Um espelho distante

Acabei um dos  livros que me deu mais gosto ler, de História que é o meu género favorito. Foi publicado em 1978, não há edição portuguesa e foi escrito por Barbara Tuchman, uma americana que apesar de ser autodidacta tem uma erudição assombrosa e além do mais, porque só isso nunca foi suficiente, escreve narrativas absorventes.

O livro é sobre o século XIV na Europa, século que logo na capa é descrito como calamitoso, e chama-se A Distant Mirror . Ao longo de 618 páginas (e mais umas dezenas em notas, só a bibliografia são 16 páginas) a autora mostra muito claramente porque é que foi calamitoso e quem teve os principais papéis na calamidade, obviamente deixando  juízos de valor para os leitores. Acompanha a vida e carreira de Enguerrand de Coucy um dos maiores nobres da França, figura extraordinária que esteve em quase todos os momentos chave da época, e com isso traça um quadro tremendo de toda uma época e cultura.

É um quadro bastante medonho de uma época de abusos e explorações do “povo”  quase inimagináveis, perpetradas pelos nobres com a colaboração activa e entusiástica da Igreja Católica, cheio de episódios e histórias arrepiantes que explicam bem porque é que a época é muitas vezes chamada de Idade das Trevas. Por exemplo, alguém que leia com atenção  a história do cisma que levou à instalação de um papa em Avignon e outro em Roma (e a dada altura um terceiro em Pisa) dificilmente pode  acreditar que a motivação do clero superior era outra além de poder e dinheiro. Um exemplo, quando Clemente V foi instalado pelos franceses em Avignon a cidade tinha menos de 4000 habitantes e instalaram-se imediatamente 43 representantes de banqueiros europeus. Onde estava o papado estava a finança. A lista das iniquidades da Igreja, desde o frade mais baixo ao Papa, que é extensa demais e não é objecto do livro,  na minha opinião faz empalidecer a contribuição positiva e é uma herança impossível de renegar, amenizar ou tentar justificar,  percebe-se bem como é que apareceu a Reforma e como é que a Europa mergulhou em guerras religiosas  décadas mais tarde. Se há conflitos de origem difusa ou que são causados por vários factores, as guerras religiosas que se seguiram à Reforma e mataram , estima-se, 10 milhões de pessoas nos séculos XVI e XVII, têm origem clara nos abusos dos Papas e de toda a hierarquia.

A quem quiser contrapor a isto  factores como o trabalho da igreja na educação respondo que se somos uma organização dedicada ao controlo precisamos de quadros, pelo que a razão se ser das escolas religiosas não era tanto uma vontade de disseminar o saber mas uma necessidade de educar  quadros e precisamente controlar esse mesmo saber.

Sobre a condição e as espoliações e massacres sofridos pelos Judeus em toda a Europa… bom, as sementes do holocausto nazi estavam lançadas há séculos e acho que só não aconteceu antes, e se calhar até em França, por falta de meios técnicos. Já em 1325 havia muitas notícias falsas, e uma chegava para provocar um massacre. A simpatia que tenho pelos judeus vem de ler História, a aversão que tenho aos anti semitas vem da aversão que tenho à ignorância maldosa. Na primeira linha da condenação e perseguição aos judeus estava a Igreja, e se não estou em erro demoraram até ao fim do século XX,  mais de 500 anos , a apresentar uma lamentação formal pelo papel de liderança em séculos de atrocidades.

As cruzadas foram outra coisa medieval absurda e malévola que espalhou mais miséria, ódio e destruição do que alguma vez pode ser compensada pelo que ficou dos contactos com o Oriente, especialmente porque os contactos eram principalmente a ferro e fogo. Há um pormenor que acho delicioso, assim de uma maneira mórbida, na questão das Cruzadas. Os Papas que as convocavam declaravam indulgência plenária para todos os cruzados assim que chegassem à Palestina. As indulgências, para quem não sabe, eram o perdão dos pecados que a igreja  vendia, tal como anulações ou autorizações para casamentos com parentes e outros actos, enfim, tudo o que caísse sob  regulação da igreja podia ser comprado. As indulgências também podiam ser concedidas sem ser mediante pagamento directo, como no caso dos cruzados. Ora, as cruzadas começavam habitualmente no centro e norte da Europa e o caminho para a Palestina é muito longo. Vezes sem conta os cruzados, justificadamente, raciocinavam do seguinte modo:

-Quando chegarmos à Terra Santa vamos receber o perdão integral dos pecados, todos os pecados acumulados até lá serão perdoados, logo…

É fácil de calcular (para nós, para a Igreja não era, ou não interessava) as devastações e abusos que estas hordas cometiam  a caminho da Palestina, seguros da absolvição papal. Também as cruzadas tiveram o mérito de fazer florescer o tráfico em relíquias, trouxeram-se e venderam-se centenas de Cruzes Verdadeiras, lágrimas de nossa senhora, costelas de S.Pedro, espinhos da coroa de Cristo, enfim , quem voltasse da Palestina (ou convencesse as pessoas que voltava da Palestina) e pegasse num pau encontrava dezenas de pessoas, incluindo abades e letrados, dispostos a pagar fortunas pelo pau se dissesse com convicção que era um pedaço da cruz ou que um trapo era um pedaço da mortalha de Cristo. É desta época que nos chega o Sudário de Turim, que ainda hoje é visitado por devotos apesar de os métodos modernos de datação provarem que é uma obra  da Idade Média. Sobre os resultados a longo prazo das Cruzadas, é olhar para lá, para a “Terra Santa”, para o poder dos “Infiéis” e o modo como ainda hoje a palavra cruzado é dita no Islão com asco e ressentimento.

Não tenho o hábito de anotar os livros à medida que vou lendo  mas vou trabalhar nisso, especialmente naqueles que sei que me vai dar vontade de falar neles a seguir, neste caso só já bem depois de meio é que me lembrei, deparei-me com uma frase tão espectacular que deixei uma marca e volto lá agora. A autora falava de Wycliffe , um clérigo inglês que entre muitas outras coisas era reformista, logo, herege:

“Num cúmulo de heresia, transferiu a Salvação da agência da Igreja para o Indivíduo: Porque cada homem que será condenado será condenado pela sua própria culpa, e cada homem que será salvo será pelo seu próprio mérito“. Desapercebido, aqui estava o começo do mundo moderno”. 

Outra parte extraordinária é a descrição da batalha de Nicopolis  , em que uma coligação de Franceses, Húngaros, Venezianos, Romenos, Polacos, Genoveses e Ingleses, e ainda um contingente de Hospitalários enfrentou os Turcos do Sultão Bajazet, e foi redondamente derrotada.  Foi a última cruzada medieval, marcou o fim da época da cavalaria no sentido romântico do termo e foi daquelas batalhas que tinha tudo para ser ganha e no entanto foi deitada a perder pela arrogância, vaidade e excesso de confiança dos Franceses que assim condenaram os Balcãs a 500 anos de domínio Otomano. Este livro não fez nada  para melhorar a minha opinião sobre a igreja, antes pelo contrário,  e dá-se o mesmo em relação aos Franceses. Eu sei, a História também serve para aprendermos a não generalizar e para combater preconceitos mas os meus deram-me muito trabalho a cultivar e defender e não os vou largar assim por uma coisa qualquer, até porque nunca passam do plano das ideias e reconheço-os pelo que são. Para mim   criticar a igreja é quase uma obrigação, criticar os franceses é mais  um  desporto, que  ainda tem mais piada quando falo destas coisas com amigos franceses.

Tinha mais meia dúzia de páginas com o canto dobrado a indicar que havia ali alguma coisa que queria ressalvar mas agora não encontro exactamente o que era. Só há 3   referências a Portugal, uma para dizer que um almirante português ao serviço do Duque de Lencastre capturou o navio do tal  Enguerrand de Coucy num “raid audacioso” ; um parágrafo para falar dos projectos  do Infante d. Henrique , “um neto de John de Gaunt” (que nós só conhecemos por Duque de Lencastre);  outra referência ao vinho e nada mais, em toda esta História europeia do século XIV este canto da península não conta para muito aos olhos desta historiadora americana, e com certa razão já que escolheu como fio condutor da sua narrativa um nobre francês.

Hei-de ler este livro outra vez, calculo que o título evoque o reflexo de nós mesmos e da nossa sociedade que vemos quando olhamos com atenção para as profundezas do passado.

Agora vou-me abalançar a fazer a tradução de um pequeno ensaio chamado Socialismo e História que está noutro livrinho que veio nesta fornada e quero pôr aqui porque o acho extremamente importante, fala de experiências socialistas séculos antes do Saint  Simon, Marx, Engels  e restante rapaziada. Não haja suspense, correu sempre mal.

O Museu das Descobertas

Li  um artigo  só  porque tinha no título “choldra“, é um termo de que gosto muito, ainda o ano passado ano reli Os Maias e quase me arrepiei com a quantidade de parágrafos que podiam  ter sido escritos hoje.

Não vou comentar o artigo, digo só que o achei deprimente e realista, acho que não se consegue ser realista sem ser um bocado deprimente e pela parte que me toca já desisti de esperar que Portugal mude para melhor. É uma choldra mas é a nossa choldra, e ou emigramos (hoje já não é um drama emigrar como foi durante o governo do Passos) ou aceitamos e seguimos com a nossa vida o melhor que pudermos. Portugal é isto e disto não passa, para usar uma expressão comum aqui na ilha. Quanto mais cedo aceitarmos isso mais poupamos os nervos e melhor  podemos organizar a nossa vida.

Bom, estava então a deprimir-me um bocado com o artigo quando vejo que há um projecto para a criação de um Museu das Descobertas, em Lisboa como não podia deixar de ser.

Uma das características da nossa choldra é que na cabeça do que entre nós passa por elite Portugal é Lisboa e “descentralizar” é um termo que deve sempre permanecer teórico e abstracto e nunca, mas nunca ser  aplicado consequentemente, como  ficou demonstrado pela rábula da mudança do Infarmed para o Porto. É um termo a utilizar por políticos em campanha pela província,  para esquecer na viagem de regresso à capital.

E onde querias tu um Museu das Descobertas sem ser em Lisboa?” Assim de repente ocorre-me Lagos , onde viveu grande  parte da sua vida uma figura que teve alguma importância nas Descobertas e é conhecido por Infante D.Henrique. Lagos foi  o porto de onde partiram as primeiras verdadeiras viagens de descoberta e  foi o centro da navegação  e expansão Atlântica durante décadas. Mas não  deve ser,  Lagos já tem turismo que chegue, ou talvez turismo a mais  (acho que isso agora é um problema, como não podia deixar de ser depois de termos turismo a  menos) , se calhar até alguém sugeriu isso mas os outros riram-se todos com a ideia de fazer uma coisa dessas  fora de Lisboa.

Sobre este futuro museu não sei mais nada, nem me vou dar ao trabalho de saber, só soube pelo mesmo artigo que existe polémica. Ao que percebo há um grupo de historiadores e cientistas  sociais que tem objecções, ou à própria existência do museu, ou ao seu nome, ou a ambas. Deixem-me adivinhar, a liderar o contingente dos historiadores está o Fernando Rosas, do lado dos “cientistas” está o Sousa Santos. Ponho “cientistas” entre aspas porque em fazendo meia dúzia de  cadeiras que tenho em atraso há  mais de 20 anos davam-me um papel a dizer que sou licenciado em ciências sociais, isso bastaria para me apresentar como “cientista social” mas o meu sentido de humor tem limites .

Como lembra o autor do artigo e como dizia o João da Ega, “aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete”. Substituindo o paquete pela internet e a easyjet e acrescentando à lista as causas e indignações, isto é  verídico cento e tal anos depois de ter sido escrito. Nos países anglo saxónicos e boa parte do resto da Europa hoje caminha-se sobre brasas e não só as figuras públicas se torcem e retorcem para evitar ofender seja o que for (este torcer e retorcer só é possível a quem não tem espinha dorsal) como nunca pára a denúncia e indignação com o que sai fora do cânone da “modernidade” e dos estabelecido como correcto. Exemplo recente, no Reino Unido dois tripulantes de um salva vidas foram despedidos porque tinham canecas com mulheres nuas e o comissário político que os controla escandalizou-se e arranjou maneira de os despedir. Em 2018 é ofensivo que marinheiros profissionais bebam o seu café em canecas com um desenho ou foto de uma mulher nua. Este pessoal  ofende-se com muito pouco, e isso só é grave porque de cada vez que se ofendem com merdas sem jeito nenhum arranjam maneira de encravar a vida ao próximo.

Então parece que falar em “descobertas” ofende ou incomoda muita gente. As ciências sociais (sem aplicar o método científico por ser impossível neste caso) proclamam que  a expansão marítima foi negativa, para não usar palavras mais fortes. A historiografia de esquerda abomina-a e nunca perde uma oportunidade de apresentar os seus protagonistas como bestas furiosas e quem os admira hoje como reaccionários fascistóides e insensíveis.

Quero fazer dois comentários, o primeiro quanto à objecção ao termo “descobertas”. Diz-se que Índias e outras paragens não foram descobertas porque já lá existia gente e essa gente, mais os vizinhos, já sabia naturalmente da existência dessas terras. Isto é um bocado como dizer que o Fleming não descobriu a penicilina, uma vez que sempre existiu penicilina, já lá estava, e só porque o Fleming foi o primeiro a identificá-la e descrevê-la isso não quer dizer que a tenha descoberto, é isso? A Marie  Curie não descobriu nenhuma radioactividade porque  sempre houve radioactividade. Este pessoal nunca descobre um restaurante ou um livro, visto que já existiam antes de os encontrarem e já eram conhecidos por outros. Parece-me um argumento miserável.

Que já houvesse habitantes nas terras alcançadas pelos portugueses de 500 não tem nada a ver com terem sido descobertas,  como de resto qualquer dicionário pode confirmar. Se é de palavras isoladas que estamos a falar, nada como usar um dicionário. Se na Europa ninguém sabia da existência do Brasil por mais gente  que lá houvesse, se ninguém nunca tinha falado no Brasil nem fazia ideia nenhuma de que aquela terra ali existia, segue que quem a encontra, localiza, descreve e divulga a descobriu, e isto aplica-se ao Brasil e a todas as outras terras das quais os portugueses foram os primeiros a dar notícias na Europa. É eurocentrismo? Talvez, mas uma vez que somos europeus, vivemos na Europa e estamos a discutir História da Europa não é descabida uma visão europeia , ou é? Em que circunstâncias é que se poderia então falar em Descobertas?

Nunca ouvi dizer que os portugueses descobriram a Índia, descobriram sim o caminho marítimo para lá, podemos contar isso como uma descoberta ou não, uma vez que os oceanos e seus cabos e ventos sempre lá estiveram? É a verdadeira questão de lana caprina que prolifera nas academias e de vez em quando sai cá para fora quando querem dar prova de vida ou envolver-se nos debates da moda, obviamente importados da estranja.

O segundo comentário é quanto aos julgamentos de valor que se fazem dos portugueses de 500 e suas acções. Gente que consegue desculpar e justificar  Castros e Lenines em 2 parágrafos fica agastadíssima com a veneração a um Gama ou Albuquerque. Interesso-me por história colonial e da Expansão desde que me lembro , começou pelos sonhos incendiados em garoto por livros como a versão juvenil da Peregrinação do Adolfo Simões Muller e outras glorificações dos descobrimentos (leituras que não foram estranhas à carreira profissional que segui e à vontade enorme de seguir as esteiras dos navegadores) e está hoje numa visão realista , ninguém me consegue surpreender com  mais um exemplo das barbaridades e crueldades perpetradas no Ultramar e suas motivações.Mais de 20 anos de leituras e viagens tiraram-me as ilusões que tinha quando era garoto e  conheço suficientemente bem a História. Nem de propósito terminei ontem de reler um dos vários livros de VS Naipaul que esclarece bem o tema, nesse caso é a história de Trinidad.  Assim de repente e para quem quer uma introdução rápida às iniquidades e misérias do colonialismo sugiro mais dois,  A Brevíssima  Relação da Destruição das ÍndiasO Soldado Prático , este último comprei-o quando ainda romantizava as Descobertas, a pensar que era sobre a vida diária de um soldado português na Índia e acabou por ser dos livros que mais me chocou na vida, destruiu-me as ilusões quanto à organização e gestão do Império Português e às acções dos portugueses por lá. Equlibrem com qualquer livro do Charles Boxer, bom para dar a dimensão real da coisa e pôr as corrupções e violências em perspectiva e contraste com os avanços e construções.

Um dos problemas é que os que vituperam e demonizam os colonizadores (alguns sem dúvida verdadeiros demónios) partem de uma premissa improvável: tinha sido melhor para, por exemplo, os Guaranis, se o Cabral nunca tivesse descoberto (ou descrito, ou localizado, o que quiserem) o Brasil.  Não sabemos, não temos nem nunca teremos maneira de saber e dizer que só  levámos destruição e caos é ignorar tudo o que também lá criámos, o valor de todas as trocas e o valor para a Europa dessa descoberta. Se não fossem os portugueses seriam os Espanhóis, se não os Espanhóis seriam os Holandeses, o que é mesmo certo é que dada a assimetria tecnológica nunca seriam os Guaranis a atravessar o Atlântico e a descobrir Portugal. É impossível afirmar que não fora o Infante e Cabral e todos os outros os Guaranis , ou os Bantus ou qualquer outro povo, ia ter uma existência muito melhor. Isso é história contra factual e vale o que vale, vale um exercício. Será que a nossa vida seria melhor se não tivesse havido  conjura e Restauração em 1640? Nunca vamos saber.

Outro problema: a ideia falsa mas muito difundida de que os Guaranis, ou os Hindus, viviam numa tranquila, pura e pacífica existência quando  chegaram os portugueses e deram cabo de tudo. Quando por exemplo o Gama chegou a Calicut o Samorim era a autoridade única e absoluta;  uma  vida humana valia pouco mais que nada, a escravatura e o sistema de castas eram regra há séculos, o comércio estava nas mãos  de mercadores estrangeiros e a guerra com os vizinhos (tal como em África e na Amazónia) era o modo de vida aceite e comum. Os indígenas Caribs faziam expedições com milhares de guerreiros às ilhas vizinhas só para capturar e comer outras tribos,  não é razão para lhes roubar a terra mas também mostra que paraísos plácidos e incorruptos existiam era na cabeça das pessoas. É outra que devemos ao Rousseau com o seu delírio do  bom selvagem .

Neste livro , que não recomendo aos “anti descobrimentos” nem a almas sensíveis que se chocam  com grandes feitos de armas e são mais de dar as mãos e cantar o Kumbaya, há uma tabela muito interessante com todos os soberanos do Indostão desde o ano 1001 até 1754. Em 750 anos tiveram 64 soberanos , desses 64, 25 foram assassinados,  vários  pelos próprios filhos. Mais de 1/3 dos soberanos morreu assassinado, aquilo já eram terras de violência extrema e instabilidade quando os portugueses lá chegaram e assim continuaram. Os escravos levados da costa ocidental africana para as Américas eram na sua maioria comprados a outros  indígenas, e quando não a outros indígenas , a árabes que desde há séculos desciam para a África sub sahariana ( ocidental e oriental) nas suas razzias e capturavam e comerciavam gente. Não inventámos nada, a não ser técnicas de navegação e só a extensão dessas, e os feitos marítimos perfeitamente assombrosos, deviam chegar para nos encher de orgulho. Claro que para reconhecer a dimensão de um feito marítimo é preciso compreender alguma coisa sobre navios, navegação e alto mar e para isso os livros não chegam.

Não há que branquear ou escamotear as atrocidades feitas durante a expansão mas por favor nem sequer me tentem convencer com a teoria  que pretende que invadimos um mundo pacífico, ordenado e justo, que fomos nós que levámos a opressão e a guerra e que se os tivéssemos deixado estar  tinha sido melhor para todos.

Não sei quem foi que disse que Portugal deu novos Mundos ao Mundo mas tenho para mim que é verdade, que é o nosso maior legado e contribuição,  termos iniciado a Globalização,  para o bem e para o mal. Quem é contra a globalização e as trocas e contactos entre povos distantes tem que admitir que prefere cada um no seu cantinho, cada raça sua raça sem misturas e  sem comércios. Quem diz que outra globalização é possível  não vive neste mundo e não se lhe pode prestar atenção.

Façam o Museu, não se armem em parvos e chamem-lhe Das Descobertas, façam-no por exemplo na Cordoaria já que é inconcebível que não seja em Lisboa, e encham-no de artefactos, representações  e documentos que mostrem como era a vida cá em 1400, como era a vida no Brasil , África e Índias em 1500, como é que os portugueses lá chegaram, o que é que levaram, construíram e trouxeram   e quais foram as consequências , boas e más,  dessa chegada e presença, para o país, a Europa e o Mundo. Estou seguro de que é possível, assim haja vontade e se excluam da organização os fanáticos dos dois lados, conseguir o equilíbrio necessário entre a visão romântica e a visão dramática, e depois deixem os juízos de valor para cada visitante.

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Termino com mais uma sugestão de leitura sobre o tema, um livro recente chamado “Conquistadores” , que tem a vantagem de ser escrito por um estrangeiro, logo, com um olhar  distanciado e imune às nossa quezílias e posturas internas. Detalha e ilustra bem a aventura extraordinária das Descobertas sem poupar no sangue, horrores e iniquidades mas sem nunca  desvalorizar a bravura,  determinação,  resistência e capacidades quase inacreditáveis daquelas gerações.

PS: vejo hoje que as carcassas da academia desceram das suas torres bafientas para propôr que o museu se chame “Museu da Interculturalidade”. Típico, este pessoal vive no seu universo e nem bate a pestana a propôr para nome do museu uma palavra que uma boa metade  da população não percebe e nem eles próprios conseguem definir sem um subsídio de investigação científica e 72 páginas de elocubrações.

 

Árvore,livro, filho.

Já plantei muitas árvores, algumas vingaram, outras foram comidas pelas ovelhas, outras ainda vão crescer, a minha preferida é um castanheiro que está enorme , quando foi plantado era uma varinha com um metro e meio hoje tem quase sete metros e já posso lá pendurar a rede e deitar-me à sombra dele.

Filhos, não vou ter. Mesmo que houvesse condições materiais ( a começar por uma mãe para o filho) sempre fui  demasiado egoísta para querer sacrificar a vida toda por outro ser e passar a fazer a minha vida depender da vida dele. Se me permitissem adoptar um já criado era capaz de pensar nisso, mas de certeza que há uma lei ou regulamento  que não permite homens sozinhos adoptarem crianças.Se calhar com boa razão, não sei. Acho que já há gente bastante no mundo,  os meus pais já têm bastantes netos e a ideia de que as nossas crianças vão ser especiais e fazer a diferença é ainda mais egoísta do que não as querer ter para não nos condicionarem a vida.

Mesmo assim, duas em três não está mal e se bem que esta história da árvore, livro e filho vale o que vale (pouco), fico satisfeito por  ter escrito e estar aqui a publicar um livro. O que separa o ficheiro PDF que partilho aqui de uma edição em papel são 300 ou 400€ que me fazem mais falta para outras coisas e uma questão de princípio, não quero pagar  para publicar a história. Está  disponível para quem não se importar de ler num écran, em PDF, no menu superior e outra vez mesmo aqui ao lado.

 

Edições Modernas

Em 2015 escrevi um livro, conta a história de uma viagem marítima entre Malta e Annapolis, nos Estados Unidos, misturada com partes da minha vida pessoal e outros assuntos que me interessam e gosto de explorar. Passado um ano comecei a enviá-lo para editoras, fiquei muito surpreendido (hoje já não ficaria) porque logo a primeira a que enviei aceitou  o manuscrito… com uma condição : eu tinha que comprar uma carrada de exemplares. Todas as “novas” editoras diziam o mesmo e  as editoras “clássicas” nunca me responderam, coisa que também não me surpreende nem incomoda nada porque todos sabemos de escritores  que tiveram os seus primeiros trabalhos recusados dezenas de vezes, anos a fio. Além disso o livro não é assim tão bom, acho-o engraçado e  interessante sobretudo para quem gosta de vela oceânica mas fica-se por aí, e não é falsa modéstia. Também foi uma espécie de terapia, retorci-me para conseguir falar de uma paixoneta que na altura me corroeu por dentro e por fora, fez-me bem remoer aquilo tudo e contar a história. Mesmo que fique sempre uma pequena parte por contar.

Acabo de dizer a outra editora, que me tinha sido referida (por um editor) como sem custos para o autor e que se mostrava  satisfeita por publicar  a história, que  retiro o meu pedido de consideração do manuscrito dado que  afinal sempre querem que eu compre um mínimo de  exemplares. Das coisas que mais me custa é ter que vender alguma coisa, o argumento de que se pode ganhar mais dinheiro vendendo os próprios livros comigo não colhe, sou averso a publicidade e à famosa “exposição” .A  ideia de me ir sentar numa mesinha numa livraria qualquer frente a 4 (ou 40)  pessoas para  falar  sobre o livro confrange-me, e mais ainda a ideia de andar a pedir a amigos e familiares que o comprem, sabendo que grande percentagem o iria fazer precisamente por amizade e laços familiares, por favor e consideração e não por realmente querer ler aquilo. Sei que é assim entre outras coisas porque já comprei livros desses.

Dêem-lhe as voltas que quiserem, estas compras de exemplares pelos autores não são mais do que a cobertura das despesas principais de edição e o reconhecimento ou cálculo da parte do editor de que a publicação só por si não é rentável. Mesmo que tivesse  o dinheiro para financiar uma edição não o faria , gostava de ter um livro publicado  mas tinha que ser pelo seu mérito próprio e não porque paguei para isso. Ainda por cima, além de pagar ia figurar no catálogo de editoras que às vezes me parece que publicam seja o que for desde que se pague.

Sendo assim, a menos que esta última editora recue e aceite publicar a coisa sem me obrigar a comprar exemplares à cabeça, no mês que vem vou oferecer a história em formato PDF a quem a quiser, vou  pôr aqui um link para se descarregar o ficheiro directamente.

Estou  a começar outro, que tem que ser melhor do que o anterior em tudo mas desta vez vai ser ficção, para fazer comentários e falar sobre o que faço e como penso já me basta este blog.

 

 

Redistribuição

Estou a reler uma colectânea de textos do Howard Zinn,  historiador americano que morreu em 2010 e cuja maior contribuição para a Historiografia foi “A People’s History of The United States”, uma obra que mostrou pela primeira vez aos Americanos que a sua história não  é aquele cruzamento fabuloso entre Disney e Hollywood a ilustrar o triunfo do destino manifesto e que afinal  está, como todas as coisas que envolvem Homens, carregada de contradições,infâmias, injustiças e prepotências de toda a espécie.

Começando logo pelo princípio, até vir o Zinn gerações de americanos eram educadas na admiração do Colombo como descobridor e espécie de “proto fundador” da Civilização Ocidental na Américas.  Respaldando-se em grande parte na inevitável,demolidora e pouco divulgada obra de frei  Bartolomé de Las Casa, Brevíssima Relação da Destruição das Índias para o seu primeiro capítulo, “A História Popular dos Estados Unidos”  explicou a milhões de americanos mais ou menos estupefactos as realidades do genocídio e espoliação dos nativos e tudo o que se lhe seguiu, do ponto de vista dos pequenos.

Durante séculos a História foi feita de campanhas militares, sucessões dinásticas, tratados entre nações.Não sei quando começou a mudança e o interesse em contar a História da Sociedade contando-a em  todas as suas partes sem olhar apenas para as chancelarias e campos de batalha, mas foi uma revolução muito bem vinda e necessária, e Zinn foi mestre nesse campo.

Foi por ler o Zinn e as suas descrições dos movimentos laborais americanos no século XIX e princípio do século XX que me comecei a interrogar sobre o modo como as lutas laborais são feitas na nossa época e a total banalização e desvirtuamento da noção de greve, desde a convocação de greves contadas em horas com exigências mais ou menos abstractas, sempre à sexta ou à segunda, até à sua transformação em simples meio de pressão e ameaça para satisfazer exigências de pequenas minorias. Howard Zinn foi toda a vida apaixonadamente Socialista mas lê-lo mostra que é possível ser militante , radical como sempre foi chamado nos EUA, e envolvido directamente sem nunca perder de vista o fundamental : há uma Verdade, há factos e acontecimentos que são verdadeiros, e depois há conjecturas,opiniões e ideias, mas a luta política deve ser feita com base no que é verdadeiro,demonstrado e demonstrável. Não era por ser socialista que Zinn se abstinha de criticar e descrever o totalitarismo da URSS, ainda nos anos 70, nós por cá em 2017 ainda ouvimos apologias e esquivas de toda a ordem , da parte tanto de políticos como de historiadores, estas coisas levam sempre  muito tempo. A única censura que lhe faço é que mesmo que vivesse até aos 120 iria  sempre olhar para os fracassos dos regimes socialistas como defeitos do executante e não da ideia.

Mas não é só  para recomendar o Howard Zinn que escrevo isto, é porque a dada altura, numa lista de coisas que ele tem como seguramente evidentes lê-se  a necessidade da redistribuição dos recursos dos ricos. Não me vou alongar agora sobre o tema, que é sem dúvida dos mais prementes e sérios nas nossas sociedades, sempre na boca dos políticos mais à esquerda, quero só apresentar uma questão, que talvez até tenha resposta óbvia mas eu ainda não a vejo:

  • Redistribuir significa voltar a distribuir. Se se defende a redistribuição do dinheiro dos ricos parte-se do princípio que já houve uma distribuição anterior . A minha pergunta é:  que distribuição foi esta que tem que ser refeita, quem é que fez a original e como?

Isto pode parecer estúpido ou irrelevante, mas  acho que é importante e espero voltar ao assunto.

Livros

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Não  sou capaz de ler só um livro de cada vez , tenho sempre uns quantos à cabeceira porque não consigo adormecer sem ler mas nem sempre me apetece ler a mesma coisa. Um livro que nunca vou ler é o livro mais falado em Portugal nos últimos dias , o do Cavaco Silva. Calculo que a escrita do ex presidente seja tão emocionante e inspiradora como a sua personalidade , a rotina do Palácio de Belém não me interessa , o lugar que o Cavaco pensa que ocupa na história também não e não preciso de saber mais nada sobre o Sócrates.

Continuo a ler o Ensaio sobre a Lucidez , devagarinho e com perseverança . Gosto muito do pressuposto ( o que é que acontecia se a maioria da população de repente votasse em branco) e ninguém pode duvidar de que o Saramago é um mestre do vocabulário , agora a questão da pontuação é difícil , é preciso uma pessoa habituar-se por exemplo à tal falta de pontos de interrogação ,  à divisão das orações e ao modo como se usam maiúsculas e minúsculas , ou seja , é preciso esquecer por momentos alguma gramática que aprendemos na escola . Ainda não vou a meio e se não fosse pelo voto que fiz de ler pelo menos um livro desse autor este ano se calhar já tinha desistido.

Dantes tinha por regra terminar todos os livros que começava , abandonei-a quando percebi que há mais livros já publicados dentro dos meus interesses e por autores que admiro do que o que eu teria tempo suficiente para ler , pelo que deixei de insistir em leituras que não me dão prazer , a vida é muito curta para ler em esforço. Por isso abandonei a leitura de O Fim dos Segredos  , um livro sobre a Opus Dei e a Maçonaria. A Opus Dei  é uma seita católica que defende e pratica uma moral e uma visão social e religiosa que ficaria confortável em 1950 . Têm muito dinheiro , são muito organizados , trabalham para se expandir e têm práticas bizarras mas o que é certo é que ninguém é obrigado a juntar-se a eles , e  lavar  o cérebro às criancinhas não é crime nem ofensa , os filhos são deles e acredito que os pais devem poder escolher a educação que acham melhor para os filhos. Gostarem de mortificar a carne e acharem que trabalham para ser “santos” não prejudica ninguém , há pancadas muito piores.

Quanto  à Maçonaria , é um clube que serve para conhecermos amigos e nos ajudarmos mutuamente nas carreiras . Os rituais , fardetas , graus honorários e designações estapafúrdias têm um quê de ridículo , mas é verdade que são menos inofensivos que os da Opus porque um dos principais motores deste clube é a política e estou convencido de que a maioria adere porque espera impulsionar a sua carreira política. Uma  motivação como outra qualquer , a questão vem do secretismo e do modo como os “irmãos” se protegem uns aos outros. Se um deputado ou ministro se revela um canalha ou um incompetente , afastá-lo torna-se muito difícil se ele for “irmão” , e por aí fora.

Outro livro que comecei e abandonei este mês foi Terra Sangrenta , é uma história dos trabalhos dos Comunistas e Nazis nas décadas de 30 e 40 do século passado , na Polónia , Bielorrúsia e Ucrânia. Abandonei-o por  depressão , é de tal maneira trágico e horrível que me chegava a sentir fisicamente mal disposto , não deu para continuar. A História é o meu assunto preferido , tenho algumas luzes sobre o período que antecedeu a Segunda Guerra e sobre a própria mas ser assim confrontado com a história de massacres deliberados de milhões de pessoas , no caso do Estaline , cidadãos do próprio país, é brutal, ainda por cima  grande parte é contada na primeira pessoa , é de arrepiar . Viver num país onde um partido que arvora orgulhosamente a bandeira da foice e do martelo ,  tem voto nas políticas do governo e é perfeitamente capaz de defender o Estalinismo só aumentou a minha náusea , não fui capaz de acabar aquilo.

Esse livro foi-me emprestado por um amigo que ao mesmo tempo me emprestou A Obra ao Negro , de Marguerite  Yorcenar , um romance histórico passado na Europa do tempo da Reforma , quando os Países Baixos estavam sob domínio Espanhol e se queimavam pessoas por proporem sistemas diferentes ou questionarem a “ciência” aprovada pelos teólogos . Acabei-o ontem , adorei , nunca me canso de ler sobre a longa , tortuosa e incompleta viagem do Homem para se libertar do obscurantismo e superstição e perceber o Mundo. Vou procurar mais livros dela ,  quando acabei este passei os olhos pelas minhas estantes e reparei que nem um em cem livros são escritos por mulheres. Não sei se é por haver menos mulheres a escrever sobre os temas que me interessam , não sei se é por ler pouca ficção , não sei se é alguma misoginia que aqui anda ou simples ignorância , mas é certo que  tinha que fazer um grande esforço para nomear uma mão cheia de escritoras de que gosto. Tenho que ver se resolvo isso antes que o Governo & apêndices , na sua cruzada pela paridade , legisle no sentido de obrigar as pessoas a terem bibliotecas em equilíbrio de género.

Outro livro que estou a ler é a Guerra das Gálias , História na primeira pessoa e o testemunho de um dos mais fascinantes e brilhantes personagens da História da Europa , Julio César . É muitíssimo interessante ver como na sua base e essência a política  e as operações militares pouco mudaram desde o ano 50AC , é espectacular acompanhar as evoluções e tácticas das Legiões e admirar o génio, verdadeiro génio de César , que liderava como poucos e que  fazia questão de conhecer os inimigos e o território a fundo . Tembém é interessante ver que ao contrário do que possamos acreditar sobre o primitivismo das tribos gaulesas , havia um sistema e organização social e política sofisticada … mas não tanto como em  Roma. Como estou convencido de que estamos em fim de ciclo e os tempos são propensos à queda de impérios , guerras com bárbaros e declínios de civilizações , leituras sobre Roma Antiga são muito instrutivas.

Não acredito que a História se repete mas acredito que há coisas que nunca mudam , quanto mais depressa soubermos e percebermos quais são, melhor para nós.

PS: esses links são todos da Wook, uma livraria online que só usei uma vez e não recomendo de maneira nenhuma , os livros estão todos disponíveis noutras lojas , os links são só  ilustrativos.

Escrita

Sei que nunca  vou ser um escritor no sentido comum do termo porque  me falta o que é comum a todos os escritores decentes :  a pulsão incontrolável de escrever ou a disciplina para escrever mesmo quando não se tem vontade nenhuma. Fora disto não há nada , não há talento que resista à falta de prática e perseverança nem há qualidade em textos escritos em esforço.

Todos os “gurus” da escrita ( farto-me de rir quando vejo pessoas a dar “cursos de escrita criativa” e nas suas qualificações há um blog e um livro publicado pela Chiado Editora)  insistem em que é preciso forçar a palavra , trabalhar a frase ,  lutar contra a folha em branco , insistir , apagar e voltar  escrever , sempre. Eu até concordo , mas muitas vezes o resultado é mau  quando os produtos  dessa insistência são publicados .

Vivemos na época da auto publicação em que deixou de existir a condição primordial que existia ainda há 20 anos : para publicar alguma coisa tem que haver pelo menos uma revisão do texto por alguém qualificado e o texto tem que ser julgado interessante por pelo menos mais uma pessoa . Hoje é escrever e carregar no botão , na net é à borla , se querem publicar um livro em papel quaisquer 1000€ fazem de vocês um autor. A qualidade está diluída numa torrente de banalidades e mediocridade , a aparência e/ou fama  dos autores  vende textos , os correctores ortográficos automáticos camuflam limitações e insuficiências e a “barulheira” é tal que uma pessoa se perde facilmente .

Sabem qual é o livro mais vendido em Portugal nesta altura ? “O meu Plano do Bem” , a autora é uma personalidade da televisão e a sinopse do livro é medonha , é o género de coisa que só interessa a quem lê colunas sociais e que pensa que por ler aquilo poderá ficar mais perto de uma vida como a da autora , ignorando que ser  bonito e famoso não se aprende nos livros nem se atinge com planos de cinco etapas. Aposto o que quiserem que se a senhora fosse uma anónima de  Fornos de Algodres podia levar aquilo às editoras que quisesse que ninguém lhe passava cartucho , aquilo existe e foi publicado porque a autora é bonita e famosa e isso atrai as pessoas , mesmo que os textos sejam amálgamas recicladas  de pseudo filosofias de bem estar e inanidades básicas tipo aquelas em que se especializou Gustavo Santos , um indivíduo que diz , sob aplausos tremendos , coisas assim :

Só aquele que ousa, por sua livre e espontânea vontade, abandonar o rebanho da indolência para fazer o seu próprio destino é que alcançará, verdadeiramente, o total poder da alma que é.

Aqui o que não é óbvio é confuso , como seria de esperar de um gajo que  fala longamente sobre “assumir a alma” , mas  ele é um referencial no mercado da auto ajuda , mercado ao qual os portugueses chegaram como é normal com cinquenta anos de atraso, o que por uma vez lhes confere uma  vantagem : têm para trás de si cinquenta anos de  produção alheia para requentarem e adaptarem .

No segundo lugar da   lista dos livros mais vendidos vem a JK Rowling , e isso para mim demonstra outro factor poderoso nisto das escolhas de leitura: a moda. Não devia ser assim mas é , e tal como na questão da roupa fico estupefacto ao ver que a maioria das pessoas usa como critério para as suas escolhas o que os outros usam ou lêem : Isto usa-se muito sempre foi o suficiente para eu não usar uma coisa desde que saí da adolescência , a única época da vida em que é aceitável querermos fazer e parecer como os outros .

Na   minha proposta de “rotina 2017” reservei os Sábados para escrever , ou pelo menos umas horas dos Sábados ( era para ter começado anteontem mas tive uma matança de um porco) , em  que vou esforçar-me por escrever uma página mesmo que não me ocorra nem me apeteça nada. Isto não quer dizer que a regularidade ou qualidade dos posts aqui vai melhorar, quer só dizer que é  um exercício que vou levar mais a sério , para minha própria edificação e melhoramento , não esperando mais do que provocar um sorriso aqui , uma reflexão ali , talvez algum enervamento num comunista que aqui venha por acaso num dia de textos sobre política.

Talvez  no fim de algumas dezenas de   Sábados me encontre com um monte de páginas interessante sobre os dois únicos temas sobre os quais  eu poderia escrever alguma coisa de qualidade : viagens marítimas à vela ou a vida numa ilha pequena e remota.

Por falar nisso , no outro  dia escrevi aí ,  a propósito de já nem sei bem o quê , “ilha isolada” . Ninguém reparou e eu deixei ficar como exemplo de um problema que eu aponto aos outros mas do qual não estou livre : as dezenas de erros e  incorrecções que lemos todos os dias , e ninguém se importa muito.

PS: estou a ler o Ensaio sobre a Lucidez , do J.Saramago , já vou na página 70 e tal e ainda não encontrei um único ponto de interrogação , está-me a fazer muita confusão.