O Museu das Descobertas

Li  um artigo  só  porque tinha no título “choldra“, é um termo de que gosto muito, ainda o ano passado ano reli Os Maias e quase me arrepiei com a quantidade de parágrafos que podiam  ter sido escritos hoje.

Não vou comentar o artigo, digo só que o achei deprimente e realista, acho que não se consegue ser realista sem ser um bocado deprimente e pela parte que me toca já desisti de esperar que Portugal mude para melhor. É uma choldra mas é a nossa choldra, e ou emigramos (hoje já não é um drama emigrar como foi durante o governo do Passos) ou aceitamos e seguimos com a nossa vida o melhor que pudermos. Portugal é isto e disto não passa, para usar uma expressão comum aqui na ilha. Quanto mais cedo aceitarmos isso mais poupamos os nervos e melhor  podemos organizar a nossa vida.

Bom, estava então a deprimir-me um bocado com o artigo quando vejo que há um projecto para a criação de um Museu das Descobertas, em Lisboa como não podia deixar de ser.

Uma das características da nossa choldra é que na cabeça do que entre nós passa por elite Portugal é Lisboa e “descentralizar” é um termo que deve sempre permanecer teórico e abstracto e nunca, mas nunca ser  aplicado consequentemente, como  ficou demonstrado pela rábula da mudança do Infarmed para o Porto. É um termo a utilizar por políticos em campanha pela província,  para esquecer na viagem de regresso à capital.

E onde querias tu um Museu das Descobertas sem ser em Lisboa?” Assim de repente ocorre-me Lagos , onde viveu grande  parte da sua vida uma figura que teve alguma importância nas Descobertas e é conhecido por Infante D.Henrique. Lagos foi  o porto de onde partiram as primeiras verdadeiras viagens de descoberta e  foi o centro da navegação  e expansão Atlântica durante décadas. Mas não  deve ser,  Lagos já tem turismo que chegue, ou talvez turismo a mais  (acho que isso agora é um problema, como não podia deixar de ser depois de termos turismo a  menos) , se calhar até alguém sugeriu isso mas os outros riram-se todos com a ideia de fazer uma coisa dessas  fora de Lisboa.

Sobre este futuro museu não sei mais nada, nem me vou dar ao trabalho de saber, só soube pelo mesmo artigo que existe polémica. Ao que percebo há um grupo de historiadores e cientistas  sociais que tem objecções, ou à própria existência do museu, ou ao seu nome, ou a ambas. Deixem-me adivinhar, a liderar o contingente dos historiadores está o Fernando Rosas, do lado dos “cientistas” está o Sousa Santos. Ponho “cientistas” entre aspas porque em fazendo meia dúzia de  cadeiras que tenho em atraso há  mais de 20 anos davam-me um papel a dizer que sou licenciado em ciências sociais, isso bastaria para me apresentar como “cientista social” mas o meu sentido de humor tem limites .

Como lembra o autor do artigo e como dizia o João da Ega, “aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete”. Substituindo o paquete pela internet e a easyjet e acrescentando à lista as causas e indignações, isto é  verídico cento e tal anos depois de ter sido escrito. Nos países anglo saxónicos e boa parte do resto da Europa hoje caminha-se sobre brasas e não só as figuras públicas se torcem e retorcem para evitar ofender seja o que for (este torcer e retorcer só é possível a quem não tem espinha dorsal) como nunca pára a denúncia e indignação com o que sai fora do cânone da “modernidade” e dos estabelecido como correcto. Exemplo recente, no Reino Unido dois tripulantes de um salva vidas foram despedidos porque tinham canecas com mulheres nuas e o comissário político que os controla escandalizou-se e arranjou maneira de os despedir. Em 2018 é ofensivo que marinheiros profissionais bebam o seu café em canecas com um desenho ou foto de uma mulher nua. Este pessoal  ofende-se com muito pouco, e isso só é grave porque de cada vez que se ofendem com merdas sem jeito nenhum arranjam maneira de encravar a vida ao próximo.

Então parece que falar em “descobertas” ofende ou incomoda muita gente. As ciências sociais (sem aplicar o método científico por ser impossível neste caso) proclamam que  a expansão marítima foi negativa, para não usar palavras mais fortes. A historiografia de esquerda abomina-a e nunca perde uma oportunidade de apresentar os seus protagonistas como bestas furiosas e quem os admira hoje como reaccionários fascistóides e insensíveis.

Quero fazer dois comentários, o primeiro quanto à objecção ao termo “descobertas”. Diz-se que Índias e outras paragens não foram descobertas porque já lá existia gente e essa gente, mais os vizinhos, já sabia naturalmente da existência dessas terras. Isto é um bocado como dizer que o Fleming não descobriu a penicilina, uma vez que sempre existiu penicilina, já lá estava, e só porque o Fleming foi o primeiro a identificá-la e descrevê-la isso não quer dizer que a tenha descoberto, é isso? A Marie  Curie não descobriu nenhuma radioactividade porque  sempre houve radioactividade. Este pessoal nunca descobre um restaurante ou um livro, visto que já existiam antes de os encontrarem e já eram conhecidos por outros. Parece-me um argumento miserável.

Que já houvesse habitantes nas terras alcançadas pelos portugueses de 500 não tem nada a ver com terem sido descobertas,  como de resto qualquer dicionário pode confirmar. Se é de palavras isoladas que estamos a falar, nada como usar um dicionário. Se na Europa ninguém sabia da existência do Brasil por mais gente  que lá houvesse, se ninguém nunca tinha falado no Brasil nem fazia ideia nenhuma de que aquela terra ali existia, segue que quem a encontra, localiza, descreve e divulga a descobriu, e isto aplica-se ao Brasil e a todas as outras terras das quais os portugueses foram os primeiros a dar notícias na Europa. É eurocentrismo? Talvez, mas uma vez que somos europeus, vivemos na Europa e estamos a discutir História da Europa não é descabida uma visão europeia , ou é? Em que circunstâncias é que se poderia então falar em Descobertas?

Nunca ouvi dizer que os portugueses descobriram a Índia, descobriram sim o caminho marítimo para lá, podemos contar isso como uma descoberta ou não, uma vez que os oceanos e seus cabos e ventos sempre lá estiveram? É a verdadeira questão de lana caprina que prolifera nas academias e de vez em quando sai cá para fora quando querem dar prova de vida ou envolver-se nos debates da moda, obviamente importados da estranja.

O segundo comentário é quanto aos julgamentos de valor que se fazem dos portugueses de 500 e suas acções. Gente que consegue desculpar e justificar  Castros e Lenines em 2 parágrafos fica agastadíssima com a veneração a um Gama ou Albuquerque. Interesso-me por história colonial e da Expansão desde que me lembro , começou pelos sonhos incendiados em garoto por livros como a versão juvenil da Peregrinação do Adolfo Simões Muller e outras glorificações dos descobrimentos (leituras que não foram estranhas à carreira profissional que segui e à vontade enorme de seguir as esteiras dos navegadores) e está hoje numa visão realista , ninguém me consegue surpreender com  mais um exemplo das barbaridades e crueldades perpetradas no Ultramar e suas motivações.Mais de 20 anos de leituras e viagens tiraram-me as ilusões que tinha quando era garoto e  conheço suficientemente bem a História. Nem de propósito terminei ontem de reler um dos vários livros de VS Naipaul que esclarece bem o tema, nesse caso é a história de Trinidad.  Assim de repente e para quem quer uma introdução rápida às iniquidades e misérias do colonialismo sugiro mais dois,  A Brevíssima  Relação da Destruição das ÍndiasO Soldado Prático , este último comprei-o quando ainda romantizava as Descobertas, a pensar que era sobre a vida diária de um soldado português na Índia e acabou por ser dos livros que mais me chocou na vida, destruiu-me as ilusões quanto à organização e gestão do Império Português e às acções dos portugueses por lá. Equlibrem com qualquer livro do Charles Boxer, bom para dar a dimensão real da coisa e pôr as corrupções e violências em perspectiva e contraste com os avanços e construções.

Um dos problemas é que os que vituperam e demonizam os colonizadores (alguns sem dúvida verdadeiros demónios) partem de uma premissa improvável: tinha sido melhor para, por exemplo, os Guaranis, se o Cabral nunca tivesse descoberto (ou descrito, ou localizado, o que quiserem) o Brasil.  Não sabemos, não temos nem nunca teremos maneira de saber e dizer que só  levámos destruição e caos é ignorar tudo o que também lá criámos, o valor de todas as trocas e o valor para a Europa dessa descoberta. Se não fossem os portugueses seriam os Espanhóis, se não os Espanhóis seriam os Holandeses, o que é mesmo certo é que dada a assimetria tecnológica nunca seriam os Guaranis a atravessar o Atlântico e a descobrir Portugal. É impossível afirmar que não fora o Infante e Cabral e todos os outros os Guaranis , ou os Bantus ou qualquer outro povo, ia ter uma existência muito melhor. Isso é história contra factual e vale o que vale, vale um exercício. Será que a nossa vida seria melhor se não tivesse havido  conjura e Restauração em 1640? Nunca vamos saber.

Outro problema: a ideia falsa mas muito difundida de que os Guaranis, ou os Hindus, viviam numa tranquila, pura e pacífica existência quando  chegaram os portugueses e deram cabo de tudo. Quando por exemplo o Gama chegou a Calicut o Samorim era a autoridade única e absoluta;  uma  vida humana valia pouco mais que nada, a escravatura e o sistema de castas eram regra há séculos, o comércio estava nas mãos  de mercadores estrangeiros e a guerra com os vizinhos (tal como em África e na Amazónia) era o modo de vida aceite e comum. Os indígenas Caribs faziam expedições com milhares de guerreiros às ilhas vizinhas só para capturar e comer outras tribos,  não é razão para lhes roubar a terra mas também mostra que paraísos plácidos e incorruptos existiam era na cabeça das pessoas. É outra que devemos ao Rousseau com o seu delírio do  bom selvagem .

Neste livro , que não recomendo aos “anti descobrimentos” nem a almas sensíveis que se chocam  com grandes feitos de armas e são mais de dar as mãos e cantar o Kumbaya, há uma tabela muito interessante com todos os soberanos do Indostão desde o ano 1001 até 1754. Em 750 anos tiveram 64 soberanos , desses 64, 25 foram assassinados,  vários  pelos próprios filhos. Mais de 1/3 dos soberanos morreu assassinado, aquilo já eram terras de violência extrema e instabilidade quando os portugueses lá chegaram e assim continuaram. Os escravos levados da costa ocidental africana para as Américas eram na sua maioria comprados a outros  indígenas, e quando não a outros indígenas , a árabes que desde há séculos desciam para a África sub sahariana ( ocidental e oriental) nas suas razzias e capturavam e comerciavam gente. Não inventámos nada, a não ser técnicas de navegação e só a extensão dessas, e os feitos marítimos perfeitamente assombrosos, deviam chegar para nos encher de orgulho. Claro que para reconhecer a dimensão de um feito marítimo é preciso compreender alguma coisa sobre navios, navegação e alto mar e para isso os livros não chegam.

Não há que branquear ou escamotear as atrocidades feitas durante a expansão mas por favor nem sequer me tentem convencer com a teoria  que pretende que invadimos um mundo pacífico, ordenado e justo, que fomos nós que levámos a opressão e a guerra e que se os tivéssemos deixado estar  tinha sido melhor para todos.

Não sei quem foi que disse que Portugal deu novos Mundos ao Mundo mas tenho para mim que é verdade, que é o nosso maior legado e contribuição,  termos iniciado a Globalização,  para o bem e para o mal. Quem é contra a globalização e as trocas e contactos entre povos distantes tem que admitir que prefere cada um no seu cantinho, cada raça sua raça sem misturas e  sem comércios. Quem diz que outra globalização é possível  não vive neste mundo e não se lhe pode prestar atenção.

Façam o Museu, não se armem em parvos e chamem-lhe Das Descobertas, façam-no por exemplo na Cordoaria já que é inconcebível que não seja em Lisboa, e encham-no de artefactos, representações  e documentos que mostrem como era a vida cá em 1400, como era a vida no Brasil , África e Índias em 1500, como é que os portugueses lá chegaram, o que é que levaram, construíram e trouxeram   e quais foram as consequências , boas e más,  dessa chegada e presença, para o país, a Europa e o Mundo. Estou seguro de que é possível, assim haja vontade e se excluam da organização os fanáticos dos dois lados, conseguir o equilíbrio necessário entre a visão romântica e a visão dramática, e depois deixem os juízos de valor para cada visitante.

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Termino com mais uma sugestão de leitura sobre o tema, um livro recente chamado “Conquistadores” , que tem a vantagem de ser escrito por um estrangeiro, logo, com um olhar  distanciado e imune às nossa quezílias e posturas internas. Detalha e ilustra bem a aventura extraordinária das Descobertas sem poupar no sangue, horrores e iniquidades mas sem nunca  desvalorizar a bravura,  determinação,  resistência e capacidades quase inacreditáveis daquelas gerações.

PS: vejo hoje que as carcassas da academia desceram das suas torres bafientas para propôr que o museu se chame “Museu da Interculturalidade”. Típico, este pessoal vive no seu universo e nem bate a pestana a propôr para nome do museu uma palavra que uma boa metade  da população não percebe e nem eles próprios conseguem definir sem um subsídio de investigação científica e 72 páginas de elocubrações.

 

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Alabama

A primeira coisa que vem à cabeça de muita gente quando ouve “Alabama” é  a canção dos Lynyrd Skynyrd  que toda a gente conhece, mesmo à das pessoas que se riem ao lembrar-se desse estado.  Não há muitos sítios que definam melhor o Sul dos EUA que o Alabama, e tudo o que sei dele, incluindo algumas passagens (não lhes posso chamar bem  visitas) e conversas com nativos  chega para o considerar o fundo  da nação, talvez dispute o título com o Mississipi, dá ideia que a única salvação do Alabama é  a equipa de futebol universitário, que é dominante a nível nacional, e não se pode tomar o futebol universitário como coisa irrelevante. Quem não gosta ou não segue futebol americano não tem lá nada para admirar, até a costa do Golfo do México está morta e degradada.

A história do Estado conta-se em pouco tempo. Os espanhóis foram os primeiros a passar por lá, no século XVI, vindos das suas deambulações por La Florida, sem fazer grande coisa que ficasse. Nos princípios do século XVIII  Instalaram-se  franceses e  fundaram Mobile, ainda hoje o maior porto do Estado. Quem já lá andava há muito tempo eram os índios, mas a esses nunca ninguém perguntou nada. Em 1800, apenas 20 anos antes de o Estado ser criado viviam no território do Alabama 1250 pessoas.Ou melhor, brancos, porque o resto não contava. No primeiro ano como Estado já lá viviam 127000 e acelerou  o processo inspirado pela teoria do Destino Manifesto que dizia que  Deus os levou àquela terra em reconhecimento da  virtude deles e que podiam fazer como entendessem, desde que de acordo com a Bíblia. Os selvagens, como tal, são para  expulsar e exterminar. Foi rápido, devido à desproporção de forças e ao influxo gigantesco de imigrantes europeus. Irónico, o ressentimento de tantos descendentes desses  imigrantes contra os novos imigrantes.

Depois do massacre e expulsão dos índios, a escravatura. Importaram-se centenas de milhar de africanos ou de pessoas que já não eram africanas por terem nascido na América mas eram tratados como bichos na mesma, e continuou a exploração. Em 1860 rebenta a Guerra Civil,  o Alabama foi dos primeiros a pegar em armas para defender os direitos dos estados , nomeadamente o direito a ter outras pessoas como propriedade. Não havia grande contradição, no Alabama de  hoje 78% da população é Protestante e desses, 49% são Evangélicos. ainda hoje mais de metade das pessoas do Alabama acredita no mundo criado em 6 dias, em  Eva  feita a partir de uma  costela de Adão e  na cobra falante. Tentei saber a proporção exacta de crentes em  Portugal, lamento mas não me apeteceu procurar muito e não encontrei, mas acredito e espero que a percentagem que aceita a Evolução seja muitissimo maior, tal como a dos que  não procuram orientação literal e fixa na Bíblia. No Alabama sempre houve mais pessoas que adoram e estudam a Bíblia literalmente, e sendo assim , encontraram  lá consolo e justificação para terem e maltratarem outras pessoas, especialmente sendo as outras pessoas filhos de Ham, como são biblicamente os africanos. Tem a ver com a história do Noé, pai de Ham, mas não me vou alongar sobre  imbecilidades senão isto nunca mais acaba.

O Sul perdeu a guerra civil mas se lá andarem hoje fartam-se de ver a cada passo muito orgulho nos  derrotados. Os escravos foram libertados mas como está bom de ver não basta uma lei, ainda por cima uma lei que levou a uma guerra, para que as pessoas comecem a olhar para as outras de modo diferente, ou,  vá lá, como pessoas. Os negros sempre tiveram a vida desgraçada no Alabama do pós guerra civil, com uma fracção dos direitos dos brancos e sempre, sempre sujeitos a toda a espécie de discriminações, abusos e violências, a começar pelas do Estado.  É ler “To Kill a Mockingbird”, por exemplo . O romance por excelência de denúncia e alarme contra  os preconceitos e iniquidades causadas pelo  racismo  nos EUA  passa-se  no Alabama. Como redenção na desgraça, mostra-nos que no meio dos animais se pode sempre erguer um Atticus Finch,  que há justos em todos os cantos do Mundo.

A segregação racial, o KKK, o criacionismo nas escolas, durante toda a metade do século passado o Alabama ia ficando para trás enquanto o resto da América evoluía na direcção de reconhecer igualdade de direitos  entre raças, que já chegou em teoria mas ainda não chegou na prática. O Alabama permanecia firme no século XIX, e figura alto numa das minhas histórias preferidas, que li nesta Biografia de África:

Em 1957 Richard  Nixon, então Vice Presidente, foi ao Gana por ocasião da celebração da independência do país. Num cocktail depois das  cerimónias oficiais Nixon aproximou-se de um jovem impecavelmente vestido que ele tomou como  Ganês e perguntou-lhe:

-Então, que tal é ser livre?

-Não faço ideia, senhor. Sou do Alabama.

E nesta base se desenvolveu  o Alabama, que só chegava às notícias por causa da luta dos Direitos Civis. Rosa Parks tornou-se heroína da nação ao recusar-se a ceder o seu lugar a um branco no autocarro, no Alabama. Martin Luther King jr fazia discursos tremendos e marchas de protesto enormes, no Alabama. O KKK incendiava igrejas e enforcava pessoas a meio da noite, no Alabama.

Chegamos a 2017 e o presidente é um indivíduo que não se cansa de dizer que ama o Alabama e os seus valores, o que não surpreende dado que é o mesmo que foi processado pelo Estado nos anos 80 por só aceitar  inquilinos brancos nos seus prédios em NY, que se diz muito cristão apesar de já ir no terceiro casamento escabroso e  não vale a pena começar a tentar listar a podridão do homem senão nunca mais me despacho, ele é a podridão em forma de gente.

O lugar de senador do Alabama vagou e ontem houve eleição especial para o substituir. O candidato democrata era um homem conhecido por ser o procurador que processou membros do KKK pelo assassínio de quatro  meninas quando puseram uma bomba numa igreja , lá no tempo em que a América era Grande . O candidato republicano era um ex juiz chamado Roy Moore, conhecido entre outras coisas por ter sido condenado e demitido pelo Supremo Tribunal por ter mandado instalar no relvado do seu  tribunal uma placa com os 10 Mandamentos. Acredita e diz para quem o quer ouvir que Deus tem que ser  fonte da Lei, como dizem os Ayatolahs, e não aceita ( juiz, atenção) a separação constitucional entre Estado e Igreja sem a qual, concordam todos os lúcidos, não pode existir verdadeira democracia. É  declaradamente contra os direitos dos homossexuais , acha que devia ser ilegal e também  disse que ” eliminar as emendas constitucionais depois da décima eliminava muitos problemas do país”. 

A 13a emenda aboliu a escravatura ; a 14a confere protecção igual a todos os cidadãos; a 15a proibe a negação do direito de voto baseado na raça; a 19a dá o direito de voto às mulheres e a 22a instituiu termos de mandato para os presidentes. Já dá para ter uma ideia razoável do pensamento político deste homem. Apareceu num comício vestido de cowboy, a mostrar uma pistola e tudo, e ontem foi votar  a cavalo.Não percebo de cavalos nem sei montar  mas  achei cómico e toda a gente que percebe de equitação se fartou de rir, porque se o homem alguma vez soube montar, já foi há muitos anos,  fez uma triste figura.

Também de há muitos anos vieram acusações um bocado sórdidas: O juíz Moore, na altura procurador nos seus 30 anos, gostava de miúdas adolescentes, andava atrás delas , “namorava” com elas, algumas de 14 anos. Foi proibido de entrar num centro comercial por andar a importunar as moças. Se é crime não sei, mas mostra uma pessoa um bocado nojenta. Nestes dias se  se fala de nojo na política americana o Trump não anda longe, e claro está, acabou a apelar ao voto no Moore para Senador. Um racista que defende a teocracia e é um alegado abusador de menores. Categoria. Classe. Sentido de Estado.

Deitei-me a pensar na eleição (é estranho mas é verdade, e nem conheço ninguém no Alabama…) e hoje para variar tive boas notícias pela manhã, o Moore perdeu. Os resultados foram 49.9% para 48.4%, margem finíssima mas prevaleceu a decência. Claro que o Trump já veio dizer que sempre soube que o Moore ia perder, confirmando que está sempre ao lado dos seus amigos e apoiantes e que é um homem de convicções. No Alabama que vive no século XXI respirou-se de alívio e ganhou-se alento, em Washington consta que agora só falta aprovar o novo regime fiscal, feito isso os oligarcas já têm o que querem e já podem deixar cair o presidente, esse palhaço que é uma vergonha para a América. E que tem 55% de apoio no Alabama.

 

 

 

 

 

Belmiro e a Escravatura

A escravatura era o tema escolhido para o post e comecei a escrevê-lo motivado pelas notícias de que hoje em dia na Líbia se pode comprar uma pessoa por cerca de €400. Entretanto morreu o Belmiro de Azevedo, comecei a ler e ouvir as reacções, todas mais do que previsíveis, e lembrei-me de uma das coisas mais parvas que se dizem constantemente: esta vida (por exemplo a de um empregado por conta de outrem a ganhar o salário mínimo) é uma escravatura, somos todos escravos do sistema/capitalismo .

Primeiro o Belmiro. Bastou-lhe ter sido empresário, criado riqueza, revolucionado indústrias e ter sido patrão de milhares para ser detestado pelas esquerdas mais esquerdas. No mundo em que essas pessoas gostavam de viver ninguém podia possuir mais do que X, ninguém trabalhava sem ser sob direcção do Estado, ninguém fazia concorrência  a nada, ninguém na hora da morte podia deixar o fruto do seu trabalho aos descendentes. Felizmente esse mundo sempre foi  rejeitado e continua a ser, excepto onde o modelo é mantido à força, a única maneira de instalar e manter. Um individuo  no twitter  listou  os talhos e mercearias que fecharam por causa da chegada da grande distribuição, presume-se que preferia o modelo antigo e que ainda faça as suas compras dessa maneira. Não conheço nenhum sítio onde não haja ainda pequenas lojas, não tantas como havia mas ainda há, pelo que os consumidores têm  escolha. Surpreendentemente, escolhem um sítio mais acessível, com mais variedade e invariavelmente mais barato, é estranho.

Depois, este explorador ganancioso e sem coração torrou milhões para dotar o país de mais um jornal diário, no critério editorial do qual  nunca quis ter uma  palavra a dizer. Se não fossem directores passados e presentes a assegurá-lo bastaria  ler o Público para perceber que se a intenção do Belmiro com o jornal fosse guiar a opinião pública para o lado direito a coisa estava-lhe  a correr muito mal desde o princípio. Os políticos passam horas a tentar, com maior ou menor grau de sucesso, influenciar o que se publica nos jornais. Este era dono do jornal e nunca ligou para lá, mas nem isso moveu o Bloco, principal beneficiário do Público, a apoiar um voto de pesar, ao menos pela contribuição para a pluralidade da imprensa.

Outro motivador do escárnio e desprezo pelo homem é a sempre presente inveja, até de um tipo que não nasceu em berço de ouro, pegava ao serviço todos os dias às 8, subiu a pulso e  construiu um império. Os verdadeiros heróis, aqueles que são louvados pela Assembleia da República, são os que nunca criam nem produzem a ponta de um corno, nunca pagam um salário com o próprio dinheiro, nunca são responsabilizados financeiramente pela sua prestação, votam o tamanho do próprio salário e privilégios    e levam uma vida de retórica e teoria, feita de lutar por poder, manter o poder, estender influência e combater os de pensamento oposto . São esses os bons da História.

Em 1997 deixei a universidade, queria fazer outras coisas e precisava de dinheiro. Fui trabalhar para o Modelo como repositor de mercearias. Quem se lembra desses tempos sabe bem que não havia assim muitos empregos para jovens sem formação superior em que fosse só chegar e começar a trabalhar. Os talhos e mercearias de que o outro lamenta a sorte era negócios familiares por definição, que não cresciam nem empregavam. Recebia o ordenado mínimo, subsídio de turno e todas as demais contribuições previstas pela lei. Essa oportunidade que tive de avançar na vida não foi o Estado que ma deu, não foi o pequeno comércio e muito menos algum Gabinete de Observação da Interação Social da Osga Mediterrânica, o género de organismo estatal que hoje prolifera e emprega boa parte da juventude saída das universidades, com ou sem conclusão do currículo é irrelevante, se se tiverem os padrinhos certos e o cartão de militante apropriado para a época. A oportunidade devo-a ao  Belmiro de Azevedo e à sua importação  de um novo modelo de distribuição e serviços. A minha passagem por lá não foi muito longa mas sempre me foi explicado e demonstrado que podia ter ali uma carreira. As carpideiras do salário mínimo ignoram, ou preferem ignorar, que um repositor de mercearias motivado, dinâmico e interessado pode progredir, se eu tivesse queda e vontade para aquilo hoje podia ser director de um Modelo, formado na casa. Claro, não há progressões automáticas de carreira , conceito idiota que só podia existir mesmo no Estado, mas há oportunidade de subir na vida. Há é que trabalhar um bocado.

Irrita-me que se fale de escravatura relacionada com emprego de baixo salário por duas razões, a primeira é que a definição de escravatura está à disposição no dicionário , tal como também está a definição de quem usa conscientemente uma palavra errada para descrever uma realidade. A segunda razão é que existem milhões de escravos verdadeiros hoje em dia, pelo que dizer que alguém que tem um emprego em que ganha pouco é um escravo é uma falta de respeito.

A Líbia tornou-se um estado falhado e agora o passado é irrelevante, a culpa da situação é do Ocidente, nomeadamente do Clinton e do Sarkozy que promoveram a queda do Kadafi. Note-se que o Kadafi não tem culpa nenhuma da situação do país que governou com mão de ferro durante 42 anos, culpado do que se lá passa é de quem o derrubou, que presumivelmente devia ter continuado a tolerar autocracia e tudo o que vem com ela. O facto de os próprios líbios se terem revoltado em massa nunca diz nada aos defensores dessa visão, para os quais meia dúzia de operacionais da CIA com umas malas de dinheiro conseguem levar um povo à revolta, mesmo que se viva  bem no país. O sistema é bom, funciona , as pessoas estão contentes com a vida e as perspectivas de futuro, chegam duas agências governamentais estrangeiras, incendeiam uma nação e rebenta uma guerra civil. Fico sempre fascinado com este raciocínio.

Isto não quer dizer que as potências ocidentais sejam inocentes ou que as suas motivações sejam nobres, alguém que acredite em motivações nobres da parte de algum Estado ou seus representantes deve procurar outro tema para estudar. O que quero dizer é que o facto de haver hoje em dia escravatura na Líbia é apenas o ressurgir de uma pratica cultural  ancestral que apenas tinha sido reprimida. É o relembrar da relação que sempre houve entre os povos árabes do Norte de África e os povos negros do Sul do Saara. Se o Ocidente tem culpa no que se passa lá hoje é a culpa de não ter mantido no lugar um sistema que reprime esses instintos e práticas.

Creio que se vai construir em Lisboa um monumento aos escravos do Império, e eu acho bem, para que se preserve a memória e a noção de que o Portugal ultramarino construi-se muito em cima disso, para que se continue a abandonar  a ideia romantizada do  navegador e colono benévolo, para que se lembre que Portugal foi o país que mais escravos transportou para as Américas. É saudável lembrar isso, não se pode nem deve polir a História.

Em 2008 levei um barco para Mystic , no Connecticut , terra que é inteira um museu marítimo . Como a História que me interessa mais é a naval, conhecia bem os navios negreiros e foi por eles e as suas histórias que o horror indescritível da escravatura me bateu pela primeira vez. Quando a Marinha Real Inglesa começou a caçar os negreiros no Atlântico sabiam que estava um por perto porque se houvesse um negreiro vinte milhas a barlavento eles cheiravam-no , muito antes de o verem. Os navios negreiros, especialmente depois de os Ingleses terem banido o tráfico, eram construídos para  um equilíbrio entre velocidade, capacidade de carga e manobrabilidade, e isso fez  deles dos veleiros mais extraordinários de sempre.

Em Mystic corri tudo à procura de um, em modelo, em planos, em filmes. Nada , o Museu é a cidade inteira, em terra e no mar, e não encontrei uma só referência ao tráfico de escravos na terra que construiu a esmagadora maioria dos barcos usados pelos americanos nesse tráfico. Desde essa visita os EUA tiveram um presidente negro e fizeram um esforço maior por enfrentar a sua História (hoje  a ser paulatinamente desfeito) pelo que talvez já se fale de negreiros em Mystic, mas o que me ficou da visita foi essa vontade de varrer o Mal para debaixo do tapete, coisa que entre muitas outras permite que hoje um tipo que tem um salário baixo e uma vida vazia se considere um escravo.

No debate nacional sobre a escravatura vejo que  para muita gente escravatura é o tráfico atlântico de escravos africanos pelos europeus. Isso é uma visão redutora  e quando vemos em 2017 pessoas a serem vendidas vale a pena lembrar alguns factos que me parece não são suficientemente lembrados:

  • A escravatura existe no Mundo desde que duas sociedades ou grupos diferentes se encontraram e guerrearam.
  • A escravatura está não só prevista como justificada e autorizada no Antigo Testamento e foi a base de algumas das maiores realizações da História, desde a Democracia Ateniense ao Império Romano.
  • Cristo foi crucificado e considerado um inimigo simplesmente por defender que todos os homens eram iguais, logo, pondo em risco a escravatura que era a base de quase  todas as sociedades da época. O que a “sua igreja” tolerou, aprovou e promoveu depois da sua morte no que diz respeito à escravatura fala pelas intenções e motivações reais da mesma.
  • Dado que igreja de Cristo não foi capaz de cumprir a sua mais básica função, fazer com que os homens se amassem uns aos outros  em 1800 anos, coube a argumentos racionais e a homens políticos como Wilberforce ou Lincoln guerrearem contra o flagelo. O clero não liderou nada, alguns clérigos mais humanos participaram nos movimentos anti esclavagistas mas das altas hierarquias, nada.
  • No tráfico Atlântico a maior parte dos escravos embarcados para as Américas eram vendidos aos traficantes europeus quer por árabes que só se dedicavam à “caça” quer por outros africanos.
  • Além destas imagens aterradoras que chegam da Líbia é sabido há muito que nas monarquias árabes do Golfo sempre houve e continua a haver escravos.

Isto tudo para dizer que a verdadeira escravatura  é um fenómeno  muito maior, muito mais enraizado e muito mais actual, que é um insulto grave descrever salários baixos como escravatura e que se há culturas e sociedades que a desprezam há mais de um século, como a nossa, há outras nas quais ainda se tolera e pratica. É a essas que temos que criticar e denunciar, não é a nossa que já fez o que tinha a fazer:  banir e tornar a prática abominável e inaceitável.  Agora resta-nos erguer o tal monumento, explicar às crianças o que é a escravatura mas sem lhes mentir nem fazer passar outra coisa por escravatura, explicar-lhes  o que a nossa nação fez no passado  e perseguir e castigar os que o fazem hoje em dia.

Qualquer homem que crie oportunidades para que pessoas possam ter uma opção para ganhar a sua vida está a fazer precisamente o contrário de um esclavagista: está a proporcionar Liberdade às pessoas. Da minha parte, obrigado Belmiro de Azevedo, houvesse mais como ele.

Bertrand Russel e o Comunismo

Cá deixo a versão portuguesa deste pequeno texto do Bertrand Russel sobre o comunismo. Duas notas prévias, isto não é um texto magistral do calibre habitual de Russel nem foi escrito como manifesto, é só uma pequena dissertação incluída num livro de ensaios de âmbito mais alargado. A segunda , foi escrito em 1956 , muito antes da invasão da Checoslováquia e das obras de Soljenitsin , para citar dois pontos que serviram para explicar aos lúcidos a realidade do sistema soviético e da teoria subjacente. 12 anos antes dos tanques russos entrarem em Praga e mostrarem ao mundo a fraternidade soviética já Russel percebia bem o que estava em causa.

“Em  relação a qualquer doutrina política há que pôr duas questões: 1) os princípios teóricos são válidos? 2) É provável que a  sua prática política leve a um aumento da felicidade humana? Pela minha parte, creio que os princípios teóricos do comunismo são falsos e penso que as suas práticas  são de modo a produzir um incomensurável aumento da miséria humana.

As doutrinas teóricas do comunismo derivam de Marx, na sua maior parte. As minhas objecções a Marx são duas : é confuso e o seu pensamento é quase inteiramente inspirado pelo ódio.

Chega-se à  doutrina das mais valias, que supostamente demonstra  a exploração dos assalariados no capitalismo, de duas maneiras : a) aceitando sub-repticiamente a doutrina da população de Malthus, que Marx e todos os seus discípulos repudiam explicitamente; b) aplicando a teoria de Ricardo ao valor dos salários mas não aos preços dos artigos manufacturados.

Marx ficou completamente satisfeito com o resultado, não pela concordância com os factos ou pela coerência lógica mas porque é calculado para  provocar fúria nos assalariados. A sua doutrina de que todos os eventos históricos foram motivados pela luta de classes é uma imprudente e falsa extensão à história universal de certos eventos proeminentes em França e Inglaterra há cem anos. A sua crença de que existe uma força cósmica chamada Materialismo Dialéctico que governa a história humana independentemente   das vontades humanas é mera mitologia.

Apesar disso os seus erros teóricos não teriam tido muita importância excepto pelo facto de, tal como Tertuliano ou Carlyle, o seu principal desejo era ver os seus inimigos castigados, e importava-se pouco com o que acontecia aos seus amigos no processo.

 A doutrina de  Marx era suficientemente má, mas os desenvolvimentos por que passou com Lenin e Stalin tornaram-na muito pior. Marx tinha ensinado que haveria um período revolucionário de transição a seguir à vitória do proletariado numa guerra civil e que durante esse período o proletariado, de acordo com a prática usual depois de uma guerra civil , iria privar de poder político os seus inimigos vencidos. Esse período seria a ditadura do proletariado. Não devia ser esquecido que na visão profética de Marx a vitória do proletariado chegaria depois de este ter crescido até ser a vasta maioria da população.

Desse modo a ditadura do proletariado concebida por Marx não era essencialmente anti democrática. Na Rússia de 1917, porém, o proletariado era uma percentagem pequena da população, sendo a grande maioria camponeses. Foi decretado que o partido Bolchevique era a parte do proletariado com consciência de classe e que um pequeno comité de líderes era a parte do partido bolchevique com consciência de classe. A ditadura do proletariado tornou-se deste modo na ditadura de um pequeno comité e por fim de um só homem , Estaline.

Como o único proletário com consciência de classe, Estaline condenou milhões de camponeses a morrer de fome e milhões de outros ao trabalho forçado em campos de concentração.Chegou ao ponto de decretar que as leis da hereditariedade seriam   doravante diferentes do que tinham sido até ali e que até os genes devem obedecer a decretos dos soviéticos em vez dos de Mendel, esse padre reaccionário. Não consigo de modo nenhum perceber como  é possível que algumas pessoas que são simultaneamente humanas e inteligentes tenham conseguido encontrar alguma coisa de admirável nos vastos campos de escravos produzidos por Estaline.

Sempre discordei de Marx. A minha primeira crítica hostil foi publicada em 1896, mas as minhas objecções ao comunismo moderno são mais profundas que as minhas objecções a Marx.É o abandono da democracia que  acho particularmente desastroso Uma minoria apoiando o seu poder nas actividades de uma polícia secreta será sempre cruel, opressiva e obscurantista. Os perigos do poder irresponsável foram geralmente reconhecidos durante os séculos XVIII e XIX  mas os que esqueceram tudo o que foi dolorosamente aprendido nos dias da monarquia absoluta voltaram ao pior da idade média sob a curiosa ilusão que estavam na vanguarda do progresso.

Há sinais de que com o passar do tempo o regime russo se tornará mais liberal. Apesar de isto ser possível é muito longe de ser garantido.Entretanto, todos os que prezam não só a arte e a ciência mas uma suficiência de pão e liberdade do medo de que uma palavra descuidada da sua criança ao professor possa condená-los a trabalhos forçados na remota Sibéria, devem fazer o que estiver ao seu alcance para preservar nos seus países um modo de vida mais próspero e menos servil.

Existe quem, oprimido pelos males do comunismo, seja levado a concluir  que o único modo de combater esses males é  uma guerra mundial.Considero isso um erro.A dada altura tal política poderia ter sido possível mas agora a guerra tornou-se tão terrível e o comunismo tão poderoso que ninguém pode dizer o que restaria de uma guerra mundial e seja o que for que restasse seria provavelmente tão mau como o comunismo dos dias de hoje. Esta previsão não depende dos efeitos inevitáveis da destruição em massa por meio de bombas de hidrogénio e talvez de epidemias engenhosamente propagadas. O modo de combater o comunismo não é a guerra. O que é necessário em complemento dos armamentos que vão dissuadir os comunistas de atacar o Ocidente é uma diminuição dos motivos para descontentamento nas partes menos prósperas do mundo não comunista.

Na maiorias dos países da Ásia existe uma pobreza abjecta que o Ocidente deve aliviar na medida em que está ao seu alcance. Existe igualmente uma grande amargura causada por séculos de domínio Europeu insolente na Asia. Deve lidar-se com isto com uma combinação de tacto paciente com anúncios dramáticos renunciando às relíquias de domínio branco que sobrevivem na Asia.  O comunismo é uma doutrina criada a partir da pobreza , ódio e conflito. A sua disseminação só pode ser parada diminuindo a área de pobreza e ódio.

Este gráfico mostra a evolução da pobreza absoluta no mundo desde 1820. É notório que a tendência era já de queda quando o Marx avisava que só o socialismo nos podia salvar e que continuou e continua a  cair . Os comunistas que me façam um desenho a explicar como é possível que esta evolução coincida com a expansão e consolidação do capitalismo global, que era suposto só trazer miséria às massas. Feliz centenário.

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Outras Independências

A Catalunha continua ao rubro, os cabecilhas da conspiração (ou líderes patrióticos, consoante o ponto de vista), fogem para a Bélgica,  os que têm coragem  regressam e vão dentro. Por cá confundem-se presos políticos com políticos presos e o número de especialistas em Direito Constitucional espanhol explodiu. Eu não sei se a prisão deles é legal e justificada ou não mas, como sou contra este processo,  gostei de ver. Esta foto mostra o projecto de líder a exibir orgulhosamente 5 notificações judiciais  consecutivas pelo seu continuado incumprimento da lei. Agora já não tem tanta pressa nem orgulho no facto e fica com a defesa um bocado fragilizada:  “Eu sabia bem que estava a quebrar a lei mas nunca pensei que levassem isto tão a sério a ponto de a querer aplicar!”.

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De qualquer maneira, posso ter-me rido por ver a demagogia ir de cana mas prender (não este, que não tem tomates,  os outros todos)   parece-me  contra producente,  não acalma ninguém nem resolve nada, antes pelo contrário. É dar argumentos aos adversários de mão beijada, mesmo que o peso todo da lei esteja do lado do estado central, prender opositores serve mais a oposição do que outra coisa, a menos que estejamos a falar de um sítio como a Rússia ou a Venezuela, em que é uma técnica normal e, a julgar ela durabilidade dos regimes,  bastante eficaz. De um país como  Espanha esperava-se outra coisa, mas  os espanhóis nunca foram conhecidos por serem macios.

Vale a pena nesta altura lembrar duas outras tentativas relativamente recentes de independência, uma falhou, a outra teve sucesso.

A primeira foi a da Escócia, em 2014. Ora a Escócia é um país  há muito tempo,  faz parte de um Reino Unido em conjunto com a Inglaterra, Gales e a Irlanda do Norte e desde sempre que muitos escoceses contestam essa união e pedem o regresso a uma Escócia independente, só aí já têm um caso muito mais forte que os catalães, querem voltar  a ser uma nação. A chachada histórica que foi o filme Braveheart fez crescer exponencialmente a simpatia pela causa independentista, desde  1934 que existe um partido independentista, que foi concorrendo a eleições, espalhando a sua mensagem e o seu programa até que ganhou maioria na Escócia autónoma e finalmente a questão chegou a referendo.

Se há povo pouco revolucionário é o britânico,  é uma das coisas que eu admiro neles, directamente relacionada com a fleuma,  qualidade que aprecio muito. Ao longo de uns mil anos de História tiveram uma revolução, em 1688, que estabeleceu a monarquia constitucional. Há quem diga que nem essa devia ser chamada “revolução”, foi mais o culminar de um processo longo de afirmação do poder do Parlamento que até passou por uma guerra civil e uma república que durou dez anos.

O Reino Unido não tem uma constituição escrita como a maior parte dos países mas tem um corpo de leis e jurisprudência de séculos que explica e regula o modo como o Reino é Unido. Perante a agitação dos escoceses, os políticos britânicos fizeram o que fazem os políticos sofisticados e inteligentes, sentaram-se a negociar o modo como se podiam responder às aspirações de um grupo crescente de cidadãos. Duvido que houvesse na lei britânica provisão para uma secessão de um dos países que compõem o Reino Unido, mas num processo que devia ser exemplar houve anos de negociação e organizou-se um referendo em 2014.

84% dos escoceses votaram, eliminando logo aí dúvidas quanto à validade do resultado,  55,3% dos votantes disseram que a Escócia estava bem assim, 44,7% queriam um estado soberano, ficou assim. O referendo, por não ter sido organizado à margem da lei, foi livre , aberto, precedido de uma campanha de informação (e propaganda) de ambos os lados e resolveu a questão do separatismo escocês (até chegar o brexit, mas isso já é outra questão) . Hoje em dia a própria líder do Partido Nacional Escocês afasta novas tentativas de referendo e secessão, muito porque há consciência clara de que as pessoas iam ficar mais pobres  e a economia ia sofrer, e porque ainda há políticos que acreditam que a sua principal tarefa é melhorar a vida real e o dia a dia das pessoas e não fornecer-lhes  ilusões, panaceias e banha da cobra.

Não houve motins, não houve prisões, não houve debandada de empresas nem fugas de políticos, mais uma vez os britânicos mostraram ao mundo como funciona uma democracia moderna e se agora vai para lá uma salganhada medonha por causa do brexit devem-na pura e simplesmente ao populismo e ao calculismo pessoal de alguns políticos, as mesmas causas dos problemas na Catalunha.

No outro extremo da escala política e social temos o Sudão do Sul, nação  independente desde 2011 por secessão do Sudão , país que apesar de não conhecer pessoalmente tenho como sendo o fim do mundo. Passei quase uma semana no Mar Vermelho a navegar ao largo do Sudão e da Eritreia, do outro lado é a Arábia Saudita e tirando um furacão no Atlântico não me lembro de ter tanto medo no mar, só de pensar que se tivesse que arribar a um porto seria  um porto no Sudão arrefecia-me o sangue.

Algumas pessoas se calhar ainda se lembram do Darfur, até se fez  uma cançoneta pop que teve muito sucesso e  ajudou a chamar a atenção para causa. Andava toda a gente angustiada com  o genocídio das tribos negras do sul pelos árabes do norte e a atenção que isto trouxe à região encorajou os separatistas do Sul, a atenção internacional pelo genocídio e o facto de uns 75% do petróleo do Sudão estarem no Sul.

Como estes independentistas lutavam contra um regime liderado por um gajo que até tem mandato de captura pelo Tribunal de Haia, o ocidente, na ânsia de ser bonzinho e certamente também com um olho no petróleo, apoiou o separatismo do Sudão do Sul. Intensificou-se a guerra e declarou-se a independência. Lembro-me perfeitamente de ler um artigo na National Geographic, cheio de fotos lindas a leonizar o chefe dos independentistas e cheio de perspectivas melosas e optimistas para a nova nação e lembro-me  de pensar : estes não aprenderam rigorosamente nada em cinquenta anos de independências africanas.

O período de atenção da imprensa e, por conseguinte, da opinião pública, mede-se em dias e como o mundo apresenta constantemente dezenas de pontos de fome,  peste, guerra e cataclismos vários, hoje já ninguém quer saber daquilo para nada.  Continua a guerra e a miséria no Darfur , que curiosamente continua parte do Sudão depois de ter sido o caso que mais contribuiu para a criação do Sudão do Sul.

E que tal vai a jovem nação do Sudão do Sul, 6 anos depois da independência? Vai como seria de esperar, guerra civil, miséria, corrupção e  ódio tribal A guerra civil demorou só dois anos a rebentar  e os sudaneses do sul são tão ou mais miseráveis do que eram como simples sudaneses. Eu não passo de um curioso destas coisas,  que lê uns livros e acompanha umas notícias e espanta-me a sério como é que a generalidade dos políticos e especialistas  envolvidos nas organizações internacionais não viu tal como eu que a coisa nunca ia resultar. A ONU deve ter uma percentagem enorme de funcionários e oficiais que ou são muito ingénuos ou são estúpidos ou são completamente cínicos e andaram lá a ajudar a organizar uma independência que sabiam ia correr assim.

Falo destes dois casos não para dizer que nenhum territorio deve ser independente mas sim que têm que ser observadas um número de condições antes de se falar nisso. Na Escócia havia condições, havia processo, cumpriu-se a vontade das pessoas. No Sudão não havia condições nem processo e  cumpriu-se a vontade dos poderes de facto. Na Catalunha há condições mas não se criou nem respeitou um processo, agora tenta-se cumprir a vontade de uma minoria mas já está tudo tão inquinado que não acredito que haja salvação, entendendo como salvação um compromisso que garantisse antes de mais a paz e tranquilidade na Catalunha e depois o tal processo, desta vez um a sério liderado por gente séria , para  perceber e medir  com legalidade as intenções dos catalães e agir de acordo.

Como se não houvesse já bastantes detalhes patéticos nesta história, hoje a Venezuela veio exigir à Espanha respeito pelas liberdades e libertação dos presos políticos.  Passei quinze minutos a tentar encontrar uma frase para rematar isto mas não consigo.

Populismos

Continua a farsa na Catalunha, agora completa com um golpe de teatro e a fuga de Puigdemont para a Bélgica, para não ser preso e julgado. Depois destes meses em que os estrangeiros que não conheciam a figura puderam ver o seu nível, ideias e estatura, finalmente pode aquilatar-se também a sua coragem e confiança na causa pela qual mergulhou a Catalunha na confusão e divisão: não existem.

Um verdadeiro aspirante a estadista, por oposição a um cacique regional atingido por um ataque de megalomania, teria exposto a sua ideia e  o seu caminho e tinha-o percorrido até ao fim, se o fim fosse uma cela, seria uma cela, como testemunho da luta contra injustiça e opressão do Estado espanhol. Um gajo do calibre do Puigdemont agita, mente, troca-se todo, confunde, hesita  e por fim foge com medo das consequências dos seus actos. Mais ou menos por esta altura os apoiantes locais da independência catalã já estão a renegar o homem e a separar calmamente uma boa ideia de uma  má execução, dispositivo que justifica ideias de merda desde a aurora dos tempos, mais famosamente o comunismo, que até hoje, e já estou convencido de que até sempre, vai ter gente a defendê-lo com essa tese : a ideia é boa, a execução é que foi má. Ah, percebo, é muito possível, é pena é que só se aplique a causas tradicionalmente de esquerda por não tenho memória de ouvir uma alminha que seja a dizer por exemplo “o fascismo até tinha aspectos positivos, infelizmente foi implementado por gente má”. Não, o fascismo é inapelavelmente mau mas o comunismo tem nuances e eu que gosto tanto de uns como de outros fico com vontade de os mandar todos….nem sei.

O Público descobriu símbolos fascistas numa manifestação pela unidade de Espanha, e fez disso notícia. Pois é, símbolos fascistas, que vergonha, já foices e martelos vêm-se regularmente em tudo o que seja manifestação, mas isso já não é notícia, é normal, é saudável, é positivo que em 2017 tenhamos que levar diariamente com o branqueamento e normalização do comunismo, fico doente. Entretanto o mesmo jornal , sobre a vitória eleitoral de um candidato de direita na Austria diz que os populismos estão aí , é um artigo escrito por uma jornalista que até ganhou um prémio por um trabalho na Grécia em 2011 mas que não encontrou lá nenhum populista, só encontrou esperança, e  nem aqui ao lado o Podemos lhe cheira a populismo, é evidente que para esta senhora populismo só existe à direita.

Vi este videozinho sobre a História da Catalunha , partilhado por uma daquelas pessoas que simpatiza com o independentismo porque o governo central é de direita e cuja opinião mudaria imediatamente se em Madrid mandassem socialistas e na Catalunha fosse a direita a querer independência.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fxavier.basoko%2Fvideos%2F10215022689947829%2F&show_text=0&width=560

 Está muito interessante mas não consegui ver nele um único argumento ou justificação para um estado Catalão independente.Não sei se estas pessoas acham que basta contar a História de uma terra para lhe conferir  automaticamente direito à independência ou se acham que devemos voltar atrás e rever todas as decisões históricas criadas por força das armas, negando-lhes as consequências e a validade. “Se foi à bruta, não vale”, ora aí está um bom princípio para repensar a História e as fronteiras da Europa.

Na guerra de Sucessão Espanhola os catalães decidiram apoiar o candidato ao trono que acabou por perder , Barcelona foi ocupada em 1714 e sofreu as consequências de ter lutado pelo lado que perdeu. Lutaram, perderam, acabou. Séculos mais tarde, na Guerra Civil espanhola mais uma vez alguns catalães decidiram lutar contra o Estado central.cMais uma vez perderam, mais uma vez se afirmou que a Catalunha é uma região de Espanha sem apelo nem agravo, e depois da autonomia conquistada e votada, depois de a Espanha se ter tornado uma democracia moderna, um Estado feito de muitas regiões, em que os cidadãos têm as mesmas liberdades e garantias que os das outras regiões,  pensava-se que a questão estava finalmente resolvida mas enquanto houver revolucionários por vocação, enquanto houver políticos ambiciosos e sem escrúpulos, enquanto houver pontos de fricção para semear a discórdia, enquanto houver intelectuais prontos a teorizar e enquadrar qualquer  “revolução” , nenhum assunto está encerrado.

Os comunistas e seus sucedâneos falam em primeiro lugar no sagrado direito à auto determinação dos povos  (com a URSS funcionava muito bem, essa autodeterminação dos povos) e já vi as comparações mais absurdas possível, por exemplo perguntarem-me se eu também era contra a independência de Timor Leste. É uma comparação estúpida mas estou habituado, tal como não me espanta ver lembrado que “em 1640 éramos nós”, como se o Hegel tivesse mesmo razão e a História caminhasse ao longo de uma linha  com um sentido claro e inevitável que faz com que haja um estado natural para uma terra ou região, e esse estado natural seja  uma entidade independente.

Enquanto não me mostrarem sinais claros de opressão, de discriminação e de injustiças sofridas por cidadãos por serem catalães; enquanto não me mostrarem em que é que uma Catalunha independente diferiria para melhor de uma Catalunha região de Espanha; enquanto não me apontarem o que é que os Catalães ganhavam com a independência além de orgulho que nunca pagou contas a ninguém, e mais importante que tudo, enquanto não provarem que há uma maioria do povo catalão a querer independência, não acredito no mérito da causa.

Uma notícia bastante reveladora dos processos morais de boa parte destes independentistas: Os 33 deputados dos partidos independentistas catalães não renunciaram aos seus lugares em Madrid aquando da declaração de independência, mostrando bem que há ligações que se podem quebrar mais facilmente que outras e que é mais fácil pedir aos outros que renunciem a certos privilégios do que renunciar aos nossos. Cambada de hipócritas interesseiros que passa  a vida a fulminar Madrid mas largar o seu lugarzinho e mordomias, tá quieto.

Tal como o líder independentista se queixou  de que a acção do governo central era  contra a constituição depois de renegar a mesma constituição, estes senhores exigem um país para si mas  querem ser deputados noutro país, ter voto na matéria em decisões do país que querem abandonar. Parece-me bem.

Tenho alguma pena dos milhões de catalães que estavam satisfeitos com a sua condição de catalães, espanhóis e europeus e que sabiam que os seus problemas não se resolvem com uma mudança de regime e estado político. Que estão a ver o seu país revirado por ideólogos e demagogos  , vizinho contra vizinho, e que agora encaram meses largos de convulsões políticas, consequências económicas negativas e agitação em geral, e vão sair disto mais pobres ( ou menos ricos) do que eram, acabe como acabar.

Para que não se fique a pensar que o facto de sermos uma nação com 900 anos em que toda a gente fala a mesma língua e tem  a mesma religião nos torna imunes a este género de delírios, aqui fica a página do Movimento pela Independência do Algarve , que tem no facebook 260 seguidores e em 2011 anunciava  a criação do seu braço armado. Tivémos sorte,  a Brigada Medronho não fez atentados em defesa da autodeterminaçao da Nação Algarvia mas ainda vai a tempo. O ridículo não mata e isso às vezes é pena.

Uma espécie de independênciazinha

Depois do drama, da encenação, das hipérboles e das declarações apaixonadas, o chefe dos independentistas da Catalunha falou ao povo que se concentrava na  praça e o via na TV,  centenas de milhar de pobres escravos de Espanha, cansados de séculos de opressão e miséria, aguardavam a esperada e histórica declaração de libertação. Acreditavam  que a sua vida melhoraria mesmo se em vez de viverem na Catalunha, região autónoma de Espanha, passassem a viver  na República da Catalunha. Puigdemont compôs a franja e disse  que declara  a independência… mas fica suspensa. Ou seja , não há independência nenhuma.                      DLzGf8OXcAAcaQ-

Como começou a ver a vida a andar para trás, como se tornou aparente que milhões de catalães estavam contra a ideia, que ninguém na Europa se oferecia para mediar a questão quanto mais reconhecer um estado catalão, que as empresas debandavam e os particulares começavam a levar as suas poupanças para outro lado, que a Fitch avisou  que o rating de Barcelona caía logo com a independência, e assim sucessivamente… teve que se vergar à realidade. Todos os inconvenientes e problemas óbvios que os independentistas nunca discutiam ficaram de repente muito mais próximos e evidentes, e o sr Puigdemont pedalou para trás na melhor tradição dos demagogos quando as suas mentiras são expostas. Junta-se assim ao grupo liderado pelo Tsipras, grupo de políticos que agitam as paixões da população com ideias fortes, amanhãs que cantam  e promessas de toda a ordem para na hora H baquearem e dizerem “afinal as coisas não podem ser bem como eu vos tinha dito”, por mil outras palavras. Outro mestre da demagogia é o Pablo Iglésias, que depois de meses a agitar sem papas na língua não só pelo confronto da Catalunha com o estado central mas pela  independência real  já veio elogiar o Puigdemont pela sua sensatez. Pela sensatez que demonstrou em não fazer o que o Iglésias defendia. Na mesma declaração e mostrando bem o grau de alucinação que vai na sua vida, comparou a Espanha à Turquia. É surreal.

Fiquei satisfeito pelo que na prática é a suspensão da declaração de independencia  porque como escrevi aí atrás temia que a loucura prosseguisse a fundo, que o Puigdemont fosse de palavra e coragem e declarasse mesmo que nascia ali a República da Catalunha, e seguia-se senão o caos algo parecido.

Não tenho conhecimento de mais nenhuma declaração de independência de validade diferida, de alguma ocasião em algum  país em que um dirigente ou movimento tenha feito uma algazarra e espalhafato épico para depois subir ao palanque e dizer “Vencemos! Havemos de ser independentes, um dia mais tarde e consoante decorrer o diálogo com todas as partes!!!”  Absolutamente ridículo.  Explica  Nuno Rogeiro:

O artigo 4º, n.4, da Lei 202-00065/11, dita do referendo, aprovada pelo parlamento catalão em sessão conturbada de 6 de Setembro deste ano, diz que o mesmo hemiciclo precisa de declarar a independência, concretizar os seus efeitos e iniciar o processo constituinte, 48 horas depois da publicação dos resultados da mesma consulta, se estes resultarem em mais votos «sim» do que «não».

A suspensão deste processo não tem cabimento legal, face à norma referida.

Ou seja: viola-se não só a Constituição espanhola, mas a lei do estado a ser.

Daí a desilusão dos que queriam «independência já». E o ceticismo dos que querem uma «negociação», mas sem saber qual.

Não aplaudo  a conduta do estado espanhol nesta história, podiam ter levado as coisas sem usar a força, mas tirei-lhes o chapéu e ri-me bastante quando o Rajoy perguntou ao governo catalão se afinal tinham declarado independência ou não .

É que há leis, leis que não ficam obsoletas só porque mudam os governantes, leis que não são  imutáveis mas que obedecem a preceitos para serem alteradas, e  se não acreditamos nisto mais vale dizer que o melhor é tudo ao molho e fé em deus, venha a lei do mais forte, das maiores manifestações, de quem tem maiores audiências, de quem fala mais alto.

A minha aposta é que depois deste festival vai tudo ficar na mesma por muitos e bons anos. Ficam também a animosidade e divisões criadas pelos independentistas, que certamente não vão desistir, e o prejuízo económico para a região.

O meu voto é que os dirigentes catalães se concentrem mais em fazer a sua terra funcionar melhor e em melhorar a vida dos habitantes, coisas que se podem bem fazer sem mudar o regime político nem precisam de um estado independente.

 

PS: Finalmente há acusação ao Sócrates, um documento com 4000 páginas! Eu e mais uns milhões bons de portugueses estamos plenamente convencidos de que o homem é um corrupto  que enriqueceu ilegalmente  à conta do cargo, e para isso não é preciso ler as 4 mil páginas, é uma opinião baseada no antigo adágio, quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem. 

Que ainda haja quem defenda o homem, que apresenta 24 milhões de euros numa conta da Suíça depois de uma passagem por S.Bento onde ganhava uns 5 mil por mês, ou 10 que fossem,  é das coisas mais extraordinárias que já vi. Que haja que seja capaz de dizer que uma acusação formal de 31 (!) crimes é uma cabala é extraordinário. Que haja advogados a defendê-lo, é preciso e é o trabalho deles, agora que haja gente que ainda espera pela sentença  para se pronunciar, é demais. Este processo é necessário para saber se há condenação e pena, e aos olhos da justiça o homem ainda é inocente, mas isso é aos olhos da justiça, que devia  ser ceguinha, não queiram que nós também o sejamos. Para mim qualquer pessoa que defenda o Sócrates ou está a ser pago para isso ou é estúpido.