Uma espécie de independênciazinha

Depois do drama, da encenação, das hipérboles e das declarações apaixonadas, o chefe dos independentistas da Catalunha falou ao povo que se concentrava na  praça e o via na TV,  centenas de milhar de pobres escravos de Espanha, cansados de séculos de opressão e miséria, aguardavam a esperada e histórica declaração de libertação. Acreditavam  que a sua vida melhoraria mesmo se em vez de viverem na Catalunha, região autónoma de Espanha, passassem a viver  na República da Catalunha. Puigdemont compôs a franja e disse  que declara  a independência… mas fica suspensa. Ou seja , não há independência nenhuma.                      DLzGf8OXcAAcaQ-

Como começou a ver a vida a andar para trás, como se tornou aparente que milhões de catalães estavam contra a ideia, que ninguém na Europa se oferecia para mediar a questão quanto mais reconhecer um estado catalão, que as empresas debandavam e os particulares começavam a levar as suas poupanças para outro lado, que a Fitch avisou  que o rating de Barcelona caía logo com a independência, e assim sucessivamente… teve que se vergar à realidade. Todos os inconvenientes e problemas óbvios que os independentistas nunca discutiam ficaram de repente muito mais próximos e evidentes, e o sr Puigdemont pedalou para trás na melhor tradição dos demagogos quando as suas mentiras são expostas. Junta-se assim ao grupo liderado pelo Tsipras, grupo de políticos que agitam as paixões da população com ideias fortes, amanhãs que cantam  e promessas de toda a ordem para na hora H baquearem e dizerem “afinal as coisas não podem ser bem como eu vos tinha dito”, por mil outras palavras. Outro mestre da demagogia é o Pablo Iglésias, que depois de meses a agitar sem papas na língua não só pelo confronto da Catalunha com o estado central mas pela  independência real  já veio elogiar o Puigdemont pela sua sensatez. Pela sensatez que demonstrou em não fazer o que o Iglésias defendia. Na mesma declaração e mostrando bem o grau de alucinação que vai na sua vida, comparou a Espanha à Turquia. É surreal.

Fiquei satisfeito pelo que na prática é a suspensão da declaração de independencia  porque como escrevi aí atrás temia que a loucura prosseguisse a fundo, que o Puigdemont fosse de palavra e coragem e declarasse mesmo que nascia ali a República da Catalunha, e seguia-se senão o caos algo parecido.

Não tenho conhecimento de mais nenhuma declaração de independência de validade diferida, de alguma ocasião em algum  país em que um dirigente ou movimento tenha feito uma algazarra e espalhafato épico para depois subir ao palanque e dizer “Vencemos! Havemos de ser independentes, um dia mais tarde e consoante decorrer o diálogo com todas as partes!!!”  Absolutamente ridículo.  Explica  Nuno Rogeiro:

O artigo 4º, n.4, da Lei 202-00065/11, dita do referendo, aprovada pelo parlamento catalão em sessão conturbada de 6 de Setembro deste ano, diz que o mesmo hemiciclo precisa de declarar a independência, concretizar os seus efeitos e iniciar o processo constituinte, 48 horas depois da publicação dos resultados da mesma consulta, se estes resultarem em mais votos «sim» do que «não».

A suspensão deste processo não tem cabimento legal, face à norma referida.

Ou seja: viola-se não só a Constituição espanhola, mas a lei do estado a ser.

Daí a desilusão dos que queriam «independência já». E o ceticismo dos que querem uma «negociação», mas sem saber qual.

Não aplaudo  a conduta do estado espanhol nesta história, podiam ter levado as coisas sem usar a força, mas tirei-lhes o chapéu e ri-me bastante quando o Rajoy perguntou ao governo catalão se afinal tinham declarado independência ou não .

É que há leis, leis que não ficam obsoletas só porque mudam os governantes, leis que não são  imutáveis mas que obedecem a preceitos para serem alteradas, e  se não acreditamos nisto mais vale dizer que o melhor é tudo ao molho e fé em deus, venha a lei do mais forte, das maiores manifestações, de quem tem maiores audiências, de quem fala mais alto.

A minha aposta é que depois deste festival vai tudo ficar na mesma por muitos e bons anos. Ficam também a animosidade e divisões criadas pelos independentistas, que certamente não vão desistir, e o prejuízo económico para a região.

O meu voto é que os dirigentes catalães se concentrem mais em fazer a sua terra funcionar melhor e em melhorar a vida dos habitantes, coisas que se podem bem fazer sem mudar o regime político nem precisam de um estado independente.

 

PS: Finalmente há acusação ao Sócrates, um documento com 4000 páginas! Eu e mais uns milhões bons de portugueses estamos plenamente convencidos de que o homem é um corrupto  que enriqueceu ilegalmente  à conta do cargo, e para isso não é preciso ler as 4 mil páginas, é uma opinião baseada no antigo adágio, quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem. 

Que ainda haja quem defenda o homem, que apresenta 24 milhões de euros numa conta da Suíça depois de uma passagem por S.Bento onde ganhava uns 5 mil por mês, ou 10 que fossem,  é das coisas mais extraordinárias que já vi. Que haja que seja capaz de dizer que uma acusação formal de 31 (!) crimes é uma cabala é extraordinário. Que haja advogados a defendê-lo, é preciso e é o trabalho deles, agora que haja gente que ainda espera pela sentença  para se pronunciar, é demais. Este processo é necessário para saber se há condenação e pena, e aos olhos da justiça o homem ainda é inocente, mas isso é aos olhos da justiça, que devia  ser ceguinha, não queiram que nós também o sejamos. Para mim qualquer pessoa que defenda o Sócrates ou está a ser pago para isso ou é estúpido.

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A Marcha da Loucura

Um dos meus livros favoritos de sempre é The March of Folly, escrito por uma historiadora americana em 1985 e sobre o qual já escrevi aqui, há uns anos, com este título e tudo. O livro explora casos, de Tróia ao Vietname , em que os políticos tomam decisões  “loucas”  e  contrárias aos seus interesses. É um processo fascinante  que se pode ver a trabalhar desde que há História escrita e tenho a certeza de que se a sra Tuchman ainda fosse viva tinha feito uma edição nova e actualizada em que incluía a invasão do Iraque.

Os critérios que Tuchman apresentou  para que se pudesse falar em loucura eram 4 :

– A prossecução de uma política contrária aos interesses últimos do Estado na face de vozes discordantes .

-Provas de que a  mesma política era contra producente.

-A política tinha que ser o produto de decisão de um grupo em vez de um indivíduo e , finalmente , tinha que haver uma alternativa clara .

A loucura está outra vez em marcha, desta vez ali na Catalunha. A meu ver observam-se todos os critérios, especialmente porque a Catalunha não é nem nunca foi um Estado , por isso o Estado em questão aqui é a Espanha, e os líderes desse estado também já tomaram decisões com certa dose de loucura.

Carles Puigdemont, o presidente do governo regional que é a cabeça de toda a instigação e agitação independentista  afirmou ontem que vai mesmo declarar independência. Curiosamente diz isto : “A declaração de independência, a que nós não chamamos declaração unilateral de independência, está prevista na lei do referendo como aplicação dos resultados”. Aqui é bem visível o papel da retórica nesta salganhada: a declaração deles é, por definição e por observação directa da realidade, unilateral, mas ele diz que não lhe chama unilateral. Quando um político começa a oferecer interpretações  e descrições alternativas da realidade baseadas  em manobras de linguagem significa que a discussão já saiu do domínio do racional e já não se vence com argumentos racionais.

É possível ver uma cronologia do processo aqui e lendo artigos nacionais e estrangeiros sobre o tema há uma coisa que sobressai : o independentismo catalão aparece de cima para baixo, é a resposta aos anseios de uma elite que sem dúvida se sentiria melhor a governar um país do que uma região e que com a causa independentista encontra um bode expiatório para as suas próprias insuficiências e falhas e uma causa emocional e mobilizadora. Uma visão para oferecer, coisa necessária a todo o político de sucesso.

Em mais uma demonstração de talento político para distorcer e manipular factos, nas eleições de há dois anos os independentistas não conseguiram a maioria dos votos , mas  tiveram maioria dos lugares no parlamento e um dos ideólogos veio logo dizer :Ninguém pode dizer que, a partir de agora, não temos legitimidade para fazer o que queremos fazer . Ora isto é uma afirmação absurda , especialmente porque “o que querem fazer” é desmembrar um país para criar outro, não se trata propriamente de aumentar o IVA ou mudar o código da estrada. Estas pessoas viram legitimidade onde mais ninguém a via, e o processo continuou apesar de ser claramente ilegal e inconstitucional.

Arrisco dizer que o cidadão comum  está preocupado antes de mais com o seu emprego, a educação dos filhos, os serviços públicos e  a segurança. Com isto  assegurado preocupa-se com direitos políticos e a liberdade individual e colectiva.  Isto já todos os catalães têm, incluindo o respeito, instrução  e inclusão plena de uma língua que só eles falam. A vontade de independência catalã não nasce de nenhuma opressão, de nenhuma exclusão dos catalães dos processos de decisão, de nenhuma desigualdade entre eles e o resto dos espanhóis, de nenhuma memória de nação que já foi e deixou de o ser.  Nasce sim de um projecto político de uma elite.

Tentemos imaginar o que sente uma figura pública que sobe a uma varanda de uma grande praça de uma grande cidade, fala perante 70 mil pessoas e é aclamado. Sente-se a encarnação da História , que a sua causa é justa e que o povo está com ele. A Catalunha tem 7 milhões e meio de habitantes mas o nosso Carles olha para 70 mil e vê ali a população catalã, o povo. Rodeado de assessores e cúmplices colegas de causa que lhe repetem as suas próprias opiniões e ideias, a ler jornais lidos por minorias decrescentes mas que continuam a acreditar que chegam a todos,   a viver em condomínios fechados, a comer em restaurantes de luxo e  conduzido por motoristas em carros do estado mas  sempre acreditando que compreende os anseios e necessidades do povo. Este homem torna-se monomaníaco e diz a quem o quer ouvir que a causa da sua vida é a independência. Não lhe interessa que não seja a causa da vida de nem metade dos catalães, é a sua e como ele é o chefe do governo, é por consequência a causa do governo.

Deixa de se tentar melhorar o governo da Catalunha autónoma para se delirar com o projecto da Catalunha Independente. Madrid , sem surpreender ninguém, manda-o ler a constituição e o estatuto da autonomia aprovado há pouco mais de dez anos pelas autoridades catalãs representativas e diz-lhe  NO. Perante isto o que faz o nosso Carles? Começa uma campanha para possibilitar a revisão do constituição espanhola? Não. Começa uma campanha para aprofundar as autonomias? Não. Propõe um mdelo de estado federal para a Espanha?Não. Exige que se equilibrem mais as transferências financeiras? Também não, convoca um referendo que desde a hora zero lhe dizem que é ilegal. Um referendo para decidir sobre se fazem ou não um golpe de Estado. É o que se chama a atentar contra a integridade do Estado, golpe de estado separatista.

A este referendo, e muito por culpa da reacção canhestra de Madrid, acorreram  38% dos catalães, nem sequer metade, e disseram que querem  independência, logo o Carles vê nisto legitimidade para proclamar independência. Como o referendo é ilegal e não está regulamentado, não está definida a margem de participação que legitimaria a decisão dali saída , tal como as pessoas que são contra a independência, pela mesma razão, não se deram ao trabalho de ir votar.

A partir daqui a fuga é para a frente e o governo independentista, em vez de recuar, ouvir todos os avisos e prenúncios que vêm de dentro e de fora, acalmar as hostes e reconhecer precipitação e erro no método senão no objectivo, prefere saltar da parte mais funda da pisicina e diz que vai declarar independência amanhã, porque recuar agora seria perder a face. Esta relutância de políticos em perder a face já matou milhões de pessoas ao longo da História.

Enquanto Carles e amigos brincam às proclamações patrióticas inflamadas a vida continua, a realidade não muda e as notícias aparecem. Dezenas de empresas abandonam a Catalunha porque, as malvadas, preferem trabalhar num país grande e desenvolvido do que num país pequeno e novo, de regras semi-arbitrárias e fora da UE. Sim , porque a UE confirmou sem margem para dúvidas que uma Catalunha independente não seria membro. Isto deu pausa para pensar a muita gente, porque o poderio económico da Catalunha é-o por ser uma região de Espanha, isto pelos vistos não era aparente para toda a gente. Uma greve geral paralisou a região e tirou não sei quantos pontos ao PIB e os efeitos perduram. Desde as empresas às famílias aumenta a discórdia , o nosso Carles pode orgulhar-se de ter conseguido fazer algo com a Catalunha: dividiu-a como não se via desde 75.  E ontem entre 350 e 500 mil pessoas encheram as ruas de Barcelona com bandeiras de Espanha a manifestar-se pela unidade nacional . É bastante gente, e também isto fez pausar aqueles que acreditavam, vá-se lá saber porquê, que a independência era uma causa comum dos catalães.  Não é , há muitos, quiçá a maioria , que estão bem assim, Espanhóis , Catalães e Europeus e não querem embarcar numa aventura romântica para benefício da oligarquia do poder.

Como a loucura parece que já tomou mesmo conta do Governo Regional é muito provável que amanhã haja mesmo declaração de independência. Para não perder a face o nosso Carles vai despejar um bidom de gasolina na fogueira, provocar mais uma reacção dura do estado espanhol que parece que não sabe ter outras, talvez na esperança de que se acabar tudo à porrada, mais ainda, a simpatia vai cair para o lado catalão. Ainda está para nascer o político que não veja num seu seguidor com a cabeça rachada uma boa ocasião de propaganda.

Uma Catalunha independente voltaria atrás economicamente,internacionalmente passaria  de região de um grande país da Europa a país isolado que não conta para nada e ficaria , depois de inevitáveis migrações dolorosas, partido ao meio com ressentimentos para décadas. Claro que isso não interessaria muito ao Presidente da República Carles Puigdemont, cuja situação económica pessoal não seria ameaçada,  teria ainda mais privilégios e passaria a pensar nele próprio como o libertador da Catalunha.

Precisam-se de cabeças frias mas receio bem que a loucura já esteja em marcha.

 

Votos

Não é que as filas ou multidões aqui sejam um problema mas a melhor hora para votar  é durante a missa, porque regral geral as pessoas votam antes ou depois, mas raramente das 11 ao meio dia. Estacionei a 10 metros da porta da Casa do Povo, não estava lá mais  ninguém para votar, no tempo que levou a atravessar a sala até à mesa já a senhora com o computador tinha encontrado o meu número de eleitor porque sabia o meu nome. Cumprimentei as pessoas, mostrei o cartão de cidadão e deram-me os boletins.

Conheço grande parte dos defeitos e insuficiências das eleições mas sinto-me sempre bem quando voto num processo organizado, claro e pacífico.Lembro-me sempre de países onde ou os votos não contam literalmente para nada, ou contam e há violência e corrupções de toda a ordem ou então são uma miragem de pessoas que gostavam de poder ter a sua opinião sobre os destinos do país reconhecida e contada. Enquanto houver liberdade de expressão e associação, imprensa livre e a possibilidade de de 4 em 4 anos mudar de governos, já não é  nada mau.

Aqui só o PS e PSD concorrem nas autárquicas, o que simplifica as coisas. O meu anti comunismo não é tão primário ao ponto de não reconhecer que uma autarquia do PC pode ser bem gerida e trabalhar bem mas regra geral e como princípio orientador, quanto menos comunistas organizados melhor.

Aqui há 1325 eleitores, votaram 988, quase 75% , para quem se importa com a saúde da democracia é um bom sinal. Também mostra que as pessoas se preocupam e interessam mais pela junta e a câmara do que pelo Terreiro do Paço. Este ano a margem foi muito grande mas aqui  uma dúzia de votos pode decidir uma eleição. O PS ganhou com 630 votos, o PSD teve 311. Nas últimas legislativas a abstenção foi de 50% , o PCP teve 16 votos, o PCTP MRPP teve um voto, o PNR também teve um voto e eu tenho quase a certeza que sei quem foi o gajo que votou no PNR, um conhecido meu completamente fascista.

 No resto do país não vejo grandes surpresas, o BE deve ter tido 25% de cobertura dos média para 3% dos votos e  nem o Isaltino Morais é uma grande surpresa. Como não tenho ideia de como é  morar em Oeiras não tenho ideia do que pode ter feito  o homem de tão importante para continuarem a votar nele desta maneira , mas esse é um problema das pessoas de lá.

Problema , grande, de outros é o da Catalunha. Lá votaram num referendo ilegal 38% das pessoas, e desses 90% querem a independência. Se os espanhóis mantivessem o sangue frio eram menos espanhóis, mas ao ouvir referendo, secessão e  independência, mandaram a polícia em força. Creio que teria sido muito melhor deixá-los fazer o seu referendo em paz , sempre a informá-los de que não conta para nada,  que até ver e no futuro próximo Barcelona é a capital de uma região parte de Espanha, por isso as coisas seguem como dantes.

Assim criaram “mártires”, opressão ,sofrimento e indignação. O líder dos independentistas é o chefe de um partido que obteve menos de 20%, salvo erro, nas últimas eleições. Respaldado num resultado de um referendo mal organizado, ilegal e sem obedecer pelo menos às normas formais dos referendos, diz que vai declarar independência. Tenho andado a ler sobre estes independentistas e como de costume os projectos são fortes no lirismo , visão e  inspiração mas são fininhos no detalhe. Como se o objectivo fosse a declaração de independência e todo o trabalho é feito para chegar aí , o dia seguinte a esse é muito menos discutido e pensado. Querer declarar independência depois de um referendo assim é de loucos.

O meu desejo é que  avancem depressa para uma conclusão, e só duas coisas podem acontecer : ou a catalunha secede e se torna um país ou permanece uma região de Espanha.

Se declararem a independência uma das  primeira coisas a acontecer  será a saída da UE (já tinha sido explicado aos escoceses o que aconteceria: saem para talvez voltar a entrar) . Tal como no referendo do Brexit, suspeito que a campanha independentista não passou muito tempo a falar sobre o que os catalães podem perder com a independência, talvez na crença de que não há inconvenientes nem custos.

Outra consequência  interessante pode ser no futebol, o FCB há décadas que é patrono, instigador, porta estandarte, eco, veículo e símbolo do nacionalismo catalão. Se se cumprir a independencia o FCB deve passar a jogar um campeonato com adversários do calibre do Lleida ou Espanyol , jogadores catalães naturalmente deixam de poder ir à selecção espanhola e deixam de ser cabeças de série em seja que competição europeia for. Eu achava bonito.

 

 

Negócios Autárquicos

-Vais votar nestas  eleições? , perguntava-me um amigo francês que mora cá

– Voto sempre.

-E votas em quem ?

– Eu  voto sempre contra os comunistas e socialistas, mas nas autárquicas abro uma excepção, voto mais pelas pessoas do que pelos partidos.

-E  nas legislativas,  votas na direita?

-O meu voto aí  não é por uns , é contra os outros. Eu sei que vai dar ao mesmo mas para mim a diferença é importante.

O meu amigo franziu o sobrolho,  tentei explicar melhor com os exemplo de todos os que votaram no Macron para impedir que a Le Pen avançasse, é o mesmo princípio. De qualquer maneira acho a divisão direita/esquerda muito ultrapassada, gostava de ver o debate e a escolha fazer-se entre colectivismo e individualismo ou estatismo e privatismo. Gostava de ver um partido liberal   mas em Portugal não existe política além da luta entre os que controlam o Estado e os que querem controlar o Estado, o papel dele não se discute  e é para continuar assim. Quem me dera estar errado mas isto é uma coisa cultural, pelo menos desde o Marquês de Pombal que o Estado é não o recolhido autor das regras ,o fiscalizador da justiça e o operador da partilha , derradeiro porto de abrigo de infelicidade própria ou pobreza alheia, mas o salvador da sociedade, o motor da economia, o distribuidor mor da riqueza, em suma , o dedo demonstrador do sentido clarificador da História . Um partido que venha reclamar e lutar pela redução do papel e influência do Estado em Portugal vai  lutar contra quase 300 anos de história e tradição, é um combate muito assimétrico.

Nestas eleições autárquicas devo votar no incumbente, tal como nas últimas também o fiz, e o incumbente perdeu. O actual presidente da Câmara é um tipo educado e calmo , comunica bem, representa bem o concelho e as suas políticas são as mesmas dos outros e da região, por arrasto: gerir empréstimos e fundos europeus,  fazer projectos de candidatura a mais fundos, empregar pessoas quer façam falta quer não e em geral manter isto a andar, devagarinho mas a andar. Num município como este não se pode vir com ideias revolucionárias nem rupturas, aliás, duvido que algum município do país seja capaz de alguma ruptura.

O presidente anterior, de outro partido, disse famosamente que “dão-me dinheiro para museus, faço museus”, este não é muito diferente e o critério de investimento rege-se pelo dinheiro que “dão”. Parece que finalmente parámos nos 8 museus num concelho de 1800 pessoas, agora há dinheiro para incubadoras de empresas, faz-se uma, quer faça falta quer não. Os outros não fariam nada de diferente, o PSD é tão  estatista como  o PS pelo que a comparação é entre seis de um e meia dúzia de outro. O PS leva a vantagem de ser o partido do Governo Regional, logo, este tende a favorecer e ouvir mais os autarcas da sua cor .

Por isso os critérios do eleitor nas autárquicas devem ser, a meu ver, os da honestidade e competência. A competência é fácil de avaliar, o cidadão olha à sua volta, compara com o que via há 4 anos, depois vai ver as contas (eu sei que é raro o cidadão que quer ver as contas) e os projectos e decide com esses elementos se há competência ou não. A honestidade é diferente, não está propriamente à vista e é muito mais difícil de avaliar.

Por exemplo, sabe-se agora que o Fernando  Medina, actual presidente e  candidato do PS à Câmara de Lisboa, não só é um às da imobiliária como tem uma sorte dos diabos. Vendeu um apartamento que tinha por mais 36% do que o que lhe tinha custado,  até aí tudo normal, o mercado das casas de luxo em Lisboa está em alta. Depois comprou outro apartamento, maior e melhor, só que desta vez o mercado funcionou ao contrário e a proprietária vendeu-o por 23% menos do que o que lhe tinha custado.

Isso só por si já é suficiente para levantar dúvidas, como é que num mercado em alta (a justificação, clara, para as mais valias que fez com a venda da outra casa) uma pessoa decide vender um apartamento que comprou por 800 e tal mil euros por 600 e tal mil. Ou bem que o mercado está em alta ou bem que o mercado está em baixa, os dois ao mesmo tempo não pode ser. Podemo-nos interrogar  sobre um presidente de câmara que ganha cerca de €3500/mês e compra um apartamento de €650000 mas isso é o menos, sobretudo vendo que a mulher do sr Medina é a sra Stephanie Silva , filha de Jaime Silva, antigo ministro de José Sócrates, adjunta de Medina quando este era secretário de Estado no mesmo Governo e advogada associada sénior na sociedade PLMJ. Uma pessoa não passa uma vida familiar na política a viver de salários mensais, isso está estabelecido há muitos anos e é claro para toda a gente.

Estas informações tirei-as deste artigo no Público, cheio de factos, com o título “Medina fez dois bons negócios com casas em Lisboa”.  Bons negócios, sem dúvida, mas isto leva-me a pensar como seria o título se por exemplo se soubesse que o Passos Coelho tinha feito bons negócios como este. Ou talvez seja um título sarcástico, porque para  além do absurdo de alguém comprar uma casa em Lisboa por 850 mil para a vender por 650 mil com o mercado em alta dez anos depois  há o pormenor de a proprietária vendedora se chamar  Isabel Teixeira Duarte. Por feliz e inusitada coincidência, a Teixeira Duarte, SA  beneficia de  contratos por ajuste directo com a CML.

O que me fez quase cair da cadeira a rir foi que o sr Medina, sem se rir, diz que não sabia que a proprietária tinha ligação  à construtora Teixeira Duarte. Sim,  porque é normal uma pessoa comprar uma casa sem saber o nome do vendedor e além disso Teixeira Duarte é um apelido muito comum e uma marca  insignificante  no meio empresarial. Foi daquelas coincidências felizes.

O sr Medina vai ganhar as eleições e estas negociatas e favores entre políticos e empresários  e a sua impunidade só podem surpreender os ingénuos. Não sei se ele foi bom ou mau presidente, não quero saber de Lisboa para nada, o que não gosto é que me façam de parvo. Nem o senhor Medina , que  acha normal ganhar 3500€ por mês e ir viver para uma casa que vale 850mil, diga o que disser o papel , e que ainda por cima tem a lata descomunal de dizer que não sabia que a senhora Teixeira Duarte tinha ligações à Teixeira Duarte,  nem os lacaios do poder que se apressam a defendê-lo, mostrando assim que acham bem que um político seja favorecido num negócio em centenas de milhar por uma empresa que subsequentemente recebe tratamento preferencial.

Podem embrulhar-me isto tudo em legalês e explicar todos os pormenores que fazem com que esta bosta fumegante seja perfeitamente legal, e também é óbvio que a história aparece por oportunismo eleitoral, mas isso  não muda a verdade: a um político ou governante que recebe favores particulares em troca de favores públicos chama-se CORRUPTO.

 

Os Escuteiros, Trump e Marcelo

Fui escuteiro vários anos, até à idade em que tem piada e vale a pena , lá pelos 16. Depois disso, é bom para quem quer  orientar e organizar os pequenos. O Escutismo ensina trabalho de equipa, respeito pela natureza, desenrascanço, criatividade, serviço cívico, descoberta dos espaços abertos e leva os miúdos para a rua e o mato, coisa que acho muito importante , hoje mais do que nunca, quando cada vez mais a população é urbana e a juventude é digital.

Recomendo a toda a gente com filhos pequenos, até a religião que é forçosamente parte das actividades do CNE não é nada de grave, há o respeito por tradições e rituais mais não há nenhuma lavagem cerebral nem imposições drásticas e de qualquer maneira não é levado mais a sério do que a maior parte das pessoas leva a religião, são umas fórmulas que se observam e umas coisas que se dizem, uma missa aos Domingos, procissões nos dias santos e essas coisas.  Para os religiosos sérios há outras organizações de jovens mais, digamos, militantes na parte da fé que se asseguram de que os miúdos não começam a pensar ou questionar enquanto acampam.

Todos os Verões há grandes acampamentos de escuteiros pelo mundo fora que juntam dezenas de milhar de jovens e os padres e políticos, na devida medida e proporção, incrustam-se como fazem sempre que podem e que há multidões. Nos Estados Unidos o Presidente é o chefe Honorário dos Escuteiros. O actual Presidente americano é um burgesso mentiroso, ignorante , indecente e sem um pingo de classe, de um egocentrismo sem paralelo na História moderna. Quem duvida disto é porque não se deu ao trabalho, ou não é capaz , de ver e ouvir os seus discursos e intervenções , desde a campanha até por exemplo ontem à noite.

Não é por ele ser de direita , xenófobo ou elitista que me mete nojo, a direita tem tanta legitimidade para governar como a esquerda, é por ele ser uma besta acabada que domina mal a própria língua , é capaz de se contradizer na mesma frase e não ter maneiras. Quando uma pessoa diz “sou muito rico” e “sou  muito inteligente” as probabilidades são que não seja  uma coisa nem outra. Quando um político tem que vir dizer que “não há caos na administração” a probabilidade é o caos estar instalado.

É ver e ouvir, está tudo registado mas a maior parte das pessoas não se quer dar a esse trabalho ou infelizmente tem que depender de traduções. Tenho um amigo americano que votou nele esperando somente política de emigração forte e um Supremo Tribunal de Justiça conservador, o resto não lhe  importa. Tenho um familiar que o apoia pela simples razão de que ele quer e está a tornar o aborto mais difícil, o resto não importa. Não me lembro de detestar tanto uma figura pública e isto não abate porque costumo ver o Stephen Colbert  e outros como o John Oliver e o Seth Meyers que vão expondo  e comentando as misérias morais da administração Trump e do próprio com um sentido de humor cáustico que pelo menos alivia. Podemos rir-nos dele, já não é mau.

Então o Trump, que nunca perde a oportunidade de falar para uma audiência cativa , foi discursar perante 40 mil escuteiros, e foi tão confrangedor que até o chefe dos escuteiros pediu desculpa. O Obama também se dirigiu aos escuteiros em jamborees, mas em alturas em que tinha que trabalhar ( este não se preocupa com isso) fazia-o em vídeo e deixava uma mensagem de motivação , apreciação e encorajamento à juventude e aos seus sonhos. Este javardo foi para lá fazer campanha, falar de política partidária , de  “matar o Obamacare”, remoer a sua “vitória eleitoral”, gabar-se e , entre outras coisas que deviam chocar qualquer pai de uma criança a ouvir um político, deu um exemplo de sucesso segundo ele o entende , o de um industrial americano do século passado, que ficou rico. O Trump escreve com os pés, tem o vocabulário de um miúdo de 12 anos, massacra a semântica a cada parágrafo e isso nota-se ainda mais quando fala de improviso, por isso isto não é a tradução literal, é mais compreensível . O discurso todo está aqui . Então esse  industrial trabalhou muito na construção e  ao fim de 20 anos “foi-lhe oferecido muito dinheiro pela sua companhia , e vendeu-a por uma quantia tremenda. Comprou um iate muito grande e teve uma vida muito interessante.Não vou mais longe do que isto, porque vocês são escuteiros e não vos vou dizer o que ele fez …. Digo? Devo dizer-vos? (aplauso) .Vocês são escuteiros mas sabem da vida.Vocês conhecem a vida.”

É sabido que a medida do sucesso na América é em grande parte o dinheiro, mas ainda assim pessoas decentes trabalham na ideia de que há , ainda vai havendo, valores superiores e especialmente quando se fala à juventude deve-se fazer um esforço por inspirar para as coisas como deviam ser e não como são, para termos a tal esperança num mundo melhor. Este animal não tem esses pruridos nem deveres de consciência, nem sequer tem consciência e por isso achou apropriado referir como exemplo de sucesso na vida um milionário que vendeu a empresa , comprou um iate e passou a fazer coisas que se hesitam em comentar frente a crianças. É este o Presidente americano, e continua a haver quem o apoie por cá.

Por cá também há acampamento nacional, e o nosso Presidente lá foi. Não encontrei nenhum discurso mas não é preciso: conhecendo a peça sei que vai dizer precisamente o que os ouvintes esperam ouvir numa ocasião destas, que deve ser politicamente neutra. Vai homenagear, reconhecer o trabalho e a história do CNE, não me espantava que tivesse sido escuteiro e vai motivar os jovens a trabalhar por um Portugal melhor. Mais uma ou duas banalidades e declarações óbvias e está ali feito o seu trabalho. 300 selfies, alguns abraços e fica toda a gente contente. Antes assim, mil vezes.

 

PS: a Venezuela está em estado de sítio , morrem pessoas às dezenas e oposição arrisca-se a ser visitada em casa a meio da noite pelas milícias do regime. Foi preciso chegar aqui para que figuras como Daniel Oliveira, Rui Tavares ou as manas Mortágua criticassem o Maduro e a herança do Chavez. Passaram 13 anos a defendê-los enquanto dezenas de pessoas (humildemente incluo-me no número, está tudo aí escrito) diziam que ia acabar mal, só podia acabar mal. Agora já acham que está mal. Além desses a quem as evidências impedem de continuar a defender o Socialismo Venezuelano temos outros como Louçã e o Sousa Santos, para os quais a crise se explica pela queda dos preços do petróleo. Não me consta que algum jornalista lhes tenha perguntado : Então o preço do petróleo só caiu para a Venezuela? E as dezenas de outros países produtores de petróleo em que ainda há papel higiénico e fraldas nos supermercados e a polícia não anda  a matar gente na rua? Como é que isso se explica?

Actualidades

Faço um esforço  para não dar aqui muitas opiniões sobre política, por exemplo para não alienar algum comunista que goste de vela e barcos ou alguma pessoa religiosa que aprecie historietas  das ilhas. Parece que é bom ter um “público alvo” e o sucesso faz-se de identificar esse alvo e trabalhar para ele. O “sucesso” para mim não se faz disso e não gosto muito de calibrar o discurso para tentar agradar  a este ou aquele, por isso de vez em quando tem que ser.

-Depois de ter, como um tolo, acreditado nas primeiras informações do governo , ainda não sei o que se passou em Tancos e nem sei se alguém sabe. Já li tantas declarações contraditórias de altas patentes e políticos que chego aqui e acho que ou me escapou alguma coisa, ou então é mesmo assim, não é para esclarecer nem ninguém é responsável.Como já passaram mais de quinze dias, não interessa nada. Demitem-se, voltam a nomear-se os mesmos, foi assalto, foi erro de inventário, era material obsoleto, não era obsoleto. O ministro que tutela esta salganhada lá continua,  a fazer o que pelos vistos é um bom trabalho.

-Depois de ter, como um tolo, acreditado nas primeiras informações do governo,ainda não sei quantas pessoas morreram no incêndio de Pedrógão Grande e nem sei se alguém sabe. Agora o número de mortos está em segredo de justiça, o que me parece um bocado estranho, não percebo qual a razão de o número de mortos de uma catástrofe não ser público, mas o que é certo é que o segredo de justiça em Portugal é um bocado inútil, volta e  meia o Correio da Manhã publica coisas que deviam ser segredo de justiça e o próprio Presidente da Assembleia da República, o segundo magistrado da Nação, já disse com a classe que o caracteriza que se está a cagar para o segredo de justiça.Eu também, e nisso partilho da opinião do excelentíssimo, não me estou tão a cagar é para políticos que abafam problemas, gosto de saber quem são. Uma senhora lembrou-se de fazer uma investigação e chegou a contas diferentes sobre os mortos do incêndio, a acusação principal que lhe fazem é como esta :

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Dizer que alguém não deve/pode ir fazer comentários à televisão sem ter as contas todas pagas é imbecil, é um critério que levaria a um esvaziamento das televisões e jornais (nem seria mau) e levanta a pergunta : onde é que ele entrega a declaração do IRS que lhe permite fazer estes comentários públicos? E por exemplo o Presidente do SLB, que em dívidas conhecidas vai em mais de 300 milhões?Pode falar e dar opiniões ou devia era estar calado? Ridículo. Anda a confundir-se criticar a falta de informação e responsabilidade do governo com “aproveitar mortos para fazer política”, isto devem ser tudo pessoas que ou não querem saber quantos morreram e porquê, estão no seu direito, ou acreditam em tudo o que diz o governo, também estão no seu direito. Entretanto o país continua  arder e se se critica o governo por isso é aproveitamento político. Dantes era dever patriótico, agora em Portugal os incêndios são uma inevitabilidade, e calem-se mas é , seus abutres a querer fazer política com mortos.

-Um candidato a presidente de câmara veio dizer que muitos  ciganos vivem do estado e pensam que estão acima da lei. Disse uma coisa que , vincando o MUITOS, é uma verdade evidente que ninguém contrariou porque ninguém pode contrariar. É destratado pela comunicação social e pelos bem pensantes, que enchem páginas a escoriá-lo mas não fazem o que deviam, se a afirmação os incomoda assim tanto: mostrar que é falso ou, na impossibilidade de fazer isso, mostrar o que é que falhou em 40 anos de “políticas” e “investimentos”, porque das duas uma : ou não falhou nada e assim está bem ou falhou alguma coisa e tem que haver responsáveis. O Bloco de Esquerda,sempre na vanguarda da defesa dos direitos das minorias e das mulheres, até conseguiu que se obriguem empresas a ter quotas de género mas está caladinho que nem um rato sobre o tratamento das meninas e mulheres ciganas no seio da sua comunidade. Não é segredo, basta perguntar-lhes, é com orgulho que as tratam como tratam, mas isso já não incomoda o Bloco. Para que se veja quão claro é o tema “ciganos”, até uma pessoa que nos últimos anos tem alinhado bem à esquerda, Pacheco Pereira, bate aqui no ponto certo,sem dúvidas sobre o que está em causa. Para o Bloco, problema é dizer-se mal dos ciganos, não é haver mal para dizer. Ou isso ou casamentos combinados de adolescentes e meninas que não podem ir à escola são aceitáveis  ou não, consoante a etnia. Também gostava de ver o PAN opinar sobre o tratamento dos animais nas comunidades ciganas, também aí deve haver excepções culturais para comunidades minoritárias e vítimas de discriminação e racismo, que por o serem podem ter cães , cavalos e burros à fome, frio  e  porrada bruta que já não é problema, é multiculturalismo.

Temos a seguir a Caixa Geral de Depósitos, que depois de encerrar balcões ,despedir uns 2500 funcionários e sugar uns 250 milhões do contribuinte em “recapitalização” ,  prepara-se  para aumentar o custo de ter lá uma conta . Isto para mim sempre foi das coisas mais odiosas dos bancos : se vocês tiverem seis dígitos no vosso saldo não pagam nada, se tiverem menos de três, pagam. Lógica do demónio, daquelas coisas que faz as pessoas enfurecerem-se com os bancos. Dados estes quatro singelos exemplos da gestão da CGD sob um governo esquerdíssimo, eu pergunto, mais uma vez: para que serve ao cidadão haver um banco público? A resposta é fácil e consensual, mas nunca  a vão ouvir de um político: para financiar projectos esquemas de interesse político e dar emprego a amigalhaços.

Sobre empregos especiais , uma pérola de um homem que é especialista na matéria e tem toda uma vida dedicada a esse combate, Carlos César:

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A pergunta era “quantas pessoas da sua família não trabalham para o Estado?”, mas como para ele o assunto está encerrado, pronto, não se fala mais nisso.Nem sei quem é que anda aí com a ideia peregrina de que os políticos devem responder sobre os seus actos e sobre a gestão da coisa pública e que não são eles que decidem quando um assunto está encerrado.

Antes de finalizar, lembrar que o PSD fez ontem um ultimato ao governo sobre não sei quê, só por si o suficiente para se aferir da qualidade da oposição, está em conformidade com a do governo.

Por fim , um quadro de uma das mais importantes reformas do PS para salvar o país, para ilustrar o apelo que vou fazer aos meus sobrinhos quando eles tiverem idade (porque é provável estar tudo na mesma em Portugal daqui a 10 anos) : arranjem um emprego no Estado a menos que queiram trabalhar mais, ganhar menos e serem responsáveis  pelo que fazem. Idealmente juntem-se a uma juventude partidária ou à juventude partidária do Bloco que não é como as outras porque é do Bloco e faz acampamentos onde se estuda  O Capital e se dança contra o racismo. Alguns deles vão chegar a deputados.   Portugal é isto, um gajo brinca mas às vezes custa.

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Responsabilidade Zero

-Ó sr Jorge , aquilo é que foram  incêndios!Foi perto da sua terra?

-Mais ou menos, não é muito longe.

-O Primeiro Ministro já disse que tinha que saber o que é que se passou, parecia bem zangado!

Mudei de assunto  porque me esforço sempre por distinguir  actividades que valem a pena de actividades que são desperdício de energia, e na ideia deste meu conhecido o Costa e o seu governo fizeram o melhor possível e têm que exigir respostas sobre o que correu mal ao invés de as fornecer. Têm que responsabilizar alguém em vez de aceitarem que se o nosso ministério falha abjectamente, a decência exige que nos vamos embora. Ninguém diz que a ministra da administração interna tem culpa objectiva na catástrofe, mas tem toda a culpa por ter sido o seu ministério a falhar. Se não me engano já vamos em 3 tentativas de explicação  diferentes, todas fornecidas por organizações estatais, e em nenhuma delas se encontraram  motivos considerados suficientes para apear pessoas que não fizeram o seu trabalho.

Já o Presidente, desde que veio cá à ilha, tirou selfies com 64% da população, deu o seu mergulho  matinal e foi-se embora sem influir  ou mudar rigorosamente nada na nossa vida aqui, não se consegue enganar mesmo que queira, é um espectáculo. Quando ouço falar dele como “uma pessoa muito natural” que “fala a nossa língua” lembro-me logo dos milhões de otários que defendem e apoiam o Trump pelas mesmíssimas razões. Não só defendem como acreditam que há alguma similaridade entre eles, uma relação, uma proximidade. É cómico, ou trágico , dependendo do ponto de vista, que pessoas sejam sempre enganadas por políticos que as convencem de que são parecidos, de que partilham das mesmas preocupações e aspirações. Ele é como nós. Se fosse como vocês não era Presidente.

Nos dias do incêndio Marcelo esteve à vontade na sua correria e prolífico em declarações , o que fica para a história é que chegou lá e desculpou toda a gente e dois dias depois  lembrou-se de  que  ficava bem pedir uma investigação e avaliação das leis . Entretanto aconteceu outra coisa interessante, o roubo de material de guerra de uma base militar, roubo até ver de características um bocado cómicas, como já disse alguém, parece uma rábula do Raul Solnado, os maus atacam quando os bons estão a ver o futebol. O Presidente, que certamente não se esqueceu de que é o Comandante das Forças Armadas, até esta manhã não tinha aberto a boca sobre o caso.

Ou ninguém  consegue calar o homem, seja  sobre um fait  divers  como uma avioneta que cai seja sobre um cataclismo nacional , ou cala-se durante 3 dias  perante uma ameaça  clara e presente à segurança nacional e europeia resultante de uma falha grave na instituição que ele comanda.  O critério que determina se diz coisas ou não, não é claro, já acho que não existe mesmo. Ao fim de 3 dias em que achou que não era o momento de comentar o roubo, veio hoje finalmente fazer declarações. O que diz hoje o Presidente? Defende uma investigação que apure tudo. Ah bom.

Repórter num universo paralelo:

-Sr Presidente, dado que  a um roubo denunciado se segue sempre uma investigação pelas autoridades, o que é que há  de novo nesta sua declaração?

-Como?

-Houve um roubo que foi denunciado à PJ militar e às agências de segurança. Se o senhor não defendesse hoje a investigação , investigava-se na mesma…ou não?

-Entendo que sim, eu não estou a ordenar nada, estou a dizer que entendo  que o caso tem que ser investigado até às últimas consequências.

-Mas isso entendemos todos. Acredita que é necessária a chancela do Presidente para que avance a investigação ou que a PJ e Serviços de informação e segurança são autónomos?

-Não, é óbvio que são  organismos que não necessitam de autorização nem pedido do Presidente para investigar.

-Então esta sua declaração hoje não quer dizer nada, é isso?

-Sim , no fundo é isso. Dê cá um abraço, você parece-me um bocado amarelado e débil, tem ido ao médico? Olhe lá a sua saúde!

Há pessoas com esperanças de que estes dois últimos escândalos, chamemos-lhes assim, sirvam para pôr a nu não só que o Estado é incapaz como que não tem vergonha de o ser e muitas vezes nem sabe que o é. Desenganemo-nos , politicamente nada vai mudar até aparecer alguém credível com um projecto para apresentar aos portugueses, coisa que suspeito não está para breve.É  uma ideia muito portuguesa, um  sebastianismo que nos deixa à espera de um homem providencial para levar isto a bom porto. Não acredito na Providência  mas mantenho uma réstia de esperança numa renovação que só pode chegar quando desaparecerem a maior parte dos que lá andam há 20 e mais anos.Como este, que também não tem vergonha nem acha que há razão para se demitir, está a fazer um óptimo trabalho, como de resto fez desde que entrou pela primeira vez para o governo, já lá vão muitos anos.Confiamos o governo do país a pessoas que ou são estúpidas ou não querem saber do que disseram há 2 meses desde que tenham alguma coisa para dizer hoje, alguma coisa que vá de encontro ao que as pessoas querem ouvir na altura.

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Em tempos que já lá vão morria uma pessoa nas urgências de um hospital , uma pessoa por definição doente e em risco, e ululava-se “assassinos” e “austeridade mata” a cada visita de governante. Interrompiam-se comunicações para se cantar a Grândola Vila Morena e mesmo que fossem quatro pessoas, as televisões e rádios “cobriam” os “protestos populares”. Mesmo que a vida  não tivesse piorado assim tanto na prática, a comunicação social garantia-nos que sim, que era a devastação neo liberal que nos estava a matar. Foram momentos heróicos de resistência, felizmente agora o PS, com a ajuda discreta do PCP e do Bloco, resolveu os problemas de Portugal, problemas que tinham sido todos causados pelo PSD e CDS.  Os eleitores portugueses hesitaram em dar o governo ao partido que nos tinha conduzido à falência, mas essa hesitação foi facilmente corrigida por pessoas que têm a vocação de interpretar as aspirações do povo à luz da ciência e corrigir desvios, os comunistas e demais marxistas que logo nos puseram no bom caminho. Estou quase convencido de que os poucos problemas que não se resolveram são impossíveis de resolver. Faz-se todo o possível, as crianças brincam outra vez , os que imigram já só o fazem por revanchismo e consta que 3 pessoas regressaram mesmo a Portugal agora que o governo tornou o ar mais respirável.

Pode não ser claro que se o meu respeito e esperança no PS é abaixo de zero , pelo PSD e CDS é zero mesmo e aos outros considero-os  anomalias anacrónicas que podiam desaparecer com vantagem para o país. Estou na mesma situação de, acredito, centenas de milhar de portugueses que não se revêm no governo nem na oposição, nem vislumbram no horizonte um tipo (ou tipa, desculpem o termo)  como o  Macron,  que não seja criado no caldinho das Juventudes; que não tenha o rabo preso com negociatas suas e dos seus compinchas; que não chegue lá pelo nome de família; que apresente um discurso de ruptura com a velha dicotomia esquerda/direita; que queira trazer para o governo gente da sociedade em geral e não os advogados do costume; que tenha um plano económico ligeiramente menos vago que “apostar no crescimento”, enfim , alguém capaz de renovar. Infelizmente é mais provável calhar-nos populismo que alguém assim, mas uma pessoa pode sonhar.

 

PS: O parlamento aprovou uma lei que proíbe que um senhorio se recuse a alugar a sua casa a pessoas com animais. Isto ofende-me um bocado. Tenho agora 17 animais, dentro de duas semanas serão 22, a maior parte  são gado mas o cão e o gato dormem em casa, os bichos são das coisas que mais me importam na vida . Apesar disso não me agrada viver num sítio em que o Estado é que diz os termos em que podemos ou não arrendar o que é nosso.É um desrespeito total pelos direitos das pessoas que não gostam nem querem ter animais nas suas casas, porque agora se decidiu, com partido e tudo, que todos temos que gostar de animais.Socialismo também é isto.