Sofrer até Deus querer

Desejo a todos os deputados que votaram contra a despenalização da eutanásia uma agonia prolongada no leito de morte, já para lá da idade de recuperação possível. Desejo-lhes, a eles  e às famílias, anos e anos de olhar para o tecto sabendo que não há cura, é para a morte que se caminha e há que continuar a sofrer. Porquê? Porque é a vontade de Deus. Como é que temos a certeza disso? Não temos.

Não esperava que este debate e votação fossem acontecer , só quando um grupo do CDS publicou um cartaz em que avisava que “a eutanásia mata” é que percebi que o tema tinha voltado, desliguei outra vez por ter uma boa noção do nível dos nossos deputados e das nossas “campanhas de sensiblização”. Felizmente não houve referendo, já é demais o número de pessoas que confunde eutanásia com eugenismo e o nosso nível cultural , neste tipo de debates, é sempre marcado pela religião. A nação fidelíssima e catolicíssima continua a carregar todos os preconceitos e ideias da sua religião, não percebe nem admite bem os que já deixaram essa religião para trás e pior, continua a querer (e conseguir) impôr as visões religiosas a toda a gente. Levaste àgua pela cabeça abaixo em pequenino e recitaram umas fórmulas mágicas na ocasião? Parabéns, és um católico e daqui em diante tens uma série de coisas que não podes pôr em causa nem questionar.

Tenho a ideia de que a Constituição impõe a separação clara entre Igreja e Estado mas apesar disso , como vimos mais uma vez ontem, muitas vezes o Estado legisla em conformidade com a Igreja, mesmo frente a oposição clara. Façam um exercício intelectual e tentem pôr de lado os argumentos religiosos como a sacralidade absoluta da vida humana e depois avaliem a questão da morte assistida. Em qualquer sistema moral que não esteja prisioneiro de dogmas de religião o caso contra  a despenalização da eutanásia é fraquíssimo, mas o nosso, com todas as hipocrisias inerentes, é de base católica e assim fica.

A minha querida mãe é muito devota e tem muitas expressões engraçadas, aqui há uns tempos, depois de resolvidos uns problemas difíceis que tive, dizia-me uma das suas favoritas: “Deus aperta mas não afoga”. A minha querida mãe acredita e ama um Deus que se entretém a apertar os pescoços das pessoas só para ver até quando é que aguentam, e depois, na sua magnanimidade , omnipotência e amor, larga o aperto e recolhe a gratidão dos seus filhos por não os ter afogado. Isto é hediondo, esta glorificação e aceitação do sofrimento. Mesmo que acreditassemos que as escrituras são a palavra factual de Deus, mas que Deus é esse que se contenta e alegra  com sacrifícios e sofrimento? Alguém me responde ou tem que ser a chapa cinco,  as vias são misteriosas , que dá sempre para tudo?

Defendo que os cristãos, ou os adeptos de qualquer outra religião, devem ter toda a liberdade de seguir, acreditar e praticar o que lhes pareça bom e plausível. Defendo igualmente que os cristãos, e os outros, devem deixar os que não acreditam levar a vida como lhes aprouver e deixá-los arcar com as consequências.  Não façam nada, nunca, que vá contra a vossa doutrina (claro que aqui a hipocrisia abunda e fede, milhares destes católicos anti eutanasia rebentam com outros  mandamentos numa base diária), não participem em nada que vos ofenda, e assim asseguram a vossa integridade.

Agora, deixem é em paz todos aqueles que não têm o mesmo conjunto de regras e que sobretudo não vos querem obrigar a fazer nada. Nem sequer o Estado tinha que intervir na eutanásia via SNS, bastava que autorizassem clínicas particulares a fazê-lo, e pronto, resolvia-se a questão. Mas não, celebre-se um Te -Deum, a justiça prevaleceu e milhares de moribundos agonizantes vão penar por mais uns meses, a custo enorme em dinheiro, ansiedade, tristeza e desgaste das famílias, prolongando assim um fim inevitável. Deus vai ficar certamente contente com todo esse acréscimo de sofrimento que pelos vistos lhe agrada.

Este negar da possibilidade de pôr  condignamente termo a uma existência completa que chega ao seu fim, prolongando o sofrimento humano até já não ser possível, é das coisas mais amorais que conheço na nossa sociedade. Amorais e estúpidas.

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O Ministério da Solidão

Spiritual-Loneliness

Vi a notícia de que o Reino Unido tinha criado o Ministério da Solidão e nem quis acreditar, pareceu-me um sketch de comédia mas é mesmo verdade. Fui confirmar  que os Conservadores continuavam no poder e não os Trabalhistas, que tendem sempre mais a pensar que todos os problemas e questões, sejam económicos sejam sociais, se resolvem com mais organismos estatais, e ainda fiquei mais confundido.

É mesmo  verdade, e a nova Ministra da Solidão é uma senhora que até agora era  Ministra do Desporto, vai acumular as pastas. Começo já por aí , os governos e políticos modernos são sempre polivalentes, de tal maneira que uma pessoa que foi escolhida para tutelar o Desporto é considerada uma escolha natural para se ocupar de um tema como a Solidão, o que o cidadão conclui disto e que a perícia e qualificação em causa é mesmo ser ministro, assim em geral,  se estamos bem ligados, sabemos fazer os barulhos certos e percebemos os meandros da administração pública podemos ser ministros de seja o que for.

Fui ver o CV  da nova  ministra e duas coisas me chamaram a atenção : a primeira é que realmente tem qualificações para Ministra do Desporto, tem o curso de treinadora de futebol e toda a gente sabe que esse é o desporto que interessa. A segunda é o que no fundo a qualifica para Ministra da Solidão, ou de seja o que for: da Universidade saiu para assessora no parlamento e por lá ficou, nunca fez mais nada na vida e por isso tem a experiência correspondente.

Andei a ver notícias e comentários sobre este novo ministério, o primeiro que me saiu foi, sem grande surpresa , um artigo a dizer que a culpa do aumento da solidão é do neoliberalismo. Não podia deixar de ser, todos os dias se confirma que tudo o que é negativo na sociedade contemporânea decorre daí, e por extensão, do capitalismo, ao passo que tudo o que é bom decorre da natureza humana. O artigo começa assim: Anyone who really knows what loneliness is knows it well: that permanent vague aching sensation in your chest …. Tretas!, digo eu que sei uma ou duas coisas sobre solidão, mas se o autor me ouvisse dizer isso ia logo dizer que a chave é “quem sabe verdadeiramente o que é solidão” e como eu acho que a maior parte do artigo são tretas deve ser porque eu não sei verdadeiramente o que é, ele sim.

Nunca deixo de estranhar a relutância em aceitar factos da vida e evoluções sociais sem ter que andar a correr à procura dos culpados, de algo ou alguém a quem apontar para dizer “estão a ver este problema? A culpa é destes gajos”, que faz as pessoas sentirem-se melhor e pensarem que compreendem. No futebol é a mesma coisa, e eu sofro disso às vezes porque o futebol é uma parte da minha vida onde não só aceito como cultivo a irracionalidade: para muita gente nunca perdemos um jogo porque calhou, porque correu mal, porque tivemos azar. Há sempre algo ou alguém a quem se pode culpar. Às vezes é verdade , outras não , mas todos conhecemos quem nunca aceite uma derrota do seu clube e consiga sempre apontar o momento X em que algo alheio ao jogo determinou o resultado.

O Homem evoluiu como animal gregário, tal como os resto dos primatas e outros bichos que ainda vivem em bandos, pela razão  muito simples de que as tarefas essenciais à reprodução da espécie necessitam de esforço de grupo, desde a procura de alimento ao cuidado das crias à defesa de intrusos. Tanto quanto percebo nenhuma espécie animal evoluiria se não fosse pelo menos a dada altura parte de um grupo, nem que fosse  um grupo de dois, o necessário à reprodução. Como  as tarefas da sobrevivência se tornam mais fáceis e produtivas em grupo, foi em  grupo que os primatas evoluíram no caminho para Homo Sapiens. A agricultura, a caça, o cuidado dos pequenos, a transmissão de conhecimentos, a protecção do grupo foi-se fazendo melhor quanto  maior e mais sólido era o grupo, estabeleceram-se hierarquias, organizou-se o trabalho, criaram-se  normas e religiões e em grupo o Homem espalhou-se pela Terra e dominou-a.

A Comunidade é a forma de organização e vida reconhecida como  natural e lógica e a Família a fracção constituinte dessa comunidade. Como isto durou dezenas de milhar de anos é lógico que quem não estivesse integrado num grupo fosse visto como uma anomalia e também é lógico que quem não procriasse fosse visto como não contribuindo com nada para o grupo. Participar nas tarefas colectivas e  procriar, durante milénios era este o sentido da vida. Para muita gente ainda é.

Sucede que as condições e  “regras do jogo” estão a mudar a um ritmo dramático e hoje , ao contrário de há poucas décadas, quem vive sozinho não está condenado nem a uma existência isolada e sub humana nem a ser um peso morto que não contribui com nada. Não só a tecnologia  permite uma vida próspera, produtiva  e preenchida fora de um grupo ou família como muitas pessoas, no número das quais se inclui este vosso criado, encontram satisfação e compensação  na solidão e estão  apetrechadas com  ferramentas espirituais e materiais inconcebíveis há, sei lá, 200 anos, que permitem fazer um cálculo custo-benefício, pôr num prato da balança os inconvenientes da solidão e no outro os inconvenientes de viver em grupo,  e  depois  tomar decisões conscientes.

Viver só não é muitas vezes questão de decisão, se  me perguntam “porque é que nunca te casaste?” eu não digo que decidi ficar solteiro, o que decidi foi, tendo em boa conta essa máxima maravilhosa que diz que mais vale só que mal acompanhado, aceitar sem dramas se a coisa nunca se proporcionasse e não fazer da busca  de um par a demanda de uma vida.

Cada vez há mais gente a viver sozinha e claro que cada vez há mais gente a sentir a solidão, e é por isso que a sociedade cada vez inventa mais coisas para lidar com isso. As redes sociais fervem de gente desesperadamente solitária que ali encontra ilusão de companhia e criticam-nas  por causa disso, mas há cem anos uma pessoa que vivesse sozinha e recebesse uma carta de um familiar ou amigo tinha ali uns minutos de companhia, era a mesma coisa, noutra escala. Vive-se sozinho mas há janelas sobre o mundo ao alcance de todos, formas de comunicação quase perfeitas e um sem número de modos de participar activamente e produtivamente na sociedade mesmo vivendo sozinho, e mais ainda, existem meios para que quem vive sozinho e quer deixar de o fazer possa conhecer e comunicar com literalmente milhões de pessoas nas mesmas circunstâncias e encontrar alguém, pelo que o indivíduo que vive sozinho não deve ser considerado anormal, um triste ou um doente, nem a solidão uma coisa necessariamente negativa. Será negativa para quem não suporta a própria companhia, não se conhece a si mesmo nem esta em paz consigo próprio, isso é outra questão diferente e pessoas assim terão sempre problemas mesmo que sempre acompanhadas.

O problema real e dramático não e a solidão em geral, são as pessoas idosas que se encontram completamente sozinhas no fim da vida sem nunca o terem escolhido nem desejado nem apreciado. A decadência física piora  tudo, vai retirando independência aos poucos e a situação agrava-se com o sentimento de abandono, tantas pessoas que deram tudo e viveram em função de famílias que depois não querem saber deles para nada. Muitos especialistas dizem que este problema é “culpa da sociedade”, eu digo que é culpa de individuos que são umas bestas, não é ” a sociedade” que faz um filho abandonar um pai.

Se é nessas pessoas, nos idosos abandonados, que o governo britânico está a pensar com o seu novo ministério, é positivo, mas ainda assim parece-me  ridícula a noção de que mais uma camada de burocracia estatal vai contribuir para minorar o problema. Não tenho dúvidas nenhumas de que o Reino Unido já possui serviços sociais em quantidade, poder e tamanho suficientes para se dedicar ao problema sem se criar outro ministério. Reforcem-se as redes de apoio domiciliário. Dêm-lhes animais de companhia e condições para os ter.  Melhorem-se e fiscalizem-se as condições dos lares de terceira idade e de outros apoios a idosos sós, não me lembro de muitas funções para o Estado mais importantes que zelar pelo bem estar dos que já deram tudo e merecem um fim digno e em paz.  Sejam criativos,  como os Holandeses, que sem ministério inventaram um sistema em que  estudantes residem à borla em lares de idosos, minorando as eternas dificuldades económicas dos estudantes e alegrando essas casas, dando companhia e movimento aos idosos. É preciso um ministério novo?

Se o governo do UK fosse Trabalhista não tenho dúvidas de que o Bloco ia exigir rapidamente um ministério novo em Portugal, que depois de criar umas dúzias de “lugares” , encomendar uns tantos “estudos” e torrar umas centenas de milhar ia propor mais ou menos o que eu proponho aqui, que de resto não tem nada de original. Como é uma medida dos Conservadores não vão pegar nisso, e ainda bem.

Daqui por 15 dias vou ao lar da Santa Casa aqui das Lajes participar com uns amigos numa sessão de histórias, está-se a trabalhar numa apresentação para alegrar um pouco a tarde daquelas pessoas. Não foi por sugestão da direcção nem de nenhum  ministério, foi por sugestão de indivíduos com compaixão que não precisam do Estado para lhes dizer o que fazer para minorar um problema que está à vista de todos. Entrei lá uma vez, não passei do àtrio   e até me engasguei com o cheiro, uma coisa incrível, nunca pensei, não sei se é o cheiro da morte em espera mas se não é  deve ser  parecido, e nunca mais pensei em lá entrar. Mas vou, aceitei o convite e vou participar pela mesma razão que tento sempre que guie as minhas interacções com os outros ao longo da vida:  faço como  gostava que me fizessem a mim.

 

 

 

O Assessor

Este Natal vou passar algum tempo com os meus sobrinhos mais novos e espero falar com eles sobre carreiras futuras. Existe um sector em que vai continuar a haver grandes oportunidades de avanço e criação, o tecnológico, pelo que a aposta mais segura são as Ciências Exactas e as Engenharias, é por onde passa todo o futuro. Se fossem para enfermagem ou medicina seria sinal de que os ia ver ainda menos, parece que a maioria dos jovens médicos nacionais está só à espera de terminar a especialidade para se mudar para um país que pague o que eles acham que devem receber. Se forem como o tio terão algumas dificuldades naturais com os números e as fórmulas e uma carreira na Ciência será muito difícil.

Vou desencorajá-los das Letras e das Artes, primeiro porque (odeiem-me,  artistas unidos) acho que mais um ou menos um não faz diferença nenhuma, a Humanidade não avança por mais um soneto,  acorde ou pintura. Para me convencerem do contrário teriam que me explicar que a actual  avalanche de produção artística que temos disponível (e da qual não somos fisicamente capazes de usufruir de 1/10 sequer) não satisfaz as necessidades humanas correntes . Tenho para mim que estamos bem servidos, não ganhamos nada em incentivar medíocres e os génios não precisam de incentivos nem se acanham ou recuam por serem desencorajados.

As Ciências Sociais são um bom caminho para duas coisas, primeiro, o que eu escolhi,  perceber um pouco melhor como isto funciona e como é que se sabe como isto funciona. É óptimo para ficarmos cínicos e perdermos a esperança, ou ficarmos militantes  e perdermos a noção. É um caminho de satisfação puramente pessoal, para quem entenda o conhecimento  como um fim em si. Profissionalmente, a saída dos cursos de Ciências Sociais vai estar sempre ligada ao ciclo da governação: havendo socialistas no poder contratam-se mais sociólogos, genericamente falando. Estando os menos socialistas no poder, contratam-se menos, isto muito porque em Portugal quem tem que dar a fazer a sociólogos é o Estado, daí os períodos de expansão ou contracção. Agora estamos em expansão e vamos estar até pelo menos às próximas eleições ou bancarrota, o que acontecer primeiro. A Sociologia não é  a única Ciência Social, é certo, mas dado o tamanho da nossa economia e das nossas empresas, alguém que faça um mestrado em Demografia, por exemplo, tem 99% de hipóteses de trabalhar para o Estado e 85% de hipóteses de esse trabalho ser a ensinar. Inventei agora essas probabilidades  mas não deve andar longe disso.

O Direito é a opção por defeito de toda a gente  que aspira a formação superior mas não tem uma vocação clara e específica,  é aquele curso que dá para fazer de quase tudo e confere o almejado tratamento de doutor assim que se conclui a licenciatura, uma das nossas idiossincrasias mais bizarras . Li há muitos anos que o número de advogados era um dos principais problemas dos Estados Unidos, não será o nosso mas talvez para lá se caminhe, uma sociedade em que  há excesso de gente a argumentar, justificar, criar casos e litigar , tudo coisas que fazem falta mas que não deviam criar a sua própria procura , como é o caso nos EUA. A cultura de processar por tudo e por nada nasce daí, do trabalho infatigável de hordas de advogados que mais não fazem do que procurar rentabilidade em agravos sofridos por outros, reais ou imaginados. Não é muito saudável para a sociedade.

Se os meus sobrinhos não mostrarem uma vocação, talento ou ambição vincada, de serem astronautas ou canalizadores ou cozinheiros ou arquitectos, vou-lhes recomendar vivamente que considerem a profissão de assessor, em Portugal não conheço nenhuma que tenha tantas vantagens e tão poucos inconvenientes.

Assessor:  Pessoa que tem como função profissional auxiliar 

um cargo superior nas suas funções. 

Como não existe nenhum curso de assessor em que se possam matricular quando chegar a altura, vou ter que lhes fazer um plano de estudos e progressão. Começam bem posicionados porque são lisboetas. O governo está em Lisboa, tudo o que importa passa por lá, o resto do país é paisagem pelo que só pelo facto de serem lisboetas já têm meio caminho andado para o topo da carreira da assessoria.

A seguir, a educação. É essencial matricularem-se numa universidade, e quanto mais renomada , melhor. Isto não é  por causa da exigência curricular, é porque é nas melhores universidades que se conhecem os rebentos das elites e se socializa com os aspirantes à casta do governo, sejam os que lá vão parar por morgadio seja por mérito próprio. Depois da matrícula o passo principal é a participação em tudo o que seja “vida académica” aquela expressão que engloba tudo o que os estudantes fazem menos estudar. É preciso entrar nas disputas das associações académicas que rivalizam entre si para ver quem tem maior capacidade de organizar sessões de alcoolemia colectiva e música de merda ao vivo. Este passo é precedido de um muito mais crítico: a inscrição numa juventude partidária. Aqui há que ser pragmático, eu vou-lhes sugerir que se filiem na JS, isto porque pelos meus cálculos quando eles andarem pela universidade já o país foi outra vez à falência e voltou a ser resgatado, estando por essa altura numa fase de expansão, tradicionalmente a fase que cabe ao PS, que nessa altura vai estar a contratar em grande, como agora.

A seguir à filiação na jota e a fazerem o tirocínio na demagogia, combate político e manipulação da comunicação nas brincadeiras das Associações de Estudantes devem prestar alguma atenção ao CV, ou seja, ir fazendo uma ou outra cadeira aqui e ali. Como foi  demonstrado, neste país temos ministros e primeiros ministros com licenciaturas obtidas na Farinha Amparo, só agora alguns ministros e secretários de estado se começam a sentir escrutinados e (primeira grande vantagem do mundo da assessoria) dos assessores ninguém quer saber as qualificações. “Frequência suspensa do curso de Direito da U.Católica” dá perfeitamente.

O passo seguinte, escolher os amigos e ser-lhes leal. Aqui é preciso algum discernimento e não se podem favorecer os amigos mais inteligentes ou íntegros mas sim os mais espertos e desenrascados, sobretudo porque os primeiros raramente acabam na política. Não podem querer aquele das respostas lentas e ponderadas, a aposta é no que tem sempre resposta para tudo e nunca se atrapalha com nada. Os que nunca se envergonham e que adoram falar em público, é desses que o aspirante a assessor se deve aproximar e cultivar a amizade. Quanto maior for o círculo de amigos da juventude e da associação , melhor, é o princípio do networking, é nas “lides universitárias” que se começam a tecer as redes que nos têm a todos  nas suas malhas.  Nesta fase é muito importante não dar passos em falso, e o melhor para isso é não fazer nada, nunca tomar iniciativa nenhuma mas estar sempre disposto a seguir as  iniciativas dos outros, e ser sempre lembrado como um gajo de confiança que colaborava sempre em vez de um  gajo que teve uma data de ideias falhadas e/ou estúpidas e que fazia muitas perguntas. Se se falar pouco também se arriscam  poucas asneiras, pelo que o silêncio colaborativo e o apoio entusiástico a decisões já provadas correctas são fundamentais. É nesta fase que se deve começar a amealhar grande reserva de lugares comuns da profundidade de um  “é necessária uma política de mudança”, e  “queremos incentivar sinergias que promovam a resiliência” porque é essa língua que se fala lá e quanto mais cedo se começar a praticar, melhor.

Se neste espaço de tempo em que constrói a sua rede e aprende o vocabulário o futuro assessor  encontrar tempo para estudar, melhor, e se houver tese, que seja sobre um assunto pertinente ao Estado, tipo “A Influência do Período de Rotação de  Escala nos Recursos Humanos da Administração Pública da África Portuguesa” ou “Práticas de Comunicação Intermodal nas Políticas Contemporâneas de Transportes Urbanos” , temas que não interessam a ninguém nem contribuem para grande coisa mas que conferem lastro ao indivíduo e permitem que este se apresente como “dr não quantos, autor de trabalhos académicos na área da administração pública”.

Ao fim de dois ou três anos nestas ocupações universitárias haverá uma campanha eleitoral, aí o aspirante a assessor tem que dar tudo por tudo e por uma vez mostrar dinamismo e iniciativa, isto porque numa campanha não há muito que inventar : trata-se de fazer barulho, diminuir o adversário e fortalecer o candidato. São sempre precisos “colaboradores incansáveis”, e numa campanha eleitoral o futuro assessor tem oportunidade de provar a sua lealdade, dedicação e capacidade de trabalho, a colar cartazes, distribuir panfletos,conduzir carrinhas com megafones ou a desenvolver  outras actividades do género, tão necessárias à democracia moderna. Não há campanha vencedora sem espólio, e o espólio  tem  invariavelmente a forma de lugares no Estado. O facto de o termo comum ser “lugar” já diz muito sobre este processo. Ora o futuro assessor  tem que ser esperto e nunca se posicionar como candidato a coisa nenhuma, delegado de nada , nem sub nem vice nem, em resumo, nenhuma posição que implique responsabilidade e escrutínio, mesmo que esse escrutínio seja à portuguesa, ou seja, largamente teórico e sempre manso. O assessor deve, isso sim , esperar que um dos seus amigos, ou amigo de um amigo, seja  alçado à tal directoria, ministério  ou vereação para aí sim, ser contratado como assessor e poder descansar.

Um assessor não é eleito e enquanto dura o seu contrato  junta os habituais benefícios do vulgar funcionário público aos abusos egrégios da classe política. Sobre as qualificações do assessor e a sua necessidade só responde quem o contrata, que pode dizer o que quiser e não é obrigado a nada. Se apetecer ao senhor vereador contratar a louraça  que tem o 12º nas Novas Oportunidades mas que é muito amiga do seu amigo, nada o impede de o fazer, mesmo que já tenha 3 assessores.

Como o trabalho dos políticos é fluido, o dos assessores ainda é mais, isto para dizer que esqueçam relógios de ponto ou mesmo horários ou controlo de qualquer espécie , se a assessoria for mesmo boa nem precisam de pôr os cotos na repartição ou direcção geral que ninguém repara e ao fim do mês cai sempre na conta. Se o director geral ou secretario de estado faz merda da grossa ninguém nunca sabe quem é o assessor, ou seja, responsáveis políticos podem eventualmente ser condenados por tropelias várias e ser reconhecidos publicamente como escroques ou incompetentes, mas o assessor ficou lá atrás da cortina, ninguém soube, sabe ou quer saber quem era a figura.

Como não me pagam para isto ( e não me quero deprimir mais) não fui saber o regime de segurança social a que estão sujeitos os assessores nem quais são os seus contratos de trabalho . No entanto sei que é uma excelente opção de carreira , observação confirmada  pelas notícias que têm vindo a público sobre um caso paradigmático deste Festival Nacional da Assessoria , a Câmara Municipal de Lisboa. Podem ler mais detalhes aqui, e chorar .

Além dos que já lá estavam, a CML prepara-se para contratar 124 assessores para apoiar 17 vereadores, o que dá mais de 7 assessores por vereador. Desta fornada de funcionários sem dúvida imprescindível ao bom funcionamento da CML fazem parte muitos indivíduos que eram candidatos autárquicos em listas partidárias mas não foram eleitos, assim se repõe essa injustiça causada pela má vontade e relutância dos eleitores em votar nas pessoas certas. E esta alegre rapaziada que sem dúvida se vai esfalfar em prol do munícipe e chega carregadinha de qualificações técnicas como está bom de ver, receberá até um máximo de 3700€ , começando em todo o caso nos €2500. Se é preciso apoio técnico, abre-se um concurso e contratam-se técnicos especializados para o quadro, mas isto penso  eu que tenho assim ideias delirantes. Na vida real é esta demência de um vereador precisar de 6 ou 7 assessores a mais de 3000€ por mês cada um , e poder contratar pura e simplesmente quem lhe apetecer. Não e preciso ser uma àguia para calcular  que quem fez a lei que gere as contratações foram as pessoas que fazem as contratações.

Quando o arraial acabar o assessor  já terá no seu currículo outra  assessoria, mais o correspondente aumento da sua rede de contactos e favores, e estará equipado para prosseguir na sua carreira. Se o seu partido perder poder há mais de 160 fundações, institutos e outras  instituições públicas em Portugal onde cabe sempre mais um, onde nunca se paga mal e onde se reconhecem sempre os Pais da Democracia e seus afilhados. Além dessas opções não esquecer o grande sector económico do Estado onde jóias da coroa tipo CGD ou RTP estão lá também para isso, acolher  amigos e retribuir favores, e para onde se pode a qualquer hora do dia nomear para assessor um amigo que necessite.

Os assessores nunca são reconhecidos pelo público; nunca são responsabilizados por nada; nunca se exigem respostas ou acções aos assessores; nunca têm que ir a votos nem têm a sua competência ou qualificação questionada. Apesar disso podem ter uma carreira longa e lucrativa, seguindo os progressos e deambulações de um político pelos corredores e caves do poder. Quando isso acabar , ou se eventualmente o patrono do assessor acaba na prisão, pode sempre dedicar-se ao lobbying, a nobre arte de convencer os políticos a fazer o que é melhor para a nossa empresa ignorando o seu dever jurado de fazer o que é melhor para o país. É lindo.

Existe uma variação sobre o tema das assessorias que são os lugares em conselhos de administração, conselhos fiscais, consultivos e outros órgãos de entidades públicas, onde também floresce a arte de fazer pouco ou nada por muito dinheiro. Essas são posições usualmente reservadas à espécie  acima do assessor, um director geral ou  secretário de estado já pode aspirar a uma sinecura dessas para lhe compor o orçamento e tratar do Natal na neve. Que ninguém pense que isto está para mudar, se não mudou com a troika não vai ser agora, e a razão é simples: a classe política nunca vai votar nada que a prejudique, ponto final.

Nesta questão dos lugares públicos de nomeação e do tamanho da administração pública há um facto que eu gosto de referir porque ilustra bem diferenças de cultura e abordagem ao tema : os Estados Unidos da América têm 325 milhões de habitantes e o Supremo Tribunal de Justiça é composto por 9 juízes. Portugal tem 10 milhões de habitantes e o nosso Supremo Tribunal de Justiça tem 64 juízes. Concluam à vontade.

Para terminar quero pedir desculpa aos  assessores públicos que são qualificados, dominam a sua matéria, foram seleccionados por mérito, trabalham horas longas , são íntegros e  têm espírito de serviço público.Há-de haver alguns.

Raríssimas, 2012

Ontem soube que houve uma reportagem de uma televisão sobre uma ONG chamada Raríssimas e pelas reacções que vejo hoje no twitter a reportagem foi boa. Não vi mas não tenho grandes dúvidas do que se lá passa, o nome não me era estranho, fui  aos meus arquivos e encontrei isto, escrito num post que até era sobre a Parque Escolar, outro bom exemplo de descontrolo corrupto.

Ninguém pode ter nada contra este projecto , e até acho que deve receber apoio do Estado. Vi no outro dia uma entrevista da senhora a explicar que as obras estão paradas por falta de verba. Depois vi planos da casa e fotos das obras, só o terreno teve o valor de 2,5 milhões de euros e foi cedido pela câmara municipal, e o que eu pergunto é isto: Se se tivesse sido um bocadinho menos ambicioso , um tudo nada mais modesto , dado um pouco mais de atenção à relação meios/fins , não se poderia já ter a abençoada casinha a funcionar , alojando dignamente as crianças ? Era mesmo preciso aquilo tudo?

Isto foi há 5 anos, de lá para cá calculo que não só  se tenha concluído a palacial “Casa dos Marcos”, com dinheiro do Estado e dos doadores mas também  que a senhora que inventou aquilo tudo se deve ter forrado de dinheiro e benesses que deviam ter sido canalizados para auxiliar as crianças doentes e suas famílias mas foram para embelezar e melhorar a  sua vida privada. Está a ser envergonhada nas redes sociais mas aposto que as centenas de milhar que roubou estão a salvo, e há muitas pessoas sem vergonha que não se importam com minudências como serem julgadas escroques pelo público em geral.

Em 2012 eu não vi ali  corrupção clara  mas vi excesso, desproporção de meios e vaidade pessoal, que são logo bons indicadores que haverá mais coisas mal feitas. Desde logo o problema de se trabalhar com dinheiro doado, seja do Estado seja de particulares, que na maior parte dos casos nunca é tão bem gerido como o próprio. E quando se usam donativos para construir luxo, bandeira vermelha, vai logo contra o propósito e o sentido de “donativo”.  Acredito que mais pessoas tenham reparado nisto mas ou calaram-se ou acharam normal ou os seus protestos e alertas não foram ouvidos, é normal.

São raras as organizações caritativas que não fornecem modos de vida muito confortáveis e prósperos aos seus gerentes e dinamizadores principais. Desde gigantes como a Unicef a ONGs de vão de escada , ninguém duvide que a prioridade primeira é manter a estrutura, como de resto e normal: os donativos vão para a coisa funcionar. Só depois são passados aos recipientes finais dos donativos, e é por isso que o modelo é tão imperfeito, porque as necessidades dos organizadores vão crescendo à medida dos donativos e da ideia da própria importância, e hoje em dia creio que de cada dólar que se dá para as criancinhas subnutridas de África chegarão 10 cêntimos à dita criancinha, o resto fica em salários, rendas , viagens, carros, conferências, enfim , o modo de vida dos profissionais do auxílio humanitário, tudo gente que ainda por cima olha para nós de cima para baixo porque anda a trabalhar para o bem dos outros. Cada vez que vejo no facebook a gajinha branca com as roupinhas coloridas e exóticas abraçada a um monte de miúdos pretos  dá-me logo nervos, é turismo e exibicionismo disfarçado de auxílio humanitário. Gastam €4000 para ir ensinar um semestre de escola primária em Cabo Verde e acham que fizeram alguma coisa de jeito, excepto o enriquecimento pessoal que existe, sem dúvida, mas creio que não era bem esse o objectivo.

Tenho a certeza de que os repórteres de todos os canais tinham para meses se se dedicassem a explorar e expor essa podridão e corrupção que se esconde no sector do  auxílio humanitário e da solidariedade social. Depois da Raríssimas podiam passar à Santa Casa da Misericórdia, instituição criada para auxiliar os mais fracos que agora vai auxiliar um banco que está a falir. Isto, há 3 anos , faria cair o Carmo, a Trindade e o elevador de Santa Justa. Quem propusesse tal coisa era um velhaco neoliberal sem coração disposto a retirar orçamento e a pôr em perigo uma casa de recurso dos desfavorecidos para mais uma vez salvar um banco de gestão ruinosa e corrupta. Hoje ouvem-se os grilos, vai fazer-se a transferência, presumo que em nome da solidariedade social, talvez mesmo da estabilidade. Entretanto ontem vi imagens do Presidente da República a fazer declarações enquanto lhe faziam a barba e um título de uma notícia que informava que o Presidente encontrou um miúdo que, como ele, também dorme pouco. Tudo normal.

Belmiro e a Escravatura

A escravatura era o tema escolhido para o post e comecei a escrevê-lo motivado pelas notícias de que hoje em dia na Líbia se pode comprar uma pessoa por cerca de €400. Entretanto morreu o Belmiro de Azevedo, comecei a ler e ouvir as reacções, todas mais do que previsíveis, e lembrei-me de uma das coisas mais parvas que se dizem constantemente: esta vida (por exemplo a de um empregado por conta de outrem a ganhar o salário mínimo) é uma escravatura, somos todos escravos do sistema/capitalismo .

Primeiro o Belmiro. Bastou-lhe ter sido empresário, criado riqueza, revolucionado indústrias e ter sido patrão de milhares para ser detestado pelas esquerdas mais esquerdas. No mundo em que essas pessoas gostavam de viver ninguém podia possuir mais do que X, ninguém trabalhava sem ser sob direcção do Estado, ninguém fazia concorrência  a nada, ninguém na hora da morte podia deixar o fruto do seu trabalho aos descendentes. Felizmente esse mundo sempre foi  rejeitado e continua a ser, excepto onde o modelo é mantido à força, a única maneira de instalar e manter. Um individuo  no twitter  listou  os talhos e mercearias que fecharam por causa da chegada da grande distribuição, presume-se que preferia o modelo antigo e que ainda faça as suas compras dessa maneira. Não conheço nenhum sítio onde não haja ainda pequenas lojas, não tantas como havia mas ainda há, pelo que os consumidores têm  escolha. Surpreendentemente, escolhem um sítio mais acessível, com mais variedade e invariavelmente mais barato, é estranho.

Depois, este explorador ganancioso e sem coração torrou milhões para dotar o país de mais um jornal diário, no critério editorial do qual  nunca quis ter uma  palavra a dizer. Se não fossem directores passados e presentes a assegurá-lo bastaria  ler o Público para perceber que se a intenção do Belmiro com o jornal fosse guiar a opinião pública para o lado direito a coisa estava-lhe  a correr muito mal desde o princípio. Os políticos passam horas a tentar, com maior ou menor grau de sucesso, influenciar o que se publica nos jornais. Este era dono do jornal e nunca ligou para lá, mas nem isso moveu o Bloco, principal beneficiário do Público, a apoiar um voto de pesar, ao menos pela contribuição para a pluralidade da imprensa.

Outro motivador do escárnio e desprezo pelo homem é a sempre presente inveja, até de um tipo que não nasceu em berço de ouro, pegava ao serviço todos os dias às 8, subiu a pulso e  construiu um império. Os verdadeiros heróis, aqueles que são louvados pela Assembleia da República, são os que nunca criam nem produzem a ponta de um corno, nunca pagam um salário com o próprio dinheiro, nunca são responsabilizados financeiramente pela sua prestação, votam o tamanho do próprio salário e privilégios    e levam uma vida de retórica e teoria, feita de lutar por poder, manter o poder, estender influência e combater os de pensamento oposto . São esses os bons da História.

Em 1997 deixei a universidade, queria fazer outras coisas e precisava de dinheiro. Fui trabalhar para o Modelo como repositor de mercearias. Quem se lembra desses tempos sabe bem que não havia assim muitos empregos para jovens sem formação superior em que fosse só chegar e começar a trabalhar. Os talhos e mercearias de que o outro lamenta a sorte era negócios familiares por definição, que não cresciam nem empregavam. Recebia o ordenado mínimo, subsídio de turno e todas as demais contribuições previstas pela lei. Essa oportunidade que tive de avançar na vida não foi o Estado que ma deu, não foi o pequeno comércio e muito menos algum Gabinete de Observação da Interação Social da Osga Mediterrânica, o género de organismo estatal que hoje prolifera e emprega boa parte da juventude saída das universidades, com ou sem conclusão do currículo é irrelevante, se se tiverem os padrinhos certos e o cartão de militante apropriado para a época. A oportunidade devo-a ao  Belmiro de Azevedo e à sua importação  de um novo modelo de distribuição e serviços. A minha passagem por lá não foi muito longa mas sempre me foi explicado e demonstrado que podia ter ali uma carreira. As carpideiras do salário mínimo ignoram, ou preferem ignorar, que um repositor de mercearias motivado, dinâmico e interessado pode progredir, se eu tivesse queda e vontade para aquilo hoje podia ser director de um Modelo, formado na casa. Claro, não há progressões automáticas de carreira , conceito idiota que só podia existir mesmo no Estado, mas há oportunidade de subir na vida. Há é que trabalhar um bocado.

Irrita-me que se fale de escravatura relacionada com emprego de baixo salário por duas razões, a primeira é que a definição de escravatura está à disposição no dicionário , tal como também está a definição de quem usa conscientemente uma palavra errada para descrever uma realidade. A segunda razão é que existem milhões de escravos verdadeiros hoje em dia, pelo que dizer que alguém que tem um emprego em que ganha pouco é um escravo é uma falta de respeito.

A Líbia tornou-se um estado falhado e agora o passado é irrelevante, a culpa da situação é do Ocidente, nomeadamente do Clinton e do Sarkozy que promoveram a queda do Kadafi. Note-se que o Kadafi não tem culpa nenhuma da situação do país que governou com mão de ferro durante 42 anos, culpado do que se lá passa é de quem o derrubou, que presumivelmente devia ter continuado a tolerar autocracia e tudo o que vem com ela. O facto de os próprios líbios se terem revoltado em massa nunca diz nada aos defensores dessa visão, para os quais meia dúzia de operacionais da CIA com umas malas de dinheiro conseguem levar um povo à revolta, mesmo que se viva  bem no país. O sistema é bom, funciona , as pessoas estão contentes com a vida e as perspectivas de futuro, chegam duas agências governamentais estrangeiras, incendeiam uma nação e rebenta uma guerra civil. Fico sempre fascinado com este raciocínio.

Isto não quer dizer que as potências ocidentais sejam inocentes ou que as suas motivações sejam nobres, alguém que acredite em motivações nobres da parte de algum Estado ou seus representantes deve procurar outro tema para estudar. O que quero dizer é que o facto de haver hoje em dia escravatura na Líbia é apenas o ressurgir de uma pratica cultural  ancestral que apenas tinha sido reprimida. É o relembrar da relação que sempre houve entre os povos árabes do Norte de África e os povos negros do Sul do Saara. Se o Ocidente tem culpa no que se passa lá hoje é a culpa de não ter mantido no lugar um sistema que reprime esses instintos e práticas.

Creio que se vai construir em Lisboa um monumento aos escravos do Império, e eu acho bem, para que se preserve a memória e a noção de que o Portugal ultramarino construi-se muito em cima disso, para que se continue a abandonar  a ideia romantizada do  navegador e colono benévolo, para que se lembre que Portugal foi o país que mais escravos transportou para as Américas. É saudável lembrar isso, não se pode nem deve polir a História.

Em 2008 levei um barco para Mystic , no Connecticut , terra que é inteira um museu marítimo . Como a História que me interessa mais é a naval, conhecia bem os navios negreiros e foi por eles e as suas histórias que o horror indescritível da escravatura me bateu pela primeira vez. Quando a Marinha Real Inglesa começou a caçar os negreiros no Atlântico sabiam que estava um por perto porque se houvesse um negreiro vinte milhas a barlavento eles cheiravam-no , muito antes de o verem. Os navios negreiros, especialmente depois de os Ingleses terem banido o tráfico, eram construídos para  um equilíbrio entre velocidade, capacidade de carga e manobrabilidade, e isso fez  deles dos veleiros mais extraordinários de sempre.

Em Mystic corri tudo à procura de um, em modelo, em planos, em filmes. Nada , o Museu é a cidade inteira, em terra e no mar, e não encontrei uma só referência ao tráfico de escravos na terra que construiu a esmagadora maioria dos barcos usados pelos americanos nesse tráfico. Desde essa visita os EUA tiveram um presidente negro e fizeram um esforço maior por enfrentar a sua História (hoje  a ser paulatinamente desfeito) pelo que talvez já se fale de negreiros em Mystic, mas o que me ficou da visita foi essa vontade de varrer o Mal para debaixo do tapete, coisa que entre muitas outras permite que hoje um tipo que tem um salário baixo e uma vida vazia se considere um escravo.

No debate nacional sobre a escravatura vejo que  para muita gente escravatura é o tráfico atlântico de escravos africanos pelos europeus. Isso é uma visão redutora  e quando vemos em 2017 pessoas a serem vendidas vale a pena lembrar alguns factos que me parece não são suficientemente lembrados:

  • A escravatura existe no Mundo desde que duas sociedades ou grupos diferentes se encontraram e guerrearam.
  • A escravatura está não só prevista como justificada e autorizada no Antigo Testamento e foi a base de algumas das maiores realizações da História, desde a Democracia Ateniense ao Império Romano.
  • Cristo foi crucificado e considerado um inimigo simplesmente por defender que todos os homens eram iguais, logo, pondo em risco a escravatura que era a base de quase  todas as sociedades da época. O que a “sua igreja” tolerou, aprovou e promoveu depois da sua morte no que diz respeito à escravatura fala pelas intenções e motivações reais da mesma.
  • Dado que igreja de Cristo não foi capaz de cumprir a sua mais básica função, fazer com que os homens se amassem uns aos outros  em 1800 anos, coube a argumentos racionais e a homens políticos como Wilberforce ou Lincoln guerrearem contra o flagelo. O clero não liderou nada, alguns clérigos mais humanos participaram nos movimentos anti esclavagistas mas das altas hierarquias, nada.
  • No tráfico Atlântico a maior parte dos escravos embarcados para as Américas eram vendidos aos traficantes europeus quer por árabes que só se dedicavam à “caça” quer por outros africanos.
  • Além destas imagens aterradoras que chegam da Líbia é sabido há muito que nas monarquias árabes do Golfo sempre houve e continua a haver escravos.

Isto tudo para dizer que a verdadeira escravatura  é um fenómeno  muito maior, muito mais enraizado e muito mais actual, que é um insulto grave descrever salários baixos como escravatura e que se há culturas e sociedades que a desprezam há mais de um século, como a nossa, há outras nas quais ainda se tolera e pratica. É a essas que temos que criticar e denunciar, não é a nossa que já fez o que tinha a fazer:  banir e tornar a prática abominável e inaceitável.  Agora resta-nos erguer o tal monumento, explicar às crianças o que é a escravatura mas sem lhes mentir nem fazer passar outra coisa por escravatura, explicar-lhes  o que a nossa nação fez no passado  e perseguir e castigar os que o fazem hoje em dia.

Qualquer homem que crie oportunidades para que pessoas possam ter uma opção para ganhar a sua vida está a fazer precisamente o contrário de um esclavagista: está a proporcionar Liberdade às pessoas. Da minha parte, obrigado Belmiro de Azevedo, houvesse mais como ele.

Centenário da Revolução

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Chato como sou com os comunistas até parecia mal se deixasse passar a data sem dizer nada sobre  os cem anos da revolução bolchevique na Rússia. Estimo que cem anos depois, com a poeira mais do que assente e com duas gerações enterradas, depois de mais de 20 anos para analisar os escombros e  a História, ouvir as pessoas, ver os sítios e contabilizar a  herança, todos já temos uma opinião sólida sobre o Comunismo e o sistema soviético. Algumas pessoas solidificam a sua opinião assegurando-se de que informação que não seja aprovada pelo Comité Central ou que seja posterior a 1989 não deve ser considerada.

A imprensa nestes dias esteve repleta de especiais  e artigos sobre o tema, há para todos os gostos, felizmente. Se estivéssemos num país comunista no dia 7 tínhamos que ir todos para a rua bater palmas, devia bastar dizer isso para encerrar de vez o debate sobre comunismo mas é impossível.

No DN  acharam por bem ir buscar um representante da espécie, nada  menos que o líder máximo dos comunistas portugueses, para falar sobre o tema. O camarada Jerónimo, que  como todos os seus é impermeável aos factos e insiste em ter uma História só para si , brindou-nos com um texto que poderia dar vontade de rir não fora a morte, miséria e opressão que ele nem refere de passagem.

Uma pessoa mais equilibrada podia perfeitamente fazer uma apologia do Comunismo cem anos depois e ao mesmo tempo fazer uma crítica e reconhecimento do mal que foi feito e dos erros cometidos, mas não. É engraçado notar que ele usa os mesmos termos, as mesmas frases, a mesma terminologia quer esteja a falar na Assembleia do República, na festa do Avante ou num artigo de jornal, o tom é sempre o mesmo e as patranhas também, desde a caracterização da revolução de Outubro, envernizada  como um movimento popular, até à velha história dos Bolcheviques terem vencido os Nazis sozinhos. Se apresentarem ao Jerónimo três calhamaços de historiadores credenciados, de três países diferentes, que documentem todo o auxílio material  dos Aliados aos Russos o camarada vai dizer : campanha de desinformação, manipulação e intoxicação, que é como é classificada toda a informação que contradiga a versão aprovada pelo Comité.

Jerónimo apresenta vários números, estatísticas  e listas sobre o extraordinário desenvolvimento tecnológico, económico, científico e social da URSS e uma pessoa (uma pessoa que pense) pergunta: mas então com todo esse desenvolvimento e avanço social porque é que aquilo caiu tudo como um castelo de cartas? As causas, para além de significativos factores externos, radicaram fundamentalmente num “modelo” que se afastou e entrou mesmo em contradição com os valores e ideais do socialismo, tiveram como resultado um grande salto atrás nos direitos e conquistas dos trabalhadores e dos povos.” 

Acho  estranho que o “modelo” que deu tão  bons resultados  afinal fosse  “afastado dos valores e ideais”, e nesta altura alguém devia tentar fazer ver ao Jerónimo  (ou a um  comunista de estimação que por acaso tenham, eu tenho dois)  que ou o modelo era como eles dizem que era e teve bons resultados ou não era , era um desvio e  caiu por causa disso. Defender as conquistas do comunismo para logo a seguir dizer que acabou porque não era bem comunismo é que não pode ser. Não pode ser, se quisermos respeitar a Lógica e  o significado das palavras, mas isso nunca foi o forte dos comunistas.

Sobre os mortos, as purgas, as fomes, os gulags, as limpezas étnicas, a polícia política, as ingerências, as guerras….nem uma palavra. Todos os detractores do comunismo, aos olhos dos comunistas, estão  ao serviço do grande capital , os nossos livros de História são mentira , as entrevistas dos sobreviventes do comunismo são todas mentira . Isto para mim está ao nível da negação do Holocausto nazi  e é uma ofensa à Humanidade.

Se no próximo 28 de Maio aparecesse num jornal um artigo  a enaltecer  partes positivas e  avanços  do Estado Novo havia  motins,  linchava-se o autor e fechava-se o jornal. Até podia tentar equilibrar a peça e falar de colonialismo , da Pide ou da miséria e falta de educação que não valia a pena, foi tudo mau, o fascismo, ou a nossa variedade, foi tão ignóbil como as outras e não se pode dar liberdade aos inimigos da liberdade, fascismo nunca mais e coiso. Entretanto temos um idoso soldador de formação cuja educação foi feita TODA no marxismo leninismo mais retrógrado e ortodoxo que alinha um texto pejado de mentiras ofensivas e ridículas a branquear um dos sistemas e regimes mais assassinos e destrutivos que o Mundo já viu, e é normal, é parte do processo democrático. Incrível. Mais me arrepia quando vejo jovens de 20 anos a debitar a cassete sem falhas, porque um velho comunista ainda é como o outro, viveu os tempos, acreditou, era uma ideia bonita, até arriscou ir preso por ser comunista, o caminho foi longo, custa mudar. Como é que se pede a uma pessoa que esteve presa por ser comunista que renegue o  comunismo? Diferente , muito diferente é ver um jovem de 20 anos a fazer a apologia da URSS e do comunismo,   tem o seu quê de sinistro.

Como Portugal ainda não é um país comunista ainda há debate e podem-se contestar e confrontar opiniões e ideias , e o artigo do Jerónimo foi prontamente seguido por outro artigo, do José Milhazes, a endireitar o registo. Este J.Milhazes foi daqueles que foi para a URSS com os olhos a brilhar e a sonhar com os amanhãs que cantam mas depois de muitos anos lá viu a realidade e tem passado o resto do tempo a contá-la cá e nesse artigo rebate impecavelmente os delírios do camarada Jerónimo.

Muitas pessoas dizem que o comunismo é uma boa ideia que foi mal aplicada. Eu digo que não, que é abominável e seria abominável mesmo se todos os preceitos e princípios fossem aplicados, e a aversão é simples de explicar : o comunismo nega o Indivíduo, desvaloriza o particular e a propriedade privada, obriga à acção   colectiva  e prescreve uma determinada orientação e organização para a sociedade. Eu acredito nos direitos do Indivíduo , na iniciativa e propriedade privada, defendo que a Sociedade não precisa de ser dirigida por nenhum comité central ou regional, que as decisões económicas devem estar nas mãos dos agentes económicos e que as desigualdades são uma característica e não uma anomalia. Defendo que o Estado deve ter intervenção e papel  limitados e que os cidadãos devem ser livres de ir e vir, comprar e vender , ler e escrever , ouvir e falar, tudo coisas que foram sempre impossíveis  no comunismo, e depois estes gajos ainda têm a lata de andar a comemorar os 100 anos da doença.

Tal como critico o Jerónimo por escrever loas aldrabonas sem ser capaz de apontar um defeito também sou capaz de apontar um resultado positivo da Revolução de Outubro: o medo que os bolcheviques instilaram no Ocidente e que levou a muitas evoluções importantes , nomeadamente no campo dos direitos dos trabalhadores. Foi o medo do perigo vermelho que pôs governos e capitalistas no caminho de reformas que beneficiaram toda a gente. É curioso como não foram os comunistas mas o medo dos comunistas a trazer essa mudança, e nem aí lhes concedo muito mérito, primeiro porque é causar mudança por meio de ameaça, real ou velada, e não me parece que seja etica ou moralmente muito meritório, e segundo porque nada nos garante que sem Revolução de Outubro as coisas não iam mudar na mesma. As teorias e as ideias circulavam, as queixas dos trabalhadores eram semelhantes em todo o lado,  e os capitalistas , tal como os comunistas ,  não comem criancinhas e até se diz que alguns têm mesmo um coração.

O número de pessoas que não sabe que Nazi é a abreviatura de Nacional Socialismo  é demasiado elevado, tal como é demasiado elevado o número de pessoas que não consegue ser contra o totalitarismo seja ele qual for, de direita ou esquerda , pela simples razão de ser totalitatismo, que não consegue aceitar que Nazismo e Comunismo não passam de duas faces da mesma moeda com muitíssimo mais em comum do que uns e outros gostavam de dar a entender.

Termino pedindo emprestada a reflexão de uma das mentes mais brilhantes  que o Mundo já conheceu e uma das figuras que mais admiro , Bertrand Russel , que neste texto de 1956 , quando na Europa ainda se podia acreditar na causa, explica sucintamente porque não é comunista .  Se amanhã o dia me correr bem traduzo-o para publicar aqui, porque há que lutar contra ideias más que pelos vistos não morrem, uma pessoa pode pensar que mais vale não lhes ligar e depois quando dá por ela tem comunistas no governo .

Solidariedade Estatal

Entre as primeira reacções aos incêndios florestais que devastaram a região de Pedrógão Grande esteve a  contestação ao “aproveitamento político” das mortes. Qualquer pessoa que salientasse as culpas claras do governo na tragédia era logo  lembrada de que os outros também tiveram culpa. Tiveram, mas agora há só uns que podem fazer algo, os que governam, e esses não fizeram nem uma fracção do que deviam.

O governo disse que estava a ser feito tudo  que podia ser feito e que se iam retirar as devidas conclusões. Nem foi feito o que devia ter sido feito  nem se retiraram  as devidas conclusões, como se viu pelo relatório da comissão de Pedrógão Grande e como se demonstrou pelo regresso da desgraça  na semana passada, ardeu o Pinhal de Leiria e mais uns milhares de hectares e morreram outra vez dezenas de pessoas e animais, de mortes horrendas.

Em vez de passar a ver os incêndios como prioridade nacional  a seguir a Pedrógão Grande o governo, a 1 de Outubro, o fim da época de incêndios, encerrou os postos  de vigia florestal  . Alguém disse que se calhar não era das melhores ideias que já se tinham tido na Protecção Civil e a burocracia , dez dias depois, lá reactivou os postos. Se nenhum cidadão , se nenhum jornalista alertasse para o facto os postos eram para fechar até Maio, pelas contas e planos de uma agência governamental que se ocupa de proteger as vidas dos cidadãos.

Essa mesma agência foi remodelada na Primavera passada com as nomeações de pessoas que talvez não fossem as mais qualificadas e experientes para os postos, uma pessoa tem que questionar o critério. Parece-me senão ideal pelo menos justificado que se nomeiem pessoas de confiança política, mas sempre que esteja assegurada a competência, senão estão a defraudar os cidadãos nas suas expectativas. Mais uma vez não foi o caso, a competência actual da Protecção Civil e do seu belo SIRESP  está tristemente à vista de todos.

Ainda o chão estava quente em Pedrógão Grande, mais ou menos na altura em que o Costa encomendava um focus group à custa do erário público para aquilatar da sua popularidade, um amigo meu de Alcobaça pegou numa camionete, foi à cooperativa agrícola , carregou-a de fardos de palha e abalou para Castanheira de Pêra, uma das terras devastadas pelo fogo.

Desde esse dia, até hoje e sem indicações de parar, todas as semanas o João Luís, agora ajudado por vários outros, angaria e recolhe donativos, compra ração para animais e vai levá-la às populações. Já apareceu na TV, está sempre a “agitar” , a fazer propaganda, a animar as pessoas.Mais importante, constantemente dá conta do dinheiro que recebe e gasta, publica extractos, talões, facturas, todo o dinheiro que lhe entregam para comprar ração. Focou-se numa coisa simples e de primeira necessidade, já levou toneladas de ração, salvou centenas de animais e ajudou a minorar as dificuldades das pessoas que perderam  quase tudo.

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A sua operação é muito simples e é um belíssimo exemplo de solidariedade. Há centenas de milhar de pessoas sem o espírito e a energia do João Luís , que também sofrem com os incêndios e querem ajudar. A maioria desses olha para o Estado, e é má escolha.

Desde o IVA que pagam os donativos para várias campanhas até ao que se gasta na burocracia passando pelos tempos de espera, a solidariedade organizada pelo Estado deixa muito a desejar. Pior do que a pouca eficiência e roubo do imposto, é a selectividade.

O cidadão faz um depósito para “ajuda às vítimas” e o que quer e espera é ver a sua ajuda chegar  às pessoas desgraçadas. O Estado naturalmente sabe melhor, recolhe o junta os donativos e depois destribui segundo o seu critério superior e iluminado.

Ficámos a saber que quem quis ajudar e depositou dinheiro no Bordel na Caixa Geral de Depósitos contribuiu para se renovarem  e melhorarem  os Hospitais de Coimbra  , que receberam meio milhão do fundo de ajuda às vítimas. Renovar e melhorar hospitais é incumbência do Estado e não deve ser feito com donativos de caridade públicos. Se não são capazes de ter os hospitais em condições, admitam. Peçam donativos para isso.   Tenho a certeza de que as pessoas não contribuíram para a renovação dos hospitais, contribuíram para ajudar as vítimas, e esse meio milhão de euros desviados dava , por exemplo, para dar cinco mil euros a cem famílias vítimadas pelos fogos, que não as salva mas ajuda a enfrentar a situação. Cuidados de saúde  já estão garantidos , ou não? Até vem na Constituição, não me digam que este governo não consegue fazer cumprir a Constituição?

Se não conseguem identificar necessidades básicas e imediatas das populações e responder-lhes, como o João Luís e a sua camioneta das rações, peguem no dinheiro e mandem a GNR dá-lo às pessoas, vivo num envelope, elas de certeza que sabem melhor do que o Estado o que é lhes falta mais. A quais pessoas? Comecem pelas famílias que ficaram sem casa e pelos familiares dos mortos, não deve ser muito complicado encontrá-los mas nunca fiando, isto são as mesmas pessoas que compraram helicópteros que nunca voam e a poucos dias de arder o Pinhal de Leiria ainda não tinham lido o relatório sobre o Pedrógão Grande .

Além de ser imoral desviar e usar donativos para fins selectivos também não fica bem usá-los para coisas que são responsabilidade do Estado , como equipamento para os bombeiros. Tal como o Hospital de Coimbra , o equipamento do bombeiros deve ser  financiado pelo Estado, se o governo não consegue, admita-o.

Como parece que o Costa ainda não atingiu, admitir essas falhas do Estado e do governo seria um passo importante para nos proteger a todos de futuros incêndios e outras catástrofes, mas parece-me que mesmo, mesmo fundamental para o país e a merecer atenção e investimento considerável do Orçamento é o descongelamento das carreiras dos funcionários públicos. Invista-se nisso,  para carros de bombeiros e hospitais logo aparecem uns donativos.