Camariñas

Uma aldeia piscatória à qual dei a volta completa em menos de uma hora ,  e a andar devagarinho. Como atracções além do porto apresenta  uma feirazinha  para  aproveitar a “semana santa” , feira composta por carrinhos de choque , algodão doce a similares ; um pavilhão onde decorre a trigésima não sei quantas mostra dos bordados de Camariñas e nada mais.

Há um caminho que corre o topo da falésia e vai até uma ermida anciã no alto de um monte a vigiar a Ria de Camariñas e até ao farol do Cabo Villano mas que não era muito agradável de fazer num dia tão tempestuoso como este. A Costa da Morte , chama-se a este pedaço do mundo , e com boa razão porque os marinheiros morriam por aqui às centenas, até termos  coisas como  motores e  navegação exacta , em mais uma demonstração da maldade  que é interferir e alterar as regras e dons da natureza. Dantes é que era bom e puro.

Vejo que na semana passada rebentaram mais umas bombas na Europa e morreram mais uns quantos mas uma coisa noto :  começa a instalar-se uma certa fadiga de indignação e as pessoas quase reagem a um atentado na Europa como a um naufrágio na Indonésia : morre gente por todo o lado todos os dias , e enquanto não inventam um canal de televisão exclusivamente dedicado aos Mortos do Dia e quando dão a notícia de um atentado mesmo antes do onze inicial da Selecção as pessoas fartam-se. Há um limite para o número de massacres que muda tudo .

Os políticos de todas as cores podem dizer o que quiserem que não têm solução , e também não acho que a procuram , procuram é a solução para obterem ou manterem o cargo e tratarem da família e dos amigos , e isso é facilmente feito com discursos. Eu também não tenho nem solução ( para o problema em geral, porque para o modo como o problema me afecta tenho ) nem sugestões a fazer , excepto recomendar a toda a gente uma atitude que vão ver atenua imenso o problema do terrorismo: desliguem a televisão.

Escrevo isto no barco a ver soprar um temporal desfeito e a interrogar-me sobre quantos dias mais vamos ficar aqui encravados , não estou muito preocupado porque raramente me preocupa o que não depende de mim , mas a dada altura vou ter que decidir zarpar. Parece que há uma aberta na segunda feira , não sei se será suficiente para chegar a Cascais mas de qualquer maneira se for  suficiente para chegar ao próximo porto aproveito porque Camariñas fica velha depressa.

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Partidas

Recebi uma mensagem de um amigo escocês a perguntar se tinha algumas dicas a oferecer sobre catamarans . Estava a caminho das Canárias para ajudar um proprietário que tinha tentado a travessia do Atlântico mas , resumindo a história  , teve medo e voltou  para trás. Medo e felizmente bom senso , voltou para trás em segurança e não desistiu , fez a coisa certa : contratou um profissional para o ajudar e ensinar, permitindo-lhe ganhar experiência e confiança.

Pensei bastante e a única coisa que me ocorreu foi dizer-lhe para reduzir pano cedo porque , ao contrário dos monocascos , não temos um limite visual claro de quando o barco está com vela a mais . Se temos água a cobrir o convés de sotavento é mais do que altura de rizar, num catamaran se temos água a cobrir o convés de sotavento já é bem capaz de ser tarde demais. Isto do ponto de vista de quem tem que fazer milhares de milhas , regatas é outra história. Os catamarans de cruzeiro não inclinam pelo que não há esse aviso claro. Esse meu amigo não só passou o exame prático de Yachtmaster comigo há 16 anos em  Southampton como chumbou o mesmo exame comigo numa primeira tentativa , coisa que nos destroçou aos dois ao mesmo tempo e assim criámos um laço forte, miséria partilhada , adversidade vencida e tal .  Enquanto nestes anos eu acumulava umas centenas de milhar de milhas ele acumulou três filhas mas ainda assim navegou muito como profissional ,  tem uma larguíssima experiência de instrutor e já fez várias travessias , por isso não tinha outras dicas a oferecer além de não carregar no velame  e outra específica dos catamarans , um “dispositivo” que eu uso para abrir o ângulo da genoa e que permite fazer o que eles não fazem de origem , que é navegar com as velas em tesoura , ou asa de ganso , nunca me lembro do nome em português mas demonstro  aqui , numa  foto  tirada há uns 8 anos em Tortola.

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O meu amigo escocês está nesta altura a zarpar da ilha de Hierro para atravessar o Atlântico e do outro lado do mediterrâneo está outro amigo , a preparar a partida de Atenas noutro catamaran com destino às Caraíbas . Já lá passou o mês de Janeiro embrulhado na atroz burocracia grega , fizeram um pausa em Fevereiro e agora voltou , parece que desta é que é. Também vai parar em Las Palmas , para ele são mais umas oitocentas  milhas do que para mim partindo de Bordéus mas eu não parto antes de dia 20 e ainda vou ter que fazer escala em Cascais pelo que é um avanço decente e há hipóteses de nos encontrarmos em Las Palmas.

Por estar a “falar” com estes dois e a preparar a minha viagem comecei a pensar como é que vai ser quando tiver saudades das viagens oceânicas e das coisas boas à volta delas , se me vai custar. Acho que não , e mesmo que custe é um custo suportável. De qualquer maneira a minha licença de skipper é vitalícia , a minha experiência não diminui e não queimo pontes nenhumas.

O ano passado é que tinha sido excelente para terminar , não só a travessia foi impecável como foi a 25a e eu gosto de números redondos , mas acabo de consultar os meus registos e vejo que este vai ser o centésimo barco em que navego , e esse parece-me um número bem redondo  . O centésimo , 5200 milhas , 3 escalas , 45 dias ,  que não haja novidade.

 

O gajo

Esta é provavelmente a minha foto preferida e este gajo é o meu herói.

Foi tirada na Alemanha em 1936 , no lançamento de um novo  navio da marinha , o próprio Hitler estava presente. A história da foto e do homem pode ler-se aqui .

Gosto de pensar que seria capaz de fazer o mesmo mas tenho dúvidas.

A lone man refusing to do the Nazi salute, 1936