Natureza Pura o caraças

Tirei esta  foto  ontem, a uns 500 metros de minha casa, não é um caminho que faça muitas vezes mas calhou porque fui buscar a filha de uns amigos à escola, viemos a pé por aí acima e aproveitei , já queria uma foto dessa ponte há anos mas nunca passo a pé nessa estrada e não sou  de me deslocar por uma fotografia.

Publiquei-a no Instagram , onde tenho uma conta cheia de ovelhas e cães e algumas, poucas, fotos de cantos bonitos da ilha, geralmente com algum cão ou alguma ovelha a compôr o enquadramento, e volta e meia, no verão, os botes baleeiros. Os meus interesses estéticos.

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Uma amiga comentou “que lindo, a natureza pura!” e eu, que estou muito melhor do que já fui mas ainda assim tenho dificuldades em estar tão calado como seria recomendável e sociável, aproveitei logo a ocasião para explicar que  pouco nesta foto é natural e ainda menos puro.

É uma das minhas irritações de estimação, esta mania de aplicar o rótulo “Natureza Pura” à paisagem açoriana, e à força de repetições  exaustivas e de falta de originalidade,  criatividade e esforço, tornou-se o slogan dos Açores e as pessoas, como a minha amiga que comentou com o cliché por reflexo, ouvem ou vêm “Açores” e é como a campaínha  do cão do Pavlov, não começam a salivar mas dizem “natureza pura!”.

Por definição, o que é natural é o que não é feito nem modificado pelo homem, o que não tem artifíciocomposição ou mistura. 

Acho que isto não é complicado de entender nem controverso, mas às  vezes são as coisas mais simples que causam os maiores mal entendidos. Olhem lá para essa foto outra vez. Há os postes e fios da electricidade, a ponte, duas casas, o caminho e um campo cultivado num socalco. Nem vou entrar no tipo de vegetação, porque para muita gente moderna basta ser uma erva para ser natural, dou isso de barato. Essa foto não mostra nenhuma natureza pura, mostra uma paisagem modificada pelo Homem, e a maior parte da paisagem Açoriana,  que poucos apreciam mais do eu, é assim.

É preciso ser um bocadinho ignorante ou não ligar muito ao significado das palavras para não perceber , assim que se aterra ou aporta em qualquer  das ilhas, que o que vemos não é o trabalho da Natureza, o que vemos, depois de 500 e tal anos de ocupação humana, é uma paisagem moldada e criada pelos esforços do Homem.  Alguém pode descrever os prados da Terceira como naturais, quando levou séculos a desmatar, limpar a pedra, nivelar a terra, bordejar os talhões, semear e cuidar a relva? É isso um prado natural? No Corvo há uma paisagem natural, o Caldeirão, de resto não há em toda a ilha um metro quadrado que não tenha sido modificado pelo Homem. Aqui passa-se quase o mesmo, mas ainda assim , como é uma ilha muito montanhosa, mantém muitas partes que por inacessíveis e improdutivas nunca foram alvo de acção humana, é verdade, mas são poucas. E a maior parte das vezes basta desviarmos ligeiramente o olhar de determinado ponto de extraordinária beleza natural e vimos logo a acção do Homem.

Pode tirar-se esta esta foto (não é minha) deste sítio magnífico porque se fez um caminho  de pedra até lá e se cortaram árvores. A mata que se vê do lado esquerdo é de incensos, ou Pittosporum undulatum, planta originária da Austrália que não chegou aqui por meios naturais nem por obra e graça do espírito santo.

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Por todo o lado vejo pessoas deslumbradas a rotular de beleza natural as infindáveis sebes de hortênsias que nos bordejam as estradas ou as matas de criptomérias , como se as hortênsias tivessem crescido espontâneamente em filas ao longo das estradas ou a separar as terras ou a criptoméria fosse uma espécie endémica.

Se não fossem 500 anos de ocupação e labor humano, se não fosse a agricultura em todas as suas formas, se não fossem as importações, voluntárias ou involuntárias, de espécies vegetais e animais, se não fossem os esforços hercúleos de gerações a modificar constantemente a paisagem, todas as ilhas seriam muito diferentes, nem que fosse no tipo de vegetação.

Só há natureza pura em sítios onde o Homem não passou, ou passou muito ao de leve.  Já são muito poucos no Mundo, e o Arquipélago dos Açores não é um deles. Por isso visitem, sobretudo visitem o Grupo Central e Oriental , apreciem e deslumbrem-se com as belezas destas ilhas, que não faltam, mas não lhe chamem Natureza Pura.  Ou chamem, isto é só mais uma coisa que me irrita mas que no fundo não interessa nada.

Insularidades

O meu mecânico telefonou-me, eu pensava que era para me dar novidades do carro mas era porque as minhas ovelhas que estão numa terra ao lado da oficina dele se tinham escapado. Fui logo para lá, o mecânico estava no meio da rua com o Lampião pela coleira  (sim, o carneiro usa coleira e tem nome)  e tinha achado muita graça a ver o bicho chegar-lhe à porta da oficina.

Já houve uma altura em que pensava que ia conseguir ter todas as terras definitivamente  vedadas e à prova de fugas mas já desisti, faço o meu melhor mas sei que mais tarde ou mais cedo ou encontram ou criam uma aberta na cerca, e o que é mais irritante é que podem ter comida com fartura mas isso não as impede de querer ir ver como é do outro lado. A erva é sempre mais verde do outro lado, já dizia o outro. Já toda a gente sabe quais são as minhas ovelhas,  tem o meu número e sabe que eu vou logo a correr assim que chamam, desde que as ovelhas não causem estragos tipo comer as batatas ou roer as arvores de fruto não é grave.

Depois de guardadas outra vez aproveitei para saber novas do carro, este mecânico acredita que afinal não vai ser  preciso um motor completo, já me encomendou peças e está optimista, mais optimista que eu.  No mais róseo dos cenários ainda tenho uma semana inteira de scooter, nem vale a pena listar todas as modos em que aquilo é inconveniente nem todas as vezes que fico dependente da boa vontade de amigos com carrinhas de caixa aberta para me ajudarem nas voltas da minha lavoura , que está cada vez mais empatada porque não me importo de pedir favores mas há limites.

Amanhã voo para o Faial, onde vou fazer um procedimento médico que leva 1 minuto, tirar sangue para enviar para análises. É uma coisa que está em falta desde Janeiro e tem sido uma verdadeira rábula sobre a qual não me vou alongar para o SRS & seus profissionais não ficarem mal no retrato. Como em tudo, as minhas expectativas são sempre baixas pelo que demorar 5 meses a requisitar, fazer e obter análises ao sangue não está mal, tenho a certeza de que é muito melhor do que no Ruanda ou na Venezuela, agradeço sinceramente e agora só espero que não demore outros 5 meses a marcar a consulta que está dependente dessas análises. Tendo que esperar meses, que sejam os de Verão, onde corro menos risco de sufocar com uma infecção pulmonar.

Felizmente conseguiram-me voo num dia regressando no outro pelo que nem é preciso alistar ou contratar ajuda para me tomarem conta da bicharada, os cães comem umas horas mais tarde na segunda feira e é só isso…se não for cancelado o voo, possiblidade sempre presente.

Os botes baleeiros já estão na rampa mas ainda não navegámos, principalmente porque o tempo tem estado uma miséria e ainda não há sinais de estabilizar em modo primaveril. Há dois botes mas como de costume é difícil encontrar tripulações para eles, toda a gente quer dar uma voltinha e toda a gente quer ir à Semana do Mar no Faial mas compromisso com um programa de treinos regular é muito mais difícil. Agora faço parte da direcção do clube naval e espero contribuir para dar um novo impulso àquilo, como já disse aqui espero não me vir a arrepender muito, para já ganhei responsabilidades e tarefas mas faço com gosto, durante muitos anos critiquei o clube naval , agora cabe-me mostrar que posso fazer melhor, ou ajudar a fazer melhor.

As regatas do  Campeonato Regional este ano vão ser  na Graciosa, como nós aqui não temos um campeonato de ilha que decida o representante  vamos alternando , o ano passado fui eu com o S.Pedro, este ano vai o Formosa mas eu vou também vou, havia falta de tripulação e eu ofereci-me , não só mas também porque nunca fui à Graciosa. Aposto  que  vamos ter uma prestação semelhante à minha do ano passado, que foi miserável, mas desta vez vou só fazer peso na borda,  a apreciar o cenário e a prestar atenção aos outros para aprender mais alguma coisinha.

Para a Semana do Mar já tenho expectativas mais altas para o S.Pedro, muito porque regressou à tripulação um moço com o qual me dou muito bem e que sabe ser proa, é claro que o oficial ao leme conta muito mas sem alguém capaz na proa nem o bote fica bem armado nem consegue virar nem cambar em condições, e sem isso, nada feito. Estou ansioso por ter a tripulação completa e começar  a treinar , se o objectivo o ano passado era terminar a prova (que não consegui), este ano é ficar no meio da tabela.

Já recebi os primeiros turistas, se forem todos como estes não vai haver problema de espécie nenhuma. Ontem levei o Lenine  (outro carneiro)  comigo para o jardim e lá o deixei numa estaca, o jardim é bastante grande , tem montes de erva que me leva horas e horas  a manter rente e acaba a apodrecer num monte de composto, assim alimento o bicho , aproveito a erva e ainda por cima é pitoresco para os camones, terem um carneiro a pastar no jardim.

Ontem acabei um livrinho chamado “Diário de um Náufrago nas Flores e no Faial” e entre outras coisas interessantes  aprendi que nessa época (1830) as carroças aqui na ilha eram puxadas por ovelhas. Continuo a rir-me da imagem e já tive amigos a sugerirem-me que já que estou sem carro,  explore essa possibilidade, e pensar nisso ainda me faz rir mais.

Hoje temos temporal,  creio ser alerta laranja, mas já deixei de acompanhar os alertas coloridos. O problema maior agora é que continuo sem carro e sem data à vista para o voltar a ter, desloco-me numa scooter alugada, que se torna muito inconveniente quando chove ou quando tenho que transportar alguma coisa. Tenho coisas suspensas por isso, tenho terras que preciso de mondar e não tenho como lá levar a roçadora, ovelhas para mudar de sítio e não podem vir em cima da scooter, ração a acabar e tenho que pedir a amigos para ma irem buscar à Associação, isto já para não falar do frio que se rapa . Há 30 anos uma scooter daquelas tinha feito a minha felicidade terrena, hoje é uma incoveniência e uma chatice ter que andar numa, é assim.

Quem também sofre são os cães, principalmenter a Bruma que andava comigo no carro para todo o lado e agora tem que ficar amarrada quando saio, claro que não fica contente nem é bom para ela. O Rofe já estava mais ou menos habituado e tem um “posto” mais confortável que lhe permite entrar em casa e deitar-se num sofá mesmo com o seu cabo de amarração ao pescoço.

Depois de um mês encontrei um mecânico com tempo e um lugar na agenda para me começar a mexer no carro, pelo menos é um avaanço mesmo que entre diagnósticos, encomenda de peças e montagem ainda vão ser semanas. Se puserem um anúncio a dizer “precisa-se de licenciado em ciências da comunicação para a ilha das Flores” se calhar recebem 20 propostas; se procurarem um mecânico qualificado, que faz realmente falta , tinha trabalho com fartura e era bem pago, não aparecxe ninguém.

Tive uma “mini discussão” no twitter com um activista das bicicletas que defendia que a gasolina não é um bem essencial. É pessoal que não faz a mínima ideia do que é a vida e o trabalho no meio rural e pensa que toda a gente pode andar de bicicleta ou transportes públicos. Ficou intrigado quando lhe disse que só o facto de ele falar no estacionamento como um problema mostrava bem que só sabe , e só quer saber, do que se passa nas cidades. São pessoas assim que acabam a legislar e regular, eu gostava de ver aqui o ciclista a subir ladeiras com um saco de ração às costas ou fazer 15 kms à chuva para ir ver animais. Acham que usar automóvel é uma escolha, e até é, é a escolha entre a conveniência e o trabalho prático ou viver como há 150 anos, a pé ou de burro com cargas às costas debaixo de chuva e sol. Dantes é que era puro.

Outra quebra mecânica, a máquina de lavar roupa finalmente cedeu depois de  3 anos de luta contra a humidade reinante que me fazia , no inverno, ter  que estar 5 minutos com um secador de cabelo a secar a placa electrónica antes de a pôr a lavar. Aqui há 15 dias deu três saltos, um estoiro e parou, fui saber de uma possível reparação e decidi deixar de ter máquina de lavar. Felizmente o ano passado abriu no porto uma lavandaria automática que lava 10ks de roupa por 4 €, detergentes incluídos, aberta dia e noite. Fiz as contas e compensa-me mais passar a usar a lavandaria do que reparar ou comprar uma máquina, menos um electrodoméstico a ocupar espaço e consumir electricidade em casa, vou transformar a casota que tinha contruído para a máquina em “paiol” de ferramentas e outras tralhas e passo a ir lavar roupa ao porto de 15 em 15 dias. Sim, 10kgs de roupa de 15 em 15 dias, não me julguem. Ou julguem, dá no mesmo.

Tenho um trabalho novo , graças ao governo  capitalismo global e às regras da UE que permitiram  a uma alemã comprar aqui uma propriedade , recuperá-la e explorá-la em AL. Claro que o governo também faz a sua parte,  afogando a actividade em burocracia tão sensata como a obrigatoriedade de ter uma televisão e um microondas e subindo as taxas tentando chegar àquele ponto em que fazer esse investimento e ter esse trabalho é só marginalmente lucrativo, há que sustentar a casta e sabemos que o lucro é imoral.

Já me ocupava dos jardins dessa propriedade, agora trato também de todo o resto, menos das limpezas. Para quem tem uma espécie de trauma de infância com os turistas é um desenvolvimento interessante, não me vai resolver os meus problemas mas é uma ajuda e não me custa muito, é mesmo ao pé de minha casa e ocupa-me muito menos tempo que o jardim. Já tive muitos  “avisos” e ofertas de ajuda dos meus amigos que já trabalham nisso, incluindo o que desistiu e que eu vou substituir, porque a proprietária é “esquisita” e “difícil”. Agradeci e tal mas lembrei que já trabalho para ela há um ano e nunca tive o mínimo problema, por duas razões.

Primeira, pedi-lhe antes de começar que me explicasse claramente o que é que queria de mim e como queria que eu mantivesse a propriedade. Com isso na mão, basta fazer como ela  quer e não há ocasião para atritos,  já que  ela paga a horas e sem falta. Negociações laborais simples, o truque é evitar ambiguidades e intermediários e aceitar essa proposição tão controversa para muita gente : quem paga, manda .

Segundo, ela é professora universitária e consultora de empresas gigantes e isso ou intimidou  ou causou  uns certos complexos de inferioridade nas relações com os antigos empregados, algumas falhas de comunicação  e o inevitável choque cultural e frustrações de quem vem para aqui fazer negócios vindo de um ambiente muito diferente. Eu navego bem nessas àguas, faço-me sempre entender e entendo bem e depois tenho outra perícia importante neste trabalho, como já me ajudou o ano passado quando fui empregado de mesa : sou capaz de ser simpático, ouvir e mostrar interesse mesmo quando não me interessa nada ouvir .

Um amigo recomendou-me que passe pelo menos meia hora a falar com os hóspedes sobre a ilha, eu disse-lhe que se calhar o método dele mostra que ele gosta muito de se ouvir e parte do princípio que os turistas estão interessados em levar uma seca do porteiro, que é o que somos no fundo.  Alguns estão , outros não, e acho  melhor perguntar se têm alguma questão e se podemos ajudar nalguma coisa do que passar meia hora a oferecer respostas e indicações não solicitadas e aceites por cortesia, porque nem toda a gente é como eu , capaz de interromper uma pessoa e dizer “ok ,ok , eu se precisar de mais alguma coisa logo digo” .

Amanhã recebo os primeiros, os apartamentos estão quase todos cheios até Outubro e estou plenamente convencido de que vai ser um Verão ainda mais complicado que o passado porque o Governo continua a gastar cenenas de milhar em propaganda e subsídios para atrair cá turistas mas a SATA não é elástica , não se compraram mais aviões nem contratou mais gente (se calhar porque o prejuízo da companhia o ano passado ficou nos 53 milhões ) Tal como o ano passado, não há capacaidade para mover toda esta gente e aposto o que queiserem que centenas de residentes vão ter as suas deslocações muito limitadas para haver lugar para os turistas. Isto contribui para irritação dos locais com os turistas e para mais prejuízos para a SATA o contribuinte , porque há que compensar todos, turistas e locais, pelos inevitáveis atrasos e cancelamentos.

Tenho opiniões muito fortes sobre a estratégia para o turismo que está a ser seguida pelos Açores, cujos problemas começam no facto de os decisores lidarem com dinheiro que não é deles e nunca serem responsabilizados por resultados. Esta foto foi tirada na semana passada em S.Miguel, ilha que eu já considero perdida para aquele ideal que continuam a tentar vender. Décadas a mentir dizendo que não queriam turismo de massas nos Açores e depois promovem coisas destas e festejam a ver isto.

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PS:  Perante esta última rábula vergonhosa do PSD, PCP, BE, PS e CDS a propósito do tempo de serviço do professores:   pessoas que seguem a política, gostam de se manter informadas, gostam de pensar nas coisas e não são radicais só têm duas opções de voto nas próximas eleições :  Iniciativa Liberal ou Livre , consoante o lado para o qual se inclinem mais. Continuar a votar nos partidos tradicionais do regime é um absurdo, é acreditar nas mentiras e manobras todas e pactuar com elas, é contribuir para a continuidade de tudo aquilo de que nos queixamos.

Visitas

O Santa Maria Manuela esteve cá de visita e vai-se hoje embora, não vou falar muito sobre o navio , está tudo aí bem explicado no site oficial, menos uma coisa que não é imediatamente  aparente: esta magnífica peça da nossa história náutica está viva , linda , trabalha e leva longe e alto o nome e a tradição naval do país porque foi comprada e, com isso salva, por uma empresa privada, do Grupo Jerónimo Martins. Ali não entram comissões organizadoras, sindicatos, representantes das secretarias gerais nem se arranjam lugares para correligionários na base da confiança política ou favor prévio. É um belíssimo exemplo para mostrarem a todas as pessoas que acham e pregam que a defesa do património tem que ser  sempre competência do Estado.

Bom, os marinheiros do SMM repararam logo nos botes baleeiros na rampa e no Sábado e Domingo saíram com o Formosa, nós no S.Pedro. Foi a primeira vez em 3 anos que os dois botes arriaram aqui ao mesmo tempo, e isto  porque já é difícil encontrar tripulação para um quanto mais para dois. Foi lindo, há uma grande diferença entre andar a treinar só num bote ou andarmos a par e a medir-nos com outro , passámos duas belíssmas tardes no mar e diria que proporcionámos um bom espectáculo aos Florentinos, só que a esmagadora maioria dos Florentinos não se podia importar menos com os botes baleeiros. “Era enchê-los de gasóleo e largar-lhes o fogo”, foi um dos comentários que já ouvi, eu percebo indiferença e sei bem que o que a mim me encanta pode ser irrelevante para o próximo, mas animosidade clara já me custa mais a perceber.

Sintomático disto é a idade média da nossa tripulação, que anda pelos 55 pela minha estimativa. Fiz publicidade e fiz fazer, passou-se  a palavra, tentou-se entusiasmar alguma juventude para aparecer e tomar interesse, não é apenas a vela como desporto, é o património cultural , a herança dos Açorianos, uma coisa que não existe em mais lado nenhum do mundo. Ninguém se interessa, e os poucos que se interessaram desistiram quando perceberam que envolvia um bocado mais além de andar a passear de bote e ter viagens pagas para as regatas no Verão. Já desisti de tentar perceber ou mudar alguma coisa, o meu interesse é cada vez mais estreito : o S.Pedro está pronto a navegar e tenho mais 6 homens de confiança, disponiblidade  e vontade para o manobrar? Já me chega.

E mulheres?, poderiam perguntar-me, porque é que têm que ser 6 homens? A mim cabe-me encontrar e escolher uma tripulação ( na medida em que não há “veto” de quem manda mesmo a sério…) , e quando já está, não procuro mais. Se há mulheres que se queixam de não haver tripulações femininas ou mistas e que estão à espera de serem convidadas, esperem sentadas. Ir convidar mulheres só porque são mulheres é coisa do heteropatriarcado ou dos estúpidos, eu convidei toda a gente para aparecer logo no princípio da época  e se há mulheres que querem navegar nos botes organizem-se e cheguem-se à frente, se alguma me pedir ajuda, ajudarei como puder mas parece-me que a iniciativa e organização têm que partir delas, aqui ainda não temos quotas obrigatórias nem recebemos circulares do governo a exigir mais disto ou daquilo.

No fim da navegação de ontem fez-se uma patuscada no cais com as omnipresentes lapas grelhadas, foi um bom fim de semana de convívio náutico e , como de costume, os visitantes ficaram encantados com isto.

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O melhor momento da patuscada foi para mim quando uma senhora continental, sofisticada e coiso, quis saber o que é que ia no molho das lapas.

-E aqui, é o quê?

– É o molho , respondeu o sr Mendonça, 70 anos , florentino nascido e criado, tripulante do S.Pedro.

-Sim , mas é o molho de quê?

-É o molho das lapas, põe-se por cima e come-se.

É por estas e outras que eu me dou bem aqui.

O Porto das Lajes

Em Junho de 2005 estava  a caminho do Canadá vindo de Malta, com a natural escala nos Açores. Nessa época tanto nas idas como nas vindas parava em S.Miguel, descartando a Horta pelo congestionamento e também por estar farto de modas e da mania do Café Sport que já nessa altura tinha completado a sua transformação em atracção turística e império comercial.

Via a ilha das Flores na carta e via que só havia uma baía, um cais e um ancoradouro e  uma escala aqui nunca fazia parte dos planos mesmo sendo, geograficamente, o ponto lógico quer para fazer a última escala a caminho das Américas como a primeira no regresso à Europa. Os pilotos  (a versão náutica de guias de viagem que hoje foram substituídos por 567 sites de internet) concordavam todos: ilha belíssima, habitantes prestáveis e acolhedores para lá do normal, e mais nada. Em termos de infraestruturas, zero. Mesmo se a curiosidade me chamasse  para cá   não me pagavam para passear e passava sempre bem ao largo.

Nesse ano já estava a umas boas 200 milhas a Oeste das Flores quando apanhámos um temporal rijo, seguido de umas quebras e avarias a bordo, e uma das tripulantes estava há 3 dias deitada no seu beliche enjoada de morte, sem conseguir mexer-se quanto mais comer , nem água no estômago aguentava.

O temporal tinha que passar e com as avarias até podia bem, mas estava com medo da moça porque da minha experiência uma pessoa pode enjoar e sofrer 3 dias mas depois passa, se não passa depois de três dias, nunca mais, é para morrer de desidratação. Decidi dar meia volta, o porto mais próximo era o das Lajes.

Entrámos à vela ainda debaixo de temporal, acostámos  ao cais com o uso  que restava do motor e a ajuda de pessoal local, tivemos que voltar a largar  antes que a ondulação de fundo rebentasse com o barco contra o cais, ancorámos, e passadas quatro horas de descermos a terra havia duas novidades importantíssimas: a tripulação desertava-me , estando todos a caminho do aeroporto no dia seguinte, e eu tinha decidido que ia morar nesta ilha. Era este o barco e esta a amarração que se podia fazer, era isto ou fundear no meio da baía.

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Nessa altura não havia marina, descia-se a terra com os botes, e não obstante isso havia uma boa dúzia de veleiros oceânicos ancorados . Estava-se a aumentar o molhe exterior, como se pode ver na foto, para se poder receber um navio de abastecimento maior. Em terra havia um quiosque por cima da muralha que vendia bebidas e pouco mais, e mais acima uma pizzaria cuja dona prestava serviços como lavandaria e organizava transportes e coisas dessas. Fiquei uns 15 dias à espera de substituir a tripulação e a apaixonar-me irremediavelmente pela ilha e nesses dias houve sempre movimento no porto, veleiros a chegar e a partir.

Isto faz agora 13 anos, passemos para 2011 , a União Europeia pagou uma marina e o senhor César, que mandava nisto nessa altura, veio cá inaugurá-la como se tivesse sido feita por ele, como é  de resto normal. Foi no mesmo ano  em que fixei aqui residência e as críticas à marina não se fizeram esperar: não só era pequena e mal podia acolher e manter seguros barcos de mais de 9 metros em caso de ligeira mareta quanto mais temporal,  exposta a vento e ondulação de Nordeste que quando vem é sempre em força. Pessoas que conheciam bem o porto espantaram-se e avisaram que estavam a estender um molhe por cima de areia. Os senhores engenheiros desprezaram como de costume a sabedoria local e lá se enterraram milhões no que foi chamado de “porto de recreio” , tiveram a decência de não lhe chamar oficialmente “marina”.

Não sei nada de engenharia nem me atreveria a criticar os trabalhos mas achei muito estranho que consumissem milhões num porto de recreio e que nem uma alminha se lembrasse de investir umas escassas dezenas de milhar nas coisas tão importantes para os velejadores oceânicos como uma amarração segura: balneários, lavandaria, apoio técnico, bomba de combustível, para referir os mais importantes que continuam ausentes e nem sequer planeados ao fim de 7 anos. 

No primeiro inverno os temporais iam destruindo os pontões todos e no seguinte o pessoal do porto deu-se ao trabalho de os desmontar e arrumar. Nenhum barco, nem uma lanchinha de pesca, pode ficar ali na água durante o inverno com risco de se despedaçar, derrota-se logo o principal propósito de uma obra daquelas: ser um porto de abrigo. 

O trânsito e visitas de veleiros foi caindo, e este inverno tinha sido bom para trazerem aqui por uma orelha o responsável da obra, houve um temporal que nem foi nada de realmente especial mas que mostrou os problemas de assentar estruturas em areia, esta foto fui tirá-la hoje de propósito para que quando digo que a entrada do porto está escavacada não pensarem que estou a exagerar.

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Uma obra com seis anos, se é esse o prazo de validade destas coisas vou ali já venho. Talvez os engenheiros não soubessem que aqui o tempo é feroz no Inverno, tem que haver pessoas que não sabem isso, não é costume entregar-se a esses obras públicas de milhões mas estamos em Portugal.

Além dessa cabeça do molhe e do farolete ficou-se sem água nem electricidade nos pontões e o pontão maior, o único capaz de acolher barcos maiorzinhos, foi-se embora. Quem quiser ver as condições em que os barcos ficavam nesse pontão num dia mais fresco, está aqui este vídeo que fiz em 2015:

Esse pontão já foi, os outros estão mais ou menos presos por arames. Não há um sítio para os visitantes tomarem um duche quente quando chegam de pelo menos 15 dias de mar; um taxi tem que vir de longe, se se digna atender o telefone; para meterem gasóleo têm que andar 3 kms e ter os próprios jerrycans; não há uma lavandaria e o único bar restaurante de toda a zona do porto e da praia só serve refeições quase  por especial favor em dias certos e até certas horas. Coisas como um fusível, um cabo, uma poleia, enfim, aprestos náuticos, é muito difícil encontrar e se mandam vir uma peça do continente têm para pelo menos 15 dias.

É muito por isto que hoje (e ontem, e amanhã) o porto está assim:

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Na Horta, 140 milhas a sueste daqui , um dia de viagem, quase  não cabe mais ninguém , há um mês que o porto está abarrotado , e também na Terceira e em Ponta Delgada os iates enchem as marinas e dinamizam a economia local. Aqui fizeram esta marina porque havia dinheiro para o betão mas ninguém quis saber do resto. A construtora facturou, o César cortou uma fita e  fez um discurso, o tanque e bomba de gasóleo comprado de propósito está num canto a ganhar musgo e a Portos dos Açores , empresa pública que manda nisto, anda a ter orgasmos com o rendimento e movimento de todos os mastodontes de cruzeiros que descarregam turistas aos milhares e poluem o ar e as vistas (ou embelezam, consoante o ponto de vista) em ponta Delgada e quer lá saber mas é deste canto esquecido. Quem trabalha para eles ganha o mesmo quer haja cem iates quer não haja nenhum, eu se calhar no lugar deles também preferia nenhum.

Mas atenção: não é só por falta de condições que os veleiros já não param nas Flores, até à construção da marina também não havia condições e iam-se recebendo umas dúzias de visitas e havia animação no porto. O “problema” transcende isso e seria objecto de um post só por si mas estou embalado.

O problema é que a internet e as novas tecnologias desenvolvidas na última década mudaram radicalmente o perfil e atitudes dos velejadores de cruzeiro. Em primeiro lugar, dada a difusão do GPS e a eficiência dos aparelhos auxiliares de navegação (desde os computadores aos motores diesel)  qualquer pessoa consegue atravessar um oceano. Não vou estar a martelar em como era dantes , porque não era necessariamente melhor, mas a verdade é que a facilidade da navegação abriu a porta a muita gente que sem a facilidade do GPS, se tivesse sido obrigada a aprender e praticar navegação à estima e navegação astronómica e correr riscos de erro não se tinha feito ao mar.

Além da navegação, as comunicações: há uma sensação de segurança, hoje as pessoas sabem que se a coisa correr mal carregam num botão e  os socorros avançam, isto mandou ao mar outra revoada de gente que nunca o faria se soubesse que dependia essencialmente de si própria. Depois, as comodidades a bordo : dessalinizadores, congeladores, televisões, enfiou-se nos barcos de cruzeiro uma panóplia de objectos e dispositivos que convenceram a ir para o mar gente que não concebe viver sem os mesmo confortos de uma casa.  A seguir , e por fim , comunicações. Há internet a bordo e quando não há a bordo há nos portos todos, pelo que toda esta nova raça de navegadores pode passar parte dos dias a olhar para um ecran, a publicar as histórias mais banais que se possam imaginar como se fossem grandes aventuras e, em resumo , a publicitar as suas viagens num exibicionismo equivalente aos modelos do instagram que vivem e fazem tudo com o objectivo de se mostrar aos outros e acreditam que sem gostos, partilhas, seguidores e comentários não vale a pena andar a navegar.

Ora isto não é necessariamente mau, ate porque permite a muitas pessoas viajar e navegar vicariamente e às famílias acompanhar os seus em viagem. Muito teria gostado a minha mãezinha que houvesse internet quando viajei e atravessei o oceano pela primeira vez, se lhe tivesse podido mandar mensagens semi diárias em vez de um postal ou carta de mês a mês. O problema não é o exibicionismo, chamemos-lhe assim , que é quase generalizado, eu mesmo publico volta e meia fotos e este blog está cheio de relatos de viagem. A questão é que ninguém, ou quase, dá um passo que seja sem fazer a sua pesquisa. Ninguém vai à descoberta de coisíssima nenhuma, muito raros são os que por exemplo escolhem um porto de destino sem antes saberem tudo sobre esse porto, e quando digo saberem tudo não digo estudar cartas e pilotos, digo queimarem horas e horas nos milhentos foruns e sites “da especialidade” a pesquisar , pedir e oferecer informações sobre tudo desde o preço do gasóleo até aos dias de mercado passando pelas listas de procedimentos alfandegários. Há uma espécie de instinto de manada e se bem que há e haverá sempre uma minoria que se “perde” e gosta mesmo de descobrir a esmagadora maioria faz a sua pesquisa intensiva, sabe sempre o que vai encontrar, é uma questão de “segurança”.

O que é que isto tem a ver com a nossa marina deserta? Todos os iates que atravessam o Atlântico agora sabem bem que aqui não há condições (que há 15 anos não eram essenciais mas hoje são) e que o porto está danificado, e passam-nos ao largo. Os raros que aqui param têm uma determinação e objectivo antigo de ver isto ou não tiveram escolha e nem 24 horas ficam.

Não se pode fazer nada quanto à cultura do exibicionismo digital e da incessante presença online  (o tempo que os velejadores de cruzeiro modernos passam na doca a examinar e discutir as previsões meteorológicas disponíveis em 35 sites diferentes é qualquer coisa de surreal) mas havia coisas a fazer para que essas pessoas vissem nas suas pesquisas que vale a pena vir aqui, e para os que cá chegam não encontrassem esta miséria. Não se vai fazer NADA.

Tive várias ideias que podiam ajudar a transformar este porto numa escala agradável para os iatistas transatlânticos e mesmo os que vêm do Faial em barcos de aluguer ou da Europa do Norte em cruzeiro ao arquipélago mas como já vivo aqui há 7 anos e sou português   já sei o suficiente para não ter veleidades nenhumas nesse campo.

Existe a possibilidade desta minha análise estar errada, talvez em Junho a “marina ” se encha outra vez, se isso acontecer das primeiras coisas que vou fazer é vir aqui contar e dizer “olha , enganei-me”, mas a diferença que se vê  deste ano para os anteriores é tão grande que acho pouco provável. Todas as pessoas com quem falo aqui que sabem alguma coisa de navegação e cruzeiro concordam comigo.

Isto entristece-me um bocado mas não me preocupa, nesta outra foto pode ver-se o outro lado do porto e as nossas jóias , os botes baleeiros  S.Pedro e  Formosa.

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Mesmo com todos os defeitos, problemas, intrigas   e insuficiências, o nosso porto tem a sua vida própria,  os iates que vão lá para o Faial , beber gin no Café Sport , e dizer à sua audiência, real, imaginada ou desejada, que os Açores são magníficos depois de verem o porto da Horta ,  o Pico lá do outro lado do canal , mais umas fotografias e pouco mais, passando 1/4 do seu tempo acordados no Arquipélago a olhar para um écran.

Esta ilha não é para todos, e é assim que eu gosto dela.

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Viva o Plástico

O plástico foi das maiores invenções da Humanidade mas como faz parte integrante da vida quotidiana há décadas poucos reconhecem e reparam nisso. Menos ainda conseguem imaginar o que seria a vida  sem plástico e tomam os confortos, comodidades e avanços da Modernidade por garantidos. Consegue-se  ao mesmo tempo utilizar o plástico e demonizar o plástico, coisa que a mim me surpreende um pouco, é um bocado como com o capitalismo, sistema que apesar de ser a origem da modernidade como a conhecemos é todos os dias aviltado e combatido por quem beneficia dele.

Está na moda falar dos problemas causados pelo plástico, nomeadamente ambientais, e não há dia que passe sem um ou seis vídeos no FB a mostrar uma praia cheia de lixo ou toneladas de plástico a flutuar no oceano.

A esses vídeos seguem-se  comentários indignados, é o plástico, é o capitalismo, é a ganância, é a inconsciência, há que exigir uma alternativa ao plástico, há que usar menos plástico. Das centenas de indignados e preocupados há uma mão cheia que toma uma atitude, e geralmente a atitude é levar um saco de pano às compras, deixar de pedir palhinhas com as bebidas e ralhar no facebook contra os outros. Estou à espera de ver um vídeo sobre um   millenial que em vez de moer a cabeça sensibilizar os outros e invectivar o plástico tenha tomado uma atitude séria, consequente e exemplar e eliminado  o plástico da sua vida.

É que isso é perfeitamente possível, é é um bocado incómodo, desconfortável e exige sacrifícios, por isso o que se faz são actos simbólicos e exigências que alguém faça alguma coisa.

Já não tenho paciência para quem me quer fazer culpado do problema  como membro da sociedade ocidental capitalista. Percebo bem quem se choca, eu já vi mais mar que a maioria dos ambientalistas vai ver a vida toda, já vi desgraças ambientais e já me choquei muita vez,  mas o que é sério e para mim triste é que com as exigências e recriminações  se está a falhar o alvo e a confundir um problema gravíssimo, que é o plástico que acaba no mar, na orla costeira e pelas ruas, com outra coisa que é a produção e utilização de plástico, e quer-se reduzir a segunda pensando que isso vai reduzir a primeira. Não vai.

O problema é o lixo, não a sua existência, que é inevitável mas a sua presença nos sítios errados. Se eu for ali acima à lixeira, tirar meia dúzia de fotos e as puser no facebook com a legenda “isto passa-se na ilha das Flores, reserva da Biosfera” aposto que se segue indignação, revolta  e invectivas a tudo. Mas a ilha é habitada, os habitantes produzem lixo, o lixo tem que  ir para algum lado e ali está contido e é tratado. Corram a ilha toda, desde a costa  até aos montes e matos e dificilmente encontram  uma ponta de plástico. Ou seja, aqui toda a gente usa plástico à vontade mas uma ínfima fracção o deita fora do sítio certo e temos um sistema de recolha e tratamento, por isso não é um problema.

Agora andem duas mil e poucas milhas para Oeste daqui e vão ver por exemplo uma cidade como Port au Prince nesse buraco infernal que é o Haiti. Não há tratamento nem recolha de resíduos, os esgotos são a céu aberto e todo o lixo vai dar ao mar. Passados meses parte dele aparece aqui, muito espalha-se por esse Atlântico. O mesmo na Indonésia, no Bangladesh, em grande  parte da China e na maior parte de Africa: as pessoas usam plástico pelas mesmas razões que nós usamos só que o descartam  por todo o lado, por razões também conhecidas: ignorância, falta de educação e falta de interesse e capacidade dos estados e governos.

Tal como a poluição  atmosférica não tem fronteiras , a marítima também não, por isso podia-se interditar e eliminar o uso do plástico em Portugal que as nossas costas e os nossos mares iam continuar cheios de lixo.

Isto não é óbvio para toda a gente, ou se é óbvio é difícil de ser dito porque implica uma crítica ao terceiro mundo e a todos os países, infelizmente são muitos, que não conseguem, não podem ou nem querem resolver o seu problema dos resíduos.

Já estou cansado de ver o plástico tratado como uma praga ou veneno quando a praga é a falta de consciência e educação, já me farta ver todos os dias exigido o fim ou redução do plástico e nunca, mas nunca ver exigido e valorizado o tratamento do lixo, que é o verdadeiro problema.

 

Energia boa, energia má.

Ontem foi o dia de visitar  o lar de idosos da Santa Casa  para o nosso “espectáculo” de animação. Lembrava-me de uma vez lá ter entrado e ter ficado chocado com o  cheiro, que depois soube que é  comum, e passei o mês dos ensaios a preparar-me mentalmente para aguentar aquilo. Mais uma vez mostrando que o melhor é prepararmo-nos e esperar o pior, entrei, respirei fundo e fiquei surpreendido e aliviado, não notava nenhum cheiro especial e não faço ideia de a que se deve essa diferença de uma visita para a outra.

O lar é impecável, é daquelas coisas que nos faz achar que há parte da dívida pública que vale a pena. Tem nesta altura 23 utentes com capacidade para 32, se não estou em erro, os que não estão de cama estavam no salão principal e ainda vieram algumas amigas para ver a apresentação.

As canções eram belíssimas, abanei o “ovo” de percussão com competência relativa, os teatrinhos foram engraçados,  a minha historieta trouxe vários sorrisos lindos e isso recompensou-me à larga. Pediram-nos para a semana irmos apresentar o mesmo ao lar de Santa Cruz. Não sou  pessoa de crer muito em  auras nem magnetismos e afins mas parece-me  óbvio que uma troca como aquela traz “boas energias” a quem dá e a quem recebe. Como é que meço essa energia? Não tenho maneira, mas se saio a sentir-me melhor do que entrei e se quem me ouviu sorriu e passou uns momentos positivos, isso é boa energia.

-Temos que publicar essa história, tu escreves muito bem, devias escrever mais

Dizia-me uma amiga de cá, eu ri-me e disse que escrevo umas coisas mas para minha edificação e entretenimento pessoal e que não via necessidade nem vantagem em   publicar uma historieta tão básica feita para uma ocasião específica.

 Nunca quis publicitar este blog, especialmente desde que vivo aqui, saber que todos os meus  vizinhos  podem ler o que escrevo ia-me condicionar um bocado. Nem sequer lá ia com um pseudónimo, primeiro porque gosto sempre de assinar o que escrevo e depois porque, para escrever como gosto, toda a gente percebia num instante quem era. Haverá um ou outro leitor disto aqui na ilha e tenho uma mão cheia de amigos pessoais que acompanha estas páginas e para mim está bom assim.

A meio da tarde, outro tipo de energias, as energias da bola. O meu amigo Beru, francês que cá vive há uns anos bons, ex marinheiro, marceneiro, carpinteiro e em geral uma pessoa adorável,  é desde o ano passado o meu companheiro do futebol. Nunca tinha ligado muito mas hoje é sportinguista que já conhece os jogadores e já se exaspera e celebra como o resto. Todas as semanas lhe mando um sms com a hora do jogo (ele também vive fora do alcance da “comunicação social”)  e lá nos encontramos no bar do porto.

Ontem foi difícil, e quando o Bas Dost falhou o penalti e dois benfiquistas atrás de nós celebraram efusivamente pensei “é isto o nosso destino” , mas até ao lavar dos cestos é vindima e o Sporting lá arranjou energia, determinação e força que, com a imprescindível ponta de sorte, meteram a bola lá dentro e nos colocaram nos quartos de final da Liga Europa.

Para o fim do dia estava marcada uma apresentação e discussão pública de um projecto da EDA  para a ilha, uma nova mini hídrica, um projecto de energia daquela que se mede .

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Se alguém tem algumas dúvidas de que a democracia directa é uma má  ideia basta-lhe ir a uma destas sessões e fica logo esclarecido. Por partes:

– Desde 1990 que a EDA anda de volta disto, o aproveitamento hidroeléctrico de duas das ribeiras da costa Oeste.

-A conclusão dessa mini hídrica permitirá (?) à ilha ter as necessidades energéticas satisfeitas sem utilizar a central térmica , ou seja, a par com a renovação das eólicas aquilo pode permitir às Flores ter 100% de energia renovável, coisa que no mundo só a Islândia consegue, por via da geotermia.

-O auditório estava completamente cheio, foi o  melhor da noite, prefiro o conflito, protesto  e discussão à apatia e alheamento.

-A EDA mandou o presidente e mais uma data de engenheiros e especialistas, incluindo da EDP, e preparou  uma apresentação detalhada.

-Todas as pessoas que  pediram a palavra (pelo menos até eu me ter levantado e saído por estar exasperado com o nível da discussão) já iam com a sua opinião formada, são liminarmente contra e seriam sempre. Não foram para conhecer o projecto, foram para protestar.

– Estes  protestos não se baseavam em nada técnico, não se questionaram a sério os cálculos ou desenhos, a objecção é simples e é sempre a mesma: não se deve construir mais nada porque assim é que é bom , há que conservar tudo como está e queremos que os turistas não se incomodem com nada.

-A maioria dos activistas tem como facto comprovado que as empresas, todas as empresas, existem para destruir , espoliar e lucrar com essa destruição e que as obras são para gerar lucro. Se o presidente da EDA diz que o investimento vai ser de 20 milhões e que só será recuperado, eventualmente, em mais de 30 anos, eles dizem que é mentira e obfuscação, sobretudo porque o homem usa gravata e é presidente de uma empresa, logo, o demo encarnado.

– O representante da associação ambiental local acusou a EDA de não ser fiscalizada por ninguém, levantou-se o representante da Direcção Regional do Ambiente e informou que por  lei eles fiscalizam  as actividades da  EDA. Não serviu de nada.

– Outra objecção era devida às alterações verificadas no curso das ribeiras ao logo das décadas, ia-se construir em zonas que já foram pontualmente leito das ribeiras. Lembrar que  os pontos de captação e condutas servem igualmente para regularizar e estabilizar os leitos e caudais não serviu de nada.

– Uma sala cheia de ambientalistas foi insensível à possibilidade de se alimentar toda a ilha com electricidade sem importar e queimar gasóleo.

-Um indivíduo americano que cá vive há mais de 3 anos, é iluminado, conhece O Caminho, nunca se coíbe de apontar os problemas, dramas e falhas da ilha e dos habitantes mas nunca teve tempo nem interesse para aprender uma palavra de português, atirou “dude, your numbers are fake!” , deixando-me na dúvida de como é que ele conhece os números ou o próprio projecto já que não há versão inglesa. Devia ter visto  que eram falsos pelas gravatas dos engenheiros. Mais tarde disse que o que era preciso era racionar e diminuir o consumo de energia. A sua companheira, que ao menos fala português, esclareceu (aqui ninguém nunca se tinha lembrado disso, valham-nos estes beneméritos) que fala com quase todos os turistas  e que o que eles querem é pureza e silêncio. Nós a pensar que eles vinham pela vida nocturna e as praias. “A mini hídrica vai arruinar a economia da ilha”, com essa demonstrou  que nem percebeu bem o projecto nem conhece a economia da ilha como pensa que conhece.

– Outra moça protestou que ninguém tinha medido os caudais das ribeiras , eram estimativas. Foi explicado como se fazem as estimativas, por pessoas que há décadas, pela EDA e EDP, se dedicam a estudar e calcular caudais, com aparente sucesso na medida em que as luzes estão acesas e as barragens trabalham, mas também isso não fui suficiente.

– O gerente do maior e mais famoso aldeamento turístico da ilha, pessoa que me parece confundir o interesse da ilha com o do seu aldeamento e que acha que a cada passo que se tome nesta ilha ele deve ser consultado e dar o seu acordo, diz que o nível de ruído é inaceitável. Tenho a certeza de que qualquer nível de ruído acima de zero seria inaceitável para ele.

– Uma outra  moça, que foi mãe recentemente e como tal está energizada para lutar por um mundo puro para  sua cria, protestou que a mini hídrica não servia no Verão porque havia tempos em que as ribeiras estão quase secas. Não adianta explicar como funciona um centro de retenção, ou sequer a própria mini hídrica, isto são objecções que vêm do coração, não há técnica nem economia que as contrarie.

Foi por esta altura do debate entre o Bem e o Mal que abandonei a sala, pegando na deixa de um interveniente que afirmou, cheio de razão, que convocam estas reuniões quando os projectos estão feitos e as decisões tomadas, pelo que é uma perda de tempo.

Eu fui lá simplesmente para saber do que se tratava, convicto de que a minha opinião não conta. Se contasse, diria que acho positivo trabalhar para que a ilha não tenha que importar e queimar gasóleo às toneladas para gerar electricidade; que acho que a paralisação geral de tudo e o regresso ao passado não são  resposta para nada; que as pessoas que acreditam que é têm bom e rápido remédio: vivam sem electricidade, água corrente e apreciem a enorme superioridade moral que isso lhes confere.Também acho que as empresas como a EDA cometem muitos erros mas que dado que é precisa uma política de energia se queremos ter energia, essa política deve ser entregue a engenheiros e não a activistas; que os activistas acreditam demasiadas vezes que o seu trabalho é obstruir e condenar e que especialmente os estrangeiros e imigrantes recentes adoram a paisagem da ilha mas  para os habitantes estão-se nas tintas, para não dizer que os consideram um empecilho, uns atrasados e manipulados que não conseguem entender.

Para terminar, duas notas que não têm a ver com a ilha mas têm tudo a ver com o tema:

-Aqui há poucos meses a Associação Ambientalista Zero, que como o nome indica propõe e defende crescimento, emissões e tudo o mais a zero, levou a cabo uma campanha de re plantação no extinto Pinhal de Leiria. Plantaram mil sobreiros, o que para quem conhece o terreno e clima das terras do Pinhal de Leiria só ilustra uma certa  discrepância entre as intenções destas pessoas e o seu conhecimento da realidade.

– Está calculado que os 15 maiores navios de carga do mundo emitem tantos poluentes como todos os automóveis do mundo, devido ao tipo de combustível que usam. Há mais de 50 000 navios de carga no mundo. Apesar disto ser do domínio público, os ambientalistas batem as palmas quando se proíbem carros velhos ou a gasóleo nos centros das cidades e se promovem os carros eléctricos como uma coisa que vai fazer alguma diferença.

De cada vez que um porta contentores passa aqui ao largo das Flores polui mais que um ano de tráfego rodoviário, mas em breve vamos ter aqui os leafs e prius, a assinalar a virtude, subsidiados, claro está, e apresentados como uma coisa positiva para o ambiente, mesmo que a simples fabricação de uma bateria para um deles polua mais que todo o ciclo de vida de uma automóvel a gasóleo.

Nas questões ambientais para mim o principal problema é a ordenação das prioridades, e continuo sem vislumbrar uma esperança de que isso mude.

Ps: Acabo de ver isto, chamo portanto a atenção para o  facto de ontem à noite o Presidente da EDA se ter mostrado  mal informado, apesar de ter estado recentemente em Paris numa reunião das pessoas importantes do sector. A acreditar no Canal Arte a ilha de Hierro é 100% autónoma num sistema que só reforça os argumentos dele.Não percebo porque não mencionou isto. Energia e Engenharia, de aço e betão e  biológica. Equilíbrios para um futuro possível, talvez.

Reparações

Ando numa fúria interior por causa do Sporting, vou só dizer que não gosto do estilo do Bruno de Carvalho mas espero bem que continue como presidente,  e vou antes escrever sobre máquinas de lavar.

Muitas pessoas acreditam que há uma variedade enorme de produtos que têm obsolescência incorporada, ou seja, são feitos para estarem ultrapassados ou avariarem em pouco tempo. Eu acredito nisso e faz sentido: se somos fabricantes de telemóveis, por exemplo, temos mais interesse em vender um telemóvel à mesma pessoa a cada dois anos do que vender-lhe um que dure 10, ou vender-lhe um automóvel a cada 3, convencendo-a por meio de publicidade que o seu, mesmo que esteja funcional, já não serve. É um dos problemas do capitalismo, que se não fosse alavancado por esta voragem do novo talvez nos tivesse trazido a um ponto diferente na História.

É uma coisa que me ocupa bastante tempo, tentar  fazer a “quadratura” entre os problemas por exemplo ambientais provocados pela necessidade criada de mudar de carro a cada 3 anos e telemóvel a cada 2 e os milhões de empregos e salários proporcionados pela produção desses mesmos carros e telemóveis. O balanço entre os agroquímicos que deitamos na terra e o mal que fazem e os aumentos enormes de produtividade que permitem alimentar biliões a preços comportáveis. Quanto é que vale o sofrimento dos macacos, ratos e demais animais de laboratório e os lucros absurdos das farmacêuticas posto ao lado do sofrimento humano que minoram? Onde está o equilíbrio entre os problemas da exploração e refinação do petróleo e a maravilha que é entrarmos num carro e irmos até onde queremos?

Enfim , questões sem resposta, mas pela minha parte não participo na dança e não  compro alguma coisa porque é moda, nem  deito fora coisas que funcionam , seja um telemóvel seja uma peça de roupa, só porque já há melhor. Não me sinto de algum modo diminuído nem que me falta alguma coisa por o meu carro ter 20 anos,  usar windows 7 de 2009 e calças quase até ao fio . Rio-me bastante quando vejo críticos ferozes do capitalismo que sem se darem conta estão completamente absorvidos no sistema e a sua principal objecção é que o capitalismo não lhes está a proporcionar a eles o nível de vida material a que acham que têm direito, ou alternativamente, que beneficiam de tudo e incomoda-os que os outros não possam beneficiar igualmente, o que é de uma hipocrisia considerável. Este sistema opressivo que destrói o planeta, escrevem no seu Mac enquanto partilham o dia a dia nas redes sociais, pesquisam novos cosméticos, usam o visual da moda e vão de uber para o starbucks discutir as problemáticas transgénero antes da sessão de cinema independente da meia noite. Não devia funcionar assim.

Mas estou a divagar, voltando ao tema, que são reparações, como é fácil de calcular as pessoas aqui, por escassez de comunicações com o exterior, isolamento, uma certa pobreza endémica e o próprio tamanho do mercado que não justifica muitas empresas especializadas, sempre se habituaram a esticar a duração das coisas ao máximo e a reparar tudo até ser mesmo impossível continuar. Apesar de hoje os rendimentos estarem em linha (creio eu) com os do continente e se poder encomendar toda a espécie de tralha  pela internet permanece algum  espírito de desenrasque e recuperação, de utilização do que há até ao fim. Já tive a sorte de experimentar isso pessoalmente, a última vez com o carro, numa avaria em que de certeza um mecânico no continente me tinha feito comprar uma peça nova completa, o meu mecânico aqui cheio de arte e engenho pegou nuns arames e num pedaço de plástico e poupou-me uns €300 e três semanas de carro parado à espera da peça.

Só pude comprar uma máquina de lavar roupa uns anos depois de cá morar, até lá dependia de vizinhos e amigos prestáveis e da enorme economia só atingida por gajos que vivem sozinhos e se estão nas tintas para a  avaliação que os outros fazem do grau de variedade e limpeza do seu vestuário. Foi um belo dia, e não me vou esquecer de ver o tipo da loja que ma vendeu quando ma veio entregar e instalar, a fazer os cerca de 50 metros da canada estreitinha de acesso a minha casa casualmente com a máquina ao ombro e um cigarro nos lábios.

Não mudou muito o meu ritmo de lavagem de roupa mas fiquei independente, e ainda por cima com a possibilidade de fazer o mesmo por um amigo se lhe avaria a máquina, ou de lavar umas máquinas a um conhecido que chegue aí num iate no Verão, já aconteceu. As máquinas de lavar roupa são daquelas coisas que as pessoas tomam por garantidas e já nem imaginam o que seria a sua vida sem uma, eu imagino e por isso gosto tanto da minha. Ao fim de três anos avariou.

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A máquina tem a sua própria casinha,  (essa planta é um cafeeiro, o sobrevivente de 20 pés de um palmo que trouxe do Porto da Lomba há 6 anos quando sonhava em ter uma plantação de café)  e por isso nunca a ouço a trabalhar. Carrego-a , ligo-a e passado umas horas ou na manhã seguinte vou estender a roupa. Por duas vezes a roupa estava ensopada quando abria a máquina, mas eu não me deixo incomodar por pormenores desses, estendia-a a secar a pensar que me tinha enganado num botão ou coisa do género. Isso seria difícil porque a máquina trabalha sempre no mesmo programa e temperatura, tudo é lavado da mesma maneira, mas  depois de secar uma terceira máquina e reparar que a roupa não cheirava lá muito bem é que me lembrei de depois de carregar no botão ficar a ver o processo. A máquina enchia-se de água, dava dois saltos e parava.

Liguei a um amigo electricista para cá vir e já estava a fazer contas à vida, peças, despesa, tempo sem máquina. Ele desmontou a tampa, olhou lá para dentro, pegou num secador de cabelo (acho que não é preciso dizer que não era meu)  passou 5 minutos com o secador apontado à placa electrónica e depois disso a máquina trabalhou como dantes.

Ninguém acredita que algum técnico de reparação de electrodomésticos numa cidade teria outra atitude além de diagnosticar avaria da placa electrónica e ou subsituí-la ou mandá-la para reparação, quiçá pronunciar  a máquina definitivamente avariada e recomendar a compra de uma nova.

A humidade é dos maiores problemas que temos aqui, para as casas, os aparelhos e as pessoas, e é uma guerra constante. Agora tenho uma lâmpada de aquecimento (que usava para os pintos) que montei em cima da máquina de lavar , abro a tampa e deixo-a lá quinze minutos a secar a parte electrónica antes de uma lavagem, e espero com isto estender a duração da máquina por muitos e bons anos.

Uma das coisas mais ridículas que já vi  e me convenceu de que as pessoas  em geral  pensam pouco e mal  e compram seja o que for que lhes souberem impingir foi há cerca de dois anos, um anúncio de uma máquina de lavar roupa com a revolucionária possibilidade de se abrir uma tampa inserida na tampa para juntar uma peça de roupa durante a lavagem. Para aquelas alturas em que a máquina já está a lavar mas chega a criancinha com a camisola que já vestiu uma vez (logo, imunda) e como certamente não tem outra nem pode esperar um dia ou dois, abre-se a tampa  da tampa e resolve-se esse problema.  Haver engenheiros a trabalhar neste tipo de merdas, marketeers a trabalhar para fazer crer que isto faz falta a alguém e consumidores dispostos a pagar mais centenas de euros pela possibilidade de juntar uma peça de roupa durante a lavagem é das coisas que me faz crer que este modelo não tem grande futuro.

Um Parafuso a Menos

Há duas ferramentas que aqui toda gente que tenha mais terra do  que um jardim possui na arrecadação, quer tenha animais quer não : uma motosserra e uma roçadora. A primeira tem mais uso no Inverno, a segunda no Verão quando a monda parece que cresce diante dos nossos olhos. Usa-se a roçadora para limpar terras bravas e de cada vez que os animais acabam de comer determinada pastagem, passa-se a máquina para cortar as ervas de que eles não gostam, e também para simplesmente aparar a relva nos jardins e quintais. Já as motosserras trabalham mais no Outono e no Inverno, eu uso a minha para cortar lenha e quase todos os dias para cortar incensos. Como falo aqui várias vezes de incensos cabe  explicar que não estou a falar dos incensos orientais que se queimam em pauzinhos para aromatizar, estou a falar do Pitosporum Undulatum, uma árvore que se encontra por toda ilha, cresce rápido,  diz a wikipedia que é nativa da Austrália , aqui estão muitas imagens.

Em S.Miguel usa-se na cultura do ananás, faz uma espécie de cama orgânica onde eles crescem, e também se usa  para camas do gado. Em certas ilhas (e aqui também) produz-se mel de incenso, se o encontrarem à venda comprem-no todo porque dificilmente encontrarão melhor e mais puro, feito por abelhas que quase só se alimentam dessas flores e passam as vidas sem cheirar nem comer nada que não sejam flores. Não sei se também acontece nas outras ilhas mas aqui também se dá incenso a comer aos animais, as minhas ovelhas fartam-se de comer folhas de incenso não porque eu lhes queira muito variar a dieta mas para completar a alimentação, no Inverno não há erva que chegue, um saco de ração ainda são quase 15€ pelo que quase dia sim dia não vou cortar incensos, em terras minhas, em terras emprestadas e em terras onde me dão autorização para isso. Por razões óbvias não se corta uma tonelada de uma vez e se guarda, pode parecer que não mas as ovelhas são bastante esquisitas e preferem as folhas frescas.

 

Como lenha para aquecimento o incenso já não é grande coisa mas não se pode ter tudo, e tenho sempre uma  reserva de lenha  cortada em pedaços pequeninos para caber na salamandra, que é à mesma escala do resto das coisas. Como a alimentação para os animais e o aquecimento estão muito alto na lista das prioridades  (aqui muito raramente baixa dos 14º mas eu sou friorento e além disso gosto de ficar meio mesmerizado a olhar para o lume), a motosserra é a ferramenta essencial do Inverno. Recentemente comprei uma terra nova que tem uma matazinha, tenho lá lenha para cortar para  anos, e como o meu ritmo de trabalho é, para ser caridoso, um tanto  lento, também aí há quase todos os dias trabalho para a motosserra.

Como na altura tinha essa possibilidade decidi investir na melhor motosserra que há, é uma Stihl , passe a publicidade e desculpem os fãs da Husqvarna,  podia ter comprado uma chinesa por metade do preço mas que duraria um quarto do tempo. Como não podia deixar de ser é a mais pequena da gama mas é excelente, serve-me  perfeitamente  e nunca me falhou, mas não há material nenhum que resista à falta de jeito do operador e de alguma maneira que ainda não percebi bem arranjei maneira de entortar o parafuso que ajusta a tensão da corrente.

Não é um parafuso standard, sem surpresa não tinham na loja de materiais de construção e ferragens aqui, nem na outra vila, nem na Associação de Agricultores. Acontece frequentemente não haver algum artigo, especialmente com peças para  carros, não há em lado nenhum e demora sempre no mínimo dos mínimos 15 dias a chegar de fora. Quando os CTT eram públicos era assim, agora que foram privatizados…é igual.

Na Associação encontrei um amigo que me disse que de certeza que tinha disso, ele é auto didacta da mecânica e guarda os parafusos todos, lá fomos à garagem dele.

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Não é bem uma agulha num palheiro mas é um parafuso m5 com dois terços de rosca, como é normal havia naquela gaveta quase todas as medidas e formas de parafuso conhecidas do Homem menos essa. Com um torno, uma lima, boa vontade e aquela vantagem enorme de nos conseguirmos desenrascar com uma aproximação recuperámos o parafuso e tenho outra vez a motosserra funcional, mas não pode ser permanente, primeiro porque qualquer parafuso torto e depois endireitado está comprometido, depois porque com coisas como motosserras não se brinca nem facilita.

Ontem houve um acidente mesmo aqui ao pé de casa, um tipo que ia perdido de bêbado passou para fora de mão e bateu noutro de frente (sei que estava perdido de bêbado porque 15 minutos antes estava no mesmo café que ele) ficou encarcerado e a ambulância e os bombeiros vieram do outro lado da ilha  (aqui  há quartel mas não há equipamento de prontidão) eu estava lá quando os chamaram e demoraram quase 45 minutos , pelo que é bom que o pessoal aqui não tenha ferimentos que não permitam aguentar 45 minutos.

Estava a falar disso com um amigo no outro dia, se me acontece alguma aí numa ribeira ou numa combrada por causa de um desiquilíbrio ou de uma falha (por exemplo um parafuso numa motosserra), é bom que consiga sair pelo meu pé, porque primeiro que alguém dê pela minha falta  pode demorar dias, depois chegar ao centro de saúde é outro problema, e se não der para ser remendado lá tem que se ir de avião para o Faial pelo que é bom fazer tudo com calma, ter muito cuidadinho onde se pisa e onde se agarra e ter a certeza de que os parafusos estão todos em ordem.

Há  visitantes e admiradores da ilha que apontam como principal  obstáculo a instalarem-se cá,  o que os anglo saxões chamam dealbreaker,   a falta de um hospital, a ideia de ter um problema grave e não ter assistência é-lhes inconcebível. Eu respondo que se vive aqui  há 500 anos, criaram-se gerações e viveram-se vidas tão seguras e felizes ou inseguras e infelizes como noutros sítios, e que todos os dias morrem dezenas de pessoas num raio de poucos quilómetros dos melhores e mais equipados hospitais. De qualquer maneira encomendo o parafuso novo, não há que viver com medo mas não há que facilitar.

Uma Imigrante

-Temos uma imigrante nova – informou-me um amigo francês quando o visitei na semana passada – do Hawaii!

Fiquei  interessado e o interesse deve ter transparecido por que me disse logo a seguir:

-É lindíssima…mas acho que não te vais dar muito bem com ela, é muito….esotérica. Muito mesmo

E acompanhou com um gesto daqueles que significa “muito para lá, noutra dimensão”. Confiei na opinião dele, que conhece bem não só a mim como ao género de visitante /imigrante que dá aqui mais à costa. Em Alcobaça dizíamos que os vales atraem os loucos, devia mostrar aos meus amigos de lá a colecção que aqui existe, entendendo obviamente “louco” não no sentido de demente ou insano mas no sentido de original e  pouco convencional. De resto, acho que também faço parte da colecção e é claro que também tenho a minha pancada.

Fiquei com uma certa curiosidade , especialmente por causa do “lindíssima” , mas não pensei mais nisso com a certeza de que com as coisas correndo normalmente era inevitável conhecê-la entretanto. A ilha é pequena  e este género de “imigrantes”  movimenta-se  no mesmo círculo, que não é muito grande e ao qual  passo frequentemente umas tangentes e secantes, de tal maneira que um dos meus vizinhos , seis anos depois, ainda não está bem convencido de que sou português, sempre que me vê pergunta-me “how are you, ok?” , eu respondo sempre no português mais claro que consigo mas por alguma razão voltamos sempre ao mesmo.

Entretanto recebi um telefonema de outro amigo francês a perguntar-me se eu estava interessado em fazer-lhe uma tradução, eu respondi logo que sim, de vez em quando faço isso, de português para francês ou inglês ou vice versa. Até alguém me vir chatear e querer multar por não ser oficialmente tradutor ou não declarar às finanças ou não ser sindicalizado ou o raio que os abrase  vou continuar a fazer isso quando há oportunidade.

Esse amigo vive com a família no alto de um penhasco pouco acessível numa casa toda feita por ele, combinámos encontrar-nos noutra casa que eles têm numa freguesia e que compraram para arrendar no airbnb, que mesmo os hippies  reconhecem as ferramentas positivas do capitalismo e os espertos aproveitam-nas.

O alojamento local gerou mais de mil milhões de euros para Portugal no ano passado, e isso não conta o valor gerado pelas transacções imobiliárias e pelo sector da reconstrução e requalificação , eu todos os dias agradeço ao Costa e à geringonça o terem-se lembrado de aumentar o turismo desta maneira, incentivado as pessoas a recuperar e alugar as suas casas e o terem  criado o airbnb, deve-se a isso a retoma, a par com a criação massiva de empregos públicos. Só na semana passada aqui nas Lajes a câmara municipal contratou mais 8, acho que já só falto eu, ninguém dava por falta de mão de obra nos serviços camarários mas não nos podemos ater a esses detalhes, o que é certo é que as pessoas não tinham emprego, agora têm e depois logo se vê.

Bom , lá fui  ter à tal casa como combinado e quem me abre a porta é nada menos que a nova imigrante, estaquei no lugar onde estava porque a descrição  confirmava-se. Tem dois miúdos pequenos, de cores diferentes, vivaços, sorridentes e andrajosos como é clássico,  e o porte, vestes e  expressão de uma sacerdotisa de um culto, adereços e tudo. Ofereceu-me um café enquanto eu esperava pelo meu amigo,  como estive no Hawaii há pouco tempo tinha algum assunto além desta  ilha, mas obviamente ela queria falar mais deste arquipélago e da ilha do que do Hawaii.

Tinha vindo aqui quase por engano, a objectivo da viagem era  S.Miguel, onde tinha ido à procura dos seus ascendentes que tinham ido dos Açores para o Hawaii nos famosos barcos dos ananases, quando no século XIX muitos trabalhadores açoreanos emigraram para lá para trabalhar na cultura do ananás, que conheciam cá e começava lá. Tinha crescido a pensar que os “pineapple boats” eram uma lenda e ficou fascinada quando viu os ananases em S.Miguel e percebeu que era mesmo tudo real. Conheceu lá uma alemã que vive cá ( que eu conheço e à qual ela se referiu como uma deusa e que eu considero uma cabeça de vento) que lhe disse que tinha era que vir para aqui, e cá está. Diz que sentiu logo a aura desta ilha, eu de costume dou pouco por auras mas olhei bem para ela e começou a tornar-se aparente que a racionalidade é uma coisa muito sobrevalorizada  neste mundo e que é muito provável que existam muitas realidades para lá da compreensão filosófica e científica tradicional.

Quanto mais olhava para ela mais achava que este mundo está demasiado cheio de cinismo, que devíamos reconhecer e respeitar capacidades  mais elevadas do que o intelecto humano, que a Terra fala connosco e assim. Nem sequer fiz a minha piadinha do costume quando me perguntam o signo:

-Sou signo Dinossauro  (às vezes digo signo Tremoço)

-Isso não existe!

-Os outros também não…

Ou outra de que também gosto bastante e funciona muita vez:

-De que signo és?

-Aquário

-Bem me parecia, eu vi logo…

-Não, sou Caranguejo.

Falámos da ilha, um tema em que quando discuto com recém chegados  oscilo entre “não conheço no mundo sítio tão bonito como este” e “os invernos aqui podem ser horríveis, as pessoas são difíceis e em geral nada é muito fácil”.

Entretanto chegou o meu amigo com os papéis que quer que eu traduza. Pensava que era alguma coisa ligada ao turismo ou aos  impostos mas o que se passou foi que no dia a seguir à sua festa de anos (que me mereceu um post inteiro aqui em Novembro) ia morrendo, ficou dois dias quase sem se mexer e quando emergiu desse estado teve uma espécie de epifania , decidiu deixar de beber e de fumar e pôs em 9 folhas A4 escritas à mão dos dois lados as suas considerações filosóficas sobre a vida contemporânea e os conselhos que acha que tem para dar a toda a gente. É esse tratado que eu vou agora traduzir, e até sou capaz de pôr aqui partes que ache interessantes porque ele quer aquilo traduzido em português e inglês  precisamente para poder ser distribuído por muita gente. Estou com uma certa curiosidade e não digo estas coisas com nenhum paternalismo ou condescendência, gosto dele , admiro muitas das suas características e tenho-o por um tipo inteligente, tem a tal pancada mas todos temos a nossa.

Despedi-me da sacerdotiza da aura que me olhou com uns olhos que  parecia que me queria perceber  de uma só vez e voltei para casa. Já hoje me cruzei com ela na estrada, ia a empurrar um carrinho com os miúdos mas não me parecia nada serena nem contente, o dia esteve mau e é sabido que o tempo agreste agrava qualquer dúvida ou problema. A ilha é pequena, a “comunidade” mais pequena é pelo que sei que a vou ver por aí outra vez, sei que o Universo tem um plano e tudo aparece por alguma razão no devido tempo.

Estou a brincar , não há planos nenhuns excepto os que nós fazemos, e eu só planeio ser simpático e cortês para ela (como sou para o resto das pessoas que são simpáticas para mim)  quando nos encontrarmos outra vez por acaso, isto no caso da atracção da aura sobreviver a Fevereiro, um mês que para quem não está habituado nem conhece isto, não tem amigos , é estrangeiro, “original”  e vive sozinho com duas crianças pequenas numa casa muito modesta e limitada num sítio como a Lomba,  pode ser brutal. Brutal no sentido literal da palavra.