Estado de Choque

Uma das muitas vantagens de viver aqui é não ter que conviver com adeptos dos clubes rivais tão ferrenhos como eu, nunca os ouvir nem aturar. Bastava-me não ir ao mais importante café da vila em dias de jogo, e não me custava nada ouvir uma  boca cruzada de vez em quando, entrava-me por um ouvido e saía-me por outro, até porque o nível do debate que ouço é quase sempre inane.

Claro que conheço vários portistas e benfiquistas mas nunca me chatearam, por uma  simples razão : eu nunca os chateei  a eles. Toda a gente sabe  que eu sou  do Sporting porque todos os jogos lá estava em frente à TV num café, e quando esse fechou, no outro, mas sempre. Quando o SLB foi campeão ouvi um foguete  e passaram na estrada ao pé de casa uns 5 carros a apitar, depois passaram para baixo e foi só isso, este ano com o FCP foi só o foguete.

Não tenho TV, uma das principais razões de nunca desconfiar muito nem me fartar do Bruno de Carvalho, nunca o via nem o ouvia e muito menos aos abjectos programas de TV que moem e remoem e regurgitam e voltam a remoer questões e pormenores de merda com um nível de merda, em todos os canais.  Como é que sei que eram abjectos se não os via? Porque me bastavam excertos de 5 ou 10 segundos que ia apanhando na net e porque lia o suficiente sobre os comentadores e jornalistas em sentido lato que durante anos fizeram de fomentar a discórdia e espalhar intrigas e  ódio o seu ganha pão.

Via as capas dos jornais quase todos os dias e sempre soube que um dos mais graves problemas do desporto português era ter 3 jornais  desportivos diários . Como somos um país que não se interessa por desporto que não seja o futebol esses três jornais dedicam 95% ao futebol e têm que arranjar material para encher páginas todos os dias, dia após dia, num país do tamanho do nosso. Quem não sabe, inventa, e eles nunca se fizeram rogados. Não sei como é possível alguém acreditar que um jornalista português se especializa em desporto e não tem um clube preferido, mas é o que se fingiu acreditar e talvez ainda finja. As pessoas que seguem o tema compreendem-me perfeitamente, às outras não as vou estar a enojar com exemplos.

O meu avô era sócio 1900 e tal do SCP e o meu tio materno era Leão de Ouro, esse tio morreu o mês passado e teve com isso a graça de ser  poupado a isto que vivemos hoje, ia-lhe partir o coração. Ofereceu-me uma assinatura do jornal do clube, pensei, se é para saber como vão as equipas e o clube realmente mais vale confiar nos meus do que nesta seita que, comprovadamente, faz todo o dia fretes aos adversários e além do mais não tem nada de realmente importante a informar. As TVs fazem directos de um aeroporto se uma equipa vai jogar ao estrangeiro ou se chega um jogador, certamente que não sou o único a achar isso um absurdo mas sempre foi assim. Como é possível?

Quando o meu sobrinho mais velho tinha 5 anos cheguei um dia a casa da minha irmã e comecei-lhe a falar de futebol. “Sou do Benfica”, tentou ele. Peguei-lhe, fomos ao estádio (felizmente mora ali ao pé) , comprei-lhe um equipamento completo com nome nas costas e tudo ( felizmente nessa altura podia) e no fim de semana seguinte fomos ver um Sporting – FCP que vencemos com um golo do Marius Niculae. Remédio santo, o meu sobrinho  é sportinguista de gamebox, e  percebe muito mais de bola do que eu, por ter jogado…nas escolas do SCP, e se calhar até podia ter dado um bom trinco ou defesa central mas felizmente teve juízo.

No mês passado ao telefone os outros cinco sobrinhos pequenos que tenho fizeram questão de me lembrar que este ano no Natal era para irmos  ver o Sporting como eu tinha prometido, eles nunca se esquecem, moem a cabeça ao meu irmão com isso e eu já fazia contas à vida e ao calendário. Já lhes tinha dito que nós não ganhamos sempre, aliás, ganhamos muito raramente , mas que isso não é tudo. O importante é dar sempre o melhor, jogar com lealdade,  e lutar até ao fim. Para nós que não jogamos, o importante é a festa,os amigos , a conversa, a emoção e saber que de cada vez que começa um jogo nós temos sempre a possibilidade de o ganhar. Estas últimas já não me lembro de lhas ter dito mas acreditava nisso e certamente que lho diria se este Natal fôssemos a Alvalade. Creio bem que não vamos. Já não tenho condições para arcar com a responsabilidade de ter sido quem pegou a doença do futebol  àquelas crianças.

Ainda estou em estado de choque com as notícias dos últimos dias, primeiro com o vandalismo na academia em Alcochete. É-me muito difícil compreender como é que um adepto de um clube faz uma coisa daquelas, o que é que eles esperavam com aquilo, o que é que pensaram que ia acontecer? Que se iam safar? Que os jogadores iam jogar melhor? Que ninguém ia saber? Que 99,9% dos adeptos não os iam detestar para todo o sempre? Como é que se atinge um grau tão alto de estupidez e maldade colectiva a ponto de ir bater nos atletas do próprio clube? De tantos “agentes desportivos” em que podiam bem ter enfiado uns pares de bofetadas  (o Expresso hoje fez uma notícia com o título : NOS estaria a pensar rescindir o contrato com o Sporting” , apreciem  esse título com calma, publicado depois de a NOS ter desmentido qualquer intenção dessas) foram agredir os jogadores . Ah , estás a ver , também tu a incentivar a violência, não estou a incentivar nada, estou a dizer , depois dos factos, que entenderia melhor se tivessem sido outros os alvos.

Depois das cenas miseráveis em Alcochete, quando ainda andava aqui à procura da rolha, a pensar quem me dera ter um sportinguista com mais de dois neurónios aqui ao pé, de preferência um amigo, com quem falar e desabafar sobre isto, a pensar na vergonha imensa que uma acção dessas traz ao clube e em tudo o que levou a isso , eis que sou brindado com a noticia de que a PJ prendeu dirigentes do SCP, indícios de corrupção. Ainda não me aguentava bem de pé e ia caindo outra vez.

Há um ano que se revelam regularmente indícios de corrupção e tráfico de influências de outro clube , não via acontecer nada mas mantinha as esperanças . No dia a seguir a  serem revelados esses indícios no meu clube há logo prisões. Como é que vocês se sentiam? Não só verem  confirmadas as suspeitas de sempre de que em Portugal há dois ou três pesos e  outras tantas medidas como afinal, o vosso clube, que vocês acreditavam não uma virgem pura mas ao menos um clube com quanta dignidade quanto possível manter no futebol, também é corrupto. Um presidente cujo cavalo de batalha era a verdade desportiva também permitiu isso. Traição da mais vil.

Como não acredito que em Portugal se prendam pessoas, tarde ou cedo, por meras suspeitas, não faço como a esmagadora maioria dos adeptos adversários que, até hoje, quando os confrontávamos com os indícios claros de corrupção no seu clube, nos mandavam jogar à bola e diziam que não havia ali nada a não ser  inveja, ressabiamento  e cabalas.

O que fazem ou não aos outros já não me interessa, não espero que aconteça nada, quem pode é que manda,  o que espero e exigiria se pudesse exigir alguma coisa era que no Sporting a direcção se demita já , toda,  que  a direcção seguinte extinga as claques e interdite em perpetuidade os hooligans do estádio.Depois disso, a serem provadas as acusações de corrupção, que tudo indica ser fácil ( não tanto como ler 5gb de emails oficiais de um clube mas ainda assim fácil) , que nos façam a única coisa que pode aliviar um pouco a humilhação tremenda por que passam agora todos os sportinguistas honrados : descida de divisão , para as distritais se for preciso, e retirada dos títulos que tenham sido conquistados com práticas corruptas.  Expiação.

Domingo é a final da Taça de Portugal. Os jogadores já disseram que vão a jogo. O treinador, não faço idéia mas deixem um  dos juniores orientar a equipa que vai dar ao mesmo. As bancadas vão estar cheias de leões profundamente tristes e envergonhados mas que nunca abandonariam a equipa. O presidente da república , ambas as palavras deliberadamente com minúsculas , já disse que não se sentiria à vontade  na tribuna com o que ainda é , queiramos ou não , o presidente do clube. Também acordou agora  para a violência e corrupção no desporto e não pode deixar de cavalgar a onda, a única coisa que sabe fazer . Já lhe tenho asco.

Talvez haja violência, basta irem as claques em peso com as tarjas e cores para atrair muito sportinguista que não é de claque nenhuma e está cheio de vontade de lhes dar um bocado do próprio veneno. Piorar não pode, eu gostava de os ver a levar nos cornos do Jamor até Carcavelos à frente da polícia de choque, esgotei a tolerância, todo o bem que fizeram ao clube sob a forma de apoio durante os jogos foi por água abaixo. Com grupos organizados de adeptos tem que ser à inglesa, importamos tanta merda do estrangeiro todos os dias , as coisas boas tardam ou não chegam.

A final da Taça costuma ser uma festa mas este ano, mesmo que o SCP ganhe o jogo, o que está muito longe de ser garantido, não vai haver festa nenhuma nos corações dos verdadeiros sportinguistas, o mal está feito e o tempo de recuperação de  coisas destas mede-se em anos.

Quanto ao que agora calculo estarem a debitar os comentadores e politicos e jornalistas, todos a falar sobre o que deve ser feito , desconfio que não vai ser feito nada ou quase nada. Se bem conheço estes calhordas calculo que se vá criar mais um organismo estatal com mais uns directores e subdirectores a peso de ouro para encomendar uns estudos que vão concluir que há muita violência e corrupção no futebol e que é imperioso fazer alguma coisa. Os jornais e as televisões vão prosseguir tal e qual. O  FCP é campeão pelo que não tem interesse nem vontade de mudar nada e até porque o seu processo já foi arquivado. O SLB está protegido por 6 milhões de adeptos,  juízes, primeiros ministros, inspectores, jornalistas e  todos os bons chefes de família e todas as cúpulas que podem decidir e metem medo a quem tem cu, como se costuma dizer. Cabe ao SCP, agora atolado nesta miséria, expurgar-se a si próprio, aguentar a humilhação, descer de divisão se for preciso e renovar-se. Se descermos de divisão recupero o meu antigo número de sócio,  volto a pagar quotas e levo os meus sobrinhos à bola, para lhes explicar que somos um grande clube, tão grande como os maiores da Europa mas que estamos a jogar com o Cascalheira e o Real de Massamá por causa de ganância, falta de carácter, desonestidade e mentira, e se não querem acabar a jogar com os cascalheiras da vida têm que evitar essas coisas como a peste.

O Diogenes era um filósofo cínico que costumava andar pelas ruas da sua cidade de Sínope, carregando uma lanterna durante o dia , dizia que estava à procura de um homem honesto. É desse homem que o Sporting Clube de Portugal precisa agora, um homem tão difícil de encontrar que é precisa uma lanterna à luz do dia.

 

 

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Entretanto na Polónia…

…60 mil fascistas de vários graus, desde o skinhead mais cepo à avozinha mais beata e  nostálgica saíram à rua para celebrar a independência do país e gritar por uma Europa branca e por “mais Deus”. Quanto à segunda, parece-me um pedido ou exigência estranha mas é assim desde sempre: Deus, apesar de omnipotente, omnisciente e omnipresente, precisa sempre de quem fale por ele, de quem o defenda, de quem proteste por ele, castigue os seus inimigos  e reclame a sua presença, porque ele sozinho pelos vistos não consegue. É uma omnipotência um pouco estranha, um poder que apesar de ser universal e absoluto tem umas certas dificuldades em impôr-se e em comunicar directamente, tem que ser sempre por mensageiros e sinais.

Quanto à Europa mais branca e presumivelmente mais católica, podia dizer “boa sorte com isso, contrariar  tendências demográficas com manifestações não revela grande  inteligência” mas é verdade que manifestações pressionam governos que depois inventam políticas para contrariar a realidade, que normalmente acabam por falhar, criando mais insatisfação e alimentando  um círculo vicioso.

Acredito que também na política e na sociedade se observa a III Lei de Newton : Para  toda a acção há sempre uma reacção oposta e de igual intensidade. Os tempos em que se manifestam estas reacções podem não ser os mesmos da Física, mas mesmo que seja anos depois , as reacções inevitavelmente aparecem. Se vemos milhares a marchar pelas ruas de bandeiras vermelhas é de esperar que as bandeiras pretas não venham  muito atrás.

Em Portugal isto não é aparente  porque levámos uma injecção de 48 anos que tornou o lado preto da moeda inaceitável e porque nunca vimos o lado vermelho a sério. Os Polacos tiveram o infortúnio de passar a maior parte do pós guerra debaixo das bandeiras vermelhas, por isso hoje por lá é tão aceitável ser de um dos vários partidos de extrema direita como cá é aceitável ser do PCP ou do BE.  Apesar disso acho que, depois do advento das redes sociais e dos jornais com a possiblidade de os leitores deixarem o seu comentário anónimo, ninguém duvida que temos por cá umas boas centenas de milhar de cripto fascistas e muitos mais simpatizantes da causa, ou causas.

De todos os países da  UE a Polónia é o que mais sofreu às mãos do nazismo e do comunismo e por isso , num mundo mais racional, seria de de esperar que fosse o mais predisposto a encontrar o caminho do meio e a renegar extremismos, mas um mundo racional é quase utópico por isso aí temos os Polacos a eleger um governo que tende mais para a direita do que seria confortável e uma população que apesar de ser dos países com menos imigrantes e gente de outras cores e credos é das que menos gosta deles.

Eu não sou um gajo muito tolerante, tenho os meus preconceitos, há coisas de que não gosto e preferia que não existissem, por exemplo o Islão ou os hipsters , mas sou antes de mais  um gajo prático e a seguir  respeitador dos direitos dos outros , incluindo o direito a serem enganados, a acreditarem em fábulas, a vestirem-se como lhes apetecer e, resumidamente, a fazerem  o quiserem das suas vidas. Desde que me seja permitido ter o meu espaço inviolável, viver de acordo com a minha consciência, e desde que não se ande por aí a maltratar pessoas por quererem fazer o mesmo, ou por características que estão fora do seu controlo tipo a etnia ou o sexo, por mim já não está mau.  O mundo é muito grande e complexo e para isto ir funcionando é preciso esse caldear, equilibrar e sintetizar de todas as forças e ideias. Parece-me  cada vez mais difícil.

Por isso incomoda-me ver estas coisas, ver os extremistas a ganhar força e voz a cada dia, a  ignorarem ou negarem a História, ver ambos os lados a alimentarem-se do progresso dos adversários e do medo que provoca,  ver as vozes da moderação a perder força na torrente de mentiras, propaganda  e demagogia que escorre pela TV e internet como o proverbial esgoto a céu aberto e se alastra a todos os sectores da sociedade. O Guardian , jornal britânico que eu considero pouco, passou um mês a rufar o tambor para o nacionalismo Catalão para hoje vir lamentar o nacionalismo Polaco. São incoerências dessas que me fazem acreditar que os melhores tempos da Europa começaram no fim da segunda guerra e estão a chegar ao fim, só   espero mais divisão, polarização, atrito e conflito.

 

PS: Também estou a perder a esperança de ver o Sporting campeão este ano.

PS II -Quanto à indignação do dia, a história do Panteão, o que fica é que o nosso primeiro ministro nunca tem culpa nem é responsável por nada que não seja positivo e que Portugal é governado ao ritmo das redes sociais, sondagens  e focus groups. 

Populismos

Continua a farsa na Catalunha, agora completa com um golpe de teatro e a fuga de Puigdemont para a Bélgica, para não ser preso e julgado. Depois destes meses em que os estrangeiros que não conheciam a figura puderam ver o seu nível, ideias e estatura, finalmente pode aquilatar-se também a sua coragem e confiança na causa pela qual mergulhou a Catalunha na confusão e divisão: não existem.

Um verdadeiro aspirante a estadista, por oposição a um cacique regional atingido por um ataque de megalomania, teria exposto a sua ideia e  o seu caminho e tinha-o percorrido até ao fim, se o fim fosse uma cela, seria uma cela, como testemunho da luta contra injustiça e opressão do Estado espanhol. Um gajo do calibre do Puigdemont agita, mente, troca-se todo, confunde, hesita  e por fim foge com medo das consequências dos seus actos. Mais ou menos por esta altura os apoiantes locais da independência catalã já estão a renegar o homem e a separar calmamente uma boa ideia de uma  má execução, dispositivo que justifica ideias de merda desde a aurora dos tempos, mais famosamente o comunismo, que até hoje, e já estou convencido de que até sempre, vai ter gente a defendê-lo com essa tese : a ideia é boa, a execução é que foi má. Ah, percebo, é muito possível, é pena é que só se aplique a causas tradicionalmente de esquerda por não tenho memória de ouvir uma alminha que seja a dizer por exemplo “o fascismo até tinha aspectos positivos, infelizmente foi implementado por gente má”. Não, o fascismo é inapelavelmente mau mas o comunismo tem nuances e eu que gosto tanto de uns como de outros fico com vontade de os mandar todos….nem sei.

O Público descobriu símbolos fascistas numa manifestação pela unidade de Espanha, e fez disso notícia. Pois é, símbolos fascistas, que vergonha, já foices e martelos vêm-se regularmente em tudo o que seja manifestação, mas isso já não é notícia, é normal, é saudável, é positivo que em 2017 tenhamos que levar diariamente com o branqueamento e normalização do comunismo, fico doente. Entretanto o mesmo jornal , sobre a vitória eleitoral de um candidato de direita na Austria diz que os populismos estão aí , é um artigo escrito por uma jornalista que até ganhou um prémio por um trabalho na Grécia em 2011 mas que não encontrou lá nenhum populista, só encontrou esperança, e  nem aqui ao lado o Podemos lhe cheira a populismo, é evidente que para esta senhora populismo só existe à direita.

Vi este videozinho sobre a História da Catalunha , partilhado por uma daquelas pessoas que simpatiza com o independentismo porque o governo central é de direita e cuja opinião mudaria imediatamente se em Madrid mandassem socialistas e na Catalunha fosse a direita a querer independência.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fxavier.basoko%2Fvideos%2F10215022689947829%2F&show_text=0&width=560

 Está muito interessante mas não consegui ver nele um único argumento ou justificação para um estado Catalão independente.Não sei se estas pessoas acham que basta contar a História de uma terra para lhe conferir  automaticamente direito à independência ou se acham que devemos voltar atrás e rever todas as decisões históricas criadas por força das armas, negando-lhes as consequências e a validade. “Se foi à bruta, não vale”, ora aí está um bom princípio para repensar a História e as fronteiras da Europa.

Na guerra de Sucessão Espanhola os catalães decidiram apoiar o candidato ao trono que acabou por perder , Barcelona foi ocupada em 1714 e sofreu as consequências de ter lutado pelo lado que perdeu. Lutaram, perderam, acabou. Séculos mais tarde, na Guerra Civil espanhola mais uma vez alguns catalães decidiram lutar contra o Estado central.cMais uma vez perderam, mais uma vez se afirmou que a Catalunha é uma região de Espanha sem apelo nem agravo, e depois da autonomia conquistada e votada, depois de a Espanha se ter tornado uma democracia moderna, um Estado feito de muitas regiões, em que os cidadãos têm as mesmas liberdades e garantias que os das outras regiões,  pensava-se que a questão estava finalmente resolvida mas enquanto houver revolucionários por vocação, enquanto houver políticos ambiciosos e sem escrúpulos, enquanto houver pontos de fricção para semear a discórdia, enquanto houver intelectuais prontos a teorizar e enquadrar qualquer  “revolução” , nenhum assunto está encerrado.

Os comunistas e seus sucedâneos falam em primeiro lugar no sagrado direito à auto determinação dos povos  (com a URSS funcionava muito bem, essa autodeterminação dos povos) e já vi as comparações mais absurdas possível, por exemplo perguntarem-me se eu também era contra a independência de Timor Leste. É uma comparação estúpida mas estou habituado, tal como não me espanta ver lembrado que “em 1640 éramos nós”, como se o Hegel tivesse mesmo razão e a História caminhasse ao longo de uma linha  com um sentido claro e inevitável que faz com que haja um estado natural para uma terra ou região, e esse estado natural seja  uma entidade independente.

Enquanto não me mostrarem sinais claros de opressão, de discriminação e de injustiças sofridas por cidadãos por serem catalães; enquanto não me mostrarem em que é que uma Catalunha independente diferiria para melhor de uma Catalunha região de Espanha; enquanto não me apontarem o que é que os Catalães ganhavam com a independência além de orgulho que nunca pagou contas a ninguém, e mais importante que tudo, enquanto não provarem que há uma maioria do povo catalão a querer independência, não acredito no mérito da causa.

Uma notícia bastante reveladora dos processos morais de boa parte destes independentistas: Os 33 deputados dos partidos independentistas catalães não renunciaram aos seus lugares em Madrid aquando da declaração de independência, mostrando bem que há ligações que se podem quebrar mais facilmente que outras e que é mais fácil pedir aos outros que renunciem a certos privilégios do que renunciar aos nossos. Cambada de hipócritas interesseiros que passa  a vida a fulminar Madrid mas largar o seu lugarzinho e mordomias, tá quieto.

Tal como o líder independentista se queixou  de que a acção do governo central era  contra a constituição depois de renegar a mesma constituição, estes senhores exigem um país para si mas  querem ser deputados noutro país, ter voto na matéria em decisões do país que querem abandonar. Parece-me bem.

Tenho alguma pena dos milhões de catalães que estavam satisfeitos com a sua condição de catalães, espanhóis e europeus e que sabiam que os seus problemas não se resolvem com uma mudança de regime e estado político. Que estão a ver o seu país revirado por ideólogos e demagogos  , vizinho contra vizinho, e que agora encaram meses largos de convulsões políticas, consequências económicas negativas e agitação em geral, e vão sair disto mais pobres ( ou menos ricos) do que eram, acabe como acabar.

Para que não se fique a pensar que o facto de sermos uma nação com 900 anos em que toda a gente fala a mesma língua e tem  a mesma religião nos torna imunes a este género de delírios, aqui fica a página do Movimento pela Independência do Algarve , que tem no facebook 260 seguidores e em 2011 anunciava  a criação do seu braço armado. Tivémos sorte,  a Brigada Medronho não fez atentados em defesa da autodeterminaçao da Nação Algarvia mas ainda vai a tempo. O ridículo não mata e isso às vezes é pena.

Reportagens de Viagens

Desde que fui  pela primeira vez assinante da Volta ao Mundo e da Grande Reportagem que o mundo mudou muito, basta dizer que não havia telemóveis , internet,  gps terrestre  ou companhias aéreas low cost. Havia quatro canais de televisão e além da tv e rádio, toda a informação era em papel. Nessa altura os repóteres de viagens não só tinham a vida muito mais dificultada como escreviam para pessoas com um nível inferior de acesso, eu por exemplo gostava de ler aquilo porque estava fora do meu alcance não só ir e ver como perceber e explicar, e havia sempre sítios inóspitos e obscuros, daqueles que não são esquecidos porque nunca chegaram a ser lembrados, mesmo para miúdos cromos da geografia que liam atlas em pequeninos.

Hoje  não só é muito maior a percentagem de pessoas que viaja como nem vale a pena lembrar a explosão de informação que temos na ponta dos dedos. Em quinze minutos podemos  fazer uma visita de drone sobre Sófia, ler um blog sobre cozinha búlgara, ler os jornais búlgaros, ler sobre a história da bulgária , ver um filme búlgaro, ver o que diz a sabedoria colectiva de milhares de turistas sobre a Bulgária e por fim marcar um bilhete de ida e volta para a Bulgária. O trabalho que tinha um jornalista/repórter  a planear uma viagem para uma reportagem era no mínimo de semanas mas hoje numa tarde pode fazer-se isso . O jornalista mais dedicado passará mais tempo a estudar o objecto da sua reportagem, mas tenho a impressão (posso estar redondamente enganado porque raramente leio matérias dessas hoje em dia) de que a maior parte das vezes 3 parágrafos da wikipedia fazem o serviço no que toca a contextualizar o sítio e dar o apontamento histórico . O resto são sobretudo clichés , e  admira-me que o nível e fórmula de escrita dessas reportagens não tenha evoluído  em 30 anos.

A Visão mandou jornalistas aos Açores, ou os Açores convidaram a Visão, e fizeram um especial dedicado ao Arquipélago. Deve ser uma edição comemorativa porque usam o mesmo sub título de há 30 anos, o apelo da natureza, que é só o segundo mais fácil a seguir a escrever só “a natureza”. Esta coisa da natureza e dos mil lugares comuns que ela faz florescer quando se fala das ilhas sempre me intrigou um pouco porque para mim esta é das paisagens mais humanizadas que eu conheço, fora  de centros urbanos, obviamente. Grande parte da beleza disto é precisamente o modo como o homem se incrustou aqui , resistiu à natureza e modificou a paisagem.

A paisagem que escolheram para capa não é natureza modificada, é um  sítio que deve ser assim há muitos séculos, e é aqui nas Flores:

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Não vou fazer a crítica à prosa da jornalista, mesmo havendo o que criticar, quero criticar é o método, cujo resultado é uma das razões que me fez abandonar e desconsiderar bastante este género de leituras.

Para darem uma ideia boa das Flores  falaram com 14 pessoas . Conheço 12 dessas 14 pessoas e tanto os naturais como os imigrantes amam a ilha, vivem e trabalham na lha, sabem sobre a ilha e são pessoas com histórias interessantes para contar. A questão é que desses 14 só UM, o velho baleeiro que deles todos é o que eu conheço melhor e com quem passei mais tempo, só ele não vive do turismo. E mesmo ele, tal como os outros 13, está habituado a falar com visitantes, passa grande parte do tempo no museu da baleia ali no porto,  é uma peça de museu viva.

Isto para dizer que se queremos  fazer um retrato fiel de uma realidade não podemos ir perguntar aos que querem que o retrato saia o melhor possível, ou que querem que o retrato seja da visão particular que têm do objecto. Como sempre desde que me lembro, falam com estas pessoas:  quem lhes aluga a casa ; os guias turísticos; os donos dos restaurantes e  os empregados das “atracções” , ou seja, os jornalistas preferem, sem dúvida por preguiça, falar com quem está lá para falar com eles. É o mais fácil, e perde-se a conta às reportagens ( e até livros) cheios de citações de taxistas, bartenders e recepcionistas, que até podem ser uma amostra interessante  mas têm o problema de estarem ali para isso, se é que me estou a fazer entender.

Não foram  ver uma ordenha e saber  como se prepara o lavrador  para o Inverno. Não foram à escola falar com um professor, saber como é estar a trabalhar a mil quilómetros de casa e numa realidade tão diferente do continente. Não foram ao porto em dia de navio, não falaram com um pescador, não foram a uma câmara querer saber das intenções e perspectivas das autarquias, ou à Santa Casa ver de perto como é uma ilha envelhecida. Falar com algum desportista saber como é estar tão longe dos adversários ou talvez falar com um polícia sobre o seu trabalho aqui ou com um doente  ou médico sobre  como é que o processo que leva a transferir um doente para o hospital mais próximo, que fica a  45 minutos de avião. Nem a uma destas 14 pessoas com quem falaram perguntaram (ou se perguntaram não publicaram e acho mal) , de que é que gostam menos aqui, o que é que é mais difícil, do que é que sentem falta. Podiam perguntar-se o porquê desta ilha ser tão paradisíaca e espectacular e de apesar disso continuar a perder população.

Vão-me dizer, com razão, que o artigo da Visão não é uma reportagem de fundo, é uma divulgação turística. Ainda assim , porque é que não se  procuram visões mais  espontâneas, originais e locais? Visões que não estão comprometidas à partida com a visão paradisíaca que se pretende transmitir?  Não é  só falar dos defeitos, é procurar a visão e a história de quem não tem discurso preparado e incentivo alinhado, é tentar encontrar as belezas pela voz de quem cá vive o dia a dia sem sem se importar muito com o que  os outros pensarão disto.

Isto vale para qualquer destino, e certamente que há jornalistas de viagens que o fazem, para se distinguirem de turistas que tomam apontamentos.

Outubro e continuam os incêndios, se calhar a partir de agora já não há uma “época oficial de incêndios”. Dados os resultados não sei bem se declarar uma época oficial ajudou nalguma coisa, sei é que os burocratas adoram essas coisas, em que se produzem discursos , directivas, linhas orientadoras , gabinetes e comissões e quando se vai a ver no terreno está tudo igual ou pior. Como o terreno nunca é nas imediações de Lisboa, que por definição não sofre  fogos florestais, poucos querem saber.

Tal como ainda Pedrógão Grande fumegava e já o governo queria saber da sua popularidade também é normal que nestas últimas eleições se tenham feito boas contas aos votos de sítios ardidos, por arder ou imunes e tenho a certeza de que a maior parte  dos votos vem de sítios isentos de fogos florestais, logo, de pessoas para as quais  os fogos não são grande problema.

Já é um bocado como com o terrorismo, um leitor de notícias na TV começa uma história com ” em Londres  morreram oito pessoas num ataque terrorista….” e o espectador desliga logo a atenção porque já está saturado do tema e Londres é muito longe. Quando ouve “um incêndio de grandes porporções lavra desde ontem em…..” é a mesma coisa, a não ser que seja ao lado da sua casa.

A preocupação do governo com isto é idêntica à do cidadão: diz umas evidências  se lhe perguntam alguma coisa, tipo “é trágico, é uma situação que nos entristece e que tem que ser resolvida” mas daí não passa e a vida segue. Eu não tenho ideia nenhuma do que há a fazer para combater o problema dos incêndios mas esperava que um ministro tivesse, é por isso é que votamos neles e lhes pagamos, porque supostamente sabem mais do que nós e sabem resolver os problemas do país. Supostamente.

Na política partidária é o PSD que está na berlinda, o Passos acabou por se ir embora, a meu ver bem e tarde. Apesar de considerar que já devia ter abandonado a liderança há mais tempo votaria nele outra vez sem problema nenhum, considerando as opções actuais, sobretudo  porque sei  que não há politicos perfeitos e que é tudo uma questão de pesar os defeitos contra as qualidades. No caso dele acho que as qualidades superam os defeitos. Só não lhe perdoo ter tido uma maioria e o governo de um país ansioso por mudar, consciente de que estava num buraco e de que para sair dele era preciso fazer sacrifícios, foi uma oportunidade de uma geração para reformar Portugal mas, não sei se por falta de convicção própria se por cedência ao aparelho e aos interesses instalados as reformas foram caindo pelo caminho. Também no campo da comunicação patinou à grande, o seu governo nunca foi capaz de explicar claramente as causas e consequências das medidas que tomava, nunca foi capaz de saber falar por cima da gritaria histérica e desproporcionada. Sabemos hoje que foi  histérica e desproporcionada porque há hoje casos, medidas, observações e acontecimentos  de teor semelhante  que , simplesmente por ser outro governo em causa, já não incomodam tanto.

De resto, cumpriu uma legislatura, manteve isto à tona, evitou o que tantos queriam: ” seguir a via do Syriza” , via de que agora já ninguém fala e que correu como todos sabemos. Pôs a economia de novo a crescer, o desemprego a cair e ainda conseguiu ganhar as eleições depois de 4 anos de fricção. Não é pouco.

Agora a próxima oportunidade de tornal Portugal mais livre, competitivo, liberal e produtivo só chegará, se chegar, com a próxima bancarrota, altura em que as pessoas voltarão a perceber  melhor a realidade e os limites do endividamento estatal e dos mercados financeiros se tornam outra vez aparentes. Até lá teremos o Estado a inchar,  a gastar sempre mais, a estender a sua sombra a tudo e a aumentar a dívida que já é monstruosa. Que era imprescindível re-negociar mas que por causa de fenómenos paranormais desapareceu do debate e das procupações.

Nos candidatos a líder do PSD só vejo gente que já anda  nisto há 30 anos ou mais, como o Santana Lopes e o Rui Rio, que aparecem para muitas coisas mas certamente que não vêm renovar nada nem propôr nada de muito diferente do que o PSD propôs e fez no passado. Era uma boa altura para um novo partido, esperemos sentados. A Joana Amaral Dias pode criar um partido todos os meses que tem sempre a porta das redacções aberta mas  algum liberal que avance vai ter que lutar o dobro por tempo de antena e remar não só contra a corrente mas contra as nossas  “elites” e a  nossa cultura, não lhe invejo a tarefa.

Entretanto o PS instala-se de pedra e cal no Estado e faz o seu papel,  invulnerável a toda a gama de escândalos, que cá não chegam a ser escândalos, como o da ministra que recebeu uma cantora pop para lhe resolver um problema com um visto. Noutros tempos bradava-se aqui d’El Rei e era indignação certa para semanas, hoje encolhem-se os ombros, é sinal de que Lisboa está na moda e é cosmopolita e que os ministros se interessam pelas pessoas.

Enquanto houver crescimento económico e desemprego em baixa está tudo bem, é um bocado como no clube da Luz onde ninguém quer saber de corrupções, ilegalidades e vigarices desde que a equipa ganhe. Eu também aplaudo crescimento económico e desemprego baixo mas ponho reticências se o crescimento é à custa de mais e mais dívida  e o sector público é o grande empregador.

Uma das muitas experiências de psicologia relatada no livro mais fundamental das últimas décadas  para se perceber como pensamos explica perfeitamente o que se passa em muitas eleições:  perguntaram a um número de pessoas sobre a sua satisafação com a sua vida em geral. A uma parte dessas pessoas era-lhes pedido a dada altura que fossem tirar uma fotocópia. Na fotocopiadora encontravam uma moeda. As pessoas que “encontravam” a moeda revelavam-se muito mais satisfeitas com a vida do que as que não encontravam nada. Se o  simples facto de se encontrar uma moeda é suficiente para alterar a percepção e avaliação da nossa realidade, o que não fará um aumento de 1% numa pensão sobre a nossa opinião sobre o governo. Aos governos espertos basta saber a altura certa de deixar a moeda na fotocopiadora.

Depois queixem-se

Não há nesta altura no mundo  governante que eu deteste mais que o Trump, e isto inclui vermes como  Mugabe ou  Maduro. No Terceiro Mundo (perdão por usar este anacronismo mas para mim ainda faz sentido) ainda é como o outro, as instituições são fracas , corruptas ou ambas, a população não é educada e informada e a imprensa raramente é livre pelo que é mais fácil um ditador instalar-se e permanecer lá. Quando há uma ruptura do calibre de um Trump, quando uma democracia ocidental elege uma figura daquelas, primeiro há choque mas depois há que procurar  as razões, e podem já todos ter-se esquecido mas foram mais do que dissecadas nos meses seguintes às eleições e era bom voltar a elas numa altura em que, ao retardador como é nosso timbre, começamos a importar debates e movimentos que nos EUA já têm décadas. Há gente que parece só estar à espera da deixa dos americanos para falar, vi uma jornalista pelos vistos famosa, chamada Alexandra Lucas Coelho,  a defender um monumento aos índios e africanos ao lado do Padrão dos Descobrimentos. Não achar que se deve deitar abaixo já não é mau, mas não deve tardar.

Além das mentiras , demagogias , matrafices e “hacks” da última campanha eleitoral americana , além das lutas internas entre Republicanos e  além da inépcia dos Democratas houve um factor muito importante em jogo, para mim o mais importante: quase metade dos eleitores  da América fartou-se  dos insultos, reclamações, condescêndencia, exigências e teorias sociológicas avançadas da intelectualidade urbana de esquerda, que só vê o seu umbigo e olha para o resto como atrasados e iludidos.

Cansaram-se de serem chamados de primitivos, intolerantes, anacrónicos, de lhes atirarem à cara a maldade das suas tradições e da sua cultura, de lhes ridicularizarem as crenças . Cansaram-se de ver que tudo é decidido longe, pela elite sofisticada , fartaram-se de ver os sociólogos de Berkeley a ditar regulamentos para o Wisconsin, cansaram-se de ver a imprensa e a TV nacionais centrarem-se nas Costas e ignorarem o resto do país. Chamam-lhe fly over country e não é a brincar, é uma extensão imensa onde vivem dezenas de milhões de pessoas que são excluídas dos debates nacionais e quando não são excluídos é para serem menosprezadas. São racistas? Muitos são, mas nem os que o são gostam de ser chamados racistas, quanto mais os que não são, ou acham que não são…

Pessoas religiosas e tradicionalistas a terem que levar com o debate das casas de banho para  transexuais, a verem a linguagem a ser policiada e normalizada, a verem garotos a levantarem queixas  por se sentirem ofendidos nas suas convicções por dá cá aquela palha. Pessoas a verem as suas vizinhanças e cidades a ter uma população cada vez mais de cor e religião diferente e a ser-lhe martelado que isso é bom. Pode ser ou pode não ser.

Depois de terem mais prosperidade material do que conseguem fazer com ela os americanos passaram à guerra cultural, liberais contra conservadores. Toda a gente deu por adquirido que havia dinheiro que chegasse para tudo e empregos para toda a gente que os quisesse, começaram a ocupar-se da famosa justiça social, onde manda uma regra velha e universal que pode ser exprimida cruamente assim : quem não chora não mama, e outra que diz que o importante é culpar alguém e exigir que alguém , normalmente o Estado, faça alguma coisa.

O problema não era a política externa, a produtividade, os impostos, as infraestruturas, a educação, a saúde. Os problemas nas últimas décadas têm sido coisas como o casamento gay, as chamadas causas fracturantes nas quais se especializam grupos políticos como o Bloco de Esquerda, quanto mais não seja porque o lastro técnico necessário para escrever uma lei sobre igualdade de género é uma fracção do necessário para , por exemplo, negociar um acordo de comércio externo ou reformar uma política fiscal. Por outras palavras , é mais fácil e imediato e qualquer actriz de teatro consegue falar horas sobre justiça social sem mentir ao passo que nem dez minutos aguenta se lhe pedirem para explicar o impacto da política agrícola comum na produção de vinho, por exemplo.

As causas fracturantes também se tornaram populares por serem mais emocionais, ninguém se exalta a falar de vias férreas ou portos de águas profundas, mas falem lá da co-adopção e têm para horas de exaltação, já para não  falar do aborto. Com estas  e outras questões  se passam horas nos parlamentos, juntando as discussões a  votos ridículos de louvor e pesar e infindáveis comissões que servem sobretudo para engonhar, criar ilusão de progresso , ocupação e encher os proverbiais chouriços. O cidadão conservador e tradicionalista vê isto e franze o sobrolho.

Quando os debates mais populares são desse género, causas que uns apoiam e outros abominam,  quando uns menosprezam e ridicularizam os outros, basta vir um aldrabão encartado como o  Trump para levar uma das metades. Basta ter o discurso fácil, basta fazer uma das metades rever-se nele, basta prometer um fim aos abusos e aos ataques, basta falar no mesmo tom . Não tem que saber fazer mais nada, não tem que mostrar serviço na área que se propõe dirigir, basta saber falar para o seu público , apelar-lhe  aos instintos , medos e aspirações básicas e os ânimos estão de tal maneira exaltados nesta idade das overdoses de informação, 3/4 dela manipulada, que no dia das eleições a escolha é fácil. Dá para os dois lados, ninguém se iluda, o processo básico que elege populistas à esquerda elege-os à direita.

No caso dos americanos foi a histeria do politicamente correcto , da engenharia social, do multiculturalismo como valor superior e objectivo, da perseguição e demonização dos outros,  que lá pôs o Trump.

Os guerreiros da justiça social por cá ganham saúde e gritam alto, são declaradamente contra uma quantidade de coisas, desde o heteropatriarcado aos sacos de plástico, agora descobriram que é mau haver coisas para meninos e meninas e em todas essas lutas olham de cima para baixo para os que ou não concordam ou nem sequer querem saber. São pessoas que não percebem bem o conceito de empatia , que é diferente do de simpatia, não temos que simpatizar mas devemos tentar compreender . Enervam muita gente, insultam muita gente, agridem as convicções de muita gente, muitas vezes com uma arrogância que nada justifica.

Custa-lhes, é-lhes virtualmente impossível aceitar que haja pessoas religiosas, que defendam que a vida começa com a concepção e é sagrada, que vão a touradas, têm carros grandes, acham que a homossexualidade é um mal, o casamento é exclusivo para reprodução, o aquecimento global é uma invenção, um travesti é uma aberração e usar drogas é crime. Pessoas que defendem a pena de morte, são contra a imigração , não gostam de gente de outras cores nem de quem depende de subsídios estatais para sobreviver. Eu não partilho nenhuma dessas  convicções mas não considero quem as tem um inimigo ou inferior  e haveria  muito menos problemas se conseguíssemos todos funcionar assim, não é desistir da discussão , é reconhecer que há mais pontos de vista válidos, mesmo que não concordemos com eles.

Os modernos guerreiros da justiça social não acreditam que todos esses milhões de pessoas têm uma palavra a dizer, o direito a fazerem-se ouvir e voto na matéria no que diz respeito ao gverno e leis da Nação. Acham que é gente para calar, que se deve reduzir à sua ignorância e que todos os que não concordam com eles são estúpidos. Isto é profundamente irritante.

Um dia qualquer aparece um candidato a defender  precisamente todas essas coisas que a imprensa e os círculos urbanos sofisticados abominam e têm por consignadas ao caixote do lixo da história. Um candidato bem falante, de discurso articulado, que fala, como o Trump, aos medos, convicções  e aspirações dessas pessoas e de repente, num dia de eleições,  a inteligentsia , entre duas dentadas de sushi num rooftop da capital pega no seu ipad  e enquanto lê mais um artigo na Monocle e partilha uma foto com o seu amigo cisgénero dinamarquês que está na Malásia constata que há muita gente no resto do país que tem ideias ,preocupações e concepções do mundo muito diferentes, que toda essa gente vota e que, olha, quem diria , elege um populista com um plano para pôr isto na ordem, não obstante sondagens e colunas de opinião que garantiam ser impossível.

Depois vão passar anos a queixar-se, sem perceberem  que a culpa foi deles.

 

Se a carapuça serve…

Um político e eurocrata holandês, presidente do Eurogrupo, deu uma entrevista a um jornal alemão em que falava sobre o pacto europeu e disse: Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em aguardente e mulheres e pedir-lhe de seguida a sua ajuda. Este princípio é válido a nível pessoal, local, nacional e até a nível europeu” .

Eu não vejo nada de controverso aqui mas cada um interpreta como pode e quer e esta frase  foi o suficiente para se entrar numa espiral nacional de indignação. O país enfiou colectivamente a  carapuça e o homem é quase persona non grata . Escrevem-se cartas abertas a denunciar a injustiça e estereótipo ofensivo, focando-se sobretudo na parte da aguardente e mulheres e nada na questão  da moralidade de pedir ajuda quando se derreteram recursos em coisas supérfluas, que me parece que é que o ele queria ilustrar com a imagem infeliz.

O  governo, cujos membros nunca fizeram declarações controversas nem alguma vez esbanjaram recursos, pede nada menos que a demissão do sr Dijsselbloem , mostrando que está focado e unido nas coisas verdadeiramente importantes como “o que é que os outros pensam de nós”.O Presidente, que não pensa noutra coisa, já apoiou o pedido de demissão e não tarda nada vão aparecer “vídeos humorísticos” a gozar com o homem e a martelar na brejeirice dos “copos e gajas” enquanto se explica  que aqui não há nada disso, ele está enganado , e mesmo que se gastasse muito dinheiro em paródia é esse amor pela paródia que faz de nós um povo tão espectacular.

A questão mais importante para mim é que  há centenas de políticos de elevada responsabilidade na União Europeia e nos governos nacionais que todos os dias fazem declarações a centenas de meios de comunicação social , já para não falar das comunicações pessoais tipo twitter. Vasculhar , escrutinar e julgar esses  soundbytes é considerada uma ocupação normal , necessária e  produtiva e pensa-se  que essas frases devem não só  ser “notícia” como passíveis  de causar estas indignações  e protestos.Não sei se é isto o melhor modo de fazer jornalismo mas é do que há mais.

Entretanto houve mais uns assassinatos religiosos em Londres, nem vale a pena ler notícias nem crónicas porque é o mesmo problema de há uns anos , não mudou nada e já foi tudo mais de que dito em todo o lado. Enquanto discutimos a islamofobia e fazemos regularmente coisas vagas como “afirmar os nossos valores europeus” a demografia  vai fazendo o seu trabalho e o mundo vai mudando.

Na secção de humor , desenvolvimentos em relação à dívida pública. Como é um  tema central aos nossos problemas  devem estar lembrados de ouvir muitas propostas , exigências e indignações sobre a mesma. A reestruturação da dívida era considerada pelo  Bloco uma coisa essencial para se sair da crise. Em 2014 o Bloco e o PS acordaram em estudar a reestruturação porque a dívida era um monstro que impossibilitava o crescimento. Era , mas já não é, devem ter tido uma rotação de paradigma  e  agora já são adeptos da gestão em vez da renegociação . Fico contente pelo estudo que fizeram e peço que estudem muito mais , se tivessem estudado o problema da dívida mais cedo as coisas tinham sido mais simples e sobretudo menos turbulentas.

Turbulência é coisa que não há aqui, nem radicalismos de espécie nenhuma. Na foto vê-se o navio escola alemão Thor Heyerdahl que fez aqui uma escala muito curta , e o navio que abastece a ilha quinzenalmente, a atracar.

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