Rebelião da Extinção

Em 1962 a americana  Rachel Carson publicou um livro chamado Silent Spring , ou Primavera Silenciosa , em que  pela primeira vez se alertava o mundo para a outra face do uso dos pesticidas que por essa altura começaram a revolucionar a agricultura. Como cientista, estudou principalmente o efeito do DDT nos humanos e noutras espécies animais e quem leu aquilo com atenção ficou alertado para o perigo emergente.

Foi há 57 anos e foi a origem da consciência ambiental moderna. O problema foi que as pessoas com poder de decisão e voto na matéria, ou seja, governos, agricultores e produtores de químicos, puseram num prato da balança os riscos e no outro as vantagens  e decidiram que as segundas compensavam largamente os primeiros, e foi sempre em crescendo químico até há bem pouco tempo .

Uns anos mais tarde, em 1989, apareceu outro livro, e esse já o li, chamado O Fim da Natureza, de Bill McKibben, a primeira vez, tanto quanto sei, que se chamou a atenção para as mudanças causadas pelo Homem e suas possíveis consequências, a primeira descrição do Antropoceno, como alguns designam agora a nossa era. Esse passou muito mais despercebido que o primeiro, além de ser tão ou mais importante, principalmente porque a conclusão das observações do autor sobre as alterações climáticas potencialmente catastróficas causadas pela acção humana era a seguinte : só há duas maneiras de lidar com este problema , ou acção reflexiva , contrariando e contendo directamente os efeitos perigosos, ou simplesmente um modo de vida mais humilde.

Isto foi há 30 anos, numa altura em que as democracias liberais capitalistas triunfavam em toda a linha, a História tinha chegado ao fim como dizia o F. Fukuyama, caminhávamos para a Democracia, Abundância e Paz e a última coisa que quem quisesse ser ouvido por multidões devia recomendar era uma vida mais humilde. Aliás, essa recomendação nunca passou muito bem nem nunca foi levada muito a sério em nenhum período histórico, não acabou bem por exemplo para Jesus Cristo e os pregadores da simplicidade, humildade e despojamento sempre foram relegados para a caixa dos excêntricos , quando não dos hipócritas. 

Era o nosso direito divino e destino natural  (manifesto, no caso dos americanos) ,  dominar e explorar a Natureza, e nisto vivemos e progredimos séculos, até que inovações o motor de combustão interna e o modo de produção capitalista aceleraram o processo até se tornar imparável. Os efeitos eram raros , espaçados e dispersos, as vantagens imensas e aparentes, e foi preciso virar o século e a comunicação de massas chegar a toda a gente para começarmos a perceber o sarilho em que nos metemos.

Os mais atentos (não era o meu caso, apesar de ter lido o McKibben) sabiam há décadas mas a generalidade da população não sabia e grande parte não queria saber. O facto de a causa ambientalista ter sido impulsionada pelos herdeiros dos hippies e financiada tantas vezes por inimigos do Ocidente (como a Rússia com o Greenpeace)  não ajudava nada à sua aceitação pela população em geral, que tradicionalmente só consegue ver um problema quando este lhe cai em cima e desconfia sempre , por vezes com razão, dos alarmes que vão soando. O Al Gore  acertou em cheio no título do seu documentário “Uma Verdade Inconveniente”. Ninguém  gosta de ver posto em causa o seu modo de vida, especialmente quando este é confortável, como o é o da sociedade ocidental, por mais reclamações e queixas que se façam.

Chegamos a 2019 , já haverá muito poucas pessoas que não estejam convencidas da gravidade do problema e das suas causas, mesmo que subsista uma espécie de debate entre os que negam a origem humana das alterações e os outros, mas ambos as aceitam, sobrando uns quantos trastes  ideológicos como o Trump que não só se nega a admitir que o aquecimento global é real e recusa sequer pensar em tomar medidas para o mitigar como elimina tentativas de protecção ambiental feitas pelo antecessor.

Mas hoje toda a gente sabe, toda a gente discute e toda a gente tem a sua posição, nem que seja de indiferença ou negação, no sentido de recusa em aceitar a realidade.  Como eu vejo as coisas os problemas principais são de 3 tipos, todos ligados : esgotamento dos recursos ; explosão demográfica e as alterações climáticas propriamente ditas,  como o aumento dos fenómenos metorológicos extremos  (uma das muitas razões que me fez abandonar a navegação oceânica) .

A soma destes 3 é simultâneamente causa e consequência de conflitos e tensões políticas que facilmente podem escalar, por exemplo : desertificação no Sahel aumenta a  miséria – aumenta o fluxo migratório –  os imigrantes não se integram bem – sobe a xenofobia – demagogos aproveitam-se dela para chegar ao poder, instala-se um regime autoritário. Isto já está a acontecer,  isso também veio alarmar a opinião pública e as coisas começam a mexer…à superfíce pelo menos.

Entra em cena a Greta Thunberg , de quem já falei aqui , moça que admiro e que temo  que não vá acabar bem, não por ser perseguida pela Exxon Mobil mas por ser  a face visível de um movimento caótico, vago e megalómano.  Esta moça iniciou na sua terra uma greve escolar para obrigar o governo a agir contra as as alterações climáticas, a greve tornou-se viral e global e   deu um impulso enorme a um movimento denominado Extinction Rebellion . cujo objectivo é  o exercício de pressão sobre os governantes e o público para aumentar a conscientização sobre a crise climática.[4]

Andei a ler manifestos e vídeos de acções e  propaganda destes e de de outros movimentos , e sofrem todos de dois problemas graves : acreditam que os governantes conseguiriam, mesmo que quisessem, tomar o género de medidas radicais necessárias a um combate eficaz às alterações climáticas e ignoram a principal mensagem do Bill McKibben : a chave está na redução drástica dos consumos , coisa que , parafraseando o Al Gore, é uma verdade inconveniente. Os rebeldes apelam à desobediência civil e resistência pacífica, não apelam nem exigem a redução drástica do tráfego automóvel e aéreo, o abandono da comida processada , dos guarda roupas cheios, das frutas todo o ano nos supermercados  e dos 300 canais de TV . Não têm, que eu tenha visto , nenhuma proposta de política económica concreta, nenhum programa de acção além de exigir que os governos façam alguma coisa.

Se amanhã o governo francês, por exemplo, decretasse o fecho das refinarias mais poluentes da França isto ia trazer ar muito mais limpo na zona mas ia mandar para o desemprego milhares, provocar o aumento do preço dos combustíveis e o aumento da refinação nos países vizinhos. Se a Nigéria parasse  de explorar petróleo e expulsasse as multinacionais o delta do Níger ia ficar muito mais limpo mas milhares de nigerianos ficavam sem emprego, a Shell mudava a tralha para Angola ou México ou qualquer dos outros países onde opera e o benefício total seria muito pequeno. Podíamos estar aqui a noite toda a dar exemplos destes para ilustrar uma verdade simples:

Um problema global não se resolve com soluções locais, e acreditar na eficácia de uma grande reunião de governos mundiais para resolver o problema é do campo da alucinação, não sei se lhes passaram despercebidas coisas como a conferência do Rio ou de Paris onde o que ficou claro foi que  entendimentos globais raramente passam da retórica e das declarações de intenções. Por isso  mesmo que os governos tivessem poder decisivo, um acordo global e acção consequente sobre isto é uma miragem, uma coisa só julgada possível por adolescentes como a Greta e  ingénuos de todas as idades.

Preparemo-nos para muitas notícias sobre a “rebelião” e zero resultados além de medidas simbólicas e pontuais. Como estratégia de combate a um problema grave, bloquear , manifestar e revoltar com exigências de que se faça alguma coisa mas não sabemos bem o quê, é muito fraquinho. Mas a estética está lá toda e é apelativa, especialmente porque permite às pessoas ventilar a frustração e identificar , apontar e atacar culpados  (os governos, as multinacionais) , ter a sensação de que se está a contribuir para a resolução do problema e esquecer a gravidade da nossa contribuição diária para a degradação ambiental , com os nossos actos e consumos , mesmo os mais banais.

A rebelião devia ser contra o consumismo, uma rebelião que não precisa de bandeiras, líderes, slogans,  discursos nem manifestações,  uma rebelião individual causada por uma decisão racional e consciente e devia ser essa a mensagem e exemplo destes activistas. Sem essa redução dos consumos não há nenhuma sustentabilidade, equilíbrio ou recuperação possível, e sendo assim creio que o foco devia ser todo para o modo como viver e sobreviver às alterações climáticas e não em carregar contra  moínhos de vento,  defender causas perdidas e exigir que outros façam alguma coisa.

 

Pelo que conheço do país, a minha aposta é que o impacto das manifestações previstas para amanhã não irá além dos alinhamentos televisivos e de alguma inconveniência no dia de alguns portugueses urbanos. Calculo que a maior parte das pessoas ache que não vale a pena ir porque dá na televisão.

Tem sido muitíssimo interessante ver o desconforto dos titulares perpétuos do Departamento Nacional de Manifestações e Protestos por verem surgir a possibilidade de as pessoas se manifestarem sem serem organizadas e lideradas por eles.

Também é curioso ver que muita gente  parte do princípio  que se as pessoas estão contra o governo de esquerda é porque são de direita, e se estão na rua isso é a direita radical. A possibilidade de haver pessoas de esquerda críticas e descontentes com o governo é ignorada.

Não tenho uma opinião muito diferente dos coletes amarelos portugueses do que tenho  dos franceses, não sou grande apoiante, e quanto à violência pior ainda. Manifestações  fazem parte do processo democrático e são um direito básico, os motins  não. Os folhetos com as exigências que circulam por aí são anedóticos, escritos por pessoas com pouca noção mas isso não impede que muitas pessoas , precisamente por não haver um “comando unificado”,  decidam ir protestar. Creio que nem o geringonço mais militante pode negar que há muitas coisas em Portugal que justificam protestos, até porque várias dessas coisas nem são responsabilidade exclusiva da geringonça mas sim do Regime.

Amanhã vamos ver muitos políticos e comentadores a explicar que a adesão ou a não adesão aos protestos valida o que eles sempre defenderam e a debitar mais uns lugares comuns sobre populismo e manipulação. Se porventura a coisa escalar  (não será por falta de acicatamento dos media) e houver violência, abrem um ângulo novo, dizendo que a violência ilustra ou a prepotência do Estado neofascista ou o perigo da subversão da ordem pública pelos extremistas.

Como a maior parte das pessoas espero um flop, quanto mais não seja porque não vejo em Portugal a pressão social que pode levar a um movimento de alguma consequência, mas isto é um palpite, até podem acontecer coisas interessantes amanhã.

 

Entretanto na Polónia…

…60 mil fascistas de vários graus, desde o skinhead mais cepo à avozinha mais beata e  nostálgica saíram à rua para celebrar a independência do país e gritar por uma Europa branca e por “mais Deus”. Quanto à segunda, parece-me um pedido ou exigência estranha mas é assim desde sempre: Deus, apesar de omnipotente, omnisciente e omnipresente, precisa sempre de quem fale por ele, de quem o defenda, de quem proteste por ele, castigue os seus inimigos  e reclame a sua presença, porque ele sozinho pelos vistos não consegue. É uma omnipotência um pouco estranha, um poder que apesar de ser universal e absoluto tem umas certas dificuldades em impôr-se e em comunicar directamente, tem que ser sempre por mensageiros e sinais.

Quanto à Europa mais branca e presumivelmente mais católica, podia dizer “boa sorte com isso, contrariar  tendências demográficas com manifestações não revela grande  inteligência” mas é verdade que manifestações pressionam governos que depois inventam políticas para contrariar a realidade, que normalmente acabam por falhar, criando mais insatisfação e alimentando  um círculo vicioso.

Acredito que também na política e na sociedade se observa a III Lei de Newton : Para  toda a acção há sempre uma reacção oposta e de igual intensidade. Os tempos em que se manifestam estas reacções podem não ser os mesmos da Física, mas mesmo que seja anos depois , as reacções inevitavelmente aparecem. Se vemos milhares a marchar pelas ruas de bandeiras vermelhas é de esperar que as bandeiras pretas não venham  muito atrás.

Em Portugal isto não é aparente  porque levámos uma injecção de 48 anos que tornou o lado preto da moeda inaceitável e porque nunca vimos o lado vermelho a sério. Os Polacos tiveram o infortúnio de passar a maior parte do pós guerra debaixo das bandeiras vermelhas, por isso hoje por lá é tão aceitável ser de um dos vários partidos de extrema direita como cá é aceitável ser do PCP ou do BE.  Apesar disso acho que, depois do advento das redes sociais e dos jornais com a possiblidade de os leitores deixarem o seu comentário anónimo, ninguém duvida que temos por cá umas boas centenas de milhar de cripto fascistas e muitos mais simpatizantes da causa, ou causas.

De todos os países da  UE a Polónia é o que mais sofreu às mãos do nazismo e do comunismo e por isso , num mundo mais racional, seria de de esperar que fosse o mais predisposto a encontrar o caminho do meio e a renegar extremismos, mas um mundo racional é quase utópico por isso aí temos os Polacos a eleger um governo que tende mais para a direita do que seria confortável e uma população que apesar de ser dos países com menos imigrantes e gente de outras cores e credos é das que menos gosta deles.

Eu não sou um gajo muito tolerante, tenho os meus preconceitos, há coisas de que não gosto e preferia que não existissem, por exemplo o Islão ou os hipsters , mas sou antes de mais  um gajo prático e a seguir  respeitador dos direitos dos outros , incluindo o direito a serem enganados, a acreditarem em fábulas, a vestirem-se como lhes apetecer e, resumidamente, a fazerem  o quiserem das suas vidas. Desde que me seja permitido ter o meu espaço inviolável, viver de acordo com a minha consciência, e desde que não se ande por aí a maltratar pessoas por quererem fazer o mesmo, ou por características que estão fora do seu controlo tipo a etnia ou o sexo, por mim já não está mau.  O mundo é muito grande e complexo e para isto ir funcionando é preciso esse caldear, equilibrar e sintetizar de todas as forças e ideias. Parece-me  cada vez mais difícil.

Por isso incomoda-me ver estas coisas, ver os extremistas a ganhar força e voz a cada dia, a  ignorarem ou negarem a História, ver ambos os lados a alimentarem-se do progresso dos adversários e do medo que provoca,  ver as vozes da moderação a perder força na torrente de mentiras, propaganda  e demagogia que escorre pela TV e internet como o proverbial esgoto a céu aberto e se alastra a todos os sectores da sociedade. O Guardian , jornal britânico que eu considero pouco, passou um mês a rufar o tambor para o nacionalismo Catalão para hoje vir lamentar o nacionalismo Polaco. São incoerências dessas que me fazem acreditar que os melhores tempos da Europa começaram no fim da segunda guerra e estão a chegar ao fim, só   espero mais divisão, polarização, atrito e conflito.

 

PS: Também estou a perder a esperança de ver o Sporting campeão este ano.

PS II -Quanto à indignação do dia, a história do Panteão, o que fica é que o nosso primeiro ministro nunca tem culpa nem é responsável por nada que não seja positivo e que Portugal é governado ao ritmo das redes sociais, sondagens  e focus groups. 

Uma espécie de independênciazinha

Depois do drama, da encenação, das hipérboles e das declarações apaixonadas, o chefe dos independentistas da Catalunha falou ao povo que se concentrava na  praça e o via na TV,  centenas de milhar de pobres escravos de Espanha, cansados de séculos de opressão e miséria, aguardavam a esperada e histórica declaração de libertação. Acreditavam  que a sua vida melhoraria mesmo se em vez de viverem na Catalunha, região autónoma de Espanha, passassem a viver  na República da Catalunha. Puigdemont compôs a franja e disse  que declara  a independência… mas fica suspensa. Ou seja , não há independência nenhuma.                      DLzGf8OXcAAcaQ-

Como começou a ver a vida a andar para trás, como se tornou aparente que milhões de catalães estavam contra a ideia, que ninguém na Europa se oferecia para mediar a questão quanto mais reconhecer um estado catalão, que as empresas debandavam e os particulares começavam a levar as suas poupanças para outro lado, que a Fitch avisou  que o rating de Barcelona caía logo com a independência, e assim sucessivamente… teve que se vergar à realidade. Todos os inconvenientes e problemas óbvios que os independentistas nunca discutiam ficaram de repente muito mais próximos e evidentes, e o sr Puigdemont pedalou para trás na melhor tradição dos demagogos quando as suas mentiras são expostas. Junta-se assim ao grupo liderado pelo Tsipras, grupo de políticos que agitam as paixões da população com ideias fortes, amanhãs que cantam  e promessas de toda a ordem para na hora H baquearem e dizerem “afinal as coisas não podem ser bem como eu vos tinha dito”, por mil outras palavras. Outro mestre da demagogia é o Pablo Iglésias, que depois de meses a agitar sem papas na língua não só pelo confronto da Catalunha com o estado central mas pela  independência real  já veio elogiar o Puigdemont pela sua sensatez. Pela sensatez que demonstrou em não fazer o que o Iglésias defendia. Na mesma declaração e mostrando bem o grau de alucinação que vai na sua vida, comparou a Espanha à Turquia. É surreal.

Fiquei satisfeito pelo que na prática é a suspensão da declaração de independencia  porque como escrevi aí atrás temia que a loucura prosseguisse a fundo, que o Puigdemont fosse de palavra e coragem e declarasse mesmo que nascia ali a República da Catalunha, e seguia-se senão o caos algo parecido.

Não tenho conhecimento de mais nenhuma declaração de independência de validade diferida, de alguma ocasião em algum  país em que um dirigente ou movimento tenha feito uma algazarra e espalhafato épico para depois subir ao palanque e dizer “Vencemos! Havemos de ser independentes, um dia mais tarde e consoante decorrer o diálogo com todas as partes!!!”  Absolutamente ridículo.  Explica  Nuno Rogeiro:

O artigo 4º, n.4, da Lei 202-00065/11, dita do referendo, aprovada pelo parlamento catalão em sessão conturbada de 6 de Setembro deste ano, diz que o mesmo hemiciclo precisa de declarar a independência, concretizar os seus efeitos e iniciar o processo constituinte, 48 horas depois da publicação dos resultados da mesma consulta, se estes resultarem em mais votos «sim» do que «não».

A suspensão deste processo não tem cabimento legal, face à norma referida.

Ou seja: viola-se não só a Constituição espanhola, mas a lei do estado a ser.

Daí a desilusão dos que queriam «independência já». E o ceticismo dos que querem uma «negociação», mas sem saber qual.

Não aplaudo  a conduta do estado espanhol nesta história, podiam ter levado as coisas sem usar a força, mas tirei-lhes o chapéu e ri-me bastante quando o Rajoy perguntou ao governo catalão se afinal tinham declarado independência ou não .

É que há leis, leis que não ficam obsoletas só porque mudam os governantes, leis que não são  imutáveis mas que obedecem a preceitos para serem alteradas, e  se não acreditamos nisto mais vale dizer que o melhor é tudo ao molho e fé em deus, venha a lei do mais forte, das maiores manifestações, de quem tem maiores audiências, de quem fala mais alto.

A minha aposta é que depois deste festival vai tudo ficar na mesma por muitos e bons anos. Ficam também a animosidade e divisões criadas pelos independentistas, que certamente não vão desistir, e o prejuízo económico para a região.

O meu voto é que os dirigentes catalães se concentrem mais em fazer a sua terra funcionar melhor e em melhorar a vida dos habitantes, coisas que se podem bem fazer sem mudar o regime político nem precisam de um estado independente.

 

PS: Finalmente há acusação ao Sócrates, um documento com 4000 páginas! Eu e mais uns milhões bons de portugueses estamos plenamente convencidos de que o homem é um corrupto  que enriqueceu ilegalmente  à conta do cargo, e para isso não é preciso ler as 4 mil páginas, é uma opinião baseada no antigo adágio, quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem. 

Que ainda haja quem defenda o homem, que apresenta 24 milhões de euros numa conta da Suíça depois de uma passagem por S.Bento onde ganhava uns 5 mil por mês, ou 10 que fossem,  é das coisas mais extraordinárias que já vi. Que haja que seja capaz de dizer que uma acusação formal de 31 (!) crimes é uma cabala é extraordinário. Que haja advogados a defendê-lo, é preciso e é o trabalho deles, agora que haja gente que ainda espera pela sentença  para se pronunciar, é demais. Este processo é necessário para saber se há condenação e pena, e aos olhos da justiça o homem ainda é inocente, mas isso é aos olhos da justiça, que devia  ser ceguinha, não queiram que nós também o sejamos. Para mim qualquer pessoa que defenda o Sócrates ou está a ser pago para isso ou é estúpido.

A Marcha da Loucura

Um dos meus livros favoritos de sempre é The March of Folly, escrito por uma historiadora americana em 1985 e sobre o qual já escrevi aqui, há uns anos, com este título e tudo. O livro explora casos, de Tróia ao Vietname , em que os políticos tomam decisões  “loucas”  e  contrárias aos seus interesses. É um processo fascinante  que se pode ver a trabalhar desde que há História escrita e tenho a certeza de que se a sra Tuchman ainda fosse viva tinha feito uma edição nova e actualizada em que incluía a invasão do Iraque.

Os critérios que Tuchman apresentou  para que se pudesse falar em loucura eram 4 :

– A prossecução de uma política contrária aos interesses últimos do Estado na face de vozes discordantes .

-Provas de que a  mesma política era contra producente.

-A política tinha que ser o produto de decisão de um grupo em vez de um indivíduo e , finalmente , tinha que haver uma alternativa clara .

A loucura está outra vez em marcha, desta vez ali na Catalunha. A meu ver observam-se todos os critérios, especialmente porque a Catalunha não é nem nunca foi um Estado , por isso o Estado em questão aqui é a Espanha, e os líderes desse estado também já tomaram decisões com certa dose de loucura.

Carles Puigdemont, o presidente do governo regional que é a cabeça de toda a instigação e agitação independentista  afirmou ontem que vai mesmo declarar independência. Curiosamente diz isto : “A declaração de independência, a que nós não chamamos declaração unilateral de independência, está prevista na lei do referendo como aplicação dos resultados”. Aqui é bem visível o papel da retórica nesta salganhada: a declaração deles é, por definição e por observação directa da realidade, unilateral, mas ele diz que não lhe chama unilateral. Quando um político começa a oferecer interpretações  e descrições alternativas da realidade baseadas  em manobras de linguagem significa que a discussão já saiu do domínio do racional e já não se vence com argumentos racionais.

É possível ver uma cronologia do processo aqui e lendo artigos nacionais e estrangeiros sobre o tema há uma coisa que sobressai : o independentismo catalão aparece de cima para baixo, é a resposta aos anseios de uma elite que sem dúvida se sentiria melhor a governar um país do que uma região e que com a causa independentista encontra um bode expiatório para as suas próprias insuficiências e falhas e uma causa emocional e mobilizadora. Uma visão para oferecer, coisa necessária a todo o político de sucesso.

Em mais uma demonstração de talento político para distorcer e manipular factos, nas eleições de há dois anos os independentistas não conseguiram a maioria dos votos , mas  tiveram maioria dos lugares no parlamento e um dos ideólogos veio logo dizer :Ninguém pode dizer que, a partir de agora, não temos legitimidade para fazer o que queremos fazer . Ora isto é uma afirmação absurda , especialmente porque “o que querem fazer” é desmembrar um país para criar outro, não se trata propriamente de aumentar o IVA ou mudar o código da estrada. Estas pessoas viram legitimidade onde mais ninguém a via, e o processo continuou apesar de ser claramente ilegal e inconstitucional.

Arrisco dizer que o cidadão comum  está preocupado antes de mais com o seu emprego, a educação dos filhos, os serviços públicos e  a segurança. Com isto  assegurado preocupa-se com direitos políticos e a liberdade individual e colectiva.  Isto já todos os catalães têm, incluindo o respeito, instrução  e inclusão plena de uma língua que só eles falam. A vontade de independência catalã não nasce de nenhuma opressão, de nenhuma exclusão dos catalães dos processos de decisão, de nenhuma desigualdade entre eles e o resto dos espanhóis, de nenhuma memória de nação que já foi e deixou de o ser.  Nasce sim de um projecto político de uma elite.

Tentemos imaginar o que sente uma figura pública que sobe a uma varanda de uma grande praça de uma grande cidade, fala perante 70 mil pessoas e é aclamado. Sente-se a encarnação da História , que a sua causa é justa e que o povo está com ele. A Catalunha tem 7 milhões e meio de habitantes mas o nosso Carles olha para 70 mil e vê ali a população catalã, o povo. Rodeado de assessores e cúmplices colegas de causa que lhe repetem as suas próprias opiniões e ideias, a ler jornais lidos por minorias decrescentes mas que continuam a acreditar que chegam a todos,   a viver em condomínios fechados, a comer em restaurantes de luxo e  conduzido por motoristas em carros do estado mas  sempre acreditando que compreende os anseios e necessidades do povo. Este homem torna-se monomaníaco e diz a quem o quer ouvir que a causa da sua vida é a independência. Não lhe interessa que não seja a causa da vida de nem metade dos catalães, é a sua e como ele é o chefe do governo, é por consequência a causa do governo.

Deixa de se tentar melhorar o governo da Catalunha autónoma para se delirar com o projecto da Catalunha Independente. Madrid , sem surpreender ninguém, manda-o ler a constituição e o estatuto da autonomia aprovado há pouco mais de dez anos pelas autoridades catalãs representativas e diz-lhe  NO. Perante isto o que faz o nosso Carles? Começa uma campanha para possibilitar a revisão do constituição espanhola? Não. Começa uma campanha para aprofundar as autonomias? Não. Propõe um mdelo de estado federal para a Espanha?Não. Exige que se equilibrem mais as transferências financeiras? Também não, convoca um referendo que desde a hora zero lhe dizem que é ilegal. Um referendo para decidir sobre se fazem ou não um golpe de Estado. É o que se chama a atentar contra a integridade do Estado, golpe de estado separatista.

A este referendo, e muito por culpa da reacção canhestra de Madrid, acorreram  38% dos catalães, nem sequer metade, e disseram que querem  independência, logo o Carles vê nisto legitimidade para proclamar independência. Como o referendo é ilegal e não está regulamentado, não está definida a margem de participação que legitimaria a decisão dali saída , tal como as pessoas que são contra a independência, pela mesma razão, não se deram ao trabalho de ir votar.

A partir daqui a fuga é para a frente e o governo independentista, em vez de recuar, ouvir todos os avisos e prenúncios que vêm de dentro e de fora, acalmar as hostes e reconhecer precipitação e erro no método senão no objectivo, prefere saltar da parte mais funda da pisicina e diz que vai declarar independência amanhã, porque recuar agora seria perder a face. Esta relutância de políticos em perder a face já matou milhões de pessoas ao longo da História.

Enquanto Carles e amigos brincam às proclamações patrióticas inflamadas a vida continua, a realidade não muda e as notícias aparecem. Dezenas de empresas abandonam a Catalunha porque, as malvadas, preferem trabalhar num país grande e desenvolvido do que num país pequeno e novo, de regras semi-arbitrárias e fora da UE. Sim , porque a UE confirmou sem margem para dúvidas que uma Catalunha independente não seria membro. Isto deu pausa para pensar a muita gente, porque o poderio económico da Catalunha é-o por ser uma região de Espanha, isto pelos vistos não era aparente para toda a gente. Uma greve geral paralisou a região e tirou não sei quantos pontos ao PIB e os efeitos perduram. Desde as empresas às famílias aumenta a discórdia , o nosso Carles pode orgulhar-se de ter conseguido fazer algo com a Catalunha: dividiu-a como não se via desde 75.  E ontem entre 350 e 500 mil pessoas encheram as ruas de Barcelona com bandeiras de Espanha a manifestar-se pela unidade nacional . É bastante gente, e também isto fez pausar aqueles que acreditavam, vá-se lá saber porquê, que a independência era uma causa comum dos catalães.  Não é , há muitos, quiçá a maioria , que estão bem assim, Espanhóis , Catalães e Europeus e não querem embarcar numa aventura romântica para benefício da oligarquia do poder.

Como a loucura parece que já tomou mesmo conta do Governo Regional é muito provável que amanhã haja mesmo declaração de independência. Para não perder a face o nosso Carles vai despejar um bidom de gasolina na fogueira, provocar mais uma reacção dura do estado espanhol que parece que não sabe ter outras, talvez na esperança de que se acabar tudo à porrada, mais ainda, a simpatia vai cair para o lado catalão. Ainda está para nascer o político que não veja num seu seguidor com a cabeça rachada uma boa ocasião de propaganda.

Uma Catalunha independente voltaria atrás economicamente,internacionalmente passaria  de região de um grande país da Europa a país isolado que não conta para nada e ficaria , depois de inevitáveis migrações dolorosas, partido ao meio com ressentimentos para décadas. Claro que isso não interessaria muito ao Presidente da República Carles Puigdemont, cuja situação económica pessoal não seria ameaçada,  teria ainda mais privilégios e passaria a pensar nele próprio como o libertador da Catalunha.

Precisam-se de cabeças frias mas receio bem que a loucura já esteja em marcha.

 

Sobre a Catalunha

Uma das vantagens da minha antiga profissão era   passar muito tempo com estrangeiros.Quando digo “passava muito tempo” não estou a falar de trabalhar 8 horas por dia ou ter uns amigos com quem se bebiam uns cafés ou faziam uns jantares, estou a falar de viver juntos num barco  relativamente pequeno , em navegação no alto mar,  24 horas sobre 24  em viagens que ao todo podiam chegar a durar 3 meses. Como no mar não há a maior parte das  distrações comuns, conversas longas são inevitáveis, e eu como gosto de história e política aproveitava para, caso eles fossem pessoas capazes de manter uma conversa, aprender um bocado e ficar a conhecer os pontos de vista e experiências de gente de muito sítio.Se bem que a maioria eram ingleses ou americanos também naveguei com lituanos, panamenhos, franceses, peruanos, brasileiros, alemães, holandeses, belgas, sul africanos, suecos, dinamarqueses, australianos e uns poucos mais.

Há um ano e pouco um dos meus marinheiros foi um catalão. Um dos melhores tipos que já conheci, com um entusiasmo, boa disposição e atitude incrível, uma jóia de pessoa. Nas habituais trocas de emails que precediam o embarque apresentou-se como espanhol, se bem que o seu nome era puro catalão. Ao fim de uns dias a bordo fiz a pergunta que hoje anda na boca de meio mundo :

– E a independência da Catalunha?

A reacção corporal foi correspondente ao famoso “eh pá nem me fales nisso…” mas lá me deu a sua opinião. Em primeiro, irritava-o muito a atitude centralizadora de Madrid e certas atitudes mesquinhas como o desvio de uma autoestrada nova que vinha do Sul de França e o bom senso dizia devia passar por Barcelona mas os castelhanos fizeram (ou iam fazer passar, já não estou bem certo)  por Saragoça em vez de pela costa e Barcelona. Irritava-o o desnível nas contribuições para o orçamento do Estado em que a Catalunha contribui mais do que por exemplo a Andaluzia. De modo inverso, a Catalunha recebe menos investimento público do que regiões mais pobres como a Galiza. Vá-se lá saber porquê, aquela velha máxima do “de cada um de acordo com as suas possibilidades e a cada um de acordo com as suas necessidades” não cai lá muito bem quando se tenta fazer sair das páginas dos livros para a vida real.

Tirando essas reclamações,  certamente de resolução possível sem muito drama, o meu amigo dizia que era tudo uma grande manobra dos políticos catalães, ajudada involuntariamente pelas reacções ineptas e brutas dos castelhanos. O “sentimento independentista” subiu muito a partir da crise finceira de 2009, daí em diante todo o comunista e socialista da Catalunha se convenceu de que a solução para a crise económica era a independência, apesar de não haver nenhum exemplo histórico para citar,  de que a causa da crise e da austeridade era o centralismo espanhol e de que uma Catalunha independente poderia, talvez por artes mágicas, viver num sistema diferente e isolado do resto da Europa.

O meu amigo Pepo esperava que se entendessem e que parassem com agitação e os referendos mal amanhados, era orgulhosamente Catalão mas também se sentia bem como Espanhol, como há por exemplo centenas de milhar de Açorianos orgulhosos que são igualmente Portugueses orgulhosos. Não tem que haver contradição. As expectativas do Pepo não se materializaram e as coisas para lá complicam-se muito.

Liderados por  Puidgemont, que como todos os independentistas, tem um sonho de uma nação nova com ele à cabeça e por figuras da esquerda radical como a  sra Colau , alcaldesa que trabalha para  dificultar uma das principais fontes de receita de Barcelona, o turismo, os políticos agitadores não se coíbem, como todos os bons demagogos, de ir remexer no passado: A ditadura do Franco oprimia os Catalães. Isto é um facto, mas a ditadura acabou em 75 e hoje já ninguém oprime os catalães, pelo que trazer a ditadura ao debate é muito desonesto. Como se fala de política,  também é normal.

É sabido que as revoluções são feitas , por definição, contra a Lei , e que o facto de uma coisa ser legal não quer necessariamente dizer que seja boa , e vice versa. Apesar disso há processos que se observam e respeitam num Estado de direito que os agitadores da Catalunha há muito deixaram de respeitar, e agora parece-me que já vão na fase de criar factos no terreno para confrontar o governo com eles e é nítido que estão desejosos de provocar violência da parte das forças de segurança, falta-lhes o item da opressão física, já coleccionaram  todas as outras opressões, sobretudo as teóricas.

Os meandros do processo não são muito claros  para quem como eu não segue aquilo de  perto. Vou lendo umas coisas, entre elas este texto  de um jovem comunista nacional, para os comunistas foi muito fácil encontrar os bons e os maus da questão : o governo em Madrid é do PP, logo, tudo contra eles. Teve piada porque uns dias depois o correspondente em Portugal do El País respondeu-lhe também no Expresso, dizendo-lhe  por outras palavras que divulgue a sua propaganda e ideologia à vontade e que agite com entusiasmo mas faça um esforço para não mentir  tanto.

Não encontrei sondagens muito reveladoras mas nas últimas eleições regionais os indendentistas não conseguiram chegar a metade dos votos e depois há esta afirmação de um catalão ex presidente do parlamento europeu: 75% dos que falam catalão defendem a independência, 75% dos que falam outras línguas defendem as coisas como estão. As implicações disto são claras.Uma Catalunha independente seria à partida uma nação dividida como poucas.

Para os Catalães é fácil ver em Madrid um inimigo e na independência uma solução. Neste Domingo talvez vá  acontecer um referendo ilegal,  e depois disso ninguém sabe. A minha opinião nisto vale ainda menos do que de costume e é-me naturalmente impossível dizer o que faria se fosse catalão, o que achava se fosse espanhol ou o que é melhor para uns e outros, para isso é preciso ter um livro que explica tudo e nos diz sempre como nos devemos posicionar, como o do camarada José Soeiro. Dito isto, há coisas que tenho por verdadeiras:

  • Se a independência triunfa na Catalunha abre-se a porta a processos idênticos no resto da Espanha, em Itália e em França, com a questão da Córsega.
  • Onde quer que haja uma identidade local mais ou menos definida vai surgir um demagogo populista a explorá-la, procurando o poder pondo-nos a nós contra eles.
  • A União Europeia resiste à saída de um estado membro mas não resiste à desintegração de vários.
  • Para Portugal é muito melhor, em todos os aspectos, ter como vizinha a Espanha do que a Galiza, a Extremadura, a Andaluzia e Castela & Leão, ou combinações destas e outras regiões.
  • As vantagens económicas da independência para os catalães são improváveis, a única vantagem garantida é um  impulso no orgulho, que vale muito pouco. Exemplo : o Castelhano é a 4a língua mais falada no mundo, o Catalão é uma língua que não conta para nada.

Estas são razões válidas para esperar que eles se entendam, que arrefeçam os ânimos e  que encontrem uma solução que mantenha a Catalunha como região de Espanha. Por outro lado acredito no direito à autodeterminação dos povos e no direito dos cidadãos de expressarem a sua vontade pelo voto. Se não os deixam fazer o referendo o tema nunca se resolve.

Como estudante de História não me posso esquecer de que somos uma nação nascida da secessão e  guerra com Castela, que nascemos e crescemos em guerra com eles. Tinha uma certa graça se 875  anos depois do tratado de Zamora e 377 depois da Restauração nos virássemos para os  vizinhos e disséssemos:

-Ainda aqui estamos e a Espanha acabou.

Protestos

Sou 100% a favor de manifestações , de apoio ou repúdio , e acho que um país em que a população não se manifesta regularmente não é muito saudável. Existem manifestações e existem protestos violentos , e para apoiar ou desculpar esses já preciso de estar convencido primeiro de que a situação é desesperada e depois de que a violência pode de facto ajudar a resolver o problema.

Não é o caso da esmagadora maioria de protestos violentos de que vou tomando conhecimento , e não é certamente o caso dos motins que se têm visto de grupos a protestar contra o Trump. O pessoal que acha que está na “resistência” ao presidente vai ser uma das primeiras linhas da sua defesa : “estão a ver como são os que não gostam do Trump? Além  dessa publicidade negativa e de possivelmente adquirirem cadastro  não vão conseguir mais nada ,  vão contribuir para a queda do Trump mais ou menos na mesma medida em que o Que se Lixe a Troika contribuiu para a saída da troika de Portugal.

A América ainda é um país livre com instituições evoluídas ( lembrem-se , este é o quadragésimo quinto presidente em 240 anos , nós vamos em 22 em 107 anos  e desses só 7 foram lá postos em eleições “decentes” , pelo que é preciso cuidado quando criticamos o sistema eleitoral americano , mesmo quando permite eleger figuras extraordinárias e polarizadoras.

É engraçado notar como as eleições americanas entusiasmam as pessoas , e não foi só este ano pelo insólito todo da coisa . Que as pessoas se interessem , opinem e comentem sobre uma realidade que lhes diz relativamente pouco respeito , é normal. Que achem que de alguma forma conseguem alterar , influenciar  ou fazer  diferença pelas suas acções já me surpreende muito mais. Antes das eleições um grupo de celebridades que eu nunca tinha visto ( excepto o F.Alvim) fez um vídeo em que os participantes diziam para a câmara “I give a Fuck”, uma expressão idiomática de calão significando que eles se importavam com o resultado das eleições. Vi o vídeo e deixou-me com uma questão : porquê? além da autopromoção , o que é que eles esperavam alcançar com aquilo, eles que nem votam na eleição? Esperavam que um americano indeciso por acaso visse no youtube uma dúzia de desconhecidos a dizer por outras palavras que não se estão a cagar para o resultado , e isso falo-ia  agir? Não percebo , tal como não percebo a manifestação que vai haver amanhã em frente à embaixada dos EUA em Lisboa . Vai haver uma Marcha das Mulheres em Washington, naturalmente para protestar contra o Trump . Parece-me adequado , no sítio certo e na altura certa e gostava de ver dois milhões de manifestantes nessa marcha.

Ir para a porta da embaixada em Lisboa com um sucedâneo da Marcha das Mulheres é simplesmente ridículo, mas há sempre candidatos e é o que vai acontecer amanhã .

Estou a tornar-me chato com o Trump e voto aqui deixar o assunto por uns tempos bons . Não ouvi o discurso inaugural mas está aqui na íntegra. A palavra de ordem é patriotismo , que como sabemos resvala facilmente para o nacionalismo , que por sua vez , mesmo que venha cheio de intenções nobres , dá sempre cobertura e possibilita  um sem número de malfeitorias.  De resto não há surpresa, há demagogia , análises  trocadas  , promessas e soluções impossíveis, diagnósticos errados. Não há retórica elevada , é um discurso para o mínimo denominador comum e aparece lá, desligada , claramente porque tinha que ser inserida nalgum lado, esta frase :

The bible tells us how good and pleasant it is when God’s people live together in unity” .

” A bíblia diz-nos como é bom e agradável quando o povo de Deus vive junto em unidade” .

Talvez diga , não sei , mas é uma frase que obriga a  pensar no que é que entendemos por “povo de Deus” ,  “agradável” e “unidade” ,  e que sobretudo revela que os que defendem a separação  entre Religião e Estado não podem esperar boas coisas da nova administração.Por outro lado, tenho a certeza de que podemos esperar  um sem fim de ocasiões cómicas e  as sátiras e   polémicas não vão ter descanso . Do  ponto de vista do simples espectador que sou , isso é bom. E poucos sabem isso tão bem como o novo Presidente.

Deixo aqui para os possíveis interessados este documento relativo ao dossier mais importante que ando a analisar neste momento aqui no mundo real , o prazo está a chegar  , está a ocupar-me muito tempo em cálculos e comparações e a decisão está difícil .

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