Mais vale Tarde

Tenho tido  surpresas engraçadas nestes dias, por exemplo ontem o Pablo Iglésias disse que “a situação na Venezuela é terrível e não mantém o que disse”  sobre o Bolivarianismo. Tem piada, eu mantenho tudo o que disse, e tudo o que já dizia ainda no tempo do Chavez, e não consigo conciliar a ideia de uma pessoa inteligente com demorar 10 anos a perceber que aquilo não podia de maneira nenhuma correr bem. Por cá os apoiantes do Chavez e do Maduro ainda (que eu saiba) só falam das “derivas autoritárias” do Maduro, mas falta um bocado para virem admitir com todas as letras e humildade (talvez por não a terem) que estavam errados. Admitir erros  já é difícil para o cidadão comum, para um político deve ser uma amargura, por isso tantas vezes se enterram ao tentar cavar uma saída do buraco onde se meteram.

No tempo da crise da dívida grega gastei aqui muita electricidade a escrever opiniões  sobre o Alexis Tsipras & seu conjunto e sobre as posições dos nossos políticos sobre o tema. Os anos passam, os interesses mudam, já ninguém quer saber do Syriza para nada, já não são exemplo para ninguém, mas muita gente ainda se lembra da farsa que foi o processo todo. Há pouco tempo vi uma notícia que me lembrou desses tempos, há outras crises de dívida externa no horizonte e movimentações entre a Finança e os Estados, no caso a Itália. Confesso que não estava nada à espera de ler isto:

Tsipras avisa Itália: “Cedam agora, depois será pior”

Ainda não digeri, dividido entre o reconhecimento pela coragem dele de  dizer o que nunca é dito, admitir que estava errado e ter o pragmatismo para aprender e mudar com a sua experiência, e a lembrança clara do populismo atroz e do que a sua ideologia fez atrasar a recuperação grega e da acrimónia que causou na UE. Presumo que já não haja delegações do Bloco a ir lá abraçá-lo.

Lembrei-me de que em 2011, um mês antes do governo Português enviar a famosa cartinha à Troika,  andava eu pela costa da América do Sul e depois de passar  uma vista de olhos pela imprensa entre duas tiradas de 15 dias no mar escrevi aqui isto:

“Vamos ter que recorrer ao FMI , ou ao novo Fundo Europeu , e quanto mais tarde mais caro nos vai sair , mas isto nao ‘e obvio para nenhum politico que eu tenha ouvido.”

Ora, um curioso, medianamente atento à realidade e sem formação nem experiência na área já percebia uma coisa tão básica, mas estes iluminados em posições de governo não alcançam, marram de frente, insistem em ilusões e utopias e arrastam-nos a todos com elas.

Por cá estes exemplos de perceber as coisas tarde e más horas são, entre outros, as reacções à recente vaga de greves. Não há falta de broncos e de gente intelectualmente desonesta  que há 5 anos aplaudia a luta dos trabalhadores pelos seus direitos e hoje diz que as greves do sector público são instrumentalizadas e prejudicam demasiadas pessoas. Perceberam agora, o que não abona a favor da inteligência dessas pessoas. Existe outra abordagem, que é passar directamente ao argumento imbecil sem pedir desculpa, como fez por exemplo a Mariana Mortágua ao explicar que estas greves são sinal de esperança . Até 2015 as pessoas faziam greve por desespero, para lutar por direitos que estavam ameaçados ou desrespeitados, hoje fazem para dar um sinal de esperança.

Pela minha parte, não mudei de opinião quanto às greves do sector público só por o governo ser outro, continuo a acreditar que são um modo de pressão de uma minoria ínfima e privilegiada que não tem escrúpulo em prejudicar centenas de milhar para atingir objectivos pontuais, orquestradas por pessoas cujo sentido da vida é a agitação social. Valerá talvez a pena lembrar que este governo tomou posse como garante da paz social, que nos diziam só ser possível com um governo de esquerda. Há 47 pré avisos de greve até ao fim do ano, não sei onde é que vamos parar com tanta esperança .

Para coroar este belo ramalhete de descobertas tardias e hipocrisias capazes de induzir vómitos, o Primeiro Ministro descobriu agora que “Não podemos ter a ilusão de que a economia a crescer torna tudo possível”

Aqui há 5 anos, no meio de uma recessão feroz e sob intervenção estrangeira, este indivíduo e os seus sequazes ululavam contra cortes orçamentais e martelavam que se podia fazer diferente, que toda a gente podia viver melhor. Outra via, até louvavam o Tsipras . Descobriu agora, este traste que nos está a conduzir depressa à próxima bancarrota, que não pode haver imediatismo e que nem sequer uma economia a crescer torna tudo possível.  Vai ganhar as próximas eleições, porque até ao fim do ano que vem, se não houver nenhuma catástrofe séria,  o BCE vai manter os juros a 0% pelo que pode continuar a sã política de carregar as gerações futuras com dívida para contentar as clientelas e manter o PS firmemente ao leme de um estado em expansão. Por isso e porque a oposição é confrangedora, estamos condenados. Os serviços públicos desmontam-se porque há dinheiro para salários e regalias mas já não chega para manter o equipamento de que os recipientes desses salários precisam para trabalhar, como é por exemplo o caso da CP.

Sobem os impostos, o poder de compra do português médio já é menos que antes da crise, aumentam-se os funcionários públicos, multiplicam-se as comissões, gabinetes,  grupos de trabalho e organismos que não produzem nada a não ser discurso, afogam-se com regras e impostos sectores promissores como o alojamento local para apaziguar os dementes do marxismo leninismo, o Parlamento envergonha toda a gente com as fraudes e corrupções, que o seu presidente não só tolera como encobre, o Presidente da República é um invertebrado que só que ser amado, não se fazem reformas e no dia em que se acabar o dinheiro emprestado para manter toda esta rapaziada, lá irão de chapéu na mão humilhar-nos mais uma vez. A culpa dessa desgraça será de todos menos deles, e recomeça o ciclo. Gostava que daqui a dois anos viesse revisitar este post e admitir que estava errado, era bom sinal para todos nós.

“Reformar uma organização é como deslocar  um cemitério: não se pode contar com a ajuda dos que lá estão”.

Dispensa de lógica

Há cerca de 7 anos criei uma empresa, por ignorância, ingenuidade e optimismo injustificado. Essa  empresa, que já extingui com grande custo,  foi o meu curso intensivo sobre o modo como o Estado opera, depois de quase 20 anos de existência pacífica e livre em que nem desconfiava das manigâncias que se fazem na Administração Pública e ganhava a vida sem contacto de espécie nenhuma com ministério,  autoridade ou direcção geral de seja o que for.

Pouco tempo depois da criação da empresa recebi um email da AT a dizer-me que tinha um email a consultar na Via CTT. Como nessa altura não partia do princípio de que o aparelho administrativo está repleto de idiotias e absurdos pelo que podemos sempre esperar um a bater-nos à porta, pensei: Não faz sentido nenhum mandarem-me um email a dizer que tenho um email, ainda por cima não sei o que é a Via CTT, pelo que a AT, se tem alguma coisa a comunicar-me, vai-me mandar a mensagem ou para o meu email que pelos vistos conhecem, ou para  a minha morada física, que também conhecem.  Ah ah ah.

Então um génio qualquer da administração, ou grupo deles, decidiu que todos os contribuintes deviam passar a ter , quer quisessem quer não , quer fosse necessário quer não, uma caixa de correio electrónica nos CTT.  Achei  isso estúpido e abusivo demais para ser verdade e não me dei ao trabalho de ir configurar uma nova conta de email para poder receber os periódicos avisos de extorsão. Correu-me mal porque a AT decidiu mesmo que ou aderíamos à Via CTT ou não nos mandavam avisos e quando recebi pelo correio a multa ( para isso já se lembraram da minha morada) era tarde demais. É em ocasiões assim  que dou muito valor à interdição que temos de ter armas de fogo porque imagino bem alguém a quem o Estado faz uma brincadeira destas a perder a cabeça, entrar numa repartição e correr tudo a tiro.

Extingui a empresa este ano  ( uma empresa que nunca chegou a fazer uma transacção ou um movimento mas que o Estado me cobrou forte e feio para existir , e depois para extinguir) e com isso deixei de ouvir falar na via CTT até ontem , quando vi uma notícia que devia ser para emoldurar como exemplo do funcionamento do Estado : ” Contribuintes que não aderiram à Via CTT podem pedir dispensa de multa” 

Leram bem , “pedir dispensa de multa”. Então o Estado primeiro obriga toda a gente a aderir a um serviço de email redundante e desnecessário; usa esse serviço como meio exclusivo de comunicação, sabendo que grande parte dos contribuintes não sabe ou não quer usá-lo; a seguir, perante o incumprimento de pessoas que, em casos como o meu, nem sabiam que estavam em incumprimento , desata a multar os cidadãos e empresas. Finalmente, quando a burrada se torna aparente, oferece uma “dispensa de multa”, conceito novo e cheio de potencial. Não é um perdão nem uma anulação, dispensam-nos de uma multa na qual incorremos porque o Estado nos obrigou a usar um serviço desnecessário, sem avisar.  Eu vi a notícia na Lusa mas gostava de saber que meios vai usar o Estado para informar a generalidade das pessoas que foi multada de que pode ser dispensada, e gostava de ver um jornalista, se ainda houver para aí algum, a perguntar ao senhor que manda nesse departamento, se o facto de se estar a dispensar pessoas de pagar a  multa não é a admissão de que a multa não faz sentido, e não fazendo sentido , quem é o responsável pela salganhada e quem é que vai ressarcir os contribuintes que já pagaram por não saberem da possibilidade da “dispensa”.

Ainda ontem no restaurante vi outra que vai para a Galeria da Estupidez Estatal: o restaurante é obrigado a proceder a uma desratização mensal. Os donos , muito porque na ilha não há serviço de desratização e o técnico tem que vir de fora, faziam a desratização de dois em dois meses. Isto era inadmissível e uma ameaça clara à saúde pública, e lá veio o IRAE  (a nossa ASAE) remediar a situação e defender o consumidor, levantando um auto de contra ordenação. Vi ontem o relatório em que os técnicos, vindos de propósito (à nossa conta, obviamente) gastam várias páginas com jargão coberto de decretos lei ,  parágrafos e regulamentos para explicar a infraçcão e a coima que foi aplicada. Sucede que também aqui houve uma dispensa qualquer e nas últimas linhas do relatório, as que têm números, lê-se que a coima aplicada é de 0€ e que os custos do processo são  52€. Não têm que pagar multa nenhuma, têm só que pagar os custos do processo que estabeleceu que não têm que pagar multa nenhuma. Lindo.

 

Se a carapuça serve…

Um político e eurocrata holandês, presidente do Eurogrupo, deu uma entrevista a um jornal alemão em que falava sobre o pacto europeu e disse: Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em aguardente e mulheres e pedir-lhe de seguida a sua ajuda. Este princípio é válido a nível pessoal, local, nacional e até a nível europeu” .

Eu não vejo nada de controverso aqui mas cada um interpreta como pode e quer e esta frase  foi o suficiente para se entrar numa espiral nacional de indignação. O país enfiou colectivamente a  carapuça e o homem é quase persona non grata . Escrevem-se cartas abertas a denunciar a injustiça e estereótipo ofensivo, focando-se sobretudo na parte da aguardente e mulheres e nada na questão  da moralidade de pedir ajuda quando se derreteram recursos em coisas supérfluas, que me parece que é que o ele queria ilustrar com a imagem infeliz.

O  governo, cujos membros nunca fizeram declarações controversas nem alguma vez esbanjaram recursos, pede nada menos que a demissão do sr Dijsselbloem , mostrando que está focado e unido nas coisas verdadeiramente importantes como “o que é que os outros pensam de nós”.O Presidente, que não pensa noutra coisa, já apoiou o pedido de demissão e não tarda nada vão aparecer “vídeos humorísticos” a gozar com o homem e a martelar na brejeirice dos “copos e gajas” enquanto se explica  que aqui não há nada disso, ele está enganado , e mesmo que se gastasse muito dinheiro em paródia é esse amor pela paródia que faz de nós um povo tão espectacular.

A questão mais importante para mim é que  há centenas de políticos de elevada responsabilidade na União Europeia e nos governos nacionais que todos os dias fazem declarações a centenas de meios de comunicação social , já para não falar das comunicações pessoais tipo twitter. Vasculhar , escrutinar e julgar esses  soundbytes é considerada uma ocupação normal , necessária e  produtiva e pensa-se  que essas frases devem não só  ser “notícia” como passíveis  de causar estas indignações  e protestos.Não sei se é isto o melhor modo de fazer jornalismo mas é do que há mais.

Entretanto houve mais uns assassinatos religiosos em Londres, nem vale a pena ler notícias nem crónicas porque é o mesmo problema de há uns anos , não mudou nada e já foi tudo mais de que dito em todo o lado. Enquanto discutimos a islamofobia e fazemos regularmente coisas vagas como “afirmar os nossos valores europeus” a demografia  vai fazendo o seu trabalho e o mundo vai mudando.

Na secção de humor , desenvolvimentos em relação à dívida pública. Como é um  tema central aos nossos problemas  devem estar lembrados de ouvir muitas propostas , exigências e indignações sobre a mesma. A reestruturação da dívida era considerada pelo  Bloco uma coisa essencial para se sair da crise. Em 2014 o Bloco e o PS acordaram em estudar a reestruturação porque a dívida era um monstro que impossibilitava o crescimento. Era , mas já não é, devem ter tido uma rotação de paradigma  e  agora já são adeptos da gestão em vez da renegociação . Fico contente pelo estudo que fizeram e peço que estudem muito mais , se tivessem estudado o problema da dívida mais cedo as coisas tinham sido mais simples e sobretudo menos turbulentas.

Turbulência é coisa que não há aqui, nem radicalismos de espécie nenhuma. Na foto vê-se o navio escola alemão Thor Heyerdahl que fez aqui uma escala muito curta , e o navio que abastece a ilha quinzenalmente, a atracar.

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A percepção

A percepção é das coisas mais importantes em política , a relação entre eleitos e eleitores, apoiantes a apoiados , governantes e governados , e mesmo entre diferentes forças políticas , baseia-se na percepção que têm uns dos outros e do ambiente à volta.Isto não é tão trivial como parece , porque havendo várias maneiras de interpretar a realidade e havendo a possibilidade de escolher determinados factos em detrimento  de outros , tudo gira em torno do modo como as diferentes pessoas percepcionam e interpretam as coisas, não havendo uma só visão possível.

Trump foi eleito em grande parte porque conseguiu que muito  do eleitorado tivesse uma percepção do estado do país que não corresponde à realidade , um país sob ataque e ameaça, em crise económica , com o poder desgastado , com o Socialismo e o Islamismo à porta , em que há uma campanha para destruir os brancos , a “família tradicional” e os “valores”. Ora isto não são coisas completamente falsas e há um pouco disso , mas não é a situação em que os EUA estão como nação. Uma boa mentira requer sempre uns pingos de verdade .

No tempo em que a troika cá andou a esquerda percepcionou a coisa do seguinte modo : Sócrates e o PS estavam a fazer o melhor que podiam mas  as finanças estoiraram por causa da oposição, que não quis apoiar um plano que dessa vez é que ia mesmo funcionar  ,  e depois as “instituições” desembarcaram na Portela para vender o país aos Alemães e desgraçar o trabalhador português , sob o aplauso de uma classe política da direita que , até se diz sem vergonha nenhuma no Parlamento  ,  vive para  degradar os trabalhadores. São percepções.

Mudou-se de governo , mudaram as percepções . Todo o trabalho feito pelo anterior governo  para  voltar a pôr as finanças à tona e recuperar a credibilidade internacional destruída, que permitiu a este governo ter dinheiro para voltar a distribuir , é simplesmente ignorado , quando não desvalorizado. Coisas que ao anterior governo custavam insultos e exigências de demissões hoje passam sem grandes comoções, mas isso já seria de esperar.

O Primeiro Ministro responde a perguntas importantes com chalaças e uma pessoa que olhe em volta e pergunte , com alguma justificação , mas afinal qual é o plano ,  para onde é que isto vai e quem é que manda mesmo?  em vez de ouvir uma resposta à pergunta ouve gostavas mais quando se cortavam salários e pensões e retiravam prestações sociais , não é? , é o nível mais comum do debate , nível 1 acima de rasteiro , e é suficiente para arrancar os cabelos em frustração.

Se dizemos que o governo previu ,  anunciou e planificou um crescimento do PIB de 2,6% e agora está todo contente porque é 1,4% , ouvimos que é melhor do que economia contrair. Antes ser rico e ter saúde do que ser pobre e doente. Dantes o déficit era uma obsessão daninha , hoje , como está sob controlo , já é um factor crucial a ter em conta.Quando voltar a derrapar vai deixar de ser assim tão importante, as pessoas não são números.

E com isto para a CGD, cuja história continua a ilustrar porque é que é mau haver um banco do Estado.Resumindo:

  • O governo escolheu uma nova administração para a CGD
  • A nova administração não estava interessada em ver os seus rendimentos publicados
  • O governo anuiu em mudar a lei à medida das exigências dos administradores
  • Alguém , ainda vai havendo alguém , se levantou e disse “isso é ilegal, no mínimo”
  • O governo mentiu  e meteu os pés pelas mãos embrulhado na mentira .
  • Os comunistas acham que não há problema
  • Os socialistas dizem que mudar subrepticiamente a lei da gestão de um banco público com centenas de milhões de prejuízo constante é normal e criticar isso são “tricas”.
  • A espécie de Presidente da República disse que em prol da estabilidade é positivo que o ministro fique.
  • O governo explica a questão como erro de percepção mútuo , o que quer dizer que houve um acordo sobre o qual as partes tinham  interpretações diferentes. Isto não lhes parece grave . Nem estúpido.
  • A vida continua como dantes e quem critica estas incompetências  e mentiras é um ressabiado que não está a ver bem .

Recuem  cinco anos e imaginem o ministro Vítor Gaspar apanhado  a tentar mudar discretamente uma lei para servir a sua agenda e a mentir sobre o tema a uma comissão parlamentar de inquérito.Descoberto , imaginem-no  a dizer  que tudo não passa de um equívoco, duas pessoas da mais alta responsabilidade tinham um acordo   mas , que inconveniência , cada um pensava que o acordo era uma coisa diferente. Um erro de percepção mútua , deixem lá essas tricas políticas. Depois imaginem o Cavaco a vir dizer que era preferível ele continuar ministro em nome da estabilidade. Era giro , não era?

Está tudo bem , o Carnaval vai ser outra vez feriado e na capa do DN a notícia é que Marcelo sugere que o novo aeroporto tenha o nome de Mário Soares. Nem sabia que já tínhamos voltado a precisar de um novo aeroporto, e mais importante do que saber mesmo a sério se faz falta ou não e como é que se paga , é como é que o vamos baptizar.

Ser governado assim é um gosto.

Bancos

Se utilizam o facebook talvez já tenham encontrado este vídeo, é um discurso de um deputado do parlamento europeu  sobre os bancos e respectivas malfeitorias. Foi partilhado e visto centenas de milhar de vezes e teve o mérito de explicar a muitas  pessoas o que é um sistema bancário de reserva fraccional , que anda aí há décadas mas , ao julgar pela maior parte das reacções a este discurso, era um segredo conspiratório .

Se forem ver quem é este senhor tão incomodado com o sistema de reserva fraccional  verão que é deputado do UKIP ,  partido da extrema direita Britânica . Vi sempre este discurso partilhado por pessoas de esquerda , muitas delas da esquerda , digamos , aguerrida , que assim me demonstraram mais uma vez que é muito fácil ver os extremos tocarem-se. O meu amigo que quando partilhou este vídeo comentou “quem fala assim não é gago , categoria !” certamente teria outro comentário a oferecer a outro vídeo do mesmo indivíduo a explicar porque é que a imigração é má.  Contradições que passam bem por cima de muitas destas pessoas , que descartam essas incongruências com uma facilidade arrepiante. Pelos vistos pode concordar-se com um fascista em certas coisas , é uma noção interessante , um bocado como aquelas pessoas que escolhem os bocadinhos da Bíblia mais confortáveis e ignoram os mais incómodos e acham que está bem assim.

Voltando aos bancos , este sistema  que utilizamos permite-lhes  emprestar muito mais dinheiro do que está realmente depositado , no prática e simplificando muito permite aos bancos , comerciais e centrais , criar dinheiro. Tal como explica o eurodeputado nesse discurso , é um sistema que se presta a muitas perversões e riscos , como se provou em 2009. Quando a bolha da especulação imobiliária rebentou causando a miséria global que sabemos , na primeira linha do opróbrio estavam os bancos , os canalhas dos bancos. Ainda hoje são o alvo mais fácil de populistas e demagogos de toda a ordem , que ficam mais chocados com o ordenado de um gestor do que com a utilização dos bancos para fins políticos.

Aos que partilham da indignação expressa nesse vídeo , e se revoltam com notícias como a do CM que diz que “a banca leva 1629 euros a cada português”  eu gostava de perguntar : que tal seria a vossa vida sem bancos que podem emprestar o que não têm? 

Pagaram o vosso carro a pronto? A casa onde moram , construíram-na vocês , depois de irem poupando para comprar os materiais? O sítio onde vocês trabalham , é uma organização sem dívidas que opera sem crédito? As obras e serviços públicos que nos beneficiam a todos , terão alguma coisa a ver com crédito concedido ao Estado pelos bancos?  Cartões de crédito e  multibanco , não usam? Certamente que nunca  gastam mais do que recebem ao fim do mês e poupar dinheiro é enfiá-lo na lata dos biscoitos.

Vamos lá a ver , o crédito , goste-se ou não , é a base da economia em que vivemos , até ver, e esse crédito só é possível graças à invenção espantosa que foi a reserva fraccional. Proporciona grandes cambalachos , potencia desigualdades e , lamento desapontar os que olham para a Sociedade como se tivessem sempre 12 anos , pode ser muito injusta , mas é o que nos proporciona este modo de vida , que alguns dizem que é uma miséria ,  afirmando-o  ao teclado do seu mcbook air enquanto escolhem que filme vão ver essa semana , saindo a ruas iluminadas , asfaltadas e limpas , cheias de restaurantes e lojas . Crédito.

É muito fácil aviltar os bancos , quanto mais não seja porque toda a gente lhes deve dinheiro e ninguém gosta de credores ( uma das origens históricas do anti semitismo foi essa , os judeus sempre foram banqueiros) pelo que são os alvos fáceis. Por isso a essas pessoas  que  se escandalizam com as actividades dos bancos eu peço que se escandalizem primeiro com o nosso modo de vida , como indivíduos e como nações , construído sobre o crédito , construído sobre o sistema de reserva fraccional.  Os grandes buracos bancários no nosso país não se devem à reserva fraccional nem à ganancia dos bancos , devem-se ao aproveitamento e controlo político destes , é contra isso que nos deveríamos  revoltar .

Amarras Económicas

Criar valor, produzir , poupar , trabalhar mais e melhor , é o que temos a fazer para sair da crise , diz o Governo e eu concordo , parece-me óbvio. Como quem cria valor e produz são as pessoas e não os Governos , para mim o objectivo deste devia ser criar condições para que as pessoas possam fazer isso em vez de condicionar o modo como o fazem e cobrar-lhes dinheiro por trabalhar. Criar condições passa mais por não estorvar do que por ajudar, o que parece simples mas na realidade é muito difícil , estorvar a actividade económica é das ocupações e rendimentos principais dos Estados em todo o Mundo.
Entre Socialistas que acham que o Estado deve regular , controlar , dirigir e taxar tudo fortemente e Liberais que acham que o Estado deve ser reduzido à sua expressão mínima sobra pouco meio termo . Para as esquerdas mais ou menos radicais esta crise prova que o capitalismo tem que ser restringido e controlado , para as direitas a crise prova que o que tem que ser restringido e controlado é o Estado e a Despesa Pública. Para mim reduzir o Estado é reduzir o poder e a importância de processos e pessoas que têm como motivação principal ganhar e manter poder , ganhar eleições e avançar agendas políticas , pessoas com acesso ao Poder mesmo sendo incompetentes e/ou corruptas. Reduzir o Estado é reduzir senão esta gente pelo menos a sua influência . Restringir o Capitalismo a maior parte das vezes é restringir e taxar a actividade económica , as ideias e processos que criam riqueza, empregos e inovação , a liberdade e facilidade de criar e produzir . Como em quase tudo a virtude está no meio , eu nem quero que o Estado desapareça nem que a Economia fique entregue a si própria e desregulada , mas gostava muito de ver o Estado reduzido fortemente e a Economia solta de amarras . Usando essa imagem náutica , um barco não navega se estiver amarrado , mas nem por isso deve deixar de levar no porão as amarras que vão sempre fazer falta . Têm é que ser boas e usadas criteriosamente , um barco pode sofrer danos numa tempestade no cais se estiver amarrado à toa com 12 cabos e ficaria certinho se amarrado com 6 nos sítios certos. E quando a tempestade passa , retiram-se logo duas e assim que o vento é de feição, largam-se as restantes . Os ultra liberais acham que nem no cais o barco precisa de amarras e que pode navegar à vontade , os socialistas acham que é melhor embrulhar o barco num teia e ir ao mar só pela certa.

Em Julho passado criei uma empresa. Ainda não tinha nem financiamento nem meios de produção mas tinha a ideia e o plano e formalizei uma sociedade por quotas. É relativamente recente a possibilidade de criar uma sociedade com capital social simbólico , achei um avanço separar a criação e formalização das organizações da sua operação. Uma coisa é ter um projecto , outra é ter o capital , como diria o sr.de La Palisse . Bom , passados 6 meses a Companhia está preparada para começar a operar , pelo que o novo contabilista da empresa ( eu tive que ser substituído nessas funções por razões legais e também por incompetência) foi declarar o início de actividade às Finanças. Houve um hiato entre a constituição da empresa e a declaração de início de actividade, pelo que há 150 euros de multa a pagar para regularizar a nossa situação fiscal.Eu sabia que ia precisar de um técnico de contas , e se já tivesse um quando criei a empresa ele tinha-me dito que havia este regulamento, mas eu tinha esta ingenuidade de achar que o senso comum se aplica em regra à Administração Pública e pensei que se a empresa não está em actividade não tenho que declarar nada, quando começasse a contratar , comprar , fazer e vender , ou seja , quando entrasse em actividade , declarava o início da mesma. Parecia- me lógico mas a lógica não é o forte das Finanças e é preciso declarar início de actividade mesmo que não haja actividade .

Deste modo o Estado , ainda antes de eu ter começado a trabalhar e para além das boas centenas em taxas e emolumentos que já me cobrou para reconhecer a minha existência , multa-me porque me atrasei a declarar a minha intenção de começar a trabalhar .