O Auge

Este ano em Outubro celebro 20 anos da partida para a minha primeira viagem marítima, 4 meses depois de ter velejado pela primeira vez.

Desde aí juntei 235000 milhas náuticas em todos os oceanos à excepção do Árctico e Antárctico, ao comando de 100 (número redondo, certo e documentado) barcos diferentes, alguns deles de valor na casa dos milhões .

Não tenho intenções nenhumas de voltar aos iates, não tenho saudades da vela oceânica e no Sábado passado na Horta, mesmo tendo ficado quase em último na regata, atingi o auge da minha carreira na vela, campo em que não ambiciono mais nada senão fazer isto o resto do tempo, enquanto puder.

Tenho centenas de fotos em todos esses barcos, mares, portos e ilhas mas esta é sem dúvida a minha fotografia preferida de sempre.

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Regata

Saímos com o S.Pedro na Sexta  para treinar, correu bem lá fora da baía mas o vento estava fresco e de Sul , não consegui voltar a entrar no porto à bolina , perdi a calma e desisti de tentar, entrámos a reboque, humilhação. Da parte da tarde saí no Formosa para completar a tripulação. O  Formosa é o segundo bote das Flores e levou ao leme e na genoa gente do Faial com mais de vinte anos de botes. Voltei para terra a pensar que ia mesmo ficar em último e a esperar que os moços não me levassem a mal.

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No dia seguinte tinha os nervos em franja.De manhã chegaram os  botes do Pico a reboque de duas lanchas e a rampa era uma coisa linda, 23 botes a prepararem-se para arriar.Nos Açores há 43 botes em maior ou menor condição de navegação. Nas ilhas pequenas há cada vez mais dificuldade em mantê-los e tripulá-los e  S.Miguel nunca contou muito para isto.

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Um bote baleeiro mede 11 metros, pesa 700 quilos, tem uma tripulação  de 7 homens (ou mulheres) e uma velocidade de casco de cerca de 8 nós mas já se marcaram a 16. Todos os botes são aparelhados como antigamente e há muito poucos ou nenhuns materiais modernos. Um turista veio dizer-me “barcos tão lindos e fizeram tanto mal…” , eu disse-lhe  barcos tão lindos que deram de comer a muitas famílias e salvaram as ilhas de uma miséria ainda maior. Gente que  avalia 1950 pelos padrões de 2017 pode ir bardamerda.

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Arriámos o bote , remámos para fora do porto interior , içámos a vela grande para ver se estava tudo em ordem , saímos disparados pelo meio da frota à popa arrasada, a retranca tem quase dez metros e ultrapassámos   outros barcos com distâncias de centímetros , não sei como é que fiz isso e quando voltámos a baixar a vela para tomarmos o nosso lugar na linha de reboque da largada ia a tremer.

Este é um vídeo da largada , especial atenção para o minuto 3.30 , quem ficar indiferente a uma coisa destas não pode ser bom.

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A regata é um percurso à volta de três boias , uma de bolina , uma de largo e outra de bolina à entrada no porto, e depois meia milha de bolina , mais ou menos, para  a meta mesmo em frente à cidade. Partimos em 15º da linha.

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Há festivais de velas clássicas em sítios de alto snobismo tipo St.Tropez , já lá vi muita coisa bonita e digo sem problema nenhum que um bote baleeiro bem pintadinho passa por eles e vira cabeças e causa admiração de quem sabe, não andam aí muitas embarcações  mais elegantes e rápidas que estas.

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Aqui já estávamos a rondar a última bóia, nesta altura devíamos ir em décimo segundo mas quase todos esses atrás de nós acabaram por nos passar. Bordos grandes com brisa constante e todo o espaço são uma coisa , bordos pequenos com brisas variáveis dentro de um porto com outros barcos à nossa volta são outra muito diferente, é aí que vem ao de cima a experiência,e  falhei muito. Nessa foto já se podem ver barcos atrás muito mais orçados que nós:IMG_20170812_161105

Mesmo assim demos os bordos precisos para cortar a meta, apitou a nossa buzina e tocámos na bóia , um segundo mais tarde e éramos desclassificados. Doze segundos atrás de nós cortou a meta o Formosa , e isso para mim foi vencer . Terminámos em 16º de 23, os moços ficaram contentes, eu fiquei radiante, para primeira prova foi bem bom, para não falar da beleza enorme do cenário e do dia.

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Com o bote varado fomos celebrar , e mais tarde na noite encontrei-me sozinho sentado a um balcão e achei graça porque que me sentia exactamente como me costumava sentir de cada vez que atravessava o Atlântico, uma satisfação  que me percorria o corpo todo e me deixava um sorriso fixo. Acabei  por reencontrar a tripulação na festa, não há como ter vinte anos, aqueles moços conseguiram todos os dias voltar ao alojamento de manhã clara e cheios de cerveja até aos olhos. Ah, a juventude.

No dia seguinte subimos os botes para os atrelados e arrumámos a palamenta aqui:

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É a casa dos botes do Clube Naval da Horta, um armazém de pausar  a respiração a quem gosta destas coisas e que ainda nos vincou mais a diferença abismal que vai deles para nós. Não interessa muito. Fizemos boa figura, aprendemos, ganhámos confiança e já nunca mais vou para uma prova a pensar em terminá-la , vou a pensar em classificar-me bem. Tenho o privilégio incrível de ser oficial de um bote baleeiro três  meses depois de ter subido pela primeira vez a um , há muitas pessoas que sonham com isto e passam anos e anos até  lá chegarem , quando chegam .

Agora estamos para aqui à espera que regressem os botes, vai levar uns quinze dias. Antes de os guardarmos para o Inverno e começarmos a lixar e pintar queríamos ainda navegar mais um bocado, não falta vontade nem ideias de coisas giras que podemos fazer aqui, incluindo levar turistas a navegar por uma quantia, juntar dinheiro para termos material melhor e podermos ir mais vezes ao Triângulo para o ano, para provas no Faial e no Pico. Fala-se nas “altas esferas” da possibilidade de mantermos um bote no Faial para não termos que o andar a carregar para a frente e para trás, isto claro que está dependente de haver uma tripulação de prontidão para ir para lá competir em condições, coisa que nunca houve antes. Agora há.

Semana do Mar & Turismo

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A Semana do Mar já começou , há nestes dias na Horta mais actividades do que é possível uma pessoa ver ou participar, incluindo dezenas de concertos de musica ao vivo e outros eventos, do lado do mar há dezenas de provas numa variedade enorme de modalidades. Só me interessam duas coisas, a regata de botes baleeiros  no Sábado, na qual vou levar o bote  S.Pedro, e os barcos para o Pico para onde espero ir assim que puder.  Quanto à preparação para a regata, está tudo dito aí mais atrás. Se não ficar em último já não fico triste e  se ficar em último não é  vergonha nenhuma. Chama-se Regata da Casa do Pessoal da RTP pelo que suponho que  parte dela vá ser transmitida pela RTP Açores, quem tem curiosidade pode tentar ver, começa às duas da tarde de Sábado, 15:00 no continente.

Não conheço a ilha do Faial toda mas quase, e estou fartinho da Horta, em condições normais não é uma cidade que me encante, se lhe juntarmos a multidão que para lá vai andar nestes dias, pior. Por isso assim que estiver feito o trabalho relativo aos botes e a menos que aconteça algum imprevisto (há que guardar sempre espaço para imprevistos) , passo o canal para o Pico, onde nunca estive e que estou há tempo demais para conhecer. Tenho lá um amigo novo e outro mais antigo  e tenho sítios e coisas que quero ver.

Vamos uma semana para competir uma tarde, vamos ter muito tempo livre por causa dos turistas. Tinha escrito uma página inteira a dizer mal dos turistas ressalvando que esta ilha precisa muito deles para não acabarmos todos funcionários públicos, eu em particular preciso deles para lhes vender cerveja artesanal, por isso são uma coisa a tolerar e acolher nem que seja de sorriso amarelo, mas mais uma vez encravam-nos a vida e estorvam-nos.  Parte das tripulações foi na segunda de madrugada com os botes no navio de passageiros, o resto era para ir na Sexta mas estava tudo em lista de espera e nada nos garantia estar na Horta no Sábado, pelo que mudei os bilhetes para amanhã, quando nos podiam confirmar a viagem. Pouco a pouco começo a tomar iniciativas e responsabilidades, mais do que gostaria mas há coisas em que ou sou eu ou não é ninguém . Para o regresso estamos à mesma em lista de espera, possivelmente até quarta feira, e uma semana fora não é fácil, especialmente para quem não quer , não precisava nem planeava gastar dinheiro com umas férias. Enquanto durarem as provas náuticas somos acolhidos e alimentados pelo Clube Naval da Horta mas a festa acaba no Domingo e não é legítimo esperar que nos sustentem até Quarta, alguma despesa vai sempre acontecer.

Os voos estão repletos, o pessoal da SATA aqui é cinco estrelas mas andam a  aturar muito problema e reclamação, não pára a enchente de turistas e há viagens canceladas e atrasadas constantemente, no Sábado passado foram os Xutos que vinham cá tocar mas tiveram que voltar para trás, o pessoal não gosta dessas coisas.  Parece que pariu aqui a galega e esta história dos voos todos cheios é um bocado má, agora no nosso caso concreto é uma  viagem “desportiva” mas aqui na ilha já há muitas pessoas com dificuldades em comparecer a consultas médicas e exames , e isso é muito mais sério. Caso não saibam , daqui ao médico especialista vai-se de avião, tal como para análises e exames, e no meu entender seriam os turistas a ficar em lista de espera sempre que houvesse um residente  a querer ou precisar de viajar.

É um tema muito falado na imprensa e um debate actual, muita gente pensa que o turismo está descontrolado e em níveis exagerados, principalmente as pessoas que não beneficiam directamente do turismo  e os que se pelam por taxar e controlar tudo o que mexa. Eu cresci numa casa de Turismo de Habitação, das primeiras do país, e o dia em que os meus pais a decidiram vender foi dos mais felizes da minha vida, quase que me traumatizaram uns 20 anos de estranhos e entrarem-me pela casa dentro. Dada a loucura da procura aqui um amigo propôs-me no outro dia ir ficar com ele e alugar a minha casa , parece que a  minha reacção foi como se me tivesse proposto comprar-me o cão . Tolero os turistas mas há limites e a minha propriedade está para lá desses limites.

Mesmo que não contasse lucrar com o turismo  vendendo  a cerveja artesanal, nunca seria completamente contra porque compreendo o valor que trazem à economia toda . Além do mais todos nos devíamos sentir elogiados e orgulhosos por tantos estrangeiros quererem vir visitar e apreciar a nossa terra. Vejo que o Bloco e o PC estão muito preocupados, mas eles ficam sempre preocupados por ver pessoas a ganhar dinheiro com as suas propriedades e o seu engenho sem terem que se sindicalizar ou dar metade ao Estado e inventam logo oito problemas laterais para animar a rapaziada, passando se for preciso por cima de  contradições engraçadas como : cinco mil somalis desempregados para sustentar, bom , cinco mil ingleses para gastar dinheiro, mau. Entretêm-se com questões de lana caprina como a distinção entre turismo e turistificação mas no fundo  o que os apoquenta é haver gente a ganhar dinheiro sem sofrer carga fiscal e regulamentação adequada.Como de costume, têm  uma imagem ideal do turismo como o aceitam, o que ande fora disso tem que ser combatido e vão lutar para adaptar a realidade à sua ideia e não o contrário.

Por aqui só vejo benefícios (não obstante a impreparação da SATA) e estou preparado para perder algum do meu  sossego  e tranquilidade , que para muitas pessoas é pasmaceira desértica. Duvido de que apareçam  construções tipo Algarve, as estradas são as que há, o aeroporto não pode crescer e há aí muito mato e muitos trilhos para o pessoal andar com espaço bastante.Os turistas que para aqui vêem não largam lixo nem andam bêbados em público, não há barulho e em geral têm uma atitude muito respeitosa, de apreciação e paciência . Espero ver mais empregos, mais trabalho, mais actividades, mais ofertas, mais serviços. Idealmente apareceria uma “mini easyjet” privada com meia dúzia de avionetas para fazer voos inter ilhas, concorrer com a SATA e dar mais uso aos aeroportos do arquipélago.

Não duvido de que vai haver muito em breve quem se queixe também aqui dos turistas, mas o Verão está a acabar, daqui a dois meses já quase ninguém vem para aqui e o turismo volta a ser um problema exclusivo dos lisboetas e dos jornalistas.

 

PS: Já tinha escrito e publicado isto quando vi no twitter um cartaz do PNR contra o turismo. É muito raro lembrar-me de que o PNR existe por isso nunca falo nele. É normal que a extrema direita partilhe preocupações e proponha soluções semelhantes à extrema esquerda, neste caso partilham a xenofobia, que para o PNR é mais natural, nos outros vem mais disfarçada. Espero que o PNR não desapareça porque mesmo os malucos devem podem ter voz e liberdade de expressão.

 

 

6 anos

Faz seis anos que para aqui vim.Conhecia duas pessoas,tinha uma terra de 400m2  com um palheiro velho,a ideia de fazer uma micro cervejaria,criar animais e viver o mais longe possível da confusão. A primeira prioridade  foi encontrar companhia de confiança e ao mesmo tempo  realizar  um sonho que a vida de marinheiro não permitia.

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Hoje saio de casa, olho à volta e continuo encantado com o que vejo.Tenho um cão sempre por perto e um gato que me faz sempre sorrir, quando não rir mesmo.Como ovos das minhas galinhas , tenho uma horta mais simbólica que outra coisa mas que me permite a satisfação de cultivar e comer o que cultivo.Tenho oito ovelhas em terras minhas e outras que arrendei ou me emprestaram , já sei alguma coisa sobre o cuidado e criação das ovelhas e terras, o rebanho está para aumentar e  talvez para o ano vá ter um cão pastor.

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Reconstruí o palheiro e cumpri todas as burocracias relativas a passar um terreno rural para um prédio urbano e habitação legalizada, a casa é pequenina e mal acabada mas é minha, cumpre todas as funções de uma casa e por ser minha parece-me um castelo.

Tanto quanto sei não criei  inimizades, não prejudiquei ninguém e tirando um ou outro delinquente que me roubou uma ou outra ferramenta, nunca ninguém me prejudicou.As pessoas que não me cumprimentam ignoram-me e não se pode pedir muito melhor do que isso.Fiz muitos amigos e se passo a maior parte do tempo sozinho não é por necessidade.  Não falar demais, respeitar toda a gente, pagar as contas a horas,fazer o que se diz que se vai fazer,ajudar quando se pode, dizer “se faz favor” e “obrigado”,sorrir.A minha receita para uma integração de sucesso.

E sobre tudo isto, e porque ninguém vive de simpatia e meia dúzia de ovelhas e estou determinado a deixar de navegar, há a cerveja. Nunca fui grande conhecedor ou apreciador, o interesse pelo fabrico da cerveja apareceu primeiro há mais de 12 anos,nos Estados Unidos, quando provei uma cerveja feita por um gajo em sua casa e fiquei a saber que nem só em grandes fábricas se podia fazer cerveja .Em Portugal nessa altura devia haver talvez meia dúzia de entusiastas da cerveja artesanal, lá já então  era uma grande indústria.

Perante a necessidade de ter trabalho e rendimento aqui  a cerveja sempre foi a que me pareceu a melhor ideia  de negócio,ao fim de  anos de constante remoer e avaliar das possibilidades, e pouco tempo depois de cá chegar recebi um “kit de principiante”. Fazer cerveja não é complicado e vivemos na Idade da Informação mas ainda assim requer muito tempo, algum equipamento,atenção e prática até se conseguirem fazer boas cervejas, já para não falar do que requer transformar esse conhecimento numa operação comercial numa ilha pequena e bastante remota.

Seis anos depois, tenho  uma micro cervejaria artesanal  (nano cervejaria talvez seja mais adequado…) na Ilha das Flores , produzo e aperfeiçoo  cerveja que com  sorte ainda este ano vai ser vendida legalmente. Recebi ontem os rótulos e sacos de malte em 25kgs,  marcando assim o dia em que aparece o produto completo e agora isto é a sério.

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Por tudo isto estou satisfeito,orgulhoso e motivado para os próximos tempos. Ao rever estes seis anos lembrei-me muito disto:  “Ser um casal permite-nos resolver a dois problemas que não teríamos se fôssemos só um”.