Evolução para a Guerra

Todos os períodos históricos têm os seus pessimistas e profetas da desgraça, desde sempre que existem indivíduos que vêm o futuro negro, desde os autores do Eclesiastes até ao Shopenhauer,  passando pelo Voltaire e personagens como Cassandra ou  o nosso Velho do Restelo. Por cada visionário de olhos brilhantes há um realista com as mãos na cabeça, e a evolução da Sociedade e da Espécie continua, com umas consequências magníficas e outras macabras.

A questão principal é a velocidade a que as coisas começaram a mudar no último século, comparando com os 30 séculos precedentes, comparando com o início do tempo em que se começaram a tirar apontamentos e registar coisas.  “Antigamente”, até à Revolução Industrial, a regra era que 99% da população ia levar uma vida basicamente igual à dos pais, avós e bisavós, todas as mudanças, fossem na paisagem, no clima, na economia ou na organização social eram imperceptíveis no curto prazo.

Entre os Templários criarem as notas de crédito e o seu uso se generalizar passaram mais de 600 anos. Entre o Tim Berners Lee criar a Internet e o seu uso se generalizar passaram 30.

Uma pessoa no tempo das Invasões Francesas  respirava um ar de composição idêntica ao de uma no tempo do Viriato, mil e setecentos anos antes , essa mesmo pessoa hoje em dia, duzentos  anos depois, era capaz de morrer se se materializasse em  Lisboa e respirasse fundo.

Desde que nasci até ter uns 25 anos ouvia música no mesmo suporte que os meus pais e avós, o disco de vinil. Nos 20 anos seguintes já passei por CD, minidisc, mp3 e já vamos no streaming.

Ninguém consegue parar isto, o que é um bocado assustador porque se por um lado apreciamos e gozamos os frutos de toda esta evolução e mudança, por outro vamos tomando consciência de que esta evolução tem custos elevados, em certos casos tão elevados que são insuportáveis.

Para mim os custos mais elevados estão na política, ainda mais do que no ambiente. O Homem já mostrou que se é alguma coisa é adaptável, há milhares de anos que vivem humanos nas tundras geladas e nos desertos ressequidos e o Homo Sapiens não corre nenhum risco de extinção, ao contrário de muitas outras espécies. O que faz a política é decidir e determinar quais os grupos e indivíduos que prosperam e quais os que sofrem e desaparecem , e de onde eu vejo as coisas a noção de “bem comum”  interpreta-se como “bem comum aos do meu grupo”, provavelmente sempre foi assim mas agora é tudo exacerbado e amplificado.

Com a revolução das tecnologias de comunicação e a sua perversão pelos interesses mais daninhos cada vez se divide mais o mundo e a política é feita do confronto entre “nós” e “eles” , mesmo quando essa divisão é artificial.  Rebentadas e esgotadas as ideologias clássicas, quando a população está anestesiada pelo “entretenimento” e vidrada nas possibilidades infinitas de alienação que tem  no seu telemóvel, o sucesso político está nas mãos de quem consegue criar, explorar e maximizar as divisões.

Em vez de aceitarmos que o Socialismo trouxe coisas positivas e que o Capitalismo é o melhor sistema de organização económica, simultâneamente; em vez de procurarmos uma síntese das respostas de ambos aos problemas , em vez de rejeitarmos o que de negativo têm ambos , aferramo-nos aos “da nossa equipa” e diabolizamos os outros, trafica-se em absolutos, não se concede nem se recua, encara-se qualquer cedência como uma derrota e culpa-se sempre, sempre, o adversário, que demasiadas vezes se pensa como inimigo.

Como mais uma vez se comprovou, desta feita em Espanha com o surgimento do Vox, também a Terceira Lei de Newton se aplica na política, para cada acção haverá uma reacção correspondente. Os extremos alimentam-se do extremo oposto.

E os extremismos obviamente vivem da manipulação da opinião e das ideias “prontas a pensar”, vivem de jogar com os medos e inseguranças das pessoas e fazê-las crer que eles podem mudar as coisas a seu favor. Quando os métodos de transmissão de ideias eram as conversas, os livros e os jornais, a manipulação não era uma tarefa simples e exigia um certo domínio não só da retórica como do assunto em causa. Essa barreira desapareceu com a comunicação de massas e a possibilidade de fazer chegar seja que informação for a todas as pessoas ,  ao mesmo tempo que se conhecem os tais medos e aspirações de cada indivíduo, porque alegremente os comunicamos ao Mundo.

O Trump provou que não é preciso sabe falar, ser culto e dominar os temas para se chegar ao poder, basta conhecer o público alvo. Idem o Bolsonaro, idem o Orban, idem a fornada de proto ditadores que (a minha aposta) vão entretanto deixar de ser proto ditadores para assumirem o cargo em pleno e juntarem-se a outros de facto , como o Putin e o Kim, que de resto o Trump não se cansa de elogiar enquanto humilha aliados, e isso não revolta gente suficiente. Há 20 anos era impensável um país com uma democracia e instituições estabelecidas como os EUA dar o poder a um homem como o Trump, tenho bem na memória a candidatura do democrata Howard Dean que foi forçado a abandonar por se considerar ridículo e indigno de um estadista um grito que ele deu num comício. O Trump mente cerca de 8 vezes por dia, demonstra todos os dias uma ignorância vastíssima e  tem uma vida feita de desrespeitar mulheres, minorias, a verdade  e a Lei  mas tem uma esperteza enorme e sabe entusiasmar os seus, e isso basta.

E isto tudo para chegar à guerra que vem aí . De vez em quando percorro os arquivos deste blog à procura de previsões que fiz ou coisas que antecipei e que não aconteceram e até agora estou bastante satisfeito com o registo porque ainda não encontrei  nenhuma  relevante (não quer dizer que não haja , com este são 1350 posts e sou tão falível como o próximo) , vou deixar aqui mais esta:

Antes de o ano acabar os Estados Unidos vão declarar guerra ao Irão ou intervir na Venezuela.

É dos livros de História que o principal aliado e muleta de um ditador ou aspirante a ditador é o inimigo externo, real ou imaginado. Num país com uma história e tradição belicista como os EUA isso funciona ainda melhor porque a maioria das pessoas não só não tem a noção do que é como rejeita cabalmente  (até vir este presidente) o governo de um  déspota.          Um conflito militar  sempre foi relativamente fácil de provocar  (acabei há pouco uma história da queda de Cartago que explica lindamente como os romanos provocaram a Terceira Guerra Púnica ) e  é-o muito mais hoje em dia , fruto da tal aceleração incrível da tecnologia e do modo como ela permite criar uma mensagem e disseminá-la, mesmo que seja demonstravelmente falsa.

Acossado por todas as investigações ao seu passado e presente criminoso e pela revolta que provoca nas pessoas de bem providas de capacidade de raciocínio , o poder do Trump basea-se no bom desempenho  económico do país e no racismo e extremismo que ele alimenta e quem tem mais eco no país que os Americanos gostam de admitir.  Decorre uma guerra comercial com a China que soa bem quando é anunciada dos palanques dos comícios mas que é desastrosa economicamente, e quando a economia começar a piorar, quando a maioria das pessoas começar a perceber que a sua vida não está a melhorar como prometido, quando o apoio ao presidente começar a tombar, vai aparecer o “Casus Belli” e a nação vai juntar-se em torno do líder para lutar contra os maus, contra os inimigos, e os principais candidatos são os  governos do Irão e da Venezuela.

Uma guerra para desviar o foco, entreter o povo, enriquecer mais ainda os lobis do armamento e fazer-se passar por duro e valente.  A tecnologia avança a um ritmo incrível, a sociedade altera-se com ela mas há coisas que nunca mudam.

 

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Moda

Morreu  o Karl Lagerfeld, e ver falar dele nas notícias  fez-me  lamentavelmente lembrar da figura que fiz a usar rabo de cavalo até aos 40.  Tenho  um  desprezo  considerável pela  actividade conhecida por “alta costura”,  em linha com o meu filistinismo em geral mas na questão da moda é mais agressivo por causa do excesso e vacuidade que proclama e propaga e porque é um sector que , digam o que disserem , não melhora o mundo em nada. O que faz é permitir  a uma minoria exibir o seu poder de compra,  distinguir-se melhor dos outros e proporcionar uma carreira a pessoas que o que têm para oferecer é a sua aparência física,  sendo  aceite como normal que ganhem fortunas por causa disso, é daquelas coisas que não percebo  lá muito bem e me custa um pouco a aceitar.

Mesmo  quem dá, com todo o direito e propriedade, valor ao desenho e confecção da roupa tem que recorrer ao valor “marca” para explicar as diferenças abismais de preço entre peças de roupa de “gama alta”. Pagam-se os materiais, paga-se a originalidade, paga-se a qualidade do trabalho e por fim paga-se bem forte a etiqueta, paga-se o privilégio de dizer “ah, isto é um Não Sei Quê , comprei em Nova Iorque.” Nas famosas passadeiras vermelhas dos espectáculos para os pobres que se têm que entreter com vidas ficcionadas e os sonhos dos outros  perguntam sempre às actrizes “estás a usar o quê?” . Toda a gente pode ver o que é que elas estão a usar e toda a gente pode formar uma opinião sobre se é bonito ou não, se a pessoa tem classe ou não, se está na moda ou não, mas essa opinião só se forma mesmo quando se sabe o nome de quem fez o fatinho, é o nome que determina o valor.

Vi há pouco uma peça que infelizmente não consegui voltar a encontrar para pôr aqui mas que mostra bem o espírito inerente a isto da moda. Então na Califórnia juntaram uns tantos “influencers de moda ” ,  fizeram uma sessão especial , uma espécie de campanha,  na Foot Locker, uma cadeia de sapatarias, e mudaram os preços de várias sapatilhas, inflaccionando-os de morte. Os broncos invadiram a loja para ver os seus “influencers” e as câmaras de TV e desataram a comprar por 400 e 500$ sapatilhas de 30 e 40.  Entrevistados, mostravam alegremente as sapatilhas de merda que tinham comprado pelo preço de dez pares e notavam características de design e qualidade. Basta pôr a etiqueta certa e desaparece a noção do valor intrínseco da coisa, todo o valor é depositado na imagem , ou pior ainda, no que se pensa que é a imagem da coisa. Patético.

Não sou fã da China nem dos Chineses em nada, ou nada de que me lembre, sem dúvida por ignorância , alguma coisa boa lá haverá, mas uma coisa que me deu e ainda dá muito gozo é a indústria das falsificações de marcas de luxo, porque ao mesmo tempo que reduz o valor percepcionado de coisas como o logo da Louis Vuitton e enerva os que dão 1000 paus por uma mala e depois vêem uma que à distância é igual e custou 50 como expõem os ignorantes pretensiosos que compram essa mala de 50 ou o rolex de 100 para fazerem figura do que não são. É um duplo ganho, mas como desvantagem trouxe o esforço dos ricos e das marcas em criar e comprar coisas ainda mais absurdamente caras e não falsificáveis, levando a indústria da vaidade, exibicionismo e desperdício a níveis nunca vistos.

Os ingleses , ou alguns, ou melhor ainda, alguns que eu conheci, dizem que Bentleys e Lamborghinis são coisas de jogador da bola e que só se dá por um verdadeiro aristocrata quando ele abre a boca, não é quando chega ao parque de estacionamento nem quando passa da porta para dentro. É um pouco por isso que grande parte das despesas das chamadas classes altas são hoje em dia em educação, e cada vez há uma maior selecção e segregação económica de estabelecimentos de ensino, porque essas mesmas classes já viram há muito tempo que virtualmente qualquer pessoa pode chegar a andar de Aston MArtin e vestir-se de Karl Lagerfeld, mas uma educação de excelência é trabalho de gerações e não está ao alcance de todos. Nem está na moda.

E voltando ao Karl Lagerfeld , o senhor tinha um gato, do qual gostava muito, de resto como todas as pessoas que têm gatos. A diferença está no facto de o gato do Lagerfeld ter duas empregadas a tempo inteiro para tomar conta dele , duas, e de estar contemplado no testamento do homem. Duvido que me volte a interessar pela história dele mas seria interessante saber quantos dos seus 150 milhões de libras deixou ao gato (que tinha uma conta no Instagram seguida por 50 mil imbecis) e quantos deixou por exemplo a uma instituição que se ocupe de gatos abandonados. Duvido que uma pessoa que viva num mundo em que é normal que um  gato tenha   dois empregados tenha sequer conhecimento de que essas instituições existem.

As elites , sejam as económicas , sejam as culturais sejam as hereditárias, vão-se distanciando cada vez mais do resto das pessoas e as desigualdades de toda a ordem não param de aumentar, isto não é só uma opinião que eu tenho , está identificado, estudado e quantificado por quem o sabe  e pode fazer. Tenho alguma, pouca, esperança que parte dessas mesmas elites entenda que não conseguirá viver numa bolha se o sistema colapsar, que mesmo os seus mega iates precisam de plebeus para funcionar e que não   serve de muito ter uma pista de ski ou uma praia privada se fora da vedação só há miséria e guerra. Que entendam isso e acedam aos clamores cada vez maiores para que os bilionários paguem mais impostos e para que se acabe com os paraísos fiscais. As hipóteses de isso acontecer serão as mesmas de se encontrar uma política global de combate às alterações climáticas.

Hoje em dia é quase consensual entre os historiadores que a República Romana caiu por causa das desigualdades e da xenofobia. Depois da conquista de Cartago, Espanha e Grécia a afluência de riqueza a Roma foi imensa , e toda concentrada nas mãos da classe política que em Roma era a mesma que a classe militar. Isto causou ressentimento profundo entre a população , cuja qualidade de vida pouco ou nada subia e que era mantida quieta com promoções do Jumbo , TV e futebol, perdão, pão e jogos de circo. Às conquistas territoriais sucedeu-se outra afluência enorme : de estrangeiros, quer escravos quer soldados livres que tinham servido nas legiões e tornados cidadãos. Estes estrangeiros foram alvo fácil para o ressentimento das massas e , juntamente com a desigualdade galopante, foram o fermento da guerra civil, da queda da República e do surgimento da ditadura imperial.

A História está aí, para quem quiser aprender com ela, de falta de aviso ninguém se pode queixar.

A Influencer de Deus

O nosso presidente é católico apostólico romano e crê na Igreja Una e Santa, como sem dúvida afirma todos os Domingos. Tudo bem , felizmente  todos os portugueses podem afirmar e praticar a crença religiosa que lhes calhou no berço, ou aquela a que se converteram, ou nenhuma, e o presidente não é excepção.

A  questão é que , também felizmente, pela nossa Constituição, o Estado é laico, o que creio que significa que toda a gente tem liberdade de professar uma religião mas o Estado não tem nenhuma, só tem a obrigação de assegurar essa liberdade. Sendo assim, as pessoas que não são religiosas ou que têm outra religião que não o catolicismo podem justamente ter objecções quando vêm o presidente embarcar com uma comitiva considerável para o Panamá, para participar de festividade católicas em representação dos portugueses , à conta do orçamento geral do Estado.

Essa representação, sem dúvida importante para os católicos, devia ter ficado a cargo de um quadro superior da instituição. Ia um bispo , a expensas da sua diocese, e levava quem quisesse. Se o cidadão Marcelo quisesse ir ver o Papa ao Panamá e agitar lencinhos coloridos em nome da esperança ou lá o que é que lá se faz, pegava no seu cartãozinho de crédito, tirava uns dias de férias e lá ia, mas não, temos que pagar todos.

Não está em causa que a esmagadora maioria dos portugueses seja católica e goste de ver o festival do Panamá e de lá ver portugueses a marcar presença, o que está em causa é um princípio constitucional, o da laicidade do Estado que o presidente  representa, e representa cada vez pior.

O que se passa no Panamá é um festival religioso internacional, juntam-se crentes de todos os países para ouvir a mensagem, recarregar baterias e sair de lá com as suas convicções reforçadas pelo facto de confirmarem ao vivo que há milhares de pessoas em todo o mundo a pensar como eles. A mensagem ouvida ao vivo é outra coisa, as palavras soam diferente se as ouvirmos proferidas num palco rodeados de correligionários entusiásticos, é a mesma diferença entre ouvir um disco em casa ou ao vivo. A música não deixa de ser a mesma mas a intepretação entusiasma mais.

Como a maior parte das pessoas, herdei a fé dos meus pais sem ninguém me perguntar nada. Cresci católico como teria crescido muçulmano se tivesse nascido no Egipto ou Baptista se tivesse nascido no Sul dos Estados Unidos. Lembro-me muito bem do papa João Paulo II, ou melhor, de ouvir falar nele, porque além de católica a minha família era muito ligada a Fátima, e ele também. Também presto atenção a política desde pequeno, e lembro-me perfeitamente de ouvir falar no General Jaruselsky, da resistência e desafio do sindicato Solidariedade em Gdansk e do apoio fortíssimo de João Paulo II a quem lutava contra as ditaduras comunistas.  Também me lembro de aprender que o Papa era o Vigário de Cristo na Terra, o que quer dizer que o Papa fala por Cristo, logo, fala pelo Filho de Deus que é  igualmente Deus por via do mistério da Santíssima Trindade. Existe o dogma da infalibilidade do Papa em matéria de fé ou moral ,  e há aqui alguma margem de manobra porque esta infalibilidade é ex cathedra , ou seja , pode haver duas categorias de pronunciamentos papais, os que são , vá lá, oficiais, feitos a partir do Trono de S.Pedro, e o resto, pelo que o papa tanto pode ser infalível como não ser .

 João Paulo II não apreciava o socialismo , passo a citar , traduzido daqui:

“O erro fundamental do socialismo é de natureza antropológica. O Socialismo considera o indivíduo simplesmente como um elemento, uma molécula no organismo social, pelo que o bem do indivíduo é completamente subordinado ao funcionamento do mecanismo socio-económico. Do mesmo modo o socialismo mantém que o bem do indivíduo pode ser realizado sem referência à sua livre escolha (…)

Este é um simples exemplo de entre muitos, e não tendo que ir buscar encíclicas ou pronunciamentos ex cathedra ou fora da cátedra, toda a gente se lembra da importância que o Papa teve não só na queda do socialismo na Polónia como na Alemanha, e por extensão, no fim da Guerra Fria. Infalível falando do trono ou falível falando do palanque, o Vigário de Cristo da Terra nos anos 80 criticava  o socialismo. A Igreja fez dele um santo mas o Vigário dos nossos dias é muito diferente. No tempo intermédio houve outro, do qual sinceramente só lembro a figura um tanto sinistra e alguma ideias retrógradas até para um Papa , e hoje temos aquele a que os católicos mais novos se referem , num querido esforço de familiaridade, como Papa Chico.

Até eu, que me tresmalhei do rebanho mas vou vendo o que se passa, o considerei, e considero uma lufada de ar fresco depois do anterior que era uma lufada de incenso e mofo. Trato afável, expressão de bonomia e uma tentativa de conduzir  a sua igreja à defesa dos mais fracos e oprimidos. Ninguém que tenha a noção do que é a Igreja Católica pode esperar que esta se reforme por acção de um homem, vigário escolhido ou não, é apenas um homem. Apesar disso podia esperar-se mais alguma coisinha sobre dramas, opressões e injustiças do nosso mundo, mas está visto que não, ou só sobre algumas. O Vigário de Cristo hoje, ao contrário de há 30 anos, é um homem de esquerda e tem os mesmo reflexos de todas as pessoas de esquerda, que não são maus nem bons mas não são de estimar em alguém que fala por centenas de milhões e , mais importante do que isso, em nome de Deus, que ao que sei e do modo como mo representam, não é de esquerda nem de direita.

Sobre a desgraça que se desenrola na Venezuela o Papa não consegue ter uma posição forte contra a tirania como o seu antecessor JP II teve quanto à Polónia. O máximo que consegue é pedir que se reze pela Venezuela e apelar à paz e à justiça, é mais ou menos o que faz  a Miss Universo. Ou ninguém tem rezado nada pela Venezuela ou não está a resultar, mas resultados nunca foram maneira de avaliar a eficácia das preces.

O Papa Chico, nas sua modernidade , também usa o Twitter e hoje escreveu isto:

Com o seu sim Maria é a mulher que maior influência teve na história. Sem redes sociais foi a primeira influencer, a influencer de Deus.” 

Não sei se Maria é a mulher com mais influência na História, creio que alguns Chineses ou Indianos podem apresentar objecções mas aqui o Papa está apenas a prolongar a velha tradição de fazer equivaler a História com a História do Ocidente. Além do mais o papel de Maria foi ser impregnada pelo Espírito Santo e parir Jesus Cristo, corrijam-me se estou errado, e isto é mais uma vez o relegar da importância da mulher a veículo de gerar pessoas. Não consta que haja declarações de Maria nem acções notáveis de Maria (à excepção de reparar que se tinha acabado o vinho nas bodas de Canaan, é sempre uma observação meritória e que alguém tem que fazer) , o que a fez então ser a mulher mais influente da História foi ser a mãe de Cristo. E nem sequer foi escolha sua , porque presumo que este “sim” a que se refere o Papa seja o “sim” que Maria disse quando o Arcanjo Gabriel  lhe veio comunicar que ela ia ter uma criança especial, ou seja, foi um sim que equivaleu a um “que remédio”, não é fácil de imaginar que outra hipótese teria Maria nem consta que o arcanjo lhe tivesse dado uns dias para aceitar ou não.

Mas o que me fez começar a escrever isto quando vi o tweet foi a referência aos “influencers” pelo Vigário de Cristo na Terra. Para quem não sabe , um “influencer” é uma pessoa invariavelmente jovem, bonita e bem apresentada cujo principal atributo é ter muitos seguidores nas redes sociais, e esse influenciar relaciona-se sobretudo com influenciar hábitos de consumo. Não há no instagram “influencers” de correntes filosóficas nem científicas mas há centenas e centenas de influencers de moda, comida , viagens e entretenimento, é uma espécie de nicho em que os mal preparados e falsos  mostram vidas artificiais e influenciam os pobres de espírito a seguir indicações que eles são pagos para dar. No fundo não são mais do que publicitários.

Claro que Maria não foi a primeira “influencer” de nada, ainda Maria era pequenina e já estavam velhas as dançarinas , actores , poetas ou atletas  que apregoavam isto ou aquilo às massas, que os queriam copiar nem que fosse num pequeno ponto. Também o uso desta imagem pelo Papa mostra a concepção de uma História que começou  há cerca de 2000 anos no Médio Oriente. Pior , muito pior que isso é o uso do termo “influencer de Deus”, que é ao mesmo tempo um legitimar da cultura dos influencers que devia ser contrariada pela igreja , pela toxicidade que deve ser aparente a qualquer pessoa de bom senso que preze a vida espiritual, e uma tentativa triste de parecer jovem e actual, escolhendo uma das vertentes mais assustadoras e vazias da cultura das redes sociais.

Já agora, Deus , apesar de omnipotente, omnipresente e omnisciente continua sem conseguir fazer chegar a sua mensagem directamente a cada um, continua a precisar de influencers. Não sou eu que o digo, é o Vigário de Cristo na Terra.

 

A Velha Inglaterra

Se for à procura da origem da minha anglofilia se calhar chego aos 9 ou 10 anos, quando o meu encanto eram os soldadinhos de plástico da Airfix, escala 1|72, os Spitfires em kit e os livros de quadradinhos com histórias de Segunda Guerra Mundial. Nas nossas batalhas gerais na praia de S.Martinho do Porto ou nas minhas manobras na alcatifa lá em casa, os ingleses eram sempre os bons, os boches eram os maus, o VIII Exército contra o Afrika Korps o confronto de excelência.

Mais atrás do que isso não me lembro, mas daí para a frente, talvez acompanhando o conhecimento  da língua que também começou cedo, fui criando uma afeição grande pela Grã Bretanha em geral e pela Inglaterra em particular. Já adulto fui lá pela  primeira vez , para passar 6 meses a tirar as minhas qualificações profissionais, e quando chegamos a um sítio sobre o qual fantasiámos muito tempo é normal que procuremos que a realidade se conforme com as expectativas e tendemos a ignorar as partes que contradizem a ideia que formámos. Depois disso passei cerca de 18 anos em que trabalhei principalmente para uma companhia inglesa, com ingleses, visitei frequentemente, fiz muitos amigos, a maior parte dos quais felizmente guardo e cristalizou-se a minha admiração e empatia. Ainda hoje nas minhas estantes há mais autores britânicos do que portugueses.

A fleuma e frieza.A capacidade de se rirem deles próprios e o sentido de humor inigualável, a História, boa e menos boa, discutida e dissecada. As instituições. O aventureirismo e as descobertas. O pragmatismo e até a famosa “perfídia da velha Albion”, a  “fina linha vermelha” que segurava populações de dezenas de milhões com meia centena de oficiais de carreira. A bravura suicidária , romântica e triste de uma Carga da Brigada Ligeira ; a decisão de enviar uma força militar para recuperar uma ilhota insignificante do outro lado do mundo porque era o que tinha que ser feito. As regras.

Os campos verdes e as cidades desenxabidas, a chuva e um espírito de resistência discreta e inquebrável, as tradições que já ninguém consegue muito bem justificar mas que poucos querem eliminar, a noção de que naquela ilha há uma espécie de continuidade milenar. Wellington, Cook, Nelson, a Marinha, sem par durante quase 300 anos e a tradição que isso deixou. Newton, Bacon, Ockham, Hobbes , Locke, Bentham e Bertrand Russel, quase mil anos de Oxford e os degraus do Pensamento e Explicação das Coisas.

Land Rovers, Marmite, Led Zeppelin e Pink Floyd, Joseph Conrad , Graham Greene e Somerset Maugham, a chaleira ao lume por tudo e por nada, as filas ordenadas e um pedido de desculpa sempre na ponta da língua, a noção do que “se faz” e do que “não se faz”,  t-shirts assim que há uma nesga de sol.  Londres como uma cidade verdadeiramente do Mundo, com pouco a ver com resto do país. A tendência para não reclamar porque, acima de tudo, não queremos fazer uma cena e a capacidade para guardar para nós o modo como realmente nos sentimos. Aprecio isso.

Como é óbvio, podem-me apontar uma lista de coisas que fizeram ou fazem os ingleses obnóxios e que não têm maneira de ser atractivas à luz da nossa época. O imperialismo, o classismo rígido, a comida insípida, a Convenção de Sintra , os hooligans, enfim, tudo o que é factor ,  característica ou episódio de um país ou de um povo e sua História pode ter interpretações diferentes, ou melhor, pode apelar a pessoas diferentes, escandalizando uns e encantando outros. Diversidade.  Não podemos, felizmente, gostar todos de amarelo e neste momento alguém no mundo está a escrever um texto sobre porque é que gosta da França.

Isto tudo a propósito da desilusão e tristeza profunda que sinto nestes dias, nestes meses, por causa do Brexit. Aquando do referendo escrevi que tinham aberto uma caixa de Pandora e ainda não vejo razão para mudar de ideia, mas nunca, nunca esperei um descalabro desta dimensão. Sou europeísta convicto, não porque não goste do meu país como entidade soberana mas por ter consciência de que essa soberania já não existe há muitos anos e nem sei se , tendo em conta a nossa classe dirigente ( nosso reflexo como povo, como é bom de ver) essa soberania é uma coisa inequivocamente boa.

Se o soberano é um Rei idiota,  ou cheio de limitações e manias como era por exemplo D.Sebastião, a soberania exercida por ele pode levar ao desastre, como foi o caso desse. Se o poder soberano está na Assembleia da República, forrada de semi letrados licenciados ao Domingo cujo mérito maior é saber lamber as botas certas na altura certa,   com tendências para a aldrabice e para antes de mais tratarem da própria vidinha e dos amigos, não se pode esperar um país bem gerido e próspero. Por isto a soberania nacional não é para mim um valor assim muito importante, certamente é muito menos importante que a Paz, a Liberdade  e a possibilidade de subir na vida.

Ora estes 3 são muito melhor garantidos se fizermos parte de um grupo de nações diversas mas ligadas por História, Geografia e traços culturais, que busquem e trabalhem por entendimentos comuns, solidariedade e espaços de liberdade e comércio, e são esses os fundamentos da União Europeia. Lembro-me perfeitamente de como era Portugal soberano, e se há alguém que acredite que hoje estaríamos melhor se tivéssemos guardado a nossa soberania intacta e não fizéssemos parte da UE, essa pessoa, para ser caridoso, não entende bem as coisas.

Por isso esperei ardentemente uma solução para a crise grega, não por simpatia por eles, que não tenho, mas por saber que se a Grécia saísse punha em causa o edifício todo. Por isso tremi quando os britânicos  votaram para sair, mas aí já era mais por simpatia por eles do que por receio pelo futuro da UE, dado que sairiam pelo próprio pé, ninguém expulsava ninguém nem saíam em acrimónia por causa de contas aldrabadas.  O estatuto do Reino Unido no clube sempre foi mais ou menos especial, como explicava ( a rir, claro está) , Sir Humphrey Appleby há 30 anos. Estavam mas não queriam bem estar nem acreditavam no projecto mas por isso tinham que estar. Uma relação complicada mas que se foi solidificando ao longo dos anos, com vantagens claras para todos os europeus.

Acreditei, com a minha confiança nas instituições e no povo Britânico, que iam sair, mas  ordeiramente. Começar uma nova fase e voltar a mostrar ao mundo que conseguiam ser independentes e soberanos, que se iam organizar, aceitar as consequências, superar as dificuldades, adaptar-se e aproveitar ao máximo as oportunidades que esta revolução vai trazer, porque todas trazem. Passados dois anos e a uns meros três meses do prazo, estou chocado e desiludido, pensava que se já nem sequer com mulheres me conseguia desiludir quanto mais com política, que já tinha visto tudo e estava preparado para qualquer coisa, mas isto é o destruir da admiração e confiança criada ao longo de  30 e tal anos, e isso custa-me.

Isto porque os Britânicos, desde o taxista ao engenheiro de sistemas ao financeiro da City, passando pelo pescador e culminando obviamente nos políticos, conseguiram dar tal espectáculo de desordem, incompetência, cobardia, demagogia,  novamente incompetência e pura estupidez que desafia a imaginação, e não faço esta acusação pelo resultado do referendo, nem sequer pela mais peregrina da ideias peregrinas que foi convocá-lo ou pela vergonha de desinformação e demagogia que foi a campanha.  Digo isto pela forma patética como têm gerido o processo.

Passaram dois anos inteiros sem se conseguirem entender, dois anos em que parecia que a cada semana descobriam uma consequência nova em que ninguém tinha pensado antes,dois anos a perceber a pouco e pouco que sair da UE não só não lhes resolvia problema nenhum como agravava a maior parte deles, dois anos a tentar desesperadamente fazer a quadratura do círculo, com os resultados previsíveis.

Vai chegar Março e o mais provável é saírem  sem acordo nenhum, porque não conseguiram propor um acordo racional e aceitável para o resto dos países da UE. As previsões que tenho a fazer são todas em segunda mão, não vale a pena alongar mais isto. Quero só lembrar que o grupo que deu a maioria ao Brexit no referendo foram pessoas que não têm mais de 20 anos de vida pela frente e, como idosos, vivem de nostalgia, preconceitos  e pensões estatais. Mais de 70% da juventude britânica que votou, o futuro do país, votou por ficar, foram traídos nas suas aspirações e possibilidades.

Vale também a pena lembrar que mesmo com o Parlamento em desordem e conflito sem que ninguém se entenda sobre o que há a fazer e o Governo numa confusão e acrimónia sem precedentes,  o líder da oposição, um trotskysta chamado Corbyn (naturalmente já visitado e louvado pelo Bloco)  não tem  vantagem nas sondagens, muito porque nestes anos todos não conseguiu, ou não quis, mostrar a mão e  avançar com propostas e ideias claras. Está à espera do caos, como aprendeu na  escola do marximo leninismo, e desta vez nem teve que o criar, os Conservadores fizeram-lhe o favor. Uma tristeza, uma vergonha.

Em 1985 os Waterboys, que eu tive a felicidade de ver ao vivo no dia dos meus 16 anos, cantavam que “A Velha Inglaterra Está a Morrer” . Demorou um pouco mas creio que agora já está. Vão ter dias muito difíceis.

 

 

Ai a revolução…

Não tenho vergonha nenhuma de admitir que quando tinha 14 anos dizia que era skinhead,  tive a sorte de não ter nem família nem amigos que encorajassem ou embarcassem em parvoeiras e passou-me rápido. Meia dúzia de anos mais tarde fui para a faculdade, como sou preguiçoso  este país não permite aos jovens sonhar, não consegui entrar para História ou Filosofia, restou-me o ensino privado. Para ficar na área que me dava menos trabalho em que me sentia mais à vontade  e que me interessava mais, já que tinha que tirar um curso, fui para Ciências Sociais.

Ora, com as excepções que confirmam a regra, os cursos de Ciências Sociais produzem  pessoas de esquerda, ou confirmando os preconceitos e ideias  dos que lá entram já assim ou assoberbando os neutros com currículos e bibliografias que são (hoje calculo que ainda mais)  fundamentalmente de esquerda, se as formos classificar nesses termos. Tal como os fumadores que largam o vício se tornam os mais acérrimos inimigos do tabaco e os cristãos renascidos se tornam os mais irritantes de todos, saí de lá com o tal retratro do Che Guevara na parede do quarto. Depois aconteceu uma coisa interessante, que foi que em vez de me ter tornado sociólogo e passado o resto da vida a teorizar e convencer os outros de como a vida devia ser , fui trabalhar e viajar e vi a vida como ela é.

Guardei alguma base teórica que dá sempre jeito e o que eu gosto de pensar como um contrapeso que me permite procurar uma visão mais equilibrada do que me rodeia e do meu tempo, sei onde procurar o ponto de vista do académico, o ponto de vista daquele  que nem sabe o que é a academia e até o ponto de vista dos que querem é que a academia, especialmente a de Ciências Sociais, se consuma  em chamas.

Se me perguntarem hoje se sou de esquerda ou direita digo que nem um nem outro, considero-me um liberal, o que não é simples, um conceito  com definições  distintas, não só de país para país como de pessoa para pessoa, e mesmo no interior do liberalismo há desacordos vários, ou não fosse política. São distinções irrelevantes para mim, rejeito o colectivismo e o igualitarismo da  esquerda, rejeito o tradicionalismo, religiosidade e nacionalismo da direita,  critico o modelo de Estado defendido pelos dois.

O que eu defendo ou rejeito pouco interessa, mas o que defendem pessoas que iniciam e provocam tumultos, distúrbios e alterações da ordem pública já é muito  interessante. Como gosto de História, especialmente de momentos em que a loucura prevalece e os que pensam que controlam as coisas perdem o controlo, tenho seguido as manifestações dos coletes amarelos e os distúrbios acoplados. Boas intenções que deram merda atulham os livros de História e as crónicas contemporâneas, por exemplo ponho a hipótese de que o David Cameron estivesse bem intencionado quando quis dar ao povo britânico a possibilidade de se pronunciar sobre a permanência na UE e calar os contestatários no seu partido, mas o diabo são as consequências inesperadas, que nesse  caso em particular são às dezenas.

Pelo menos os ingleses, ou não fossem ingleses, estão a passar por este trauma todo sem motins nem violência nas ruas, por muitíssimo menos do que isso em França incendeia-se a via pública. Como já disse antes, acho que as revoltas populares são uma tradição francesa, já no século XIV  a Jaquerie lançou o caos no país, e algumas das reclamações dos revoltosos prendiam-se com intervenção estrangeira.No caso de hoje o problema é a UE, no tempo da Jaquerie era o facto de o Rei francês estar prisioneiro dos Ingleses devido à acutilância e proeza militar demonstrada pelos franceses em Crecy e Poitiers. Hoje em dia há os “casseurs”, animais  que se juntam para a violência e vivem dela, já no século XIV pululavam em França bandos de mercenários genericamente semelhantes que se juntaram alegremente à revolta.

Sobre o fim da Jaquerie, que muitos  lembram com orgulho hoje em França, vou citar essa autoridade em história, a wikipédia (com referências bibliográficas credíveis) :

 “A repressão da Jacquerie foi um fator adicional de agravamento do problema demográfico. Os campos férteis do Norte da França perderam ainda mais trabalhadores, o que resultou em mais fome e mais pobreza.

A classe camponesa não foi a única afetada: sem homens para trabalhar as suas terras, os próprios nobres acabariam por perder muito do seu rendimento. Em Paris, a liderança de Etienne Marcel ficou seriamente comprometida pelo seu apoio à revolta. O preboste acabou assassinado pouco tempo depois, o que consolidou a posição do Delfim como líder nacional.O poder senhorial endureceu e nenhum outro movimento surgiu em decorrência da Jacquerie. “A monarquia estava a campo aberto para se tornar absoluta.”

Além da violência medonha, a revolta  resultou em mais fome e mais pobreza para o povo e abriu a porta ao absolutismo. Perante isto o que é que aprenderam os Franceses ? Aprenderam a exaltar as revoltas populares como nobre tradição, a encorajá-las e justificá-las. Teria servido talvez para apostar em evolução gradual e incremental, mas não. Quase 600 anos depois não sei se há muita gente que consiga fazer o paralelismo e ver que se estes distúrbios e rebeliões destrutivas alastram e se intensificam isso só vai causar enormes prejuízos económicos e sociais e oferecer um racional e uma justificação para os defensores da Mão Pesada e da Lei e Ordem. Antes de passar à importância dos agitadores e dos motins na agenda dos autoritários quero falar de outra mítica revolta francesa, o Maio de 68.

Em 67 os estudantes de Nanterre , agastados por restrições à promiscuidade e deboche que deve ser o direito de todo o universitário, iniciaram protestos contra isso. No início de 68, na inauguração de uma piscina universitária, Cohn Bendit , figura que fez da provocação e agitação política  a sua vida e fonte de rendimento, dirigiu-se ao ministro da pasta acusando-o de ter falhado na resolução das frustrações sexuais dos estudantes. Já em 1968 a idiotia universitária campeava. O ministro sugeriu-lhe que experimentasse mergulhar na piscina, o Cohn Bendit espirituosamente respondeu que a resposta era o que se podia esperar de um regime fascista. Esta hipérbole grosseira sobre uma questão ridícula valeu a Cohn Bendit a reputação de lutador e provocador anti autoritário. Cheios de marxismo e maoísmo até às orelhas, completamente alheados e ignorantes das tragédias que se viviam nesses anos na URSS e na China, os estudantes franceses aumentaram o tom e dimensão dos protestos, já não era só por causa de os namorados não poderem passar a noite nos dormitórios, era por causa de TUDO o que lhes desagradava.

A coisa escalou ao ponto de o De Gaulle fugir  se transferir para Baden Baden com medo apreensivo com os desenvolvimentos, especialmente quando os operários se juntaram aos protestos com manifestações e greves. Tanto quanto sei a coisa acalmou com a dissolução da Assembleia,  a convocação de eleições e provavelmente com o fim dos períodos lectivos quando os estudantes foram para a praia. Igualmente tanto quanto sei as consequências do Maio de 68 foram principalmente filosóficas, ou seja, a revolta não trouxe nenhuma melhoria palpável à vida quotidiana dos franceses. Deu o direito a uma geração inteira de chatos de se designarem orgulhosamente soixante huitards, ainda gramamos com alguns hoje, que acham que fizeram um serviço à humanidade em geral e à Europa em particular, eu discordo. A idéia de que o Maio de 68 trouxe a abertura espiritual e filosófica que se espalhou pelo mundo nessa altura é mais um produto de um certo “franco centrismo” de pessoas que sempre acharam a  França a Luz do Mundo Moderno do que de uma avaliação rigorosa do que se estava a passar nos anos 60 e 70 no Ocidente em termos de pensamento e costumes.

O que se vê hoje por França tem as mesmas bases e um processo equivalente a todas as revoltas populares , desde uma reclamação popular banal que vai escalando até englobar o sistema todo até à hesitação do Estado em reprimir ou apaziguar,  passando pelos agitadores profissionais que existem desde que existe agitação política, os energúmenos do Black Bloc  não inventaram rigorosamente nada, apenas adaptam a tecnologia e táticas modernas a uma actividade milenar: a subversão e a violência urbana. E aí, nas tácticas e tecnologia disponíveis , que está um problema sério, porque vinte ou trinta semi profissionais desses conseguem fazer escalar uma manifestação pacífica e provocar a polícia para se obterem aquelas imagens de violência que escandalizam e swervem para os menos esclarecidos verem ali a opressão do estado sobre os inocentes.

Paris está cheia de agentes provocadores , principalmente russos mas também italianos e espanhóis e hoje em dia é um íman para todos os activistas anti União Europeia.É pelas consequências  destas revoltas e motins para a União que eu temo, senão por mim podiam lançar fogo a Paris e arredores e ter duas semanas de batalhas campais que tanto se me dava. Aqueles que iniciaram os protestos contra uma medida estúpida e porventura injusta do Macron , e contra a sua arrogância em geral, já ficaram para trás há muito tempo e vão sofrer no curto prazo as consequências disto, quer o governo se demita quer não. Os desgraçados preocupados com a reforma e o preço do gás que contribuíram para esta revolta estão como de costume a ser manipulados e vão acabar na melhor das hipóteses na mesma, na pior com um comunista ou um fascista no poder.

Na melhor tradição francesa  , já há um Conselho Nacional de Transição , para mim é  medonho, o malvado “comité de cidadãos” sobre o qual eu brincava no outro dia já existe,  quer promover o bem comum e apresenta “um novo conceito de sociedade humana”, o suficiente para fazer tremer os lúcidos que têm bem presente o fim de anteriores tentativas de nos salvar a todos. É ir lá ver , uma amálgama de banalidades, lugares comuns e propostas que  parecem criadas por alunos do 5º ano como “tornar impossível toda a forma de corrupção” e “direccionar todas as acções para o Bem Comum” . Este novo Directório quer demolir a União Europeia e criar uma nova França , e não sei se algum parou para pensar no destino do Directório original mas devem estar de tal maneira cheios da própria importância e do seu lugar na História que nem pensam nisso.

O ano passado um conspiracionista anti semita nojento que me obriguei a ler para participar numa discussão com uma amiga francesa dizia, depois de “provar” que a eleição do Macron era um golpe de estado, que “a hora era grave” . Nessa altura não creio, agora não tenho muitas dúvidas , porque a reboque dos utopistas ingénuos e  bem intencionados que ainda não enterraram o Rousseau e se acham predestinados para salvar a sociedade e liderar a revolta chegam sempre os autoritários pragmáticos com planos e projectos mais claros e preocupantes.

Há dois tipos de pessoa contra a UE : demagogos cuja situação pessoal já está garantida, muitas vezes pela própria UE e pessoas que nunca se deram ao trabalho de pensar a fundo na alternativa que existe à UE e nas consequências da desagregação do projecto. Tenho uma costela de Cassandra que me leva a fazer previsões escuras, e é verdade que quem me conhece bem sabe que há anos que falo em preparar para desgraças sérias e para vivermos todos com muito menos. Espero  continuar a ver  no horizonte desgraças que nunca chegam, antes isso que ser apanhado na curva, e  assim aproveito melhor o dia de hoje.

Paris já está a arder?*

Escrevi um rascunho deste post a semana passada, tinha ido beber um café, coisa que não faço todos os dias e muito menos no Inverno, e na TV passavam imagens de uma carga da polícia de choque nos Campos Elísios.Fiquei a ver um bocadinho, com um certo gosto por várias razões. Uma , são franceses , que como povo não me são simpáticos. Duas,  já estou na fase de acreditar que isto não pode de maneira nenhuma continuar  em paz,  uma paz que me parece que ninguém valoriza.Quer-me parecer  que  ninguém ouve os centristas e os moderados e que cada vez há mais gente que acredita que a solução para as suas dificuldades do dia a dia passa por uma espécie qualquer de ruptura violenta.

Já tinha visto que havia manifestações e protestos, muita  gente anda a partilhar uma informação que acho muito relevante, creio que em França o salário mínimo são 1400€, a gasolina subiu para um preço ainda menor do que o que nós pagamos e esse aumento dos combustíveis foi o suficiente para inflamar a rapaziada. Também é sabido que em França proliferam grupos de , digamos, jovens desenquadrados e marginalizados, noutros sítios conhecidos por corrécios e delinquentes, de várias cores e religiões cujo sentido da vida é a bordoada, eles até têm um nome para isso e desde há muitos anos que podemos ver o que se tornou uma tradição de ano novo dessa juventude : incendiar automóveis às centenas. São jovens incompreendidos e rebeldes dizem uns , são delinquentes comuns dizem os reaccionários radicais. Juntando isso às taxas de desemprego jovem e aos subsídios estatais que fazem com que estar desempregado nem seja  assim um drama muito grande para muita juventude, quer  dizer que mão de obra para motins e distúrbios nunca falta.

Antes das últimas eleições francesas  um canal  que eu via de vez em quando  em casa do meu vizinho mostrou  um trabalho de “opinião pública”, entre outros entrevistou duas famílias de férias a almoçar numa esplanada, o operador de câmara foi mauzinho e mostrou a mesa cheia de marisco e vinho branco e aquelas bestas, que tinham feito centenas de kms nos seus carros do ano para gozar as suas férias na praia com mariscadas, nem viam o absurdo e o insulto que era  queixarem-se de que as coisas estavam muito mal, os seus direitos ameaçados e o nível de vida a cair. Os famosos “protestos de barriga cheia” , que nós conhecemos tão bem, sempre foram das coisas que mais asco me deram.

Para muitas pessoas estes protestos em França por pagarem o gasóleo mais barato que o nosso enquanto  ganham o dobro querem  dizer que nós somos uns tansos e mansos, a mim diz-me que os franceses, que acham que inventaram o protesto popular,  ainda acreditam que distúrbios, bloqueios e manifestações lhes resolvem o problema, e quando não têm um problema inventam um.

A quem acha que resolvem,  quero lembrar o mais famoso dos protestos revolucionários de sempre, precisamente a Revolução Francesa. Em 1789 os revoltosos derrubaram o regime com um banho de sangue e a boca cheia de Liberdade, Igualdade e Fraternidade  e  em 1804 , meros 15 anos depois (faz hoje anos, por isso peguei no rascunho e publico isto), estavam a coroar Napoleão Bonaparte Imperador dos Franceses  e o homem  já estava bem lançado no seu projecto de ser Imperador da Europa. Foi um projecto que nós pagámos com muito sangue e tesouro, por três vezes, mas os amigos são os franceses e os pérfidos são os ingleses. Ainda ninguém me conseguiu  explicar porque é que um imperador é melhor que um rei mas aquela gente ganhou a fama de ser a pátria da liberdade  depois da Revolução e pronto, assim ficou.

Vi  há pouco um pequeno clip de umas dezenas de manifestantes com o colete amarelo a dançar  a macarena no meio de uma auto estrada. Eu acredito que se as coisas estão más ao ponto de se bloquearem as vias públicas, restringir o movimento de toda a gente e confrontar a polícia, o caso é muito grave e  a luta é séria. Se transformam aquilo numa palhaçada, lá se vai a credibilidade e simpatia. Noutro tom, vi instalada uma guilhotina em tamanho real  na praça do Louvre, e  chamem-me o que quiserem mas eu estou sempre do  lado oposto aos que gostam de execuções públicas, reais ou figuradas. (nota:  foi em 1977 que os franceses guilhotinaram uma pessoa pela última vez, lembrem isto quando vos vierem com merdas sobre os franceses e os direitos humanos)

É claro que parte daquele arraial é  feito pelos que não fazem outra coisa e vivem para o protesto e as manifestações, incluindo hooligans, neo nazis, bolcheviques modernos, socialistas revolucionários e muitos outros que acham que é a coisa francesa a fazer, mas tem que haver líderes e organizadores e gostava de saber se algum jornalista já foi perguntar a esses cabecilhas e porta vozes, dado que todos exigem a demissão do governo, qual é que é o plano para o dia seguinte e em que medida é que a demissão do governo vai fazer baixar o preço da gasolina ou aumentar os salários ou baixar os impostos, a menos que esta gente toda acredite, como é muito possível, que os governos imprimem e distribuem o dinheiro que querem e controlam toda a economia.

Causam-se prejuízos de milhões, lança-se o caos na vida de centenas de milhar, cai o governo,  e depois? Avança o homem ou mulher providencial com a bala de prata, a panaceia para os males modernos? Ou somos adeptos do para já vamos assim e depois logo se vê? É que eu aplico esse princípio muita vez na minha vida, mas acredito que não se pode nem deve trabalhar assim na gestão dos Estados, nunca dá bom resultado. Exemplo bem actual, o descalabro do Brexit.

Os franceses são dos povos mais ricos e que têm vidas mais confortáveis no mundo inteiro, fazerem esta destruição e caos  por causa do aumento da gasolina, ou porque estão descontentes com a economia e o aumento de preço foi o catalisador  é, entre outras coisas, uma certa falta de respeito e consideração por sociedades em verdadeira crise, seja económica, social ou política.

E ainda há aqui outro problema: somos todos muito democratas, concordamos que a democracia representativa é o melhor regime possível e gostamos de ter regularmente eleições livres… excepto quando não são os nossos que são eleitos ou quando a realidade não se mostra conforme as nossas expectativas, aí passa ser legítimo derrubar governos nas ruas. O governo agora ou reprime e aguenta ou vacila e cede , não é uma escolha que eu gostasse de ter que fazer. Com o meu pacote de pipocas na mão gostava de ver mesmo Paris a arder,  o governo a cair e o poder passar para as mãos de um comité de cidadãos numa praça, com a boca cheia de slogans, abstracções e demagogia, pronto a duplicar os salários e cortar em metade os preços por decreto. Passados meses entraria um Melenchon , que é um Maduro com educação e sofisticação; ou uma Le Pen, que é o Trump de saias e  alfabetizado. Quero ver isso, e quero ver esta gente toda que hoje  berra e rasga as vestes com as malfeitorias da União Europeia, quero vê-los a lidar com a alternativa.

 

 

*Paris já está a arder ? é um livro sobre a libertação de Paris dos nazis, depois da derrota vergonhosa, rendição e anos de colaboracionismo entusiástico pontuado por episódios de resistência esporádica e organizada, financiada e treinada pelos ingleses e americanos. Outras pessoas interpretam esses anos de outra forma e não tem muito a ver com a situação actual, escolhi-o para título porque soa bem nesta altura.

Um espelho distante

Acabei um dos  livros que me deu mais gosto ler, de História que é o meu género favorito. Foi publicado em 1978, não há edição portuguesa e foi escrito por Barbara Tuchman, uma americana que apesar de ser autodidacta tem uma erudição assombrosa e além do mais, porque só isso nunca foi suficiente, escreve narrativas absorventes.

O livro é sobre o século XIV na Europa, século que logo na capa é descrito como calamitoso, e chama-se A Distant Mirror . Ao longo de 618 páginas (e mais umas dezenas em notas, só a bibliografia são 16 páginas) a autora mostra muito claramente porque é que foi calamitoso e quem teve os principais papéis na calamidade, obviamente deixando  juízos de valor para os leitores. Acompanha a vida e carreira de Enguerrand de Coucy um dos maiores nobres da França, figura extraordinária que esteve em quase todos os momentos chave da época, e com isso traça um quadro tremendo de toda uma época e cultura.

É um quadro bastante medonho de uma época de abusos e explorações do “povo”  quase inimagináveis, perpetradas pelos nobres com a colaboração activa e entusiástica da Igreja Católica, cheio de episódios e histórias arrepiantes que explicam bem porque é que a época é muitas vezes chamada de Idade das Trevas. Por exemplo, alguém que leia com atenção  a história do cisma que levou à instalação de um papa em Avignon e outro em Roma (e a dada altura um terceiro em Pisa) dificilmente pode  acreditar que a motivação do clero superior era outra além de poder e dinheiro. Um exemplo, quando Clemente V foi instalado pelos franceses em Avignon a cidade tinha menos de 4000 habitantes e instalaram-se imediatamente 43 representantes de banqueiros europeus. Onde estava o papado estava a finança. A lista das iniquidades da Igreja, desde o frade mais baixo ao Papa, que é extensa demais e não é objecto do livro,  na minha opinião faz empalidecer a contribuição positiva e é uma herança impossível de renegar, amenizar ou tentar justificar,  percebe-se bem como é que apareceu a Reforma e como é que a Europa mergulhou em guerras religiosas  décadas mais tarde. Se há conflitos de origem difusa ou que são causados por vários factores, as guerras religiosas que se seguiram à Reforma e mataram , estima-se, 10 milhões de pessoas nos séculos XVI e XVII, têm origem clara nos abusos dos Papas e de toda a hierarquia.

A quem quiser contrapor a isto  factores como o trabalho da igreja na educação respondo que se somos uma organização dedicada ao controlo precisamos de quadros, pelo que a razão se ser das escolas religiosas não era tanto uma vontade de disseminar o saber mas uma necessidade de educar  quadros e precisamente controlar esse mesmo saber.

Sobre a condição e as espoliações e massacres sofridos pelos Judeus em toda a Europa… bom, as sementes do holocausto nazi estavam lançadas há séculos e acho que só não aconteceu antes, e se calhar até em França, por falta de meios técnicos. Já em 1325 havia muitas notícias falsas, e uma chegava para provocar um massacre. A simpatia que tenho pelos judeus vem de ler História, a aversão que tenho aos anti semitas vem da aversão que tenho à ignorância maldosa. Na primeira linha da condenação e perseguição aos judeus estava a Igreja, e se não estou em erro demoraram até ao fim do século XX,  mais de 500 anos , a apresentar uma lamentação formal pelo papel de liderança em séculos de atrocidades.

As cruzadas foram outra coisa medieval absurda e malévola que espalhou mais miséria, ódio e destruição do que alguma vez pode ser compensada pelo que ficou dos contactos com o Oriente, especialmente porque os contactos eram principalmente a ferro e fogo. Há um pormenor que acho delicioso, assim de uma maneira mórbida, na questão das Cruzadas. Os Papas que as convocavam declaravam indulgência plenária para todos os cruzados assim que chegassem à Palestina. As indulgências, para quem não sabe, eram o perdão dos pecados que a igreja  vendia, tal como anulações ou autorizações para casamentos com parentes e outros actos, enfim, tudo o que caísse sob  regulação da igreja podia ser comprado. As indulgências também podiam ser concedidas sem ser mediante pagamento directo, como no caso dos cruzados. Ora, as cruzadas começavam habitualmente no centro e norte da Europa e o caminho para a Palestina é muito longo. Vezes sem conta os cruzados, justificadamente, raciocinavam do seguinte modo:

-Quando chegarmos à Terra Santa vamos receber o perdão integral dos pecados, todos os pecados acumulados até lá serão perdoados, logo…

É fácil de calcular (para nós, para a Igreja não era, ou não interessava) as devastações e abusos que estas hordas cometiam  a caminho da Palestina, seguros da absolvição papal. Também as cruzadas tiveram o mérito de fazer florescer o tráfico em relíquias, trouxeram-se e venderam-se centenas de Cruzes Verdadeiras, lágrimas de nossa senhora, costelas de S.Pedro, espinhos da coroa de Cristo, enfim , quem voltasse da Palestina (ou convencesse as pessoas que voltava da Palestina) e pegasse num pau encontrava dezenas de pessoas, incluindo abades e letrados, dispostos a pagar fortunas pelo pau se dissesse com convicção que era um pedaço da cruz ou que um trapo era um pedaço da mortalha de Cristo. É desta época que nos chega o Sudário de Turim, que ainda hoje é visitado por devotos apesar de os métodos modernos de datação provarem que é uma obra  da Idade Média. Sobre os resultados a longo prazo das Cruzadas, é olhar para lá, para a “Terra Santa”, para o poder dos “Infiéis” e o modo como ainda hoje a palavra cruzado é dita no Islão com asco e ressentimento.

Não tenho o hábito de anotar os livros à medida que vou lendo  mas vou trabalhar nisso, especialmente naqueles que sei que me vai dar vontade de falar neles a seguir, neste caso só já bem depois de meio é que me lembrei, deparei-me com uma frase tão espectacular que deixei uma marca e volto lá agora. A autora falava de Wycliffe , um clérigo inglês que entre muitas outras coisas era reformista, logo, herege:

“Num cúmulo de heresia, transferiu a Salvação da agência da Igreja para o Indivíduo: Porque cada homem que será condenado será condenado pela sua própria culpa, e cada homem que será salvo será pelo seu próprio mérito“. Desapercebido, aqui estava o começo do mundo moderno”. 

Outra parte extraordinária é a descrição da batalha de Nicopolis  , em que uma coligação de Franceses, Húngaros, Venezianos, Romenos, Polacos, Genoveses e Ingleses, e ainda um contingente de Hospitalários enfrentou os Turcos do Sultão Bajazet, e foi redondamente derrotada.  Foi a última cruzada medieval, marcou o fim da época da cavalaria no sentido romântico do termo e foi daquelas batalhas que tinha tudo para ser ganha e no entanto foi deitada a perder pela arrogância, vaidade e excesso de confiança dos Franceses que assim condenaram os Balcãs a 500 anos de domínio Otomano. Este livro não fez nada  para melhorar a minha opinião sobre a igreja, antes pelo contrário,  e dá-se o mesmo em relação aos Franceses. Eu sei, a História também serve para aprendermos a não generalizar e para combater preconceitos mas os meus deram-me muito trabalho a cultivar e defender e não os vou largar assim por uma coisa qualquer, até porque nunca passam do plano das ideias e reconheço-os pelo que são. Para mim   criticar a igreja é quase uma obrigação, criticar os franceses é mais  um  desporto, que  ainda tem mais piada quando falo destas coisas com amigos franceses.

Tinha mais meia dúzia de páginas com o canto dobrado a indicar que havia ali alguma coisa que queria ressalvar mas agora não encontro exactamente o que era. Só há 3   referências a Portugal, uma para dizer que um almirante português ao serviço do Duque de Lencastre capturou o navio do tal  Enguerrand de Coucy num “raid audacioso” ; um parágrafo para falar dos projectos  do Infante d. Henrique , “um neto de John de Gaunt” (que nós só conhecemos por Duque de Lencastre);  outra referência ao vinho e nada mais, em toda esta História europeia do século XIV este canto da península não conta para muito aos olhos desta historiadora americana, e com certa razão já que escolheu como fio condutor da sua narrativa um nobre francês.

Hei-de ler este livro outra vez, calculo que o título evoque o reflexo de nós mesmos e da nossa sociedade que vemos quando olhamos com atenção para as profundezas do passado.

Agora vou-me abalançar a fazer a tradução de um pequeno ensaio chamado Socialismo e História que está noutro livrinho que veio nesta fornada e quero pôr aqui porque o acho extremamente importante, fala de experiências socialistas séculos antes do Saint  Simon, Marx, Engels  e restante rapaziada. Não haja suspense, correu sempre mal.