As regras

Como já me parece normal e recorrente, o meu projecto da microcervejaria voltou à estaca quase zero.Fiquei um pouco  chateado mas já percebi há muito tempo que se me vou enervar e desanimar por causa do modo como funciona o Estado mais vale meter-me já na cama e nunca mais me levantar.

Re-capitulando, em 2011 instalei-me aqui com a ideia de me retirar na navegação profissional e criar uma micro cervejaria, coisa que tinha visto pela primeira nos EUA. Em Portugal começava a falar-se do tema, havia talvez duas cervejarias artesanais e meia dúzia de entusiastas, no resto do mundo ocidental já a actividade estava consolidada e se expandia.É sabido que aqui é sempre tudo ao retardador.

Comecei por dar os primeiros passos a aprender o fabrico. Para desconsolo dos que gostam de manter controlo sobre tudo e para confusão dos anti tecnologia, no nosso tempo podemos aprender literalmente qualquer coisa desde que tenhamos uma ligação à internet e não sejamos muito  básicos. O percurso do principiante é difícil , ainda mais a 1000kms do fornecedor  mais próximo e ao longo de anos fui cometendo todos os erros e evoluindo lentamente.Hoje compreendo o processo, tenho equipamento e sei fazer cerveja com malte, lúpulo,água e fermento.É uma cerveja que  não ganhará nenhum concurso mas que “escapa bem” e já tem muita procura.

Além dos erros, atrasos e trambolhões relacionados com o próprio fabrico há outro calvário diferente,o das instalações e licenças. “Calvário” é das palavras mais usadas por empresários que se querem instalar e licenciar. Primeiro o problema foi que ninguém sabia encontrar-me legislação e regras para a cerveja artesanal. Aqui informaram-me  de que só era artesanal  se utilizasse matéria prima local. Para a Direcção Regional  “artesanal” não se refere ao método, refere-se à origem dos materiais. Acho isso estúpido, mas eles é que são doutores, e se lhes pedirem que justifiquem isso vão receber o tal sorriso condescendente e ouvir “aqui é assim”.  Andei com as minhas tralhas de casa em casa, garagem em garagem, à procura de um espaço que não fosse apenas adequado mas que fosse legalizável. Isto demorou muito mais do que devia porque periodicamente saía da ilha por meses para uma viagem oceânica , deixando tudo em suspenso.

Fiz uma formação em Inglaterra e quando voltei a pegar na minha legalização fiquei espantado com a folha de requerimentos do edifício. Exigiam-me coisas como 3 metros de pé direito livre e chão com pavimento lavável e eu acabava de chegar de uma microcervejaria com chão de madeira, entre outras coisas. Conversa com o inspector do IRAE:

-Isto não é legislação europeia?

-Sim.

-Então não devia ser igual em todos os países?

-Devia.

-Então como é que uma microcervejaria pode ter chão de madeira em Inglaterra e em Portugal precisa de ter pavimento lavável?

-O que acontece é que Bruxelas faz regras e leis e envia para todos os países , que as analisam, discutem e propõem ou não alterações. Os ingleses e outros pediram alterações a essa lei, nós cá aceitamos e carimbamos as leis que vem de Bruxelas tal como estão , passa a ser lei do país.Não se lembra da história dos galheteiros?

Lembrava-me perfeitamente, uma demonstração cabal de como a burocracia reguladora mal informada e fanática provoca desperdícios gigantescos e inconveniências enormes. Para quem não está lembrado,a dada altura pareceu a algum gajo/a de Bruxelas que virem dois galheteiros para a mesa do restaurante era uma ameaça à saúde pública e os condimentos tinham que passar a vir em doses individuais.Até alguém repor a sanidade isto foi mesmo lei, é bom para nos dar uma medida das pessoas com quem se lida nestes assuntos.

Foram passando os anos , fui melhorando a cerveja mas não me via muito mais próximo de encontrar um sítio em que me deixassem trabalhar. Aluguei um imóvel que tinha sido talho e peixaria,mas larguei-o  passado uns meses. De todas as exigências há uma mais crítica, os 3 metros de pé direito livre, que aquilo não tinha. Não encontrava nada na ilha disponível com essas medidas e não tinha meios nem terreno  para construir de novo.

Há 3 anos este edifício , no começo da canada que vai dar a minha casa, ficou disponível.

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Demorei um ano a conseguir arrendá-lo, pensei que como tinha sido licenciado para recolher o leite dos produtores das freguesias antes de ser levado à fábrica podia ser facilmente renovado para continuar a lidar com produtos alimentares. Isso poderia ser verdade noutro país, mas em Portugal um edifício que serve para recolher leite cru acabado de ordenhar, juntá-lo em tanques até perfazer 500lts e depois bombá-lo para um auto tanque, já não serve para fazer cerveja. Os funcionários da Segurança Alimentar também não são capazes de me explicar isso.

Arrendei-o porque  se queria chegar a fazer boa cerveja precisava de praticar, e o espaço serve-me também de arrumação. Entretanto o dono do tal “ex talho” que eu tinha arrendado encontrou-me na rua:

-Ó sr Jorge, olhe que afinal podia ter ficado a fazer a cerveja lá no talho, ainda ontem vi na televisão uns tipos a fazerem cerveja numa cozinha, e vendiam-na!

Voltei aos fóruns e grupos da cerveja artesanal e eis que as coisas tinham mesmo mudado desde 2011: alguém reparou que a cerveja artesanal existe e é uma coisa boa e foi criado o regime dos pequenos produtores de cerveja: se produzirmos até 2500lts por ano não somos obrigados a cumprir todas as exigências de uma instalação industrial do tipo 3. Desafio qualquer engenheiro de qualquer área a explicar-me convincentemente porque é que uma panela de 50 litros a ferver precisa de estar numa sala com 3 metros de pé direito em vez de 2,5 e um exaustor, onde é que está a diferença, onde é que está o risco, onde é que está a justificação para se exigir uma coisa dessas. Não está em lado nenhum.

Entusiasmado por ver o meu país chegar ao século XXI no que diz respeito à cerveja artesanal, voltei a negociações com a cooperativa dona do imóvel. Tudo leva meses. Finalmente comunicaram-me que não me vendiam o prédio mas que em vez de contratos de aluguer de um ano me faziam um por 3 anos. Quaisquer obras tinham que ser da minha responsabilidade. Calculei que me valia  a pena avançar , mesmo que ninguém goste de fazer obras no que não é seu em 3 anos conseguiria finalmente trabalhar e ter receitas e se ao fim do período o aluguer não funcionasse, já não começava do zero.

Fui à Câmara Municipal, aqui temos a vantagem inestimável de que se queremos falar seja com um técnico seja com o Presidente basta lá ir e regra geral somos recebidos imediatamente. Podia começar as obras quando quisesse, era só fazer um ofício, e quanto à licença de utilização, é só levar a planta, a matriz e uma descrição da actividade e dão-me isso no mesmo dia. Arranquei para o Gabinete do Empreendedor, cuja vocação principal é organizar subsídios, para saber que documentos tinha que entregar para o licenciamento. Mostrei à senhora o regime especial dos pequenos produtores de cerveja. A senhora sorriu e explicou-me como se eu fosse muito burro que nos Açores a legislação regional tem precedência.Tal como no continente se regista uma empresa na hora no Portal do Cidadão e nos Açores não, também no continente podemos ser um pequeno produtor de cerveja mas nos Açores não. Incredulidade é a palavra.

Voltei a perguntar, custava-me a crer que houvesse discriminação, ainda por cima numa coisa tão básica. A senhora deu-se ao trabalho de ir buscar a legislação relevante e mostrou-me  por exemplo que a Direcção Regional de Economia até regula quantos ovos um  produtor pode produzir para ter acesso ao regime dos pequenos produtores mas que não quer saber da existência de pequenos produtores de cerveja para nada.

Como não existe regime especial, qualquer aspirante a micro cervejeiro como eu tem que cumprir as regras de um estabelecimento industrial do tipo 3, sem apelo nem agravo. Nos Açores, claro, porque felizmente no resto do país a explosão e crescimento da indústria da micro cervejaria e cerveja artesanal deve-se sobretudo aos desbloquear da criatividade e trabalho de muitos , não os obrigando a ser industriais.

Não sei se é por aqui estarem habituados a indústria a sério e não quererem contemplar pequenos.Não sei se é por ignorância pura ou se é por vontade de ser diferente e mostrar que aqui quem manda são eles. Sei é que não posso fazer nada legalmente enquanto não tiver um espaço com os malfadados 3 metros de pé direito livre mais coisas imprescindíveis à segurança do processo como uma porta para as matérias primas entrarem e outra para o produto sair.Sabe-se lá o que poderia acontecer se o malte entrasse pela mesma porta por onde saem as garrafas.

Os orçamento para obras no antigo posto do leite supera em muito o valor do próprio edifício, já para não falar da complexidade da coisa, especialmente o rebaixar 40cm do piso. Fico com o sítio alugado, porque  a renda é barata e me dá jeito como arrecadação. Estou à procura, com um certo optimismo, de um canto de 30m2 que possa comprar para construir uma coisa de raiz, espero fazer um cubo, um cubo quanto mais feio melhor para que fique como testemunho de um país que prefere que se faça novo do que se recupere o velho, para poder dizer que queria recuperar e voltar a tornar produtivo um edifício existente mas dadas as regras , peguem lá este cubo roxo  à beira da estrada. Está regulamentar.

Não tenho dúvidas nenhumas de que daqui a poucos anos , será mais ou menos quando eu terminar todas as obras e estiver  a respeitar todas as regras, o Governo Regional vai chegar a este século e mudar a lei, harmonizando-a com a da República. É muito provável que até vá mais longe e torne mais simples a vida aos pequenos produtores nos Açores do que no continente. Será talvez pela mesma altura em que o filho ou primo de um deputado se interesse pela micro cervejaria como negócio.  Já estou mesmo a ver os títulos dos jornais e das entrevistas : governo congratula-se com o crescimento da cerveja artesanal nos Açores, tal como se congratulam com o crescimento do turismo devido à liberalização do espaço aéreo, os mesmos que passaram 10 anos a impedi-la.

Fiz uma página no FB para a Ovelha Negra porque tenho noção do valor e do que é preciso para criar uma marca e um mercado. As palavras do Gabinete do Apoio ao Empreendedor, para além de me explicarem que aqui é assim porque aqui é assim , foram :  tenha cuidado, já ouvi dizer que foram caixas dessa cerveja para fora…. o nível de interesse sobre o meu negócio, as minhas actividades correntes e as minhas perspectivas não passou disto.

Estamos bem entregues, bem aconselhados e bem orientados.

6 anos

Faz seis anos que para aqui vim.Conhecia duas pessoas,tinha uma terra de 400m2  com um palheiro velho,a ideia de fazer uma micro cervejaria,criar animais e viver o mais longe possível da confusão. A primeira prioridade  foi encontrar companhia de confiança e ao mesmo tempo  realizar  um sonho que a vida de marinheiro não permitia.

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Hoje saio de casa, olho à volta e continuo encantado com o que vejo.Tenho um cão sempre por perto e um gato que me faz sempre sorrir, quando não rir mesmo.Como ovos das minhas galinhas , tenho uma horta mais simbólica que outra coisa mas que me permite a satisfação de cultivar e comer o que cultivo.Tenho oito ovelhas em terras minhas e outras que arrendei ou me emprestaram , já sei alguma coisa sobre o cuidado e criação das ovelhas e terras, o rebanho está para aumentar e  talvez para o ano vá ter um cão pastor.

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Reconstruí o palheiro e cumpri todas as burocracias relativas a passar um terreno rural para um prédio urbano e habitação legalizada, a casa é pequenina e mal acabada mas é minha, cumpre todas as funções de uma casa e por ser minha parece-me um castelo.

Tanto quanto sei não criei  inimizades, não prejudiquei ninguém e tirando um ou outro delinquente que me roubou uma ou outra ferramenta, nunca ninguém me prejudicou.As pessoas que não me cumprimentam ignoram-me e não se pode pedir muito melhor do que isso.Fiz muitos amigos e se passo a maior parte do tempo sozinho não é por necessidade.  Não falar demais, respeitar toda a gente, pagar as contas a horas,fazer o que se diz que se vai fazer,ajudar quando se pode, dizer “se faz favor” e “obrigado”,sorrir.A minha receita para uma integração de sucesso.

E sobre tudo isto, e porque ninguém vive de simpatia e meia dúzia de ovelhas e estou determinado a deixar de navegar, há a cerveja. Nunca fui grande conhecedor ou apreciador, o interesse pelo fabrico da cerveja apareceu primeiro há mais de 12 anos,nos Estados Unidos, quando provei uma cerveja feita por um gajo em sua casa e fiquei a saber que nem só em grandes fábricas se podia fazer cerveja .Em Portugal nessa altura devia haver talvez meia dúzia de entusiastas da cerveja artesanal, lá já então  era uma grande indústria.

Perante a necessidade de ter trabalho e rendimento aqui  a cerveja sempre foi a que me pareceu a melhor ideia  de negócio,ao fim de  anos de constante remoer e avaliar das possibilidades, e pouco tempo depois de cá chegar recebi um “kit de principiante”. Fazer cerveja não é complicado e vivemos na Idade da Informação mas ainda assim requer muito tempo, algum equipamento,atenção e prática até se conseguirem fazer boas cervejas, já para não falar do que requer transformar esse conhecimento numa operação comercial numa ilha pequena e bastante remota.

Seis anos depois, tenho  uma micro cervejaria artesanal  (nano cervejaria talvez seja mais adequado…) na Ilha das Flores , produzo e aperfeiçoo  cerveja que com  sorte ainda este ano vai ser vendida legalmente. Recebi ontem os rótulos e sacos de malte em 25kgs,  marcando assim o dia em que aparece o produto completo e agora isto é a sério.

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Por tudo isto estou satisfeito,orgulhoso e motivado para os próximos tempos. Ao rever estes seis anos lembrei-me muito disto:  “Ser um casal permite-nos resolver a dois problemas que não teríamos se fôssemos só um”.

100 Vacas

Esse edifício é um posto de recolha de leite , existe um idêntico ou semelhante em cada freguesia . Tinham lá dentro tanques de temperatuIMG_20100105_233509ra controlada e os lavradores iam lá duas vezes por dia deixar o leite das ordenhas. Ao fim do dia uma camioneta/tanque passava pelos postos todos , recolhia o leite e leváva-o para a fábrica , onde era transformado em queijo , manteiga e iogurtes.

O meu caminho para casa , uma canada , começa por detrás desse e é onde deixo o carro todos os dias. Quando cá cheguei e comecei com o meu projecto da microcervejaria nunca me passou pela cabeça a possibilidade de usar aquele edifício , até que há dois anos estou a chegar a casa e vejo que estão a retirar os equipamentos lá de dentro. O posto ia fechar , os lavradores das Lajes que se continuavam a dedicar ao leite passavam a ir deixá-lo a outra freguesia .

Fiquei logo entusiasmado , o edifício não só cumpria os requisitos todos para trabalhar em produtos alimentares como a localização era ideal , e não apenas por ser mesmo ao pé de casa.

Fui falar com o presidente da cooperativa , que me disse que sim senhor , estava fechado e estavam abertos a negociar a venda daquilo e eu seria o primeiro a saber de qualquer decisão. Isto foi vai para dois anos. Sendo uma cooperativa , a questão tinha que ser levada a assembleia geral. Houve uma , fui saber os resultados , o presidente disse-me que havia sócios que se opunham a vender património. Sim senhor , compreende-se bem , que não se venda , arrendem-no , assim não só o património fica como o edifício não se degrada , não seria o valor do arrendamento que ia salvar a cooperativa mas era alguma coisinha. Ia falar disso na próxima assembleia. Passaram os meses e nada. O presidente não me atendia o telefone , até que soube ( pela rádio…) que se tinha demitido , agora era outro. Isto já foi há perto de um ano. Fui falar com o novo , nunca tinha ouvido falar no assunto em assembleia nenhuma, disse-me que em princípio concordava com o arrendamento ou venda e em breve me dizia alguma coisa. Passaram os meses , não só não me dizia nada como não atendia o telefone. Fui falar com o presidente da Câmara , expliquei-lhe a minha ideia em 2 minutos e o que lhe pedi foi que quando tivesse oportunidade dissesse ao presidente da cooperativa “ veja lá se diz alguma coisa a este gajo” , não é nenhum favor especial , é porque as pessoas geralmente prestam mais atenção se for um presidente de câmara a dizer alguma coisa. O presidente lembrou o outro presidente de que eu estava aqui com um projecto de investimento para as Lajes , pode ser quase insignificante mas é um projecto, à espera que falassem comigo , sim ou não. Recebeu-me muito cordialmente , em Novembro passado, explicou-me que não atendia o telefone porque todos os dias o bombardeavam com pedidos e exigências relativos à cooperativa sobre os quais ele não podia fazer grande coisa e disse-me que a direcção estava de acordo em arrendar ou vender o posto. A questão era o processo em curso para avaliar e organizar todos os activos e património da cooperativa , havia questões pendentes sobre a situação do edifício , desse e de outros , e havia advogados a trabalhar no caso, esperava-se uma conclusão para o fim de Janeiro , depois podíamos tratar disso. Bom , mais 3 meses menos 3 meses ao fim de 3 anos , esperava bem.

Ora já há muitos anos que os laticínios dos Açores , apesar de poderem ter qualidade superior , subsistem à conta de subsídios , isto não é contestado em lado nenhum , é uma realidade. Apesar disso as coisas vão-se complicando de dia para dia , primeiro com o fim das quotas leiteiras que asseguravam mercado para esses produtos , depois com a subida enorme dos custos dos lavradores , que mesmo com subsídios mal conseguem rentabilizar o seu trabalho , e por fim as sanções aplicadas à Rússia que encaminharam para a Europa ocidental os laticínios , por exemplo polacos , que eram vendidos lá e fizeram tombar os preços por cá. Olhando para estas coisas todas podiam-me perdoar por pensar que os laticínios dos Açores não eram propriamente um sector cheio de futuro . Logo da primeira vez que cá vim , em 1998 , algumas mentes mais esclarecidas já falavam do problema da monocultura da vaca e de como era necessário diversificar e inovar. Desde 1998 para cá investiram-se dezenas de milhões nos laticínios dos Açores em dinheiro público e privado ainda que se continuem a ler e ver todos os dias histórias sobre os problemas do sector. Lembremos aqui que a região é governada por socialistas , pessoal cujo principal reflexo perante um sector em crise é mandar dinheiro público para cima do sector em crise na esperança de que mais dinheiro resolva o problema. Não resolveu , se cessassem os subsídios aos produtores de leite dos Açores o sector fechava as portas e pronto , é provável que o governo ache que as coisas devem ser assim , que é saudável subsidiar actividades económicas permanentemente deficitárias .

Perante este cenário e sabendo , por falar com lavradores e ver de perto a situação , pensava que os dias da cooperativa estavam contados. Isso não me deixava contente , longe disso. Há uma fábrica , há muitas explorações e dezenas de pessoas e famílias que dependem disso , há os produtos que eu próprio compro sempre e prefiro aos “importados” , o queijo , a manteiga e os iogurtes , e seria verdadeiramente triste e mau para a ilha se a cooperativa tivesse que fechar.

Talvez não tenha  que fechar , talvez consigam inventar um queijo diferente, caramba , há queijarias particulares na ilha que fazem queijos óptimos , superiores aos da cooperativa , porque não a cooperativa pegar nessas receitas e métodos , juntar-se com esses particulares e lançar um queijo excepcional com volume que possa ser vendido em Lisboa e no Porto a bom preço? Ou quem sabe contratar um especialista a sério , como os jovens enólogos que salvaram e relançaram tantas vinhas e casas agrícolas por este pais fora ? Tinha , e ainda tenho esperança que isso aconteça, mas de qualquer maneira achava que o modelo dos postos de recolha espalhados pela ilha estava acabado , até porque a maior parte , como este ao pé de minha casa , já estava encerrado e vazio , que uma recuperação da cooperativa não ia certamente passar pelo posto do leite das Lajes e que era bom para toda a gente se a cooperativa me alugasse aquilo para eu manter o edifício , criar um posto de trabalho , quem sabe até dois ou três a médio prazo , criar uma actividade económica nova e tão necessária nesta ilha , por pequenina que seja a empresa.

Acabou Janeiro , os advogados já deviam ter o património da cooperativa organizado e na primeira semana fiquei à espera do telefonema . 8 dias e nada, fui à fábrica , o presidente não estava , deixei-lhe uma nota “conforme a nossa conversa….” e tal , a pedir-lhe que me ligasse . Nada . Fiquei um pouco chateado porque acho que mesmo que tivesse havido atrasos , problemas ou dúvidas era de esperar um telefonema a explicar-me precisamente isso , chama-se consideração , mas pronto , eu é que sou talvez mais esquisito que a média. Passaram mais uns dias , estava para ir acampar para a fábrica até poder falar com o homem quando por acaso me dizem que se está a trabalhar na importação de 100 vacas leiteiras .

Pensei que não estava a ouvir bem , mas estava . Trabalha-se num plano de recuperação da cooperativa , que queria 250 vacas para poder pôr a fábrica a laborar a 100% , mas parece que o governo só está disposto a pagar 100 vacas . O governo. Mais 100 vacas , em 2015 , com o sector leiteiro a cair aos pedaços , o governo acha boa ideia comprar 100 vacas para as Flores.

Respirei fundo , ainda não digeri muito bem esta informação. Claro que agora , com a perspectiva de virem mais cem ou duzentas vacas leiteiras para a ilha , o posto do leite pode voltar a ser usado para a sua função original. É mais do que típico do nosso país , especialmente em coisas que envolvem o governo , fecha-se hoje mas pode abrir-se amanhã , gastando-se dinheiro nas duas operações , como se fosse assim que as coisas devem funcionar.

Claro que me alegro se o sector leiteiro se revitalizar na ilha , eu quero é que aqui haja trabalho e produção , e se o que é preciso para isso é o governo comprar 200 vacas , vamos embora , há coisas mais estúpidas e mais graves a passarem-se todos os dias e não é por aí , mas estou abalado porque aquele edifício é simplesmente ideal para os meus fins e agora , na última volta deste projecto que já deu tantas , é outra vez impossível.

Entretanto vou outra vez à fábrica , sentar-me à porta até poder falar com o presidente , que não me deve absolutamente nada e está a cumprir a sua função o melhor que pode , para me confirmar estes desenvolvimentos , para saber se é melhor finalmente tirar dali o sentido e se se pensa em reactivar todos os postos do leite da ilha ou se há outro dos que estão fechados e a degradar-se que eu possa arrendar .

Começo a perder o ânimo , mas quem deixa isso acontecer nunca vai a lado nenhum.

Passo a passo

No Sábado passei a maior parte do dia a fazer cerveja , foi a primeira vez que fiz só com malte , lúpulo ,água e fermento . Já tinha feito dezenas de litros a partir de uns kits de concentrado que há , o método com que toda a gente se inicia no processo da cerveja caseira e onde se aprende o básico.

Com alguma meticulosidade a cerveja feita com os kits não tem por onde falhar , já ouvi dizer que há microcervejarias em Portugal que vendem cerveja feita a partir desses concentrados como “cerveja artesanal” , já um amigo me aconselhou a fazer o mesmo porque é muito mais fácil e mais certo , mas não pode ser , vender cerveja dessa é como vender tang laranja a dizer que é de laranjas espremidas . Não é que a cerveja seja má , longe disso , há muitas e excelentes variedades , mas fazer aquilo não é a mesma coisa , não é fazer cerveja a partir de grão como há séculos, com equipamentos modernos mas ainda assim seguindo um processo que é o mesmo , na sua base.

Tive que levar o equipamento todo para uma arrecadação de um amigo e arranjar lá o espaço que não tenho em casa , aluguei um sítio que é óptimo para o efeito mas só depois de o ter alugado é que vi que não tinha contador de electricidade nem o pé direito de 3 metros requerido para a fabricação comercial de cerveja. Sem os 3 metros aquilo não me serve para o futuro pelo que não compensava investir num contador novo para usar dois ou três meses. Serve para fazer cerveja com os tais kits porque uso gás para aquecer água , mas para fazer a partir de grão uso uma panela eléctrica.

Há uma casa no Porto que vende os ingredientes escolhidos , medidos e pesados para cada receita , comprei 4 receitas , a encomenda demorou 34 dias a chegar do Porto aqui , acho que chegava mais depressa à Nova Zelândia , está bem que a ilha fica longe mas tem que haver nisto alguma coisa mal feita , se o navio vem de 15 em 15 dias nada devia demorar mais do que …15 dias.

Como me acontece às vezes , não reparei num pormenor lá no site quando fazia a compra , a menos que eu especificasse o malte vinha inteiro , porque se conserva melhor. Sucede que um moinho de malte é uma das coisas que ainda me falta , uns vizinhos deixaram-me usar um moinho de cereais comum mas a incerteza começou logo aí , o grau da moagem não é aleatório , claro , e não sei se ficou como deve ser.

Tinha feito uma lista dos passos todos do processo , com as instruções da receita e com as pesquisas na bibliografia que tenho. Bom , para primeira vez foi muito instrutivo , uma coisa é escrever por exemplo “manter o mosto a 65.5º durante 90 minutos” e outra coisa é consegui-lo na prática quando é a primeira vez que mexemos numa panela eléctrica . Daqui por quinze dias engarrafo-a e num mesito já vou ver o que saiu , muito me surpreendia se estivesse bebível , não se pode esperar acertar uma coisa destas à primeira.

Uma coisa que me deu gosto , daquelas coisas simples , pequenas e estúpidas que me dão gosto , foi ver as ovelhas a comer o malte que fica no fim do processo da brassagem , elas adoram aquilo , tem um grande valor nutritivo e assim nada se desperdiça. Tenho uma espécie de abafador para o fermentador que é feito com lã das minhas ovelhas , que assim são complementares ao processo , hei-de inventar uma cerveja a que vou chamar Ovelha Negra e ainda hei-de arranjar maneira de envolver o cão.

Ainda tenho um caminho longo para percorrer antes de conseguir fazer boa cerveja de malte com regularidade e qualidade comercial , mas já começou há uns tempos e no Sábado foi mais um passo importante. Quando dou por mim a queixar-me de que sozinho tudo custa mais e é mais difícil lembro-me de que também sabe melhor quando conseguimos algo importante sozinhos. Não se trata de preferir ou trocar um estado por outro , trata-se só de conseguir apreciar o lado bom que existe em todas as situações . Em quase todas as situações.

Tem estado um tempo magnífico , tirando uns dias de vento mais forte que receio bem me tenha queimado os hibiscos que tinha acabado de plantar , ninguém diria que é Janeiro. Tenho Janeiro passado na memória como se fosse ontem , esteve sempre um tempo terrível que se prolongou por Fevereiro , este tem sido um começo de ano ameno mas até ao Verão ainda está para vir muita chuva e vento.

As Lajes :

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