Responsabilidade Zero

-Ó sr Jorge , aquilo é que foram  incêndios!Foi perto da sua terra?

-Mais ou menos, não é muito longe.

-O Primeiro Ministro já disse que tinha que saber o que é que se passou, parecia bem zangado!

Mudei de assunto  porque me esforço sempre por distinguir  actividades que valem a pena de actividades que são desperdício de energia, e na ideia deste meu conhecido o Costa e o seu governo fizeram o melhor possível e têm que exigir respostas sobre o que correu mal ao invés de as fornecer. Têm que responsabilizar alguém em vez de aceitarem que se o nosso ministério falha abjectamente, a decência exige que nos vamos embora. Ninguém diz que a ministra da administração interna tem culpa objectiva na catástrofe, mas tem toda a culpa por ter sido o seu ministério a falhar. Se não me engano já vamos em 3 tentativas de explicação  diferentes, todas fornecidas por organizações estatais, e em nenhuma delas se encontraram  motivos considerados suficientes para apear pessoas que não fizeram o seu trabalho.

Já o Presidente, desde que veio cá à ilha, tirou selfies com 64% da população, deu o seu mergulho  matinal e foi-se embora sem influir  ou mudar rigorosamente nada na nossa vida aqui, não se consegue enganar mesmo que queira, é um espectáculo. Quando ouço falar dele como “uma pessoa muito natural” que “fala a nossa língua” lembro-me logo dos milhões de otários que defendem e apoiam o Trump pelas mesmíssimas razões. Não só defendem como acreditam que há alguma similaridade entre eles, uma relação, uma proximidade. É cómico, ou trágico , dependendo do ponto de vista, que pessoas sejam sempre enganadas por políticos que as convencem de que são parecidos, de que partilham das mesmas preocupações e aspirações. Ele é como nós. Se fosse como vocês não era Presidente.

Nos dias do incêndio Marcelo esteve à vontade na sua correria e prolífico em declarações , o que fica para a história é que chegou lá e desculpou toda a gente e dois dias depois  lembrou-se de  que  ficava bem pedir uma investigação e avaliação das leis . Entretanto aconteceu outra coisa interessante, o roubo de material de guerra de uma base militar, roubo até ver de características um bocado cómicas, como já disse alguém, parece uma rábula do Raul Solnado, os maus atacam quando os bons estão a ver o futebol. O Presidente, que certamente não se esqueceu de que é o Comandante das Forças Armadas, até esta manhã não tinha aberto a boca sobre o caso.

Ou ninguém  consegue calar o homem, seja  sobre um fait  divers  como uma avioneta que cai seja sobre um cataclismo nacional , ou cala-se durante 3 dias  perante uma ameaça  clara e presente à segurança nacional e europeia resultante de uma falha grave na instituição que ele comanda.  O critério que determina se diz coisas ou não, não é claro, já acho que não existe mesmo. Ao fim de 3 dias em que achou que não era o momento de comentar o roubo, veio hoje finalmente fazer declarações. O que diz hoje o Presidente? Defende uma investigação que apure tudo. Ah bom.

Repórter num universo paralelo:

-Sr Presidente, dado que  a um roubo denunciado se segue sempre uma investigação pelas autoridades, o que é que há  de novo nesta sua declaração?

-Como?

-Houve um roubo que foi denunciado à PJ militar e às agências de segurança. Se o senhor não defendesse hoje a investigação , investigava-se na mesma…ou não?

-Entendo que sim, eu não estou a ordenar nada, estou a dizer que entendo  que o caso tem que ser investigado até às últimas consequências.

-Mas isso entendemos todos. Acredita que é necessária a chancela do Presidente para que avance a investigação ou que a PJ e Serviços de informação e segurança são autónomos?

-Não, é óbvio que são  organismos que não necessitam de autorização nem pedido do Presidente para investigar.

-Então esta sua declaração hoje não quer dizer nada, é isso?

-Sim , no fundo é isso. Dê cá um abraço, você parece-me um bocado amarelado e débil, tem ido ao médico? Olhe lá a sua saúde!

Há pessoas com esperanças de que estes dois últimos escândalos, chamemos-lhes assim, sirvam para pôr a nu não só que o Estado é incapaz como que não tem vergonha de o ser e muitas vezes nem sabe que o é. Desenganemo-nos , politicamente nada vai mudar até aparecer alguém credível com um projecto para apresentar aos portugueses, coisa que suspeito não está para breve.É  uma ideia muito portuguesa, um  sebastianismo que nos deixa à espera de um homem providencial para levar isto a bom porto. Não acredito na Providência  mas mantenho uma réstia de esperança numa renovação que só pode chegar quando desaparecerem a maior parte dos que lá andam há 20 e mais anos.Como este, que também não tem vergonha nem acha que há razão para se demitir, está a fazer um óptimo trabalho, como de resto fez desde que entrou pela primeira vez para o governo, já lá vão muitos anos.Confiamos o governo do país a pessoas que ou são estúpidas ou não querem saber do que disseram há 2 meses desde que tenham alguma coisa para dizer hoje, alguma coisa que vá de encontro ao que as pessoas querem ouvir na altura.

DDqxK72XgAAKf38

Em tempos que já lá vão morria uma pessoa nas urgências de um hospital , uma pessoa por definição doente e em risco, e ululava-se “assassinos” e “austeridade mata” a cada visita de governante. Interrompiam-se comunicações para se cantar a Grândola Vila Morena e mesmo que fossem quatro pessoas, as televisões e rádios “cobriam” os “protestos populares”. Mesmo que a vida  não tivesse piorado assim tanto na prática, a comunicação social garantia-nos que sim, que era a devastação neo liberal que nos estava a matar. Foram momentos heróicos de resistência, felizmente agora o PS, com a ajuda discreta do PCP e do Bloco, resolveu os problemas de Portugal, problemas que tinham sido todos causados pelo PSD e CDS.  Os eleitores portugueses hesitaram em dar o governo ao partido que nos tinha conduzido à falência, mas essa hesitação foi facilmente corrigida por pessoas que têm a vocação de interpretar as aspirações do povo à luz da ciência e corrigir desvios, os comunistas e demais marxistas que logo nos puseram no bom caminho. Estou quase convencido de que os poucos problemas que não se resolveram são impossíveis de resolver. Faz-se todo o possível, as crianças brincam outra vez , os que imigram já só o fazem por revanchismo e consta que 3 pessoas regressaram mesmo a Portugal agora que o governo tornou o ar mais respirável.

Pode não ser claro que se o meu respeito e esperança no PS é abaixo de zero , pelo PSD e CDS é zero mesmo e aos outros considero-os  anomalias anacrónicas que podiam desaparecer com vantagem para o país. Estou na mesma situação de, acredito, centenas de milhar de portugueses que não se revêm no governo nem na oposição, nem vislumbram no horizonte um tipo (ou tipa, desculpem o termo)  como o  Macron,  que não seja criado no caldinho das Juventudes; que não tenha o rabo preso com negociatas suas e dos seus compinchas; que não chegue lá pelo nome de família; que apresente um discurso de ruptura com a velha dicotomia esquerda/direita; que queira trazer para o governo gente da sociedade em geral e não os advogados do costume; que tenha um plano económico ligeiramente menos vago que “apostar no crescimento”, enfim , alguém capaz de renovar. Infelizmente é mais provável calhar-nos populismo que alguém assim, mas uma pessoa pode sonhar.

 

PS: O parlamento aprovou uma lei que proíbe que um senhorio se recuse a alugar a sua casa a pessoas com animais. Isto ofende-me um bocado. Tenho agora 17 animais, dentro de duas semanas serão 22, a maior parte  são gado mas o cão e o gato dormem em casa, os bichos são das coisas que mais me importam na vida . Apesar disso não me agrada viver num sítio em que o Estado é que diz os termos em que podemos ou não arrendar o que é nosso.É um desrespeito total pelos direitos das pessoas que não gostam nem querem ter animais nas suas casas, porque agora se decidiu, com partido e tudo, que todos temos que gostar de animais.Socialismo também é isto.

Adeuzinho

Tenho lido algumas elegias ao dr Soares , como esta do MEC e sou forçado a concluir que o Mário Soares que morreu não era o mesmo que  eu “conheci” , ouvi e li toda a minha vida. Por exemplo, achei bastante estranho  ler que “recusou-se sempre a ser um salvador ou uma figura acima da multidão” , não  é  como eu  o lembro e gostava de ler mais coisas sobre a sua simplicidade e modéstia , acho que eram qualidades que não tinha.

Também já vi muitas demonstrações de ódio puro e de falta de civismo e decência  , eu acho que é legítimo (e necessário) detestar  políticos mas enquanto políticos , já há uns anos que o senhor era só um velhote à espera da morte ao qual os socialistas iam prestar homenagem mas que já não dizia coisa com coisa ( é ir ver as suas últimas crónicas no DN)  nem contava para nada.

Prova disso são as centenas de artigos e obituários surgidos em minutos , naturalmente que o senhor já tinha a folha feita por toda a gente e dele só se esperava que acabasse. Para mim a altura certa para festejar o seu desaparecimento tinha sido quando esta figura alegadamente adorada pelos  portugueses em geral recebeu, estranhamente , 15% dos votos nas últimas eleições a que concorreu ( e reagiu como se a Pátria o tivesse traído) .

Que ele se tenha aferrado à ribalta e à acção política até lhe ser fisicamente  impossível continuar mostra a uns que o seu espírito de missão era indomável , a outros que a sua sede de poder era infinita. Eu sou dos que admiram e aplaudem aqueles que saem pela porta grande e sabem ver quando o seu trabalho está feito e o seu tempo chegou , são uma espécie muito rara.

Não gostava dele , nunca gostei , não me esqueço das mafiosices  e lados escuros , como por exemplo se conta num livro escrito por um dos fundadores do PS que foi prontamente banido pelo dr Soares (  a Liberdade acima de tudo) mas que felizmente hoje se pode ler em PDF, é muito instrutivo.  Também me lembro do fax do governador corrupto de Macau  e dos negócios de diamantes em Angola , a lista  é extensa mesmo que se eliminem as acusações dúbias. Nada dúbio é um vídeo do próprio a explicar-nos como se geriram ( e gerem, desconfio)  os cruzamentos de  política e economia em Portugal . Soares conta rapidamente como foi possível ao Salgado fazer o que fez , é uma história quase comovente de solidariedade entre os poderosos  .Também me lembro bem de ouvir o dr Soares dizer publicamente , no tempo do anterior governo , que Portugal não era uma democracia e a incentivar o derrube do governo democraticamente eleito . Haverá quem justifique as declarações  com retóricas várias , a mim ,mostrou-me sem margem para erro que para ele a democracia válida e evoluída era quando ele e os seus estavam no poder, os outros eram obstáculos. “O juíz Carlos Alexandre que se cuide!” , ameaçou a dada altura  , corrompendo tudo ao mesmo tempo para defender  o  maior vigarista que Portugal conheceu neste século ,  mas essas coisas agora são passado, agora só interessa falar no bom , como há uns tempos com o Fidel. É mesmo verdade que morrer é o melhor que pode acontecer à reputação de uma pessoa.

Para mim , tal como para a maioria dos portugueses , desconfio, os méritos maiores de Mário Soares foram  ter confrontado e contido a ameaça comunista , que em 74 e 75 foi muito real , e negociado a adesão à então CEE , e só por isso merece à vontade a homenagem e respeito do país e o seu lugar na História. Ontem a sua morte foi notícia no boletim da BBC World Service, é para muito poucos,  mesmo os seus detractores e críticos como eu têm que reconhecer que foi  um grande Português

Lesados somos todos

Um dos maiores dramas do nosso país é o inumerismo , ou analfabetismo matemático ,  muito mais difícil de combater por ser mais insidioso , muito por causa das luminárias da Educação moderna que acham que é mais importante um aluno rir às gargalhadas sadias do que decorar a tabuada e currículos que não preparam os alunos para as contas do dia a dia.  Além do mais é bom lembrar que  uma grande parte dos portugueses viveu no tempo da ditadura , cuja restrição da Educação nos deixou esta herança, talvez a mais pesada.

Se muitas pessoas já leem  e escrevem mal , muitas mais ainda não sabem fazer contas nem avaliar quantidades , e isto nota-se depois nas decisões que tomam , relativas por exemplo ao consumo : uma pessoa vê um anúncio de um crédito para um produto com 25% de juro mas não sabe o que isso significa. Uma pessoa tem na cabeça o número do seu vencimento mensal mas é incapaz de computar as suas despesas para saber quanto gasta. Uma pessoa escolhe uma casa nova sem ter maneira de perceber se está ou não dentro das suas possibilidades reais. Uma  pessoa vê um produto em promoção e vai logo comprá-lo porque lhe parece que uma poupança de 2% em algo supérfluo é de aproveitar. Uma pessoa ouve o Governo a falar de percentagens de défice , aumentos ou cortes mas o que fica são os verbos , porque visualizar e perceber realmente os números infelizmente é para poucos.

Na primeira linha dos aproveitadores desta lacuna (não é só em Portugal , fraco consolo)  estão os bancos , que seguros de que a maior parte dos seus clientes não sabe fazer contas permitem-se apresentar-lhes quaisquer números  e cargas de letra miudinha. 

Aqui há uns anos umas centenas de cidadãos decidiram investir as suas poupanças  no BES. Sendo na maior parte semi analfabetos matemáticos não perceberam aquilo que estavam a comprar e não questionaram os vendedores que , como era de rigor nesses tempos , venderam banha da cobra às toneladas. O BES rebentou e estes investidores ficaram a arder. Não me incomoda nada  , a ignorância só é desculpa até certo ponto e o que é certo é que  estas pessoas perderam dinheiro mas podiam igualmente ter ganho dinheiro , e nem numa nem noutra circunstância o erário público  deve ser tido ou achado , era um negócio entre os investidores privados e um banco privado. Se os investidores não tinham os recursos intelectuais para perceber que corriam um risco, temos pena.

Mas isto é Portugal , e agora que vivemos numa época de afectos o primeiro ministro decidiu usar o dinheiro de todos para compensar alguns por terem feito um investimento que correu mal. Não bastava o desbaratar constante de fundos , não bastavam as dívidas contraídas pelo Estado que por definição nos calham , o PM acha que o Estado também está cá para compensar investimentos particulares falhados. Os “lesados do BES agradecem a bênção” e o Costa mostra toda a sua dimensão de estadista , vai compensar estas pessoas e acabar por ser aplaudido , mesmo por aqueles que vêm os seus impostos servir para pagar más decisões de outros. Isto lembra um bocado as ajudas estatais à agricultura , em anos de secas ou cheias ou contrariedades , o Estado ajuda . Em anos de colheitas excepcionais ou mercados altos ( também existem , raramente se ouve falar deles mas são reais), os lucros ficam em casa. Costa tem muito medo de manifestações , sendo a maior parte organizada por sindicatos , estão nesta altura todas sob controlo ( a factura vai chegar mais tarde) mas manifestações como a destes tristes dos “lesados do BES” não têm nenhum Arménio Carlos que as regule e faça acontecer ou cancelar consoante manda o Comité Central , pelo que são mais imprevisíveis e potencialmente danosas. O PM  não gosta de conflitos nem tensões e enquanto os puder resolver pagando com dinheiro que não há a pessoas que não têm justa causa , é o que vai continuar a acontecer.

Noutro sector , há uma companhia de teatro em Lisboa que está para fechar. Fecha porque não há dinheiro. Se não há dinheiro é porque o que fazem não rende , não tem público suficiente . A mim , e a uns 80% dos portugueses , arrisco , isto é absolutamente indiferente. Ainda no outro dia acho que perdi uma “amiga” muito ligada ao teatro porque lhe disse precisamente isso , que é uma arte que se desaparecesse do mundo amanhã a minha vida não mudava um milímetro. Quando sentimos uma ligação forte a uma coisa é difícil imaginar que outros só sintam indiferença pela mesma coisa , mas é assim .

A libelinha afectuosa que é o actual Presidente acha que não , que tudo tem que ser sentido por todos e já foi fazer não sei o quê, talvez tirar uma selfie , com a companhia de teatro em perigo, e certamente vai agitar para que salvem a Cornucópia . Para ele , como para o Costa , estes salvamentos são óptimos porque não lhes saem do bolso , ou melhor , saem na medida em que também são contribuintes , mas permitem-lhes encher a boca e ganhar pontos a  distribuir  o dinheiro de muitos por causas de poucos. Se o Presidente sente assim tanto como causa nacional o fim de uma companhia de teatro em Lisboa tem bom remédio : faça uma campanha a incentivar as pessoas a ir ao teatro e passe um cheque pessoal à Cornucópia. Senão esteja mas é quietinho dois minutos e tente ler  mais sobre o que é ser  um Estadista.

Caridade e Inovação

Passou o furacão Matthew, ou melhor , passou pelas Caraíbas e Florida mas continua a ameaçar as Carolinas e mais a norte.O Haiti  ,   uma espécie de pólo de atracção para males  do mundo , humanos e naturais , e estado falhado como condição natural, levou com o furacão em cheio e a miséria aumentou mais ainda.

Ainda nem sequer estavam moderadamente recompostos do último terramoto quando lhes calha isto, e mais uma vez vão chover apelos ao auxílio ao Haiti. Pessoas generosas e sensíveis de todo o mundo vão assinar cheques e fazer transferências bancárias para ONG’s de todo o lado . Tenho sérias dúvidas quanto à eficácia e impacto real da esmagadora maioria destas ONG’s se medirmos a sua produção contra cada euro que recebem de doação. Não tenho dúvidas nenhumas de que  50€ entregues na mão de um haitiano que acabou de ver a sua barraca a voar fazem muito mais diferençã que 50€ depositados na conta da “Save the Children”, por exemplo. Lembro-me destes por causa de uma coisa que aconteceu aqui há uns doze anos , já aqui devo ter falado disto mas acho tão notável que repito. Não é nenhum segredo revelado , é apenas uma constatação.Então nessa época  um amigo meu foi skipper de uma regata à volta do mundo , barcos de 20 metros, tripulação de 13 , campanha para quase um ano. Eram uns 12 barcos idênticos , cada qual com seu patrocinador. o patrocinador do barco do meu amigo era a “Save de Children”, que achou que era bom uso dos donativos patrocinar com 3 milhões de libras uma regata à volta do mundo . O problema da publicidade, como sabem as pessoas do marketing , é que é bastante difícil avaliar o impacto real que tem determinada campanha, deve haver números relativos ao aumento da notoriedade da Save the Children por causa da participação na regata , o que me espantou foi que tenho a certeza de que poderiam ter feito muito mais coisas para apoiar crianças em perigo com esse dinheiro do que embarcar num projecto de vaidade. Que diferença fariam  3 milhões de libras entregues directamente a dez ou 50 mil orfanatos por esse mundo? Mas estas organizações antes de mais precisam de se sustentar a si próprias e nisso se derrete a maioria dos donativos.

Exemplo egrégio disto é uma   história relativa aos esforços de reconstrução no Haiti , desta vez pela Cruz Vermelha , entidade que muitos, eu incluído, tinham por um pouco melhor governadas e diferentes da falange de ONG’s criadas com boas intenções mas que existe principalmente para existir  e recolher donativos.

Então segundo o Huffington Post a Cruz Vermelha construiu exactamente 6 casas com donativos de 500 milhões para um fundo de reconstrução depois do terremoto de 2011. 

O resto foi-se …em despesas operacionais e outros projectos e tal, fica à vossa imaginação, e lembrem-se destas coisas quando vos apelarem à  generosidade. É muito mais provável estarem a pagar campanhas publicitárias , salários gordos , escritórios luxuosos e bilhetes de primeira classe do que estarem a fazer chegar ajuda a quem mais precisa.

A maior parte destas ONG’s são inventadas e geridas por pessoas bem intencionadas que querem fazer a diferença , não tenho dúvidas disso, mas eu acredito muito mais na tecnologia e no mercado como meio de melhorar a vida das pessoas. Muitas vezes só por se encontrar  uma solução melhor para um problema real tendo em vista uma aplicação comercial já se está a melhorar a vida das pessoas, e este exemplo de que vou falar fascina-me, é um exemplo brilhante para contrapor ao anterior e à abordagem das ong’s  .

Chris Sheldick, um inglês , interessou-se pelo problema dos milhões de pessoas no mundo que não têm uma morada formal , um endereço postal . Os problemas e limitações que isto provoca  são fáceis de calcular. O que o homem propôs , e concretizou , para resolver o problema é magnífico. A superfície  do planeta pode ser dividida na totalidade por uma grelha de quadrados de 3 X 3 metros, 57 triliões destes quadrados. Seleccionaram-se 40 mil palavras da língua inglesa, número que oferece 64 triliões de combinações de 3 palavras  , pelo que menos de 40 mil palavras chegam para dar a cada quadrado uma série única: retirando por exemplo os 7/10 da superfície terrestre  que são mar , 25 mil palavras são suficientes. Um algoritmo atribui a cada quadrado de 3X3 metros uma série , 3 palavras como  fogo.janela.tu , e assim tão simplesmente toda a gente tem uma maneira de comunicar a sua localização e ser encontrada. Há versões de teste a correr em várias línguas e empresas a usar já esse método de distribuição  e localização. Isto não vem substituir os sistema de códigos postais e nomes de ruas , mas vai melhorar a vida a muita gente e nunca se sabe que mudanças pode engendrar e aplicações pode ter . Acho o sistema de uma elegância e simplicidade enorme e é dos melhores exemplos que tenho visto da inovação e tecnologia a serem postas ao serviço das pessoas. Há quem diminua o valor destas coisas por terem o lucro como motivação, eu não , se fôssemos a prescindir ou menosprezar  inovações trazidas pela motivação do lucro estávamos bem tramados.

O sistema já funciona na Mongólia e no Rio de Janeiro , convido-vos a visitar o site e a explorar um bocado, é fascinante . Se me quiserem visitar , a minha porta é  nonresponsive.faithless.icebreaker .

Ainda vi pouco ou nada das Fiji mas já estive a ler a imprensa e passaram-se coisas interessantes nesta última semana.

  • Parece que na semana a seguir ao triunfo de Paris Portugal ganhou medalhas e campeonatos em tudo o que havia para ganhar , não sei de onde é que veio esta febre de vencer , é como se estivéssemos a acumular pressão e agora fosse tudo de uma vez. O Presidente da República , com a tendência a condecorar tudo o que mexe, tem muito que fazer . É deixar o homem entreter-se com isso , talvez dar-lhe um espaço semanal de comentário num programa de actualidade desportiva.
  • Costumo ver as primeiras páginas da imprensa nacional aqui , é interessante ver como continuamos a virar a página da austeridade . Nada indica que a situação económica do país tenha melhorado ou tenda para melhorar mas não deixa de ser possível dizer que se “virou a página da austeridade”porque virar a página também significa continuar a ler a mesma coisa, só se passou para a página seguinte.
  • Tive que ir ver o que era um pokemon, tinha uma vaga ideia de ouvir o meu sobrinho falar sobre isso quando ele era garoto. Ao que vejo agora é um jogo que envolve andar pelas ruas à procura de bichos virtuais com o telemóvel e parece que deixa muitas pessoas irritadas . Temos uma população que passa grande parte do tempo livre sentada em frente à televisão ou a olhar para o écran do telemóvel e isso não incomoda ninguém , foi aceite como a ordem natural das coisas. Aparece um jogo que faz as pessoas andar na rua , olhar para a rua e falar umas  com as outras , é uma polémica e um problema e há que criticar. Mais vale nem tentar perceber.
  • Atentados de vária ordem , um gajo entra num comboio com um machado aos berros ” Deus é grande” e mata não sei quantos , outro pega num camião e atropela dezenas enquanto ouve o Corão , mas há que tentar perceber as motivações das pessoas , não generalizar nem ser preconceituoso , não há nada que indique fundamentalismo religioso, temos que ser tolerantes, e visto por certo ângulo a Europa estava mesmo a pedi-las. Estes apóstolos da tolerância sem limites estão a fazer um rico trabalho,  só é pena não irem pregar a tolerância e a compreensão para sítios como a Arábia Saudita e a Turquia.
  • A mulher do Trump leu um discurso na convenção republicana e parece que partes desse discurso eram iguais a um da Michelle Obama aqui há uns anos, e é o assunto do dia, indignação e escárnio. Como há poucos aspectos a criticar na ascensão do Trump , agora agarram-se a uma trivialidade , como se algum político moderno de algum país grande escrevesse os próprios discursos .Como se a opinião de uma gaja que ganhou a vida à custa do belo corpinho casando com um degenerado cujo principal atractivo é ser rico ( história velha como o dia) ,  interessasse para alguma coisa. Política espectáculo e o que é verdade é que funciona, é incrível.

São agora nove da manhã , começámos às 7 e o trabalho do dia está feito, vamos agora ver Nadi , a cidade mais próxima, e temos o resto do dia livre, coisas interessantes vão acontecer e para a próxima entrada já não chateio ninguém com política.

História

Ainda estou a digerir o resultado do referendo em Inglaterra, parece-me o acontecimento histórico mais importante das últimas décadas. Vai levar muito tempo , a mim e a toda a gente sem excepção , a perceber o alcance disto , o número de consequências inesperadas e impossíveis de prever de uma coisa destas é enorme ,  vai afectar toda a gente.

Quando a Grécia esteve à beira de sair (do Euro , não da União) a minha preferência era que ficasse, que fizesse o que fosse preciso , para ficar . Isto não derivava de alguma simpatia que pudesse ter pelos gregos ou solidariedade por causa das  dificuldades deles.Achava que deviam ficar porque se saíssem seria pior para toda a gente, punha o edifício todo em causa.

Ora este edifício pode ter sido sonhado, desenhado, construído e aumentado de um modo discutível e criticável , mas alguma coisa tinha que ser construída sobre as ruínas de duas guerras que assolaram a Europa e trouxeram morte e miséria a centenas de milhões. Construiu-se isto , a União Europeia , que , com verrugas e tudo, assegurou-nos cinquenta anos de paz  e prosperidade sem precedentes .

Estamos numa crise tremenda , a guerra está à distância de um voo da easyjet , rebentam bombas nas praças da Europa e às suas portas comprimem-se  massas famintas e aterrorizadas. Nas fronteiras há pessoas poderosoas como o Putin e o Erdogan , que poucos lúcidos consideram serem compatíveis com valores como “liberdade” e “justiça”. Para lidar com isto temos duas opções , juntamo-nos ou separamo-nos , como Nações, para defender o nosso interesse comum. Esse interesse comum é a Paz , a Liberdade e  a Prosperidade . Não é preciso ser um génio para perceber que estas coisas só se alcançam com um esforço COMUM, porque não podemos ter paz se o nosso vizinho está em guerra nem podemos ter prosperidade sem ter com quem trocar.

Uma coisa que me fascina na História são os momentos em que a decisão de um só indivíduo leva a consequências tremendas , quando se torna aparente que uma pessoa pode mudar ao curso da História com uma decisão e uma acção. Lembro-me sempre da ideia desmiolada do D.Sebastião ,  lançar-se na campanha de Alcácer Quibir , decisão que acabou por nos perder uma elite , uma dinastia , um país e um império, num golpe que numa tarde selou o nosso caminho por séculos.

David Cameron vai ficar na História em muito mais parágrafos que os seus contemporâneos , porque a causa deste referendo e do que ele vai acarretar é a sua decisão, igualmente estúpida e carregada de hubris , de se comprometer com o referendo , jogando assim o futuro do seu país por motivos de política eleitoralista e partidária. Já ouvi muitas vozes  falarem de ignomínia e infâmia , conheço poucas palavras mais fortes.

Cerca de 2/3 da juventude que votou , votou para ficar e isto é das coisas mais importantes a observar , tal como o nível massivo de desinformação e falta de informação que se viu na campanha. Poucos defensores da saída elaboravam sobre a  INEVITABILIDADE do empobrecimento da Grã Bretanha fora da União Europeia. O discurso era sobre soberania, tirania , imigrantes , autonomia , liberdade, nacionalismo de esquina e de futebol , mesmo antes das meninas da  página 3 , dantes é que era bom. Little England.

É triste que a maior parte dos que votaram sim acreditem que saírem da UE vai resolver algum dos seus problemas , incluindo as minorias e os imigrantes ou a perda de identidade nacional. A soberania , como aprenderam os Gregos há relativamente pouco tempo , só resolve problemas enquanto houver dinheiro, e quanto menos dinheiro temos menos problemas podemos resolver , vá-se lá perceber porquê.

A vida entre as Nações e feita de tensões e conflitos  de interesses. Só há duas maneiras de resolver os conflitos : a bem ou a mal. Para se resolverem a bem , as pessoas têm que se sentar e falar , e para isso é preciso que esteja tudo à mesma mesa .

Sou muito crítico de exageros de linguagem , de metáforas despropositadas e de clichés estafados mas perante isto tenho que dizer que acho que se abriu aqui a caixa de Pandora .

A actualidade,

tal como os media mostram, ‘e terrivel. La’ como ca, os noticiarios abrem com despedimentos e falencias e quebras de producao e quebras de tudo , em geral .
Isto so’ contribui para deprimir e meter mais medo ainda . Nao precisamos de que nos lembrem a toda a hora que se vive uma crise economica. Precisamos que nos mostrem tambem que a vida continua e para haver 9% de desempregados tem que haver 91% de empregados. A minha recem nascida e insignificante ( em termos economicos) empresa foi registada depois de 4331 outras empresas registadas desde 1 de Janeiro na Florida. Podem ter fechado 5 mil , mas a questao ‘e que ha gente a ir para a frente e ha muita seleccao natural a acontecer.Nao sera parte do “dever” dos jornalistas e editores dar animo as pessoas? Especialmente dado que esses mesmos editores e jornalistas ha muito que transformaram o acto de informar em espectaculo. e entertenimento. Por cada historia de falhanco ou drama ou miseria ou falencia deviam mostrar-nos outra de motivacao, esforco , oportunidade , Humanidade. E mostrar-nos mais do que o nosso quintal , mas com profundidade, para alem de 20 segundos de entulho em Gaza , para beneficio daqueles que na Europa e nos Estados Unidos acham que estes sao tempos dificeis.Tempos dificeis passa agora o Zimbabwe. Para dizer um.
.
Em Charleston ha uma estacao de radio que so’ da’ boas noticias . E nao ‘e uma radio religiosa, ‘e uma radio “normal”. O que dirao a isto as Eminencias do Jornalismo? Nao me interessa.Sei que as pessoas vao para o trabalho um bocadinho mais bem dispostas , e informadas.