A Velha Inglaterra

Se for à procura da origem da minha anglofilia se calhar chego aos 9 ou 10 anos, quando o meu encanto eram os soldadinhos de plástico da Airfix, escala 1|72, os Spitfires em kit e os livros de quadradinhos com histórias de Segunda Guerra Mundial. Nas nossas batalhas gerais na praia de S.Martinho do Porto ou nas minhas manobras na alcatifa lá em casa, os ingleses eram sempre os bons, os boches eram os maus, o VIII Exército contra o Afrika Korps o confronto de excelência.

Mais atrás do que isso não me lembro, mas daí para a frente, talvez acompanhando o conhecimento  da língua que também começou cedo, fui criando uma afeição grande pela Grã Bretanha em geral e pela Inglaterra em particular. Já adulto fui lá pela  primeira vez , para passar 6 meses a tirar as minhas qualificações profissionais, e quando chegamos a um sítio sobre o qual fantasiámos muito tempo é normal que procuremos que a realidade se conforme com as expectativas e tendemos a ignorar as partes que contradizem a ideia que formámos. Depois disso passei cerca de 18 anos em que trabalhei principalmente para uma companhia inglesa, com ingleses, visitei frequentemente, fiz muitos amigos, a maior parte dos quais felizmente guardo e cristalizou-se a minha admiração e empatia. Ainda hoje nas minhas estantes há mais autores britânicos do que portugueses.

A fleuma e frieza.A capacidade de se rirem deles próprios e o sentido de humor inigualável, a História, boa e menos boa, discutida e dissecada. As instituições. O aventureirismo e as descobertas. O pragmatismo e até a famosa “perfídia da velha Albion”, a  “fina linha vermelha” que segurava populações de dezenas de milhões com meia centena de oficiais de carreira. A bravura suicidária , romântica e triste de uma Carga da Brigada Ligeira ; a decisão de enviar uma força militar para recuperar uma ilhota insignificante do outro lado do mundo porque era o que tinha que ser feito. As regras.

Os campos verdes e as cidades desenxabidas, a chuva e um espírito de resistência discreta e inquebrável, as tradições que já ninguém consegue muito bem justificar mas que poucos querem eliminar, a noção de que naquela ilha há uma espécie de continuidade milenar. Wellington, Cook, Nelson, a Marinha, sem par durante quase 300 anos e a tradição que isso deixou. Newton, Bacon, Ockham, Hobbes , Locke, Bentham e Bertrand Russel, quase mil anos de Oxford e os degraus do Pensamento e Explicação das Coisas.

Land Rovers, Marmite, Led Zeppelin e Pink Floyd, Joseph Conrad , Graham Greene e Somerset Maugham, a chaleira ao lume por tudo e por nada, as filas ordenadas e um pedido de desculpa sempre na ponta da língua, a noção do que “se faz” e do que “não se faz”,  t-shirts assim que há uma nesga de sol.  Londres como uma cidade verdadeiramente do Mundo, com pouco a ver com resto do país. A tendência para não reclamar porque, acima de tudo, não queremos fazer uma cena e a capacidade para guardar para nós o modo como realmente nos sentimos. Aprecio isso.

Como é óbvio, podem-me apontar uma lista de coisas que fizeram ou fazem os ingleses obnóxios e que não têm maneira de ser atractivas à luz da nossa época. O imperialismo, o classismo rígido, a comida insípida, a Convenção de Sintra , os hooligans, enfim, tudo o que é factor ,  característica ou episódio de um país ou de um povo e sua História pode ter interpretações diferentes, ou melhor, pode apelar a pessoas diferentes, escandalizando uns e encantando outros. Diversidade.  Não podemos, felizmente, gostar todos de amarelo e neste momento alguém no mundo está a escrever um texto sobre porque é que gosta da França.

Isto tudo a propósito da desilusão e tristeza profunda que sinto nestes dias, nestes meses, por causa do Brexit. Aquando do referendo escrevi que tinham aberto uma caixa de Pandora e ainda não vejo razão para mudar de ideia, mas nunca, nunca esperei um descalabro desta dimensão. Sou europeísta convicto, não porque não goste do meu país como entidade soberana mas por ter consciência de que essa soberania já não existe há muitos anos e nem sei se , tendo em conta a nossa classe dirigente ( nosso reflexo como povo, como é bom de ver) essa soberania é uma coisa inequivocamente boa.

Se o soberano é um Rei idiota,  ou cheio de limitações e manias como era por exemplo D.Sebastião, a soberania exercida por ele pode levar ao desastre, como foi o caso desse. Se o poder soberano está na Assembleia da República, forrada de semi letrados licenciados ao Domingo cujo mérito maior é saber lamber as botas certas na altura certa,   com tendências para a aldrabice e para antes de mais tratarem da própria vidinha e dos amigos, não se pode esperar um país bem gerido e próspero. Por isto a soberania nacional não é para mim um valor assim muito importante, certamente é muito menos importante que a Paz, a Liberdade  e a possibilidade de subir na vida.

Ora estes 3 são muito melhor garantidos se fizermos parte de um grupo de nações diversas mas ligadas por História, Geografia e traços culturais, que busquem e trabalhem por entendimentos comuns, solidariedade e espaços de liberdade e comércio, e são esses os fundamentos da União Europeia. Lembro-me perfeitamente de como era Portugal soberano, e se há alguém que acredite que hoje estaríamos melhor se tivéssemos guardado a nossa soberania intacta e não fizéssemos parte da UE, essa pessoa, para ser caridoso, não entende bem as coisas.

Por isso esperei ardentemente uma solução para a crise grega, não por simpatia por eles, que não tenho, mas por saber que se a Grécia saísse punha em causa o edifício todo. Por isso tremi quando os britânicos  votaram para sair, mas aí já era mais por simpatia por eles do que por receio pelo futuro da UE, dado que sairiam pelo próprio pé, ninguém expulsava ninguém nem saíam em acrimónia por causa de contas aldrabadas.  O estatuto do Reino Unido no clube sempre foi mais ou menos especial, como explicava ( a rir, claro está) , Sir Humphrey Appleby há 30 anos. Estavam mas não queriam bem estar nem acreditavam no projecto mas por isso tinham que estar. Uma relação complicada mas que se foi solidificando ao longo dos anos, com vantagens claras para todos os europeus.

Acreditei, com a minha confiança nas instituições e no povo Britânico, que iam sair, mas  ordeiramente. Começar uma nova fase e voltar a mostrar ao mundo que conseguiam ser independentes e soberanos, que se iam organizar, aceitar as consequências, superar as dificuldades, adaptar-se e aproveitar ao máximo as oportunidades que esta revolução vai trazer, porque todas trazem. Passados dois anos e a uns meros três meses do prazo, estou chocado e desiludido, pensava que se já nem sequer com mulheres me conseguia desiludir quanto mais com política, que já tinha visto tudo e estava preparado para qualquer coisa, mas isto é o destruir da admiração e confiança criada ao longo de  30 e tal anos, e isso custa-me.

Isto porque os Britânicos, desde o taxista ao engenheiro de sistemas ao financeiro da City, passando pelo pescador e culminando obviamente nos políticos, conseguiram dar tal espectáculo de desordem, incompetência, cobardia, demagogia,  novamente incompetência e pura estupidez que desafia a imaginação, e não faço esta acusação pelo resultado do referendo, nem sequer pela mais peregrina da ideias peregrinas que foi convocá-lo ou pela vergonha de desinformação e demagogia que foi a campanha.  Digo isto pela forma patética como têm gerido o processo.

Passaram dois anos inteiros sem se conseguirem entender, dois anos em que parecia que a cada semana descobriam uma consequência nova em que ninguém tinha pensado antes,dois anos a perceber a pouco e pouco que sair da UE não só não lhes resolvia problema nenhum como agravava a maior parte deles, dois anos a tentar desesperadamente fazer a quadratura do círculo, com os resultados previsíveis.

Vai chegar Março e o mais provável é saírem  sem acordo nenhum, porque não conseguiram propor um acordo racional e aceitável para o resto dos países da UE. As previsões que tenho a fazer são todas em segunda mão, não vale a pena alongar mais isto. Quero só lembrar que o grupo que deu a maioria ao Brexit no referendo foram pessoas que não têm mais de 20 anos de vida pela frente e, como idosos, vivem de nostalgia, preconceitos  e pensões estatais. Mais de 70% da juventude britânica que votou, o futuro do país, votou por ficar, foram traídos nas suas aspirações e possibilidades.

Vale também a pena lembrar que mesmo com o Parlamento em desordem e conflito sem que ninguém se entenda sobre o que há a fazer e o Governo numa confusão e acrimónia sem precedentes,  o líder da oposição, um trotskysta chamado Corbyn (naturalmente já visitado e louvado pelo Bloco)  não tem  vantagem nas sondagens, muito porque nestes anos todos não conseguiu, ou não quis, mostrar a mão e  avançar com propostas e ideias claras. Está à espera do caos, como aprendeu na  escola do marximo leninismo, e desta vez nem teve que o criar, os Conservadores fizeram-lhe o favor. Uma tristeza, uma vergonha.

Em 1985 os Waterboys, que eu tive a felicidade de ver ao vivo no dia dos meus 16 anos, cantavam que “A Velha Inglaterra Está a Morrer” . Demorou um pouco mas creio que agora já está. Vão ter dias muito difíceis.

 

 

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Ai a revolução…

Não tenho vergonha nenhuma de admitir que quando tinha 14 anos dizia que era skinhead,  tive a sorte de não ter nem família nem amigos que encorajassem ou embarcassem em parvoeiras e passou-me rápido. Meia dúzia de anos mais tarde fui para a faculdade, como sou preguiçoso  este país não permite aos jovens sonhar, não consegui entrar para História ou Filosofia, restou-me o ensino privado. Para ficar na área que me dava menos trabalho em que me sentia mais à vontade  e que me interessava mais, já que tinha que tirar um curso, fui para Ciências Sociais.

Ora, com as excepções que confirmam a regra, os cursos de Ciências Sociais produzem  pessoas de esquerda, ou confirmando os preconceitos e ideias  dos que lá entram já assim ou assoberbando os neutros com currículos e bibliografias que são (hoje calculo que ainda mais)  fundamentalmente de esquerda, se as formos classificar nesses termos. Tal como os fumadores que largam o vício se tornam os mais acérrimos inimigos do tabaco e os cristãos renascidos se tornam os mais irritantes de todos, saí de lá com o tal retratro do Che Guevara na parede do quarto. Depois aconteceu uma coisa interessante, que foi que em vez de me ter tornado sociólogo e passado o resto da vida a teorizar e convencer os outros de como a vida devia ser , fui trabalhar e viajar e vi a vida como ela é.

Guardei alguma base teórica que dá sempre jeito e o que eu gosto de pensar como um contrapeso que me permite procurar uma visão mais equilibrada do que me rodeia e do meu tempo, sei onde procurar o ponto de vista do académico, o ponto de vista daquele  que nem sabe o que é a academia e até o ponto de vista dos que querem é que a academia, especialmente a de Ciências Sociais, se consuma  em chamas.

Se me perguntarem hoje se sou de esquerda ou direita digo que nem um nem outro, considero-me um liberal, o que não é simples, um conceito  com definições  distintas, não só de país para país como de pessoa para pessoa, e mesmo no interior do liberalismo há desacordos vários, ou não fosse política. São distinções irrelevantes para mim, rejeito o colectivismo e o igualitarismo da  esquerda, rejeito o tradicionalismo, religiosidade e nacionalismo da direita,  critico o modelo de Estado defendido pelos dois.

O que eu defendo ou rejeito pouco interessa, mas o que defendem pessoas que iniciam e provocam tumultos, distúrbios e alterações da ordem pública já é muito  interessante. Como gosto de História, especialmente de momentos em que a loucura prevalece e os que pensam que controlam as coisas perdem o controlo, tenho seguido as manifestações dos coletes amarelos e os distúrbios acoplados. Boas intenções que deram merda atulham os livros de História e as crónicas contemporâneas, por exemplo ponho a hipótese de que o David Cameron estivesse bem intencionado quando quis dar ao povo britânico a possibilidade de se pronunciar sobre a permanência na UE e calar os contestatários no seu partido, mas o diabo são as consequências inesperadas, que nesse  caso em particular são às dezenas.

Pelo menos os ingleses, ou não fossem ingleses, estão a passar por este trauma todo sem motins nem violência nas ruas, por muitíssimo menos do que isso em França incendeia-se a via pública. Como já disse antes, acho que as revoltas populares são uma tradição francesa, já no século XIV  a Jaquerie lançou o caos no país, e algumas das reclamações dos revoltosos prendiam-se com intervenção estrangeira.No caso de hoje o problema é a UE, no tempo da Jaquerie era o facto de o Rei francês estar prisioneiro dos Ingleses devido à acutilância e proeza militar demonstrada pelos franceses em Crecy e Poitiers. Hoje em dia há os “casseurs”, animais  que se juntam para a violência e vivem dela, já no século XIV pululavam em França bandos de mercenários genericamente semelhantes que se juntaram alegremente à revolta.

Sobre o fim da Jaquerie, que muitos  lembram com orgulho hoje em França, vou citar essa autoridade em história, a wikipédia (com referências bibliográficas credíveis) :

 “A repressão da Jacquerie foi um fator adicional de agravamento do problema demográfico. Os campos férteis do Norte da França perderam ainda mais trabalhadores, o que resultou em mais fome e mais pobreza.

A classe camponesa não foi a única afetada: sem homens para trabalhar as suas terras, os próprios nobres acabariam por perder muito do seu rendimento. Em Paris, a liderança de Etienne Marcel ficou seriamente comprometida pelo seu apoio à revolta. O preboste acabou assassinado pouco tempo depois, o que consolidou a posição do Delfim como líder nacional.O poder senhorial endureceu e nenhum outro movimento surgiu em decorrência da Jacquerie. “A monarquia estava a campo aberto para se tornar absoluta.”

Além da violência medonha, a revolta  resultou em mais fome e mais pobreza para o povo e abriu a porta ao absolutismo. Perante isto o que é que aprenderam os Franceses ? Aprenderam a exaltar as revoltas populares como nobre tradição, a encorajá-las e justificá-las. Teria servido talvez para apostar em evolução gradual e incremental, mas não. Quase 600 anos depois não sei se há muita gente que consiga fazer o paralelismo e ver que se estes distúrbios e rebeliões destrutivas alastram e se intensificam isso só vai causar enormes prejuízos económicos e sociais e oferecer um racional e uma justificação para os defensores da Mão Pesada e da Lei e Ordem. Antes de passar à importância dos agitadores e dos motins na agenda dos autoritários quero falar de outra mítica revolta francesa, o Maio de 68.

Em 67 os estudantes de Nanterre , agastados por restrições à promiscuidade e deboche que deve ser o direito de todo o universitário, iniciaram protestos contra isso. No início de 68, na inauguração de uma piscina universitária, Cohn Bendit , figura que fez da provocação e agitação política  a sua vida e fonte de rendimento, dirigiu-se ao ministro da pasta acusando-o de ter falhado na resolução das frustrações sexuais dos estudantes. Já em 1968 a idiotia universitária campeava. O ministro sugeriu-lhe que experimentasse mergulhar na piscina, o Cohn Bendit espirituosamente respondeu que a resposta era o que se podia esperar de um regime fascista. Esta hipérbole grosseira sobre uma questão ridícula valeu a Cohn Bendit a reputação de lutador e provocador anti autoritário. Cheios de marxismo e maoísmo até às orelhas, completamente alheados e ignorantes das tragédias que se viviam nesses anos na URSS e na China, os estudantes franceses aumentaram o tom e dimensão dos protestos, já não era só por causa de os namorados não poderem passar a noite nos dormitórios, era por causa de TUDO o que lhes desagradava.

A coisa escalou ao ponto de o De Gaulle fugir  se transferir para Baden Baden com medo apreensivo com os desenvolvimentos, especialmente quando os operários se juntaram aos protestos com manifestações e greves. Tanto quanto sei a coisa acalmou com a dissolução da Assembleia,  a convocação de eleições e provavelmente com o fim dos períodos lectivos quando os estudantes foram para a praia. Igualmente tanto quanto sei as consequências do Maio de 68 foram principalmente filosóficas, ou seja, a revolta não trouxe nenhuma melhoria palpável à vida quotidiana dos franceses. Deu o direito a uma geração inteira de chatos de se designarem orgulhosamente soixante huitards, ainda gramamos com alguns hoje, que acham que fizeram um serviço à humanidade em geral e à Europa em particular, eu discordo. A idéia de que o Maio de 68 trouxe a abertura espiritual e filosófica que se espalhou pelo mundo nessa altura é mais um produto de um certo “franco centrismo” de pessoas que sempre acharam a  França a Luz do Mundo Moderno do que de uma avaliação rigorosa do que se estava a passar nos anos 60 e 70 no Ocidente em termos de pensamento e costumes.

O que se vê hoje por França tem as mesmas bases e um processo equivalente a todas as revoltas populares , desde uma reclamação popular banal que vai escalando até englobar o sistema todo até à hesitação do Estado em reprimir ou apaziguar,  passando pelos agitadores profissionais que existem desde que existe agitação política, os energúmenos do Black Bloc  não inventaram rigorosamente nada, apenas adaptam a tecnologia e táticas modernas a uma actividade milenar: a subversão e a violência urbana. E aí, nas tácticas e tecnologia disponíveis , que está um problema sério, porque vinte ou trinta semi profissionais desses conseguem fazer escalar uma manifestação pacífica e provocar a polícia para se obterem aquelas imagens de violência que escandalizam e swervem para os menos esclarecidos verem ali a opressão do estado sobre os inocentes.

Paris está cheia de agentes provocadores , principalmente russos mas também italianos e espanhóis e hoje em dia é um íman para todos os activistas anti União Europeia.É pelas consequências  destas revoltas e motins para a União que eu temo, senão por mim podiam lançar fogo a Paris e arredores e ter duas semanas de batalhas campais que tanto se me dava. Aqueles que iniciaram os protestos contra uma medida estúpida e porventura injusta do Macron , e contra a sua arrogância em geral, já ficaram para trás há muito tempo e vão sofrer no curto prazo as consequências disto, quer o governo se demita quer não. Os desgraçados preocupados com a reforma e o preço do gás que contribuíram para esta revolta estão como de costume a ser manipulados e vão acabar na melhor das hipóteses na mesma, na pior com um comunista ou um fascista no poder.

Na melhor tradição francesa  , já há um Conselho Nacional de Transição , para mim é  medonho, o malvado “comité de cidadãos” sobre o qual eu brincava no outro dia já existe,  quer promover o bem comum e apresenta “um novo conceito de sociedade humana”, o suficiente para fazer tremer os lúcidos que têm bem presente o fim de anteriores tentativas de nos salvar a todos. É ir lá ver , uma amálgama de banalidades, lugares comuns e propostas que  parecem criadas por alunos do 5º ano como “tornar impossível toda a forma de corrupção” e “direccionar todas as acções para o Bem Comum” . Este novo Directório quer demolir a União Europeia e criar uma nova França , e não sei se algum parou para pensar no destino do Directório original mas devem estar de tal maneira cheios da própria importância e do seu lugar na História que nem pensam nisso.

O ano passado um conspiracionista anti semita nojento que me obriguei a ler para participar numa discussão com uma amiga francesa dizia, depois de “provar” que a eleição do Macron era um golpe de estado, que “a hora era grave” . Nessa altura não creio, agora não tenho muitas dúvidas , porque a reboque dos utopistas ingénuos e  bem intencionados que ainda não enterraram o Rousseau e se acham predestinados para salvar a sociedade e liderar a revolta chegam sempre os autoritários pragmáticos com planos e projectos mais claros e preocupantes.

Há dois tipos de pessoa contra a UE : demagogos cuja situação pessoal já está garantida, muitas vezes pela própria UE e pessoas que nunca se deram ao trabalho de pensar a fundo na alternativa que existe à UE e nas consequências da desagregação do projecto. Tenho uma costela de Cassandra que me leva a fazer previsões escuras, e é verdade que quem me conhece bem sabe que há anos que falo em preparar para desgraças sérias e para vivermos todos com muito menos. Espero  continuar a ver  no horizonte desgraças que nunca chegam, antes isso que ser apanhado na curva, e  assim aproveito melhor o dia de hoje.

Paris já está a arder?*

Escrevi um rascunho deste post a semana passada, tinha ido beber um café, coisa que não faço todos os dias e muito menos no Inverno, e na TV passavam imagens de uma carga da polícia de choque nos Campos Elísios.Fiquei a ver um bocadinho, com um certo gosto por várias razões. Uma , são franceses , que como povo não me são simpáticos. Duas,  já estou na fase de acreditar que isto não pode de maneira nenhuma continuar  em paz,  uma paz que me parece que ninguém valoriza.Quer-me parecer  que  ninguém ouve os centristas e os moderados e que cada vez há mais gente que acredita que a solução para as suas dificuldades do dia a dia passa por uma espécie qualquer de ruptura violenta.

Já tinha visto que havia manifestações e protestos, muita  gente anda a partilhar uma informação que acho muito relevante, creio que em França o salário mínimo são 1400€, a gasolina subiu para um preço ainda menor do que o que nós pagamos e esse aumento dos combustíveis foi o suficiente para inflamar a rapaziada. Também é sabido que em França proliferam grupos de , digamos, jovens desenquadrados e marginalizados, noutros sítios conhecidos por corrécios e delinquentes, de várias cores e religiões cujo sentido da vida é a bordoada, eles até têm um nome para isso e desde há muitos anos que podemos ver o que se tornou uma tradição de ano novo dessa juventude : incendiar automóveis às centenas. São jovens incompreendidos e rebeldes dizem uns , são delinquentes comuns dizem os reaccionários radicais. Juntando isso às taxas de desemprego jovem e aos subsídios estatais que fazem com que estar desempregado nem seja  assim um drama muito grande para muita juventude, quer  dizer que mão de obra para motins e distúrbios nunca falta.

Antes das últimas eleições francesas  um canal  que eu via de vez em quando  em casa do meu vizinho mostrou  um trabalho de “opinião pública”, entre outros entrevistou duas famílias de férias a almoçar numa esplanada, o operador de câmara foi mauzinho e mostrou a mesa cheia de marisco e vinho branco e aquelas bestas, que tinham feito centenas de kms nos seus carros do ano para gozar as suas férias na praia com mariscadas, nem viam o absurdo e o insulto que era  queixarem-se de que as coisas estavam muito mal, os seus direitos ameaçados e o nível de vida a cair. Os famosos “protestos de barriga cheia” , que nós conhecemos tão bem, sempre foram das coisas que mais asco me deram.

Para muitas pessoas estes protestos em França por pagarem o gasóleo mais barato que o nosso enquanto  ganham o dobro querem  dizer que nós somos uns tansos e mansos, a mim diz-me que os franceses, que acham que inventaram o protesto popular,  ainda acreditam que distúrbios, bloqueios e manifestações lhes resolvem o problema, e quando não têm um problema inventam um.

A quem acha que resolvem,  quero lembrar o mais famoso dos protestos revolucionários de sempre, precisamente a Revolução Francesa. Em 1789 os revoltosos derrubaram o regime com um banho de sangue e a boca cheia de Liberdade, Igualdade e Fraternidade  e  em 1804 , meros 15 anos depois (faz hoje anos, por isso peguei no rascunho e publico isto), estavam a coroar Napoleão Bonaparte Imperador dos Franceses  e o homem  já estava bem lançado no seu projecto de ser Imperador da Europa. Foi um projecto que nós pagámos com muito sangue e tesouro, por três vezes, mas os amigos são os franceses e os pérfidos são os ingleses. Ainda ninguém me conseguiu  explicar porque é que um imperador é melhor que um rei mas aquela gente ganhou a fama de ser a pátria da liberdade  depois da Revolução e pronto, assim ficou.

Vi  há pouco um pequeno clip de umas dezenas de manifestantes com o colete amarelo a dançar  a macarena no meio de uma auto estrada. Eu acredito que se as coisas estão más ao ponto de se bloquearem as vias públicas, restringir o movimento de toda a gente e confrontar a polícia, o caso é muito grave e  a luta é séria. Se transformam aquilo numa palhaçada, lá se vai a credibilidade e simpatia. Noutro tom, vi instalada uma guilhotina em tamanho real  na praça do Louvre, e  chamem-me o que quiserem mas eu estou sempre do  lado oposto aos que gostam de execuções públicas, reais ou figuradas. (nota:  foi em 1977 que os franceses guilhotinaram uma pessoa pela última vez, lembrem isto quando vos vierem com merdas sobre os franceses e os direitos humanos)

É claro que parte daquele arraial é  feito pelos que não fazem outra coisa e vivem para o protesto e as manifestações, incluindo hooligans, neo nazis, bolcheviques modernos, socialistas revolucionários e muitos outros que acham que é a coisa francesa a fazer, mas tem que haver líderes e organizadores e gostava de saber se algum jornalista já foi perguntar a esses cabecilhas e porta vozes, dado que todos exigem a demissão do governo, qual é que é o plano para o dia seguinte e em que medida é que a demissão do governo vai fazer baixar o preço da gasolina ou aumentar os salários ou baixar os impostos, a menos que esta gente toda acredite, como é muito possível, que os governos imprimem e distribuem o dinheiro que querem e controlam toda a economia.

Causam-se prejuízos de milhões, lança-se o caos na vida de centenas de milhar, cai o governo,  e depois? Avança o homem ou mulher providencial com a bala de prata, a panaceia para os males modernos? Ou somos adeptos do para já vamos assim e depois logo se vê? É que eu aplico esse princípio muita vez na minha vida, mas acredito que não se pode nem deve trabalhar assim na gestão dos Estados, nunca dá bom resultado. Exemplo bem actual, o descalabro do Brexit.

Os franceses são dos povos mais ricos e que têm vidas mais confortáveis no mundo inteiro, fazerem esta destruição e caos  por causa do aumento da gasolina, ou porque estão descontentes com a economia e o aumento de preço foi o catalisador  é, entre outras coisas, uma certa falta de respeito e consideração por sociedades em verdadeira crise, seja económica, social ou política.

E ainda há aqui outro problema: somos todos muito democratas, concordamos que a democracia representativa é o melhor regime possível e gostamos de ter regularmente eleições livres… excepto quando não são os nossos que são eleitos ou quando a realidade não se mostra conforme as nossas expectativas, aí passa ser legítimo derrubar governos nas ruas. O governo agora ou reprime e aguenta ou vacila e cede , não é uma escolha que eu gostasse de ter que fazer. Com o meu pacote de pipocas na mão gostava de ver mesmo Paris a arder,  o governo a cair e o poder passar para as mãos de um comité de cidadãos numa praça, com a boca cheia de slogans, abstracções e demagogia, pronto a duplicar os salários e cortar em metade os preços por decreto. Passados meses entraria um Melenchon , que é um Maduro com educação e sofisticação; ou uma Le Pen, que é o Trump de saias e  alfabetizado. Quero ver isso, e quero ver esta gente toda que hoje  berra e rasga as vestes com as malfeitorias da União Europeia, quero vê-los a lidar com a alternativa.

 

 

*Paris já está a arder ? é um livro sobre a libertação de Paris dos nazis, depois da derrota vergonhosa, rendição e anos de colaboracionismo entusiástico pontuado por episódios de resistência esporádica e organizada, financiada e treinada pelos ingleses e americanos. Outras pessoas interpretam esses anos de outra forma e não tem muito a ver com a situação actual, escolhi-o para título porque soa bem nesta altura.

Um espelho distante

Acabei um dos  livros que me deu mais gosto ler, de História que é o meu género favorito. Foi publicado em 1978, não há edição portuguesa e foi escrito por Barbara Tuchman, uma americana que apesar de ser autodidacta tem uma erudição assombrosa e além do mais, porque só isso nunca foi suficiente, escreve narrativas absorventes.

O livro é sobre o século XIV na Europa, século que logo na capa é descrito como calamitoso, e chama-se A Distant Mirror . Ao longo de 618 páginas (e mais umas dezenas em notas, só a bibliografia são 16 páginas) a autora mostra muito claramente porque é que foi calamitoso e quem teve os principais papéis na calamidade, obviamente deixando  juízos de valor para os leitores. Acompanha a vida e carreira de Enguerrand de Coucy um dos maiores nobres da França, figura extraordinária que esteve em quase todos os momentos chave da época, e com isso traça um quadro tremendo de toda uma época e cultura.

É um quadro bastante medonho de uma época de abusos e explorações do “povo”  quase inimagináveis, perpetradas pelos nobres com a colaboração activa e entusiástica da Igreja Católica, cheio de episódios e histórias arrepiantes que explicam bem porque é que a época é muitas vezes chamada de Idade das Trevas. Por exemplo, alguém que leia com atenção  a história do cisma que levou à instalação de um papa em Avignon e outro em Roma (e a dada altura um terceiro em Pisa) dificilmente pode  acreditar que a motivação do clero superior era outra além de poder e dinheiro. Um exemplo, quando Clemente V foi instalado pelos franceses em Avignon a cidade tinha menos de 4000 habitantes e instalaram-se imediatamente 43 representantes de banqueiros europeus. Onde estava o papado estava a finança. A lista das iniquidades da Igreja, desde o frade mais baixo ao Papa, que é extensa demais e não é objecto do livro,  na minha opinião faz empalidecer a contribuição positiva e é uma herança impossível de renegar, amenizar ou tentar justificar,  percebe-se bem como é que apareceu a Reforma e como é que a Europa mergulhou em guerras religiosas  décadas mais tarde. Se há conflitos de origem difusa ou que são causados por vários factores, as guerras religiosas que se seguiram à Reforma e mataram , estima-se, 10 milhões de pessoas nos séculos XVI e XVII, têm origem clara nos abusos dos Papas e de toda a hierarquia.

A quem quiser contrapor a isto  factores como o trabalho da igreja na educação respondo que se somos uma organização dedicada ao controlo precisamos de quadros, pelo que a razão se ser das escolas religiosas não era tanto uma vontade de disseminar o saber mas uma necessidade de educar  quadros e precisamente controlar esse mesmo saber.

Sobre a condição e as espoliações e massacres sofridos pelos Judeus em toda a Europa… bom, as sementes do holocausto nazi estavam lançadas há séculos e acho que só não aconteceu antes, e se calhar até em França, por falta de meios técnicos. Já em 1325 havia muitas notícias falsas, e uma chegava para provocar um massacre. A simpatia que tenho pelos judeus vem de ler História, a aversão que tenho aos anti semitas vem da aversão que tenho à ignorância maldosa. Na primeira linha da condenação e perseguição aos judeus estava a Igreja, e se não estou em erro demoraram até ao fim do século XX,  mais de 500 anos , a apresentar uma lamentação formal pelo papel de liderança em séculos de atrocidades.

As cruzadas foram outra coisa medieval absurda e malévola que espalhou mais miséria, ódio e destruição do que alguma vez pode ser compensada pelo que ficou dos contactos com o Oriente, especialmente porque os contactos eram principalmente a ferro e fogo. Há um pormenor que acho delicioso, assim de uma maneira mórbida, na questão das Cruzadas. Os Papas que as convocavam declaravam indulgência plenária para todos os cruzados assim que chegassem à Palestina. As indulgências, para quem não sabe, eram o perdão dos pecados que a igreja  vendia, tal como anulações ou autorizações para casamentos com parentes e outros actos, enfim, tudo o que caísse sob  regulação da igreja podia ser comprado. As indulgências também podiam ser concedidas sem ser mediante pagamento directo, como no caso dos cruzados. Ora, as cruzadas começavam habitualmente no centro e norte da Europa e o caminho para a Palestina é muito longo. Vezes sem conta os cruzados, justificadamente, raciocinavam do seguinte modo:

-Quando chegarmos à Terra Santa vamos receber o perdão integral dos pecados, todos os pecados acumulados até lá serão perdoados, logo…

É fácil de calcular (para nós, para a Igreja não era, ou não interessava) as devastações e abusos que estas hordas cometiam  a caminho da Palestina, seguros da absolvição papal. Também as cruzadas tiveram o mérito de fazer florescer o tráfico em relíquias, trouxeram-se e venderam-se centenas de Cruzes Verdadeiras, lágrimas de nossa senhora, costelas de S.Pedro, espinhos da coroa de Cristo, enfim , quem voltasse da Palestina (ou convencesse as pessoas que voltava da Palestina) e pegasse num pau encontrava dezenas de pessoas, incluindo abades e letrados, dispostos a pagar fortunas pelo pau se dissesse com convicção que era um pedaço da cruz ou que um trapo era um pedaço da mortalha de Cristo. É desta época que nos chega o Sudário de Turim, que ainda hoje é visitado por devotos apesar de os métodos modernos de datação provarem que é uma obra  da Idade Média. Sobre os resultados a longo prazo das Cruzadas, é olhar para lá, para a “Terra Santa”, para o poder dos “Infiéis” e o modo como ainda hoje a palavra cruzado é dita no Islão com asco e ressentimento.

Não tenho o hábito de anotar os livros à medida que vou lendo  mas vou trabalhar nisso, especialmente naqueles que sei que me vai dar vontade de falar neles a seguir, neste caso só já bem depois de meio é que me lembrei, deparei-me com uma frase tão espectacular que deixei uma marca e volto lá agora. A autora falava de Wycliffe , um clérigo inglês que entre muitas outras coisas era reformista, logo, herege:

“Num cúmulo de heresia, transferiu a Salvação da agência da Igreja para o Indivíduo: Porque cada homem que será condenado será condenado pela sua própria culpa, e cada homem que será salvo será pelo seu próprio mérito“. Desapercebido, aqui estava o começo do mundo moderno”. 

Outra parte extraordinária é a descrição da batalha de Nicopolis  , em que uma coligação de Franceses, Húngaros, Venezianos, Romenos, Polacos, Genoveses e Ingleses, e ainda um contingente de Hospitalários enfrentou os Turcos do Sultão Bajazet, e foi redondamente derrotada.  Foi a última cruzada medieval, marcou o fim da época da cavalaria no sentido romântico do termo e foi daquelas batalhas que tinha tudo para ser ganha e no entanto foi deitada a perder pela arrogância, vaidade e excesso de confiança dos Franceses que assim condenaram os Balcãs a 500 anos de domínio Otomano. Este livro não fez nada  para melhorar a minha opinião sobre a igreja, antes pelo contrário,  e dá-se o mesmo em relação aos Franceses. Eu sei, a História também serve para aprendermos a não generalizar e para combater preconceitos mas os meus deram-me muito trabalho a cultivar e defender e não os vou largar assim por uma coisa qualquer, até porque nunca passam do plano das ideias e reconheço-os pelo que são. Para mim   criticar a igreja é quase uma obrigação, criticar os franceses é mais  um  desporto, que  ainda tem mais piada quando falo destas coisas com amigos franceses.

Tinha mais meia dúzia de páginas com o canto dobrado a indicar que havia ali alguma coisa que queria ressalvar mas agora não encontro exactamente o que era. Só há 3   referências a Portugal, uma para dizer que um almirante português ao serviço do Duque de Lencastre capturou o navio do tal  Enguerrand de Coucy num “raid audacioso” ; um parágrafo para falar dos projectos  do Infante d. Henrique , “um neto de John de Gaunt” (que nós só conhecemos por Duque de Lencastre);  outra referência ao vinho e nada mais, em toda esta História europeia do século XIV este canto da península não conta para muito aos olhos desta historiadora americana, e com certa razão já que escolheu como fio condutor da sua narrativa um nobre francês.

Hei-de ler este livro outra vez, calculo que o título evoque o reflexo de nós mesmos e da nossa sociedade que vemos quando olhamos com atenção para as profundezas do passado.

Agora vou-me abalançar a fazer a tradução de um pequeno ensaio chamado Socialismo e História que está noutro livrinho que veio nesta fornada e quero pôr aqui porque o acho extremamente importante, fala de experiências socialistas séculos antes do Saint  Simon, Marx, Engels  e restante rapaziada. Não haja suspense, correu sempre mal.

O Armistício

Tenho nesta altura em espera uma pilha de 9 livros na tábua que funciona como mesa de cabeceira, isto porque encontrei um site de venda de livros com envio à borla que tem uma infinidade de títulos que me interessam e não resisti a um impulso consumista. Além desses tenho uma lista de desejos bastante grande, e dela faz parte este livro, The Sleepwalkers , “Os Sonâmbulos” , largamente considerado uma obra definitiva sobre as razões que mergulharam a Europa e o Mundo na Primeira Guerra Mundial, o fim da qual se celebra hoje. Como esse título indica, a Europa mergulhou na guerra sem estar acordada nem saber para onde ia.

Ainda não li esse  mas já li outros sobre o tema e tenho um fascínio assim um bocado mórbido por processos históricos nos quais as coisas ganham vida própria, o controlo escapa das mãos de quem acha que tem tudo controlado, a realidade contradiz os discursos e a loucura humana vem ao de cima. Ensinam-nos que a Grande Guerra começou por causa do assassinato do Franz Ferdinand em Belgrado mas isso foi apenas a faísca, os montes e montes de acendalha e lenha já se estavam a juntar há muito tempo. Quando se junta um monte enorme de lenha seca a única coisa que vai acontecer é uma fogueira.

Quero dizer umas coisas rápidas sobre estas comemorações do Armistício.

1 – Por cá comemorou-se na semana passada com uma grande parada militar em Lisboa. Não foi oferecida nem existe nenhuma razão válida para assinalar uma efeméride na semana anterior à data, a única razão para isto foi que o Presidente da República queria estar em  Paris hoje para as comemorações internacionais por isso tivemos que nos despachar a semana passada.

2- A mesma pessoa disse na ocasião que os soldados lutaram   “pela compreensão contra o ódio, pela liberdade, contra a opressão, pela justiça, contra a iniquidade, pela Europa aberta contra a Europa fechada, o mundo solidário contra o mundo dos egoísmos, das xenofobias, das exclusões” . Isto é um absurdo de uma vacuidade e demagogia atroz, para não falar da ignorância, se um aluno do primeiro ano de História respondesse assim a uma pergunta sobre as razões que levaram à guerra, chumbava.

Os homens que se estavam a homenagear e lembrar, de ambos os lados, lutaram por duas razões, como lutam desde que há guerra : a maior parte porque os mandaram , outros porque era a sua profissão. Quando saltavam das trincheiras para a morte quase certa não o faziam com um hurrah contra a exclusão e a xenofobia, faziam-no por causa do camarada que estava ao lado e a quem nunca podiam deixar ficar mal,  como de resto podia ter explicado ao sr presidente qualquer militar. O resto são tretas de políticos, e ainda me perguntam porque é que eu não suporto o Marcelo.

3- A participação portuguesa na guerra só não foi uma vergonha total por causa do brio e coragem dos soldados, porque como decisão política foi miserável e inútil e como operação militar, da parte da preparação e logística e treino, e dos resultados, foi o que se podia esperar de um país como o nosso a querer ir fazer figura para os campos da Flandres. Mais uma vez a vaidade, ignorância e indiferença de políticos asquerosos a mandar para a morte dezenas de milhar . Uma  curiosidade, nessa altura aconteceu o “Milagre de Tancos”, os recrutas do CEP foram lá treinados e por intervenção da senhora de Fátima foram dados como aptos para combate em tempo record e foram despachados para as trincheiras. Isto é verdade, andaram a dizer às pessoas que as tropas estavam prontas e preparadas, e tinha sido milagre. Claro que como estávamos em 1917 as pessoas acreditaram, e é curioso verificar que 100 anos depois deu-se outro fenómeno paranormal em Tancos e hoje as pessoas também parece que aceitam uma explicação que é tão válida como dizer que foi milagre, incluindo quem devia saber melhor, o tipo que acha que a guerra foi “contra a injustiça”.

4- Nas comemorações deste ano em França está a faltar, que eu veja, a primeira ministra do Reino Unido. Mais uma prova da distância que continua a ser cavada entre a Grã Bretanha e o Continente. Também está a faltar o presidente dos EUA que não foi às cerimónias no cemitério onde estão enterrados os soldados americanos mortos na Flandres porque estava a chover . Mais uma prova da estatura do senhor, que ou é uma florinha de estufa que não pode estar um bocadinho à chuva ou fez birra por outra coisa qualquer e lembrou-se dessa desculpa. Estadista.

5- A Primeira Guerra Mundial foi vendida como a guerra para acabar com as guerras. Não foi bem assim, nunca será assim e em vez de os políticos continuarem a debitar mentiras e efabulações deviam fazer um esforço para perceber e comunicar às pessoas que a ameaça não desaparece, a possibilidade mantém-se real. Em 1912 não faltava quem dissesse que o conflito era inconcebível.

 

O Museu das Descobertas

Li  um artigo  só  porque tinha no título “choldra“, é um termo de que gosto muito, ainda o ano passado ano reli Os Maias e quase me arrepiei com a quantidade de parágrafos que podiam  ter sido escritos hoje.

Não vou comentar o artigo, digo só que o achei deprimente e realista, acho que não se consegue ser realista sem ser um bocado deprimente e pela parte que me toca já desisti de esperar que Portugal mude para melhor. É uma choldra mas é a nossa choldra, e ou emigramos (hoje já não é um drama emigrar como foi durante o governo do Passos) ou aceitamos e seguimos com a nossa vida o melhor que pudermos. Portugal é isto e disto não passa, para usar uma expressão comum aqui na ilha. Quanto mais cedo aceitarmos isso mais poupamos os nervos e melhor  podemos organizar a nossa vida.

Bom, estava então a deprimir-me um bocado com o artigo quando vejo que há um projecto para a criação de um Museu das Descobertas, em Lisboa como não podia deixar de ser.

Uma das características da nossa choldra é que na cabeça do que entre nós passa por elite Portugal é Lisboa e “descentralizar” é um termo que deve sempre permanecer teórico e abstracto e nunca, mas nunca ser  aplicado consequentemente, como  ficou demonstrado pela rábula da mudança do Infarmed para o Porto. É um termo a utilizar por políticos em campanha pela província,  para esquecer na viagem de regresso à capital.

E onde querias tu um Museu das Descobertas sem ser em Lisboa?” Assim de repente ocorre-me Lagos , onde viveu grande  parte da sua vida uma figura que teve alguma importância nas Descobertas e é conhecido por Infante D.Henrique. Lagos foi  o porto de onde partiram as primeiras verdadeiras viagens de descoberta e  foi o centro da navegação  e expansão Atlântica durante décadas. Mas não  deve ser,  Lagos já tem turismo que chegue, ou talvez turismo a mais  (acho que isso agora é um problema, como não podia deixar de ser depois de termos turismo a  menos) , se calhar até alguém sugeriu isso mas os outros riram-se todos com a ideia de fazer uma coisa dessas  fora de Lisboa.

Sobre este futuro museu não sei mais nada, nem me vou dar ao trabalho de saber, só soube pelo mesmo artigo que existe polémica. Ao que percebo há um grupo de historiadores e cientistas  sociais que tem objecções, ou à própria existência do museu, ou ao seu nome, ou a ambas. Deixem-me adivinhar, a liderar o contingente dos historiadores está o Fernando Rosas, do lado dos “cientistas” está o Sousa Santos. Ponho “cientistas” entre aspas porque em fazendo meia dúzia de  cadeiras que tenho em atraso há  mais de 20 anos davam-me um papel a dizer que sou licenciado em ciências sociais, isso bastaria para me apresentar como “cientista social” mas o meu sentido de humor tem limites .

Como lembra o autor do artigo e como dizia o João da Ega, “aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete”. Substituindo o paquete pela internet e a easyjet e acrescentando à lista as causas e indignações, isto é  verídico cento e tal anos depois de ter sido escrito. Nos países anglo saxónicos e boa parte do resto da Europa hoje caminha-se sobre brasas e não só as figuras públicas se torcem e retorcem para evitar ofender seja o que for (este torcer e retorcer só é possível a quem não tem espinha dorsal) como nunca pára a denúncia e indignação com o que sai fora do cânone da “modernidade” e dos estabelecido como correcto. Exemplo recente, no Reino Unido dois tripulantes de um salva vidas foram despedidos porque tinham canecas com mulheres nuas e o comissário político que os controla escandalizou-se e arranjou maneira de os despedir. Em 2018 é ofensivo que marinheiros profissionais bebam o seu café em canecas com um desenho ou foto de uma mulher nua. Este pessoal  ofende-se com muito pouco, e isso só é grave porque de cada vez que se ofendem com merdas sem jeito nenhum arranjam maneira de encravar a vida ao próximo.

Então parece que falar em “descobertas” ofende ou incomoda muita gente. As ciências sociais (sem aplicar o método científico por ser impossível neste caso) proclamam que  a expansão marítima foi negativa, para não usar palavras mais fortes. A historiografia de esquerda abomina-a e nunca perde uma oportunidade de apresentar os seus protagonistas como bestas furiosas e quem os admira hoje como reaccionários fascistóides e insensíveis.

Quero fazer dois comentários, o primeiro quanto à objecção ao termo “descobertas”. Diz-se que Índias e outras paragens não foram descobertas porque já lá existia gente e essa gente, mais os vizinhos, já sabia naturalmente da existência dessas terras. Isto é um bocado como dizer que o Fleming não descobriu a penicilina, uma vez que sempre existiu penicilina, já lá estava, e só porque o Fleming foi o primeiro a identificá-la e descrevê-la isso não quer dizer que a tenha descoberto, é isso? A Marie  Curie não descobriu nenhuma radioactividade porque  sempre houve radioactividade. Este pessoal nunca descobre um restaurante ou um livro, visto que já existiam antes de os encontrarem e já eram conhecidos por outros. Parece-me um argumento miserável.

Que já houvesse habitantes nas terras alcançadas pelos portugueses de 500 não tem nada a ver com terem sido descobertas,  como de resto qualquer dicionário pode confirmar. Se é de palavras isoladas que estamos a falar, nada como usar um dicionário. Se na Europa ninguém sabia da existência do Brasil por mais gente  que lá houvesse, se ninguém nunca tinha falado no Brasil nem fazia ideia nenhuma de que aquela terra ali existia, segue que quem a encontra, localiza, descreve e divulga a descobriu, e isto aplica-se ao Brasil e a todas as outras terras das quais os portugueses foram os primeiros a dar notícias na Europa. É eurocentrismo? Talvez, mas uma vez que somos europeus, vivemos na Europa e estamos a discutir História da Europa não é descabida uma visão europeia , ou é? Em que circunstâncias é que se poderia então falar em Descobertas?

Nunca ouvi dizer que os portugueses descobriram a Índia, descobriram sim o caminho marítimo para lá, podemos contar isso como uma descoberta ou não, uma vez que os oceanos e seus cabos e ventos sempre lá estiveram? É a verdadeira questão de lana caprina que prolifera nas academias e de vez em quando sai cá para fora quando querem dar prova de vida ou envolver-se nos debates da moda, obviamente importados da estranja.

O segundo comentário é quanto aos julgamentos de valor que se fazem dos portugueses de 500 e suas acções. Gente que consegue desculpar e justificar  Castros e Lenines em 2 parágrafos fica agastadíssima com a veneração a um Gama ou Albuquerque. Interesso-me por história colonial e da Expansão desde que me lembro , começou pelos sonhos incendiados em garoto por livros como a versão juvenil da Peregrinação do Adolfo Simões Muller e outras glorificações dos descobrimentos (leituras que não foram estranhas à carreira profissional que segui e à vontade enorme de seguir as esteiras dos navegadores) e está hoje numa visão realista , ninguém me consegue surpreender com  mais um exemplo das barbaridades e crueldades perpetradas no Ultramar e suas motivações.Mais de 20 anos de leituras e viagens tiraram-me as ilusões que tinha quando era garoto e  conheço suficientemente bem a História. Nem de propósito terminei ontem de reler um dos vários livros de VS Naipaul que esclarece bem o tema, nesse caso é a história de Trinidad.  Assim de repente e para quem quer uma introdução rápida às iniquidades e misérias do colonialismo sugiro mais dois,  A Brevíssima  Relação da Destruição das ÍndiasO Soldado Prático , este último comprei-o quando ainda romantizava as Descobertas, a pensar que era sobre a vida diária de um soldado português na Índia e acabou por ser dos livros que mais me chocou na vida, destruiu-me as ilusões quanto à organização e gestão do Império Português e às acções dos portugueses por lá. Equlibrem com qualquer livro do Charles Boxer, bom para dar a dimensão real da coisa e pôr as corrupções e violências em perspectiva e contraste com os avanços e construções.

Um dos problemas é que os que vituperam e demonizam os colonizadores (alguns sem dúvida verdadeiros demónios) partem de uma premissa improvável: tinha sido melhor para, por exemplo, os Guaranis, se o Cabral nunca tivesse descoberto (ou descrito, ou localizado, o que quiserem) o Brasil.  Não sabemos, não temos nem nunca teremos maneira de saber e dizer que só  levámos destruição e caos é ignorar tudo o que também lá criámos, o valor de todas as trocas e o valor para a Europa dessa descoberta. Se não fossem os portugueses seriam os Espanhóis, se não os Espanhóis seriam os Holandeses, o que é mesmo certo é que dada a assimetria tecnológica nunca seriam os Guaranis a atravessar o Atlântico e a descobrir Portugal. É impossível afirmar que não fora o Infante e Cabral e todos os outros os Guaranis , ou os Bantus ou qualquer outro povo, ia ter uma existência muito melhor. Isso é história contra factual e vale o que vale, vale um exercício. Será que a nossa vida seria melhor se não tivesse havido  conjura e Restauração em 1640? Nunca vamos saber.

Outro problema: a ideia falsa mas muito difundida de que os Guaranis, ou os Hindus, viviam numa tranquila, pura e pacífica existência quando  chegaram os portugueses e deram cabo de tudo. Quando por exemplo o Gama chegou a Calicut o Samorim era a autoridade única e absoluta;  uma  vida humana valia pouco mais que nada, a escravatura e o sistema de castas eram regra há séculos, o comércio estava nas mãos  de mercadores estrangeiros e a guerra com os vizinhos (tal como em África e na Amazónia) era o modo de vida aceite e comum. Os indígenas Caribs faziam expedições com milhares de guerreiros às ilhas vizinhas só para capturar e comer outras tribos,  não é razão para lhes roubar a terra mas também mostra que paraísos plácidos e incorruptos existiam era na cabeça das pessoas. É outra que devemos ao Rousseau com o seu delírio do  bom selvagem .

Neste livro , que não recomendo aos “anti descobrimentos” nem a almas sensíveis que se chocam  com grandes feitos de armas e são mais de dar as mãos e cantar o Kumbaya, há uma tabela muito interessante com todos os soberanos do Indostão desde o ano 1001 até 1754. Em 750 anos tiveram 64 soberanos , desses 64, 25 foram assassinados,  vários  pelos próprios filhos. Mais de 1/3 dos soberanos morreu assassinado, aquilo já eram terras de violência extrema e instabilidade quando os portugueses lá chegaram e assim continuaram. Os escravos levados da costa ocidental africana para as Américas eram na sua maioria comprados a outros  indígenas, e quando não a outros indígenas , a árabes que desde há séculos desciam para a África sub sahariana ( ocidental e oriental) nas suas razzias e capturavam e comerciavam gente. Não inventámos nada, a não ser técnicas de navegação e só a extensão dessas, e os feitos marítimos perfeitamente assombrosos, deviam chegar para nos encher de orgulho. Claro que para reconhecer a dimensão de um feito marítimo é preciso compreender alguma coisa sobre navios, navegação e alto mar e para isso os livros não chegam.

Não há que branquear ou escamotear as atrocidades feitas durante a expansão mas por favor nem sequer me tentem convencer com a teoria  que pretende que invadimos um mundo pacífico, ordenado e justo, que fomos nós que levámos a opressão e a guerra e que se os tivéssemos deixado estar  tinha sido melhor para todos.

Não sei quem foi que disse que Portugal deu novos Mundos ao Mundo mas tenho para mim que é verdade, que é o nosso maior legado e contribuição,  termos iniciado a Globalização,  para o bem e para o mal. Quem é contra a globalização e as trocas e contactos entre povos distantes tem que admitir que prefere cada um no seu cantinho, cada raça sua raça sem misturas e  sem comércios. Quem diz que outra globalização é possível  não vive neste mundo e não se lhe pode prestar atenção.

Façam o Museu, não se armem em parvos e chamem-lhe Das Descobertas, façam-no por exemplo na Cordoaria já que é inconcebível que não seja em Lisboa, e encham-no de artefactos, representações  e documentos que mostrem como era a vida cá em 1400, como era a vida no Brasil , África e Índias em 1500, como é que os portugueses lá chegaram, o que é que levaram, construíram e trouxeram   e quais foram as consequências , boas e más,  dessa chegada e presença, para o país, a Europa e o Mundo. Estou seguro de que é possível, assim haja vontade e se excluam da organização os fanáticos dos dois lados, conseguir o equilíbrio necessário entre a visão romântica e a visão dramática, e depois deixem os juízos de valor para cada visitante.

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Termino com mais uma sugestão de leitura sobre o tema, um livro recente chamado “Conquistadores” , que tem a vantagem de ser escrito por um estrangeiro, logo, com um olhar  distanciado e imune às nossa quezílias e posturas internas. Detalha e ilustra bem a aventura extraordinária das Descobertas sem poupar no sangue, horrores e iniquidades mas sem nunca  desvalorizar a bravura,  determinação,  resistência e capacidades quase inacreditáveis daquelas gerações.

PS: vejo hoje que as carcassas da academia desceram das suas torres bafientas para propôr que o museu se chame “Museu da Interculturalidade”. Típico, este pessoal vive no seu universo e nem bate a pestana a propôr para nome do museu uma palavra que uma boa metade  da população não percebe e nem eles próprios conseguem definir sem um subsídio de investigação científica e 72 páginas de elocubrações.

 

Alabama

A primeira coisa que vem à cabeça de muita gente quando ouve “Alabama” é  a canção dos Lynyrd Skynyrd  que toda a gente conhece, mesmo à das pessoas que se riem ao lembrar-se desse estado.  Não há muitos sítios que definam melhor o Sul dos EUA que o Alabama, e tudo o que sei dele, incluindo algumas passagens (não lhes posso chamar bem  visitas) e conversas com nativos  chega para o considerar o fundo  da nação, talvez dispute o título com o Mississipi, dá ideia que a única salvação do Alabama é  a equipa de futebol universitário, que é dominante a nível nacional, e não se pode tomar o futebol universitário como coisa irrelevante. Quem não gosta ou não segue futebol americano não tem lá nada para admirar, até a costa do Golfo do México está morta e degradada.

A história do Estado conta-se em pouco tempo. Os espanhóis foram os primeiros a passar por lá, no século XVI, vindos das suas deambulações por La Florida, sem fazer grande coisa que ficasse. Nos princípios do século XVIII  Instalaram-se  franceses e  fundaram Mobile, ainda hoje o maior porto do Estado. Quem já lá andava há muito tempo eram os índios, mas a esses nunca ninguém perguntou nada. Em 1800, apenas 20 anos antes de o Estado ser criado viviam no território do Alabama 1250 pessoas.Ou melhor, brancos, porque o resto não contava. No primeiro ano como Estado já lá viviam 127000 e acelerou  o processo inspirado pela teoria do Destino Manifesto que dizia que  Deus os levou àquela terra em reconhecimento da  virtude deles e que podiam fazer como entendessem, desde que de acordo com a Bíblia. Os selvagens, como tal, são para  expulsar e exterminar. Foi rápido, devido à desproporção de forças e ao influxo gigantesco de imigrantes europeus. Irónico, o ressentimento de tantos descendentes desses  imigrantes contra os novos imigrantes.

Depois do massacre e expulsão dos índios, a escravatura. Importaram-se centenas de milhar de africanos ou de pessoas que já não eram africanas por terem nascido na América mas eram tratados como bichos na mesma, e continuou a exploração. Em 1860 rebenta a Guerra Civil,  o Alabama foi dos primeiros a pegar em armas para defender os direitos dos estados , nomeadamente o direito a ter outras pessoas como propriedade. Não havia grande contradição, no Alabama de  hoje 78% da população é Protestante e desses, 49% são Evangélicos. ainda hoje mais de metade das pessoas do Alabama acredita no mundo criado em 6 dias, em  Eva  feita a partir de uma  costela de Adão e  na cobra falante. Tentei saber a proporção exacta de crentes em  Portugal, lamento mas não me apeteceu procurar muito e não encontrei, mas acredito e espero que a percentagem que aceita a Evolução seja muitissimo maior, tal como a dos que  não procuram orientação literal e fixa na Bíblia. No Alabama sempre houve mais pessoas que adoram e estudam a Bíblia literalmente, e sendo assim , encontraram  lá consolo e justificação para terem e maltratarem outras pessoas, especialmente sendo as outras pessoas filhos de Ham, como são biblicamente os africanos. Tem a ver com a história do Noé, pai de Ham, mas não me vou alongar sobre  imbecilidades senão isto nunca mais acaba.

O Sul perdeu a guerra civil mas se lá andarem hoje fartam-se de ver a cada passo muito orgulho nos  derrotados. Os escravos foram libertados mas como está bom de ver não basta uma lei, ainda por cima uma lei que levou a uma guerra, para que as pessoas comecem a olhar para as outras de modo diferente, ou,  vá lá, como pessoas. Os negros sempre tiveram a vida desgraçada no Alabama do pós guerra civil, com uma fracção dos direitos dos brancos e sempre, sempre sujeitos a toda a espécie de discriminações, abusos e violências, a começar pelas do Estado.  É ler “To Kill a Mockingbird”, por exemplo . O romance por excelência de denúncia e alarme contra  os preconceitos e iniquidades causadas pelo  racismo  nos EUA  passa-se  no Alabama. Como redenção na desgraça, mostra-nos que no meio dos animais se pode sempre erguer um Atticus Finch,  que há justos em todos os cantos do Mundo.

A segregação racial, o KKK, o criacionismo nas escolas, durante toda a metade do século passado o Alabama ia ficando para trás enquanto o resto da América evoluía na direcção de reconhecer igualdade de direitos  entre raças, que já chegou em teoria mas ainda não chegou na prática. O Alabama permanecia firme no século XIX, e figura alto numa das minhas histórias preferidas, que li nesta Biografia de África:

Em 1957 Richard  Nixon, então Vice Presidente, foi ao Gana por ocasião da celebração da independência do país. Num cocktail depois das  cerimónias oficiais Nixon aproximou-se de um jovem impecavelmente vestido que ele tomou como  Ganês e perguntou-lhe:

-Então, que tal é ser livre?

-Não faço ideia, senhor. Sou do Alabama.

E nesta base se desenvolveu  o Alabama, que só chegava às notícias por causa da luta dos Direitos Civis. Rosa Parks tornou-se heroína da nação ao recusar-se a ceder o seu lugar a um branco no autocarro, no Alabama. Martin Luther King jr fazia discursos tremendos e marchas de protesto enormes, no Alabama. O KKK incendiava igrejas e enforcava pessoas a meio da noite, no Alabama.

Chegamos a 2017 e o presidente é um indivíduo que não se cansa de dizer que ama o Alabama e os seus valores, o que não surpreende dado que é o mesmo que foi processado pelo Estado nos anos 80 por só aceitar  inquilinos brancos nos seus prédios em NY, que se diz muito cristão apesar de já ir no terceiro casamento escabroso e  não vale a pena começar a tentar listar a podridão do homem senão nunca mais me despacho, ele é a podridão em forma de gente.

O lugar de senador do Alabama vagou e ontem houve eleição especial para o substituir. O candidato democrata era um homem conhecido por ser o procurador que processou membros do KKK pelo assassínio de quatro  meninas quando puseram uma bomba numa igreja , lá no tempo em que a América era Grande . O candidato republicano era um ex juiz chamado Roy Moore, conhecido entre outras coisas por ter sido condenado e demitido pelo Supremo Tribunal por ter mandado instalar no relvado do seu  tribunal uma placa com os 10 Mandamentos. Acredita e diz para quem o quer ouvir que Deus tem que ser  fonte da Lei, como dizem os Ayatolahs, e não aceita ( juiz, atenção) a separação constitucional entre Estado e Igreja sem a qual, concordam todos os lúcidos, não pode existir verdadeira democracia. É  declaradamente contra os direitos dos homossexuais , acha que devia ser ilegal e também  disse que ” eliminar as emendas constitucionais depois da décima eliminava muitos problemas do país”. 

A 13a emenda aboliu a escravatura ; a 14a confere protecção igual a todos os cidadãos; a 15a proibe a negação do direito de voto baseado na raça; a 19a dá o direito de voto às mulheres e a 22a instituiu termos de mandato para os presidentes. Já dá para ter uma ideia razoável do pensamento político deste homem. Apareceu num comício vestido de cowboy, a mostrar uma pistola e tudo, e ontem foi votar  a cavalo.Não percebo de cavalos nem sei montar  mas  achei cómico e toda a gente que percebe de equitação se fartou de rir, porque se o homem alguma vez soube montar, já foi há muitos anos,  fez uma triste figura.

Também de há muitos anos vieram acusações um bocado sórdidas: O juíz Moore, na altura procurador nos seus 30 anos, gostava de miúdas adolescentes, andava atrás delas , “namorava” com elas, algumas de 14 anos. Foi proibido de entrar num centro comercial por andar a importunar as moças. Se é crime não sei, mas mostra uma pessoa um bocado nojenta. Nestes dias se  se fala de nojo na política americana o Trump não anda longe, e claro está, acabou a apelar ao voto no Moore para Senador. Um racista que defende a teocracia e é um alegado abusador de menores. Categoria. Classe. Sentido de Estado.

Deitei-me a pensar na eleição (é estranho mas é verdade, e nem conheço ninguém no Alabama…) e hoje para variar tive boas notícias pela manhã, o Moore perdeu. Os resultados foram 49.9% para 48.4%, margem finíssima mas prevaleceu a decência. Claro que o Trump já veio dizer que sempre soube que o Moore ia perder, confirmando que está sempre ao lado dos seus amigos e apoiantes e que é um homem de convicções. No Alabama que vive no século XXI respirou-se de alívio e ganhou-se alento, em Washington consta que agora só falta aprovar o novo regime fiscal, feito isso os oligarcas já têm o que querem e já podem deixar cair o presidente, esse palhaço que é uma vergonha para a América. E que tem 55% de apoio no Alabama.