Raríssimas, 2012

Ontem soube que houve uma reportagem de uma televisão sobre uma ONG chamada Raríssimas e pelas reacções que vejo hoje no twitter a reportagem foi boa. Não vi mas não tenho grandes dúvidas do que se lá passa, o nome não me era estranho, fui  aos meus arquivos e encontrei isto, escrito num post que até era sobre a Parque Escolar, outro bom exemplo de descontrolo corrupto.

Ninguém pode ter nada contra este projecto , e até acho que deve receber apoio do Estado. Vi no outro dia uma entrevista da senhora a explicar que as obras estão paradas por falta de verba. Depois vi planos da casa e fotos das obras, só o terreno teve o valor de 2,5 milhões de euros e foi cedido pela câmara municipal, e o que eu pergunto é isto: Se se tivesse sido um bocadinho menos ambicioso , um tudo nada mais modesto , dado um pouco mais de atenção à relação meios/fins , não se poderia já ter a abençoada casinha a funcionar , alojando dignamente as crianças ? Era mesmo preciso aquilo tudo?

Isto foi há 5 anos, de lá para cá calculo que não só  se tenha concluído a palacial “Casa dos Marcos”, com dinheiro do Estado e dos doadores mas também  que a senhora que inventou aquilo tudo se deve ter forrado de dinheiro e benesses que deviam ter sido canalizados para auxiliar as crianças doentes e suas famílias mas foram para embelezar e melhorar a  sua vida privada. Está a ser envergonhada nas redes sociais mas aposto que as centenas de milhar que roubou estão a salvo, e há muitas pessoas sem vergonha que não se importam com minudências como serem julgadas escroques pelo público em geral.

Em 2012 eu não vi ali  corrupção clara  mas vi excesso, desproporção de meios e vaidade pessoal, que são logo bons indicadores que haverá mais coisas mal feitas. Desde logo o problema de se trabalhar com dinheiro doado, seja do Estado seja de particulares, que na maior parte dos casos nunca é tão bem gerido como o próprio. E quando se usam donativos para construir luxo, bandeira vermelha, vai logo contra o propósito e o sentido de “donativo”.  Acredito que mais pessoas tenham reparado nisto mas ou calaram-se ou acharam normal ou os seus protestos e alertas não foram ouvidos, é normal.

São raras as organizações caritativas que não fornecem modos de vida muito confortáveis e prósperos aos seus gerentes e dinamizadores principais. Desde gigantes como a Unicef a ONGs de vão de escada , ninguém duvide que a prioridade primeira é manter a estrutura, como de resto e normal: os donativos vão para a coisa funcionar. Só depois são passados aos recipientes finais dos donativos, e é por isso que o modelo é tão imperfeito, porque as necessidades dos organizadores vão crescendo à medida dos donativos e da ideia da própria importância, e hoje em dia creio que de cada dólar que se dá para as criancinhas subnutridas de África chegarão 10 cêntimos à dita criancinha, o resto fica em salários, rendas , viagens, carros, conferências, enfim , o modo de vida dos profissionais do auxílio humanitário, tudo gente que ainda por cima olha para nós de cima para baixo porque anda a trabalhar para o bem dos outros. Cada vez que vejo no facebook a gajinha branca com as roupinhas coloridas e exóticas abraçada a um monte de miúdos pretos  dá-me logo nervos, é turismo e exibicionismo disfarçado de auxílio humanitário. Gastam €4000 para ir ensinar um semestre de escola primária em Cabo Verde e acham que fizeram alguma coisa de jeito, excepto o enriquecimento pessoal que existe, sem dúvida, mas creio que não era bem esse o objectivo.

Tenho a certeza de que os repórteres de todos os canais tinham para meses se se dedicassem a explorar e expor essa podridão e corrupção que se esconde no sector do  auxílio humanitário e da solidariedade social. Depois da Raríssimas podiam passar à Santa Casa da Misericórdia, instituição criada para auxiliar os mais fracos que agora vai auxiliar um banco que está a falir. Isto, há 3 anos , faria cair o Carmo, a Trindade e o elevador de Santa Justa. Quem propusesse tal coisa era um velhaco neoliberal sem coração disposto a retirar orçamento e a pôr em perigo uma casa de recurso dos desfavorecidos para mais uma vez salvar um banco de gestão ruinosa e corrupta. Hoje ouvem-se os grilos, vai fazer-se a transferência, presumo que em nome da solidariedade social, talvez mesmo da estabilidade. Entretanto ontem vi imagens do Presidente da República a fazer declarações enquanto lhe faziam a barba e um título de uma notícia que informava que o Presidente encontrou um miúdo que, como ele, também dorme pouco. Tudo normal.

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Belmiro e a Escravatura

A escravatura era o tema escolhido para o post e comecei a escrevê-lo motivado pelas notícias de que hoje em dia na Líbia se pode comprar uma pessoa por cerca de €400. Entretanto morreu o Belmiro de Azevedo, comecei a ler e ouvir as reacções, todas mais do que previsíveis, e lembrei-me de uma das coisas mais parvas que se dizem constantemente: esta vida (por exemplo a de um empregado por conta de outrem a ganhar o salário mínimo) é uma escravatura, somos todos escravos do sistema/capitalismo .

Primeiro o Belmiro. Bastou-lhe ter sido empresário, criado riqueza, revolucionado indústrias e ter sido patrão de milhares para ser detestado pelas esquerdas mais esquerdas. No mundo em que essas pessoas gostavam de viver ninguém podia possuir mais do que X, ninguém trabalhava sem ser sob direcção do Estado, ninguém fazia concorrência  a nada, ninguém na hora da morte podia deixar o fruto do seu trabalho aos descendentes. Felizmente esse mundo sempre foi  rejeitado e continua a ser, excepto onde o modelo é mantido à força, a única maneira de instalar e manter. Um individuo  no twitter  listou  os talhos e mercearias que fecharam por causa da chegada da grande distribuição, presume-se que preferia o modelo antigo e que ainda faça as suas compras dessa maneira. Não conheço nenhum sítio onde não haja ainda pequenas lojas, não tantas como havia mas ainda há, pelo que os consumidores têm  escolha. Surpreendentemente, escolhem um sítio mais acessível, com mais variedade e invariavelmente mais barato, é estranho.

Depois, este explorador ganancioso e sem coração torrou milhões para dotar o país de mais um jornal diário, no critério editorial do qual  nunca quis ter uma  palavra a dizer. Se não fossem directores passados e presentes a assegurá-lo bastaria  ler o Público para perceber que se a intenção do Belmiro com o jornal fosse guiar a opinião pública para o lado direito a coisa estava-lhe  a correr muito mal desde o princípio. Os políticos passam horas a tentar, com maior ou menor grau de sucesso, influenciar o que se publica nos jornais. Este era dono do jornal e nunca ligou para lá, mas nem isso moveu o Bloco, principal beneficiário do Público, a apoiar um voto de pesar, ao menos pela contribuição para a pluralidade da imprensa.

Outro motivador do escárnio e desprezo pelo homem é a sempre presente inveja, até de um tipo que não nasceu em berço de ouro, pegava ao serviço todos os dias às 8, subiu a pulso e  construiu um império. Os verdadeiros heróis, aqueles que são louvados pela Assembleia da República, são os que nunca criam nem produzem a ponta de um corno, nunca pagam um salário com o próprio dinheiro, nunca são responsabilizados financeiramente pela sua prestação, votam o tamanho do próprio salário e privilégios    e levam uma vida de retórica e teoria, feita de lutar por poder, manter o poder, estender influência e combater os de pensamento oposto . São esses os bons da História.

Em 1997 deixei a universidade, queria fazer outras coisas e precisava de dinheiro. Fui trabalhar para o Modelo como repositor de mercearias. Quem se lembra desses tempos sabe bem que não havia assim muitos empregos para jovens sem formação superior em que fosse só chegar e começar a trabalhar. Os talhos e mercearias de que o outro lamenta a sorte era negócios familiares por definição, que não cresciam nem empregavam. Recebia o ordenado mínimo, subsídio de turno e todas as demais contribuições previstas pela lei. Essa oportunidade que tive de avançar na vida não foi o Estado que ma deu, não foi o pequeno comércio e muito menos algum Gabinete de Observação da Interação Social da Osga Mediterrânica, o género de organismo estatal que hoje prolifera e emprega boa parte da juventude saída das universidades, com ou sem conclusão do currículo é irrelevante, se se tiverem os padrinhos certos e o cartão de militante apropriado para a época. A oportunidade devo-a ao  Belmiro de Azevedo e à sua importação  de um novo modelo de distribuição e serviços. A minha passagem por lá não foi muito longa mas sempre me foi explicado e demonstrado que podia ter ali uma carreira. As carpideiras do salário mínimo ignoram, ou preferem ignorar, que um repositor de mercearias motivado, dinâmico e interessado pode progredir, se eu tivesse queda e vontade para aquilo hoje podia ser director de um Modelo, formado na casa. Claro, não há progressões automáticas de carreira , conceito idiota que só podia existir mesmo no Estado, mas há oportunidade de subir na vida. Há é que trabalhar um bocado.

Irrita-me que se fale de escravatura relacionada com emprego de baixo salário por duas razões, a primeira é que a definição de escravatura está à disposição no dicionário , tal como também está a definição de quem usa conscientemente uma palavra errada para descrever uma realidade. A segunda razão é que existem milhões de escravos verdadeiros hoje em dia, pelo que dizer que alguém que tem um emprego em que ganha pouco é um escravo é uma falta de respeito.

A Líbia tornou-se um estado falhado e agora o passado é irrelevante, a culpa da situação é do Ocidente, nomeadamente do Clinton e do Sarkozy que promoveram a queda do Kadafi. Note-se que o Kadafi não tem culpa nenhuma da situação do país que governou com mão de ferro durante 42 anos, culpado do que se lá passa é de quem o derrubou, que presumivelmente devia ter continuado a tolerar autocracia e tudo o que vem com ela. O facto de os próprios líbios se terem revoltado em massa nunca diz nada aos defensores dessa visão, para os quais meia dúzia de operacionais da CIA com umas malas de dinheiro conseguem levar um povo à revolta, mesmo que se viva  bem no país. O sistema é bom, funciona , as pessoas estão contentes com a vida e as perspectivas de futuro, chegam duas agências governamentais estrangeiras, incendeiam uma nação e rebenta uma guerra civil. Fico sempre fascinado com este raciocínio.

Isto não quer dizer que as potências ocidentais sejam inocentes ou que as suas motivações sejam nobres, alguém que acredite em motivações nobres da parte de algum Estado ou seus representantes deve procurar outro tema para estudar. O que quero dizer é que o facto de haver hoje em dia escravatura na Líbia é apenas o ressurgir de uma pratica cultural  ancestral que apenas tinha sido reprimida. É o relembrar da relação que sempre houve entre os povos árabes do Norte de África e os povos negros do Sul do Saara. Se o Ocidente tem culpa no que se passa lá hoje é a culpa de não ter mantido no lugar um sistema que reprime esses instintos e práticas.

Creio que se vai construir em Lisboa um monumento aos escravos do Império, e eu acho bem, para que se preserve a memória e a noção de que o Portugal ultramarino construi-se muito em cima disso, para que se continue a abandonar  a ideia romantizada do  navegador e colono benévolo, para que se lembre que Portugal foi o país que mais escravos transportou para as Américas. É saudável lembrar isso, não se pode nem deve polir a História.

Em 2008 levei um barco para Mystic , no Connecticut , terra que é inteira um museu marítimo . Como a História que me interessa mais é a naval, conhecia bem os navios negreiros e foi por eles e as suas histórias que o horror indescritível da escravatura me bateu pela primeira vez. Quando a Marinha Real Inglesa começou a caçar os negreiros no Atlântico sabiam que estava um por perto porque se houvesse um negreiro vinte milhas a barlavento eles cheiravam-no , muito antes de o verem. Os navios negreiros, especialmente depois de os Ingleses terem banido o tráfico, eram construídos para  um equilíbrio entre velocidade, capacidade de carga e manobrabilidade, e isso fez  deles dos veleiros mais extraordinários de sempre.

Em Mystic corri tudo à procura de um, em modelo, em planos, em filmes. Nada , o Museu é a cidade inteira, em terra e no mar, e não encontrei uma só referência ao tráfico de escravos na terra que construiu a esmagadora maioria dos barcos usados pelos americanos nesse tráfico. Desde essa visita os EUA tiveram um presidente negro e fizeram um esforço maior por enfrentar a sua História (hoje  a ser paulatinamente desfeito) pelo que talvez já se fale de negreiros em Mystic, mas o que me ficou da visita foi essa vontade de varrer o Mal para debaixo do tapete, coisa que entre muitas outras permite que hoje um tipo que tem um salário baixo e uma vida vazia se considere um escravo.

No debate nacional sobre a escravatura vejo que  para muita gente escravatura é o tráfico atlântico de escravos africanos pelos europeus. Isso é uma visão redutora  e quando vemos em 2017 pessoas a serem vendidas vale a pena lembrar alguns factos que me parece não são suficientemente lembrados:

  • A escravatura existe no Mundo desde que duas sociedades ou grupos diferentes se encontraram e guerrearam.
  • A escravatura está não só prevista como justificada e autorizada no Antigo Testamento e foi a base de algumas das maiores realizações da História, desde a Democracia Ateniense ao Império Romano.
  • Cristo foi crucificado e considerado um inimigo simplesmente por defender que todos os homens eram iguais, logo, pondo em risco a escravatura que era a base de quase  todas as sociedades da época. O que a “sua igreja” tolerou, aprovou e promoveu depois da sua morte no que diz respeito à escravatura fala pelas intenções e motivações reais da mesma.
  • Dado que igreja de Cristo não foi capaz de cumprir a sua mais básica função, fazer com que os homens se amassem uns aos outros  em 1800 anos, coube a argumentos racionais e a homens políticos como Wilberforce ou Lincoln guerrearem contra o flagelo. O clero não liderou nada, alguns clérigos mais humanos participaram nos movimentos anti esclavagistas mas das altas hierarquias, nada.
  • No tráfico Atlântico a maior parte dos escravos embarcados para as Américas eram vendidos aos traficantes europeus quer por árabes que só se dedicavam à “caça” quer por outros africanos.
  • Além destas imagens aterradoras que chegam da Líbia é sabido há muito que nas monarquias árabes do Golfo sempre houve e continua a haver escravos.

Isto tudo para dizer que a verdadeira escravatura  é um fenómeno  muito maior, muito mais enraizado e muito mais actual, que é um insulto grave descrever salários baixos como escravatura e que se há culturas e sociedades que a desprezam há mais de um século, como a nossa, há outras nas quais ainda se tolera e pratica. É a essas que temos que criticar e denunciar, não é a nossa que já fez o que tinha a fazer:  banir e tornar a prática abominável e inaceitável.  Agora resta-nos erguer o tal monumento, explicar às crianças o que é a escravatura mas sem lhes mentir nem fazer passar outra coisa por escravatura, explicar-lhes  o que a nossa nação fez no passado  e perseguir e castigar os que o fazem hoje em dia.

Qualquer homem que crie oportunidades para que pessoas possam ter uma opção para ganhar a sua vida está a fazer precisamente o contrário de um esclavagista: está a proporcionar Liberdade às pessoas. Da minha parte, obrigado Belmiro de Azevedo, houvesse mais como ele.

Centenário da Revolução

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Chato como sou com os comunistas até parecia mal se deixasse passar a data sem dizer nada sobre  os cem anos da revolução bolchevique na Rússia. Estimo que cem anos depois, com a poeira mais do que assente e com duas gerações enterradas, depois de mais de 20 anos para analisar os escombros e  a História, ouvir as pessoas, ver os sítios e contabilizar a  herança, todos já temos uma opinião sólida sobre o Comunismo e o sistema soviético. Algumas pessoas solidificam a sua opinião assegurando-se de que informação que não seja aprovada pelo Comité Central ou que seja posterior a 1989 não deve ser considerada.

A imprensa nestes dias esteve repleta de especiais  e artigos sobre o tema, há para todos os gostos, felizmente. Se estivéssemos num país comunista no dia 7 tínhamos que ir todos para a rua bater palmas, devia bastar dizer isso para encerrar de vez o debate sobre comunismo mas é impossível.

No DN  acharam por bem ir buscar um representante da espécie, nada  menos que o líder máximo dos comunistas portugueses, para falar sobre o tema. O camarada Jerónimo, que  como todos os seus é impermeável aos factos e insiste em ter uma História só para si , brindou-nos com um texto que poderia dar vontade de rir não fora a morte, miséria e opressão que ele nem refere de passagem.

Uma pessoa mais equilibrada podia perfeitamente fazer uma apologia do Comunismo cem anos depois e ao mesmo tempo fazer uma crítica e reconhecimento do mal que foi feito e dos erros cometidos, mas não. É engraçado notar que ele usa os mesmos termos, as mesmas frases, a mesma terminologia quer esteja a falar na Assembleia do República, na festa do Avante ou num artigo de jornal, o tom é sempre o mesmo e as patranhas também, desde a caracterização da revolução de Outubro, envernizada  como um movimento popular, até à velha história dos Bolcheviques terem vencido os Nazis sozinhos. Se apresentarem ao Jerónimo três calhamaços de historiadores credenciados, de três países diferentes, que documentem todo o auxílio material  dos Aliados aos Russos o camarada vai dizer : campanha de desinformação, manipulação e intoxicação, que é como é classificada toda a informação que contradiga a versão aprovada pelo Comité.

Jerónimo apresenta vários números, estatísticas  e listas sobre o extraordinário desenvolvimento tecnológico, económico, científico e social da URSS e uma pessoa (uma pessoa que pense) pergunta: mas então com todo esse desenvolvimento e avanço social porque é que aquilo caiu tudo como um castelo de cartas? As causas, para além de significativos factores externos, radicaram fundamentalmente num “modelo” que se afastou e entrou mesmo em contradição com os valores e ideais do socialismo, tiveram como resultado um grande salto atrás nos direitos e conquistas dos trabalhadores e dos povos.” 

Acho  estranho que o “modelo” que deu tão  bons resultados  afinal fosse  “afastado dos valores e ideais”, e nesta altura alguém devia tentar fazer ver ao Jerónimo  (ou a um  comunista de estimação que por acaso tenham, eu tenho dois)  que ou o modelo era como eles dizem que era e teve bons resultados ou não era , era um desvio e  caiu por causa disso. Defender as conquistas do comunismo para logo a seguir dizer que acabou porque não era bem comunismo é que não pode ser. Não pode ser, se quisermos respeitar a Lógica e  o significado das palavras, mas isso nunca foi o forte dos comunistas.

Sobre os mortos, as purgas, as fomes, os gulags, as limpezas étnicas, a polícia política, as ingerências, as guerras….nem uma palavra. Todos os detractores do comunismo, aos olhos dos comunistas, estão  ao serviço do grande capital , os nossos livros de História são mentira , as entrevistas dos sobreviventes do comunismo são todas mentira . Isto para mim está ao nível da negação do Holocausto nazi  e é uma ofensa à Humanidade.

Se no próximo 28 de Maio aparecesse num jornal um artigo  a enaltecer  partes positivas e  avanços  do Estado Novo havia  motins,  linchava-se o autor e fechava-se o jornal. Até podia tentar equilibrar a peça e falar de colonialismo , da Pide ou da miséria e falta de educação que não valia a pena, foi tudo mau, o fascismo, ou a nossa variedade, foi tão ignóbil como as outras e não se pode dar liberdade aos inimigos da liberdade, fascismo nunca mais e coiso. Entretanto temos um idoso soldador de formação cuja educação foi feita TODA no marxismo leninismo mais retrógrado e ortodoxo que alinha um texto pejado de mentiras ofensivas e ridículas a branquear um dos sistemas e regimes mais assassinos e destrutivos que o Mundo já viu, e é normal, é parte do processo democrático. Incrível. Mais me arrepia quando vejo jovens de 20 anos a debitar a cassete sem falhas, porque um velho comunista ainda é como o outro, viveu os tempos, acreditou, era uma ideia bonita, até arriscou ir preso por ser comunista, o caminho foi longo, custa mudar. Como é que se pede a uma pessoa que esteve presa por ser comunista que renegue o  comunismo? Diferente , muito diferente é ver um jovem de 20 anos a fazer a apologia da URSS e do comunismo,   tem o seu quê de sinistro.

Como Portugal ainda não é um país comunista ainda há debate e podem-se contestar e confrontar opiniões e ideias , e o artigo do Jerónimo foi prontamente seguido por outro artigo, do José Milhazes, a endireitar o registo. Este J.Milhazes foi daqueles que foi para a URSS com os olhos a brilhar e a sonhar com os amanhãs que cantam mas depois de muitos anos lá viu a realidade e tem passado o resto do tempo a contá-la cá e nesse artigo rebate impecavelmente os delírios do camarada Jerónimo.

Muitas pessoas dizem que o comunismo é uma boa ideia que foi mal aplicada. Eu digo que não, que é abominável e seria abominável mesmo se todos os preceitos e princípios fossem aplicados, e a aversão é simples de explicar : o comunismo nega o Indivíduo, desvaloriza o particular e a propriedade privada, obriga à acção   colectiva  e prescreve uma determinada orientação e organização para a sociedade. Eu acredito nos direitos do Indivíduo , na iniciativa e propriedade privada, defendo que a Sociedade não precisa de ser dirigida por nenhum comité central ou regional, que as decisões económicas devem estar nas mãos dos agentes económicos e que as desigualdades são uma característica e não uma anomalia. Defendo que o Estado deve ter intervenção e papel  limitados e que os cidadãos devem ser livres de ir e vir, comprar e vender , ler e escrever , ouvir e falar, tudo coisas que foram sempre impossíveis  no comunismo, e depois estes gajos ainda têm a lata de andar a comemorar os 100 anos da doença.

Tal como critico o Jerónimo por escrever loas aldrabonas sem ser capaz de apontar um defeito também sou capaz de apontar um resultado positivo da Revolução de Outubro: o medo que os bolcheviques instilaram no Ocidente e que levou a muitas evoluções importantes , nomeadamente no campo dos direitos dos trabalhadores. Foi o medo do perigo vermelho que pôs governos e capitalistas no caminho de reformas que beneficiaram toda a gente. É curioso como não foram os comunistas mas o medo dos comunistas a trazer essa mudança, e nem aí lhes concedo muito mérito, primeiro porque é causar mudança por meio de ameaça, real ou velada, e não me parece que seja etica ou moralmente muito meritório, e segundo porque nada nos garante que sem Revolução de Outubro as coisas não iam mudar na mesma. As teorias e as ideias circulavam, as queixas dos trabalhadores eram semelhantes em todo o lado,  e os capitalistas , tal como os comunistas ,  não comem criancinhas e até se diz que alguns têm mesmo um coração.

O número de pessoas que não sabe que Nazi é a abreviatura de Nacional Socialismo  é demasiado elevado, tal como é demasiado elevado o número de pessoas que não consegue ser contra o totalitarismo seja ele qual for, de direita ou esquerda , pela simples razão de ser totalitatismo, que não consegue aceitar que Nazismo e Comunismo não passam de duas faces da mesma moeda com muitíssimo mais em comum do que uns e outros gostavam de dar a entender.

Termino pedindo emprestada a reflexão de uma das mentes mais brilhantes  que o Mundo já conheceu e uma das figuras que mais admiro , Bertrand Russel , que neste texto de 1956 , quando na Europa ainda se podia acreditar na causa, explica sucintamente porque não é comunista .  Se amanhã o dia me correr bem traduzo-o para publicar aqui, porque há que lutar contra ideias más que pelos vistos não morrem, uma pessoa pode pensar que mais vale não lhes ligar e depois quando dá por ela tem comunistas no governo .

Solidariedade Estatal

Entre as primeira reacções aos incêndios florestais que devastaram a região de Pedrógão Grande esteve a  contestação ao “aproveitamento político” das mortes. Qualquer pessoa que salientasse as culpas claras do governo na tragédia era logo  lembrada de que os outros também tiveram culpa. Tiveram, mas agora há só uns que podem fazer algo, os que governam, e esses não fizeram nem uma fracção do que deviam.

O governo disse que estava a ser feito tudo  que podia ser feito e que se iam retirar as devidas conclusões. Nem foi feito o que devia ter sido feito  nem se retiraram  as devidas conclusões, como se viu pelo relatório da comissão de Pedrógão Grande e como se demonstrou pelo regresso da desgraça  na semana passada, ardeu o Pinhal de Leiria e mais uns milhares de hectares e morreram outra vez dezenas de pessoas e animais, de mortes horrendas.

Em vez de passar a ver os incêndios como prioridade nacional  a seguir a Pedrógão Grande o governo, a 1 de Outubro, o fim da época de incêndios, encerrou os postos  de vigia florestal  . Alguém disse que se calhar não era das melhores ideias que já se tinham tido na Protecção Civil e a burocracia , dez dias depois, lá reactivou os postos. Se nenhum cidadão , se nenhum jornalista alertasse para o facto os postos eram para fechar até Maio, pelas contas e planos de uma agência governamental que se ocupa de proteger as vidas dos cidadãos.

Essa mesma agência foi remodelada na Primavera passada com as nomeações de pessoas que talvez não fossem as mais qualificadas e experientes para os postos, uma pessoa tem que questionar o critério. Parece-me senão ideal pelo menos justificado que se nomeiem pessoas de confiança política, mas sempre que esteja assegurada a competência, senão estão a defraudar os cidadãos nas suas expectativas. Mais uma vez não foi o caso, a competência actual da Protecção Civil e do seu belo SIRESP  está tristemente à vista de todos.

Ainda o chão estava quente em Pedrógão Grande, mais ou menos na altura em que o Costa encomendava um focus group à custa do erário público para aquilatar da sua popularidade, um amigo meu de Alcobaça pegou numa camionete, foi à cooperativa agrícola , carregou-a de fardos de palha e abalou para Castanheira de Pêra, uma das terras devastadas pelo fogo.

Desde esse dia, até hoje e sem indicações de parar, todas as semanas o João Luís, agora ajudado por vários outros, angaria e recolhe donativos, compra ração para animais e vai levá-la às populações. Já apareceu na TV, está sempre a “agitar” , a fazer propaganda, a animar as pessoas.Mais importante, constantemente dá conta do dinheiro que recebe e gasta, publica extractos, talões, facturas, todo o dinheiro que lhe entregam para comprar ração. Focou-se numa coisa simples e de primeira necessidade, já levou toneladas de ração, salvou centenas de animais e ajudou a minorar as dificuldades das pessoas que perderam  quase tudo.

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A sua operação é muito simples e é um belíssimo exemplo de solidariedade. Há centenas de milhar de pessoas sem o espírito e a energia do João Luís , que também sofrem com os incêndios e querem ajudar. A maioria desses olha para o Estado, e é má escolha.

Desde o IVA que pagam os donativos para várias campanhas até ao que se gasta na burocracia passando pelos tempos de espera, a solidariedade organizada pelo Estado deixa muito a desejar. Pior do que a pouca eficiência e roubo do imposto, é a selectividade.

O cidadão faz um depósito para “ajuda às vítimas” e o que quer e espera é ver a sua ajuda chegar  às pessoas desgraçadas. O Estado naturalmente sabe melhor, recolhe o junta os donativos e depois destribui segundo o seu critério superior e iluminado.

Ficámos a saber que quem quis ajudar e depositou dinheiro no Bordel na Caixa Geral de Depósitos contribuiu para se renovarem  e melhorarem  os Hospitais de Coimbra  , que receberam meio milhão do fundo de ajuda às vítimas. Renovar e melhorar hospitais é incumbência do Estado e não deve ser feito com donativos de caridade públicos. Se não são capazes de ter os hospitais em condições, admitam. Peçam donativos para isso.   Tenho a certeza de que as pessoas não contribuíram para a renovação dos hospitais, contribuíram para ajudar as vítimas, e esse meio milhão de euros desviados dava , por exemplo, para dar cinco mil euros a cem famílias vítimadas pelos fogos, que não as salva mas ajuda a enfrentar a situação. Cuidados de saúde  já estão garantidos , ou não? Até vem na Constituição, não me digam que este governo não consegue fazer cumprir a Constituição?

Se não conseguem identificar necessidades básicas e imediatas das populações e responder-lhes, como o João Luís e a sua camioneta das rações, peguem no dinheiro e mandem a GNR dá-lo às pessoas, vivo num envelope, elas de certeza que sabem melhor do que o Estado o que é lhes falta mais. A quais pessoas? Comecem pelas famílias que ficaram sem casa e pelos familiares dos mortos, não deve ser muito complicado encontrá-los mas nunca fiando, isto são as mesmas pessoas que compraram helicópteros que nunca voam e a poucos dias de arder o Pinhal de Leiria ainda não tinham lido o relatório sobre o Pedrógão Grande .

Além de ser imoral desviar e usar donativos para fins selectivos também não fica bem usá-los para coisas que são responsabilidade do Estado , como equipamento para os bombeiros. Tal como o Hospital de Coimbra , o equipamento do bombeiros deve ser  financiado pelo Estado, se o governo não consegue, admita-o.

Como parece que o Costa ainda não atingiu, admitir essas falhas do Estado e do governo seria um passo importante para nos proteger a todos de futuros incêndios e outras catástrofes, mas parece-me que mesmo, mesmo fundamental para o país e a merecer atenção e investimento considerável do Orçamento é o descongelamento das carreiras dos funcionários públicos. Invista-se nisso,  para carros de bombeiros e hospitais logo aparecem uns donativos.

Outubro e continuam os incêndios, se calhar a partir de agora já não há uma “época oficial de incêndios”. Dados os resultados não sei bem se declarar uma época oficial ajudou nalguma coisa, sei é que os burocratas adoram essas coisas, em que se produzem discursos , directivas, linhas orientadoras , gabinetes e comissões e quando se vai a ver no terreno está tudo igual ou pior. Como o terreno nunca é nas imediações de Lisboa, que por definição não sofre  fogos florestais, poucos querem saber.

Tal como ainda Pedrógão Grande fumegava e já o governo queria saber da sua popularidade também é normal que nestas últimas eleições se tenham feito boas contas aos votos de sítios ardidos, por arder ou imunes e tenho a certeza de que a maior parte  dos votos vem de sítios isentos de fogos florestais, logo, de pessoas para as quais  os fogos não são grande problema.

Já é um bocado como com o terrorismo, um leitor de notícias na TV começa uma história com ” em Londres  morreram oito pessoas num ataque terrorista….” e o espectador desliga logo a atenção porque já está saturado do tema e Londres é muito longe. Quando ouve “um incêndio de grandes porporções lavra desde ontem em…..” é a mesma coisa, a não ser que seja ao lado da sua casa.

A preocupação do governo com isto é idêntica à do cidadão: diz umas evidências  se lhe perguntam alguma coisa, tipo “é trágico, é uma situação que nos entristece e que tem que ser resolvida” mas daí não passa e a vida segue. Eu não tenho ideia nenhuma do que há a fazer para combater o problema dos incêndios mas esperava que um ministro tivesse, é por isso é que votamos neles e lhes pagamos, porque supostamente sabem mais do que nós e sabem resolver os problemas do país. Supostamente.

Na política partidária é o PSD que está na berlinda, o Passos acabou por se ir embora, a meu ver bem e tarde. Apesar de considerar que já devia ter abandonado a liderança há mais tempo votaria nele outra vez sem problema nenhum, considerando as opções actuais, sobretudo  porque sei  que não há politicos perfeitos e que é tudo uma questão de pesar os defeitos contra as qualidades. No caso dele acho que as qualidades superam os defeitos. Só não lhe perdoo ter tido uma maioria e o governo de um país ansioso por mudar, consciente de que estava num buraco e de que para sair dele era preciso fazer sacrifícios, foi uma oportunidade de uma geração para reformar Portugal mas, não sei se por falta de convicção própria se por cedência ao aparelho e aos interesses instalados as reformas foram caindo pelo caminho. Também no campo da comunicação patinou à grande, o seu governo nunca foi capaz de explicar claramente as causas e consequências das medidas que tomava, nunca foi capaz de saber falar por cima da gritaria histérica e desproporcionada. Sabemos hoje que foi  histérica e desproporcionada porque há hoje casos, medidas, observações e acontecimentos  de teor semelhante  que , simplesmente por ser outro governo em causa, já não incomodam tanto.

De resto, cumpriu uma legislatura, manteve isto à tona, evitou o que tantos queriam: ” seguir a via do Syriza” , via de que agora já ninguém fala e que correu como todos sabemos. Pôs a economia de novo a crescer, o desemprego a cair e ainda conseguiu ganhar as eleições depois de 4 anos de fricção. Não é pouco.

Agora a próxima oportunidade de tornal Portugal mais livre, competitivo, liberal e produtivo só chegará, se chegar, com a próxima bancarrota, altura em que as pessoas voltarão a perceber  melhor a realidade e os limites do endividamento estatal e dos mercados financeiros se tornam outra vez aparentes. Até lá teremos o Estado a inchar,  a gastar sempre mais, a estender a sua sombra a tudo e a aumentar a dívida que já é monstruosa. Que era imprescindível re-negociar mas que por causa de fenómenos paranormais desapareceu do debate e das procupações.

Nos candidatos a líder do PSD só vejo gente que já anda  nisto há 30 anos ou mais, como o Santana Lopes e o Rui Rio, que aparecem para muitas coisas mas certamente que não vêm renovar nada nem propôr nada de muito diferente do que o PSD propôs e fez no passado. Era uma boa altura para um novo partido, esperemos sentados. A Joana Amaral Dias pode criar um partido todos os meses que tem sempre a porta das redacções aberta mas  algum liberal que avance vai ter que lutar o dobro por tempo de antena e remar não só contra a corrente mas contra as nossas  “elites” e a  nossa cultura, não lhe invejo a tarefa.

Entretanto o PS instala-se de pedra e cal no Estado e faz o seu papel,  invulnerável a toda a gama de escândalos, que cá não chegam a ser escândalos, como o da ministra que recebeu uma cantora pop para lhe resolver um problema com um visto. Noutros tempos bradava-se aqui d’El Rei e era indignação certa para semanas, hoje encolhem-se os ombros, é sinal de que Lisboa está na moda e é cosmopolita e que os ministros se interessam pelas pessoas.

Enquanto houver crescimento económico e desemprego em baixa está tudo bem, é um bocado como no clube da Luz onde ninguém quer saber de corrupções, ilegalidades e vigarices desde que a equipa ganhe. Eu também aplaudo crescimento económico e desemprego baixo mas ponho reticências se o crescimento é à custa de mais e mais dívida  e o sector público é o grande empregador.

Uma das muitas experiências de psicologia relatada no livro mais fundamental das últimas décadas  para se perceber como pensamos explica perfeitamente o que se passa em muitas eleições:  perguntaram a um número de pessoas sobre a sua satisafação com a sua vida em geral. A uma parte dessas pessoas era-lhes pedido a dada altura que fossem tirar uma fotocópia. Na fotocopiadora encontravam uma moeda. As pessoas que “encontravam” a moeda revelavam-se muito mais satisfeitas com a vida do que as que não encontravam nada. Se o  simples facto de se encontrar uma moeda é suficiente para alterar a percepção e avaliação da nossa realidade, o que não fará um aumento de 1% numa pensão sobre a nossa opinião sobre o governo. Aos governos espertos basta saber a altura certa de deixar a moeda na fotocopiadora.

Votos

Não é que as filas ou multidões aqui sejam um problema mas a melhor hora para votar  é durante a missa, porque regral geral as pessoas votam antes ou depois, mas raramente das 11 ao meio dia. Estacionei a 10 metros da porta da Casa do Povo, não estava lá mais  ninguém para votar, no tempo que levou a atravessar a sala até à mesa já a senhora com o computador tinha encontrado o meu número de eleitor porque sabia o meu nome. Cumprimentei as pessoas, mostrei o cartão de cidadão e deram-me os boletins.

Conheço grande parte dos defeitos e insuficiências das eleições mas sinto-me sempre bem quando voto num processo organizado, claro e pacífico.Lembro-me sempre de países onde ou os votos não contam literalmente para nada, ou contam e há violência e corrupções de toda a ordem ou então são uma miragem de pessoas que gostavam de poder ter a sua opinião sobre os destinos do país reconhecida e contada. Enquanto houver liberdade de expressão e associação, imprensa livre e a possibilidade de de 4 em 4 anos mudar de governos, já não é  nada mau.

Aqui só o PS e PSD concorrem nas autárquicas, o que simplifica as coisas. O meu anti comunismo não é tão primário ao ponto de não reconhecer que uma autarquia do PC pode ser bem gerida e trabalhar bem mas regra geral e como princípio orientador, quanto menos comunistas organizados melhor.

Aqui há 1325 eleitores, votaram 988, quase 75% , para quem se importa com a saúde da democracia é um bom sinal. Também mostra que as pessoas se preocupam e interessam mais pela junta e a câmara do que pelo Terreiro do Paço. Este ano a margem foi muito grande mas aqui  uma dúzia de votos pode decidir uma eleição. O PS ganhou com 630 votos, o PSD teve 311. Nas últimas legislativas a abstenção foi de 50% , o PCP teve 16 votos, o PCTP MRPP teve um voto, o PNR também teve um voto e eu tenho quase a certeza que sei quem foi o gajo que votou no PNR, um conhecido meu completamente fascista.

 No resto do país não vejo grandes surpresas, o BE deve ter tido 25% de cobertura dos média para 3% dos votos e  nem o Isaltino Morais é uma grande surpresa. Como não tenho ideia de como é  morar em Oeiras não tenho ideia do que pode ter feito  o homem de tão importante para continuarem a votar nele desta maneira , mas esse é um problema das pessoas de lá.

Problema , grande, de outros é o da Catalunha. Lá votaram num referendo ilegal 38% das pessoas, e desses 90% querem a independência. Se os espanhóis mantivessem o sangue frio eram menos espanhóis, mas ao ouvir referendo, secessão e  independência, mandaram a polícia em força. Creio que teria sido muito melhor deixá-los fazer o seu referendo em paz , sempre a informá-los de que não conta para nada,  que até ver e no futuro próximo Barcelona é a capital de uma região parte de Espanha, por isso as coisas seguem como dantes.

Assim criaram “mártires”, opressão ,sofrimento e indignação. O líder dos independentistas é o chefe de um partido que obteve menos de 20%, salvo erro, nas últimas eleições. Respaldado num resultado de um referendo mal organizado, ilegal e sem obedecer pelo menos às normas formais dos referendos, diz que vai declarar independência. Tenho andado a ler sobre estes independentistas e como de costume os projectos são fortes no lirismo , visão e  inspiração mas são fininhos no detalhe. Como se o objectivo fosse a declaração de independência e todo o trabalho é feito para chegar aí , o dia seguinte a esse é muito menos discutido e pensado. Querer declarar independência depois de um referendo assim é de loucos.

O meu desejo é que  avancem depressa para uma conclusão, e só duas coisas podem acontecer : ou a catalunha secede e se torna um país ou permanece uma região de Espanha.

Se declararem a independência uma das  primeira coisas a acontecer  será a saída da UE (já tinha sido explicado aos escoceses o que aconteceria: saem para talvez voltar a entrar) . Tal como no referendo do Brexit, suspeito que a campanha independentista não passou muito tempo a falar sobre o que os catalães podem perder com a independência, talvez na crença de que não há inconvenientes nem custos.

Outra consequência  interessante pode ser no futebol, o FCB há décadas que é patrono, instigador, porta estandarte, eco, veículo e símbolo do nacionalismo catalão. Se se cumprir a independencia o FCB deve passar a jogar um campeonato com adversários do calibre do Lleida ou Espanyol , jogadores catalães naturalmente deixam de poder ir à selecção espanhola e deixam de ser cabeças de série em seja que competição europeia for. Eu achava bonito.

 

 

Negócios Autárquicos

-Vais votar nestas  eleições? , perguntava-me um amigo francês que mora cá

– Voto sempre.

-E votas em quem ?

– Eu  voto sempre contra os comunistas e socialistas, mas nas autárquicas abro uma excepção, voto mais pelas pessoas do que pelos partidos.

-E  nas legislativas,  votas na direita?

-O meu voto aí  não é por uns , é contra os outros. Eu sei que vai dar ao mesmo mas para mim a diferença é importante.

O meu amigo franziu o sobrolho,  tentei explicar melhor com os exemplo de todos os que votaram no Macron para impedir que a Le Pen avançasse, é o mesmo princípio. De qualquer maneira acho a divisão direita/esquerda muito ultrapassada, gostava de ver o debate e a escolha fazer-se entre colectivismo e individualismo ou estatismo e privatismo. Gostava de ver um partido liberal   mas em Portugal não existe política além da luta entre os que controlam o Estado e os que querem controlar o Estado, o papel dele não se discute  e é para continuar assim. Quem me dera estar errado mas isto é uma coisa cultural, pelo menos desde o Marquês de Pombal que o Estado é não o recolhido autor das regras ,o fiscalizador da justiça e o operador da partilha , derradeiro porto de abrigo de infelicidade própria ou pobreza alheia, mas o salvador da sociedade, o motor da economia, o distribuidor mor da riqueza, em suma , o dedo demonstrador do sentido clarificador da História . Um partido que venha reclamar e lutar pela redução do papel e influência do Estado em Portugal vai  lutar contra quase 300 anos de história e tradição, é um combate muito assimétrico.

Nestas eleições autárquicas devo votar no incumbente, tal como nas últimas também o fiz, e o incumbente perdeu. O actual presidente da Câmara é um tipo educado e calmo , comunica bem, representa bem o concelho e as suas políticas são as mesmas dos outros e da região, por arrasto: gerir empréstimos e fundos europeus,  fazer projectos de candidatura a mais fundos, empregar pessoas quer façam falta quer não e em geral manter isto a andar, devagarinho mas a andar. Num município como este não se pode vir com ideias revolucionárias nem rupturas, aliás, duvido que algum município do país seja capaz de alguma ruptura.

O presidente anterior, de outro partido, disse famosamente que “dão-me dinheiro para museus, faço museus”, este não é muito diferente e o critério de investimento rege-se pelo dinheiro que “dão”. Parece que finalmente parámos nos 8 museus num concelho de 1800 pessoas, agora há dinheiro para incubadoras de empresas, faz-se uma, quer faça falta quer não. Os outros não fariam nada de diferente, o PSD é tão  estatista como  o PS pelo que a comparação é entre seis de um e meia dúzia de outro. O PS leva a vantagem de ser o partido do Governo Regional, logo, este tende a favorecer e ouvir mais os autarcas da sua cor .

Por isso os critérios do eleitor nas autárquicas devem ser, a meu ver, os da honestidade e competência. A competência é fácil de avaliar, o cidadão olha à sua volta, compara com o que via há 4 anos, depois vai ver as contas (eu sei que é raro o cidadão que quer ver as contas) e os projectos e decide com esses elementos se há competência ou não. A honestidade é diferente, não está propriamente à vista e é muito mais difícil de avaliar.

Por exemplo, sabe-se agora que o Fernando  Medina, actual presidente e  candidato do PS à Câmara de Lisboa, não só é um às da imobiliária como tem uma sorte dos diabos. Vendeu um apartamento que tinha por mais 36% do que o que lhe tinha custado,  até aí tudo normal, o mercado das casas de luxo em Lisboa está em alta. Depois comprou outro apartamento, maior e melhor, só que desta vez o mercado funcionou ao contrário e a proprietária vendeu-o por 23% menos do que o que lhe tinha custado.

Isso só por si já é suficiente para levantar dúvidas, como é que num mercado em alta (a justificação, clara, para as mais valias que fez com a venda da outra casa) uma pessoa decide vender um apartamento que comprou por 800 e tal mil euros por 600 e tal mil. Ou bem que o mercado está em alta ou bem que o mercado está em baixa, os dois ao mesmo tempo não pode ser. Podemo-nos interrogar  sobre um presidente de câmara que ganha cerca de €3500/mês e compra um apartamento de €650000 mas isso é o menos, sobretudo vendo que a mulher do sr Medina é a sra Stephanie Silva , filha de Jaime Silva, antigo ministro de José Sócrates, adjunta de Medina quando este era secretário de Estado no mesmo Governo e advogada associada sénior na sociedade PLMJ. Uma pessoa não passa uma vida familiar na política a viver de salários mensais, isso está estabelecido há muitos anos e é claro para toda a gente.

Estas informações tirei-as deste artigo no Público, cheio de factos, com o título “Medina fez dois bons negócios com casas em Lisboa”.  Bons negócios, sem dúvida, mas isto leva-me a pensar como seria o título se por exemplo se soubesse que o Passos Coelho tinha feito bons negócios como este. Ou talvez seja um título sarcástico, porque para  além do absurdo de alguém comprar uma casa em Lisboa por 850 mil para a vender por 650 mil com o mercado em alta dez anos depois  há o pormenor de a proprietária vendedora se chamar  Isabel Teixeira Duarte. Por feliz e inusitada coincidência, a Teixeira Duarte, SA  beneficia de  contratos por ajuste directo com a CML.

O que me fez quase cair da cadeira a rir foi que o sr Medina, sem se rir, diz que não sabia que a proprietária tinha ligação  à construtora Teixeira Duarte. Sim,  porque é normal uma pessoa comprar uma casa sem saber o nome do vendedor e além disso Teixeira Duarte é um apelido muito comum e uma marca  insignificante  no meio empresarial. Foi daquelas coincidências felizes.

O sr Medina vai ganhar as eleições e estas negociatas e favores entre políticos e empresários  e a sua impunidade só podem surpreender os ingénuos. Não sei se ele foi bom ou mau presidente, não quero saber de Lisboa para nada, o que não gosto é que me façam de parvo. Nem o senhor Medina , que  acha normal ganhar 3500€ por mês e ir viver para uma casa que vale 850mil, diga o que disser o papel , e que ainda por cima tem a lata descomunal de dizer que não sabia que a senhora Teixeira Duarte tinha ligações à Teixeira Duarte,  nem os lacaios do poder que se apressam a defendê-lo, mostrando assim que acham bem que um político seja favorecido num negócio em centenas de milhar por uma empresa que subsequentemente recebe tratamento preferencial.

Podem embrulhar-me isto tudo em legalês e explicar todos os pormenores que fazem com que esta bosta fumegante seja perfeitamente legal, e também é óbvio que a história aparece por oportunismo eleitoral, mas isso  não muda a verdade: a um político ou governante que recebe favores particulares em troca de favores públicos chama-se CORRUPTO.