O Estado quer saber de ti.

Tenho um velho amigo com uma paixão pelo vinho, começou por ser só apreciador mas aos poucos e poucos tornou-se produtor. Começando com uma pequena vinha e adega antiga da família, que recuperou, adquiriu mais vinhas, renovou a adega, alistou os serviços de um enólogo, deu um nome à produção e tem contado com os muitos amigos com que é abençoado na altura das podas, vindimas e dos trabalhos do lagar.

A vinha era como um passatempo, um pretexto para juntar amigos e apreciar vinho, que como todas as outras coisas, tem um sabor especial  se é feito por nós. O vinho é  presença certa em todas as jantaradas e patuscadas , felizmente frequentes, e um presente apreciado para amigos e conhecidos.

Anteontem falei com ele ao telefone, comprou há pouco outra vinha e está a planear a comercialização. Não lhe dei novidade nenhuma quando lhe recomendei com todas as forças que antes de investir seja o que for nesse sentido se certifique  bem de todas as exigências que lhe vão fazer e dos encargos em que vai incorrer, porque neste país para cada três pessoas que trabalham deve haver uma cuja função é fazer as regras , fiscalizar e cobrar esse mesmo trabalho.

É perfeitamente possível que , contas feitas, o meu amigo ganhe  mais em continuar a fazer o seu vinho para si e a sua família e amigos do que investir e trabalhar mais para o poder vender, enredando-se numa teia de regulamentos, burocracia, taxas e impostos que lhe vão consumir tempo e recursos e assegurar que quando fizer as contas ao fim do ano conclua que mais lhe valia estar quieto, há custos que não se traduzem em números nem quantias mas não é por isso que são menos importantes.

Isto a propósito de uma informação que recebi hoje e que me deixou literalmente estupefacto, e para me espantar em Portugal é preciso muito, por exemplo esta rábula do Berardo não me surpreendeu em nada. Nem em método, nem em protagonistas, nem em resultados nem em reacções e muito menos em consequências.

Como já contei aqui, agora trato de uma unidade de Alojamento Local, perfeitamente legalizada, tal como o meu trabalho . Hoje à conversa com um amigo que tem uma dessas unidades ele pergunta-me:

-Preenches os papéis do SEF?

-SEF? Não, ninguém me falou disso, não sei nada.

-É obrigatório, tens que guardar cópia da identificação dos hóspedes, preencher um impresso para cada um e introuduzir os dados no sistema deles.

-A sério? Deve ser só para os extra comunitários…

-Olha que não…

Fui confirmar com outros amigos, que estão a entrar em desespero com as exigências burocráticas e fiscais  que se amontoam e lhes consomem horas, e é verdade, mas não se fica por aí.  O Estado, depois de desenhar arbitrariamente regras para permitir a instalação de um negócio, tantas vezes regras  idiotas como a exigência de uma televisão; depois de subir as taxas até ao máximo; além de querer saber quem são os  clientes e guardar os seus dados,  exige que nós mesmos introduzamos esses dados no seu sistema informático e declaremos regularmente e detalhadamente a frequência e rendimentos do nosso estabelecimento. Quando, a quem e por quanto. Todos os clientes , nacionais, europeus ou não europeus.

Ora, eu sou liberal mas não sou  libertário  nem acredito na desregulação absoluta, acredito na necessidade de  regras e na inevitabilidade e utilidade dos impostos mas isto ultrapassa os meus limites do que é aceitável, porque da última vez que verifiquei existia livre circulação de pessoas e bens no espaço da União Europeia e um cidadão tem direito à sua privacidade. Dizem-me agora que o Estado exige saber e registar quem viaja, onde fica e a que preço, é demais.

Se estes selvagens continuarem no poder, que é o mais provável, dentro em breve vamos ter que introduzir no Grande Irmão os recibos de todas as nossas despesas, submeter o itinerário das nossas deslocações e declarar todos os nossos consumos. Devem acompanhar isto com questionários sobre as nossas preferências e hábitos, que de resto os algoritmos já devem ser capazes de fazer pelo nosso uso de smartphones, cartões bancários e redes sociais , e assim poder assegurar a Sociedade Harmoniosa, como de resto já se faz na China, onde ao cidadão é atribuído um “score social” , recolhido pelos métodos de sempre do socialismo e no fascismo : vigias e informadores, que hoje são electrónicos, incansáveis e abrangentes. Já chegámos às portas da distopia totalitarista, e eu só reparei no ponto a que se tinha chegado quando me bateu à porta e me foi  exigido que participe.

O nosso governo actual regala-se com a criação de Comissões, Observatórios, Secretarias, Direcções Gerais e Autoridades, onde se acolhem e trabalham aqueles cuja vocação e função é controlar, fiscalizar e condicionar.   George Orwell devia ser leitura obrigatória nas escolas, se o objectivo fosse educar e não replicar e aceitar.

Como disse, não fazia ideia desta exigência aos ALs, que faz lembrar os métodos das ditaduras, mesmo a quem como eu nunca viveu sob uma. Vou informar a minha patroa, que creio também não ter conhecimento disto e creio que vai ter um choque. Vou-lhe dizer duas coisas, a primeira é que tenho vergonha de pedir a identificação aos hóspedes e de lhes explicar a razão, a segunda é que essa tarefa suja não estava prevista no nosso acordo de trabalho e para pedir e processar esses dados, para  fazer o trabalho nojento do Estado, que me custa em tempo e dignidade, vai ter que me pagar mais, lamento.

Não fora a necessidade do dinheiro e dizia-lhe que não contasse comigo, mais depressa ia lavar as retretes do que ser o sabujo que regista e comunica ao Estado quem vem e quem vai. Vai-me custar tremendamente a primeira vez que tiver que pedir a identificação e explicar a razão por que o faço, há coisas em que o Estado nos agride materialmente, como com a cobrança coerciva dos impostos que sustentam a Casta, mas isto é uma “agressão filosófica”, uma agressão aos meus princípios e aos princípio de toda a gente que acarinha Liberdade e Privacidade . Ainda nem estou bem em mim.

O facto de para a maioria das pessoas isto ser uma questão trivial é uma das razões pelas quais chegámos aqui.

 

 

Outra vez

Os protestos, manifestações, motins e arruaças são uma tradição francesa, e políticos a ceder sob pressão também  . Desde que me lembro de acompanhar política que vejo  tentativas e propostas de reforma que são anunciadas como cruciais e pouco tempo depois são abandonadas porque há muita gente na rua, e a rapidez com a qual são abandonadas é proporcional à violência das manifestações. Dantes só os sindicatos dos transportes conseguiam encravar o país e assim chantagear o governo para manter a sua situação priviligiada, agora está ao alcance de qualquer organização formal ou informal que reúna os números e cause os danos necessários. Não há nenhuma medida de nenhum governo que não possa ser apresentada como prejudicial, pelo que é tudo uma questão de convencer um número suficiente de pessoas de que é uma coisa óptima ou uma catástrofe. Hoje em dia é muito mais fácil de fazer qualquer dessas coisas e os que trabalham em função de narrativas simples levam sempre vantagem.

O Macron enganou muita gente, incluindo a mim, com uma imagem, percurso e discurso que prometia uam mudança na política como de costume e prometia vontade  de mudar mesmo que isso doesse. Não cedeu logo à primeira mas foi quase , e declarou uma moratória de seis meses no aumento dos impostos. Os franceses podem ter o seu  festival de consumo da época sem se procuparem muito com os 20 ou 30€ a mais que iam gastar na gasolina e que foi o suficiente para incendiar carros e bloquear a via pública. Os manifestantes podem justamente declarar vitória em toda a linha,  preparar-se já para mobilizar para a próxima medida que lhes desagrade e instituir  na prática o Governo pela Multidão.

Observemos um minuto de silêncio pela democracia representativa e pelo eclipsar de qualquer resquício de coragem que ainda houvesse nos políticos que nos governam, que não se importam de inverter uma decisão que há poucos dias diziam ser estudada , justificada e necessária e nunca , mas nunca querem falar das verdades inconvenientes nem tomar decisões difíceis. Eles têm o futuro assegurado, o resto das pessoas não, e não há motim nem manifestação que mude isso.

 

 

Mais vale Tarde

Tenho tido  surpresas engraçadas nestes dias, por exemplo ontem o Pablo Iglésias disse que “a situação na Venezuela é terrível e não mantém o que disse”  sobre o Bolivarianismo. Tem piada, eu mantenho tudo o que disse, e tudo o que já dizia ainda no tempo do Chavez, e não consigo conciliar a ideia de uma pessoa inteligente com demorar 10 anos a perceber que aquilo não podia de maneira nenhuma correr bem. Por cá os apoiantes do Chavez e do Maduro ainda (que eu saiba) só falam das “derivas autoritárias” do Maduro, mas falta um bocado para virem admitir com todas as letras e humildade (talvez por não a terem) que estavam errados. Admitir erros  já é difícil para o cidadão comum, para um político deve ser uma amargura, por isso tantas vezes se enterram ao tentar cavar uma saída do buraco onde se meteram.

No tempo da crise da dívida grega gastei aqui muita electricidade a escrever opiniões  sobre o Alexis Tsipras & seu conjunto e sobre as posições dos nossos políticos sobre o tema. Os anos passam, os interesses mudam, já ninguém quer saber do Syriza para nada, já não são exemplo para ninguém, mas muita gente ainda se lembra da farsa que foi o processo todo. Há pouco tempo vi uma notícia que me lembrou desses tempos, há outras crises de dívida externa no horizonte e movimentações entre a Finança e os Estados, no caso a Itália. Confesso que não estava nada à espera de ler isto:

Tsipras avisa Itália: “Cedam agora, depois será pior”

Ainda não digeri, dividido entre o reconhecimento pela coragem dele de  dizer o que nunca é dito, admitir que estava errado e ter o pragmatismo para aprender e mudar com a sua experiência, e a lembrança clara do populismo atroz e do que a sua ideologia fez atrasar a recuperação grega e da acrimónia que causou na UE. Presumo que já não haja delegações do Bloco a ir lá abraçá-lo.

Lembrei-me de que em 2011, um mês antes do governo Português enviar a famosa cartinha à Troika,  andava eu pela costa da América do Sul e depois de passar  uma vista de olhos pela imprensa entre duas tiradas de 15 dias no mar escrevi aqui isto:

“Vamos ter que recorrer ao FMI , ou ao novo Fundo Europeu , e quanto mais tarde mais caro nos vai sair , mas isto nao ‘e obvio para nenhum politico que eu tenha ouvido.”

Ora, um curioso, medianamente atento à realidade e sem formação nem experiência na área já percebia uma coisa tão básica, mas estes iluminados em posições de governo não alcançam, marram de frente, insistem em ilusões e utopias e arrastam-nos a todos com elas.

Por cá estes exemplos de perceber as coisas tarde e más horas são, entre outros, as reacções à recente vaga de greves. Não há falta de broncos e de gente intelectualmente desonesta  que há 5 anos aplaudia a luta dos trabalhadores pelos seus direitos e hoje diz que as greves do sector público são instrumentalizadas e prejudicam demasiadas pessoas. Perceberam agora, o que não abona a favor da inteligência dessas pessoas. Existe outra abordagem, que é passar directamente ao argumento imbecil sem pedir desculpa, como fez por exemplo a Mariana Mortágua ao explicar que estas greves são sinal de esperança . Até 2015 as pessoas faziam greve por desespero, para lutar por direitos que estavam ameaçados ou desrespeitados, hoje fazem para dar um sinal de esperança.

Pela minha parte, não mudei de opinião quanto às greves do sector público só por o governo ser outro, continuo a acreditar que são um modo de pressão de uma minoria ínfima e privilegiada que não tem escrúpulo em prejudicar centenas de milhar para atingir objectivos pontuais, orquestradas por pessoas cujo sentido da vida é a agitação social. Valerá talvez a pena lembrar que este governo tomou posse como garante da paz social, que nos diziam só ser possível com um governo de esquerda. Há 47 pré avisos de greve até ao fim do ano, não sei onde é que vamos parar com tanta esperança .

Para coroar este belo ramalhete de descobertas tardias e hipocrisias capazes de induzir vómitos, o Primeiro Ministro descobriu agora que “Não podemos ter a ilusão de que a economia a crescer torna tudo possível”

Aqui há 5 anos, no meio de uma recessão feroz e sob intervenção estrangeira, este indivíduo e os seus sequazes ululavam contra cortes orçamentais e martelavam que se podia fazer diferente, que toda a gente podia viver melhor. Outra via, até louvavam o Tsipras . Descobriu agora, este traste que nos está a conduzir depressa à próxima bancarrota, que não pode haver imediatismo e que nem sequer uma economia a crescer torna tudo possível.  Vai ganhar as próximas eleições, porque até ao fim do ano que vem, se não houver nenhuma catástrofe séria,  o BCE vai manter os juros a 0% pelo que pode continuar a sã política de carregar as gerações futuras com dívida para contentar as clientelas e manter o PS firmemente ao leme de um estado em expansão. Por isso e porque a oposição é confrangedora, estamos condenados. Os serviços públicos desmontam-se porque há dinheiro para salários e regalias mas já não chega para manter o equipamento de que os recipientes desses salários precisam para trabalhar, como é por exemplo o caso da CP.

Sobem os impostos, o poder de compra do português médio já é menos que antes da crise, aumentam-se os funcionários públicos, multiplicam-se as comissões, gabinetes,  grupos de trabalho e organismos que não produzem nada a não ser discurso, afogam-se com regras e impostos sectores promissores como o alojamento local para apaziguar os dementes do marxismo leninismo, o Parlamento envergonha toda a gente com as fraudes e corrupções, que o seu presidente não só tolera como encobre, o Presidente da República é um invertebrado que só que ser amado, não se fazem reformas e no dia em que se acabar o dinheiro emprestado para manter toda esta rapaziada, lá irão de chapéu na mão humilhar-nos mais uma vez. A culpa dessa desgraça será de todos menos deles, e recomeça o ciclo. Gostava que daqui a dois anos viesse revisitar este post e admitir que estava errado, era bom sinal para todos nós.

“Reformar uma organização é como deslocar  um cemitério: não se pode contar com a ajuda dos que lá estão”.

Paris já está a arder?*

Escrevi um rascunho deste post a semana passada, tinha ido beber um café, coisa que não faço todos os dias e muito menos no Inverno, e na TV passavam imagens de uma carga da polícia de choque nos Campos Elísios.Fiquei a ver um bocadinho, com um certo gosto por várias razões. Uma , são franceses , que como povo não me são simpáticos. Duas,  já estou na fase de acreditar que isto não pode de maneira nenhuma continuar  em paz,  uma paz que me parece que ninguém valoriza.Quer-me parecer  que  ninguém ouve os centristas e os moderados e que cada vez há mais gente que acredita que a solução para as suas dificuldades do dia a dia passa por uma espécie qualquer de ruptura violenta.

Já tinha visto que havia manifestações e protestos, muita  gente anda a partilhar uma informação que acho muito relevante, creio que em França o salário mínimo são 1400€, a gasolina subiu para um preço ainda menor do que o que nós pagamos e esse aumento dos combustíveis foi o suficiente para inflamar a rapaziada. Também é sabido que em França proliferam grupos de , digamos, jovens desenquadrados e marginalizados, noutros sítios conhecidos por corrécios e delinquentes, de várias cores e religiões cujo sentido da vida é a bordoada, eles até têm um nome para isso e desde há muitos anos que podemos ver o que se tornou uma tradição de ano novo dessa juventude : incendiar automóveis às centenas. São jovens incompreendidos e rebeldes dizem uns , são delinquentes comuns dizem os reaccionários radicais. Juntando isso às taxas de desemprego jovem e aos subsídios estatais que fazem com que estar desempregado nem seja  assim um drama muito grande para muita juventude, quer  dizer que mão de obra para motins e distúrbios nunca falta.

Antes das últimas eleições francesas  um canal  que eu via de vez em quando  em casa do meu vizinho mostrou  um trabalho de “opinião pública”, entre outros entrevistou duas famílias de férias a almoçar numa esplanada, o operador de câmara foi mauzinho e mostrou a mesa cheia de marisco e vinho branco e aquelas bestas, que tinham feito centenas de kms nos seus carros do ano para gozar as suas férias na praia com mariscadas, nem viam o absurdo e o insulto que era  queixarem-se de que as coisas estavam muito mal, os seus direitos ameaçados e o nível de vida a cair. Os famosos “protestos de barriga cheia” , que nós conhecemos tão bem, sempre foram das coisas que mais asco me deram.

Para muitas pessoas estes protestos em França por pagarem o gasóleo mais barato que o nosso enquanto  ganham o dobro querem  dizer que nós somos uns tansos e mansos, a mim diz-me que os franceses, que acham que inventaram o protesto popular,  ainda acreditam que distúrbios, bloqueios e manifestações lhes resolvem o problema, e quando não têm um problema inventam um.

A quem acha que resolvem,  quero lembrar o mais famoso dos protestos revolucionários de sempre, precisamente a Revolução Francesa. Em 1789 os revoltosos derrubaram o regime com um banho de sangue e a boca cheia de Liberdade, Igualdade e Fraternidade  e  em 1804 , meros 15 anos depois (faz hoje anos, por isso peguei no rascunho e publico isto), estavam a coroar Napoleão Bonaparte Imperador dos Franceses  e o homem  já estava bem lançado no seu projecto de ser Imperador da Europa. Foi um projecto que nós pagámos com muito sangue e tesouro, por três vezes, mas os amigos são os franceses e os pérfidos são os ingleses. Ainda ninguém me conseguiu  explicar porque é que um imperador é melhor que um rei mas aquela gente ganhou a fama de ser a pátria da liberdade  depois da Revolução e pronto, assim ficou.

Vi  há pouco um pequeno clip de umas dezenas de manifestantes com o colete amarelo a dançar  a macarena no meio de uma auto estrada. Eu acredito que se as coisas estão más ao ponto de se bloquearem as vias públicas, restringir o movimento de toda a gente e confrontar a polícia, o caso é muito grave e  a luta é séria. Se transformam aquilo numa palhaçada, lá se vai a credibilidade e simpatia. Noutro tom, vi instalada uma guilhotina em tamanho real  na praça do Louvre, e  chamem-me o que quiserem mas eu estou sempre do  lado oposto aos que gostam de execuções públicas, reais ou figuradas. (nota:  foi em 1977 que os franceses guilhotinaram uma pessoa pela última vez, lembrem isto quando vos vierem com merdas sobre os franceses e os direitos humanos)

É claro que parte daquele arraial é  feito pelos que não fazem outra coisa e vivem para o protesto e as manifestações, incluindo hooligans, neo nazis, bolcheviques modernos, socialistas revolucionários e muitos outros que acham que é a coisa francesa a fazer, mas tem que haver líderes e organizadores e gostava de saber se algum jornalista já foi perguntar a esses cabecilhas e porta vozes, dado que todos exigem a demissão do governo, qual é que é o plano para o dia seguinte e em que medida é que a demissão do governo vai fazer baixar o preço da gasolina ou aumentar os salários ou baixar os impostos, a menos que esta gente toda acredite, como é muito possível, que os governos imprimem e distribuem o dinheiro que querem e controlam toda a economia.

Causam-se prejuízos de milhões, lança-se o caos na vida de centenas de milhar, cai o governo,  e depois? Avança o homem ou mulher providencial com a bala de prata, a panaceia para os males modernos? Ou somos adeptos do para já vamos assim e depois logo se vê? É que eu aplico esse princípio muita vez na minha vida, mas acredito que não se pode nem deve trabalhar assim na gestão dos Estados, nunca dá bom resultado. Exemplo bem actual, o descalabro do Brexit.

Os franceses são dos povos mais ricos e que têm vidas mais confortáveis no mundo inteiro, fazerem esta destruição e caos  por causa do aumento da gasolina, ou porque estão descontentes com a economia e o aumento de preço foi o catalisador  é, entre outras coisas, uma certa falta de respeito e consideração por sociedades em verdadeira crise, seja económica, social ou política.

E ainda há aqui outro problema: somos todos muito democratas, concordamos que a democracia representativa é o melhor regime possível e gostamos de ter regularmente eleições livres… excepto quando não são os nossos que são eleitos ou quando a realidade não se mostra conforme as nossas expectativas, aí passa ser legítimo derrubar governos nas ruas. O governo agora ou reprime e aguenta ou vacila e cede , não é uma escolha que eu gostasse de ter que fazer. Com o meu pacote de pipocas na mão gostava de ver mesmo Paris a arder,  o governo a cair e o poder passar para as mãos de um comité de cidadãos numa praça, com a boca cheia de slogans, abstracções e demagogia, pronto a duplicar os salários e cortar em metade os preços por decreto. Passados meses entraria um Melenchon , que é um Maduro com educação e sofisticação; ou uma Le Pen, que é o Trump de saias e  alfabetizado. Quero ver isso, e quero ver esta gente toda que hoje  berra e rasga as vestes com as malfeitorias da União Europeia, quero vê-los a lidar com a alternativa.

 

 

*Paris já está a arder ? é um livro sobre a libertação de Paris dos nazis, depois da derrota vergonhosa, rendição e anos de colaboracionismo entusiástico pontuado por episódios de resistência esporádica e organizada, financiada e treinada pelos ingleses e americanos. Outras pessoas interpretam esses anos de outra forma e não tem muito a ver com a situação actual, escolhi-o para título porque soa bem nesta altura.

Uns e os Outros

Uma moça daqui está de férias escolares e queria ir trabalhar num restaurante à noite. Os donos do restaurante são pessoas que fazem tudo direitinho  e foram inscrevê-la para pagar a contribuição para a Segurança Social. Foi informada de que se fizesse esse trabalho, mesmo que em part time nas férias, perdia o direito à bolsa de estudo que tem.

Uma bolsa de estudo é incompatível com um part time nas férias, assim se criam gerações de dependentes do Estado e se sufoca a iniciativa. Por outro lado aposto tudo o que quiserem que  o director geral do Departamento do Raio Que os Abrase a Todos pode legalmente e tranquilamente ter os seus negócios particulares e continuar a receber prestações, tipo ajudas de custo ou abono de família.

Exemplo do dia,  o vereador do Bloco de Esquerda que em 2014 comprou um prédio à segurança social em leilão e hoje o pôs à venda por 17 vezes mais, sem no meio ter deixado de ralhar alto e bom som contra os especuladores imobiliários.

Em Portugal há dois tipos de regras e obrigações, umas para o povo, outras para os que apascentam o povo.

 

Misérias e raios de luz.

– Recorri à airhelp para ser compensado pelo cancelamento do voo de S.Miguel para a Terceira no fim de semana passado, enviei os documentos, preenchi tudo e disseram-me que tinha direito a 250€ de compensação, melhor que os 0€ que a SATA oferece. Informaram-me de que ia levar um mês a apresentar a minha queixa e em média demora 3 meses a ser efectuado um pagamento. No dia seguinte recebi outro email a avisar que o meu caso é inválido porque o voo foi cancelado por razões meteorológicas.

Além de incompetentes e negligentes são também estúpidos porque alegar que o voo cancelou por causa do tempo quando toda a gente viu e está registado o tempo que fez no arquipélago é de loucos. No ano passado a SATA deu 47 milhões de euros de prejuízo, a resposta a esse descalabro foi subsidiar os voos inter ilhas dos turistas, ceder a todas as chantagens dos sindicatos e abrir rotas para Copenhaga e Moscovo. E claro, no quadro de pessoal devem ter entrado mais uma dúzia ou duas de sobrinhos e afilhados para assessor e assistente e secretário e pelo meio encomendado umas campanhas publicitárias à agência do primo. No fecho do exercício, a SATA vai a ganir para o governo dizer que não tem dinheiro para pagamentos a fornecedores e pessoal, o governo regional vai a ganir para a República dizer o mesmo, a República vai a ganir para Bruxelas e no fim quem se lixa são os de sempre, que além de terem um serviço de merda pagam pelos erros e incompetência destes gestores de topo com ordenados, regalias  e reformas de ouro quer a empresa vá à falência quer tenha lucro. Viva o Estado, a SATA é nossa!

– Vi um vídeo assombroso, na cimeira da NATO o JC Juncker, o Presidente da Comissão Europeia sem ninguém ter votado nele, a apresentar-se em público com uma bebedeira monstruosa. Foi das coisas mais vergonhosas que já vi, o homem mal se tinha nas pernas, não foi a primeira vez que foi filmado em público em funções oficiais bêbado como um cacho, é daqueles segredos abertos em Bruxelas que depois do almoço ele já não diz coisa com coisa e que os copinhos de água que lhe servem nas conferências não são de água. Um idoso alcoólico e não eleito, é o nosso presidente, mas a vergonha maior não foi essa. Para mim a vergonha maior foi os serviços da UE virem dizer que era uma crise de ciática e pedirem respeito. Respeito. Mais uma vez tratam-nos como se fôssemos todos estúpidos e não soubéssemos distinguir entre uma crise de ciática e uma bebedeira monstra, e ainda têm a lata descomunal de pedir respeito por uma figurinha execrável como a do Juncker. Tratam-nos como estúpidos porque se calhar somos mesmo estúpidos. Ele continua presidente, a esta hora do dia já se deve ter emborrachado com vinhos e licores  dos melhores, pagos por nós, e está a rir-se destes tolos que somos.

-Já cheguei à conclusão que os apoiantes do Trump por cá são ou fascistas , racistas ou ambos, ou são fundamentalistas cristãos , ou são imbecis ou então simplesmente não percebem inglês e nunca vêm nem compreendem um discurso dele e apnahm excertos e traduções. Um cronista do Observador , Rui Ramos, de quem eu gosto bastante em condições normais, discutiu a última cimeira da NATO e  o que disse do Trump foi que “tem excentricidades”. Podem-se ver as declarações do próprio ao lado do Putin a dizer, com todas as palavras , que “os seus serviços de informações lhe garantiram que houve interferência russa nas eleições mas o Putin garante que não e ele não vê razão para não acreditar” . Pessoas pensantes não acharam isso excêntrico, acharam isso traição à pátria e uma declaração sem precedentes em que um presidente diz claramente que confia mais num ditador de uma nação inimiga do que nos seus prórpios serviços. Excentricidades, desisto.

-Ontem o Costa foi a Viana ao lançamento de um navio da Marinha lá construído. Há 5 anos , perante a ruinosa gestão dos Estaleiros como empresa pública o governo decidiu privatizar o que se podia e acabar com a chulice orquestrada pelos sindicatos e a incompetência dos gestores públicos. Foi a tropa fandanga para Viana, Mortáguas, Abrunhosa, até para lá arrastaram o Soares,  para dar um “Grito Nacional” em defesa dos Estaleiros,  diziam que “a construção naval não pode morrer” partindo do princípio que se for privada, morre. Estava tudo  a correr bem por isso era continuar a verter para lá dinheiro sem retorno. O presidente da Câmara de Viana , perante a privatização, depositou uma coroa de flores num enterro simbólico dos estaleiros. Esse mesmo indivíduo ontem brindou com o Costa ao sucesso da WestSea, a empresa privada que recuperou os estaleiros e os pôs a trabalhar e a render assim que saíram os cancros. Ninguém tem vergonha, nem memória , nem noção.

Longe, quanto mais longe disso tudo, melhor.

Esta manhã estive a mondar um plantação de ananases, parte dos jardins de que agora me ocupo, com grande satisfação. Mil vezes jardinar do que servir a mesas, felizmente a jardinagem é para continuar o ano todo, é ao lado de casa e os proprietários são ausentes, já me explicaram como querem o jardim, trabalho quando quero quantas horas quero desde que o jardim esteja ao gosto deles. Não vejo ninguém, ninguém anda de volta de mim, estou a criar e manter uma coisa bonita e como um jardim é uma coisa viva, tenho trabalho até querer, ou até deixar de o fazer bem.

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No restaurante ontem um casal jovem de franceses no fim de jantar, depois de me ter perguntado de onde vinha o meu francês, agradeceu-me por os ter servido tão bem , ser simpático e por ser , cito , radiante, rayonnant  . Já me chamaram muita coisa mas isso foi a primeira vez. Alegraram-me uma noite longa e trabalhosa, não lhes disse que detesto aquilo e que se os donos não fossem meus amigos há tantos anos e só os conhecesse dali já me tinha ido embora. Não lhes disse que estou ali todos os dias em esforço e fiquei muito contente por ver que esse esforço não transpira. Ao contrário da jardinagem e das outras coisas que faço como a cerveja artesanal e o cuidado das minhas ovelhas, aquilo não me dá gosto nenhum …. além do gosto de  um trabalho bem feito. Há muitos anos li um conselho que repasso : se fores médico, trabalha para seres o melhor médico do hospital. Se fores varredor de rua, deves trabalhar para ser o melhor varredor de ruas da cidade. Se queres dormir bem à noite e viver em paz contigo mesmo, dá o teu melhor em tudo o que faças. O meu melhor muitas vezes não chega, mas durmo bem à noite e ando na rua de cabeça bem levantada.

Recebi um email de S.Francisco, de uma moça que não vejo há 10 anos e que hoje é  outra pessoa, tal como eu. Eu não me esqueci, e ela pelos vistos também não, eu preferia que não fosse assim. As distâncias são enormes, demasiadas e  de toda a espécie, não há nada a esperar  e no entanto espera-se. Como uma rocha.

 

Dispensa de lógica

Há cerca de 7 anos criei uma empresa, por ignorância, ingenuidade e optimismo injustificado. Essa  empresa, que já extingui com grande custo,  foi o meu curso intensivo sobre o modo como o Estado opera, depois de quase 20 anos de existência pacífica e livre em que nem desconfiava das manigâncias que se fazem na Administração Pública e ganhava a vida sem contacto de espécie nenhuma com ministério,  autoridade ou direcção geral de seja o que for.

Pouco tempo depois da criação da empresa recebi um email da AT a dizer-me que tinha um email a consultar na Via CTT. Como nessa altura não partia do princípio de que o aparelho administrativo está repleto de idiotias e absurdos pelo que podemos sempre esperar um a bater-nos à porta, pensei: Não faz sentido nenhum mandarem-me um email a dizer que tenho um email, ainda por cima não sei o que é a Via CTT, pelo que a AT, se tem alguma coisa a comunicar-me, vai-me mandar a mensagem ou para o meu email que pelos vistos conhecem, ou para  a minha morada física, que também conhecem.  Ah ah ah.

Então um génio qualquer da administração, ou grupo deles, decidiu que todos os contribuintes deviam passar a ter , quer quisessem quer não , quer fosse necessário quer não, uma caixa de correio electrónica nos CTT.  Achei  isso estúpido e abusivo demais para ser verdade e não me dei ao trabalho de ir configurar uma nova conta de email para poder receber os periódicos avisos de extorsão. Correu-me mal porque a AT decidiu mesmo que ou aderíamos à Via CTT ou não nos mandavam avisos e quando recebi pelo correio a multa ( para isso já se lembraram da minha morada) era tarde demais. É em ocasiões assim  que dou muito valor à interdição que temos de ter armas de fogo porque imagino bem alguém a quem o Estado faz uma brincadeira destas a perder a cabeça, entrar numa repartição e correr tudo a tiro.

Extingui a empresa este ano  ( uma empresa que nunca chegou a fazer uma transacção ou um movimento mas que o Estado me cobrou forte e feio para existir , e depois para extinguir) e com isso deixei de ouvir falar na via CTT até ontem , quando vi uma notícia que devia ser para emoldurar como exemplo do funcionamento do Estado : ” Contribuintes que não aderiram à Via CTT podem pedir dispensa de multa” 

Leram bem , “pedir dispensa de multa”. Então o Estado primeiro obriga toda a gente a aderir a um serviço de email redundante e desnecessário; usa esse serviço como meio exclusivo de comunicação, sabendo que grande parte dos contribuintes não sabe ou não quer usá-lo; a seguir, perante o incumprimento de pessoas que, em casos como o meu, nem sabiam que estavam em incumprimento , desata a multar os cidadãos e empresas. Finalmente, quando a burrada se torna aparente, oferece uma “dispensa de multa”, conceito novo e cheio de potencial. Não é um perdão nem uma anulação, dispensam-nos de uma multa na qual incorremos porque o Estado nos obrigou a usar um serviço desnecessário, sem avisar.  Eu vi a notícia na Lusa mas gostava de saber que meios vai usar o Estado para informar a generalidade das pessoas que foi multada de que pode ser dispensada, e gostava de ver um jornalista, se ainda houver para aí algum, a perguntar ao senhor que manda nesse departamento, se o facto de se estar a dispensar pessoas de pagar a  multa não é a admissão de que a multa não faz sentido, e não fazendo sentido , quem é o responsável pela salganhada e quem é que vai ressarcir os contribuintes que já pagaram por não saberem da possibilidade da “dispensa”.

Ainda ontem no restaurante vi outra que vai para a Galeria da Estupidez Estatal: o restaurante é obrigado a proceder a uma desratização mensal. Os donos , muito porque na ilha não há serviço de desratização e o técnico tem que vir de fora, faziam a desratização de dois em dois meses. Isto era inadmissível e uma ameaça clara à saúde pública, e lá veio o IRAE  (a nossa ASAE) remediar a situação e defender o consumidor, levantando um auto de contra ordenação. Vi ontem o relatório em que os técnicos, vindos de propósito (à nossa conta, obviamente) gastam várias páginas com jargão coberto de decretos lei ,  parágrafos e regulamentos para explicar a infraçcão e a coima que foi aplicada. Sucede que também aqui houve uma dispensa qualquer e nas últimas linhas do relatório, as que têm números, lê-se que a coima aplicada é de 0€ e que os custos do processo são  52€. Não têm que pagar multa nenhuma, têm só que pagar os custos do processo que estabeleceu que não têm que pagar multa nenhuma. Lindo.