Responsabilidade Zero

-Ó sr Jorge , aquilo é que foram  incêndios!Foi perto da sua terra?

-Mais ou menos, não é muito longe.

-O Primeiro Ministro já disse que tinha que saber o que é que se passou, parecia bem zangado!

Mudei de assunto  porque me esforço sempre por distinguir  actividades que valem a pena de actividades que são desperdício de energia, e na ideia deste meu conhecido o Costa e o seu governo fizeram o melhor possível e têm que exigir respostas sobre o que correu mal ao invés de as fornecer. Têm que responsabilizar alguém em vez de aceitarem que se o nosso ministério falha abjectamente, a decência exige que nos vamos embora. Ninguém diz que a ministra da administração interna tem culpa objectiva na catástrofe, mas tem toda a culpa por ter sido o seu ministério a falhar. Se não me engano já vamos em 3 tentativas de explicação  diferentes, todas fornecidas por organizações estatais, e em nenhuma delas se encontraram  motivos considerados suficientes para apear pessoas que não fizeram o seu trabalho.

Já o Presidente, desde que veio cá à ilha, tirou selfies com 64% da população, deu o seu mergulho  matinal e foi-se embora sem influir  ou mudar rigorosamente nada na nossa vida aqui, não se consegue enganar mesmo que queira, é um espectáculo. Quando ouço falar dele como “uma pessoa muito natural” que “fala a nossa língua” lembro-me logo dos milhões de otários que defendem e apoiam o Trump pelas mesmíssimas razões. Não só defendem como acreditam que há alguma similaridade entre eles, uma relação, uma proximidade. É cómico, ou trágico , dependendo do ponto de vista, que pessoas sejam sempre enganadas por políticos que as convencem de que são parecidos, de que partilham das mesmas preocupações e aspirações. Ele é como nós. Se fosse como vocês não era Presidente.

Nos dias do incêndio Marcelo esteve à vontade na sua correria e prolífico em declarações , o que fica para a história é que chegou lá e desculpou toda a gente e dois dias depois  lembrou-se de  que  ficava bem pedir uma investigação e avaliação das leis . Entretanto aconteceu outra coisa interessante, o roubo de material de guerra de uma base militar, roubo até ver de características um bocado cómicas, como já disse alguém, parece uma rábula do Raul Solnado, os maus atacam quando os bons estão a ver o futebol. O Presidente, que certamente não se esqueceu de que é o Comandante das Forças Armadas, até esta manhã não tinha aberto a boca sobre o caso.

Ou ninguém  consegue calar o homem, seja  sobre um fait  divers  como uma avioneta que cai seja sobre um cataclismo nacional , ou cala-se durante 3 dias  perante uma ameaça  clara e presente à segurança nacional e europeia resultante de uma falha grave na instituição que ele comanda.  O critério que determina se diz coisas ou não, não é claro, já acho que não existe mesmo. Ao fim de 3 dias em que achou que não era o momento de comentar o roubo, veio hoje finalmente fazer declarações. O que diz hoje o Presidente? Defende uma investigação que apure tudo. Ah bom.

Repórter num universo paralelo:

-Sr Presidente, dado que  a um roubo denunciado se segue sempre uma investigação pelas autoridades, o que é que há  de novo nesta sua declaração?

-Como?

-Houve um roubo que foi denunciado à PJ militar e às agências de segurança. Se o senhor não defendesse hoje a investigação , investigava-se na mesma…ou não?

-Entendo que sim, eu não estou a ordenar nada, estou a dizer que entendo  que o caso tem que ser investigado até às últimas consequências.

-Mas isso entendemos todos. Acredita que é necessária a chancela do Presidente para que avance a investigação ou que a PJ e Serviços de informação e segurança são autónomos?

-Não, é óbvio que são  organismos que não necessitam de autorização nem pedido do Presidente para investigar.

-Então esta sua declaração hoje não quer dizer nada, é isso?

-Sim , no fundo é isso. Dê cá um abraço, você parece-me um bocado amarelado e débil, tem ido ao médico? Olhe lá a sua saúde!

Há pessoas com esperanças de que estes dois últimos escândalos, chamemos-lhes assim, sirvam para pôr a nu não só que o Estado é incapaz como que não tem vergonha de o ser e muitas vezes nem sabe que o é. Desenganemo-nos , politicamente nada vai mudar até aparecer alguém credível com um projecto para apresentar aos portugueses, coisa que suspeito não está para breve.É  uma ideia muito portuguesa, um  sebastianismo que nos deixa à espera de um homem providencial para levar isto a bom porto. Não acredito na Providência  mas mantenho uma réstia de esperança numa renovação que só pode chegar quando desaparecerem a maior parte dos que lá andam há 20 e mais anos.Como este, que também não tem vergonha nem acha que há razão para se demitir, está a fazer um óptimo trabalho, como de resto fez desde que entrou pela primeira vez para o governo, já lá vão muitos anos.Confiamos o governo do país a pessoas que ou são estúpidas ou não querem saber do que disseram há 2 meses desde que tenham alguma coisa para dizer hoje, alguma coisa que vá de encontro ao que as pessoas querem ouvir na altura.

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Em tempos que já lá vão morria uma pessoa nas urgências de um hospital , uma pessoa por definição doente e em risco, e ululava-se “assassinos” e “austeridade mata” a cada visita de governante. Interrompiam-se comunicações para se cantar a Grândola Vila Morena e mesmo que fossem quatro pessoas, as televisões e rádios “cobriam” os “protestos populares”. Mesmo que a vida  não tivesse piorado assim tanto na prática, a comunicação social garantia-nos que sim, que era a devastação neo liberal que nos estava a matar. Foram momentos heróicos de resistência, felizmente agora o PS, com a ajuda discreta do PCP e do Bloco, resolveu os problemas de Portugal, problemas que tinham sido todos causados pelo PSD e CDS.  Os eleitores portugueses hesitaram em dar o governo ao partido que nos tinha conduzido à falência, mas essa hesitação foi facilmente corrigida por pessoas que têm a vocação de interpretar as aspirações do povo à luz da ciência e corrigir desvios, os comunistas e demais marxistas que logo nos puseram no bom caminho. Estou quase convencido de que os poucos problemas que não se resolveram são impossíveis de resolver. Faz-se todo o possível, as crianças brincam outra vez , os que imigram já só o fazem por revanchismo e consta que 3 pessoas regressaram mesmo a Portugal agora que o governo tornou o ar mais respirável.

Pode não ser claro que se o meu respeito e esperança no PS é abaixo de zero , pelo PSD e CDS é zero mesmo e aos outros considero-os  anomalias anacrónicas que podiam desaparecer com vantagem para o país. Estou na mesma situação de, acredito, centenas de milhar de portugueses que não se revêm no governo nem na oposição, nem vislumbram no horizonte um tipo (ou tipa, desculpem o termo)  como o  Macron,  que não seja criado no caldinho das Juventudes; que não tenha o rabo preso com negociatas suas e dos seus compinchas; que não chegue lá pelo nome de família; que apresente um discurso de ruptura com a velha dicotomia esquerda/direita; que queira trazer para o governo gente da sociedade em geral e não os advogados do costume; que tenha um plano económico ligeiramente menos vago que “apostar no crescimento”, enfim , alguém capaz de renovar. Infelizmente é mais provável calhar-nos populismo que alguém assim, mas uma pessoa pode sonhar.

 

PS: O parlamento aprovou uma lei que proíbe que um senhorio se recuse a alugar a sua casa a pessoas com animais. Isto ofende-me um bocado. Tenho agora 17 animais, dentro de duas semanas serão 22, a maior parte  são gado mas o cão e o gato dormem em casa, os bichos são das coisas que mais me importam na vida . Apesar disso não me agrada viver num sítio em que o Estado é que diz os termos em que podemos ou não arrendar o que é nosso.É um desrespeito total pelos direitos das pessoas que não gostam nem querem ter animais nas suas casas, porque agora se decidiu, com partido e tudo, que todos temos que gostar de animais.Socialismo também é isto.

Material de guerra

Não sei se o Presidente já foi a Tancos abraçar o pelotão que estava escalado para sentinela naquela zona naqueles dias e confortar os soldados, que fizeram o que podiam. Não sei se as televisões arrancaram em manada para directos de Tancos e arredores,  filmar a vedação, ouvir o Presidente da Câmara de  Vila Nova da Barquinha  e não haverá falta de populares para declarar que sempre viveram ali ao pé do Polígono e não se lembram de nada assim. Podem ir um bocadinho mais abaixo a Almourol fazer uma peça de grande valor cénico sobre o simbolismo do Castelo  nos conflitos que ainda hoje exasperam os fundamentalistas islâmicos, que são senão os autores deste roubo pelo menos os seus receptadores prováveis.

Tanto quanto sei, alguém furou a vedação, percorreu 600 metros até aos paióis, arrombou as portas e foi-se embora pelo mesmo caminho , com um arsenalzinho : “ Para além das granadas de mão ofensivas e das munições de 9mm, foram também detetadas as faltas de “granadas foguete anticarro”, granadas de gás lacrimogéneo, explosivos e material diverso de sapadores, como bobines de arame, disparadores e iniciadores”. 

A primeira coisa que me veio à cabeça foi que se tivessem cães lá , mais cães, seria muito mais difícil atravessar 600 metros de perímetro em ambas as direcções , quanto mais chegar-se a um paiol que fosse designado área a proteger. O meu cão não se pode comparar aos cães militares e se mexe alguma coisa num raio de 100 metros ele  fica logo atento. Sou só um curioso destas coisas mas sei que Tancos é a casa dos Paraquedistas, a arma que por excelência é  a mais devotada e melhor com os cães.

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Na Escola de Tropas Paraquedistas há uma Companhia de Cães de Guerra, que não sendo como os outros cães têm habilidades e capacidades que muitas vezes só não são mais utilizadas por falta de treinadores e “manejadores” , se eu pertencesse a uma unidade de cães e o perímetro fosse violado assim ia fazer algumas perguntas sobre se se estava trabalhar e utilizar os cães da melhor maneira.Dentro dos limites que os militares têm para questionar as coisas, claro está… Isto é um aparte de um gajo que gosta de cães , porque um sistema de video vigilância sai mais barato, come menos , não fica doente nem precisa de treino nem exercício nem horas de dedicação humana. Ainda assim, se fosse eu o responsável por paióis de material de guerra , mesmo com um sistema de video vigilância que funcionasse, “largava”  os cães muito regularmente.

Voltando ao arsenal roubado,  é medonho , e é possível que esse material hoje já esteja em Estocolmo ou Viena, meia dúzia de  elementos que saibam mexer naquilo bastam para levantar um inferno no meio de qualquer cidade. Talvez os apanhem,talvez vá morrer gente em explosões provocadas por material pago pelo contribuinte português para a defesa da Nação. É grave. É outra demonstração de que o Estado não está à altura das suas responsabilidades mais básicas, neste caso assegurar o controle  e segurança das armas de guerra , não há muito mais básico que isto.

Este roubo não é , ao contrário do incêndio de Pedrógão, um caso de má organização estrutural, incompetência e descoordenação no terreno que exige uma demissão ou seis, mas não deixa de ser uma tragédia potencial que resulta de cortes no financiamento de coisas básicas como vigilância a instalações militares. Já vi que do lado da esquerda se diz que os subsídios aos colégios privados davam para pagar  vigilância do melhor e do outro lado que os aumentos a funcionários públicos também.  Pela ordem de ideias destas pessoas, é legítimo retirar recursos às causas que valorizamos menos, ou nada , para os alocar a causas que nos são mais queridas e isto para mim não é maneira muito racional de pensar no Estado.

Espero bem que encontrem o material roubado, de preferência junto de quem o roubou, e que se fique a saber a história toda antes de morrerem não sei quantos.  Também gostava que mais uma vez outra falha clara do Estado servisse para se pensar nas suas funções. Fazer bem as contas e tentar perceber se o Estado está a deixar de cumprir funções básicas para cumprir outras menos essenciais. Da minha parte gosto que o essencial esteja assegurado antes de passar ao acessório, mas eu sou um bocado esquisito.

Líderes e outras coisas

-Ontem houve mais uma saída do bote baleeiro que terminou com este vosso criado a cair à água por causa de um brandal rebentado e com o semi rígido  de apoio a ficar avariado, deixando-nos a derivar quase uma hora. Não me vou alongar com o tema, uma das razões que me fizeram hesitar um pouco em meter-me nisto foi, além dos escassos conhecimentos práticos e capacidade de organização que há cá, a relutância em envolver-me em políticas locais, entre o Clube e o Porto e as pessoas que têm histórias de décadas e muita bagagem que dificulta que toda a gente se entenda e trabalhe para o mesmo lado. Nunca fiz questão de ser líder mas faço sempre questão de que haja um, e um a sério para o programa em causa está difícil. É complexo e  insolúvel,  não preciso de problemas novos na minha vida, nenhuma tarde à vela numa baleeira compensa embrulhar-me em quezílias. Não fora o facto de nunca recuar depois de me oferecer para alguma coisa e já tinha desistido, agora tenho que levar isto até ao fim.

-Ainda bem que não se está a deixar cair o tema do incêndio de Pedrógão, não espero que nenhum político tenha a coragem e integridade de assumir responsabilidades mas pelo menos a hipocrisia , incompetência e corrupção ficam expostas aos olhos de todos , menos dos estúpidos. O SIRESP foi negociado por um amigalhaço do Costa, comprado pelo próprio, dá lucros de milhões aos seus accionistas mas não funcionou quando era preciso e o génio por detrás do negócio está hoje arrumadinho a ganhar uma fortuna na TAP. Ninguém se vai demitir por isto. Vejam esta capa.

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Morreram 64 pessoas , a maior parte por falhas várias de um sistema tutelado por esta senhora, que não tem a noção, NEM NINGUÉM LHE DIZ, que não fica  bem fazer uma pose  compungida para a fotografia, não é assim que isto funciona, a responsabilidade não atenua por parecermos consternados, especialmente se o parecemos numa sessão fotográfica profissional. Apesar disso tenho a certeza de que esta capa levou muita gente a simpatizar com a senhora. Diz que “tirará” as devidas ilações, a maior parte dos portugueses já sabe o suficiente para querer ver ilações tiradas  já, mas ela deve estar à espera, sei lá, de uma mensagem divina ou uma condenação na justiça.

-Como não espero pessoas demitidas e/ou levadas à barra do tribunal pela calamidade de Pedrógão também não espero ver nenhum órgão do slb responsabilizado pela bela rede de tráfico de influências e corrupção que tem sido denunciada e exposta. Não espero por duas razões , a primeira é que me lembro do último grande processo sobre corrupção no futebol,  que envolvia o fcp, que provou haver corrupção mas a cujos mandantes não aconteceu nada. Espero que nada vá acontecer com este novo esgoto a céu aberto e  que dentro em breve nos expliquem que o LFV não sabia nem autorizava as manobras dos Guerras & outros delinquentes . “O benfica não é isto!“, vão gritar quando lhes mostrarem provas de que sim , hoje em dia é mesmo isto. Pode não haver condenações nenhumas, o slb pode ir “rumo ao penta” com toda a confiança, mas uma coisa é certa : nós sabemos, nós já vimos, nós percebemos. Antes nunca mais ganhar um campeonato na vida do que saber que ganhamos muitos à custa de corrupção.

-Reparei que há vários  candidatos a presidente de câmara que já foram arguidos e/ou condenados por corrupções e fraudes várias, entre os quais Valentim Loureiro e Isaltino Morais. A culpa da corrupção no nosso país não é , ao contrário do que se tenta por vezes fazer crer, dos cidadãos que são muito tolerantes e permissivos. A culpa é dos políticos que permitem coisas como esta, que permitem a toda a canalhada chegar a toda a posição de responsabilidade, desde que não tenham vergonha , tenham os amigos certos e a capacidade de convencer os patos.

Um dia as pessoas vão-se fartar e vai bastar uma faísca para incendiar tudo, porque empobrecem, não têm justiça, sofrem calamidades naturais sem ajuda, pagam impostos e trabalham debaixo de mil  regras e depois olham para cima e vêm ignorantes, incompetentes, corruptos e  privilegiados  a enriquecer e a corroer o Estado com impunidade total. Só seguidores fiéis que nunca mudam de ideias podem olhar para o PM ou o PR e ver um líder de confiança, tal como só a mesma categoria  pode olhar para a oposição e ter confiança . Por falar em líderes, vejam aqui um verdadeiro líder:

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O Putin mete-me medo, é um ditador com poucos escrúpulos e uma agenda um bocado feroz, mas na Rússia ninguém tem dúvidas sobre quem manda, as pessoas olham para cima e vêm um homem forte, que nunca perde uma oportunidade de o mostrar como com essa foto. Tem uma agenda imperialista,  despreza  a democracia e a liberdade de expressão, prende opositores e interfere no estrangeiro quanto pode. Tem esses defeitos todos mas tem qualidades que para mim são fundamentais na liderança em geral  e que não se vêm hoje por exemplo nos EUA : tem inteligência aguçada, não dá ponto sem nó, tem uma visão longa,  sabe sempre dizer a coisa certa na altura certa, tem mão firme sobre o seu governo e fala directamente às aspirações e preocupações dos Russos, que historicamente sempre apreciaram líderes e governos fortes.

Ao ver as prestações patéticas do Marcelo e do Costa em Pedrógão ocorreu-me o pensamento: e se , por quase absurdo, Portugal entrasse em guerra? Era este par de cromos que nos ia liderar? Ainda me estou a rir a pensar na ideia.

Fez-se o Possível…

A única coisa fora do normal no incêndio de Pedrógão Grande é o número de vítimas, de resto é a sina nacional, todos os Verões temos que arder, e ardemos  porque somos mal governados  e organizados.

Fiquei agoniado ao ler as primeiras reportagens sobre a calamidade e ver  o António Costa , pessoa que anda há décadas  pelo topo das hierarquias políticas do país e que hoje é primeiro ministro mas certamente que não tem responsabilidade nenhuma nesta tragédia. Tudo o que é bom , até um jogo de futebol, tem louros a ser recolhidos pelos políticos.Quando há catástrofes, já ninguém tem tomates para se chegar à frente e admitir que falhou. Acho que já se sabe de quem é a culpa, de um raio que caiu numa árvore. Seria uma vergonha se eles a tivessem. Já o Presidente cumpriu como de costume, foi logo para o local, abraçou, chorou, falou e não disse nada. 

Morrem 62 pessoas mas o que se faz é rezar, lamentar, apelar à solidariedade e  louvar o heroísmo e bravura dos bombeiros, coisas que (tirando as rezas) têm que ser feitas mas que não vão impedir que dentro em pouco aconteça outra calamidade assim . Sei bem que são coisas que não se podem fazer a quente mas gostava que alguém de responsabilidade política viesse dizer claramente:

-“Vamos trabalhar para rever todo o enquadramento e legislação relativa à floresta, para finalmente perceber o que é que está mal e o que é que tem que mudar , e fazer rapidamente reformas profundas ouvindo todos os partidos e os especialistas na matéria”.

Desde as espécies  escolhidas até ao regime fiscal dos proprietários florestais passando pelos meios de prevenção e combate sem esquecer o papel das Forças Armadas, tudo devia ser posto em cima da mesa para ser avaliado e, se necessário, mudado, doa a que interesses doer. Se 62 mortos não chegam para uma espécie de revolução na politica florestal, não sei o que será preciso.

Não me agrada ouvir o PM dizer que se fez o possível, ter-se-à feito o possível no que diz respeito a este incêndio em particular, mas quanto à questão geral não só não se fez o possível como se fez muita coisa mal feita. Também gostaria de ver os políticos responsáveis pela extinção da Guarda Florestal virem hoje explicar ao país o porquê da sua decisão; gostava de ver o mesmo em relação aos meios aéreos, à retirada da Força Aérea para a entrada de privados.Eu sou muito a favor da privatização de quase tudo, a chave está no quase e nunca me pareceu boa ideia privatizar a segurança e defesa do território nacional, que foi o que alguns iluminados fizeram com os meios aéreos de combate aos incêndios num negócio que tresanda a corrupção.

Assim que se enterrarem os mortos e os vivos estiverem cuidados há que pedir responsabilidade, não deixar governantes actuais e passados escaparem com um encolher de ombros com as suas decisões catastróficas.

Se não usarem esta tragédia para repensar e reformular uma política integrada de prevenção e combate a incêndios que nos torne similares a outros países comparáveis, para o ano, ou para o mês que vem, cá estaremos outra vez a lamentar hectares devastados e pessoas a sofrer mortes horríveis, como sucede desde que tenho memória.

 

PS: Canais de TV a pedir donativos por linhas de valor acrescentado e jornalistas a dizer coisas ao lado de cadáveres e a pôr microfones à frente a pessoas que acabam de perder entes queridos: Nojo.

Tolerância de Ponto

Nos tempos da troika uma das coisas que estranhei  foi ver a esquerda radical  a protestar contra a eliminação de feriados religiosos.  Uma das lutas da esquerda é pela redução do tempo de trabalho, seja em dias seja seja em horas, e qualquer razão serve. Porque se achou conveniente ou mais confortável trabalhar 35 em vez de 40 horas por semana (ou 20 ou 60, de onde vem o 35 mágico? ) seja porque há que assinalar, por exemplo, que alguém disse há 500 anos que Nossa Senhora tinha subido ao céu a dado dia de algum Agosto. OS não crentes não protestam contra isto porque independentemente da razão pela qual se pára de trabalhar, um dia livre sabe bem a toda a gente e os feriados religiosos são tradições antigas.

Já as tolerâncias de ponto são uma coisa muito mais injusta porque separam os cidadãos entre funcionários do Estado e os outros. É uma benesse feita aos que o servem quando o princípio deve ser: havendo benesses, que sejam para  todos.  O Estado e os governos tratam sempre melhor os seus funcionários que o resto dos cidadãos, e isso irrita profundamente .Se os sindicatos não tivessem a última palavra nestas matérias acabava-se amanhã com esta discriminação, e ou é feriado nacional e pára tudo, ou não pára ninguém, para mim é justiça social elementar , sem sequer falar da questão religiosa.

O governo é Socialista e por extensão, laico. É apoiado por comunistas e trotskistas, por definição ateus e quando não ateus , agnósticos. Nas ocasiões de maior intensidade de demonstrações públicas de fé vão a Fátima talvez  um milhão e meio de pessoas, e em 100 anos acho que nunca o Santuário ficou vazio ou houve menos afluência por ser dia de trabalho.Quem é devoto vai.

Declarar tolerância de ponto, ainda por cima para o dia anterior à celebração  , (por coincidência feliz, sexta feira) significa que não resta muita vergonha nem há a mínima tentativa de ocultar o privilégio dos funcionários públicos, que é para manter. Os católicos devotos que não trabalham para o Estado vão ter que fazer como sempre fizeram e tratar das suas vidas de modo a poder rezar e adorar como querem. Os funcionários públicos, católicos ou não, ganham um dia livre.

Dos partidos que apoiam o governo esperava eu, por questão de integridade e de princípios, que fossem contra e erguessem o espírito da laicidade e da igualdade, mas só o invocam quando lhes convém, quando é para agradar ao povo com medidas que só custam aos privados e ao contribuinte, querem lá saber da laicidade e da igualdade. São de uma hipocrisia sem medo, ainda vamos ver o Costa em Fátima ao lado do Papa a acenar, e no dia seguinte é capaz de nos vir falar de humanismo ou de sacrifícios partilhados, enquanto a pessoa que ocupa a presidência vai tirar umas selfies e debitar umas banalidades sobre Portugal e o catolicismo .

Que um governo de esquerda, apoiado pela extrema esquerda, conceda  tolerância de ponto ao sector público para ir ver o papa seria ridículo se não fosse triste.

PS: tenho uma amiga funcionária pública, numa câmara socialista, e as tendências dela são muito para a esquerda. Já me disse que vai trabalhar, e eu gostava muito que alguém fizesse as contas a quantos funcionários vão no dia 12 de Maio fazer uma espécie de greve ao contrário e mostrar que a véspera da visita do líder dos Católicos não deve ser razão para fecharem serviços públicos, porque  o Estado não tem religião.

Coisas Várias

Começando pela “actualidade local”, uma taróloga veio visitar a ilha e dar umas consultas e eu já incomodei algumas pessoas por dizer no facebook que “quem está farto de ser enganado à distância tem agora a oportunidade de ser enganado em pessoa”.

Tudo o que é esoterismo causa-me urticária, que se agrava em duas circunstâncias : Quando os praticantes da “disciplina” têm rendimentos à custa dos pobres de espírito que acreditam que significados aleatórios atribuídos a cartas de jogar podem em determinadas combinações prever o futuro  e quando os praticantes ou crentes são pessoas que pela sua formação e nível cultural deviam já estar um nível acima.  Ainda vou ter uma discussão com a pessoa que acolheu e divulgou a “taróloga” porque é  a mesma pessoa que há poucos meses organizava aulas de filosofia para crianças . Não se pode querer ensinar as crianças a pensar e um mês depois andar a divulgar o tarot, é como dizer que se está a trabalhar num modelo de análise meteorológica por imagens de satélite e depois rezar por uma chuvinha.

Nunca penso mal das pessoas dadas ao esoterismo mas nunca as posso levar a sério em matéria de pensamento ou capacidade de análise. O horóscopo de hoje para Caranguejo : não se esqueça de respirar , aproveite as oportunidades que estão à sua espera e tenha cuidado com os fritos.

O meu vizinho está de cama e mal se mexe e eu visito-o mais frequentemente para lhe dar uma ajuda com tudo. Já lhe disse que só o faço porque sou interesseiro , há muito poucas coisas que eu faço sem ser por interesse, neste caso o meu interesse é ver o meu amigo recuperado e fazer como espero que alguém me faça a mim quando eu precisar. Tenho interesse nisso.  A cadela dele está com uma alergia qualquer , levei-a ao veterinário e quando lá estava lembrei-me de que o meu cão já não via um veterinário há muitos anos , no dia seguinte levei-o lá.

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Tinha as vacinas em falta há anos mas tirando a sua epilepsia está impecável e é o maior, mais forte e mais bonito “semi labrador” desta  ilha , e há cá muitos. O próprio irmão dele tem  2/3 do tamanho, acho que ninguém precisa de provas de que corpos fortes e saudáveis só se conseguem com boa alimentação e exercício. Já que não consegui chegar lá com o meu próprio corpo, consegui com o cão, já não é mau.

A visita ao veterinário foi “notável” sobretudo porque foi a primeira vez que o tratei pelo nome. Ele é daqui , um rapaz novo e muito  simpático, a primeira vez que falei com ele foi por causa de uma cabra doente que tinha e tratei-o sempre por doutor, ainda acho que médicos e veterinários devem ser distinguidos do resto dos licenciados que por cortesia e hábito se tratam por doutor. Vejo-o todos os anos na matança do porco do meu vizinho , que é tio dele,  ao fim de seis anos achei que já tínhamos confiança que chegue para nos tratarmos por tu, e fiquei contente por isso.

Além disto tenho três assuntos de que quero falar , assuntos políticos para nos ajudarem a desesperar.

1- O ex presidente Jorge Sampaio escreveu um livro com as suas memórias , que por definição são pessoais. Este senhor, ao qual o Estado fornece gabinete , motorista,carro e  assessores além da reforma principesca pelos seus serviços , encontrou seis entidades públicas para patrocinarem o seu livrinho. Os seus recursos não chegavam e o tema não era interessante que chegue para uma editora normal.Em casos destes , se somos socialistas , socializamos as nossas acções fazendo com que todos paguem por elas.Um bocadinho a cada um , não custa nada . Estas pessoas servem-se do Estado desde o primeiro fôlego público até morrerem, o funeral deste também há-de ser o Estado a pagar. Desse livrinho sobre a sua contribuição para a República  destaco a afirmação sobre o momento em 2004 em que demitiu um governo legal e com apoio parlamentar : Fartei-me de Santana Lopes . Fartou-se, pronto, e por isso demitiu um  governo legalmente em funções e abriu a porta ao maior trafulha que Portugal viu nas últimas décadas que em pouco tempo conduziu o país à falência . Isso não deve tirar o sono ao dr.Sampaio.

2- A situação de Portugal chegou ao Economist , o que acontece muito raramente . O artigo fala do sucesso do governo ao conseguir reduzir o deficit ao mesmo tempo que aumentou pensões e o desemprego caiu. Os problemas estruturais mantêm-se TODOS , eu farto-me de rir porque parece que estas análises ao sucesso deste ano se satisfazem com o curto prazo: se está bom agora, está bom.

Um paralelismo:     faz de conta que Portugal sou eu com o meu enfizema pulmonar. Respiro mal e tenho crises. Chega o meu médico/PS e receita-me cargas de Bricanyl/keynesianismo . Eu inalo aquilo e começo logo a respirar melhor. O meu médico declara-me bom, o  enfisema está na mesma, quando se me acabar o dinheiro para o Bricanyl deixo outra vez de respirar mas isso não interessa nada , até porque se chegarmos a esse estado  alguém me pagará a medicação, presumivelmente por solidariedade. Nesta imagem o médico nunca me disse que eu nunca mais vou ter uma vida normal e que as dificuldades só se agravam com o tempo, receitou-me a droga e encorajou-me a depender dela .

3- O governo sugeriu que a Santa Casa da Misericórdia contribuísse para salvar o próximo banco a rebentar , pelos vistos vai ser o Montepio. Pensemos nisto, o governo achou bem que uma instituição de solidariedade social investisse num banco problemático, é das coisas mais estranhas que vi deste governo até hoje , apesar de ser outra boa ilustração da maneira como estas pessoas olham para uma economia: constituída por partes que se não estão sob controlo directo estão sempre sob influência do Estado, que pode  mandar estes investir aqui e aqueles mandar dinheiro para ali e assim tentar fazer as contas “bater certo” no fim. Quando não baterem certo logo se encontrarão os culpados,em todo o lado menos em quem pensou e executou as medidas.

Ai , a cultura…

Se fosse eu a mandar acabava com o Ministério da Cultura , estou convencido de que há mais e melhores maneiras de apoiar e promover a cultura de um país sem ser por meio de um aparelho burocrático que gasta 2 para distribuir 3 e no meio promove , ampara e viabiliza muita coisa sem qualidade nem interesse  só porque vem “bem referenciada” , ou seja , são amigos & conhecidos. Acredito que a haver subsídios estatais para a cultura estes deviam ser no sentido de facilitar a procura e não a oferta , ou seja , por exemplo dando bilhetes para as pessoas irem ao teatro em vez de pagar para se produzirem peças ou baixando o IVA dos livros e dando “vales livro” aos cidadãos em vez de dar “bolsas de criação literária” a escritores e projectos de escritores.

Apesar disso , num país tão pequeno , pobre e inculto como o nosso percebo bem que sem uma parte do orçamento de Estado que subsidiasse a cultura a situação seria muito pior, por exemplo duvido de que alguma vez volte a entrar no S.Carlos e o que lá se faz não podia ter menos influência na minha vida mas acho importante que na capital do meu país haja ópera, se tiver que ser o Estado a pagar , que seja.

Durante o tempo do governo dos bárbaros insensíveis à cultura que só queriam pagar contas e manter o crédito do país sem se interessarem nada por instalações pós modernistas ou pela influência das  novas coreografias expressionistas na realidade conceptual desconstruída numa abordagem neo cromática , ouvimos diariamente que além de destruírem o país , de o devastarem mesmo , estavam a sufocar a nossa cultura . Sobrevivemos a isso tudo , até à guerra civil que Miguel Sousa Tavares viu a dada altura  , acho que ainda existem alguns traços de cultura Portuguesa e finalmente virou-se a página da austeridade. Artistas , críticos , directores , parasitas , comentadores e espectadores assíduos respiraram de alívio , com os Socialistas no poder a Cultura ia voltar a ter a atenção que merece.

Parece que não está a correr assim muito bem , fiquei a saber de fonte insuspeita que o orçamento do PS para a cultura é igual senão pior que o do PSD/CDS.Quem é que me disse isto ?  Catarina Martins , actriz e coordenadora de um partido que apoia o governo. Segundo Catarina , o orçamento é vergonhosamente baixo. Ora eu tenho uma vaga ideia de que o Bloco de Esquerda votou a favor deste mesmo orçamento. Atenção, não se absteve , votou a favor mesmo , é substancialmente diferente. Posto isto, ver Catarina Martins dizer coisas destas é um bocado surpreendente , e em certa medida divertido.Temos duas hipóteses:

1 , o Bloco aprovou o Orçamento sem o ter lido todo , o que explicaria esta indignação tardia com o vergonhoso orçamento para a cultura.

2, o Bloco aprovou  sabendo que é o PS que responde pelo orçamento e que é sempre mais fácil atacar  a posteriori, fazendo barulho para que os seguidores acreditem e dando a ilusão de que se está a fazer alguma coisa ou mesmo de que se pode fazer alguma coisa.

A haver preocupação séria com o tamanho do orçamento da cultura , se é mesmo vergonhoso como dizem , e se são um partido que estuda os documentos antes de os votar , tinham dado por isso na altura e obrigado o governo a alterar as coisas sob pena de chumbarem o orçamento, tinham poder para isso. Mas assim é mais fácil e soa melhor., podem continuar com a posição peculiar de ir apoiando o governo e criticando o governo , colando-se quando as coisas saem bem , protestando quando saem mal enquanto  viabilizam tudo. Está bem feito sim senhor , podem não saber muito de economia ou de orçamentos mas no que toca a aparências sabem-na toda.