6 anos

Faz seis anos que para aqui vim.Conhecia duas pessoas,tinha uma terra de 400m2  com um palheiro velho,a ideia de fazer uma micro cervejaria,criar animais e viver o mais longe possível da confusão. A primeira prioridade  foi encontrar companhia de confiança e ao mesmo tempo  realizar  um sonho que a vida de marinheiro não permitia.

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Hoje saio de casa, olho à volta e continuo encantado com o que vejo.Tenho um cão sempre por perto e um gato que me faz sempre sorrir, quando não rir mesmo.Como ovos das minhas galinhas , tenho uma horta mais simbólica que outra coisa mas que me permite a satisfação de cultivar e comer o que cultivo.Tenho oito ovelhas em terras minhas e outras que arrendei ou me emprestaram , já sei alguma coisa sobre o cuidado e criação das ovelhas e terras, o rebanho está para aumentar e  talvez para o ano vá ter um cão pastor.

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Reconstruí o palheiro e cumpri todas as burocracias relativas a passar um terreno rural para um prédio urbano e habitação legalizada, a casa é pequenina e mal acabada mas é minha, cumpre todas as funções de uma casa e por ser minha parece-me um castelo.

Tanto quanto sei não criei  inimizades, não prejudiquei ninguém e tirando um ou outro delinquente que me roubou uma ou outra ferramenta, nunca ninguém me prejudicou.As pessoas que não me cumprimentam ignoram-me e não se pode pedir muito melhor do que isso.Fiz muitos amigos e se passo a maior parte do tempo sozinho não é por necessidade.  Não falar demais, respeitar toda a gente, pagar as contas a horas,fazer o que se diz que se vai fazer,ajudar quando se pode, dizer “se faz favor” e “obrigado”,sorrir.A minha receita para uma integração de sucesso.

E sobre tudo isto, e porque ninguém vive de simpatia e meia dúzia de ovelhas e estou determinado a deixar de navegar, há a cerveja. Nunca fui grande conhecedor ou apreciador, o interesse pelo fabrico da cerveja apareceu primeiro há mais de 12 anos,nos Estados Unidos, quando provei uma cerveja feita por um gajo em sua casa e fiquei a saber que nem só em grandes fábricas se podia fazer cerveja .Em Portugal nessa altura devia haver talvez meia dúzia de entusiastas da cerveja artesanal, lá já então  era uma grande indústria.

Perante a necessidade de ter trabalho e rendimento aqui  a cerveja sempre foi a que me pareceu a melhor ideia  de negócio,ao fim de  anos de constante remoer e avaliar das possibilidades, e pouco tempo depois de cá chegar recebi um “kit de principiante”. Fazer cerveja não é complicado e vivemos na Idade da Informação mas ainda assim requer muito tempo, algum equipamento,atenção e prática até se conseguirem fazer boas cervejas, já para não falar do que requer transformar esse conhecimento numa operação comercial numa ilha pequena e bastante remota.

Seis anos depois, tenho  uma micro cervejaria artesanal  (nano cervejaria talvez seja mais adequado…) na Ilha das Flores , produzo e aperfeiçoo  cerveja que com  sorte ainda este ano vai ser vendida legalmente. Recebi ontem os rótulos e sacos de malte em 25kgs,  marcando assim o dia em que aparece o produto completo e agora isto é a sério.

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Por tudo isto estou satisfeito,orgulhoso e motivado para os próximos tempos. Ao rever estes seis anos lembrei-me muito disto:  “Ser um casal permite-nos resolver a dois problemas que não teríamos se fôssemos só um”.

Camariñas

Uma aldeia piscatória à qual dei a volta completa em menos de uma hora ,  e a andar devagarinho. Como atracções além do porto apresenta  uma feirazinha  para  aproveitar a “semana santa” , feira composta por carrinhos de choque , algodão doce a similares ; um pavilhão onde decorre a trigésima não sei quantas mostra dos bordados de Camariñas e nada mais.

Há um caminho que corre o topo da falésia e vai até uma ermida anciã no alto de um monte a vigiar a Ria de Camariñas e até ao farol do Cabo Villano mas que não era muito agradável de fazer num dia tão tempestuoso como este. A Costa da Morte , chama-se a este pedaço do mundo , e com boa razão porque os marinheiros morriam por aqui às centenas, até termos  coisas como  motores e  navegação exacta , em mais uma demonstração da maldade  que é interferir e alterar as regras e dons da natureza. Dantes é que era bom e puro.

Vejo que na semana passada rebentaram mais umas bombas na Europa e morreram mais uns quantos mas uma coisa noto :  começa a instalar-se uma certa fadiga de indignação e as pessoas quase reagem a um atentado na Europa como a um naufrágio na Indonésia : morre gente por todo o lado todos os dias , e enquanto não inventam um canal de televisão exclusivamente dedicado aos Mortos do Dia e quando dão a notícia de um atentado mesmo antes do onze inicial da Selecção as pessoas fartam-se. Há um limite para o número de massacres que muda tudo .

Os políticos de todas as cores podem dizer o que quiserem que não têm solução , e também não acho que a procuram , procuram é a solução para obterem ou manterem o cargo e tratarem da família e dos amigos , e isso é facilmente feito com discursos. Eu também não tenho nem solução ( para o problema em geral, porque para o modo como o problema me afecta tenho ) nem sugestões a fazer , excepto recomendar a toda a gente uma atitude que vão ver atenua imenso o problema do terrorismo: desliguem a televisão.

Escrevo isto no barco a ver soprar um temporal desfeito e a interrogar-me sobre quantos dias mais vamos ficar aqui encravados , não estou muito preocupado porque raramente me preocupa o que não depende de mim , mas a dada altura vou ter que decidir zarpar. Parece que há uma aberta na segunda feira , não sei se será suficiente para chegar a Cascais mas de qualquer maneira se for  suficiente para chegar ao próximo porto aproveito porque Camariñas fica velha depressa.

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Partidas

Recebi uma mensagem de um amigo escocês a perguntar se tinha algumas dicas a oferecer sobre catamarans . Estava a caminho das Canárias para ajudar um proprietário que tinha tentado a travessia do Atlântico mas , resumindo a história  , teve medo e voltou  para trás. Medo e felizmente bom senso , voltou para trás em segurança e não desistiu , fez a coisa certa : contratou um profissional para o ajudar e ensinar, permitindo-lhe ganhar experiência e confiança.

Pensei bastante e a única coisa que me ocorreu foi dizer-lhe para reduzir pano cedo porque , ao contrário dos monocascos , não temos um limite visual claro de quando o barco está com vela a mais . Se temos água a cobrir o convés de sotavento é mais do que altura de rizar, num catamaran se temos água a cobrir o convés de sotavento já é bem capaz de ser tarde demais. Isto do ponto de vista de quem tem que fazer milhares de milhas , regatas é outra história. Os catamarans de cruzeiro não inclinam pelo que não há esse aviso claro. Esse meu amigo não só passou o exame prático de Yachtmaster comigo há 16 anos em  Southampton como chumbou o mesmo exame comigo numa primeira tentativa , coisa que nos destroçou aos dois ao mesmo tempo e assim criámos um laço forte, miséria partilhada , adversidade vencida e tal .  Enquanto nestes anos eu acumulava umas centenas de milhar de milhas ele acumulou três filhas mas ainda assim navegou muito como profissional ,  tem uma larguíssima experiência de instrutor e já fez várias travessias , por isso não tinha outras dicas a oferecer além de não carregar no velame  e outra específica dos catamarans , um “dispositivo” que eu uso para abrir o ângulo da genoa e que permite fazer o que eles não fazem de origem , que é navegar com as velas em tesoura , ou asa de ganso , nunca me lembro do nome em português mas demonstro  aqui , numa  foto  tirada há uns 8 anos em Tortola.

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O meu amigo escocês está nesta altura a zarpar da ilha de Hierro para atravessar o Atlântico e do outro lado do mediterrâneo está outro amigo , a preparar a partida de Atenas noutro catamaran com destino às Caraíbas . Já lá passou o mês de Janeiro embrulhado na atroz burocracia grega , fizeram um pausa em Fevereiro e agora voltou , parece que desta é que é. Também vai parar em Las Palmas , para ele são mais umas oitocentas  milhas do que para mim partindo de Bordéus mas eu não parto antes de dia 20 e ainda vou ter que fazer escala em Cascais pelo que é um avanço decente e há hipóteses de nos encontrarmos em Las Palmas.

Por estar a “falar” com estes dois e a preparar a minha viagem comecei a pensar como é que vai ser quando tiver saudades das viagens oceânicas e das coisas boas à volta delas , se me vai custar. Acho que não , e mesmo que custe é um custo suportável. De qualquer maneira a minha licença de skipper é vitalícia , a minha experiência não diminui e não queimo pontes nenhumas.

O ano passado é que tinha sido excelente para terminar , não só a travessia foi impecável como foi a 25a e eu gosto de números redondos , mas acabo de consultar os meus registos e vejo que este vai ser o centésimo barco em que navego , e esse parece-me um número bem redondo  . O centésimo , 5200 milhas , 3 escalas , 45 dias ,  que não haja novidade.