Centenário da Revolução

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Chato como sou com os comunistas até parecia mal se deixasse passar a data sem dizer nada sobre  os cem anos da revolução bolchevique na Rússia. Estimo que cem anos depois, com a poeira mais do que assente e com duas gerações enterradas, depois de mais de 20 anos para analisar os escombros e  a História, ouvir as pessoas, ver os sítios e contabilizar a  herança, todos já temos uma opinião sólida sobre o Comunismo e o sistema soviético. Algumas pessoas solidificam a sua opinião assegurando-se de que informação que não seja aprovada pelo Comité Central ou que seja posterior a 1989 não deve ser considerada.

A imprensa nestes dias esteve repleta de especiais  e artigos sobre o tema, há para todos os gostos, felizmente. Se estivéssemos num país comunista no dia 7 tínhamos que ir todos para a rua bater palmas, devia bastar dizer isso para encerrar de vez o debate sobre comunismo mas é impossível.

No DN  acharam por bem ir buscar um representante da espécie, nada  menos que o líder máximo dos comunistas portugueses, para falar sobre o tema. O camarada Jerónimo, que  como todos os seus é impermeável aos factos e insiste em ter uma História só para si , brindou-nos com um texto que poderia dar vontade de rir não fora a morte, miséria e opressão que ele nem refere de passagem.

Uma pessoa mais equilibrada podia perfeitamente fazer uma apologia do Comunismo cem anos depois e ao mesmo tempo fazer uma crítica e reconhecimento do mal que foi feito e dos erros cometidos, mas não. É engraçado notar que ele usa os mesmos termos, as mesmas frases, a mesma terminologia quer esteja a falar na Assembleia do República, na festa do Avante ou num artigo de jornal, o tom é sempre o mesmo e as patranhas também, desde a caracterização da revolução de Outubro, envernizada  como um movimento popular, até à velha história dos Bolcheviques terem vencido os Nazis sozinhos. Se apresentarem ao Jerónimo três calhamaços de historiadores credenciados, de três países diferentes, que documentem todo o auxílio material  dos Aliados aos Russos o camarada vai dizer : campanha de desinformação, manipulação e intoxicação, que é como é classificada toda a informação que contradiga a versão aprovada pelo Comité.

Jerónimo apresenta vários números, estatísticas  e listas sobre o extraordinário desenvolvimento tecnológico, económico, científico e social da URSS e uma pessoa (uma pessoa que pense) pergunta: mas então com todo esse desenvolvimento e avanço social porque é que aquilo caiu tudo como um castelo de cartas? As causas, para além de significativos factores externos, radicaram fundamentalmente num “modelo” que se afastou e entrou mesmo em contradição com os valores e ideais do socialismo, tiveram como resultado um grande salto atrás nos direitos e conquistas dos trabalhadores e dos povos.” 

Acho  estranho que o “modelo” que deu tão  bons resultados  afinal fosse  “afastado dos valores e ideais”, e nesta altura alguém devia tentar fazer ver ao Jerónimo  (ou a um  comunista de estimação que por acaso tenham, eu tenho dois)  que ou o modelo era como eles dizem que era e teve bons resultados ou não era , era um desvio e  caiu por causa disso. Defender as conquistas do comunismo para logo a seguir dizer que acabou porque não era bem comunismo é que não pode ser. Não pode ser, se quisermos respeitar a Lógica e  o significado das palavras, mas isso nunca foi o forte dos comunistas.

Sobre os mortos, as purgas, as fomes, os gulags, as limpezas étnicas, a polícia política, as ingerências, as guerras….nem uma palavra. Todos os detractores do comunismo, aos olhos dos comunistas, estão  ao serviço do grande capital , os nossos livros de História são mentira , as entrevistas dos sobreviventes do comunismo são todas mentira . Isto para mim está ao nível da negação do Holocausto nazi  e é uma ofensa à Humanidade.

Se no próximo 28 de Maio aparecesse num jornal um artigo  a enaltecer  partes positivas e  avanços  do Estado Novo havia  motins,  linchava-se o autor e fechava-se o jornal. Até podia tentar equilibrar a peça e falar de colonialismo , da Pide ou da miséria e falta de educação que não valia a pena, foi tudo mau, o fascismo, ou a nossa variedade, foi tão ignóbil como as outras e não se pode dar liberdade aos inimigos da liberdade, fascismo nunca mais e coiso. Entretanto temos um idoso soldador de formação cuja educação foi feita TODA no marxismo leninismo mais retrógrado e ortodoxo que alinha um texto pejado de mentiras ofensivas e ridículas a branquear um dos sistemas e regimes mais assassinos e destrutivos que o Mundo já viu, e é normal, é parte do processo democrático. Incrível. Mais me arrepia quando vejo jovens de 20 anos a debitar a cassete sem falhas, porque um velho comunista ainda é como o outro, viveu os tempos, acreditou, era uma ideia bonita, até arriscou ir preso por ser comunista, o caminho foi longo, custa mudar. Como é que se pede a uma pessoa que esteve presa por ser comunista que renegue o  comunismo? Diferente , muito diferente é ver um jovem de 20 anos a fazer a apologia da URSS e do comunismo,   tem o seu quê de sinistro.

Como Portugal ainda não é um país comunista ainda há debate e podem-se contestar e confrontar opiniões e ideias , e o artigo do Jerónimo foi prontamente seguido por outro artigo, do José Milhazes, a endireitar o registo. Este J.Milhazes foi daqueles que foi para a URSS com os olhos a brilhar e a sonhar com os amanhãs que cantam mas depois de muitos anos lá viu a realidade e tem passado o resto do tempo a contá-la cá e nesse artigo rebate impecavelmente os delírios do camarada Jerónimo.

Muitas pessoas dizem que o comunismo é uma boa ideia que foi mal aplicada. Eu digo que não, que é abominável e seria abominável mesmo se todos os preceitos e princípios fossem aplicados, e a aversão é simples de explicar : o comunismo nega o Indivíduo, desvaloriza o particular e a propriedade privada, obriga à acção   colectiva  e prescreve uma determinada orientação e organização para a sociedade. Eu acredito nos direitos do Indivíduo , na iniciativa e propriedade privada, defendo que a Sociedade não precisa de ser dirigida por nenhum comité central ou regional, que as decisões económicas devem estar nas mãos dos agentes económicos e que as desigualdades são uma característica e não uma anomalia. Defendo que o Estado deve ter intervenção e papel  limitados e que os cidadãos devem ser livres de ir e vir, comprar e vender , ler e escrever , ouvir e falar, tudo coisas que foram sempre impossíveis  no comunismo, e depois estes gajos ainda têm a lata de andar a comemorar os 100 anos da doença.

Tal como critico o Jerónimo por escrever loas aldrabonas sem ser capaz de apontar um defeito também sou capaz de apontar um resultado positivo da Revolução de Outubro: o medo que os bolcheviques instilaram no Ocidente e que levou a muitas evoluções importantes , nomeadamente no campo dos direitos dos trabalhadores. Foi o medo do perigo vermelho que pôs governos e capitalistas no caminho de reformas que beneficiaram toda a gente. É curioso como não foram os comunistas mas o medo dos comunistas a trazer essa mudança, e nem aí lhes concedo muito mérito, primeiro porque é causar mudança por meio de ameaça, real ou velada, e não me parece que seja etica ou moralmente muito meritório, e segundo porque nada nos garante que sem Revolução de Outubro as coisas não iam mudar na mesma. As teorias e as ideias circulavam, as queixas dos trabalhadores eram semelhantes em todo o lado,  e os capitalistas , tal como os comunistas ,  não comem criancinhas e até se diz que alguns têm mesmo um coração.

O número de pessoas que não sabe que Nazi é a abreviatura de Nacional Socialismo  é demasiado elevado, tal como é demasiado elevado o número de pessoas que não consegue ser contra o totalitarismo seja ele qual for, de direita ou esquerda , pela simples razão de ser totalitatismo, que não consegue aceitar que Nazismo e Comunismo não passam de duas faces da mesma moeda com muitíssimo mais em comum do que uns e outros gostavam de dar a entender.

Termino pedindo emprestada a reflexão de uma das mentes mais brilhantes  que o Mundo já conheceu e uma das figuras que mais admiro , Bertrand Russel , que neste texto de 1956 , quando na Europa ainda se podia acreditar na causa, explica sucintamente porque não é comunista .  Se amanhã o dia me correr bem traduzo-o para publicar aqui, porque há que lutar contra ideias más que pelos vistos não morrem, uma pessoa pode pensar que mais vale não lhes ligar e depois quando dá por ela tem comunistas no governo .

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Solidariedade Estatal

Entre as primeira reacções aos incêndios florestais que devastaram a região de Pedrógão Grande esteve a  contestação ao “aproveitamento político” das mortes. Qualquer pessoa que salientasse as culpas claras do governo na tragédia era logo  lembrada de que os outros também tiveram culpa. Tiveram, mas agora há só uns que podem fazer algo, os que governam, e esses não fizeram nem uma fracção do que deviam.

O governo disse que estava a ser feito tudo  que podia ser feito e que se iam retirar as devidas conclusões. Nem foi feito o que devia ter sido feito  nem se retiraram  as devidas conclusões, como se viu pelo relatório da comissão de Pedrógão Grande e como se demonstrou pelo regresso da desgraça  na semana passada, ardeu o Pinhal de Leiria e mais uns milhares de hectares e morreram outra vez dezenas de pessoas e animais, de mortes horrendas.

Em vez de passar a ver os incêndios como prioridade nacional  a seguir a Pedrógão Grande o governo, a 1 de Outubro, o fim da época de incêndios, encerrou os postos  de vigia florestal  . Alguém disse que se calhar não era das melhores ideias que já se tinham tido na Protecção Civil e a burocracia , dez dias depois, lá reactivou os postos. Se nenhum cidadão , se nenhum jornalista alertasse para o facto os postos eram para fechar até Maio, pelas contas e planos de uma agência governamental que se ocupa de proteger as vidas dos cidadãos.

Essa mesma agência foi remodelada na Primavera passada com as nomeações de pessoas que talvez não fossem as mais qualificadas e experientes para os postos, uma pessoa tem que questionar o critério. Parece-me senão ideal pelo menos justificado que se nomeiem pessoas de confiança política, mas sempre que esteja assegurada a competência, senão estão a defraudar os cidadãos nas suas expectativas. Mais uma vez não foi o caso, a competência actual da Protecção Civil e do seu belo SIRESP  está tristemente à vista de todos.

Ainda o chão estava quente em Pedrógão Grande, mais ou menos na altura em que o Costa encomendava um focus group à custa do erário público para aquilatar da sua popularidade, um amigo meu de Alcobaça pegou numa camionete, foi à cooperativa agrícola , carregou-a de fardos de palha e abalou para Castanheira de Pêra, uma das terras devastadas pelo fogo.

Desde esse dia, até hoje e sem indicações de parar, todas as semanas o João Luís, agora ajudado por vários outros, angaria e recolhe donativos, compra ração para animais e vai levá-la às populações. Já apareceu na TV, está sempre a “agitar” , a fazer propaganda, a animar as pessoas.Mais importante, constantemente dá conta do dinheiro que recebe e gasta, publica extractos, talões, facturas, todo o dinheiro que lhe entregam para comprar ração. Focou-se numa coisa simples e de primeira necessidade, já levou toneladas de ração, salvou centenas de animais e ajudou a minorar as dificuldades das pessoas que perderam  quase tudo.

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A sua operação é muito simples e é um belíssimo exemplo de solidariedade. Há centenas de milhar de pessoas sem o espírito e a energia do João Luís , que também sofrem com os incêndios e querem ajudar. A maioria desses olha para o Estado, e é má escolha.

Desde o IVA que pagam os donativos para várias campanhas até ao que se gasta na burocracia passando pelos tempos de espera, a solidariedade organizada pelo Estado deixa muito a desejar. Pior do que a pouca eficiência e roubo do imposto, é a selectividade.

O cidadão faz um depósito para “ajuda às vítimas” e o que quer e espera é ver a sua ajuda chegar  às pessoas desgraçadas. O Estado naturalmente sabe melhor, recolhe o junta os donativos e depois destribui segundo o seu critério superior e iluminado.

Ficámos a saber que quem quis ajudar e depositou dinheiro no Bordel na Caixa Geral de Depósitos contribuiu para se renovarem  e melhorarem  os Hospitais de Coimbra  , que receberam meio milhão do fundo de ajuda às vítimas. Renovar e melhorar hospitais é incumbência do Estado e não deve ser feito com donativos de caridade públicos. Se não são capazes de ter os hospitais em condições, admitam. Peçam donativos para isso.   Tenho a certeza de que as pessoas não contribuíram para a renovação dos hospitais, contribuíram para ajudar as vítimas, e esse meio milhão de euros desviados dava , por exemplo, para dar cinco mil euros a cem famílias vítimadas pelos fogos, que não as salva mas ajuda a enfrentar a situação. Cuidados de saúde  já estão garantidos , ou não? Até vem na Constituição, não me digam que este governo não consegue fazer cumprir a Constituição?

Se não conseguem identificar necessidades básicas e imediatas das populações e responder-lhes, como o João Luís e a sua camioneta das rações, peguem no dinheiro e mandem a GNR dá-lo às pessoas, vivo num envelope, elas de certeza que sabem melhor do que o Estado o que é lhes falta mais. A quais pessoas? Comecem pelas famílias que ficaram sem casa e pelos familiares dos mortos, não deve ser muito complicado encontrá-los mas nunca fiando, isto são as mesmas pessoas que compraram helicópteros que nunca voam e a poucos dias de arder o Pinhal de Leiria ainda não tinham lido o relatório sobre o Pedrógão Grande .

Além de ser imoral desviar e usar donativos para fins selectivos também não fica bem usá-los para coisas que são responsabilidade do Estado , como equipamento para os bombeiros. Tal como o Hospital de Coimbra , o equipamento do bombeiros deve ser  financiado pelo Estado, se o governo não consegue, admita-o.

Como parece que o Costa ainda não atingiu, admitir essas falhas do Estado e do governo seria um passo importante para nos proteger a todos de futuros incêndios e outras catástrofes, mas parece-me que mesmo, mesmo fundamental para o país e a merecer atenção e investimento considerável do Orçamento é o descongelamento das carreiras dos funcionários públicos. Invista-se nisso,  para carros de bombeiros e hospitais logo aparecem uns donativos.

Outubro e continuam os incêndios, se calhar a partir de agora já não há uma “época oficial de incêndios”. Dados os resultados não sei bem se declarar uma época oficial ajudou nalguma coisa, sei é que os burocratas adoram essas coisas, em que se produzem discursos , directivas, linhas orientadoras , gabinetes e comissões e quando se vai a ver no terreno está tudo igual ou pior. Como o terreno nunca é nas imediações de Lisboa, que por definição não sofre  fogos florestais, poucos querem saber.

Tal como ainda Pedrógão Grande fumegava e já o governo queria saber da sua popularidade também é normal que nestas últimas eleições se tenham feito boas contas aos votos de sítios ardidos, por arder ou imunes e tenho a certeza de que a maior parte  dos votos vem de sítios isentos de fogos florestais, logo, de pessoas para as quais  os fogos não são grande problema.

Já é um bocado como com o terrorismo, um leitor de notícias na TV começa uma história com ” em Londres  morreram oito pessoas num ataque terrorista….” e o espectador desliga logo a atenção porque já está saturado do tema e Londres é muito longe. Quando ouve “um incêndio de grandes porporções lavra desde ontem em…..” é a mesma coisa, a não ser que seja ao lado da sua casa.

A preocupação do governo com isto é idêntica à do cidadão: diz umas evidências  se lhe perguntam alguma coisa, tipo “é trágico, é uma situação que nos entristece e que tem que ser resolvida” mas daí não passa e a vida segue. Eu não tenho ideia nenhuma do que há a fazer para combater o problema dos incêndios mas esperava que um ministro tivesse, é por isso é que votamos neles e lhes pagamos, porque supostamente sabem mais do que nós e sabem resolver os problemas do país. Supostamente.

Na política partidária é o PSD que está na berlinda, o Passos acabou por se ir embora, a meu ver bem e tarde. Apesar de considerar que já devia ter abandonado a liderança há mais tempo votaria nele outra vez sem problema nenhum, considerando as opções actuais, sobretudo  porque sei  que não há politicos perfeitos e que é tudo uma questão de pesar os defeitos contra as qualidades. No caso dele acho que as qualidades superam os defeitos. Só não lhe perdoo ter tido uma maioria e o governo de um país ansioso por mudar, consciente de que estava num buraco e de que para sair dele era preciso fazer sacrifícios, foi uma oportunidade de uma geração para reformar Portugal mas, não sei se por falta de convicção própria se por cedência ao aparelho e aos interesses instalados as reformas foram caindo pelo caminho. Também no campo da comunicação patinou à grande, o seu governo nunca foi capaz de explicar claramente as causas e consequências das medidas que tomava, nunca foi capaz de saber falar por cima da gritaria histérica e desproporcionada. Sabemos hoje que foi  histérica e desproporcionada porque há hoje casos, medidas, observações e acontecimentos  de teor semelhante  que , simplesmente por ser outro governo em causa, já não incomodam tanto.

De resto, cumpriu uma legislatura, manteve isto à tona, evitou o que tantos queriam: ” seguir a via do Syriza” , via de que agora já ninguém fala e que correu como todos sabemos. Pôs a economia de novo a crescer, o desemprego a cair e ainda conseguiu ganhar as eleições depois de 4 anos de fricção. Não é pouco.

Agora a próxima oportunidade de tornal Portugal mais livre, competitivo, liberal e produtivo só chegará, se chegar, com a próxima bancarrota, altura em que as pessoas voltarão a perceber  melhor a realidade e os limites do endividamento estatal e dos mercados financeiros se tornam outra vez aparentes. Até lá teremos o Estado a inchar,  a gastar sempre mais, a estender a sua sombra a tudo e a aumentar a dívida que já é monstruosa. Que era imprescindível re-negociar mas que por causa de fenómenos paranormais desapareceu do debate e das procupações.

Nos candidatos a líder do PSD só vejo gente que já anda  nisto há 30 anos ou mais, como o Santana Lopes e o Rui Rio, que aparecem para muitas coisas mas certamente que não vêm renovar nada nem propôr nada de muito diferente do que o PSD propôs e fez no passado. Era uma boa altura para um novo partido, esperemos sentados. A Joana Amaral Dias pode criar um partido todos os meses que tem sempre a porta das redacções aberta mas  algum liberal que avance vai ter que lutar o dobro por tempo de antena e remar não só contra a corrente mas contra as nossas  “elites” e a  nossa cultura, não lhe invejo a tarefa.

Entretanto o PS instala-se de pedra e cal no Estado e faz o seu papel,  invulnerável a toda a gama de escândalos, que cá não chegam a ser escândalos, como o da ministra que recebeu uma cantora pop para lhe resolver um problema com um visto. Noutros tempos bradava-se aqui d’El Rei e era indignação certa para semanas, hoje encolhem-se os ombros, é sinal de que Lisboa está na moda e é cosmopolita e que os ministros se interessam pelas pessoas.

Enquanto houver crescimento económico e desemprego em baixa está tudo bem, é um bocado como no clube da Luz onde ninguém quer saber de corrupções, ilegalidades e vigarices desde que a equipa ganhe. Eu também aplaudo crescimento económico e desemprego baixo mas ponho reticências se o crescimento é à custa de mais e mais dívida  e o sector público é o grande empregador.

Uma das muitas experiências de psicologia relatada no livro mais fundamental das últimas décadas  para se perceber como pensamos explica perfeitamente o que se passa em muitas eleições:  perguntaram a um número de pessoas sobre a sua satisafação com a sua vida em geral. A uma parte dessas pessoas era-lhes pedido a dada altura que fossem tirar uma fotocópia. Na fotocopiadora encontravam uma moeda. As pessoas que “encontravam” a moeda revelavam-se muito mais satisfeitas com a vida do que as que não encontravam nada. Se o  simples facto de se encontrar uma moeda é suficiente para alterar a percepção e avaliação da nossa realidade, o que não fará um aumento de 1% numa pensão sobre a nossa opinião sobre o governo. Aos governos espertos basta saber a altura certa de deixar a moeda na fotocopiadora.

Votos

Não é que as filas ou multidões aqui sejam um problema mas a melhor hora para votar  é durante a missa, porque regral geral as pessoas votam antes ou depois, mas raramente das 11 ao meio dia. Estacionei a 10 metros da porta da Casa do Povo, não estava lá mais  ninguém para votar, no tempo que levou a atravessar a sala até à mesa já a senhora com o computador tinha encontrado o meu número de eleitor porque sabia o meu nome. Cumprimentei as pessoas, mostrei o cartão de cidadão e deram-me os boletins.

Conheço grande parte dos defeitos e insuficiências das eleições mas sinto-me sempre bem quando voto num processo organizado, claro e pacífico.Lembro-me sempre de países onde ou os votos não contam literalmente para nada, ou contam e há violência e corrupções de toda a ordem ou então são uma miragem de pessoas que gostavam de poder ter a sua opinião sobre os destinos do país reconhecida e contada. Enquanto houver liberdade de expressão e associação, imprensa livre e a possibilidade de de 4 em 4 anos mudar de governos, já não é  nada mau.

Aqui só o PS e PSD concorrem nas autárquicas, o que simplifica as coisas. O meu anti comunismo não é tão primário ao ponto de não reconhecer que uma autarquia do PC pode ser bem gerida e trabalhar bem mas regra geral e como princípio orientador, quanto menos comunistas organizados melhor.

Aqui há 1325 eleitores, votaram 988, quase 75% , para quem se importa com a saúde da democracia é um bom sinal. Também mostra que as pessoas se preocupam e interessam mais pela junta e a câmara do que pelo Terreiro do Paço. Este ano a margem foi muito grande mas aqui  uma dúzia de votos pode decidir uma eleição. O PS ganhou com 630 votos, o PSD teve 311. Nas últimas legislativas a abstenção foi de 50% , o PCP teve 16 votos, o PCTP MRPP teve um voto, o PNR também teve um voto e eu tenho quase a certeza que sei quem foi o gajo que votou no PNR, um conhecido meu completamente fascista.

 No resto do país não vejo grandes surpresas, o BE deve ter tido 25% de cobertura dos média para 3% dos votos e  nem o Isaltino Morais é uma grande surpresa. Como não tenho ideia de como é  morar em Oeiras não tenho ideia do que pode ter feito  o homem de tão importante para continuarem a votar nele desta maneira , mas esse é um problema das pessoas de lá.

Problema , grande, de outros é o da Catalunha. Lá votaram num referendo ilegal 38% das pessoas, e desses 90% querem a independência. Se os espanhóis mantivessem o sangue frio eram menos espanhóis, mas ao ouvir referendo, secessão e  independência, mandaram a polícia em força. Creio que teria sido muito melhor deixá-los fazer o seu referendo em paz , sempre a informá-los de que não conta para nada,  que até ver e no futuro próximo Barcelona é a capital de uma região parte de Espanha, por isso as coisas seguem como dantes.

Assim criaram “mártires”, opressão ,sofrimento e indignação. O líder dos independentistas é o chefe de um partido que obteve menos de 20%, salvo erro, nas últimas eleições. Respaldado num resultado de um referendo mal organizado, ilegal e sem obedecer pelo menos às normas formais dos referendos, diz que vai declarar independência. Tenho andado a ler sobre estes independentistas e como de costume os projectos são fortes no lirismo , visão e  inspiração mas são fininhos no detalhe. Como se o objectivo fosse a declaração de independência e todo o trabalho é feito para chegar aí , o dia seguinte a esse é muito menos discutido e pensado. Querer declarar independência depois de um referendo assim é de loucos.

O meu desejo é que  avancem depressa para uma conclusão, e só duas coisas podem acontecer : ou a catalunha secede e se torna um país ou permanece uma região de Espanha.

Se declararem a independência uma das  primeira coisas a acontecer  será a saída da UE (já tinha sido explicado aos escoceses o que aconteceria: saem para talvez voltar a entrar) . Tal como no referendo do Brexit, suspeito que a campanha independentista não passou muito tempo a falar sobre o que os catalães podem perder com a independência, talvez na crença de que não há inconvenientes nem custos.

Outra consequência  interessante pode ser no futebol, o FCB há décadas que é patrono, instigador, porta estandarte, eco, veículo e símbolo do nacionalismo catalão. Se se cumprir a independencia o FCB deve passar a jogar um campeonato com adversários do calibre do Lleida ou Espanyol , jogadores catalães naturalmente deixam de poder ir à selecção espanhola e deixam de ser cabeças de série em seja que competição europeia for. Eu achava bonito.

 

 

Negócios Autárquicos

-Vais votar nestas  eleições? , perguntava-me um amigo francês que mora cá

– Voto sempre.

-E votas em quem ?

– Eu  voto sempre contra os comunistas e socialistas, mas nas autárquicas abro uma excepção, voto mais pelas pessoas do que pelos partidos.

-E  nas legislativas,  votas na direita?

-O meu voto aí  não é por uns , é contra os outros. Eu sei que vai dar ao mesmo mas para mim a diferença é importante.

O meu amigo franziu o sobrolho,  tentei explicar melhor com os exemplo de todos os que votaram no Macron para impedir que a Le Pen avançasse, é o mesmo princípio. De qualquer maneira acho a divisão direita/esquerda muito ultrapassada, gostava de ver o debate e a escolha fazer-se entre colectivismo e individualismo ou estatismo e privatismo. Gostava de ver um partido liberal   mas em Portugal não existe política além da luta entre os que controlam o Estado e os que querem controlar o Estado, o papel dele não se discute  e é para continuar assim. Quem me dera estar errado mas isto é uma coisa cultural, pelo menos desde o Marquês de Pombal que o Estado é não o recolhido autor das regras ,o fiscalizador da justiça e o operador da partilha , derradeiro porto de abrigo de infelicidade própria ou pobreza alheia, mas o salvador da sociedade, o motor da economia, o distribuidor mor da riqueza, em suma , o dedo demonstrador do sentido clarificador da História . Um partido que venha reclamar e lutar pela redução do papel e influência do Estado em Portugal vai  lutar contra quase 300 anos de história e tradição, é um combate muito assimétrico.

Nestas eleições autárquicas devo votar no incumbente, tal como nas últimas também o fiz, e o incumbente perdeu. O actual presidente da Câmara é um tipo educado e calmo , comunica bem, representa bem o concelho e as suas políticas são as mesmas dos outros e da região, por arrasto: gerir empréstimos e fundos europeus,  fazer projectos de candidatura a mais fundos, empregar pessoas quer façam falta quer não e em geral manter isto a andar, devagarinho mas a andar. Num município como este não se pode vir com ideias revolucionárias nem rupturas, aliás, duvido que algum município do país seja capaz de alguma ruptura.

O presidente anterior, de outro partido, disse famosamente que “dão-me dinheiro para museus, faço museus”, este não é muito diferente e o critério de investimento rege-se pelo dinheiro que “dão”. Parece que finalmente parámos nos 8 museus num concelho de 1800 pessoas, agora há dinheiro para incubadoras de empresas, faz-se uma, quer faça falta quer não. Os outros não fariam nada de diferente, o PSD é tão  estatista como  o PS pelo que a comparação é entre seis de um e meia dúzia de outro. O PS leva a vantagem de ser o partido do Governo Regional, logo, este tende a favorecer e ouvir mais os autarcas da sua cor .

Por isso os critérios do eleitor nas autárquicas devem ser, a meu ver, os da honestidade e competência. A competência é fácil de avaliar, o cidadão olha à sua volta, compara com o que via há 4 anos, depois vai ver as contas (eu sei que é raro o cidadão que quer ver as contas) e os projectos e decide com esses elementos se há competência ou não. A honestidade é diferente, não está propriamente à vista e é muito mais difícil de avaliar.

Por exemplo, sabe-se agora que o Fernando  Medina, actual presidente e  candidato do PS à Câmara de Lisboa, não só é um às da imobiliária como tem uma sorte dos diabos. Vendeu um apartamento que tinha por mais 36% do que o que lhe tinha custado,  até aí tudo normal, o mercado das casas de luxo em Lisboa está em alta. Depois comprou outro apartamento, maior e melhor, só que desta vez o mercado funcionou ao contrário e a proprietária vendeu-o por 23% menos do que o que lhe tinha custado.

Isso só por si já é suficiente para levantar dúvidas, como é que num mercado em alta (a justificação, clara, para as mais valias que fez com a venda da outra casa) uma pessoa decide vender um apartamento que comprou por 800 e tal mil euros por 600 e tal mil. Ou bem que o mercado está em alta ou bem que o mercado está em baixa, os dois ao mesmo tempo não pode ser. Podemo-nos interrogar  sobre um presidente de câmara que ganha cerca de €3500/mês e compra um apartamento de €650000 mas isso é o menos, sobretudo vendo que a mulher do sr Medina é a sra Stephanie Silva , filha de Jaime Silva, antigo ministro de José Sócrates, adjunta de Medina quando este era secretário de Estado no mesmo Governo e advogada associada sénior na sociedade PLMJ. Uma pessoa não passa uma vida familiar na política a viver de salários mensais, isso está estabelecido há muitos anos e é claro para toda a gente.

Estas informações tirei-as deste artigo no Público, cheio de factos, com o título “Medina fez dois bons negócios com casas em Lisboa”.  Bons negócios, sem dúvida, mas isto leva-me a pensar como seria o título se por exemplo se soubesse que o Passos Coelho tinha feito bons negócios como este. Ou talvez seja um título sarcástico, porque para  além do absurdo de alguém comprar uma casa em Lisboa por 850 mil para a vender por 650 mil com o mercado em alta dez anos depois  há o pormenor de a proprietária vendedora se chamar  Isabel Teixeira Duarte. Por feliz e inusitada coincidência, a Teixeira Duarte, SA  beneficia de  contratos por ajuste directo com a CML.

O que me fez quase cair da cadeira a rir foi que o sr Medina, sem se rir, diz que não sabia que a proprietária tinha ligação  à construtora Teixeira Duarte. Sim,  porque é normal uma pessoa comprar uma casa sem saber o nome do vendedor e além disso Teixeira Duarte é um apelido muito comum e uma marca  insignificante  no meio empresarial. Foi daquelas coincidências felizes.

O sr Medina vai ganhar as eleições e estas negociatas e favores entre políticos e empresários  e a sua impunidade só podem surpreender os ingénuos. Não sei se ele foi bom ou mau presidente, não quero saber de Lisboa para nada, o que não gosto é que me façam de parvo. Nem o senhor Medina , que  acha normal ganhar 3500€ por mês e ir viver para uma casa que vale 850mil, diga o que disser o papel , e que ainda por cima tem a lata descomunal de dizer que não sabia que a senhora Teixeira Duarte tinha ligações à Teixeira Duarte,  nem os lacaios do poder que se apressam a defendê-lo, mostrando assim que acham bem que um político seja favorecido num negócio em centenas de milhar por uma empresa que subsequentemente recebe tratamento preferencial.

Podem embrulhar-me isto tudo em legalês e explicar todos os pormenores que fazem com que esta bosta fumegante seja perfeitamente legal, e também é óbvio que a história aparece por oportunismo eleitoral, mas isso  não muda a verdade: a um político ou governante que recebe favores particulares em troca de favores públicos chama-se CORRUPTO.

 

Actualidades

Faço um esforço  para não dar aqui muitas opiniões sobre política, por exemplo para não alienar algum comunista que goste de vela e barcos ou alguma pessoa religiosa que aprecie historietas  das ilhas. Parece que é bom ter um “público alvo” e o sucesso faz-se de identificar esse alvo e trabalhar para ele. O “sucesso” para mim não se faz disso e não gosto muito de calibrar o discurso para tentar agradar  a este ou aquele, por isso de vez em quando tem que ser.

-Depois de ter, como um tolo, acreditado nas primeiras informações do governo , ainda não sei o que se passou em Tancos e nem sei se alguém sabe. Já li tantas declarações contraditórias de altas patentes e políticos que chego aqui e acho que ou me escapou alguma coisa, ou então é mesmo assim, não é para esclarecer nem ninguém é responsável.Como já passaram mais de quinze dias, não interessa nada. Demitem-se, voltam a nomear-se os mesmos, foi assalto, foi erro de inventário, era material obsoleto, não era obsoleto. O ministro que tutela esta salganhada lá continua,  a fazer o que pelos vistos é um bom trabalho.

-Depois de ter, como um tolo, acreditado nas primeiras informações do governo,ainda não sei quantas pessoas morreram no incêndio de Pedrógão Grande e nem sei se alguém sabe. Agora o número de mortos está em segredo de justiça, o que me parece um bocado estranho, não percebo qual a razão de o número de mortos de uma catástrofe não ser público, mas o que é certo é que o segredo de justiça em Portugal é um bocado inútil, volta e  meia o Correio da Manhã publica coisas que deviam ser segredo de justiça e o próprio Presidente da Assembleia da República, o segundo magistrado da Nação, já disse com a classe que o caracteriza que se está a cagar para o segredo de justiça.Eu também, e nisso partilho da opinião do excelentíssimo, não me estou tão a cagar é para políticos que abafam problemas, gosto de saber quem são. Uma senhora lembrou-se de fazer uma investigação e chegou a contas diferentes sobre os mortos do incêndio, a acusação principal que lhe fazem é como esta :

https://www.facebook.com/plugins/post.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Frui.calafate%2Fposts%2F1579767878712935&width=500

Dizer que alguém não deve/pode ir fazer comentários à televisão sem ter as contas todas pagas é imbecil, é um critério que levaria a um esvaziamento das televisões e jornais (nem seria mau) e levanta a pergunta : onde é que ele entrega a declaração do IRS que lhe permite fazer estes comentários públicos? E por exemplo o Presidente do SLB, que em dívidas conhecidas vai em mais de 300 milhões?Pode falar e dar opiniões ou devia era estar calado? Ridículo. Anda a confundir-se criticar a falta de informação e responsabilidade do governo com “aproveitar mortos para fazer política”, isto devem ser tudo pessoas que ou não querem saber quantos morreram e porquê, estão no seu direito, ou acreditam em tudo o que diz o governo, também estão no seu direito. Entretanto o país continua  arder e se se critica o governo por isso é aproveitamento político. Dantes era dever patriótico, agora em Portugal os incêndios são uma inevitabilidade, e calem-se mas é , seus abutres a querer fazer política com mortos.

-Um candidato a presidente de câmara veio dizer que muitos  ciganos vivem do estado e pensam que estão acima da lei. Disse uma coisa que , vincando o MUITOS, é uma verdade evidente que ninguém contrariou porque ninguém pode contrariar. É destratado pela comunicação social e pelos bem pensantes, que enchem páginas a escoriá-lo mas não fazem o que deviam, se a afirmação os incomoda assim tanto: mostrar que é falso ou, na impossibilidade de fazer isso, mostrar o que é que falhou em 40 anos de “políticas” e “investimentos”, porque das duas uma : ou não falhou nada e assim está bem ou falhou alguma coisa e tem que haver responsáveis. O Bloco de Esquerda,sempre na vanguarda da defesa dos direitos das minorias e das mulheres, até conseguiu que se obriguem empresas a ter quotas de género mas está caladinho que nem um rato sobre o tratamento das meninas e mulheres ciganas no seio da sua comunidade. Não é segredo, basta perguntar-lhes, é com orgulho que as tratam como tratam, mas isso já não incomoda o Bloco. Para que se veja quão claro é o tema “ciganos”, até uma pessoa que nos últimos anos tem alinhado bem à esquerda, Pacheco Pereira, bate aqui no ponto certo,sem dúvidas sobre o que está em causa. Para o Bloco, problema é dizer-se mal dos ciganos, não é haver mal para dizer. Ou isso ou casamentos combinados de adolescentes e meninas que não podem ir à escola são aceitáveis  ou não, consoante a etnia. Também gostava de ver o PAN opinar sobre o tratamento dos animais nas comunidades ciganas, também aí deve haver excepções culturais para comunidades minoritárias e vítimas de discriminação e racismo, que por o serem podem ter cães , cavalos e burros à fome, frio  e  porrada bruta que já não é problema, é multiculturalismo.

Temos a seguir a Caixa Geral de Depósitos, que depois de encerrar balcões ,despedir uns 2500 funcionários e sugar uns 250 milhões do contribuinte em “recapitalização” ,  prepara-se  para aumentar o custo de ter lá uma conta . Isto para mim sempre foi das coisas mais odiosas dos bancos : se vocês tiverem seis dígitos no vosso saldo não pagam nada, se tiverem menos de três, pagam. Lógica do demónio, daquelas coisas que faz as pessoas enfurecerem-se com os bancos. Dados estes quatro singelos exemplos da gestão da CGD sob um governo esquerdíssimo, eu pergunto, mais uma vez: para que serve ao cidadão haver um banco público? A resposta é fácil e consensual, mas nunca  a vão ouvir de um político: para financiar projectos esquemas de interesse político e dar emprego a amigalhaços.

Sobre empregos especiais , uma pérola de um homem que é especialista na matéria e tem toda uma vida dedicada a esse combate, Carlos César:

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A pergunta era “quantas pessoas da sua família não trabalham para o Estado?”, mas como para ele o assunto está encerrado, pronto, não se fala mais nisso.Nem sei quem é que anda aí com a ideia peregrina de que os políticos devem responder sobre os seus actos e sobre a gestão da coisa pública e que não são eles que decidem quando um assunto está encerrado.

Antes de finalizar, lembrar que o PSD fez ontem um ultimato ao governo sobre não sei quê, só por si o suficiente para se aferir da qualidade da oposição, está em conformidade com a do governo.

Por fim , um quadro de uma das mais importantes reformas do PS para salvar o país, para ilustrar o apelo que vou fazer aos meus sobrinhos quando eles tiverem idade (porque é provável estar tudo na mesma em Portugal daqui a 10 anos) : arranjem um emprego no Estado a menos que queiram trabalhar mais, ganhar menos e serem responsáveis  pelo que fazem. Idealmente juntem-se a uma juventude partidária ou à juventude partidária do Bloco que não é como as outras porque é do Bloco e faz acampamentos onde se estuda  O Capital e se dança contra o racismo. Alguns deles vão chegar a deputados.   Portugal é isto, um gajo brinca mas às vezes custa.

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Responsabilidade Zero

-Ó sr Jorge , aquilo é que foram  incêndios!Foi perto da sua terra?

-Mais ou menos, não é muito longe.

-O Primeiro Ministro já disse que tinha que saber o que é que se passou, parecia bem zangado!

Mudei de assunto  porque me esforço sempre por distinguir  actividades que valem a pena de actividades que são desperdício de energia, e na ideia deste meu conhecido o Costa e o seu governo fizeram o melhor possível e têm que exigir respostas sobre o que correu mal ao invés de as fornecer. Têm que responsabilizar alguém em vez de aceitarem que se o nosso ministério falha abjectamente, a decência exige que nos vamos embora. Ninguém diz que a ministra da administração interna tem culpa objectiva na catástrofe, mas tem toda a culpa por ter sido o seu ministério a falhar. Se não me engano já vamos em 3 tentativas de explicação  diferentes, todas fornecidas por organizações estatais, e em nenhuma delas se encontraram  motivos considerados suficientes para apear pessoas que não fizeram o seu trabalho.

Já o Presidente, desde que veio cá à ilha, tirou selfies com 64% da população, deu o seu mergulho  matinal e foi-se embora sem influir  ou mudar rigorosamente nada na nossa vida aqui, não se consegue enganar mesmo que queira, é um espectáculo. Quando ouço falar dele como “uma pessoa muito natural” que “fala a nossa língua” lembro-me logo dos milhões de otários que defendem e apoiam o Trump pelas mesmíssimas razões. Não só defendem como acreditam que há alguma similaridade entre eles, uma relação, uma proximidade. É cómico, ou trágico , dependendo do ponto de vista, que pessoas sejam sempre enganadas por políticos que as convencem de que são parecidos, de que partilham das mesmas preocupações e aspirações. Ele é como nós. Se fosse como vocês não era Presidente.

Nos dias do incêndio Marcelo esteve à vontade na sua correria e prolífico em declarações , o que fica para a história é que chegou lá e desculpou toda a gente e dois dias depois  lembrou-se de  que  ficava bem pedir uma investigação e avaliação das leis . Entretanto aconteceu outra coisa interessante, o roubo de material de guerra de uma base militar, roubo até ver de características um bocado cómicas, como já disse alguém, parece uma rábula do Raul Solnado, os maus atacam quando os bons estão a ver o futebol. O Presidente, que certamente não se esqueceu de que é o Comandante das Forças Armadas, até esta manhã não tinha aberto a boca sobre o caso.

Ou ninguém  consegue calar o homem, seja  sobre um fait  divers  como uma avioneta que cai seja sobre um cataclismo nacional , ou cala-se durante 3 dias  perante uma ameaça  clara e presente à segurança nacional e europeia resultante de uma falha grave na instituição que ele comanda.  O critério que determina se diz coisas ou não, não é claro, já acho que não existe mesmo. Ao fim de 3 dias em que achou que não era o momento de comentar o roubo, veio hoje finalmente fazer declarações. O que diz hoje o Presidente? Defende uma investigação que apure tudo. Ah bom.

Repórter num universo paralelo:

-Sr Presidente, dado que  a um roubo denunciado se segue sempre uma investigação pelas autoridades, o que é que há  de novo nesta sua declaração?

-Como?

-Houve um roubo que foi denunciado à PJ militar e às agências de segurança. Se o senhor não defendesse hoje a investigação , investigava-se na mesma…ou não?

-Entendo que sim, eu não estou a ordenar nada, estou a dizer que entendo  que o caso tem que ser investigado até às últimas consequências.

-Mas isso entendemos todos. Acredita que é necessária a chancela do Presidente para que avance a investigação ou que a PJ e Serviços de informação e segurança são autónomos?

-Não, é óbvio que são  organismos que não necessitam de autorização nem pedido do Presidente para investigar.

-Então esta sua declaração hoje não quer dizer nada, é isso?

-Sim , no fundo é isso. Dê cá um abraço, você parece-me um bocado amarelado e débil, tem ido ao médico? Olhe lá a sua saúde!

Há pessoas com esperanças de que estes dois últimos escândalos, chamemos-lhes assim, sirvam para pôr a nu não só que o Estado é incapaz como que não tem vergonha de o ser e muitas vezes nem sabe que o é. Desenganemo-nos , politicamente nada vai mudar até aparecer alguém credível com um projecto para apresentar aos portugueses, coisa que suspeito não está para breve.É  uma ideia muito portuguesa, um  sebastianismo que nos deixa à espera de um homem providencial para levar isto a bom porto. Não acredito na Providência  mas mantenho uma réstia de esperança numa renovação que só pode chegar quando desaparecerem a maior parte dos que lá andam há 20 e mais anos.Como este, que também não tem vergonha nem acha que há razão para se demitir, está a fazer um óptimo trabalho, como de resto fez desde que entrou pela primeira vez para o governo, já lá vão muitos anos.Confiamos o governo do país a pessoas que ou são estúpidas ou não querem saber do que disseram há 2 meses desde que tenham alguma coisa para dizer hoje, alguma coisa que vá de encontro ao que as pessoas querem ouvir na altura.

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Em tempos que já lá vão morria uma pessoa nas urgências de um hospital , uma pessoa por definição doente e em risco, e ululava-se “assassinos” e “austeridade mata” a cada visita de governante. Interrompiam-se comunicações para se cantar a Grândola Vila Morena e mesmo que fossem quatro pessoas, as televisões e rádios “cobriam” os “protestos populares”. Mesmo que a vida  não tivesse piorado assim tanto na prática, a comunicação social garantia-nos que sim, que era a devastação neo liberal que nos estava a matar. Foram momentos heróicos de resistência, felizmente agora o PS, com a ajuda discreta do PCP e do Bloco, resolveu os problemas de Portugal, problemas que tinham sido todos causados pelo PSD e CDS.  Os eleitores portugueses hesitaram em dar o governo ao partido que nos tinha conduzido à falência, mas essa hesitação foi facilmente corrigida por pessoas que têm a vocação de interpretar as aspirações do povo à luz da ciência e corrigir desvios, os comunistas e demais marxistas que logo nos puseram no bom caminho. Estou quase convencido de que os poucos problemas que não se resolveram são impossíveis de resolver. Faz-se todo o possível, as crianças brincam outra vez , os que imigram já só o fazem por revanchismo e consta que 3 pessoas regressaram mesmo a Portugal agora que o governo tornou o ar mais respirável.

Pode não ser claro que se o meu respeito e esperança no PS é abaixo de zero , pelo PSD e CDS é zero mesmo e aos outros considero-os  anomalias anacrónicas que podiam desaparecer com vantagem para o país. Estou na mesma situação de, acredito, centenas de milhar de portugueses que não se revêm no governo nem na oposição, nem vislumbram no horizonte um tipo (ou tipa, desculpem o termo)  como o  Macron,  que não seja criado no caldinho das Juventudes; que não tenha o rabo preso com negociatas suas e dos seus compinchas; que não chegue lá pelo nome de família; que apresente um discurso de ruptura com a velha dicotomia esquerda/direita; que queira trazer para o governo gente da sociedade em geral e não os advogados do costume; que tenha um plano económico ligeiramente menos vago que “apostar no crescimento”, enfim , alguém capaz de renovar. Infelizmente é mais provável calhar-nos populismo que alguém assim, mas uma pessoa pode sonhar.

 

PS: O parlamento aprovou uma lei que proíbe que um senhorio se recuse a alugar a sua casa a pessoas com animais. Isto ofende-me um bocado. Tenho agora 17 animais, dentro de duas semanas serão 22, a maior parte  são gado mas o cão e o gato dormem em casa, os bichos são das coisas que mais me importam na vida . Apesar disso não me agrada viver num sítio em que o Estado é que diz os termos em que podemos ou não arrendar o que é nosso.É um desrespeito total pelos direitos das pessoas que não gostam nem querem ter animais nas suas casas, porque agora se decidiu, com partido e tudo, que todos temos que gostar de animais.Socialismo também é isto.