Negócios Autárquicos

-Vais votar nestas  eleições? , perguntava-me um amigo francês que mora cá

– Voto sempre.

-E votas em quem ?

– Eu  voto sempre contra os comunistas e socialistas, mas nas autárquicas abro uma excepção, voto mais pelas pessoas do que pelos partidos.

-E  nas legislativas,  votas na direita?

-O meu voto aí  não é por uns , é contra os outros. Eu sei que vai dar ao mesmo mas para mim a diferença é importante.

O meu amigo franziu o sobrolho,  tentei explicar melhor com os exemplo de todos os que votaram no Macron para impedir que a Le Pen avançasse, é o mesmo princípio. De qualquer maneira acho a divisão direita/esquerda muito ultrapassada, gostava de ver o debate e a escolha fazer-se entre colectivismo e individualismo ou estatismo e privatismo. Gostava de ver um partido liberal   mas em Portugal não existe política além da luta entre os que controlam o Estado e os que querem controlar o Estado, o papel dele não se discute  e é para continuar assim. Quem me dera estar errado mas isto é uma coisa cultural, pelo menos desde o Marquês de Pombal que o Estado é não o recolhido autor das regras ,o fiscalizador da justiça e o operador da partilha , derradeiro porto de abrigo de infelicidade própria ou pobreza alheia, mas o salvador da sociedade, o motor da economia, o distribuidor mor da riqueza, em suma , o dedo demonstrador do sentido clarificador da História . Um partido que venha reclamar e lutar pela redução do papel e influência do Estado em Portugal vai  lutar contra quase 300 anos de história e tradição, é um combate muito assimétrico.

Nestas eleições autárquicas devo votar no incumbente, tal como nas últimas também o fiz, e o incumbente perdeu. O actual presidente da Câmara é um tipo educado e calmo , comunica bem, representa bem o concelho e as suas políticas são as mesmas dos outros e da região, por arrasto: gerir empréstimos e fundos europeus,  fazer projectos de candidatura a mais fundos, empregar pessoas quer façam falta quer não e em geral manter isto a andar, devagarinho mas a andar. Num município como este não se pode vir com ideias revolucionárias nem rupturas, aliás, duvido que algum município do país seja capaz de alguma ruptura.

O presidente anterior, de outro partido, disse famosamente que “dão-me dinheiro para museus, faço museus”, este não é muito diferente e o critério de investimento rege-se pelo dinheiro que “dão”. Parece que finalmente parámos nos 8 museus num concelho de 1800 pessoas, agora há dinheiro para incubadoras de empresas, faz-se uma, quer faça falta quer não. Os outros não fariam nada de diferente, o PSD é tão  estatista como  o PS pelo que a comparação é entre seis de um e meia dúzia de outro. O PS leva a vantagem de ser o partido do Governo Regional, logo, este tende a favorecer e ouvir mais os autarcas da sua cor .

Por isso os critérios do eleitor nas autárquicas devem ser, a meu ver, os da honestidade e competência. A competência é fácil de avaliar, o cidadão olha à sua volta, compara com o que via há 4 anos, depois vai ver as contas (eu sei que é raro o cidadão que quer ver as contas) e os projectos e decide com esses elementos se há competência ou não. A honestidade é diferente, não está propriamente à vista e é muito mais difícil de avaliar.

Por exemplo, sabe-se agora que o Fernando  Medina, actual presidente e  candidato do PS à Câmara de Lisboa, não só é um às da imobiliária como tem uma sorte dos diabos. Vendeu um apartamento que tinha por mais 36% do que o que lhe tinha custado,  até aí tudo normal, o mercado das casas de luxo em Lisboa está em alta. Depois comprou outro apartamento, maior e melhor, só que desta vez o mercado funcionou ao contrário e a proprietária vendeu-o por 23% menos do que o que lhe tinha custado.

Isso só por si já é suficiente para levantar dúvidas, como é que num mercado em alta (a justificação, clara, para as mais valias que fez com a venda da outra casa) uma pessoa decide vender um apartamento que comprou por 800 e tal mil euros por 600 e tal mil. Ou bem que o mercado está em alta ou bem que o mercado está em baixa, os dois ao mesmo tempo não pode ser. Podemo-nos interrogar  sobre um presidente de câmara que ganha cerca de €3500/mês e compra um apartamento de €650000 mas isso é o menos, sobretudo vendo que a mulher do sr Medina é a sra Stephanie Silva , filha de Jaime Silva, antigo ministro de José Sócrates, adjunta de Medina quando este era secretário de Estado no mesmo Governo e advogada associada sénior na sociedade PLMJ. Uma pessoa não passa uma vida familiar na política a viver de salários mensais, isso está estabelecido há muitos anos e é claro para toda a gente.

Estas informações tirei-as deste artigo no Público, cheio de factos, com o título “Medina fez dois bons negócios com casas em Lisboa”.  Bons negócios, sem dúvida, mas isto leva-me a pensar como seria o título se por exemplo se soubesse que o Passos Coelho tinha feito bons negócios como este. Ou talvez seja um título sarcástico, porque para  além do absurdo de alguém comprar uma casa em Lisboa por 850 mil para a vender por 650 mil com o mercado em alta dez anos depois  há o pormenor de a proprietária vendedora se chamar  Isabel Teixeira Duarte. Por feliz e inusitada coincidência, a Teixeira Duarte, SA  beneficia de  contratos por ajuste directo com a CML.

O que me fez quase cair da cadeira a rir foi que o sr Medina, sem se rir, diz que não sabia que a proprietária tinha ligação  à construtora Teixeira Duarte. Sim,  porque é normal uma pessoa comprar uma casa sem saber o nome do vendedor e além disso Teixeira Duarte é um apelido muito comum e uma marca  insignificante  no meio empresarial. Foi daquelas coincidências felizes.

O sr Medina vai ganhar as eleições e estas negociatas e favores entre políticos e empresários  e a sua impunidade só podem surpreender os ingénuos. Não sei se ele foi bom ou mau presidente, não quero saber de Lisboa para nada, o que não gosto é que me façam de parvo. Nem o senhor Medina , que  acha normal ganhar 3500€ por mês e ir viver para uma casa que vale 850mil, diga o que disser o papel , e que ainda por cima tem a lata descomunal de dizer que não sabia que a senhora Teixeira Duarte tinha ligações à Teixeira Duarte,  nem os lacaios do poder que se apressam a defendê-lo, mostrando assim que acham bem que um político seja favorecido num negócio em centenas de milhar por uma empresa que subsequentemente recebe tratamento preferencial.

Podem embrulhar-me isto tudo em legalês e explicar todos os pormenores que fazem com que esta bosta fumegante seja perfeitamente legal, e também é óbvio que a história aparece por oportunismo eleitoral, mas isso  não muda a verdade: a um político ou governante que recebe favores particulares em troca de favores públicos chama-se CORRUPTO.

 

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Os Escuteiros, Trump e Marcelo

Fui escuteiro vários anos, até à idade em que tem piada e vale a pena , lá pelos 16. Depois disso, é bom para quem quer  orientar e organizar os pequenos. O Escutismo ensina trabalho de equipa, respeito pela natureza, desenrascanço, criatividade, serviço cívico, descoberta dos espaços abertos e leva os miúdos para a rua e o mato, coisa que acho muito importante , hoje mais do que nunca, quando cada vez mais a população é urbana e a juventude é digital.

Recomendo a toda a gente com filhos pequenos, até a religião que é forçosamente parte das actividades do CNE não é nada de grave, há o respeito por tradições e rituais mais não há nenhuma lavagem cerebral nem imposições drásticas e de qualquer maneira não é levado mais a sério do que a maior parte das pessoas leva a religião, são umas fórmulas que se observam e umas coisas que se dizem, uma missa aos Domingos, procissões nos dias santos e essas coisas.  Para os religiosos sérios há outras organizações de jovens mais, digamos, militantes na parte da fé que se asseguram de que os miúdos não começam a pensar ou questionar enquanto acampam.

Todos os Verões há grandes acampamentos de escuteiros pelo mundo fora que juntam dezenas de milhar de jovens e os padres e políticos, na devida medida e proporção, incrustam-se como fazem sempre que podem e que há multidões. Nos Estados Unidos o Presidente é o chefe Honorário dos Escuteiros. O actual Presidente americano é um burgesso mentiroso, ignorante , indecente e sem um pingo de classe, de um egocentrismo sem paralelo na História moderna. Quem duvida disto é porque não se deu ao trabalho, ou não é capaz , de ver e ouvir os seus discursos e intervenções , desde a campanha até por exemplo ontem à noite.

Não é por ele ser de direita , xenófobo ou elitista que me mete nojo, a direita tem tanta legitimidade para governar como a esquerda, é por ele ser uma besta acabada que domina mal a própria língua , é capaz de se contradizer na mesma frase e não ter maneiras. Quando uma pessoa diz “sou muito rico” e “sou  muito inteligente” as probabilidades são que não seja  uma coisa nem outra. Quando um político tem que vir dizer que “não há caos na administração” a probabilidade é o caos estar instalado.

É ver e ouvir, está tudo registado mas a maior parte das pessoas não se quer dar a esse trabalho ou infelizmente tem que depender de traduções. Tenho um amigo americano que votou nele esperando somente política de emigração forte e um Supremo Tribunal de Justiça conservador, o resto não lhe  importa. Tenho um familiar que o apoia pela simples razão de que ele quer e está a tornar o aborto mais difícil, o resto não importa. Não me lembro de detestar tanto uma figura pública e isto não abate porque costumo ver o Stephen Colbert  e outros como o John Oliver e o Seth Meyers que vão expondo  e comentando as misérias morais da administração Trump e do próprio com um sentido de humor cáustico que pelo menos alivia. Podemos rir-nos dele, já não é mau.

Então o Trump, que nunca perde a oportunidade de falar para uma audiência cativa , foi discursar perante 40 mil escuteiros, e foi tão confrangedor que até o chefe dos escuteiros pediu desculpa. O Obama também se dirigiu aos escuteiros em jamborees, mas em alturas em que tinha que trabalhar ( este não se preocupa com isso) fazia-o em vídeo e deixava uma mensagem de motivação , apreciação e encorajamento à juventude e aos seus sonhos. Este javardo foi para lá fazer campanha, falar de política partidária , de  “matar o Obamacare”, remoer a sua “vitória eleitoral”, gabar-se e , entre outras coisas que deviam chocar qualquer pai de uma criança a ouvir um político, deu um exemplo de sucesso segundo ele o entende , o de um industrial americano do século passado, que ficou rico. O Trump escreve com os pés, tem o vocabulário de um miúdo de 12 anos, massacra a semântica a cada parágrafo e isso nota-se ainda mais quando fala de improviso, por isso isto não é a tradução literal, é mais compreensível . O discurso todo está aqui . Então esse  industrial trabalhou muito na construção e  ao fim de 20 anos “foi-lhe oferecido muito dinheiro pela sua companhia , e vendeu-a por uma quantia tremenda. Comprou um iate muito grande e teve uma vida muito interessante.Não vou mais longe do que isto, porque vocês são escuteiros e não vos vou dizer o que ele fez …. Digo? Devo dizer-vos? (aplauso) .Vocês são escuteiros mas sabem da vida.Vocês conhecem a vida.”

É sabido que a medida do sucesso na América é em grande parte o dinheiro, mas ainda assim pessoas decentes trabalham na ideia de que há , ainda vai havendo, valores superiores e especialmente quando se fala à juventude deve-se fazer um esforço por inspirar para as coisas como deviam ser e não como são, para termos a tal esperança num mundo melhor. Este animal não tem esses pruridos nem deveres de consciência, nem sequer tem consciência e por isso achou apropriado referir como exemplo de sucesso na vida um milionário que vendeu a empresa , comprou um iate e passou a fazer coisas que se hesitam em comentar frente a crianças. É este o Presidente americano, e continua a haver quem o apoie por cá.

Por cá também há acampamento nacional, e o nosso Presidente lá foi. Não encontrei nenhum discurso mas não é preciso: conhecendo a peça sei que vai dizer precisamente o que os ouvintes esperam ouvir numa ocasião destas, que deve ser politicamente neutra. Vai homenagear, reconhecer o trabalho e a história do CNE, não me espantava que tivesse sido escuteiro e vai motivar os jovens a trabalhar por um Portugal melhor. Mais uma ou duas banalidades e declarações óbvias e está ali feito o seu trabalho. 300 selfies, alguns abraços e fica toda a gente contente. Antes assim, mil vezes.

 

PS: a Venezuela está em estado de sítio , morrem pessoas às dezenas e oposição arrisca-se a ser visitada em casa a meio da noite pelas milícias do regime. Foi preciso chegar aqui para que figuras como Daniel Oliveira, Rui Tavares ou as manas Mortágua criticassem o Maduro e a herança do Chavez. Passaram 13 anos a defendê-los enquanto dezenas de pessoas (humildemente incluo-me no número, está tudo aí escrito) diziam que ia acabar mal, só podia acabar mal. Agora já acham que está mal. Além desses a quem as evidências impedem de continuar a defender o Socialismo Venezuelano temos outros como Louçã e o Sousa Santos, para os quais a crise se explica pela queda dos preços do petróleo. Não me consta que algum jornalista lhes tenha perguntado : Então o preço do petróleo só caiu para a Venezuela? E as dezenas de outros países produtores de petróleo em que ainda há papel higiénico e fraldas nos supermercados e a polícia não anda  a matar gente na rua? Como é que isso se explica?

Actualidades

Faço um esforço  para não dar aqui muitas opiniões sobre política, por exemplo para não alienar algum comunista que goste de vela e barcos ou alguma pessoa religiosa que aprecie historietas  das ilhas. Parece que é bom ter um “público alvo” e o sucesso faz-se de identificar esse alvo e trabalhar para ele. O “sucesso” para mim não se faz disso e não gosto muito de calibrar o discurso para tentar agradar  a este ou aquele, por isso de vez em quando tem que ser.

-Depois de ter, como um tolo, acreditado nas primeiras informações do governo , ainda não sei o que se passou em Tancos e nem sei se alguém sabe. Já li tantas declarações contraditórias de altas patentes e políticos que chego aqui e acho que ou me escapou alguma coisa, ou então é mesmo assim, não é para esclarecer nem ninguém é responsável.Como já passaram mais de quinze dias, não interessa nada. Demitem-se, voltam a nomear-se os mesmos, foi assalto, foi erro de inventário, era material obsoleto, não era obsoleto. O ministro que tutela esta salganhada lá continua,  a fazer o que pelos vistos é um bom trabalho.

-Depois de ter, como um tolo, acreditado nas primeiras informações do governo,ainda não sei quantas pessoas morreram no incêndio de Pedrógão Grande e nem sei se alguém sabe. Agora o número de mortos está em segredo de justiça, o que me parece um bocado estranho, não percebo qual a razão de o número de mortos de uma catástrofe não ser público, mas o que é certo é que o segredo de justiça em Portugal é um bocado inútil, volta e  meia o Correio da Manhã publica coisas que deviam ser segredo de justiça e o próprio Presidente da Assembleia da República, o segundo magistrado da Nação, já disse com a classe que o caracteriza que se está a cagar para o segredo de justiça.Eu também, e nisso partilho da opinião do excelentíssimo, não me estou tão a cagar é para políticos que abafam problemas, gosto de saber quem são. Uma senhora lembrou-se de fazer uma investigação e chegou a contas diferentes sobre os mortos do incêndio, a acusação principal que lhe fazem é como esta :

https://www.facebook.com/plugins/post.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Frui.calafate%2Fposts%2F1579767878712935&width=500

Dizer que alguém não deve/pode ir fazer comentários à televisão sem ter as contas todas pagas é imbecil, é um critério que levaria a um esvaziamento das televisões e jornais (nem seria mau) e levanta a pergunta : onde é que ele entrega a declaração do IRS que lhe permite fazer estes comentários públicos? E por exemplo o Presidente do SLB, que em dívidas conhecidas vai em mais de 300 milhões?Pode falar e dar opiniões ou devia era estar calado? Ridículo. Anda a confundir-se criticar a falta de informação e responsabilidade do governo com “aproveitar mortos para fazer política”, isto devem ser tudo pessoas que ou não querem saber quantos morreram e porquê, estão no seu direito, ou acreditam em tudo o que diz o governo, também estão no seu direito. Entretanto o país continua  arder e se se critica o governo por isso é aproveitamento político. Dantes era dever patriótico, agora em Portugal os incêndios são uma inevitabilidade, e calem-se mas é , seus abutres a querer fazer política com mortos.

-Um candidato a presidente de câmara veio dizer que muitos  ciganos vivem do estado e pensam que estão acima da lei. Disse uma coisa que , vincando o MUITOS, é uma verdade evidente que ninguém contrariou porque ninguém pode contrariar. É destratado pela comunicação social e pelos bem pensantes, que enchem páginas a escoriá-lo mas não fazem o que deviam, se a afirmação os incomoda assim tanto: mostrar que é falso ou, na impossibilidade de fazer isso, mostrar o que é que falhou em 40 anos de “políticas” e “investimentos”, porque das duas uma : ou não falhou nada e assim está bem ou falhou alguma coisa e tem que haver responsáveis. O Bloco de Esquerda,sempre na vanguarda da defesa dos direitos das minorias e das mulheres, até conseguiu que se obriguem empresas a ter quotas de género mas está caladinho que nem um rato sobre o tratamento das meninas e mulheres ciganas no seio da sua comunidade. Não é segredo, basta perguntar-lhes, é com orgulho que as tratam como tratam, mas isso já não incomoda o Bloco. Para que se veja quão claro é o tema “ciganos”, até uma pessoa que nos últimos anos tem alinhado bem à esquerda, Pacheco Pereira, bate aqui no ponto certo,sem dúvidas sobre o que está em causa. Para o Bloco, problema é dizer-se mal dos ciganos, não é haver mal para dizer. Ou isso ou casamentos combinados de adolescentes e meninas que não podem ir à escola são aceitáveis  ou não, consoante a etnia. Também gostava de ver o PAN opinar sobre o tratamento dos animais nas comunidades ciganas, também aí deve haver excepções culturais para comunidades minoritárias e vítimas de discriminação e racismo, que por o serem podem ter cães , cavalos e burros à fome, frio  e  porrada bruta que já não é problema, é multiculturalismo.

Temos a seguir a Caixa Geral de Depósitos, que depois de encerrar balcões ,despedir uns 2500 funcionários e sugar uns 250 milhões do contribuinte em “recapitalização” ,  prepara-se  para aumentar o custo de ter lá uma conta . Isto para mim sempre foi das coisas mais odiosas dos bancos : se vocês tiverem seis dígitos no vosso saldo não pagam nada, se tiverem menos de três, pagam. Lógica do demónio, daquelas coisas que faz as pessoas enfurecerem-se com os bancos. Dados estes quatro singelos exemplos da gestão da CGD sob um governo esquerdíssimo, eu pergunto, mais uma vez: para que serve ao cidadão haver um banco público? A resposta é fácil e consensual, mas nunca  a vão ouvir de um político: para financiar projectos esquemas de interesse político e dar emprego a amigalhaços.

Sobre empregos especiais , uma pérola de um homem que é especialista na matéria e tem toda uma vida dedicada a esse combate, Carlos César:

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A pergunta era “quantas pessoas da sua família não trabalham para o Estado?”, mas como para ele o assunto está encerrado, pronto, não se fala mais nisso.Nem sei quem é que anda aí com a ideia peregrina de que os políticos devem responder sobre os seus actos e sobre a gestão da coisa pública e que não são eles que decidem quando um assunto está encerrado.

Antes de finalizar, lembrar que o PSD fez ontem um ultimato ao governo sobre não sei quê, só por si o suficiente para se aferir da qualidade da oposição, está em conformidade com a do governo.

Por fim , um quadro de uma das mais importantes reformas do PS para salvar o país, para ilustrar o apelo que vou fazer aos meus sobrinhos quando eles tiverem idade (porque é provável estar tudo na mesma em Portugal daqui a 10 anos) : arranjem um emprego no Estado a menos que queiram trabalhar mais, ganhar menos e serem responsáveis  pelo que fazem. Idealmente juntem-se a uma juventude partidária ou à juventude partidária do Bloco que não é como as outras porque é do Bloco e faz acampamentos onde se estuda  O Capital e se dança contra o racismo. Alguns deles vão chegar a deputados.   Portugal é isto, um gajo brinca mas às vezes custa.

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Responsabilidade Zero

-Ó sr Jorge , aquilo é que foram  incêndios!Foi perto da sua terra?

-Mais ou menos, não é muito longe.

-O Primeiro Ministro já disse que tinha que saber o que é que se passou, parecia bem zangado!

Mudei de assunto  porque me esforço sempre por distinguir  actividades que valem a pena de actividades que são desperdício de energia, e na ideia deste meu conhecido o Costa e o seu governo fizeram o melhor possível e têm que exigir respostas sobre o que correu mal ao invés de as fornecer. Têm que responsabilizar alguém em vez de aceitarem que se o nosso ministério falha abjectamente, a decência exige que nos vamos embora. Ninguém diz que a ministra da administração interna tem culpa objectiva na catástrofe, mas tem toda a culpa por ter sido o seu ministério a falhar. Se não me engano já vamos em 3 tentativas de explicação  diferentes, todas fornecidas por organizações estatais, e em nenhuma delas se encontraram  motivos considerados suficientes para apear pessoas que não fizeram o seu trabalho.

Já o Presidente, desde que veio cá à ilha, tirou selfies com 64% da população, deu o seu mergulho  matinal e foi-se embora sem influir  ou mudar rigorosamente nada na nossa vida aqui, não se consegue enganar mesmo que queira, é um espectáculo. Quando ouço falar dele como “uma pessoa muito natural” que “fala a nossa língua” lembro-me logo dos milhões de otários que defendem e apoiam o Trump pelas mesmíssimas razões. Não só defendem como acreditam que há alguma similaridade entre eles, uma relação, uma proximidade. É cómico, ou trágico , dependendo do ponto de vista, que pessoas sejam sempre enganadas por políticos que as convencem de que são parecidos, de que partilham das mesmas preocupações e aspirações. Ele é como nós. Se fosse como vocês não era Presidente.

Nos dias do incêndio Marcelo esteve à vontade na sua correria e prolífico em declarações , o que fica para a história é que chegou lá e desculpou toda a gente e dois dias depois  lembrou-se de  que  ficava bem pedir uma investigação e avaliação das leis . Entretanto aconteceu outra coisa interessante, o roubo de material de guerra de uma base militar, roubo até ver de características um bocado cómicas, como já disse alguém, parece uma rábula do Raul Solnado, os maus atacam quando os bons estão a ver o futebol. O Presidente, que certamente não se esqueceu de que é o Comandante das Forças Armadas, até esta manhã não tinha aberto a boca sobre o caso.

Ou ninguém  consegue calar o homem, seja  sobre um fait  divers  como uma avioneta que cai seja sobre um cataclismo nacional , ou cala-se durante 3 dias  perante uma ameaça  clara e presente à segurança nacional e europeia resultante de uma falha grave na instituição que ele comanda.  O critério que determina se diz coisas ou não, não é claro, já acho que não existe mesmo. Ao fim de 3 dias em que achou que não era o momento de comentar o roubo, veio hoje finalmente fazer declarações. O que diz hoje o Presidente? Defende uma investigação que apure tudo. Ah bom.

Repórter num universo paralelo:

-Sr Presidente, dado que  a um roubo denunciado se segue sempre uma investigação pelas autoridades, o que é que há  de novo nesta sua declaração?

-Como?

-Houve um roubo que foi denunciado à PJ militar e às agências de segurança. Se o senhor não defendesse hoje a investigação , investigava-se na mesma…ou não?

-Entendo que sim, eu não estou a ordenar nada, estou a dizer que entendo  que o caso tem que ser investigado até às últimas consequências.

-Mas isso entendemos todos. Acredita que é necessária a chancela do Presidente para que avance a investigação ou que a PJ e Serviços de informação e segurança são autónomos?

-Não, é óbvio que são  organismos que não necessitam de autorização nem pedido do Presidente para investigar.

-Então esta sua declaração hoje não quer dizer nada, é isso?

-Sim , no fundo é isso. Dê cá um abraço, você parece-me um bocado amarelado e débil, tem ido ao médico? Olhe lá a sua saúde!

Há pessoas com esperanças de que estes dois últimos escândalos, chamemos-lhes assim, sirvam para pôr a nu não só que o Estado é incapaz como que não tem vergonha de o ser e muitas vezes nem sabe que o é. Desenganemo-nos , politicamente nada vai mudar até aparecer alguém credível com um projecto para apresentar aos portugueses, coisa que suspeito não está para breve.É  uma ideia muito portuguesa, um  sebastianismo que nos deixa à espera de um homem providencial para levar isto a bom porto. Não acredito na Providência  mas mantenho uma réstia de esperança numa renovação que só pode chegar quando desaparecerem a maior parte dos que lá andam há 20 e mais anos.Como este, que também não tem vergonha nem acha que há razão para se demitir, está a fazer um óptimo trabalho, como de resto fez desde que entrou pela primeira vez para o governo, já lá vão muitos anos.Confiamos o governo do país a pessoas que ou são estúpidas ou não querem saber do que disseram há 2 meses desde que tenham alguma coisa para dizer hoje, alguma coisa que vá de encontro ao que as pessoas querem ouvir na altura.

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Em tempos que já lá vão morria uma pessoa nas urgências de um hospital , uma pessoa por definição doente e em risco, e ululava-se “assassinos” e “austeridade mata” a cada visita de governante. Interrompiam-se comunicações para se cantar a Grândola Vila Morena e mesmo que fossem quatro pessoas, as televisões e rádios “cobriam” os “protestos populares”. Mesmo que a vida  não tivesse piorado assim tanto na prática, a comunicação social garantia-nos que sim, que era a devastação neo liberal que nos estava a matar. Foram momentos heróicos de resistência, felizmente agora o PS, com a ajuda discreta do PCP e do Bloco, resolveu os problemas de Portugal, problemas que tinham sido todos causados pelo PSD e CDS.  Os eleitores portugueses hesitaram em dar o governo ao partido que nos tinha conduzido à falência, mas essa hesitação foi facilmente corrigida por pessoas que têm a vocação de interpretar as aspirações do povo à luz da ciência e corrigir desvios, os comunistas e demais marxistas que logo nos puseram no bom caminho. Estou quase convencido de que os poucos problemas que não se resolveram são impossíveis de resolver. Faz-se todo o possível, as crianças brincam outra vez , os que imigram já só o fazem por revanchismo e consta que 3 pessoas regressaram mesmo a Portugal agora que o governo tornou o ar mais respirável.

Pode não ser claro que se o meu respeito e esperança no PS é abaixo de zero , pelo PSD e CDS é zero mesmo e aos outros considero-os  anomalias anacrónicas que podiam desaparecer com vantagem para o país. Estou na mesma situação de, acredito, centenas de milhar de portugueses que não se revêm no governo nem na oposição, nem vislumbram no horizonte um tipo (ou tipa, desculpem o termo)  como o  Macron,  que não seja criado no caldinho das Juventudes; que não tenha o rabo preso com negociatas suas e dos seus compinchas; que não chegue lá pelo nome de família; que apresente um discurso de ruptura com a velha dicotomia esquerda/direita; que queira trazer para o governo gente da sociedade em geral e não os advogados do costume; que tenha um plano económico ligeiramente menos vago que “apostar no crescimento”, enfim , alguém capaz de renovar. Infelizmente é mais provável calhar-nos populismo que alguém assim, mas uma pessoa pode sonhar.

 

PS: O parlamento aprovou uma lei que proíbe que um senhorio se recuse a alugar a sua casa a pessoas com animais. Isto ofende-me um bocado. Tenho agora 17 animais, dentro de duas semanas serão 22, a maior parte  são gado mas o cão e o gato dormem em casa, os bichos são das coisas que mais me importam na vida . Apesar disso não me agrada viver num sítio em que o Estado é que diz os termos em que podemos ou não arrendar o que é nosso.É um desrespeito total pelos direitos das pessoas que não gostam nem querem ter animais nas suas casas, porque agora se decidiu, com partido e tudo, que todos temos que gostar de animais.Socialismo também é isto.

Adeuzinho

Tenho lido algumas elegias ao dr Soares , como esta do MEC e sou forçado a concluir que o Mário Soares que morreu não era o mesmo que  eu “conheci” , ouvi e li toda a minha vida. Por exemplo, achei bastante estranho  ler que “recusou-se sempre a ser um salvador ou uma figura acima da multidão” , não  é  como eu  o lembro e gostava de ler mais coisas sobre a sua simplicidade e modéstia , acho que eram qualidades que não tinha.

Também já vi muitas demonstrações de ódio puro e de falta de civismo e decência  , eu acho que é legítimo (e necessário) detestar  políticos mas enquanto políticos , já há uns anos que o senhor era só um velhote à espera da morte ao qual os socialistas iam prestar homenagem mas que já não dizia coisa com coisa ( é ir ver as suas últimas crónicas no DN)  nem contava para nada.

Prova disso são as centenas de artigos e obituários surgidos em minutos , naturalmente que o senhor já tinha a folha feita por toda a gente e dele só se esperava que acabasse. Para mim a altura certa para festejar o seu desaparecimento tinha sido quando esta figura alegadamente adorada pelos  portugueses em geral recebeu, estranhamente , 15% dos votos nas últimas eleições a que concorreu ( e reagiu como se a Pátria o tivesse traído) .

Que ele se tenha aferrado à ribalta e à acção política até lhe ser fisicamente  impossível continuar mostra a uns que o seu espírito de missão era indomável , a outros que a sua sede de poder era infinita. Eu sou dos que admiram e aplaudem aqueles que saem pela porta grande e sabem ver quando o seu trabalho está feito e o seu tempo chegou , são uma espécie muito rara.

Não gostava dele , nunca gostei , não me esqueço das mafiosices  e lados escuros , como por exemplo se conta num livro escrito por um dos fundadores do PS que foi prontamente banido pelo dr Soares (  a Liberdade acima de tudo) mas que felizmente hoje se pode ler em PDF, é muito instrutivo.  Também me lembro do fax do governador corrupto de Macau  e dos negócios de diamantes em Angola , a lista  é extensa mesmo que se eliminem as acusações dúbias. Nada dúbio é um vídeo do próprio a explicar-nos como se geriram ( e gerem, desconfio)  os cruzamentos de  política e economia em Portugal . Soares conta rapidamente como foi possível ao Salgado fazer o que fez , é uma história quase comovente de solidariedade entre os poderosos  .Também me lembro bem de ouvir o dr Soares dizer publicamente , no tempo do anterior governo , que Portugal não era uma democracia e a incentivar o derrube do governo democraticamente eleito . Haverá quem justifique as declarações  com retóricas várias , a mim ,mostrou-me sem margem para erro que para ele a democracia válida e evoluída era quando ele e os seus estavam no poder, os outros eram obstáculos. “O juíz Carlos Alexandre que se cuide!” , ameaçou a dada altura  , corrompendo tudo ao mesmo tempo para defender  o  maior vigarista que Portugal conheceu neste século ,  mas essas coisas agora são passado, agora só interessa falar no bom , como há uns tempos com o Fidel. É mesmo verdade que morrer é o melhor que pode acontecer à reputação de uma pessoa.

Para mim , tal como para a maioria dos portugueses , desconfio, os méritos maiores de Mário Soares foram  ter confrontado e contido a ameaça comunista , que em 74 e 75 foi muito real , e negociado a adesão à então CEE , e só por isso merece à vontade a homenagem e respeito do país e o seu lugar na História. Ontem a sua morte foi notícia no boletim da BBC World Service, é para muito poucos,  mesmo os seus detractores e críticos como eu têm que reconhecer que foi  um grande Português

Lesados somos todos

Um dos maiores dramas do nosso país é o inumerismo , ou analfabetismo matemático ,  muito mais difícil de combater por ser mais insidioso , muito por causa das luminárias da Educação moderna que acham que é mais importante um aluno rir às gargalhadas sadias do que decorar a tabuada e currículos que não preparam os alunos para as contas do dia a dia.  Além do mais é bom lembrar que  uma grande parte dos portugueses viveu no tempo da ditadura , cuja restrição da Educação nos deixou esta herança, talvez a mais pesada.

Se muitas pessoas já leem  e escrevem mal , muitas mais ainda não sabem fazer contas nem avaliar quantidades , e isto nota-se depois nas decisões que tomam , relativas por exemplo ao consumo : uma pessoa vê um anúncio de um crédito para um produto com 25% de juro mas não sabe o que isso significa. Uma pessoa tem na cabeça o número do seu vencimento mensal mas é incapaz de computar as suas despesas para saber quanto gasta. Uma pessoa escolhe uma casa nova sem ter maneira de perceber se está ou não dentro das suas possibilidades reais. Uma  pessoa vê um produto em promoção e vai logo comprá-lo porque lhe parece que uma poupança de 2% em algo supérfluo é de aproveitar. Uma pessoa ouve o Governo a falar de percentagens de défice , aumentos ou cortes mas o que fica são os verbos , porque visualizar e perceber realmente os números infelizmente é para poucos.

Na primeira linha dos aproveitadores desta lacuna (não é só em Portugal , fraco consolo)  estão os bancos , que seguros de que a maior parte dos seus clientes não sabe fazer contas permitem-se apresentar-lhes quaisquer números  e cargas de letra miudinha. 

Aqui há uns anos umas centenas de cidadãos decidiram investir as suas poupanças  no BES. Sendo na maior parte semi analfabetos matemáticos não perceberam aquilo que estavam a comprar e não questionaram os vendedores que , como era de rigor nesses tempos , venderam banha da cobra às toneladas. O BES rebentou e estes investidores ficaram a arder. Não me incomoda nada  , a ignorância só é desculpa até certo ponto e o que é certo é que  estas pessoas perderam dinheiro mas podiam igualmente ter ganho dinheiro , e nem numa nem noutra circunstância o erário público  deve ser tido ou achado , era um negócio entre os investidores privados e um banco privado. Se os investidores não tinham os recursos intelectuais para perceber que corriam um risco, temos pena.

Mas isto é Portugal , e agora que vivemos numa época de afectos o primeiro ministro decidiu usar o dinheiro de todos para compensar alguns por terem feito um investimento que correu mal. Não bastava o desbaratar constante de fundos , não bastavam as dívidas contraídas pelo Estado que por definição nos calham , o PM acha que o Estado também está cá para compensar investimentos particulares falhados. Os “lesados do BES agradecem a bênção” e o Costa mostra toda a sua dimensão de estadista , vai compensar estas pessoas e acabar por ser aplaudido , mesmo por aqueles que vêm os seus impostos servir para pagar más decisões de outros. Isto lembra um bocado as ajudas estatais à agricultura , em anos de secas ou cheias ou contrariedades , o Estado ajuda . Em anos de colheitas excepcionais ou mercados altos ( também existem , raramente se ouve falar deles mas são reais), os lucros ficam em casa. Costa tem muito medo de manifestações , sendo a maior parte organizada por sindicatos , estão nesta altura todas sob controlo ( a factura vai chegar mais tarde) mas manifestações como a destes tristes dos “lesados do BES” não têm nenhum Arménio Carlos que as regule e faça acontecer ou cancelar consoante manda o Comité Central , pelo que são mais imprevisíveis e potencialmente danosas. O PM  não gosta de conflitos nem tensões e enquanto os puder resolver pagando com dinheiro que não há a pessoas que não têm justa causa , é o que vai continuar a acontecer.

Noutro sector , há uma companhia de teatro em Lisboa que está para fechar. Fecha porque não há dinheiro. Se não há dinheiro é porque o que fazem não rende , não tem público suficiente . A mim , e a uns 80% dos portugueses , arrisco , isto é absolutamente indiferente. Ainda no outro dia acho que perdi uma “amiga” muito ligada ao teatro porque lhe disse precisamente isso , que é uma arte que se desaparecesse do mundo amanhã a minha vida não mudava um milímetro. Quando sentimos uma ligação forte a uma coisa é difícil imaginar que outros só sintam indiferença pela mesma coisa , mas é assim .

A libelinha afectuosa que é o actual Presidente acha que não , que tudo tem que ser sentido por todos e já foi fazer não sei o quê, talvez tirar uma selfie , com a companhia de teatro em perigo, e certamente vai agitar para que salvem a Cornucópia . Para ele , como para o Costa , estes salvamentos são óptimos porque não lhes saem do bolso , ou melhor , saem na medida em que também são contribuintes , mas permitem-lhes encher a boca e ganhar pontos a  distribuir  o dinheiro de muitos por causas de poucos. Se o Presidente sente assim tanto como causa nacional o fim de uma companhia de teatro em Lisboa tem bom remédio : faça uma campanha a incentivar as pessoas a ir ao teatro e passe um cheque pessoal à Cornucópia. Senão esteja mas é quietinho dois minutos e tente ler  mais sobre o que é ser  um Estadista.

Caridade e Inovação

Passou o furacão Matthew, ou melhor , passou pelas Caraíbas e Florida mas continua a ameaçar as Carolinas e mais a norte.O Haiti  ,   uma espécie de pólo de atracção para males  do mundo , humanos e naturais , e estado falhado como condição natural, levou com o furacão em cheio e a miséria aumentou mais ainda.

Ainda nem sequer estavam moderadamente recompostos do último terramoto quando lhes calha isto, e mais uma vez vão chover apelos ao auxílio ao Haiti. Pessoas generosas e sensíveis de todo o mundo vão assinar cheques e fazer transferências bancárias para ONG’s de todo o lado . Tenho sérias dúvidas quanto à eficácia e impacto real da esmagadora maioria destas ONG’s se medirmos a sua produção contra cada euro que recebem de doação. Não tenho dúvidas nenhumas de que  50€ entregues na mão de um haitiano que acabou de ver a sua barraca a voar fazem muito mais diferençã que 50€ depositados na conta da “Save the Children”, por exemplo. Lembro-me destes por causa de uma coisa que aconteceu aqui há uns doze anos , já aqui devo ter falado disto mas acho tão notável que repito. Não é nenhum segredo revelado , é apenas uma constatação.Então nessa época  um amigo meu foi skipper de uma regata à volta do mundo , barcos de 20 metros, tripulação de 13 , campanha para quase um ano. Eram uns 12 barcos idênticos , cada qual com seu patrocinador. o patrocinador do barco do meu amigo era a “Save de Children”, que achou que era bom uso dos donativos patrocinar com 3 milhões de libras uma regata à volta do mundo . O problema da publicidade, como sabem as pessoas do marketing , é que é bastante difícil avaliar o impacto real que tem determinada campanha, deve haver números relativos ao aumento da notoriedade da Save the Children por causa da participação na regata , o que me espantou foi que tenho a certeza de que poderiam ter feito muito mais coisas para apoiar crianças em perigo com esse dinheiro do que embarcar num projecto de vaidade. Que diferença fariam  3 milhões de libras entregues directamente a dez ou 50 mil orfanatos por esse mundo? Mas estas organizações antes de mais precisam de se sustentar a si próprias e nisso se derrete a maioria dos donativos.

Exemplo egrégio disto é uma   história relativa aos esforços de reconstrução no Haiti , desta vez pela Cruz Vermelha , entidade que muitos, eu incluído, tinham por um pouco melhor governadas e diferentes da falange de ONG’s criadas com boas intenções mas que existe principalmente para existir  e recolher donativos.

Então segundo o Huffington Post a Cruz Vermelha construiu exactamente 6 casas com donativos de 500 milhões para um fundo de reconstrução depois do terremoto de 2011. 

O resto foi-se …em despesas operacionais e outros projectos e tal, fica à vossa imaginação, e lembrem-se destas coisas quando vos apelarem à  generosidade. É muito mais provável estarem a pagar campanhas publicitárias , salários gordos , escritórios luxuosos e bilhetes de primeira classe do que estarem a fazer chegar ajuda a quem mais precisa.

A maior parte destas ONG’s são inventadas e geridas por pessoas bem intencionadas que querem fazer a diferença , não tenho dúvidas disso, mas eu acredito muito mais na tecnologia e no mercado como meio de melhorar a vida das pessoas. Muitas vezes só por se encontrar  uma solução melhor para um problema real tendo em vista uma aplicação comercial já se está a melhorar a vida das pessoas, e este exemplo de que vou falar fascina-me, é um exemplo brilhante para contrapor ao anterior e à abordagem das ong’s  .

Chris Sheldick, um inglês , interessou-se pelo problema dos milhões de pessoas no mundo que não têm uma morada formal , um endereço postal . Os problemas e limitações que isto provoca  são fáceis de calcular. O que o homem propôs , e concretizou , para resolver o problema é magnífico. A superfície  do planeta pode ser dividida na totalidade por uma grelha de quadrados de 3 X 3 metros, 57 triliões destes quadrados. Seleccionaram-se 40 mil palavras da língua inglesa, número que oferece 64 triliões de combinações de 3 palavras  , pelo que menos de 40 mil palavras chegam para dar a cada quadrado uma série única: retirando por exemplo os 7/10 da superfície terrestre  que são mar , 25 mil palavras são suficientes. Um algoritmo atribui a cada quadrado de 3X3 metros uma série , 3 palavras como  fogo.janela.tu , e assim tão simplesmente toda a gente tem uma maneira de comunicar a sua localização e ser encontrada. Há versões de teste a correr em várias línguas e empresas a usar já esse método de distribuição  e localização. Isto não vem substituir os sistema de códigos postais e nomes de ruas , mas vai melhorar a vida a muita gente e nunca se sabe que mudanças pode engendrar e aplicações pode ter . Acho o sistema de uma elegância e simplicidade enorme e é dos melhores exemplos que tenho visto da inovação e tecnologia a serem postas ao serviço das pessoas. Há quem diminua o valor destas coisas por terem o lucro como motivação, eu não , se fôssemos a prescindir ou menosprezar  inovações trazidas pela motivação do lucro estávamos bem tramados.

O sistema já funciona na Mongólia e no Rio de Janeiro , convido-vos a visitar o site e a explorar um bocado, é fascinante . Se me quiserem visitar , a minha porta é  nonresponsive.faithless.icebreaker .