O Porto das Lajes

Em Junho de 2005 estava  a caminho do Canadá vindo de Malta, com a natural escala nos Açores. Nessa época tanto nas idas como nas vindas parava em S.Miguel, descartando a Horta pelo congestionamento e também por estar farto de modas e da mania do Café Sport que já nessa altura tinha completado a sua transformação em atracção turística e império comercial.

Via a ilha das Flores na carta e via que só havia uma baía, um cais e um ancoradouro e  uma escala aqui nunca fazia parte dos planos mesmo sendo, geograficamente, o ponto lógico quer para fazer a última escala a caminho das Américas como a primeira no regresso à Europa. Os pilotos  (a versão náutica de guias de viagem que hoje foram substituídos por 567 sites de internet) concordavam todos: ilha belíssima, habitantes prestáveis e acolhedores para lá do normal, e mais nada. Em termos de infraestruturas, zero. Mesmo se a curiosidade me chamasse  para cá   não me pagavam para passear e passava sempre bem ao largo.

Nesse ano já estava a umas boas 200 milhas a Oeste das Flores quando apanhámos um temporal rijo, seguido de umas quebras e avarias a bordo, e uma das tripulantes estava há 3 dias deitada no seu beliche enjoada de morte, sem conseguir mexer-se quanto mais comer , nem água no estômago aguentava.

O temporal tinha que passar e com as avarias até podia bem, mas estava com medo da moça porque da minha experiência uma pessoa pode enjoar e sofrer 3 dias mas depois passa, se não passa depois de três dias, nunca mais, é para morrer de desidratação. Decidi dar meia volta, o porto mais próximo era o das Lajes.

Entrámos à vela ainda debaixo de temporal, acostámos  ao cais com o uso  que restava do motor e a ajuda de pessoal local, tivemos que voltar a largar  antes que a ondulação de fundo rebentasse com o barco contra o cais, ancorámos, e passadas quatro horas de descermos a terra havia duas novidades importantíssimas: a tripulação desertava-me , estando todos a caminho do aeroporto no dia seguinte, e eu tinha decidido que ia morar nesta ilha. Era este o barco e esta a amarração que se podia fazer, era isto ou fundear no meio da baía.

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Nessa altura não havia marina, descia-se a terra com os botes, e não obstante isso havia uma boa dúzia de veleiros oceânicos ancorados . Estava-se a aumentar o molhe exterior, como se pode ver na foto, para se poder receber um navio de abastecimento maior. Em terra havia um quiosque por cima da muralha que vendia bebidas e pouco mais, e mais acima uma pizzaria cuja dona prestava serviços como lavandaria e organizava transportes e coisas dessas. Fiquei uns 15 dias à espera de substituir a tripulação e a apaixonar-me irremediavelmente pela ilha e nesses dias houve sempre movimento no porto, veleiros a chegar e a partir.

Isto faz agora 13 anos, passemos para 2011 , a União Europeia pagou uma marina e o senhor César, que mandava nisto nessa altura, veio cá inaugurá-la como se tivesse sido feita por ele, como é  de resto normal. Foi no mesmo ano  em que fixei aqui residência e as críticas à marina não se fizeram esperar: não só era pequena e mal podia acolher e manter seguros barcos de mais de 9 metros em caso de ligeira mareta quanto mais temporal,  exposta a vento e ondulação de Nordeste que quando vem é sempre em força. Pessoas que conheciam bem o porto espantaram-se e avisaram que estavam a estender um molhe por cima de areia. Os senhores engenheiros desprezaram como de costume a sabedoria local e lá se enterraram milhões no que foi chamado de “porto de recreio” , tiveram a decência de não lhe chamar oficialmente “marina”.

Não sei nada de engenharia nem me atreveria a criticar os trabalhos mas achei muito estranho que consumissem milhões num porto de recreio e que nem uma alminha se lembrasse de investir umas escassas dezenas de milhar nas coisas tão importantes para os velejadores oceânicos como uma amarração segura: balneários, lavandaria, apoio técnico, bomba de combustível, para referir os mais importantes que continuam ausentes e nem sequer planeados ao fim de 7 anos. 

No primeiro inverno os temporais iam destruindo os pontões todos e no seguinte o pessoal do porto deu-se ao trabalho de os desmontar e arrumar. Nenhum barco, nem uma lanchinha de pesca, pode ficar ali na água durante o inverno com risco de se despedaçar, derrota-se logo o principal propósito de uma obra daquelas: ser um porto de abrigo. 

O trânsito e visitas de veleiros foi caindo, e este inverno tinha sido bom para trazerem aqui por uma orelha o responsável da obra, houve um temporal que nem foi nada de realmente especial mas que mostrou os problemas de assentar estruturas em areia, esta foto fui tirá-la hoje de propósito para que quando digo que a entrada do porto está escavacada não pensarem que estou a exagerar.

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Uma obra com seis anos, se é esse o prazo de validade destas coisas vou ali já venho. Talvez os engenheiros não soubessem que aqui o tempo é feroz no Inverno, tem que haver pessoas que não sabem isso, não é costume entregar-se a esses obras públicas de milhões mas estamos em Portugal.

Além dessa cabeça do molhe e do farolete ficou-se sem água nem electricidade nos pontões e o pontão maior, o único capaz de acolher barcos maiorzinhos, foi-se embora. Quem quiser ver as condições em que os barcos ficavam nesse pontão num dia mais fresco, está aqui este vídeo que fiz em 2015:

Esse pontão já foi, os outros estão mais ou menos presos por arames. Não há um sítio para os visitantes tomarem um duche quente quando chegam de pelo menos 15 dias de mar; um taxi tem que vir de longe, se se digna atender o telefone; para meterem gasóleo têm que andar 3 kms e ter os próprios jerrycans; não há uma lavandaria e o único bar restaurante de toda a zona do porto e da praia só serve refeições quase  por especial favor em dias certos e até certas horas. Coisas como um fusível, um cabo, uma poleia, enfim, aprestos náuticos, é muito difícil encontrar e se mandam vir uma peça do continente têm para pelo menos 15 dias.

É muito por isto que hoje (e ontem, e amanhã) o porto está assim:

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Na Horta, 140 milhas a sueste daqui , um dia de viagem, quase  não cabe mais ninguém , há um mês que o porto está abarrotado , e também na Terceira e em Ponta Delgada os iates enchem as marinas e dinamizam a economia local. Aqui fizeram esta marina porque havia dinheiro para o betão mas ninguém quis saber do resto. A construtora facturou, o César cortou uma fita e  fez um discurso, o tanque e bomba de gasóleo comprado de propósito está num canto a ganhar musgo e a Portos dos Açores , empresa pública que manda nisto, anda a ter orgasmos com o rendimento e movimento de todos os mastodontes de cruzeiros que descarregam turistas aos milhares e poluem o ar e as vistas (ou embelezam, consoante o ponto de vista) em ponta Delgada e quer lá saber mas é deste canto esquecido. Quem trabalha para eles ganha o mesmo quer haja cem iates quer não haja nenhum, eu se calhar no lugar deles também preferia nenhum.

Mas atenção: não é só por falta de condições que os veleiros já não param nas Flores, até à construção da marina também não havia condições e iam-se recebendo umas dúzias de visitas e havia animação no porto. O “problema” transcende isso e seria objecto de um post só por si mas estou embalado.

O problema é que a internet e as novas tecnologias desenvolvidas na última década mudaram radicalmente o perfil e atitudes dos velejadores de cruzeiro. Em primeiro lugar, dada a difusão do GPS e a eficiência dos aparelhos auxiliares de navegação (desde os computadores aos motores diesel)  qualquer pessoa consegue atravessar um oceano. Não vou estar a martelar em como era dantes , porque não era necessariamente melhor, mas a verdade é que a facilidade da navegação abriu a porta a muita gente que sem a facilidade do GPS, se tivesse sido obrigada a aprender e praticar navegação à estima e navegação astronómica e correr riscos de erro não se tinha feito ao mar.

Além da navegação, as comunicações: há uma sensação de segurança, hoje as pessoas sabem que se a coisa correr mal carregam num botão e  os socorros avançam, isto mandou ao mar outra revoada de gente que nunca o faria se soubesse que dependia essencialmente de si própria. Depois, as comodidades a bordo : dessalinizadores, congeladores, televisões, enfiou-se nos barcos de cruzeiro uma panóplia de objectos e dispositivos que convenceram a ir para o mar gente que não concebe viver sem os mesmo confortos de uma casa.  A seguir , e por fim , comunicações. Há internet a bordo e quando não há a bordo há nos portos todos, pelo que toda esta nova raça de navegadores pode passar parte dos dias a olhar para um ecran, a publicar as histórias mais banais que se possam imaginar como se fossem grandes aventuras e, em resumo , a publicitar as suas viagens num exibicionismo equivalente aos modelos do instagram que vivem e fazem tudo com o objectivo de se mostrar aos outros e acreditam que sem gostos, partilhas, seguidores e comentários não vale a pena andar a navegar.

Ora isto não é necessariamente mau, ate porque permite a muitas pessoas viajar e navegar vicariamente e às famílias acompanhar os seus em viagem. Muito teria gostado a minha mãezinha que houvesse internet quando viajei e atravessei o oceano pela primeira vez, se lhe tivesse podido mandar mensagens semi diárias em vez de um postal ou carta de mês a mês. O problema não é o exibicionismo, chamemos-lhe assim , que é quase generalizado, eu mesmo publico volta e meia fotos e este blog está cheio de relatos de viagem. A questão é que ninguém, ou quase, dá um passo que seja sem fazer a sua pesquisa. Ninguém vai à descoberta de coisíssima nenhuma, muito raros são os que por exemplo escolhem um porto de destino sem antes saberem tudo sobre esse porto, e quando digo saberem tudo não digo estudar cartas e pilotos, digo queimarem horas e horas nos milhentos foruns e sites “da especialidade” a pesquisar , pedir e oferecer informações sobre tudo desde o preço do gasóleo até aos dias de mercado passando pelas listas de procedimentos alfandegários. Há uma espécie de instinto de manada e se bem que há e haverá sempre uma minoria que se “perde” e gosta mesmo de descobrir a esmagadora maioria faz a sua pesquisa intensiva, sabe sempre o que vai encontrar, é uma questão de “segurança”.

O que é que isto tem a ver com a nossa marina deserta? Todos os iates que atravessam o Atlântico agora sabem bem que aqui não há condições (que há 15 anos não eram essenciais mas hoje são) e que o porto está danificado, e passam-nos ao largo. Os raros que aqui param têm uma determinação e objectivo antigo de ver isto ou não tiveram escolha e nem 24 horas ficam.

Não se pode fazer nada quanto à cultura do exibicionismo digital e da incessante presença online  (o tempo que os velejadores de cruzeiro modernos passam na doca a examinar e discutir as previsões meteorológicas disponíveis em 35 sites diferentes é qualquer coisa de surreal) mas havia coisas a fazer para que essas pessoas vissem nas suas pesquisas que vale a pena vir aqui, e para os que cá chegam não encontrassem esta miséria. Não se vai fazer NADA.

Tive várias ideias que podiam ajudar a transformar este porto numa escala agradável para os iatistas transatlânticos e mesmo os que vêm do Faial em barcos de aluguer ou da Europa do Norte em cruzeiro ao arquipélago mas como já vivo aqui há 7 anos e sou português   já sei o suficiente para não ter veleidades nenhumas nesse campo.

Existe a possibilidade desta minha análise estar errada, talvez em Junho a “marina ” se encha outra vez, se isso acontecer das primeiras coisas que vou fazer é vir aqui contar e dizer “olha , enganei-me”, mas a diferença que se vê  deste ano para os anteriores é tão grande que acho pouco provável. Todas as pessoas com quem falo aqui que sabem alguma coisa de navegação e cruzeiro concordam comigo.

Isto entristece-me um bocado mas não me preocupa, nesta outra foto pode ver-se o outro lado do porto e as nossas jóias , os botes baleeiros  S.Pedro e  Formosa.

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Mesmo com todos os defeitos, problemas, intrigas   e insuficiências, o nosso porto tem a sua vida própria,  os iates que vão lá para o Faial , beber gin no Café Sport , e dizer à sua audiência, real, imaginada ou desejada, que os Açores são magníficos depois de verem o porto da Horta ,  o Pico lá do outro lado do canal , mais umas fotografias e pouco mais, passando 1/4 do seu tempo acordados no Arquipélago a olhar para um écran.

Esta ilha não é para todos, e é assim que eu gosto dela.

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O Auge

Este ano em Outubro celebro 20 anos da partida para a minha primeira viagem marítima, 4 meses depois de ter velejado pela primeira vez.

Desde aí juntei 235000 milhas náuticas em todos os oceanos à excepção do Árctico e Antárctico, ao comando de 100 (número redondo, certo e documentado) barcos diferentes, alguns deles de valor na casa dos milhões .

Não tenho intenções nenhumas de voltar aos iates, não tenho saudades da vela oceânica e no Sábado passado na Horta, mesmo tendo ficado quase em último na regata, atingi o auge da minha carreira na vela, campo em que não ambiciono mais nada senão fazer isto o resto do tempo, enquanto puder.

Tenho centenas de fotos em todos esses barcos, mares, portos e ilhas mas esta é sem dúvida a minha fotografia preferida de sempre.

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Regata

Saímos com o S.Pedro na Sexta  para treinar, correu bem lá fora da baía mas o vento estava fresco e de Sul , não consegui voltar a entrar no porto à bolina , perdi a calma e desisti de tentar, entrámos a reboque, humilhação. Da parte da tarde saí no Formosa para completar a tripulação. O  Formosa é o segundo bote das Flores e levou ao leme e na genoa gente do Faial com mais de vinte anos de botes. Voltei para terra a pensar que ia mesmo ficar em último e a esperar que os moços não me levassem a mal.

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No dia seguinte tinha os nervos em franja.De manhã chegaram os  botes do Pico a reboque de duas lanchas e a rampa era uma coisa linda, 23 botes a prepararem-se para arriar.Nos Açores há 43 botes em maior ou menor condição de navegação. Nas ilhas pequenas há cada vez mais dificuldade em mantê-los e tripulá-los e  S.Miguel nunca contou muito para isto.

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Um bote baleeiro mede 11 metros, pesa 700 quilos, tem uma tripulação  de 7 homens (ou mulheres) e uma velocidade de casco de cerca de 8 nós mas já se marcaram a 16. Todos os botes são aparelhados como antigamente e há muito poucos ou nenhuns materiais modernos. Um turista veio dizer-me “barcos tão lindos e fizeram tanto mal…” , eu disse-lhe  barcos tão lindos que deram de comer a muitas famílias e salvaram as ilhas de uma miséria ainda maior. Gente que  avalia 1950 pelos padrões de 2017 pode ir bardamerda.

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Arriámos o bote , remámos para fora do porto interior , içámos a vela grande para ver se estava tudo em ordem , saímos disparados pelo meio da frota à popa arrasada, a retranca tem quase dez metros e ultrapassámos   outros barcos com distâncias de centímetros , não sei como é que fiz isso e quando voltámos a baixar a vela para tomarmos o nosso lugar na linha de reboque da largada ia a tremer.

Este é um vídeo da largada , especial atenção para o minuto 3.30 , quem ficar indiferente a uma coisa destas não pode ser bom.

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A regata é um percurso à volta de três boias , uma de bolina , uma de largo e outra de bolina à entrada no porto, e depois meia milha de bolina , mais ou menos, para  a meta mesmo em frente à cidade. Partimos em 15º da linha.

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Há festivais de velas clássicas em sítios de alto snobismo tipo St.Tropez , já lá vi muita coisa bonita e digo sem problema nenhum que um bote baleeiro bem pintadinho passa por eles e vira cabeças e causa admiração de quem sabe, não andam aí muitas embarcações  mais elegantes e rápidas que estas.

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Aqui já estávamos a rondar a última bóia, nesta altura devíamos ir em décimo segundo mas quase todos esses atrás de nós acabaram por nos passar. Bordos grandes com brisa constante e todo o espaço são uma coisa , bordos pequenos com brisas variáveis dentro de um porto com outros barcos à nossa volta são outra muito diferente, é aí que vem ao de cima a experiência,e  falhei muito. Nessa foto já se podem ver barcos atrás muito mais orçados que nós:IMG_20170812_161105

Mesmo assim demos os bordos precisos para cortar a meta, apitou a nossa buzina e tocámos na bóia , um segundo mais tarde e éramos desclassificados. Doze segundos atrás de nós cortou a meta o Formosa , e isso para mim foi vencer . Terminámos em 16º de 23, os moços ficaram contentes, eu fiquei radiante, para primeira prova foi bem bom, para não falar da beleza enorme do cenário e do dia.

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Com o bote varado fomos celebrar , e mais tarde na noite encontrei-me sozinho sentado a um balcão e achei graça porque que me sentia exactamente como me costumava sentir de cada vez que atravessava o Atlântico, uma satisfação  que me percorria o corpo todo e me deixava um sorriso fixo. Acabei  por reencontrar a tripulação na festa, não há como ter vinte anos, aqueles moços conseguiram todos os dias voltar ao alojamento de manhã clara e cheios de cerveja até aos olhos. Ah, a juventude.

No dia seguinte subimos os botes para os atrelados e arrumámos a palamenta aqui:

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É a casa dos botes do Clube Naval da Horta, um armazém de pausar  a respiração a quem gosta destas coisas e que ainda nos vincou mais a diferença abismal que vai deles para nós. Não interessa muito. Fizemos boa figura, aprendemos, ganhámos confiança e já nunca mais vou para uma prova a pensar em terminá-la , vou a pensar em classificar-me bem. Tenho o privilégio incrível de ser oficial de um bote baleeiro três  meses depois de ter subido pela primeira vez a um , há muitas pessoas que sonham com isto e passam anos e anos até  lá chegarem , quando chegam .

Agora estamos para aqui à espera que regressem os botes, vai levar uns quinze dias. Antes de os guardarmos para o Inverno e começarmos a lixar e pintar queríamos ainda navegar mais um bocado, não falta vontade nem ideias de coisas giras que podemos fazer aqui, incluindo levar turistas a navegar por uma quantia, juntar dinheiro para termos material melhor e podermos ir mais vezes ao Triângulo para o ano, para provas no Faial e no Pico. Fala-se nas “altas esferas” da possibilidade de mantermos um bote no Faial para não termos que o andar a carregar para a frente e para trás, isto claro que está dependente de haver uma tripulação de prontidão para ir para lá competir em condições, coisa que nunca houve antes. Agora há.

Semana do Mar & Turismo

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A Semana do Mar já começou , há nestes dias na Horta mais actividades do que é possível uma pessoa ver ou participar, incluindo dezenas de concertos de musica ao vivo e outros eventos, do lado do mar há dezenas de provas numa variedade enorme de modalidades. Só me interessam duas coisas, a regata de botes baleeiros  no Sábado, na qual vou levar o bote  S.Pedro, e os barcos para o Pico para onde espero ir assim que puder.  Quanto à preparação para a regata, está tudo dito aí mais atrás. Se não ficar em último já não fico triste e  se ficar em último não é  vergonha nenhuma. Chama-se Regata da Casa do Pessoal da RTP pelo que suponho que  parte dela vá ser transmitida pela RTP Açores, quem tem curiosidade pode tentar ver, começa às duas da tarde de Sábado, 15:00 no continente.

Não conheço a ilha do Faial toda mas quase, e estou fartinho da Horta, em condições normais não é uma cidade que me encante, se lhe juntarmos a multidão que para lá vai andar nestes dias, pior. Por isso assim que estiver feito o trabalho relativo aos botes e a menos que aconteça algum imprevisto (há que guardar sempre espaço para imprevistos) , passo o canal para o Pico, onde nunca estive e que estou há tempo demais para conhecer. Tenho lá um amigo novo e outro mais antigo  e tenho sítios e coisas que quero ver.

Vamos uma semana para competir uma tarde, vamos ter muito tempo livre por causa dos turistas. Tinha escrito uma página inteira a dizer mal dos turistas ressalvando que esta ilha precisa muito deles para não acabarmos todos funcionários públicos, eu em particular preciso deles para lhes vender cerveja artesanal, por isso são uma coisa a tolerar e acolher nem que seja de sorriso amarelo, mas mais uma vez encravam-nos a vida e estorvam-nos.  Parte das tripulações foi na segunda de madrugada com os botes no navio de passageiros, o resto era para ir na Sexta mas estava tudo em lista de espera e nada nos garantia estar na Horta no Sábado, pelo que mudei os bilhetes para amanhã, quando nos podiam confirmar a viagem. Pouco a pouco começo a tomar iniciativas e responsabilidades, mais do que gostaria mas há coisas em que ou sou eu ou não é ninguém . Para o regresso estamos à mesma em lista de espera, possivelmente até quarta feira, e uma semana fora não é fácil, especialmente para quem não quer , não precisava nem planeava gastar dinheiro com umas férias. Enquanto durarem as provas náuticas somos acolhidos e alimentados pelo Clube Naval da Horta mas a festa acaba no Domingo e não é legítimo esperar que nos sustentem até Quarta, alguma despesa vai sempre acontecer.

Os voos estão repletos, o pessoal da SATA aqui é cinco estrelas mas andam a  aturar muito problema e reclamação, não pára a enchente de turistas e há viagens canceladas e atrasadas constantemente, no Sábado passado foram os Xutos que vinham cá tocar mas tiveram que voltar para trás, o pessoal não gosta dessas coisas.  Parece que pariu aqui a galega e esta história dos voos todos cheios é um bocado má, agora no nosso caso concreto é uma  viagem “desportiva” mas aqui na ilha já há muitas pessoas com dificuldades em comparecer a consultas médicas e exames , e isso é muito mais sério. Caso não saibam , daqui ao médico especialista vai-se de avião, tal como para análises e exames, e no meu entender seriam os turistas a ficar em lista de espera sempre que houvesse um residente  a querer ou precisar de viajar.

É um tema muito falado na imprensa e um debate actual, muita gente pensa que o turismo está descontrolado e em níveis exagerados, principalmente as pessoas que não beneficiam directamente do turismo  e os que se pelam por taxar e controlar tudo o que mexa. Eu cresci numa casa de Turismo de Habitação, das primeiras do país, e o dia em que os meus pais a decidiram vender foi dos mais felizes da minha vida, quase que me traumatizaram uns 20 anos de estranhos e entrarem-me pela casa dentro. Dada a loucura da procura aqui um amigo propôs-me no outro dia ir ficar com ele e alugar a minha casa , parece que a  minha reacção foi como se me tivesse proposto comprar-me o cão . Tolero os turistas mas há limites e a minha propriedade está para lá desses limites.

Mesmo que não contasse lucrar com o turismo  vendendo  a cerveja artesanal, nunca seria completamente contra porque compreendo o valor que trazem à economia toda . Além do mais todos nos devíamos sentir elogiados e orgulhosos por tantos estrangeiros quererem vir visitar e apreciar a nossa terra. Vejo que o Bloco e o PC estão muito preocupados, mas eles ficam sempre preocupados por ver pessoas a ganhar dinheiro com as suas propriedades e o seu engenho sem terem que se sindicalizar ou dar metade ao Estado e inventam logo oito problemas laterais para animar a rapaziada, passando se for preciso por cima de  contradições engraçadas como : cinco mil somalis desempregados para sustentar, bom , cinco mil ingleses para gastar dinheiro, mau. Entretêm-se com questões de lana caprina como a distinção entre turismo e turistificação mas no fundo  o que os apoquenta é haver gente a ganhar dinheiro sem sofrer carga fiscal e regulamentação adequada.Como de costume, têm  uma imagem ideal do turismo como o aceitam, o que ande fora disso tem que ser combatido e vão lutar para adaptar a realidade à sua ideia e não o contrário.

Por aqui só vejo benefícios (não obstante a impreparação da SATA) e estou preparado para perder algum do meu  sossego  e tranquilidade , que para muitas pessoas é pasmaceira desértica. Duvido de que apareçam  construções tipo Algarve, as estradas são as que há, o aeroporto não pode crescer e há aí muito mato e muitos trilhos para o pessoal andar com espaço bastante.Os turistas que para aqui vêem não largam lixo nem andam bêbados em público, não há barulho e em geral têm uma atitude muito respeitosa, de apreciação e paciência . Espero ver mais empregos, mais trabalho, mais actividades, mais ofertas, mais serviços. Idealmente apareceria uma “mini easyjet” privada com meia dúzia de avionetas para fazer voos inter ilhas, concorrer com a SATA e dar mais uso aos aeroportos do arquipélago.

Não duvido de que vai haver muito em breve quem se queixe também aqui dos turistas, mas o Verão está a acabar, daqui a dois meses já quase ninguém vem para aqui e o turismo volta a ser um problema exclusivo dos lisboetas e dos jornalistas.

 

PS: Já tinha escrito e publicado isto quando vi no twitter um cartaz do PNR contra o turismo. É muito raro lembrar-me de que o PNR existe por isso nunca falo nele. É normal que a extrema direita partilhe preocupações e proponha soluções semelhantes à extrema esquerda, neste caso partilham a xenofobia, que para o PNR é mais natural, nos outros vem mais disfarçada. Espero que o PNR não desapareça porque mesmo os malucos devem podem ter voz e liberdade de expressão.

 

 

6 anos

Faz seis anos que para aqui vim.Conhecia duas pessoas,tinha uma terra de 400m2  com um palheiro velho,a ideia de fazer uma micro cervejaria,criar animais e viver o mais longe possível da confusão. A primeira prioridade  foi encontrar companhia de confiança e ao mesmo tempo  realizar  um sonho que a vida de marinheiro não permitia.

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Hoje saio de casa, olho à volta e continuo encantado com o que vejo.Tenho um cão sempre por perto e um gato que me faz sempre sorrir, quando não rir mesmo.Como ovos das minhas galinhas , tenho uma horta mais simbólica que outra coisa mas que me permite a satisfação de cultivar e comer o que cultivo.Tenho oito ovelhas em terras minhas e outras que arrendei ou me emprestaram , já sei alguma coisa sobre o cuidado e criação das ovelhas e terras, o rebanho está para aumentar e  talvez para o ano vá ter um cão pastor.

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Reconstruí o palheiro e cumpri todas as burocracias relativas a passar um terreno rural para um prédio urbano e habitação legalizada, a casa é pequenina e mal acabada mas é minha, cumpre todas as funções de uma casa e por ser minha parece-me um castelo.

Tanto quanto sei não criei  inimizades, não prejudiquei ninguém e tirando um ou outro delinquente que me roubou uma ou outra ferramenta, nunca ninguém me prejudicou.As pessoas que não me cumprimentam ignoram-me e não se pode pedir muito melhor do que isso.Fiz muitos amigos e se passo a maior parte do tempo sozinho não é por necessidade.  Não falar demais, respeitar toda a gente, pagar as contas a horas,fazer o que se diz que se vai fazer,ajudar quando se pode, dizer “se faz favor” e “obrigado”,sorrir.A minha receita para uma integração de sucesso.

E sobre tudo isto, e porque ninguém vive de simpatia e meia dúzia de ovelhas e estou determinado a deixar de navegar, há a cerveja. Nunca fui grande conhecedor ou apreciador, o interesse pelo fabrico da cerveja apareceu primeiro há mais de 12 anos,nos Estados Unidos, quando provei uma cerveja feita por um gajo em sua casa e fiquei a saber que nem só em grandes fábricas se podia fazer cerveja .Em Portugal nessa altura devia haver talvez meia dúzia de entusiastas da cerveja artesanal, lá já então  era uma grande indústria.

Perante a necessidade de ter trabalho e rendimento aqui  a cerveja sempre foi a que me pareceu a melhor ideia  de negócio,ao fim de  anos de constante remoer e avaliar das possibilidades, e pouco tempo depois de cá chegar recebi um “kit de principiante”. Fazer cerveja não é complicado e vivemos na Idade da Informação mas ainda assim requer muito tempo, algum equipamento,atenção e prática até se conseguirem fazer boas cervejas, já para não falar do que requer transformar esse conhecimento numa operação comercial numa ilha pequena e bastante remota.

Seis anos depois, tenho  uma micro cervejaria artesanal  (nano cervejaria talvez seja mais adequado…) na Ilha das Flores , produzo e aperfeiçoo  cerveja que com  sorte ainda este ano vai ser vendida legalmente. Recebi ontem os rótulos e sacos de malte em 25kgs,  marcando assim o dia em que aparece o produto completo e agora isto é a sério.

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Por tudo isto estou satisfeito,orgulhoso e motivado para os próximos tempos. Ao rever estes seis anos lembrei-me muito disto:  “Ser um casal permite-nos resolver a dois problemas que não teríamos se fôssemos só um”.