazendo sentido , quem é o responsável pela salganhada e quem é que vai ressarcir os contribuintes que já pagaram por não saberem da possibilidade da “dispensa”.

Ainda ontem no restaurante vi outra que vai para a Galeria da Estupidez Estatal: o restaurante é obrigado a proceder a uma desratização mensal. Os donos , muito porque na ilha não há serviço de desratização e o técnico tem que vir de fora, faziam a desratização de dois em dois meses. Isto era inadmissível e uma ameaça clara à saúde pública, e lá veio o IRAE  (a nossa ASAE) remediar a situação e defender o consumidor, levantando um auto de contra ordenação. Vi ontem o relatório em que os técnicos, vindos de propósito (à nossa conta, obviamente) gastam várias páginas com jargão coberto de decretos lei ,  parágrafos e regulamentos para explicar a infraçcão e a coima que foi aplicada. Sucede que também aqui houve uma dispensa qualquer e nas últimas linhas do relatório, as que têm números, lê-se que a coima aplicada é de 0€ e que os custos do processo são  52€. Não têm que pagar multa nenhuma, têm só que pagar os custos do processo que estabeleceu que não têm que pagar multa nenhuma. Lindo.

 

Países de Merda

Já estive em países de merda, assim à cabeça da lista ocorre-me o Haiti e há mais uns quantos que eu considero nessa categoria mesmo sem nunca lá ter estado, tipo a Eritreia, a Moldávia ou a Arábia Saudita. Já ouvi várias vezes portugueses e estrangeiros chamarem a Portugal um país de merda, eu não partilho da opinião mas consigo perceber como é possível chegar a essa conclusão. Não me chocam essas considerações e se alguém se chocar com as minhas isso é-me  indiferente,  porque pessoas privadas podem exprimir as opiniões que quiserem, a menos que vivam num país sem liberdade de expressão, logo por isso candidato à categoria “de merda”. São meras opiniões.

Se somos uma pessoa com responsabilidades políticas ja não é bem assim, tem que haver um filtro e têm que ser observadas determinadas convenções. Um político, seja presidente de uma junta seja de uma nação, não pode dizer o que lhe vem à cabeça, tem que ter consciência da diferença entre a sua posição enquanto cidadão privado e enquanto representante eleito. Para ter essa consciência é preciso que tenha uma logo de início, e algum discernimento, coisas que faltam ao actual presidente dos EUA, que anteontem se interrogava em público porque é que “tinham  tantos imigrantes de países de merda e tão poucos de países como a Noruega”.

É natural que o cidadão Donald ache que países pobres e de gente escura sejam países de merda, mas referir-se publicamente a eles como tal, enquanto presidente, só mostra a quem ainda não tinha reparado que além de racista o homem é estúpido. De resto, qualquer pessoa que sinta necessidade de vir publicamente assegurar que é muito inteligente, um génio mesmo, deixa bem expostas as suas limitações e inseguranças. Nesta historieta dos “países de merda” , o  fait divers trumpiano do dia , o que é mais engraçado é que logo a seguir a essas declarações os fãs da criatura regozijaram-se por finalmente haver alguém que não tem medo de dizer o que pensa, e que pensa como tanta “gente normal”. No dia seguinte e como de costume o Trump veio negar que alguma vez tenha usado a expressão, ou seja, ele não disse aquilo para agradar à sua base nem para mostrar que tem o toque comum e que diz o que os outros têm medo de dizer. Saiu-lhe, disse-o sem pensar, porque é limitado nesse campo, e depois teve vergonha e negou o que disse, desiludindo a base que no dia anterior lhe louvava a coragem e a frontalidade para depois o ver  a pedalar para trás, expondo bem a dimensão da tal coragem e frontalidade.

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Já disse várias vezes que o que me incomoda mais no Trump não são as as suas políticas, concedendo que ele sabe o que é uma política e tem uma própria. Posso não concordar com elas, é diferente de as considerar   ilegítimas. O que me incomoda mesmo, além do egocentrismo desmedido, da  ignorância  e do vocabulário de adolescente, é esta estupidez constante e a disposição para ofender vinda de quem não sabe medir as consequências do que diz e passa a vida atolado em mentiras.

Quanto à dissecação que se anda a fazer da expressão “países de merda”, ou  “shitholes” , é sintomática dos tempos: como toda a gente vê e sabe o que toda a gente anda a dizer, toda a gente se policía e controla o discurso, não só  o próprio como o alheio. Que se faça isso a presidentes, é fundamental. Que se chateiem cidadãos particulares por acharem que certos países são  países de merda, é ridículo. Há quem ache que o politicamente correcto é um avanço civilizacional porque faz com se evite ofender sensiblidades ou pessoas, eu acho que  querer um mundo em que ninguem ofende ninguém é querer um mundo artificial de pessoas auto reprimidas e condicionadas pelos comités que explicam às massas o que se pode dizer e o que não se pode dizer. Pela parte que me toca, e como não represento nada nem ninguém, se eventualmente ofender  X,  tem que ser X a sentir-se ofendido e a pedir satisfações, se for Y a vir pedi-las em nome de X vai-se embora de mãos a abanar, que esta questão das ofensas não funciona por procuração nem interposta pessoa.

 

O PSD vai hoje a votos para escolher o novo líder. Não vi nenhum debate nem andei a ler programas de um ou de outro,  faço conta de nunca mais votar no PSD, mas tenho a minha preferência, que é Santana Lopes. Isto apenas porque Rio já disse que por ele avançava um Bloco Central , coligava-se com o PS. A haver um governo do PS em  coligação prefiro mil vezes que seja com a extrema esquerda, e isto tem uma razão muito simples: com o Bloco e o PCP na oposição a vida é um inferno de protestos, greves, agitação, imprensa histérica, manifestações e “agitação social”. De luta. Como se vê  desde que a geringonça pegou nisto, estando os comunistas e trotskystas no poder ou perto dele o país acalma logo, os jornalistas são muito mais comedidos, as histórias negativas são contextualizadas,  dá-se tudo aos sindicatos para não haver greves e não há manifs e protestos a encravar a vida ao cidadão. Exemplo concreto, neste Inverno em  15 dias morreram 600 pessoas devido ao frio e à gripe. Há 3 anos teríamos actrizes da política a bradar que a austeridade mata e que o governo tem que cair , hoje se alguém do BE ou PC falar sobre isto será para lamentar e exigir que se tomem mais medidas. Os combustíveis vão voltar a subir para os maximos de 2015, a diferença é que nessa altura eram os neoliberais a destruir o tecido produtivo e a sufocar o cidadão para dar lucros às petrolíferas , hoje é a vida, estamos dependentes das flutuações dos mercados e tal. Em 2014 emigraram de Portugal 134000 pessoas, era o desespero , o drama, o desânimo e a revolta. O ano passado emigraram 97000, é um movimento migratório natural e até tem vantagens em termos de remessas.

Porque prezo muito paz e sossego e abomino histerias e exageros prefiro ver a extrema esquerda a comer à mesa do orçamento com os seus princípios em banho maria e a votar a favor apesar de serem contra, do que ver um governo PS/PSD a brigar pelos despojos do Estado com os comunistas a agitar nas margens, para mim o pior dos cenários. Se o PSD tem alguma veleidade de voltar ao poder devia assumir-se como partido de centro direita, como adversário do PS e que rejeita coligações à esquerda, mas  o mais provável é escolherem Rio, que propõe o caminho mais curto para o poder. Muitos milhares que já votaram PSD, como eu, estão satisfeitos por finalmente haver uma alternativa para  quem não defende o socialismo, o estatismo e os arranjos dos que nos governam desde o fim da ditadura: a  Iniciativa Liberal, , uma hipótese de renovação.Espero que na transição de iniciativa cidadã para partido parlamentar não desiludam.