Árvore,livro, filho.

Já plantei muitas árvores, algumas vingaram, outras foram comidas pelas ovelhas, outras ainda vão crescer, a minha preferida é um castanheiro que está enorme , quando foi plantado era uma varinha com um metro e meio hoje tem quase sete metros e já posso lá pendurar a rede e deitar-me à sombra dele.

Filhos, não vou ter. Mesmo que houvesse condições materiais ( a começar por uma mãe para o filho) sempre fui  demasiado egoísta para querer sacrificar a vida toda por outro ser e passar a fazer a minha vida depender da vida dele. Se me permitissem adoptar um já criado era capaz de pensar nisso, mas de certeza que há uma lei ou regulamento  que não permite homens sozinhos adoptarem crianças.Se calhar com boa razão, não sei. Acho que já há gente bastante no mundo,  os meus pais já têm bastantes netos e a ideia de que as nossas crianças vão ser especiais e fazer a diferença é ainda mais egoísta do que não as querer ter para não nos condicionarem a vida.

Mesmo assim, duas em três não está mal e se bem que esta história da árvore, livro e filho vale o que vale (pouco), fico satisfeito por  ter escrito e estar aqui a publicar um livro. O que separa o ficheiro PDF que partilho aqui de uma edição em papel são 300 ou 400€ que me fazem mais falta para outras coisas e uma questão de princípio, não quero pagar  para publicar a história. Está  disponível para quem não se importar de ler num écran, em PDF, no menu superior e outra vez mesmo aqui ao lado.

 

Edições Modernas

Em 2015 escrevi um livro, conta a história de uma viagem marítima entre Malta e Annapolis, nos Estados Unidos, misturada com partes da minha vida pessoal e outros assuntos que me interessam e gosto de explorar. Passado um ano comecei a enviá-lo para editoras, fiquei muito surpreendido (hoje já não ficaria) porque logo a primeira a que enviei aceitou  o manuscrito… com uma condição : eu tinha que comprar uma carrada de exemplares. Todas as “novas” editoras diziam o mesmo e  as editoras “clássicas” nunca me responderam, coisa que também não me surpreende nem incomoda nada porque todos sabemos de escritores  que tiveram os seus primeiros trabalhos recusados dezenas de vezes, anos a fio. Além disso o livro não é assim tão bom, acho-o engraçado e  interessante sobretudo para quem gosta de vela oceânica mas fica-se por aí, e não é falsa modéstia. Também foi uma espécie de terapia, retorci-me para conseguir falar de uma paixoneta que na altura me corroeu por dentro e por fora, fez-me bem remoer aquilo tudo e contar a história. Mesmo que fique sempre uma pequena parte por contar.

Acabo de dizer a outra editora, que me tinha sido referida (por um editor) como sem custos para o autor e que se mostrava  satisfeita por publicar  a história, que  retiro o meu pedido de consideração do manuscrito dado que  afinal sempre querem que eu compre um mínimo de  exemplares. Das coisas que mais me custa é ter que vender alguma coisa, o argumento de que se pode ganhar mais dinheiro vendendo os próprios livros comigo não colhe, sou averso a publicidade e à famosa “exposição” .A  ideia de me ir sentar numa mesinha numa livraria qualquer frente a 4 (ou 40)  pessoas para  falar  sobre o livro confrange-me, e mais ainda a ideia de andar a pedir a amigos e familiares que o comprem, sabendo que grande percentagem o iria fazer precisamente por amizade e laços familiares, por favor e consideração e não por realmente querer ler aquilo. Sei que é assim entre outras coisas porque já comprei livros desses.

Dêem-lhe as voltas que quiserem, estas compras de exemplares pelos autores não são mais do que a cobertura das despesas principais de edição e o reconhecimento ou cálculo da parte do editor de que a publicação só por si não é rentável. Mesmo que tivesse  o dinheiro para financiar uma edição não o faria , gostava de ter um livro publicado  mas tinha que ser pelo seu mérito próprio e não porque paguei para isso. Ainda por cima, além de pagar ia figurar no catálogo de editoras que às vezes me parece que publicam seja o que for desde que se pague.

Sendo assim, a menos que esta última editora recue e aceite publicar a coisa sem me obrigar a comprar exemplares à cabeça, no mês que vem vou oferecer a história em formato PDF a quem a quiser, vou  pôr aqui um link para se descarregar o ficheiro directamente.

Estou  a começar outro, que tem que ser melhor do que o anterior em tudo mas desta vez vai ser ficção, para fazer comentários e falar sobre o que faço e como penso já me basta este blog.

 

 

Redistribuição

Estou a reler uma colectânea de textos do Howard Zinn,  historiador americano que morreu em 2010 e cuja maior contribuição para a Historiografia foi “A People’s History of The United States”, uma obra que mostrou pela primeira vez aos Americanos que a sua história não  é aquele cruzamento fabuloso entre Disney e Hollywood a ilustrar o triunfo do destino manifesto e que afinal  está, como todas as coisas que envolvem Homens, carregada de contradições,infâmias, injustiças e prepotências de toda a espécie.

Começando logo pelo princípio, até vir o Zinn gerações de americanos eram educadas na admiração do Colombo como descobridor e espécie de “proto fundador” da Civilização Ocidental na Américas.  Respaldando-se em grande parte na inevitável,demolidora e pouco divulgada obra de frei  Bartolomé de Las Casa, Brevíssima Relação da Destruição das Índias para o seu primeiro capítulo, “A História Popular dos Estados Unidos”  explicou a milhões de americanos mais ou menos estupefactos as realidades do genocídio e espoliação dos nativos e tudo o que se lhe seguiu, do ponto de vista dos pequenos.

Durante séculos a História foi feita de campanhas militares, sucessões dinásticas, tratados entre nações.Não sei quando começou a mudança e o interesse em contar a História da Sociedade contando-a em  todas as suas partes sem olhar apenas para as chancelarias e campos de batalha, mas foi uma revolução muito bem vinda e necessária, e Zinn foi mestre nesse campo.

Foi por ler o Zinn e as suas descrições dos movimentos laborais americanos no século XIX e princípio do século XX que me comecei a interrogar sobre o modo como as lutas laborais são feitas na nossa época e a total banalização e desvirtuamento da noção de greve, desde a convocação de greves contadas em horas com exigências mais ou menos abstractas, sempre à sexta ou à segunda, até à sua transformação em simples meio de pressão e ameaça para satisfazer exigências de pequenas minorias. Howard Zinn foi toda a vida apaixonadamente Socialista mas lê-lo mostra que é possível ser militante , radical como sempre foi chamado nos EUA, e envolvido directamente sem nunca perder de vista o fundamental : há uma Verdade, há factos e acontecimentos que são verdadeiros, e depois há conjecturas,opiniões e ideias, mas a luta política deve ser feita com base no que é verdadeiro,demonstrado e demonstrável. Não era por ser socialista que Zinn se abstinha de criticar e descrever o totalitarismo da URSS, ainda nos anos 70, nós por cá em 2017 ainda ouvimos apologias e esquivas de toda a ordem , da parte tanto de políticos como de historiadores, estas coisas levam sempre  muito tempo. A única censura que lhe faço é que mesmo que vivesse até aos 120 iria  sempre olhar para os fracassos dos regimes socialistas como defeitos do executante e não da ideia.

Mas não é só  para recomendar o Howard Zinn que escrevo isto, é porque a dada altura, numa lista de coisas que ele tem como seguramente evidentes lê-se  a necessidade da redistribuição dos recursos dos ricos. Não me vou alongar agora sobre o tema, que é sem dúvida dos mais prementes e sérios nas nossas sociedades, sempre na boca dos políticos mais à esquerda, quero só apresentar uma questão, que talvez até tenha resposta óbvia mas eu ainda não a vejo:

  • Redistribuir significa voltar a distribuir. Se se defende a redistribuição do dinheiro dos ricos parte-se do princípio que já houve uma distribuição anterior . A minha pergunta é:  que distribuição foi esta que tem que ser refeita, quem é que fez a original e como?

Isto pode parecer estúpido ou irrelevante, mas  acho que é importante e espero voltar ao assunto.

Livros

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Não  sou capaz de ler só um livro de cada vez , tenho sempre uns quantos à cabeceira porque não consigo adormecer sem ler mas nem sempre me apetece ler a mesma coisa. Um livro que nunca vou ler é o livro mais falado em Portugal nos últimos dias , o do Cavaco Silva. Calculo que a escrita do ex presidente seja tão emocionante e inspiradora como a sua personalidade , a rotina do Palácio de Belém não me interessa , o lugar que o Cavaco pensa que ocupa na história também não e não preciso de saber mais nada sobre o Sócrates.

Continuo a ler o Ensaio sobre a Lucidez , devagarinho e com perseverança . Gosto muito do pressuposto ( o que é que acontecia se a maioria da população de repente votasse em branco) e ninguém pode duvidar de que o Saramago é um mestre do vocabulário , agora a questão da pontuação é difícil , é preciso uma pessoa habituar-se por exemplo à tal falta de pontos de interrogação ,  à divisão das orações e ao modo como se usam maiúsculas e minúsculas , ou seja , é preciso esquecer por momentos alguma gramática que aprendemos na escola . Ainda não vou a meio e se não fosse pelo voto que fiz de ler pelo menos um livro desse autor este ano se calhar já tinha desistido.

Dantes tinha por regra terminar todos os livros que começava , abandonei-a quando percebi que há mais livros já publicados dentro dos meus interesses e por autores que admiro do que o que eu teria tempo suficiente para ler , pelo que deixei de insistir em leituras que não me dão prazer , a vida é muito curta para ler em esforço. Por isso abandonei a leitura de O Fim dos Segredos  , um livro sobre a Opus Dei e a Maçonaria. A Opus Dei  é uma seita católica que defende e pratica uma moral e uma visão social e religiosa que ficaria confortável em 1950 . Têm muito dinheiro , são muito organizados , trabalham para se expandir e têm práticas bizarras mas o que é certo é que ninguém é obrigado a juntar-se a eles , e  lavar  o cérebro às criancinhas não é crime nem ofensa , os filhos são deles e acredito que os pais devem poder escolher a educação que acham melhor para os filhos. Gostarem de mortificar a carne e acharem que trabalham para ser “santos” não prejudica ninguém , há pancadas muito piores.

Quanto  à Maçonaria , é um clube que serve para conhecermos amigos e nos ajudarmos mutuamente nas carreiras . Os rituais , fardetas , graus honorários e designações estapafúrdias têm um quê de ridículo , mas é verdade que são menos inofensivos que os da Opus porque um dos principais motores deste clube é a política e estou convencido de que a maioria adere porque espera impulsionar a sua carreira política. Uma  motivação como outra qualquer , a questão vem do secretismo e do modo como os “irmãos” se protegem uns aos outros. Se um deputado ou ministro se revela um canalha ou um incompetente , afastá-lo torna-se muito difícil se ele for “irmão” , e por aí fora.

Outro livro que comecei e abandonei este mês foi Terra Sangrenta , é uma história dos trabalhos dos Comunistas e Nazis nas décadas de 30 e 40 do século passado , na Polónia , Bielorrúsia e Ucrânia. Abandonei-o por  depressão , é de tal maneira trágico e horrível que me chegava a sentir fisicamente mal disposto , não deu para continuar. A História é o meu assunto preferido , tenho algumas luzes sobre o período que antecedeu a Segunda Guerra e sobre a própria mas ser assim confrontado com a história de massacres deliberados de milhões de pessoas , no caso do Estaline , cidadãos do próprio país, é brutal, ainda por cima  grande parte é contada na primeira pessoa , é de arrepiar . Viver num país onde um partido que arvora orgulhosamente a bandeira da foice e do martelo ,  tem voto nas políticas do governo e é perfeitamente capaz de defender o Estalinismo só aumentou a minha náusea , não fui capaz de acabar aquilo.

Esse livro foi-me emprestado por um amigo que ao mesmo tempo me emprestou A Obra ao Negro , de Marguerite  Yorcenar , um romance histórico passado na Europa do tempo da Reforma , quando os Países Baixos estavam sob domínio Espanhol e se queimavam pessoas por proporem sistemas diferentes ou questionarem a “ciência” aprovada pelos teólogos . Acabei-o ontem , adorei , nunca me canso de ler sobre a longa , tortuosa e incompleta viagem do Homem para se libertar do obscurantismo e superstição e perceber o Mundo. Vou procurar mais livros dela ,  quando acabei este passei os olhos pelas minhas estantes e reparei que nem um em cem livros são escritos por mulheres. Não sei se é por haver menos mulheres a escrever sobre os temas que me interessam , não sei se é por ler pouca ficção , não sei se é alguma misoginia que aqui anda ou simples ignorância , mas é certo que  tinha que fazer um grande esforço para nomear uma mão cheia de escritoras de que gosto. Tenho que ver se resolvo isso antes que o Governo & apêndices , na sua cruzada pela paridade , legisle no sentido de obrigar as pessoas a terem bibliotecas em equilíbrio de género.

Outro livro que estou a ler é a Guerra das Gálias , História na primeira pessoa e o testemunho de um dos mais fascinantes e brilhantes personagens da História da Europa , Julio César . É muitíssimo interessante ver como na sua base e essência a política  e as operações militares pouco mudaram desde o ano 50AC , é espectacular acompanhar as evoluções e tácticas das Legiões e admirar o génio, verdadeiro génio de César , que liderava como poucos e que  fazia questão de conhecer os inimigos e o território a fundo . Tembém é interessante ver que ao contrário do que possamos acreditar sobre o primitivismo das tribos gaulesas , havia um sistema e organização social e política sofisticada … mas não tanto como em  Roma. Como estou convencido de que estamos em fim de ciclo e os tempos são propensos à queda de impérios , guerras com bárbaros e declínios de civilizações , leituras sobre Roma Antiga são muito instrutivas.

Não acredito que a História se repete mas acredito que há coisas que nunca mudam , quanto mais depressa soubermos e percebermos quais são, melhor para nós.

PS: esses links são todos da Wook, uma livraria online que só usei uma vez e não recomendo de maneira nenhuma , os livros estão todos disponíveis noutras lojas , os links são só  ilustrativos.

Escrita

Sei que nunca  vou ser um escritor no sentido comum do termo porque  me falta o que é comum a todos os escritores decentes :  a pulsão incontrolável de escrever ou a disciplina para escrever mesmo quando não se tem vontade nenhuma. Fora disto não há nada , não há talento que resista à falta de prática e perseverança nem há qualidade em textos escritos em esforço.

Todos os “gurus” da escrita ( farto-me de rir quando vejo pessoas a dar “cursos de escrita criativa” e nas suas qualificações há um blog e um livro publicado pela Chiado Editora)  insistem em que é preciso forçar a palavra , trabalhar a frase ,  lutar contra a folha em branco , insistir , apagar e voltar  escrever , sempre. Eu até concordo , mas muitas vezes o resultado é mau  quando os produtos  dessa insistência são publicados .

Vivemos na época da auto publicação em que deixou de existir a condição primordial que existia ainda há 20 anos : para publicar alguma coisa tem que haver pelo menos uma revisão do texto por alguém qualificado e o texto tem que ser julgado interessante por pelo menos mais uma pessoa . Hoje é escrever e carregar no botão , na net é à borla , se querem publicar um livro em papel quaisquer 1000€ fazem de vocês um autor. A qualidade está diluída numa torrente de banalidades e mediocridade , a aparência e/ou fama  dos autores  vende textos , os correctores ortográficos automáticos camuflam limitações e insuficiências e a “barulheira” é tal que uma pessoa se perde facilmente .

Sabem qual é o livro mais vendido em Portugal nesta altura ? “O meu Plano do Bem” , a autora é uma personalidade da televisão e a sinopse do livro é medonha , é o género de coisa que só interessa a quem lê colunas sociais e que pensa que por ler aquilo poderá ficar mais perto de uma vida como a da autora , ignorando que ser  bonito e famoso não se aprende nos livros nem se atinge com planos de cinco etapas. Aposto o que quiserem que se a senhora fosse uma anónima de  Fornos de Algodres podia levar aquilo às editoras que quisesse que ninguém lhe passava cartucho , aquilo existe e foi publicado porque a autora é bonita e famosa e isso atrai as pessoas , mesmo que os textos sejam amálgamas recicladas  de pseudo filosofias de bem estar e inanidades básicas tipo aquelas em que se especializou Gustavo Santos , um indivíduo que diz , sob aplausos tremendos , coisas assim :

Só aquele que ousa, por sua livre e espontânea vontade, abandonar o rebanho da indolência para fazer o seu próprio destino é que alcançará, verdadeiramente, o total poder da alma que é.

Aqui o que não é óbvio é confuso , como seria de esperar de um gajo que  fala longamente sobre “assumir a alma” , mas  ele é um referencial no mercado da auto ajuda , mercado ao qual os portugueses chegaram como é normal com cinquenta anos de atraso, o que por uma vez lhes confere uma  vantagem : têm para trás de si cinquenta anos de  produção alheia para requentarem e adaptarem .

No segundo lugar da   lista dos livros mais vendidos vem a JK Rowling , e isso para mim demonstra outro factor poderoso nisto das escolhas de leitura: a moda. Não devia ser assim mas é , e tal como na questão da roupa fico estupefacto ao ver que a maioria das pessoas usa como critério para as suas escolhas o que os outros usam ou lêem : Isto usa-se muito sempre foi o suficiente para eu não usar uma coisa desde que saí da adolescência , a única época da vida em que é aceitável querermos fazer e parecer como os outros .

Na   minha proposta de “rotina 2017” reservei os Sábados para escrever , ou pelo menos umas horas dos Sábados ( era para ter começado anteontem mas tive uma matança de um porco) , em  que vou esforçar-me por escrever uma página mesmo que não me ocorra nem me apeteça nada. Isto não quer dizer que a regularidade ou qualidade dos posts aqui vai melhorar, quer só dizer que é  um exercício que vou levar mais a sério , para minha própria edificação e melhoramento , não esperando mais do que provocar um sorriso aqui , uma reflexão ali , talvez algum enervamento num comunista que aqui venha por acaso num dia de textos sobre política.

Talvez  no fim de algumas dezenas de   Sábados me encontre com um monte de páginas interessante sobre os dois únicos temas sobre os quais  eu poderia escrever alguma coisa de qualidade : viagens marítimas à vela ou a vida numa ilha pequena e remota.

Por falar nisso , no outro  dia escrevi aí ,  a propósito de já nem sei bem o quê , “ilha isolada” . Ninguém reparou e eu deixei ficar como exemplo de um problema que eu aponto aos outros mas do qual não estou livre : as dezenas de erros e  incorrecções que lemos todos os dias , e ninguém se importa muito.

PS: estou a ler o Ensaio sobre a Lucidez , do J.Saramago , já vou na página 70 e tal e ainda não encontrei um único ponto de interrogação , está-me a fazer muita confusão.

Correspondência

É um truísmo dizer que o ritmo das estações se sente mais no campo,  se o campo fica no meio do Oceano isso ainda se torna mais verdade. Começa hoje o Inverno , e ainda estou para perceber qual a razão que levou os proponentes de uma nova grafia para o Português a achar que as estações do ano não mereciam maiúsculas. O Outono foi excelente e a chave para passar um bom Inverno é a preparação. Tirando um pequeno problema com a chaminé da salamandra (à espera de peças , vem no próximo barco) estou pronto para a quase hibernação invernal , e estou muito entusiasmado porque comprei uma arca congeladora e uma máquina de fazer pão, com estas duas maravilhosas conveniências da vida moderna posso ir às compras só de quinze em quinze dias .  Com hibernação não quero dizer não sair de casa, é mais não ter que sair da propriedade se não me apetecer, até o cão corre aqui à porta.

A minha caixa do correio fica um bocado afastada da casa e  de vez em quando o carteiro entrega-me a correspondência quando nos cruzamos na estrada ,como hoje. A correspondência é sempre rara e boa parte é publicidade, entre outras coisas hoje recebi este envelope :

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Já tinha reparado que aqui os partidos políticos comunicam muito por correspondência , além das boas festas recebo sempre informação sobre as actividades dos partidos na região , e na ilha . No envelope do PCP , com as boas  festas  e uma carta do deputado vinham 4 cópias a cores dos recentes requerimentos do PCP na Assembleia Regional. Estes requerimentos não são mais do que perguntas formais ao governo , eu aprecio que se pergunte  e louvo a vontade de comunicar com os cidadãos mas pergunto-me se não se estão aqui a desperdiçar recursos com estes mailings tão frequentes. Se me mandam isto a mim calculo que mandem a toda a gente , talvez a todos os eleitores recenseados , 3100. Que mandem só aos votantes , que nas últimas eleições foram 1000 .Que mandem a um terço  por causa das casas com vários eleitores, 300 . Pergunto-me que sentido faz  a cada semestre imprimir 1200 páginas a cores , agrupá-las e enviá-las para 300 casas nas quais ( arrisco , dois terços vão directo para o lixo , uma dúzia é   lida por curiosidade e o resto é lido por pessoas que já apoiam  o deputado.

Acho um desperdício, ainda por cima porque os requerimentos versam temas dos quais todos os partidos  regularmente falam , como  das lixeiras e as “acessibilidades” , são  temas recorrentes mesmo que a situação melhore a olhos vistos.  Outros , como o mau cheiro que se faz sentir na Escola Básica , dificilmente valem enviar para todos os eleitores uma cópia formal do requerimento…certamente que há coisas mais sérias para implicar do que com os mailings dos partidos mas o tema da comunicação entre os políticos e os eleitores interessa-me bastante e isto ilustra bem o número de coisas que se fazem por hábito ou por precedente , sem de vez em quando tentar avaliar os resultados do que se está a fazer.

Por exemplo , apesar de estar demonstrado que a relação entre ganhos eleitorais e número de cartazes é no máximo ténue , continuam-se a emporcalhar paredes e erguer placards idiotas a cada eleição.  Aqui um  deputado tem a possibilidade rara de poder falar pessoalmente  com todo o eleitorado , pelas minhas contas e se fosse esse o objectivo fazia-o em 3 meses dedicando menos de metade de cada dia à coisa , em dois meses eliminando os visceralmente opostos e falando com famílias ao mesmo tempo. Gostava de ver isso e mentia se dissesse que nunca pensei em  me meter na política , mas só o modo como dizemos isso,  “meter-se na política” , repele-me logo. Além disso há 3 factores que me impedem sequer de pensar nisso a sério , o primeiro é que ser continental é uma desvantagem que eventualmente  esmoreceria  só  com décadas de serviço prestado.O segundo , actividade política ou candidatura a cargos implica escrutínio e atenção pública e obrigação de prestar atenção à opinião pública sobre a minha pessoa , não quero nada disso . Por fim talvez o mais importante , dado que há muitas maneiras de ter actividade politica sem ser necessariamente candidato um cargo : não há partido para mim , já me custa muitas vezes votar num quanto mais juntar-me a um e trabalhar por uma agenda .

De qualquer modo ,  é verdade  que proximidade entre eleitores e eleitos dá para os dois lados ,  aqui é muito fácil falar directamente com deputados e autarcas e se um dia achar que tenho uma contribuição válida e que a quero dar  nada me impede de a oferecer , sem mais compromisso nenhum.

Este  foi dia de correio “especial” ,além do envelope do PCP recebi uma factura de uma conta que paguei há dois meses , um serviço de assinaturas na Noruega que me permite assinar uma publicação com preços de estudante. Já funcionou bem no passado mas agora está-me a irritar porque é o segundo aviso que recebo , da primeira vez disseram-me de lá que devia haver um problema de atraso com a transferência , mas dois meses é demais. Eu devia saber que não me devia meter em negócios com países de terceiro mundo com  sistemas bancários do século passado e uma cultura de corrupção , estes Noruegueses nunca me enganaram…até agora.

Recebi também uma factura da Vodafone , diz que eu lhe devo uma penalidade contratual de 50€. Não duvido que estivesse lá nas letras miudinhas mas cobrar uma penalidade quando eu mudo o contrato para uma tarifa superior parece-me uma prática bastante estúpida. Felizmente vou amanhã para Lisboa e vou ter a possibilidade de passar umas horas numa loja Vodafone à espera de  explicações. Se por acaso insistirem, cancelo o contrato todo , cerro os dentes e pago outra penalização mas  eles perdem um cliente de toda a vida e com contas em dia  , felizmente há muita gente a vender o que eles vendem e quando as companhias tomam  atitudes que nos desagradam só há uma coisa a fazer , não lidar com elas.

Recebi também  um livro, o volume que  me chamou logo a atenção . Veio de Inglaterra , sem remetente , é um livro novo , “Narrow Dog to Carcassone” que pelos vistos é uma comédia sobre um casal que decide ir num narrowboat  de Inglaterra ao Mediterrâneo. Não estou habituado a receber correspondência anónima , sei que tenho dois ou três amigos ingleses capazes de me mandar um livro mas se o fizessem metiam um bilhete ou pelo menos avisavam , por isso estou intrigado com isto. De qualquer maneira , receber um livro é sempre bom.

 

Saramago

Tenho duas resoluções para o ano novo , é coisa que não costumo fazer mas este ano vai ser diferente , e a primeira já a estou a cumprir , foi simplesmente organizar uma espécie de rotina diária , tipo reservar as sextas feiras para as limpezas domésticas e as quintas para cozinhar e fazer compras. Está a resultar bem e preciso de um bocado mais de organização na minha vida ,  vamos ver se passa de Janeiro.

A segunda resolução foi ler um livro do Saramago.

Estou agora a ouvir na Antena2 um programa dedicado ao aniversário do prémio nobel , onde falam só pessoas que idolatram o Saramago , encabeçados por uma espanhola que viveu mais de 10 anos com o que é alegadamente o maior génio da língua portuguesa dos últimos 50 anos , que vive regularmente  em Portugal há uns 10 e  é directora de uma organização que opera alegadamente em prol da língua portuguesa   sustentada pelo contribuinte português , mas ainda não encontrou tempo ou ocasião para aprender a falar português , não deixa de ser assinalável.

Decidi ler um livro do Saramago porque sempre que penso nele tenho a impressão de que estou muito errado , que aquilo deve ser escrita maravilhosa e só o meu preconceito   me impede de o reconhecer e apreciar a sua obra. Se há o que parece ser  unanimidade quanto à genialidade universal dele , é mais provável ser eu que estou errado ou que pelo menos não estou a ver bem as coisas. Já tentei , 3 vezes, e por 3 vezes não cheguei ao segundo capítulo. O Memorial do Convento , por não apreciar o vernáculo reles posto na voz do narrador e o tom generalizado de escárnio mesquinho, não passei de ” não sei quantos anos e a rainha ainda não emprenhara”. As pessoas , reis ou camponeses , não emprenham . Que a expressão tivesse sido posta na boca de um personagem , tudo bem , senão não se contam histórias assim , pelo menos a mim não.

Depois comecei a ler o Homem Duplicado mas depois de meia dúzia páginas lembrei-me de que já tinha lido O Sósia do Dostoyevsky e não me apetecia ler duas histórias sobre o mesmo pressuposto. A terceira  foi  a “História do Cerco de Lisboa” , eu adoro história em geral e é o género que mais consumo  mas não fui capaz de prosseguir muito na leitura do que me pareceu que se podia  chamar “História Idealizada das Barbaridades Perpetradas pelos Cruzados e outros Cristãos contra o bom povo Muçulmano de Lisboa”.

Um amigo disse-me que devia era ler “Levantado do Chão” e é esse que vou buscar à biblioteca no mês que vem e fazer um esforço para me abstrair da figura e das opiniões e actividades políticas do Saramago e ver se lhe consigo fazer justiça como escritor ou se estou condenado a não conseguir ver para lá do comunista cheio de ódio . Como toda gente , quer queira quer não , tenho visto muitas citações de Saramago e ainda estou para ver uma que admire me faça pensar outra coisa que não : “isso quer dizer o quê, mesmo?” A primeira que vi foi há muitos anos numa porta de um anfiteatro na Universidade de Santa Catarina , no Brasil :

O que será de nós quando se perder a última dignidade do mundo?”  Isto para mim é uma pergunta retórica vazia , mas como foi elaborada por um Nobel , decora universidades. No discurso do nobel ( do qual estou a ouvir excertos na rádio) , ressalvo a queixa , dirigida aos políticos : “não estão a cumprir o ideal da democracia”. Isto é verdade , mas vindo de quem vem ,  de um estalinista irreformado que nunca renegou o comunismo de linha dura e que defendia sistemas ditatoriais , mete um bocado de nojo. Outra frase : “Com a mesma veemencia com que reinvindicamos direitos , reinvidiquemos também o dever dos nossos deveres”. Se alguém me quiser explicar o que é que isto quer dizer , agradeço.

É esta maneira de escrever , voltas e voltas sem conseguir ser claro , com pontuações e sintaxes heterodoxas , construída sobre uma visão conflituosa do mundo e uma  considerável hipocrisia que me causam esta relutância. Mas é este ano , e quem sabe não vou conseguir destacar o pensamento político e atitudes do Saramago da sua literatura, afinal o Garcia Marquez também era comunista e eu li e reli a adorei a maior parte da obra dele.

Este bajuladores  da rádio estão agora a relembrar o dia em que se anunciou o nobel e a delirar : “o país explodiu de alegria“. Nitidamente estas pessoas não conhecem o país em que vivem , confundem-no com o seu mundo lisboeta de livrarias e museus e institutos e colóquios e provavelmente conseguem defender que o Saramago é ao autor mais lido , eu  acho que é o mais comprado, são coisas distintas.  Acredito que se o beato  do Sousa Lara tivesse feito o seu trabalho de secretário de estado em vez de se armar em censor com o Evangelho Segundo J.Cristo  o J.Saramago nunca tinha tido a publicidade que teve e a aura de “perseguido” que tanto contribuiu para sobrevalorizar a sua escrita. Se o próprio fosse pessoa de outro calibre tinha achado que era uma acção ridícula da parte do governante , que o prémio não interessava ( como garantem todos os autores, os prémios não são o principal…) e continuado com a sua vida em vez de fazer disso o facto sobre o qual girou e se desenvolveu a sua carreira.

Se alguém me quiser recomendar outro livro ou apresentar uma citação do José Saramago digna de ser emoldurada , daquelas que realmente provocam o pensamento e dirigem o olhar , agradecia . Estou sempre pronto para mudar de opinião e reconhecer que estava errado. Ao contrário de pessoas como o Saramago.