Principais Notícias

É esse o título que me aparece quando abro o Google Notícias, um agregador que é suposto trabalhar com um algoritmo tão avançado que consegue detectar as notícias que me interessam mais.  Mostrando que os algoritmos só funcionam se os alimentarmos com informação, senão dão resultados quase aleatórios, a primeira notícia que me aparece é “José Castelo Branco manda recado a juiz Neto de Moura”. O facto de este Castelo Branco ser uma pessoa famosa a quem se dá atenção é muito revelador do que somos e onde estamos como país e sociedade. Também reveladora da nossa condição é esta questão do Juiz Neto de Moura, que conseguiu a rara proeza de ter o país em peso, ou pelo menos a parte audível e legível do país, contra ele. A única coisa que tenho a acrescentar ao que já toda a gente disse é que acho uma vergonha (a juntar aos milhares de vergonhas nacionais) que haja  juízes  isentos de custos judiciais. “De acordo com o Artigo 4º (Isenções) do Regulamento da Custas Processuais, “estão isentos de custas”, entre outros, “os magistrados e os vogaisdo Conselho Superior da Magistratura, do Conselho Superior do Ministério Público ou do Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais que não sejam magistrados, em quaisquer ações em que sejam parte por via do exercício das suas funções“.Como já ganham pouco, têm poucas regalias e pouco poder, ainda estão isentos destes custos. Tá bem.

A seguir, “Portugal lamentou a Angola os incidentes no bairro da Jamaica” . Esta é um bocado surreal, eu pensava que o bairro da Jamaica era no Seixal e que as pessoas que lá vivem são portuguesas mas parece que não, parece que afinal aquilo é uma espécie de colónia angolana que tem que estar debaixo da atenção do governo de Angola .

Creio que  o que há a lamentar é que aquelas pessoas vivam na pobreza e nas condições ( num município governado pelo PCP há 40 anos) que invariavelmente geram crime e delinquência , e não vejo para que  é  chamada Angola ao caso nem de onde é que vem a necessidade de sequer discutir com um país estrangeiro a actuação da polícia , mas os nossos governantes lá sabem a quem é que devem contas.

Em terceiro, “Protecção Civil alerta para agravamento das condições…” tem sido a história deste inverno aqui, uma saturação de mau tempo, ainda hoje vai aqui  um temporal desfeito e vai ser mais uma semana de chuva e vento forte, estou cansado, não, saturado disto. Mas já ouvi os primeiros cagarros e já há uns rebentos nas árvores pelo que não é só o calendário que diz que o Inverno está a acabar.

A seguir, “Guaidó conseguiu entrar na Venezuela” , muito para desconsolo dos comunistas por todo o lado que continuam a defender o Maduro e a dizer que o Guaidó não tem legitimidade. O que eu sei é que o Guaidó quer eleições e o Maduro não, isso já diz alguma coisa, e também sei (ou creio saber)  porque aprendi há pouco tempo a custo de andar a vasculhar em sites como o  do Departamento dop Tesouro Americano que é quem impõe sanções, que a história das mesmas é mal contada na imprensa.  Ora, a narrativa dos comunistas conta que a economia venezuelana foi pelo cano por causa das sanções. Mas estas sanções são de dois tipos: ou a proibir cidadãos e companhias americanas de investir na Venezuela , nomeadamente na PDVSA, ou, a maior parte e a que enfurece mais o regime, a congelar contas offshore e restringir os vistos de viagem de altos funcionários do regime. A primeira priva a Venezuela do malvado investimento  capitalista americano que era sempre uma coisa má mas só que não, a segunda estraga a vidinha aos oligarcas que já não podem ir às compras a Miami nem esconder os milhões que roubam e traficam. Uma verdadeira opressão. O Daniel Oliveira fazia no outro dia uma pergunta retórica no twitter, sobre qual o motivação do Trump para interferir na Venezuela , eu retoqui a perguntar qual será a do Putin e do Rohani mas estranhamente não tive resposta. Os EUA metem-se nos assuntos da Venezuela por imperialismo e interesse , os Russos e os Iranianos é por solidariedade e razões humanitárias.

Seguinte , “Trevor Noah pede desculpa depois de brincar com o conflito entre a Índia e o Paquistão”. Primeiro, lembrar que há conflito aberto entre a Índia e o Paquistão, duas potências nucleares. Os paquistaneses abateram pelo menos um caça indiano, houve barragens de artilharia e movimentações de brigadas blindadas na fronteira e baixas de parte a parte. Dizem os especialistas que as coisas estão a acalmar depois do Paquistão ter libertado o piloto do avião abatido. O Paquistão, como mais fraco, pobre e pequeno tem mais interesse em acalmar as coisas, mas este conflito não é novo , Caxemira é uma chaga aberta e com os regimes de ambos os lados a puxar para o nacionalismo a coisa pode correr mal muito rapidamente.

E quem é o Trevor Noah? Um comediante sul africano emigrado nos EUA que teve, na minha opinião, o azar de ter sido escolhido para substituir um dos mais brilhantes humoristas e satiristas que os EUA já tiveram, o Jon Stewart, que teve juízo e reformou-se cedo. Foi assim como se o Herman José tivesse decidido reformar-se a meio do Herman Enciclopédia e tivessem lá posto o Nilton. Não acho grande piada ao Noah, de tal maneira que nunca mais vi o Daily Show, nem fui ver que piada é que ele disse sobre a Índia e o Paquistão..mas ainda bem que fez piadas, e é sinal dos nossos tempos que foi obrigado a pedir desculpa.

A seguir, o sapo24 pergunta “Bernie Sanders, pode um socialista ser presidente dos Estados Unidos?” Não, é a resposta simples. Se for, publico aqui um vídeo a comer uma foto 5×8 do Bernie Sanders a ser confirmado presidente, com a Internacional a tocar em fundo e com o punho esquerdo cerrado.

Segue-se a secção “Portugal” , começando com “SEF contrata 132 funcionários em planos de contingência para o Brexit”. Na altura que escrevo isto faltam 602 horas para o Brexit, tenho um contador. Acho bem que por cá haja planos de contingência e que se consiga lidar com os transtornos que vão acontecer aos britânicos residentes e visitantes. Aqui a 500 metros mais abaixo há uma casinha lindamente recuperada por um casal de reformados ingleses que cá  passa todos os verões. Têm a casinha, conta bancária, um barco de pesca e uma motoreta, todas as suas posses, hábitos e planos estão em risco. como eles há dezenas de milhar e creio que quanto mais não seja por aí , pelo impacto negativo na vida de todos esses britânicos que vivem cá ou visitam, também vamos sofrer.

O Notícias ao Minuto fala sobre “os riscos de retirar o leite à alimentação sem intolerância à lactose”. Arrisco dizer que não existem riscos nenhuns nesse caso. O risco que existe e aumenta é para a indústria dos lacticínios, que entre intolerâncias reais e imaginadas e o activismo de gerações que entre outras coisas estão a perceber que para se ordenhar uma vaca tem que se lhe tirar o vitelo, está a ver os lucros futuros ameaçados. Como já há muitas décadas que os lacticínios são uma indústria como as outras , esta puxa os seus cordéis e faz lobbying e propaganda pelo leite.

Notícia verdadeiramente importante, o Vaticano anuncia que daqui a um ano vão ser abertos os arquivos do Papa Pio XII, ou seja, relativos ao período da Segunda Guerra Mundial. Isto é importante porque o papel da igreja católica durante o Holocausto é discutido há décadas e sempre foi ângulo de ataque , finalmente vai poder  conhecer-se ao pormenor a política do Vaticano nesses dias. Já há 13 anos que uma equipa prepara os arquivos, que começaram a ser organizados a pedido do anterior Papa, e esta organização e preparação já está a ser apontada como “sanitização” mas seja como for cerca de 16 milhões de páginas vão obrigatoriamente permitir esclarecer o tema. É daqui a um ano que vamos saber se a igreja era ou não anti semita. Eu digo que era, mas que isso nunca chegaria ao ponto de tolerar os horrores dos nazis, vamos ver.

E por hoje chega da página das notícias principais que me são servidas pelo Google.

 

O Missionário da Selfie

Volta e meia há uma notícia quer me faz rir, e mais raramente ainda há uma que me faz rir com a consciência de que não me devia estar a rir,   mas não consigo evitá-lo. A última foi a do missionário americano que foi morto quando tentava entrar numa pequena ilha habitada por uma tribo que não só já mostrou que quer que a deixem em paz como ganhou essa protecção e esse estatuto do país que tem a tutela da ilha, a Índia.

A ilha Sentinela do Norte  é habitada pelo que alguns consideram a tribo mais isolada do mundo, talvez os últimos resistentes. Vivem lá, estima-se, entre 100 e 400 pessoas há séculos, desenrascaram-se até hoje sem contactos com o exterior e todas as pessoas de bom senso concordam que eles estão no seu direito e deviam ser deixado em paz, especialmente quando temos bem patente o destino das tribos indígenas que foram “civilizadas” e “catequizadas” ao longo dos séculos. Quando sabemos o que sabemos só podemos defender um cordão sanitário à volta de grupos e ecossistemas assim, a ver se pelo menos se preservam vestígios.

Vou reciclar parte de um texto que escrevi aqui há dois anos no Hawaii depois de ter passado um mês redondo a subir o Pacífico e a ler coisas sobre a Polinésia e o trabalho dos missionários. Com  ressalvas, pode aplicar-se ao Índico.

“(…) Por fim , qual quarto   cavaleiro do apocalipse, vieram  os missionários.

Um missionário nos século XIX era  uma pessoa  tão completamente convencida da justeza e infalibilidade das suas crenças que sentia  uma pulsão irreprimível para as partilhar com os outros. Se os outros por acaso eram  de cor diferente a partilha tomava  antes a forma de imposição, porque coitados dos pretos não sabiam  nada e  como  selvagens vão acabar no inferno se não forem cristianizados. A maldade e ignorância deste raciocínio só se tornou aparente décadas depois de o mal estar feito e ainda hoje não é clara para toda a gente.

A maior parte dos  missionários que assolaram o Pacífico no século XIX eram americanos ,  vinham sobretudo da Nova  Inglaterra e eram calvinistas , talvez a seita mais  triste , mesquinha e fanática de toda a cristandade. Estes missionários ouviam as histórias de idolatria , canibalismo e fornicação na ilhas , sempre as histórias favoritas dos marinheiros que, exagerando  loucamente os factos,   se gabavam assim da sua coragem e proezas sexuais. Ficavam possuídos por um fervor de justiça e compaixão que os impelia a percorrer dezenas de milhar de quilómetros para ir levar a “palavra da salvação” às ilhas.

Curiosamente , a poucas centenas de quilómetros das casas destes missionários que sofriam pessoalmente com a desgraça dos polinésios viviam centenas de milhar de africanos a laborar de sol a sol sob o chicote, propriedade privada de outros homens e sem a esperança de lhes ser concedida dignidade de pessoas. O estado desses já não incomodava os missionários nem os impelia numa viagem de justiça divina que seria muito mais curta , presumivelmente porque  aos escravos escorria-se água pela testa , davam-se nomes cristãos ,  fazia-se decorar meia dúzia de lengalengas e com isso ganhavam a Salvação da alma . O corpo pertencia a outro homem, mas  branco, logo superior, tal como garantia a  Bíblia, o único livro que os missionários liam e toleravam, que também especifica que a escravatura é sancionada divinamente, e sendo assim, estava tudo bem no Mississipi e no Alabama, o inferno era no Hawaii.

Lá partiam estes fanáticos alucinados para os mares do sul , convictos de que estavam a cumprir a palavra de Deus e em poucas décadas corromperam povos , destruíram culturas que raramente se esforçavam por tentar compreender e abriram caminho aos governadores e guarnições europeias. Era muito fácil converter centenas de indígenas , começando pela nobreza , e isto não se conseguia com argumentos teológicos ou persuasão , conseguia-se porque os indígenas  raciocinavam assim : “nós temos os nossos deuses e só temos estas coisas , os brancos têm barcos enormes , roupas, máquinas, livros e armas incríveis , pelo que o deus dele só pode ser mais poderoso que os nossos”. Sendo pessoas já profundamente religiosas e convencidas da intervenção permanente do sobrenatural na vida, concluíam que a superioridade material só podia vir de apoio divino superior.

Encorajados pelos relatos dos  missionários, os governos sentiam-se na obrigação , uns mais cinicamente do que outros, de ir salvar os polinésios deles próprios e levar governo a ilhas que até chegarem os pretensos governantes tinham vivido sem precisar mais do que o que já tinham. A influência dos missionários e dos seus descendentes dominou a vida nas ilhas , as suas leis , desenvolvimento e forma de propriedade e exploração das terras , e foi determinante na revolução de chacha que derrubou a monarquia indígena com o único objectivo de provocar a anexação aos Estados Unidos que ocorreu em 1900

Não posso deixar de equilibrar esta crítica aos missionários calvinistas , que a meu ver foram  a Praga do Pacífico , com uma referência a um missionário que também foi para o Hawaii mas não foi para criticar nem reformar nem salvar almas nem ensinar outros a viver. O Padre Damien de Vouster foi um missionário católico que chegou às ilhas e dedicou a totalidade da sua vida a ajudar os leprosos , sem lhes pedir nem perguntar nada nem obrigar a nada. Só ajudá-los , porque mais ninguém os queria ajudar , especialmente os calvinistas para os quais os mundo é assim : Tens lepra? És um pecador , é castigo de Deus , reza e pede perdão e talvez , talvez te safes.

Depois de convertido o rei , vestidas as moças , destruída a cultura  ancestral e toda a gente  ser obrigada a trabalhar, a prioridade passou a ser ganhar dinheiro , e o meio descoberto pelos brancos foi a cana de açúcar. A razão que obrigou a  levar escravos africanos para o Brasil também valia no Hawaii : os indígenas tendem a não aguentar trabalho duro e prolongado. Como já era tarde na História para importar escravos os proprietários das plantações , entre eles várias famílias de missionários(…)”

Como é bom de ver, não são as minhas pessoas preferidas. Tenho naturalmente que reconhecer o trabalho humanitário que fazem, ainda hoje em dia, mas tenho sempre presente que esse trabalho é condicional, mesmo quando não depende da aceitação da doutrina (de certeza que muitos missionários tratam, ajudam e ensinam sem exigir obediência e aceitação da fé)  tem sempre esse objectivo em mente.

A motivação primeira e impulso do missionário é espalhar as suas convicções e a sua fé, o resto é um meio para esse fim. Sempre acreditei que se uma pessoa quer fazer e espalhar o Bem, tenha a interpretação dele que tiver, deve começar à sua volta , porque se temos o nosso quintal num nojo não faz sentido querermos ir limpar o do vizinho e muito menos dizer-lhe que o dele está mal assim. Por isso nunca aceitei bem esta pulsão dos missionários para irem para destinos longínquos e exóticos quando há tanto para fazer, tanta miséria, descrença, abandono, degradação e falta de esperança mesmo aqui à nossa porta. É como os voluntários humanitários que vão para S.Tomé e Príncipe dar um semestre de aulas às criancinhas. Porque é que não vão à Cova da Moura ? Eu sei que há quem vá, sei que há lá pessoas dessas, mas esses sentem e pensam naquilo que fazem e raramente tiram selfies e publicitam o seu trabalho ao mundo.

E é pelas selfies que chego ao John Chau, que tirou e publicou bastantes antes de ser morto  pelos sentineleses. Este moço transbordava de fé e de vontade de espalhar a sua crença, e tinha mais alguma coisa: tinha uma existência priviligiada e  uma ideia tão forte das suas capacidades que achou que para ele não bastava evangelizar nas ruas cada vez mais pagãs e perdidas do Ocidente, era preciso um desafio maior. No nosso tempo o que é preciso fazer para chamar a atenção é fazer o que ainda ninguém tenha feito, e isso parece que também vale para espalhar a mensagem de Cristo. Este rapaz meteu-se num avião para a Índia (onde há dezenas de milhões de infiéis que não conhecem Cristo e vivem na miséria, podia ter ficado aí) e daí pagou uns milhares a uns pescadores para o levarem à costa da ilha, e  lá  desembarcou.

Se fizerem uma busca por este tema vão ver que em muitas das matérias sobre isto ele é referido como “missionário e aventureiro”, e esta história rocambolesca prova o que é que ele prezava mais.  Além da questão, obviamente discutível, da necessidade, utilidade e justiça do proselitismo religioso há outra indiscutível e mais grave: se ele fosse inteligente sabia que um povo que vive isolado  durante séculos não tem as imunidades biológicas que têm os grupos que há séculos contactam com outros, transmitem doenças e desenvolvem imunidades. Se lesse mais do que a Bíblia e se tivesse algum interesse na vida dos povos primitivos talvez tivesse lido por exemplo uma obra de divulgação científica chamada Armas, Germes e Aço que discute o que hoje é aceite por toda a gente e dado como provado: as mortandades e genocídios de povos indígenas entre os séculos XV e XIX deveram-se tanto ou mais às doenças levadas pelos ocidentais do que às armas. Como era não era muito inteligente  devia achar que sendo saudável não era portador de nenhum germe ou bactéria que podia dizimar aquela gente em meses.

Lá foi  satisfazer o seu ego e  sua vaidade, mas desta vez, por uma vez, a coisa correu a favor dos indígenas, que lhe limparam o sebo. Mas algum mal foi feito na mesma, e agora decorrem operações caras e complexas para tentar recuperar o cadáver, e ninguém sabe ou não se não deixou para lá alguma peçonha biológica capaz de contaminar aquela gente. Eu sei que desejar a morte de alguém é  reprovável, e também será reprovável   mostrar satisfação por uma morte, mas eu não me importo de ser reprovado e criticado, e este morreu bem.

Já aqui há uns meses estive para escrever um post sobre um casal de imbecis americanos que foi morto pelo Daesh  ou outro grupo similar no Tajikistão, ou Turkemenistão, já não me lembro. Era outro casal que nasceu e viveu no privilégio e na riqueza e abundância que levam as pessoas a encontrar problemas graves e abstractos para darem sentido à vida dado que não têm que se preocupar com as provações banais do dia a dia nem com dificuldades materiais concretas ou mesmo com injustiças e desgraças que há ao pé de nós. Pessoas que vivem em bolhas e que como nunca viram o Mal à frente duvidam da sua existência.  Era o caso deste par de idiotas, cuja filosofia de vida se centrava na crença que o Mal é uma construção social e não há ninguém verdadeiramente mau no Mundo. Não sei como é possível chegar à idade adulta e acreditar nisto, mas estes não só acreditavam nisso como se propuseram a demonstrá-lo, e como toda a gente com mais dinheiro do que senso comum , foram demonstrá-lo com uma aventura que fique  bem nas redes sociais : iam dar a volta ao mundo de bicicleta, equipados  com os seus sorrisos, bondade natural e ingenuidade a toda a prova. Claro que correu mal, impressiona-me como é que ninguém os agarrou e abanou pelos ombros antes de partirem e lhes deu um berro a dizer que essa fantasia alucinada que nada na realidade confirma ia acabar por matá-los…e matou mesmo.

No caso desses não disse “bem feito” como com o missionário porque estes não se iam meter com ninguém, não iam perturbar ninguém, não iam vender nenhuma banha da cobra a ninguém, só queriam tentar provar o improvável.

Não sei se isto foram avisos claros para muita juventude insatisfeita e à procura de rumo  e ocupação válida ou se neste preciso momento está algum fundamentalista cristão a preparar a mochila para rumar às ilhas Sentinelas ou a qualquer outro ponto onde se saiba que há tribos ou grupos isolados e primitivos que rendessem muitos likes nas selfies. Gostava era que as pessoas com legítimas e nobres preocupações com o Próximo começassem precisamente pelo que está próximo.

Estado de Choque

Uma das muitas vantagens de viver aqui é não ter que conviver com adeptos dos clubes rivais tão ferrenhos como eu, nunca os ouvir nem aturar. Bastava-me não ir ao mais importante café da vila em dias de jogo, e não me custava nada ouvir uma  boca cruzada de vez em quando, entrava-me por um ouvido e saía-me por outro, até porque o nível do debate que ouço é quase sempre inane.

Claro que conheço vários portistas e benfiquistas mas nunca me chatearam, por uma  simples razão : eu nunca os chateei  a eles. Toda a gente sabe  que eu sou  do Sporting porque todos os jogos lá estava em frente à TV num café, e quando esse fechou, no outro, mas sempre. Quando o SLB foi campeão ouvi um foguete  e passaram na estrada ao pé de casa uns 5 carros a apitar, depois passaram para baixo e foi só isso, este ano com o FCP foi só o foguete.

Não tenho TV, uma das principais razões de nunca desconfiar muito nem me fartar do Bruno de Carvalho, nunca o via nem o ouvia e muito menos aos abjectos programas de TV que moem e remoem e regurgitam e voltam a remoer questões e pormenores de merda com um nível de merda, em todos os canais.  Como é que sei que eram abjectos se não os via? Porque me bastavam excertos de 5 ou 10 segundos que ia apanhando na net e porque lia o suficiente sobre os comentadores e jornalistas em sentido lato que durante anos fizeram de fomentar a discórdia e espalhar intrigas e  ódio o seu ganha pão.

Via as capas dos jornais quase todos os dias e sempre soube que um dos mais graves problemas do desporto português era ter 3 jornais  desportivos diários . Como somos um país que não se interessa por desporto que não seja o futebol esses três jornais dedicam 95% ao futebol e têm que arranjar material para encher páginas todos os dias, dia após dia, num país do tamanho do nosso. Quem não sabe, inventa, e eles nunca se fizeram rogados. Não sei como é possível alguém acreditar que um jornalista português se especializa em desporto e não tem um clube preferido, mas é o que se fingiu acreditar e talvez ainda finja. As pessoas que seguem o tema compreendem-me perfeitamente, às outras não as vou estar a enojar com exemplos.

O meu avô era sócio 1900 e tal do SCP e o meu tio materno era Leão de Ouro, esse tio morreu o mês passado e teve com isso a graça de ser  poupado a isto que vivemos hoje, ia-lhe partir o coração. Ofereceu-me uma assinatura do jornal do clube, pensei, se é para saber como vão as equipas e o clube realmente mais vale confiar nos meus do que nesta seita que, comprovadamente, faz todo o dia fretes aos adversários e além do mais não tem nada de realmente importante a informar. As TVs fazem directos de um aeroporto se uma equipa vai jogar ao estrangeiro ou se chega um jogador, certamente que não sou o único a achar isso um absurdo mas sempre foi assim. Como é possível?

Quando o meu sobrinho mais velho tinha 5 anos cheguei um dia a casa da minha irmã e comecei-lhe a falar de futebol. “Sou do Benfica”, tentou ele. Peguei-lhe, fomos ao estádio (felizmente mora ali ao pé) , comprei-lhe um equipamento completo com nome nas costas e tudo ( felizmente nessa altura podia) e no fim de semana seguinte fomos ver um Sporting – FCP que vencemos com um golo do Marius Niculae. Remédio santo, o meu sobrinho  é sportinguista de gamebox, e  percebe muito mais de bola do que eu, por ter jogado…nas escolas do SCP, e se calhar até podia ter dado um bom trinco ou defesa central mas felizmente teve juízo.

No mês passado ao telefone os outros cinco sobrinhos pequenos que tenho fizeram questão de me lembrar que este ano no Natal era para irmos  ver o Sporting como eu tinha prometido, eles nunca se esquecem, moem a cabeça ao meu irmão com isso e eu já fazia contas à vida e ao calendário. Já lhes tinha dito que nós não ganhamos sempre, aliás, ganhamos muito raramente , mas que isso não é tudo. O importante é dar sempre o melhor, jogar com lealdade,  e lutar até ao fim. Para nós que não jogamos, o importante é a festa,os amigos , a conversa, a emoção e saber que de cada vez que começa um jogo nós temos sempre a possibilidade de o ganhar. Estas últimas já não me lembro de lhas ter dito mas acreditava nisso e certamente que lho diria se este Natal fôssemos a Alvalade. Creio bem que não vamos. Já não tenho condições para arcar com a responsabilidade de ter sido quem pegou a doença do futebol  àquelas crianças.

Ainda estou em estado de choque com as notícias dos últimos dias, primeiro com o vandalismo na academia em Alcochete. É-me muito difícil compreender como é que um adepto de um clube faz uma coisa daquelas, o que é que eles esperavam com aquilo, o que é que pensaram que ia acontecer? Que se iam safar? Que os jogadores iam jogar melhor? Que ninguém ia saber? Que 99,9% dos adeptos não os iam detestar para todo o sempre? Como é que se atinge um grau tão alto de estupidez e maldade colectiva a ponto de ir bater nos atletas do próprio clube? De tantos “agentes desportivos” em que podiam bem ter enfiado uns pares de bofetadas  (o Expresso hoje fez uma notícia com o título : NOS estaria a pensar rescindir o contrato com o Sporting” , apreciem  esse título com calma, publicado depois de a NOS ter desmentido qualquer intenção dessas) foram agredir os jogadores . Ah , estás a ver , também tu a incentivar a violência, não estou a incentivar nada, estou a dizer , depois dos factos, que entenderia melhor se tivessem sido outros os alvos.

Depois das cenas miseráveis em Alcochete, quando ainda andava aqui à procura da rolha, a pensar quem me dera ter um sportinguista com mais de dois neurónios aqui ao pé, de preferência um amigo, com quem falar e desabafar sobre isto, a pensar na vergonha imensa que uma acção dessas traz ao clube e em tudo o que levou a isso , eis que sou brindado com a noticia de que a PJ prendeu dirigentes do SCP, indícios de corrupção. Ainda não me aguentava bem de pé e ia caindo outra vez.

Há um ano que se revelam regularmente indícios de corrupção e tráfico de influências de outro clube , não via acontecer nada mas mantinha as esperanças . No dia a seguir a  serem revelados esses indícios no meu clube há logo prisões. Como é que vocês se sentiam? Não só verem  confirmadas as suspeitas de sempre de que em Portugal há dois ou três pesos e  outras tantas medidas como afinal, o vosso clube, que vocês acreditavam não uma virgem pura mas ao menos um clube com quanta dignidade quanto possível manter no futebol, também é corrupto. Um presidente cujo cavalo de batalha era a verdade desportiva também permitiu isso. Traição da mais vil.

Como não acredito que em Portugal se prendam pessoas, tarde ou cedo, por meras suspeitas, não faço como a esmagadora maioria dos adeptos adversários que, até hoje, quando os confrontávamos com os indícios claros de corrupção no seu clube, nos mandavam jogar à bola e diziam que não havia ali nada a não ser  inveja, ressabiamento  e cabalas.

O que fazem ou não aos outros já não me interessa, não espero que aconteça nada, quem pode é que manda,  o que espero e exigiria se pudesse exigir alguma coisa era que no Sporting a direcção se demita já , toda,  que  a direcção seguinte extinga as claques e interdite em perpetuidade os hooligans do estádio.Depois disso, a serem provadas as acusações de corrupção, que tudo indica ser fácil ( não tanto como ler 5gb de emails oficiais de um clube mas ainda assim fácil) , que nos façam a única coisa que pode aliviar um pouco a humilhação tremenda por que passam agora todos os sportinguistas honrados : descida de divisão , para as distritais se for preciso, e retirada dos títulos que tenham sido conquistados com práticas corruptas.  Expiação.

Domingo é a final da Taça de Portugal. Os jogadores já disseram que vão a jogo. O treinador, não faço idéia mas deixem um  dos juniores orientar a equipa que vai dar ao mesmo. As bancadas vão estar cheias de leões profundamente tristes e envergonhados mas que nunca abandonariam a equipa. O presidente da república , ambas as palavras deliberadamente com minúsculas , já disse que não se sentiria à vontade  na tribuna com o que ainda é , queiramos ou não , o presidente do clube. Também acordou agora  para a violência e corrupção no desporto e não pode deixar de cavalgar a onda, a única coisa que sabe fazer . Já lhe tenho asco.

Talvez haja violência, basta irem as claques em peso com as tarjas e cores para atrair muito sportinguista que não é de claque nenhuma e está cheio de vontade de lhes dar um bocado do próprio veneno. Piorar não pode, eu gostava de os ver a levar nos cornos do Jamor até Carcavelos à frente da polícia de choque, esgotei a tolerância, todo o bem que fizeram ao clube sob a forma de apoio durante os jogos foi por água abaixo. Com grupos organizados de adeptos tem que ser à inglesa, importamos tanta merda do estrangeiro todos os dias , as coisas boas tardam ou não chegam.

A final da Taça costuma ser uma festa mas este ano, mesmo que o SCP ganhe o jogo, o que está muito longe de ser garantido, não vai haver festa nenhuma nos corações dos verdadeiros sportinguistas, o mal está feito e o tempo de recuperação de  coisas destas mede-se em anos.

Quanto ao que agora calculo estarem a debitar os comentadores e politicos e jornalistas, todos a falar sobre o que deve ser feito , desconfio que não vai ser feito nada ou quase nada. Se bem conheço estes calhordas calculo que se vá criar mais um organismo estatal com mais uns directores e subdirectores a peso de ouro para encomendar uns estudos que vão concluir que há muita violência e corrupção no futebol e que é imperioso fazer alguma coisa. Os jornais e as televisões vão prosseguir tal e qual. O  FCP é campeão pelo que não tem interesse nem vontade de mudar nada e até porque o seu processo já foi arquivado. O SLB está protegido por 6 milhões de adeptos,  juízes, primeiros ministros, inspectores, jornalistas e  todos os bons chefes de família e todas as cúpulas que podem decidir e metem medo a quem tem cu, como se costuma dizer. Cabe ao SCP, agora atolado nesta miséria, expurgar-se a si próprio, aguentar a humilhação, descer de divisão se for preciso e renovar-se. Se descermos de divisão recupero o meu antigo número de sócio,  volto a pagar quotas e levo os meus sobrinhos à bola, para lhes explicar que somos um grande clube, tão grande como os maiores da Europa mas que estamos a jogar com o Cascalheira e o Real de Massamá por causa de ganância, falta de carácter, desonestidade e mentira, e se não querem acabar a jogar com os cascalheiras da vida têm que evitar essas coisas como a peste.

O Diogenes era um filósofo cínico que costumava andar pelas ruas da sua cidade de Sínope, carregando uma lanterna durante o dia , dizia que estava à procura de um homem honesto. É desse homem que o Sporting Clube de Portugal precisa agora, um homem tão difícil de encontrar que é precisa uma lanterna à luz do dia.

 

 

Judas

Por altura da Páscoa fartei-me de pensar no Judas Iscariotes, volta e meia ocorre-me um tema religioso com possíveis inconsistências e incongruências, gosto de as encontrar e dissecar, à medida das minhas possibilidades.

Judas era um dos doze discípulos de Cristo e fez o percurso de apóstolo com os outros onze. A hipótese que me pus foi de que a história do Judas era um modo  de introduzir um mau da fita e apresentar um exemplo de traição, uma espécie de arquétipo do traidor, que é o que nos ficou do Judas. A primeira coisa de que me lembrei foi  “então Cristo entra em Jerusalém em triunfo no Domingo de Ramos, passa  dias a pregar e correr a cidade seguido por multidões mas quando os sacerdotes do templo o mandam prender precisam de  alguém para apontar quem ele é? Era uma figura que não se distinguia no grupo? Ninguém o conhecia e para não levarem o homem errado pagaram a um dos seus para o apontar?”

É um argumento  fraco, sem grande tracção e que pode ser desmontado (mesmo que por exemplo a morte de Judas tenha versões diferentes consoante o evangelista) , e deixei de pensar no Judas… até que o país em peso voltou a falar do José Sócrates.

Um gajo pensa que já nada na política e jornalismo o consegue surpreender mas esta muito recente onda de “vergonha” que assolou o PS e de contrição pelo apoio dado ao Sócrates no passado deixa-me a pensar que temos aqui uma bela cambada de Judas. Enquanto a multidão aclamava e os milagres se sucediam, seguiam em linha com os outros 11 mas quando chegou a acusação e a polícia para levar o líder, quando a situação pessoal está em risco e há dividendos a tirar da crucificação , esquecem a fidelidade e devoção anterior, levantam-se e apontam-no : é este!

Acho que estou acompanhado por muita gente na minha surpresa  com as  declarações de políticos como o J. Galamba ou jornalistas como a Fernanda Câncio, que durante anos dormiram com o Sócrates , literalmente e figurativamente, e não só nunca desconfiaram de nenhuma irregularidade como atacaram  quem se atrevia a apontar o que para muitos era óbvio: este gajo, para viver assim, está a vender alguma coisa que não é dele, aqui há gato.

Dado que a política é porca e vive muito de  insinuações e meias verdades até compreendo que uns mais ingénuos e menos perspicazes acreditassem na honestidade dele. A partir do momento em que o homem é preso, qualquer pessoa racional pensa : alto, estamos numa choldra mas ainda assim não se  prendem pessoas, ainda menos  um ex primeiro ministro, por meras suspeitas, isto já não  é como na Rússia ou  na Venezuela onde se podem mandar para a cadeia adversários políticos só porque são adversários políticos, tem que haver  alguma coisa de substancial. Alguma coisa mais do que as suspeitas que qualquer pessoa lúcida e atenta coemçou a ter a partir do momento em que se conheceu o caso Freeport ( em 2004!!) ou mais simplesmente ainda, a partir do momento em que se sabe sem margem para dúvidas que o homem mentia sobre as suas habilitações literárias : um mentiroso é um mentiroso .

Em vez de andaram a insultar a justiça e os magistrados e a ir oferecer solidariedade pública ao homem na prisão ( felizmente há vídeo e memória e registos dessa canalhada toda à porta da prisão em Évora, incluindo registo do Pai da Pátria a ameaçar um juiz),  tinham-se mantido em silêncio, ou talvez até conseguissem pensar naquela velha máxima da mulher de César e acreditassem que suspeitas dessa gravidade bastavam para se afastarem do homem. Nada disso, foi um festival de críticas aos acusadores e detractores do Sócrates e ao processo todo. Uma vítima, um injustiçado, uma cabala infame.

Isto durou anos até que quase de repente,  na semana passada e sem nada de novo vir a público sobre o seu processo,  os Socialistas começaram a  dizer que o Sócrates os envergonhava, e este retorquiu desfiliando-se do PS.  Já vi um imbecil famoso do twitter que responde à designação vega9000 a dizer que com isso se separaram as àguas e acredito, dado o nível geral, que haja muito  quem acredite que basta dizer “estamos com vergonha” e ao Sócrates entregar o cartão de militante para o separar o PS, é  extraordinário.

Daqui a pouco não vai sobrar no partido um  que se lembre de que defendeu o Sócrates  e que nunca conseguiu suspeitar de nada. Gostava de saber o que é que provocou este clique que fez com que se começassem a arrepender e a condenar  o homem em série, o que é  que está a fazer os ratos abandonarem o navio a toda a pressa. É um bocado tarde, e espero agora um Judas contemporâneo, um discípulo renegado que o vá apontar inequivocamente aos que o querem prender, entregando às autoridades  um calhamaço de documentos que demonstre sem margem de erro o que toda a gente sabe: o Sócrates é um corrupto e um aldrabão que à falta de tempo de cadeia devia pelo menos desaparecer.

Já agora, por falar em pessoas que nunca desconfiaram de nada não souberam nada nem disseram nada, temos este:

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Passou de se sentar na bancada VIP com o dono disto tudo, certamente sem nunca suspeitar dos tentáculos e métodos usados pelos Espírito Santos, porque apesar de inteligentíssimo e sagaz essa parte era muito difícil, para regressar ao Estoril sentado num “lugar comum”, pago pelo próprio, pensando que com essa encenação reforça a imagem de homem do povo. A seguir ao jogo foi ao balneário tirar uma foto com o vencedor enrolado numa toalha, elevando assim mais uma vez a dignidade do cargo. Temos o que merecemos.

 

 

Uma espécie de independênciazinha

Depois do drama, da encenação, das hipérboles e das declarações apaixonadas, o chefe dos independentistas da Catalunha falou ao povo que se concentrava na  praça e o via na TV,  centenas de milhar de pobres escravos de Espanha, cansados de séculos de opressão e miséria, aguardavam a esperada e histórica declaração de libertação. Acreditavam  que a sua vida melhoraria mesmo se em vez de viverem na Catalunha, região autónoma de Espanha, passassem a viver  na República da Catalunha. Puigdemont compôs a franja e disse  que declara  a independência… mas fica suspensa. Ou seja , não há independência nenhuma.                      DLzGf8OXcAAcaQ-

Como começou a ver a vida a andar para trás, como se tornou aparente que milhões de catalães estavam contra a ideia, que ninguém na Europa se oferecia para mediar a questão quanto mais reconhecer um estado catalão, que as empresas debandavam e os particulares começavam a levar as suas poupanças para outro lado, que a Fitch avisou  que o rating de Barcelona caía logo com a independência, e assim sucessivamente… teve que se vergar à realidade. Todos os inconvenientes e problemas óbvios que os independentistas nunca discutiam ficaram de repente muito mais próximos e evidentes, e o sr Puigdemont pedalou para trás na melhor tradição dos demagogos quando as suas mentiras são expostas. Junta-se assim ao grupo liderado pelo Tsipras, grupo de políticos que agitam as paixões da população com ideias fortes, amanhãs que cantam  e promessas de toda a ordem para na hora H baquearem e dizerem “afinal as coisas não podem ser bem como eu vos tinha dito”, por mil outras palavras. Outro mestre da demagogia é o Pablo Iglésias, que depois de meses a agitar sem papas na língua não só pelo confronto da Catalunha com o estado central mas pela  independência real  já veio elogiar o Puigdemont pela sua sensatez. Pela sensatez que demonstrou em não fazer o que o Iglésias defendia. Na mesma declaração e mostrando bem o grau de alucinação que vai na sua vida, comparou a Espanha à Turquia. É surreal.

Fiquei satisfeito pelo que na prática é a suspensão da declaração de independencia  porque como escrevi aí atrás temia que a loucura prosseguisse a fundo, que o Puigdemont fosse de palavra e coragem e declarasse mesmo que nascia ali a República da Catalunha, e seguia-se senão o caos algo parecido.

Não tenho conhecimento de mais nenhuma declaração de independência de validade diferida, de alguma ocasião em algum  país em que um dirigente ou movimento tenha feito uma algazarra e espalhafato épico para depois subir ao palanque e dizer “Vencemos! Havemos de ser independentes, um dia mais tarde e consoante decorrer o diálogo com todas as partes!!!”  Absolutamente ridículo.  Explica  Nuno Rogeiro:

O artigo 4º, n.4, da Lei 202-00065/11, dita do referendo, aprovada pelo parlamento catalão em sessão conturbada de 6 de Setembro deste ano, diz que o mesmo hemiciclo precisa de declarar a independência, concretizar os seus efeitos e iniciar o processo constituinte, 48 horas depois da publicação dos resultados da mesma consulta, se estes resultarem em mais votos «sim» do que «não».

A suspensão deste processo não tem cabimento legal, face à norma referida.

Ou seja: viola-se não só a Constituição espanhola, mas a lei do estado a ser.

Daí a desilusão dos que queriam «independência já». E o ceticismo dos que querem uma «negociação», mas sem saber qual.

Não aplaudo  a conduta do estado espanhol nesta história, podiam ter levado as coisas sem usar a força, mas tirei-lhes o chapéu e ri-me bastante quando o Rajoy perguntou ao governo catalão se afinal tinham declarado independência ou não .

É que há leis, leis que não ficam obsoletas só porque mudam os governantes, leis que não são  imutáveis mas que obedecem a preceitos para serem alteradas, e  se não acreditamos nisto mais vale dizer que o melhor é tudo ao molho e fé em deus, venha a lei do mais forte, das maiores manifestações, de quem tem maiores audiências, de quem fala mais alto.

A minha aposta é que depois deste festival vai tudo ficar na mesma por muitos e bons anos. Ficam também a animosidade e divisões criadas pelos independentistas, que certamente não vão desistir, e o prejuízo económico para a região.

O meu voto é que os dirigentes catalães se concentrem mais em fazer a sua terra funcionar melhor e em melhorar a vida dos habitantes, coisas que se podem bem fazer sem mudar o regime político nem precisam de um estado independente.

 

PS: Finalmente há acusação ao Sócrates, um documento com 4000 páginas! Eu e mais uns milhões bons de portugueses estamos plenamente convencidos de que o homem é um corrupto  que enriqueceu ilegalmente  à conta do cargo, e para isso não é preciso ler as 4 mil páginas, é uma opinião baseada no antigo adágio, quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem. 

Que ainda haja quem defenda o homem, que apresenta 24 milhões de euros numa conta da Suíça depois de uma passagem por S.Bento onde ganhava uns 5 mil por mês, ou 10 que fossem,  é das coisas mais extraordinárias que já vi. Que haja que seja capaz de dizer que uma acusação formal de 31 (!) crimes é uma cabala é extraordinário. Que haja advogados a defendê-lo, é preciso e é o trabalho deles, agora que haja gente que ainda espera pela sentença  para se pronunciar, é demais. Este processo é necessário para saber se há condenação e pena, e aos olhos da justiça o homem ainda é inocente, mas isso é aos olhos da justiça, que devia  ser ceguinha, não queiram que nós também o sejamos. Para mim qualquer pessoa que defenda o Sócrates ou está a ser pago para isso ou é estúpido.

A Marcha da Loucura

Um dos meus livros favoritos de sempre é The March of Folly, escrito por uma historiadora americana em 1985 e sobre o qual já escrevi aqui, há uns anos, com este título e tudo. O livro explora casos, de Tróia ao Vietname , em que os políticos tomam decisões  “loucas”  e  contrárias aos seus interesses. É um processo fascinante  que se pode ver a trabalhar desde que há História escrita e tenho a certeza de que se a sra Tuchman ainda fosse viva tinha feito uma edição nova e actualizada em que incluía a invasão do Iraque.

Os critérios que Tuchman apresentou  para que se pudesse falar em loucura eram 4 :

– A prossecução de uma política contrária aos interesses últimos do Estado na face de vozes discordantes .

-Provas de que a  mesma política era contra producente.

-A política tinha que ser o produto de decisão de um grupo em vez de um indivíduo e , finalmente , tinha que haver uma alternativa clara .

A loucura está outra vez em marcha, desta vez ali na Catalunha. A meu ver observam-se todos os critérios, especialmente porque a Catalunha não é nem nunca foi um Estado , por isso o Estado em questão aqui é a Espanha, e os líderes desse estado também já tomaram decisões com certa dose de loucura.

Carles Puigdemont, o presidente do governo regional que é a cabeça de toda a instigação e agitação independentista  afirmou ontem que vai mesmo declarar independência. Curiosamente diz isto : “A declaração de independência, a que nós não chamamos declaração unilateral de independência, está prevista na lei do referendo como aplicação dos resultados”. Aqui é bem visível o papel da retórica nesta salganhada: a declaração deles é, por definição e por observação directa da realidade, unilateral, mas ele diz que não lhe chama unilateral. Quando um político começa a oferecer interpretações  e descrições alternativas da realidade baseadas  em manobras de linguagem significa que a discussão já saiu do domínio do racional e já não se vence com argumentos racionais.

É possível ver uma cronologia do processo aqui e lendo artigos nacionais e estrangeiros sobre o tema há uma coisa que sobressai : o independentismo catalão aparece de cima para baixo, é a resposta aos anseios de uma elite que sem dúvida se sentiria melhor a governar um país do que uma região e que com a causa independentista encontra um bode expiatório para as suas próprias insuficiências e falhas e uma causa emocional e mobilizadora. Uma visão para oferecer, coisa necessária a todo o político de sucesso.

Em mais uma demonstração de talento político para distorcer e manipular factos, nas eleições de há dois anos os independentistas não conseguiram a maioria dos votos , mas  tiveram maioria dos lugares no parlamento e um dos ideólogos veio logo dizer :Ninguém pode dizer que, a partir de agora, não temos legitimidade para fazer o que queremos fazer . Ora isto é uma afirmação absurda , especialmente porque “o que querem fazer” é desmembrar um país para criar outro, não se trata propriamente de aumentar o IVA ou mudar o código da estrada. Estas pessoas viram legitimidade onde mais ninguém a via, e o processo continuou apesar de ser claramente ilegal e inconstitucional.

Arrisco dizer que o cidadão comum  está preocupado antes de mais com o seu emprego, a educação dos filhos, os serviços públicos e  a segurança. Com isto  assegurado preocupa-se com direitos políticos e a liberdade individual e colectiva.  Isto já todos os catalães têm, incluindo o respeito, instrução  e inclusão plena de uma língua que só eles falam. A vontade de independência catalã não nasce de nenhuma opressão, de nenhuma exclusão dos catalães dos processos de decisão, de nenhuma desigualdade entre eles e o resto dos espanhóis, de nenhuma memória de nação que já foi e deixou de o ser.  Nasce sim de um projecto político de uma elite.

Tentemos imaginar o que sente uma figura pública que sobe a uma varanda de uma grande praça de uma grande cidade, fala perante 70 mil pessoas e é aclamado. Sente-se a encarnação da História , que a sua causa é justa e que o povo está com ele. A Catalunha tem 7 milhões e meio de habitantes mas o nosso Carles olha para 70 mil e vê ali a população catalã, o povo. Rodeado de assessores e cúmplices colegas de causa que lhe repetem as suas próprias opiniões e ideias, a ler jornais lidos por minorias decrescentes mas que continuam a acreditar que chegam a todos,   a viver em condomínios fechados, a comer em restaurantes de luxo e  conduzido por motoristas em carros do estado mas  sempre acreditando que compreende os anseios e necessidades do povo. Este homem torna-se monomaníaco e diz a quem o quer ouvir que a causa da sua vida é a independência. Não lhe interessa que não seja a causa da vida de nem metade dos catalães, é a sua e como ele é o chefe do governo, é por consequência a causa do governo.

Deixa de se tentar melhorar o governo da Catalunha autónoma para se delirar com o projecto da Catalunha Independente. Madrid , sem surpreender ninguém, manda-o ler a constituição e o estatuto da autonomia aprovado há pouco mais de dez anos pelas autoridades catalãs representativas e diz-lhe  NO. Perante isto o que faz o nosso Carles? Começa uma campanha para possibilitar a revisão do constituição espanhola? Não. Começa uma campanha para aprofundar as autonomias? Não. Propõe um mdelo de estado federal para a Espanha?Não. Exige que se equilibrem mais as transferências financeiras? Também não, convoca um referendo que desde a hora zero lhe dizem que é ilegal. Um referendo para decidir sobre se fazem ou não um golpe de Estado. É o que se chama a atentar contra a integridade do Estado, golpe de estado separatista.

A este referendo, e muito por culpa da reacção canhestra de Madrid, acorreram  38% dos catalães, nem sequer metade, e disseram que querem  independência, logo o Carles vê nisto legitimidade para proclamar independência. Como o referendo é ilegal e não está regulamentado, não está definida a margem de participação que legitimaria a decisão dali saída , tal como as pessoas que são contra a independência, pela mesma razão, não se deram ao trabalho de ir votar.

A partir daqui a fuga é para a frente e o governo independentista, em vez de recuar, ouvir todos os avisos e prenúncios que vêm de dentro e de fora, acalmar as hostes e reconhecer precipitação e erro no método senão no objectivo, prefere saltar da parte mais funda da pisicina e diz que vai declarar independência amanhã, porque recuar agora seria perder a face. Esta relutância de políticos em perder a face já matou milhões de pessoas ao longo da História.

Enquanto Carles e amigos brincam às proclamações patrióticas inflamadas a vida continua, a realidade não muda e as notícias aparecem. Dezenas de empresas abandonam a Catalunha porque, as malvadas, preferem trabalhar num país grande e desenvolvido do que num país pequeno e novo, de regras semi-arbitrárias e fora da UE. Sim , porque a UE confirmou sem margem para dúvidas que uma Catalunha independente não seria membro. Isto deu pausa para pensar a muita gente, porque o poderio económico da Catalunha é-o por ser uma região de Espanha, isto pelos vistos não era aparente para toda a gente. Uma greve geral paralisou a região e tirou não sei quantos pontos ao PIB e os efeitos perduram. Desde as empresas às famílias aumenta a discórdia , o nosso Carles pode orgulhar-se de ter conseguido fazer algo com a Catalunha: dividiu-a como não se via desde 75.  E ontem entre 350 e 500 mil pessoas encheram as ruas de Barcelona com bandeiras de Espanha a manifestar-se pela unidade nacional . É bastante gente, e também isto fez pausar aqueles que acreditavam, vá-se lá saber porquê, que a independência era uma causa comum dos catalães.  Não é , há muitos, quiçá a maioria , que estão bem assim, Espanhóis , Catalães e Europeus e não querem embarcar numa aventura romântica para benefício da oligarquia do poder.

Como a loucura parece que já tomou mesmo conta do Governo Regional é muito provável que amanhã haja mesmo declaração de independência. Para não perder a face o nosso Carles vai despejar um bidom de gasolina na fogueira, provocar mais uma reacção dura do estado espanhol que parece que não sabe ter outras, talvez na esperança de que se acabar tudo à porrada, mais ainda, a simpatia vai cair para o lado catalão. Ainda está para nascer o político que não veja num seu seguidor com a cabeça rachada uma boa ocasião de propaganda.

Uma Catalunha independente voltaria atrás economicamente,internacionalmente passaria  de região de um grande país da Europa a país isolado que não conta para nada e ficaria , depois de inevitáveis migrações dolorosas, partido ao meio com ressentimentos para décadas. Claro que isso não interessaria muito ao Presidente da República Carles Puigdemont, cuja situação económica pessoal não seria ameaçada,  teria ainda mais privilégios e passaria a pensar nele próprio como o libertador da Catalunha.

Precisam-se de cabeças frias mas receio bem que a loucura já esteja em marcha.

 

Votos

Não é que as filas ou multidões aqui sejam um problema mas a melhor hora para votar  é durante a missa, porque regral geral as pessoas votam antes ou depois, mas raramente das 11 ao meio dia. Estacionei a 10 metros da porta da Casa do Povo, não estava lá mais  ninguém para votar, no tempo que levou a atravessar a sala até à mesa já a senhora com o computador tinha encontrado o meu número de eleitor porque sabia o meu nome. Cumprimentei as pessoas, mostrei o cartão de cidadão e deram-me os boletins.

Conheço grande parte dos defeitos e insuficiências das eleições mas sinto-me sempre bem quando voto num processo organizado, claro e pacífico.Lembro-me sempre de países onde ou os votos não contam literalmente para nada, ou contam e há violência e corrupções de toda a ordem ou então são uma miragem de pessoas que gostavam de poder ter a sua opinião sobre os destinos do país reconhecida e contada. Enquanto houver liberdade de expressão e associação, imprensa livre e a possibilidade de de 4 em 4 anos mudar de governos, já não é  nada mau.

Aqui só o PS e PSD concorrem nas autárquicas, o que simplifica as coisas. O meu anti comunismo não é tão primário ao ponto de não reconhecer que uma autarquia do PC pode ser bem gerida e trabalhar bem mas regra geral e como princípio orientador, quanto menos comunistas organizados melhor.

Aqui há 1325 eleitores, votaram 988, quase 75% , para quem se importa com a saúde da democracia é um bom sinal. Também mostra que as pessoas se preocupam e interessam mais pela junta e a câmara do que pelo Terreiro do Paço. Este ano a margem foi muito grande mas aqui  uma dúzia de votos pode decidir uma eleição. O PS ganhou com 630 votos, o PSD teve 311. Nas últimas legislativas a abstenção foi de 50% , o PCP teve 16 votos, o PCTP MRPP teve um voto, o PNR também teve um voto e eu tenho quase a certeza que sei quem foi o gajo que votou no PNR, um conhecido meu completamente fascista.

 No resto do país não vejo grandes surpresas, o BE deve ter tido 25% de cobertura dos média para 3% dos votos e  nem o Isaltino Morais é uma grande surpresa. Como não tenho ideia de como é  morar em Oeiras não tenho ideia do que pode ter feito  o homem de tão importante para continuarem a votar nele desta maneira , mas esse é um problema das pessoas de lá.

Problema , grande, de outros é o da Catalunha. Lá votaram num referendo ilegal 38% das pessoas, e desses 90% querem a independência. Se os espanhóis mantivessem o sangue frio eram menos espanhóis, mas ao ouvir referendo, secessão e  independência, mandaram a polícia em força. Creio que teria sido muito melhor deixá-los fazer o seu referendo em paz , sempre a informá-los de que não conta para nada,  que até ver e no futuro próximo Barcelona é a capital de uma região parte de Espanha, por isso as coisas seguem como dantes.

Assim criaram “mártires”, opressão ,sofrimento e indignação. O líder dos independentistas é o chefe de um partido que obteve menos de 20%, salvo erro, nas últimas eleições. Respaldado num resultado de um referendo mal organizado, ilegal e sem obedecer pelo menos às normas formais dos referendos, diz que vai declarar independência. Tenho andado a ler sobre estes independentistas e como de costume os projectos são fortes no lirismo , visão e  inspiração mas são fininhos no detalhe. Como se o objectivo fosse a declaração de independência e todo o trabalho é feito para chegar aí , o dia seguinte a esse é muito menos discutido e pensado. Querer declarar independência depois de um referendo assim é de loucos.

O meu desejo é que  avancem depressa para uma conclusão, e só duas coisas podem acontecer : ou a catalunha secede e se torna um país ou permanece uma região de Espanha.

Se declararem a independência uma das  primeira coisas a acontecer  será a saída da UE (já tinha sido explicado aos escoceses o que aconteceria: saem para talvez voltar a entrar) . Tal como no referendo do Brexit, suspeito que a campanha independentista não passou muito tempo a falar sobre o que os catalães podem perder com a independência, talvez na crença de que não há inconvenientes nem custos.

Outra consequência  interessante pode ser no futebol, o FCB há décadas que é patrono, instigador, porta estandarte, eco, veículo e símbolo do nacionalismo catalão. Se se cumprir a independencia o FCB deve passar a jogar um campeonato com adversários do calibre do Lleida ou Espanyol , jogadores catalães naturalmente deixam de poder ir à selecção espanhola e deixam de ser cabeças de série em seja que competição europeia for. Eu achava bonito.