Dispensa de lógica

Há cerca de 7 anos criei uma empresa, por ignorância, ingenuidade e optimismo injustificado. Essa  empresa, que já extingui com grande custo,  foi o meu curso intensivo sobre o modo como o Estado opera, depois de quase 20 anos de existência pacífica e livre em que nem desconfiava das manigâncias que se fazem na Administração Pública e ganhava a vida sem contacto de espécie nenhuma com ministério,  autoridade ou direcção geral de seja o que for.

Pouco tempo depois da criação da empresa recebi um email da AT a dizer-me que tinha um email a consultar na Via CTT. Como nessa altura não partia do princípio de que o aparelho administrativo está repleto de idiotias e absurdos pelo que podemos sempre esperar um a bater-nos à porta, pensei: Não faz sentido nenhum mandarem-me um email a dizer que tenho um email, ainda por cima não sei o que é a Via CTT, pelo que a AT, se tem alguma coisa a comunicar-me, vai-me mandar a mensagem ou para o meu email que pelos vistos conhecem, ou para  a minha morada física, que também conhecem.  Ah ah ah.

Então um génio qualquer da administração, ou grupo deles, decidiu que todos os contribuintes deviam passar a ter , quer quisessem quer não , quer fosse necessário quer não, uma caixa de correio electrónica nos CTT.  Achei  isso estúpido e abusivo demais para ser verdade e não me dei ao trabalho de ir configurar uma nova conta de email para poder receber os periódicos avisos de extorsão. Correu-me mal porque a AT decidiu mesmo que ou aderíamos à Via CTT ou não nos mandavam avisos e quando recebi pelo correio a multa ( para isso já se lembraram da minha morada) era tarde demais. É em ocasiões assim  que dou muito valor à interdição que temos de ter armas de fogo porque imagino bem alguém a quem o Estado faz uma brincadeira destas a perder a cabeça, entrar numa repartição e correr tudo a tiro.

Extingui a empresa este ano  ( uma empresa que nunca chegou a fazer uma transacção ou um movimento mas que o Estado me cobrou forte e feio para existir , e depois para extinguir) e com isso deixei de ouvir falar na via CTT até ontem , quando vi uma notícia que devia ser para emoldurar como exemplo do funcionamento do Estado : ” Contribuintes que não aderiram à Via CTT podem pedir dispensa de multa” 

Leram bem , “pedir dispensa de multa”. Então o Estado primeiro obriga toda a gente a aderir a um serviço de email redundante e desnecessário; usa esse serviço como meio exclusivo de comunicação, sabendo que grande parte dos contribuintes não sabe ou não quer usá-lo; a seguir, perante o incumprimento de pessoas que, em casos como o meu, nem sabiam que estavam em incumprimento , desata a multar os cidadãos e empresas. Finalmente, quando a burrada se torna aparente, oferece uma “dispensa de multa”, conceito novo e cheio de potencial. Não é um perdão nem uma anulação, dispensam-nos de uma multa na qual incorremos porque o Estado nos obrigou a usar um serviço desnecessário, sem avisar.  Eu vi a notícia na Lusa mas gostava de saber que meios vai usar o Estado para informar a generalidade das pessoas que foi multada de que pode ser dispensada, e gostava de ver um jornalista, se ainda houver para aí algum, a perguntar ao senhor que manda nesse departamento, se o facto de se estar a dispensar pessoas de pagar a  multa não é a admissão de que a multa não faz sentido, e não fazendo sentido , quem é o responsável pela salganhada e quem é que vai ressarcir os contribuintes que já pagaram por não saberem da possibilidade da “dispensa”.

Ainda ontem no restaurante vi outra que vai para a Galeria da Estupidez Estatal: o restaurante é obrigado a proceder a uma desratização mensal. Os donos , muito porque na ilha não há serviço de desratização e o técnico tem que vir de fora, faziam a desratização de dois em dois meses. Isto era inadmissível e uma ameaça clara à saúde pública, e lá veio o IRAE  (a nossa ASAE) remediar a situação e defender o consumidor, levantando um auto de contra ordenação. Vi ontem o relatório em que os técnicos, vindos de propósito (à nossa conta, obviamente) gastam várias páginas com jargão coberto de decretos lei ,  parágrafos e regulamentos para explicar a infraçcão e a coima que foi aplicada. Sucede que também aqui houve uma dispensa qualquer e nas últimas linhas do relatório, as que têm números, lê-se que a coima aplicada é de 0€ e que os custos do processo são  52€. Não têm que pagar multa nenhuma, têm só que pagar os custos do processo que estabeleceu que não têm que pagar multa nenhuma. Lindo.

 

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Países de Merda

Já estive em países de merda, assim à cabeça da lista ocorre-me o Haiti e há mais uns quantos que eu considero nessa categoria mesmo sem nunca lá ter estado, tipo a Eritreia, a Moldávia ou a Arábia Saudita. Já ouvi várias vezes portugueses e estrangeiros chamarem a Portugal um país de merda, eu não partilho da opinião mas consigo perceber como é possível chegar a essa conclusão. Não me chocam essas considerações e se alguém se chocar com as minhas isso é-me  indiferente,  porque pessoas privadas podem exprimir as opiniões que quiserem, a menos que vivam num país sem liberdade de expressão, logo por isso candidato à categoria “de merda”. São meras opiniões.

Se somos uma pessoa com responsabilidades políticas ja não é bem assim, tem que haver um filtro e têm que ser observadas determinadas convenções. Um político, seja presidente de uma junta seja de uma nação, não pode dizer o que lhe vem à cabeça, tem que ter consciência da diferença entre a sua posição enquanto cidadão privado e enquanto representante eleito. Para ter essa consciência é preciso que tenha uma logo de início, e algum discernimento, coisas que faltam ao actual presidente dos EUA, que anteontem se interrogava em público porque é que “tinham  tantos imigrantes de países de merda e tão poucos de países como a Noruega”.

É natural que o cidadão Donald ache que países pobres e de gente escura sejam países de merda, mas referir-se publicamente a eles como tal, enquanto presidente, só mostra a quem ainda não tinha reparado que além de racista o homem é estúpido. De resto, qualquer pessoa que sinta necessidade de vir publicamente assegurar que é muito inteligente, um génio mesmo, deixa bem expostas as suas limitações e inseguranças. Nesta historieta dos “países de merda” , o  fait divers trumpiano do dia , o que é mais engraçado é que logo a seguir a essas declarações os fãs da criatura regozijaram-se por finalmente haver alguém que não tem medo de dizer o que pensa, e que pensa como tanta “gente normal”. No dia seguinte e como de costume o Trump veio negar que alguma vez tenha usado a expressão, ou seja, ele não disse aquilo para agradar à sua base nem para mostrar que tem o toque comum e que diz o que os outros têm medo de dizer. Saiu-lhe, disse-o sem pensar, porque é limitado nesse campo, e depois teve vergonha e negou o que disse, desiludindo a base que no dia anterior lhe louvava a coragem e a frontalidade para depois o ver  a pedalar para trás, expondo bem a dimensão da tal coragem e frontalidade.

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Já disse várias vezes que o que me incomoda mais no Trump não são as as suas políticas, concedendo que ele sabe o que é uma política e tem uma própria. Posso não concordar com elas, é diferente de as considerar   ilegítimas. O que me incomoda mesmo, além do egocentrismo desmedido, da  ignorância  e do vocabulário de adolescente, é esta estupidez constante e a disposição para ofender vinda de quem não sabe medir as consequências do que diz e passa a vida atolado em mentiras.

Quanto à dissecação que se anda a fazer da expressão “países de merda”, ou  “shitholes” , é sintomática dos tempos: como toda a gente vê e sabe o que toda a gente anda a dizer, toda a gente se policía e controla o discurso, não só  o próprio como o alheio. Que se faça isso a presidentes, é fundamental. Que se chateiem cidadãos particulares por acharem que certos países são  países de merda, é ridículo. Há quem ache que o politicamente correcto é um avanço civilizacional porque faz com se evite ofender sensiblidades ou pessoas, eu acho que  querer um mundo em que ninguem ofende ninguém é querer um mundo artificial de pessoas auto reprimidas e condicionadas pelos comités que explicam às massas o que se pode dizer e o que não se pode dizer. Pela parte que me toca, e como não represento nada nem ninguém, se eventualmente ofender  X,  tem que ser X a sentir-se ofendido e a pedir satisfações, se for Y a vir pedi-las em nome de X vai-se embora de mãos a abanar, que esta questão das ofensas não funciona por procuração nem interposta pessoa.

 

O PSD vai hoje a votos para escolher o novo líder. Não vi nenhum debate nem andei a ler programas de um ou de outro,  faço conta de nunca mais votar no PSD, mas tenho a minha preferência, que é Santana Lopes. Isto apenas porque Rio já disse que por ele avançava um Bloco Central , coligava-se com o PS. A haver um governo do PS em  coligação prefiro mil vezes que seja com a extrema esquerda, e isto tem uma razão muito simples: com o Bloco e o PCP na oposição a vida é um inferno de protestos, greves, agitação, imprensa histérica, manifestações e “agitação social”. De luta. Como se vê  desde que a geringonça pegou nisto, estando os comunistas e trotskystas no poder ou perto dele o país acalma logo, os jornalistas são muito mais comedidos, as histórias negativas são contextualizadas,  dá-se tudo aos sindicatos para não haver greves e não há manifs e protestos a encravar a vida ao cidadão. Exemplo concreto, neste Inverno em  15 dias morreram 600 pessoas devido ao frio e à gripe. Há 3 anos teríamos actrizes da política a bradar que a austeridade mata e que o governo tem que cair , hoje se alguém do BE ou PC falar sobre isto será para lamentar e exigir que se tomem mais medidas. Os combustíveis vão voltar a subir para os maximos de 2015, a diferença é que nessa altura eram os neoliberais a destruir o tecido produtivo e a sufocar o cidadão para dar lucros às petrolíferas , hoje é a vida, estamos dependentes das flutuações dos mercados e tal. Em 2014 emigraram de Portugal 134000 pessoas, era o desespero , o drama, o desânimo e a revolta. O ano passado emigraram 97000, é um movimento migratório natural e até tem vantagens em termos de remessas.

Porque prezo muito paz e sossego e abomino histerias e exageros prefiro ver a extrema esquerda a comer à mesa do orçamento com os seus princípios em banho maria e a votar a favor apesar de serem contra, do que ver um governo PS/PSD a brigar pelos despojos do Estado com os comunistas a agitar nas margens, para mim o pior dos cenários. Se o PSD tem alguma veleidade de voltar ao poder devia assumir-se como partido de centro direita, como adversário do PS e que rejeita coligações à esquerda, mas  o mais provável é escolherem Rio, que propõe o caminho mais curto para o poder. Muitos milhares que já votaram PSD, como eu, estão satisfeitos por finalmente haver uma alternativa para  quem não defende o socialismo, o estatismo e os arranjos dos que nos governam desde o fim da ditadura: a  Iniciativa Liberal, , uma hipótese de renovação.Espero que na transição de iniciativa cidadã para partido parlamentar não desiludam.

 

Pesos, Medidas e Trump, outra vez

Quase todos os dias alguma novidade da administração americana me causa um refluxo gástrico. É verdade que me podia preocupar mais com a nossa administração, mas quanto à nossa já cheguei a uma conclusão: os problemas estruturais de Portugal são insolúveis e enquanto o fundamental estiver assegurado (a pertença à UE e ao Euro) o resto são detalhes, as decisões de peso tomam-se noutras paragens e de qualquer maneira a maioria das pessoas não quer saber. 200 euros em gambas contribuem para  um escândalo nacional, 200 milhões da Santa Casa para um banco a falir não incendeiam as redes sociais.  Não há nada como uma pessoa perceber que a situação não tem remédio para deixar de se preocupar. As pessoas acham importante  saber com quem vai casar o neto da rainha de Inglaterra, como está a saúde do Salvador Sobral e coisas do género, e quem se agasta e preocupa com questões políticas , ainda mais estrangeiras, tem as prioridades trocadas. Por cá está tudo bem.

Já a situação nos EUA me assombra não só pelo impacto num país que me era caro e que conhecia bem mas também  porque nem três clones do João Galamba a falar todos os dias conseguiriam atingir um nível tal de mentira, falta de nível, ofensa e  hipocrisia política como o Trump consegue. Todos sabemos que a política é feita de hipocrisias e distorções mas devia haver mínimos, ou máximos a partir dos quais se retirava a confiança aos governantes, especialmente em democracias, mas não, nem que esfreguem este gráfico na cara dos apoiantes do Trump eles vão admitir que este homem não é de confiar . O Obama, em 8 anos de presidência, mentiu confirmadamente 18 vezes. Este em menos de um ano  já vai em   103.

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Mais do que me chateiam  as mentiras e canalhices do presidente irritam-me muitas  opiniões e análises que vou lendo por cá. Nada me fará mudar de opinião sobre o Trump, especialmente porque pessoas daquela idade não  mudam, e o facto de se conseguir desculpar e apoiar um homem com a estatura moral de uma ratazana de esgoto deixa-me doente.

Claro que se pode concordar com as políticas da sua administração (dizer que são dele é admitir que ele seria capaz de delinear e implementar uma política, já está provado que não é) , se formos contra a imigração, a segurança social e a favor de mão pesada da polícia, por exemplo, é normal que se goste do homem, mas há uma coisa que me tem dado um nó na cabeça e que infelizmente ninguém explica nem , que eu saiba, pergunta claramente aos trumpistas nacionais: como é que aumentar o deficit em 1,3 triliões de dólares é saudado como uma coisa boa? É que as pessoas de direita que apoiam o Trump são as mesmas que, por cá e com o meu apoio, exigem déficits menores e controlados. Essas pessoas agora aplaudem uma explosão do deficit porque se baixaram os impostos, e eu não entendo. Déficit grande é mau cá e bom lá? Se calhar é e eu não percebo. Aplaudem estes cortes de impostos que , segundo todas as análises e cálculos, beneficiam desproporcionalmente os muito ricos, indo ao extremo de incluir um benefício fiscal a quem tenha um jacto particular, e o pessoal aplaude. Um senador republicano em fim de mandato, Bob Corker, anunciou que ia votar contra. Introduziram uma emenda que dava mais beneficios fiscais a quem, como ele e o Presidente, tem empresas imobiliárias, ele mudou de ideias e já votou  a favor, e anunciou isso sem vergonha frente às câmaras.Hienas.

Ontem o presidente anunciou a sua primeira comutação de uma pena, prerrogativa presidencial, a possibilidade de reduzir a pena de alguém que se acredite merecê-lo. Os EUA têm talvez a maior população prisional do mundo, nos milhões atrás das grades haverá milhares de casos de penas desproporcionais ou  controversas e reclusos merecedores. Trump decidiu comutar a pena a um milionário condenado por fraude bancária. 

Não há um limite moral? Por mais que se admirem as políticas, será que se pode continuar a apoiar um homem assim, que nem tenta disfarçar os seus instintos e motivações? Outra : por cá a direita, e mais uma vez com razão, do meu ponto de vista, argumentou que o crescimento económico nestes anos da geringonça se devia principalmente às medidas e reformas do governo anterior. Extraordinário que essas mesmas pessoas publicitem que o crescimento nos EUA neste ano é da “economia Trump”, resultado das políticas desta administração. Mas não vêm a incongruência nisso? Como na história dos déficits bons e deficits maus, aqui o crescimento deve-se a políticas passadas, lá deve-se ao governo actual. É demais.

Gostava de escrever mais sobre a ilha, os animais, os barcos, a cerveja artesanal, a época  e coisas assim mas isto enerva-me de tal maneira que tenho que ventilar, e como o cão e o gato não são sensíveis à problemática, é mesmo aqui.

 

Alabama

A primeira coisa que vem à cabeça de muita gente quando ouve “Alabama” é  a canção dos Lynyrd Skynyrd  que toda a gente conhece, mesmo à das pessoas que se riem ao lembrar-se desse estado.  Não há muitos sítios que definam melhor o Sul dos EUA que o Alabama, e tudo o que sei dele, incluindo algumas passagens (não lhes posso chamar bem  visitas) e conversas com nativos  chega para o considerar o fundo  da nação, talvez dispute o título com o Mississipi, dá ideia que a única salvação do Alabama é  a equipa de futebol universitário, que é dominante a nível nacional, e não se pode tomar o futebol universitário como coisa irrelevante. Quem não gosta ou não segue futebol americano não tem lá nada para admirar, até a costa do Golfo do México está morta e degradada.

A história do Estado conta-se em pouco tempo. Os espanhóis foram os primeiros a passar por lá, no século XVI, vindos das suas deambulações por La Florida, sem fazer grande coisa que ficasse. Nos princípios do século XVIII  Instalaram-se  franceses e  fundaram Mobile, ainda hoje o maior porto do Estado. Quem já lá andava há muito tempo eram os índios, mas a esses nunca ninguém perguntou nada. Em 1800, apenas 20 anos antes de o Estado ser criado viviam no território do Alabama 1250 pessoas.Ou melhor, brancos, porque o resto não contava. No primeiro ano como Estado já lá viviam 127000 e acelerou  o processo inspirado pela teoria do Destino Manifesto que dizia que  Deus os levou àquela terra em reconhecimento da  virtude deles e que podiam fazer como entendessem, desde que de acordo com a Bíblia. Os selvagens, como tal, são para  expulsar e exterminar. Foi rápido, devido à desproporção de forças e ao influxo gigantesco de imigrantes europeus. Irónico, o ressentimento de tantos descendentes desses  imigrantes contra os novos imigrantes.

Depois do massacre e expulsão dos índios, a escravatura. Importaram-se centenas de milhar de africanos ou de pessoas que já não eram africanas por terem nascido na América mas eram tratados como bichos na mesma, e continuou a exploração. Em 1860 rebenta a Guerra Civil,  o Alabama foi dos primeiros a pegar em armas para defender os direitos dos estados , nomeadamente o direito a ter outras pessoas como propriedade. Não havia grande contradição, no Alabama de  hoje 78% da população é Protestante e desses, 49% são Evangélicos. ainda hoje mais de metade das pessoas do Alabama acredita no mundo criado em 6 dias, em  Eva  feita a partir de uma  costela de Adão e  na cobra falante. Tentei saber a proporção exacta de crentes em  Portugal, lamento mas não me apeteceu procurar muito e não encontrei, mas acredito e espero que a percentagem que aceita a Evolução seja muitissimo maior, tal como a dos que  não procuram orientação literal e fixa na Bíblia. No Alabama sempre houve mais pessoas que adoram e estudam a Bíblia literalmente, e sendo assim , encontraram  lá consolo e justificação para terem e maltratarem outras pessoas, especialmente sendo as outras pessoas filhos de Ham, como são biblicamente os africanos. Tem a ver com a história do Noé, pai de Ham, mas não me vou alongar sobre  imbecilidades senão isto nunca mais acaba.

O Sul perdeu a guerra civil mas se lá andarem hoje fartam-se de ver a cada passo muito orgulho nos  derrotados. Os escravos foram libertados mas como está bom de ver não basta uma lei, ainda por cima uma lei que levou a uma guerra, para que as pessoas comecem a olhar para as outras de modo diferente, ou,  vá lá, como pessoas. Os negros sempre tiveram a vida desgraçada no Alabama do pós guerra civil, com uma fracção dos direitos dos brancos e sempre, sempre sujeitos a toda a espécie de discriminações, abusos e violências, a começar pelas do Estado.  É ler “To Kill a Mockingbird”, por exemplo . O romance por excelência de denúncia e alarme contra  os preconceitos e iniquidades causadas pelo  racismo  nos EUA  passa-se  no Alabama. Como redenção na desgraça, mostra-nos que no meio dos animais se pode sempre erguer um Atticus Finch,  que há justos em todos os cantos do Mundo.

A segregação racial, o KKK, o criacionismo nas escolas, durante toda a metade do século passado o Alabama ia ficando para trás enquanto o resto da América evoluía na direcção de reconhecer igualdade de direitos  entre raças, que já chegou em teoria mas ainda não chegou na prática. O Alabama permanecia firme no século XIX, e figura alto numa das minhas histórias preferidas, que li nesta Biografia de África:

Em 1957 Richard  Nixon, então Vice Presidente, foi ao Gana por ocasião da celebração da independência do país. Num cocktail depois das  cerimónias oficiais Nixon aproximou-se de um jovem impecavelmente vestido que ele tomou como  Ganês e perguntou-lhe:

-Então, que tal é ser livre?

-Não faço ideia, senhor. Sou do Alabama.

E nesta base se desenvolveu  o Alabama, que só chegava às notícias por causa da luta dos Direitos Civis. Rosa Parks tornou-se heroína da nação ao recusar-se a ceder o seu lugar a um branco no autocarro, no Alabama. Martin Luther King jr fazia discursos tremendos e marchas de protesto enormes, no Alabama. O KKK incendiava igrejas e enforcava pessoas a meio da noite, no Alabama.

Chegamos a 2017 e o presidente é um indivíduo que não se cansa de dizer que ama o Alabama e os seus valores, o que não surpreende dado que é o mesmo que foi processado pelo Estado nos anos 80 por só aceitar  inquilinos brancos nos seus prédios em NY, que se diz muito cristão apesar de já ir no terceiro casamento escabroso e  não vale a pena começar a tentar listar a podridão do homem senão nunca mais me despacho, ele é a podridão em forma de gente.

O lugar de senador do Alabama vagou e ontem houve eleição especial para o substituir. O candidato democrata era um homem conhecido por ser o procurador que processou membros do KKK pelo assassínio de quatro  meninas quando puseram uma bomba numa igreja , lá no tempo em que a América era Grande . O candidato republicano era um ex juiz chamado Roy Moore, conhecido entre outras coisas por ter sido condenado e demitido pelo Supremo Tribunal por ter mandado instalar no relvado do seu  tribunal uma placa com os 10 Mandamentos. Acredita e diz para quem o quer ouvir que Deus tem que ser  fonte da Lei, como dizem os Ayatolahs, e não aceita ( juiz, atenção) a separação constitucional entre Estado e Igreja sem a qual, concordam todos os lúcidos, não pode existir verdadeira democracia. É  declaradamente contra os direitos dos homossexuais , acha que devia ser ilegal e também  disse que ” eliminar as emendas constitucionais depois da décima eliminava muitos problemas do país”. 

A 13a emenda aboliu a escravatura ; a 14a confere protecção igual a todos os cidadãos; a 15a proibe a negação do direito de voto baseado na raça; a 19a dá o direito de voto às mulheres e a 22a instituiu termos de mandato para os presidentes. Já dá para ter uma ideia razoável do pensamento político deste homem. Apareceu num comício vestido de cowboy, a mostrar uma pistola e tudo, e ontem foi votar  a cavalo.Não percebo de cavalos nem sei montar  mas  achei cómico e toda a gente que percebe de equitação se fartou de rir, porque se o homem alguma vez soube montar, já foi há muitos anos,  fez uma triste figura.

Também de há muitos anos vieram acusações um bocado sórdidas: O juíz Moore, na altura procurador nos seus 30 anos, gostava de miúdas adolescentes, andava atrás delas , “namorava” com elas, algumas de 14 anos. Foi proibido de entrar num centro comercial por andar a importunar as moças. Se é crime não sei, mas mostra uma pessoa um bocado nojenta. Nestes dias se  se fala de nojo na política americana o Trump não anda longe, e claro está, acabou a apelar ao voto no Moore para Senador. Um racista que defende a teocracia e é um alegado abusador de menores. Categoria. Classe. Sentido de Estado.

Deitei-me a pensar na eleição (é estranho mas é verdade, e nem conheço ninguém no Alabama…) e hoje para variar tive boas notícias pela manhã, o Moore perdeu. Os resultados foram 49.9% para 48.4%, margem finíssima mas prevaleceu a decência. Claro que o Trump já veio dizer que sempre soube que o Moore ia perder, confirmando que está sempre ao lado dos seus amigos e apoiantes e que é um homem de convicções. No Alabama que vive no século XXI respirou-se de alívio e ganhou-se alento, em Washington consta que agora só falta aprovar o novo regime fiscal, feito isso os oligarcas já têm o que querem e já podem deixar cair o presidente, esse palhaço que é uma vergonha para a América. E que tem 55% de apoio no Alabama.

 

 

 

 

 

Sexta Feira Negra

Não percebo bem porque é que não começámos já a celebrar o Dia de Acção de Graças dos americanos, que se assinala hoje, visto que existe muito potencial comercial de comunicação (ie, jornais e TVs a encher chouriços) e mais um  feriadozinho nunca fez mal a ninguém.

Provavelmente ainda nenhuma luminária importou e promoveu o Dia de Acção de Graças por causa dos tons religiosos da coisa, importa-se tudo quase indiscriminadamente mas há limites, uma tradição que junta famílias em agradecimento pela sorte que têm não tem muito apelo no nosso pós modernismo e iam chover críticas. É uma tradição não só do heteropatriarcado como tem laivos de colonialismo e outros ismos, de Acção de Graças ninguém quer saber até porque hoje em dia, como descobrimos que temos direito a tudo e tudo nos é devido (sim, você merece), não faz sentido agradecer a nada nem a ninguém, muito menos em família, essa outra construção artificial que só serve para perpetuar estereótipos .

Hoje não há Acção de Graças mas amanhã já é Black Friday , uma ocasião que  prezo porque me permite criticar ao mesmo tempo cinco coisas que detesto, a saber:

  • A pequenez  de importar tradições estrangeiras sem a mínima relação com o nosso país
  • A parolice de usar nomes em inglês a torto e a direito.
  • O consumismo desenfreado e a gratificação por via da aquisição de objectos.
  • A vacuidade dos meios de comunicação social que transformam  operações comerciais  em assuntos.
  • A mentalidade de manada que faz com que muitas pessoas  gastem  dinheiro a comprar coisas porque veem os outros a fazer o mesmo.

Amanhã então há que encontrar tempo para ir às compras, quer se precise de alguma coisa quer não, mas que digo, é claro que se precisa, a distinção entre bens necessários e bens supérfluos já se esbateu há muito e tenho a impressão de que uma boa campanha publicitária consegue sempre transformar seja o que for numa coisa que faz falta.

No dia a seguir, o Sábado Lilás , vamos poder ver notícias sobre trânsito infernal, poluição, dificuldades económicas, endividamento de alto a baixo, desintegração social, desigualdades e esgotamento dos recursos, mas tudo isso empalidece perante a possibilidade de passar duas horas no trânsito e outras tantas num barracão com ar condicionado cheio de luzes e gente para comprar um plasma por €432, 16% de desconto, imperdível. Depois , já a usar aquele casaquinho que só custou 65€ e que é o sexto dos casaquinhos que teem lá num armário a abarrotar, vão poder pronunciar-se sobre a desgraça das crianças do Bangladesh que trabalham na indústria do vestuário e  de como as pessoas (as outras) só ligam às aparências.

 

 

 

Em inglês fica sempre melhor

Uma das bandas portuguesas de que gosto são os Clã , que têm uma música muito bonita chamada “Problema de Expressão” , com este verso:

Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.

É uma das nossas modas mais prevalentes e que  a mim me faz trepar pelas paredes por achar que é das mais estúpidas e sem justificação:  tudo em inglês.

-A  cidadezinha  onde cresci, Alcobaça, organiza regularmente um festival literário e de cinema. O programa está aqui , a edição deste ano já acabou mas estive mesmo agora a vê-lo. Dura uma semana, o número de autores de língua inglesa presente é aproximadamente zero, a percentagem de convidados nacionais andará pelos 98%  e  o número de livros ingleses apresentados também anda entre o zero e o dois, não tenho a certeza porque não vi tudo.Os filmes são na esmagadora maioria nacionais e não me consta que o evento sejam transmitido no estrangeiro. Qual é o nome deste festival de livros & filmes? Books and Movies.

-Aveiro tem uma revista que só conheci anteontem, chamada Litoral , e conheci-a porque um grande marinheiro português que muito honra a vela nacional, Renato Conde, recebeu uma distinção pública pela sua carreira numa cerimónia em que a revista atribui prémios. São os Litoral Awards.

– A recente “websummit” é um festival de startup networking empowering  and disruptive technologies em que os participantes estão estatutariamente obrigados a usar um termo em inglês por cada quatro palavras que pronunciem, independentemente da  audiência.

-O mundo do espectáculo carbura a anglicismos e palavras inglesas, artista que não use regularmente essas expressões fica para trás. Desde os anos 60 que  um  “yeah” é quase obrigatório na  música moderna  nacional, a maoria das novas bandas escolhe nomes em inglês e perde-se a conta às  letras de canções em inglês escritas por quem devia ir tentar melhorar o inglês.

-No comércio, serviços e eventos culturais nem vale a pena  pensar em só usar o português, parece que  a língua da modernidade e inovação é obrigatoriamente o inglês, eu vivo numa aldeia perdida onde isso não é aparente  mas quem vive em centros urbanos pode verificar isso facilmente.

-Num mundo que me interessa mais de perto, o da cerveja artesanal , nota-se bem que já existe mais craft beer do que cerveja artesanal e no mundo do hipsterismo , das pessoas cuja filosofia de vida se baseia não no visual mas sim no look ( grandes consumidores de craft beer, nem tudo é negativo…) as coisas acontecem mais frequentemente em inglês do que em português, mesmo se vivem em Cantanhede.

-No turismo , em conformidade com a evidência de que os visitantes procuram sobretudo experiências e vivências locais e autênticas, faz-se questão de que tudo seja apresentado em inglês, desde os nomes aos programas e aos produtos. Traduzir e explicar faz sentido, tudo em inglês logo à partida, já não.

-O Estado naturalmente partilha da doença e baptiza quantidades de coisas em inglês. Desde os anos 50 que todos os ingleses sabem o que é e onde é a Costa Brava , e adoram, nós para evitar confusões  é mais Silver Coast, Allgarve e parvoíces semelhantes.

Ora, há palavras , especialmente no campo da tecnologia e das finanças mas não só, que não têm tradução exacta ou clara, por exemplo stress , roaming ou upgrade, é normal que as pessoas que trabalham nisso os vão usando.   Do mesmo modo, se se trata de um evento inequivocamente internacional, faz sentido marcar isso.  O inglês é a língua dominante , aposto que vai continuar a ser língua de trabalho da UE quando o único país anglófono for a pequena Irlanda e é claro que aprender inglês é do interesse de toda a gente. Agora, que se sinta que é não só normal como positivo e quase mandatório polvilhar o discurso com palavras em inglês, já  me parece bizarro.

No jornalismo até mete medo, e nos sítios onde eles falam uns com os outros tipo o twitter chega a ser delirante, não só o uso dos termos e expressões em inglês (que ao invés de mostrar que dominam a língua só mostra que veem televisão e filmes) como a adopção regular de coisas que leem e veem na imprensa americana , a última é chamar alt right à extrema direita.

Uma parolice pegada, demonstração de preguiça para procurar a palavra certa (temos cerca de 600 mil à disposição, em princípio devia chegar, e hoje quase todos andamos com um dicionário no bolso…) ou simples presunção, a noção  de que se introduzirmos termos em inglês parecemos sofisticados. A mim dá-me sempre a ideia contrária.

Centenário da Revolução

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Chato como sou com os comunistas até parecia mal se deixasse passar a data sem dizer nada sobre  os cem anos da revolução bolchevique na Rússia. Estimo que cem anos depois, com a poeira mais do que assente e com duas gerações enterradas, depois de mais de 20 anos para analisar os escombros e  a História, ouvir as pessoas, ver os sítios e contabilizar a  herança, todos já temos uma opinião sólida sobre o Comunismo e o sistema soviético. Algumas pessoas solidificam a sua opinião assegurando-se de que informação que não seja aprovada pelo Comité Central ou que seja posterior a 1989 não deve ser considerada.

A imprensa nestes dias esteve repleta de especiais  e artigos sobre o tema, há para todos os gostos, felizmente. Se estivéssemos num país comunista no dia 7 tínhamos que ir todos para a rua bater palmas, devia bastar dizer isso para encerrar de vez o debate sobre comunismo mas é impossível.

No DN  acharam por bem ir buscar um representante da espécie, nada  menos que o líder máximo dos comunistas portugueses, para falar sobre o tema. O camarada Jerónimo, que  como todos os seus é impermeável aos factos e insiste em ter uma História só para si , brindou-nos com um texto que poderia dar vontade de rir não fora a morte, miséria e opressão que ele nem refere de passagem.

Uma pessoa mais equilibrada podia perfeitamente fazer uma apologia do Comunismo cem anos depois e ao mesmo tempo fazer uma crítica e reconhecimento do mal que foi feito e dos erros cometidos, mas não. É engraçado notar que ele usa os mesmos termos, as mesmas frases, a mesma terminologia quer esteja a falar na Assembleia do República, na festa do Avante ou num artigo de jornal, o tom é sempre o mesmo e as patranhas também, desde a caracterização da revolução de Outubro, envernizada  como um movimento popular, até à velha história dos Bolcheviques terem vencido os Nazis sozinhos. Se apresentarem ao Jerónimo três calhamaços de historiadores credenciados, de três países diferentes, que documentem todo o auxílio material  dos Aliados aos Russos o camarada vai dizer : campanha de desinformação, manipulação e intoxicação, que é como é classificada toda a informação que contradiga a versão aprovada pelo Comité.

Jerónimo apresenta vários números, estatísticas  e listas sobre o extraordinário desenvolvimento tecnológico, económico, científico e social da URSS e uma pessoa (uma pessoa que pense) pergunta: mas então com todo esse desenvolvimento e avanço social porque é que aquilo caiu tudo como um castelo de cartas? As causas, para além de significativos factores externos, radicaram fundamentalmente num “modelo” que se afastou e entrou mesmo em contradição com os valores e ideais do socialismo, tiveram como resultado um grande salto atrás nos direitos e conquistas dos trabalhadores e dos povos.” 

Acho  estranho que o “modelo” que deu tão  bons resultados  afinal fosse  “afastado dos valores e ideais”, e nesta altura alguém devia tentar fazer ver ao Jerónimo  (ou a um  comunista de estimação que por acaso tenham, eu tenho dois)  que ou o modelo era como eles dizem que era e teve bons resultados ou não era , era um desvio e  caiu por causa disso. Defender as conquistas do comunismo para logo a seguir dizer que acabou porque não era bem comunismo é que não pode ser. Não pode ser, se quisermos respeitar a Lógica e  o significado das palavras, mas isso nunca foi o forte dos comunistas.

Sobre os mortos, as purgas, as fomes, os gulags, as limpezas étnicas, a polícia política, as ingerências, as guerras….nem uma palavra. Todos os detractores do comunismo, aos olhos dos comunistas, estão  ao serviço do grande capital , os nossos livros de História são mentira , as entrevistas dos sobreviventes do comunismo são todas mentira . Isto para mim está ao nível da negação do Holocausto nazi  e é uma ofensa à Humanidade.

Se no próximo 28 de Maio aparecesse num jornal um artigo  a enaltecer  partes positivas e  avanços  do Estado Novo havia  motins,  linchava-se o autor e fechava-se o jornal. Até podia tentar equilibrar a peça e falar de colonialismo , da Pide ou da miséria e falta de educação que não valia a pena, foi tudo mau, o fascismo, ou a nossa variedade, foi tão ignóbil como as outras e não se pode dar liberdade aos inimigos da liberdade, fascismo nunca mais e coiso. Entretanto temos um idoso soldador de formação cuja educação foi feita TODA no marxismo leninismo mais retrógrado e ortodoxo que alinha um texto pejado de mentiras ofensivas e ridículas a branquear um dos sistemas e regimes mais assassinos e destrutivos que o Mundo já viu, e é normal, é parte do processo democrático. Incrível. Mais me arrepia quando vejo jovens de 20 anos a debitar a cassete sem falhas, porque um velho comunista ainda é como o outro, viveu os tempos, acreditou, era uma ideia bonita, até arriscou ir preso por ser comunista, o caminho foi longo, custa mudar. Como é que se pede a uma pessoa que esteve presa por ser comunista que renegue o  comunismo? Diferente , muito diferente é ver um jovem de 20 anos a fazer a apologia da URSS e do comunismo,   tem o seu quê de sinistro.

Como Portugal ainda não é um país comunista ainda há debate e podem-se contestar e confrontar opiniões e ideias , e o artigo do Jerónimo foi prontamente seguido por outro artigo, do José Milhazes, a endireitar o registo. Este J.Milhazes foi daqueles que foi para a URSS com os olhos a brilhar e a sonhar com os amanhãs que cantam mas depois de muitos anos lá viu a realidade e tem passado o resto do tempo a contá-la cá e nesse artigo rebate impecavelmente os delírios do camarada Jerónimo.

Muitas pessoas dizem que o comunismo é uma boa ideia que foi mal aplicada. Eu digo que não, que é abominável e seria abominável mesmo se todos os preceitos e princípios fossem aplicados, e a aversão é simples de explicar : o comunismo nega o Indivíduo, desvaloriza o particular e a propriedade privada, obriga à acção   colectiva  e prescreve uma determinada orientação e organização para a sociedade. Eu acredito nos direitos do Indivíduo , na iniciativa e propriedade privada, defendo que a Sociedade não precisa de ser dirigida por nenhum comité central ou regional, que as decisões económicas devem estar nas mãos dos agentes económicos e que as desigualdades são uma característica e não uma anomalia. Defendo que o Estado deve ter intervenção e papel  limitados e que os cidadãos devem ser livres de ir e vir, comprar e vender , ler e escrever , ouvir e falar, tudo coisas que foram sempre impossíveis  no comunismo, e depois estes gajos ainda têm a lata de andar a comemorar os 100 anos da doença.

Tal como critico o Jerónimo por escrever loas aldrabonas sem ser capaz de apontar um defeito também sou capaz de apontar um resultado positivo da Revolução de Outubro: o medo que os bolcheviques instilaram no Ocidente e que levou a muitas evoluções importantes , nomeadamente no campo dos direitos dos trabalhadores. Foi o medo do perigo vermelho que pôs governos e capitalistas no caminho de reformas que beneficiaram toda a gente. É curioso como não foram os comunistas mas o medo dos comunistas a trazer essa mudança, e nem aí lhes concedo muito mérito, primeiro porque é causar mudança por meio de ameaça, real ou velada, e não me parece que seja etica ou moralmente muito meritório, e segundo porque nada nos garante que sem Revolução de Outubro as coisas não iam mudar na mesma. As teorias e as ideias circulavam, as queixas dos trabalhadores eram semelhantes em todo o lado,  e os capitalistas , tal como os comunistas ,  não comem criancinhas e até se diz que alguns têm mesmo um coração.

O número de pessoas que não sabe que Nazi é a abreviatura de Nacional Socialismo  é demasiado elevado, tal como é demasiado elevado o número de pessoas que não consegue ser contra o totalitarismo seja ele qual for, de direita ou esquerda , pela simples razão de ser totalitatismo, que não consegue aceitar que Nazismo e Comunismo não passam de duas faces da mesma moeda com muitíssimo mais em comum do que uns e outros gostavam de dar a entender.

Termino pedindo emprestada a reflexão de uma das mentes mais brilhantes  que o Mundo já conheceu e uma das figuras que mais admiro , Bertrand Russel , que neste texto de 1956 , quando na Europa ainda se podia acreditar na causa, explica sucintamente porque não é comunista .  Se amanhã o dia me correr bem traduzo-o para publicar aqui, porque há que lutar contra ideias más que pelos vistos não morrem, uma pessoa pode pensar que mais vale não lhes ligar e depois quando dá por ela tem comunistas no governo .