Foi a primeira e mais provável das 3 possibilidades, o mastro partiu e abandonámos a prova. Fomos os primeiros a fazê-lo de mais 10 que também entraram a reboque, as condições foram um bocado duras para toda a gente.

Os botes já estão encostados à muralha no porto das Lajes, tanto quanto sei as companhas foram, regressaram e  trabalharam em conjunto sem  ninguém se chatear, o pessoal divertiu-se na Semana do Mar , toda a gente aprendeu e pela  parte que me toca cá estou pronto a continuar.

Mesmo que os momentos bons sejam curtos e o trabalho e chatice sejam bastantes, fazer parte disto não tem preço.

O Campeonato

Saímos daqui na quinta feira à tarde com bilhetes de avião para estar na Terceira à noite. Não se conseguiram arranjar lugares no voo directo e assim só chegaríamos tarde na véspera da primeira regata sem sequer ter tempo de ver o bote.

Vai já o primeiro de alguns apartes : esta explosão do turismo já está a prejudicar os locais na medida em que o governo gasta milhões em publicidade à região, introduziram umas das medidas mais estúpidas  que já vi que é subsidiar os voos inter ilhas dos turistas com dinheiro público, claro que isto atrai batalhões de turistas mas a SATA tem o mesmo número de aviões pequenos de há cinco ou seis anos. Não é preciso ser engenheiro para perceber que se aumentou enormemente o número de visitantes sem acautelar transporte para todos, visitantes e locais. No alojamento e restauração, que dependem dos privados, a coisa ajusta-se. Nos transportes aéreos , que dependem do Estado, os problemas acumulam-se de dia para dia, não há resposta, há caos e segue-se um exemplo pessoal e claríssimo.

Tínhamos prevista escala em S.Miguel, lá chegámos sem novidade, só com uma ligeira hora de atraso. O voo para a Terceira estava marcado para as 21, até às 23.40 foram-se sucedendo os adiamentos até que pouco antes da meia noite foi anunciado voo cancelado por razões técnicas. estas razões técnicas, soube-se depois, prendiam-se com uma greve do pessoal da manutenção. 80 pessoas em terra com a vida encravada. Fila enorme para as reclamações até que somos informados de que “não há hotéis” . Estupefacção geral. A SATA torra por ano centenas de milhar em hotéis e indemnizações provocadas pela própria incompetência e desorganização (excepto a parte dos cancelamentos por razões meteorológicas) , e isso nota-se nas contas. Quando  não é desorganização, incompetência ou o mau tempo a cancelar voos, podemos sempre contar com os sindicatos a ajudar a manter os aviões em terra e  destruir a reputação e rendimentos da companhia.

Tenho amigos em S.Miguel, se lhes ligasse, memso àquela  hora,  vinham-me buscar de boa vontade, e trazer no dia seguinte às 6, mas nunca deixei tripulações atrás e não ia começar agora, assim ficámos todos por lá nos bancos e nos cantos, sem comida porque tudo no aeroporto já estava fechado. Turistas, idosos, crianças, uma vergonha.

No dia seguinte pelas 10 da manhã chegámos à Terceira e tínhamos uma carrinha da Junta de S.Mateus à nossa espera, lá nos instalámos no edifício da junta e apesar de estar toda a gente estoirada fomos ao porto para ver o bote. Estavam 12 na rampa, o 13º seria o S.Pedro, mas nem vê-lo. Telefonei,  informaram-me que estava no contentor onde veio, num canto do porto. Encontrar um reboque (uma treila) emprestado, tirá-lo de lá de dentro e levá-lo para o porto, tudo coisas que demoram e exigem esforço. Quando finalmente estava na rampa com os outros era hora de almoço, lá fomos para a Casa do Povo já sem esperança nenhuma de poder verificar e ensaiar o material, nem de dormir uma sesta e tomar um duche. A primeira regata foi às duas da tarde e informaram-me aí que estavam previstas duas para essa sexta feira. Vamos a isso.

É das partes mais bonitas, para quem não está podre de sono e estafado, 13 botes a arriar, as tripulações a levantar e aparelhar os mastros e a Walkiria e a Rosa Maria, as lanchas baleeiras nesta prova, a recolhê-los todos num reboque de seis cada uma, cada uma na sua amarra de 15 metros. Levam-nos até cerca de uma milha e meia da primeira bóia , alinham-nos a cerca de 90º do vento, soa a buzina e todos os botes largam a sua amarra, içam o pano e arrancam.  Rodar 3 bóias e cruzar uma linha de chegada mesmo frente ao porto, quando rodei a primeira ainda ia mais ou menos dentro do tempo mas quando rodei a segunda já a maior parte dos botes tinha rodado a terceira, acabámos por chegar em penúltimo, o que para mim nem foi muito mau porque a distância dos outros não foi assim tão grande.

A diferença de nível entre botes que fazem regatas todo o verão e são tripulados por quem anda naquilo há anos e o nosso, em que a primeira regata que o oficial (neste caso, eu) fez na vida foi o ano passado e que nunca participou noutra desde então e treina sem outro bote que seja para se medir, é abissal. Ficámos à espera da chamada para a segunda regata e já havia cabeças a pender de sono, lá se repetiu o ritual, e dessa vez ficámos mesmo em último, não apareceu assim na tabela porque um dos botes virou e abandonou. Varámos o bote estafados, foi jantar e tentar dormir, mas isso fui eu, porque a rapaziada foi para Angra do Heroísmo. Destaque especial para o sr. Medonça, 70 anos, que passou uma noite num banco de aeroporto, correu duas regatas de vela e no fim ainda foi para a festarola para Angra, incrível.

O meu amigo que faz a proa do bote ressona valentemente, não adormeci, e pela uma ou duas chegaram os moços meio bêbados e contentes, foi mais uma noite mal passada. A regata desse dia correu ainda pior, não consegui acabar o percurso no tempo determinado, podia dar umas quantas razões tipo as condições dificílimas de ventos muito variáveis, mas foram muito variáveis para todos e só eu e outro é que não acabámos. Há um tempo determinado para acabar o percurso, esgotado isso levam-nos  a reboque para dentro. Pediram-nos que não varássemos os botes na rampa porque ao fim do dia ia haver uma tourada no porto, deixei o S.Pedro amarrado ao de um amigo do Pico, ficou o último de quatro botes amarrados a  uma traineira. Fui perguntar à organização se podia ficar lá à noite, disseram-me que sim, que fizesse como entendesse, fomos para os copos.

Nesse dia havia mais 3 touradas na Terceira e mesmo assim em S.Mateus estava mais gente a ver do que vive nas Flores. Fui espreitar, só para ver o animal, e era um touro a sério. Não vi mais nada, olho para aquilo e só penso na desorientação e fúria e confusão do animal. Fiquei com outros da mesma opinião numa esplanada cá para trás, e às tantas, quando um dos vários bêbados locais se veio assegurar de que estava tudo bem connosco e garantir as boas vindas à freguesia, perguntei-lhe:

-Ó senhor, se chegasse aqui alguém do governo e dissesse que as touradas eram para acabar , o que é as pessoas faziam?

Ele pensou um bocado nessa proposição tão descabelada, largou-se a rir como se eu tivesse contado  a melhor anedota do ano e foi-se embora a rir. Eu acho que eles diziam que sim, que estava bem,  no dia seguinte faziam uma tourada e tenho pena de quem quisesse impedi-los.

Lá acabou a tourada, pela meia noite já estava tudo a carburar bem quando me vêm avisar de que tenho que tirar dali o bote, a traineira vai sair. Foi complicado, dada a hora, o grau alcoólico, a tripulação reduzida, o facto de estes botes não serem feitos nem estarem equipados para amarrar a um cais, mas ao fim de nem sei quanto tempo lá acabei por o deixar em segurança aqui:

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Seguiu-se mais uma noite mal dormida pelas mesmas causas, eu gostava de saber se também ressono mas não faço ideia, nunca está lá ninguém para ouvir por isso parto do princípio de que não ressono, mas na nossa tripulação não faltava quem ressonasse. Da próxima vou prevenido com tampões para os ouvidos. No dia seguinte o humor e disposição da tripulação, incluindo o meu, estavam de rastos. Ao cansaço e esforço da coisa toda juntava-se o desagrado por perder, ninguém gosta de ser último e a responsabilidade é sempre do mesmo.

Lá fomos para a última das regatas, eu como não acredito em milagres e já tinha visto que todos os botes conseguiam orçar pelo menos mais 10º do que nós,  sabia que ia correr mal e consumia-me de culpa por antecipação. Estava um dia limpo e vento estável , nem largámos mal mas quando rodámos a primeira bóia já iam 11 botes a rodar a segunda , é preciso ânimo e saber que se pode abandonar a prova a qualquer altura mas abandonar , apesar de ser o que se tem vontade, não pode ser de maneira nenhuma, tem que se levar até ao fim. O Senhora do Socorro, bote ultra campeão da freguesia no Salão , no Faial, cortou a meta em primeiro ainda nem tínhamos rodado a última bóia. Só perderam uma regata, para o Maria Pequena cujo oficial é um amigo meu francês que mora no Pico há muitos anos. Quem estiver interessado no contraste entre um marinheiro científico e um marinheiro instintivo é ver esses dois. O do Faial é uma máquina e o bote sempre numa afinação extraordinária. O do Pico é só coração , instinto e desenrascanço, mas pede-lhe meças facilmente, já lhe ganhou e há-de tornar a ganhar. São ambos cavalheiros, com as respectivas diferenças. A dada altura aproximei-me do antepenúltimo bote, Senhora da Guia, tripulação feminina do Faial. Pensei logo que tinham tido algum problema porque não era natural estarem ali tão para trás, mas lá o resolveram e em dois bordos deixaram-nos atrás.

Fomos mais uma vez os últimos a cruzar a linha de chegada, a lancha  já andava a recolher as bóias , passou por nós sem um aceno nem uma oferta de reboque, os moços ressentiram-se, eu também , um bocadinho. Varámos o bote já os outros estavam quase todos arrumados, chegou o Zé Lizandro , o trancador que faz 90 anos este ano e anda sempre connosco.

-Ome então?

-Olhe, é o que está, encolhi os ombros.

– Ficaram atrás das moças?

Abanei a cabeça que sim, e  passou um desconsolo pelos olhos do homem

-Ome é assim , ninguém se pisou e o bote tá bom, já é bem bom.

Sem pausa fomos carregar o bote num atrelado e enfiá-lo no contentor onde veio, ambiente funerário. Nunca mais, disseram quatro dos moços, e eu , no fim do contentor estar fechado também disse que acabou. Não me estou a divertir com isto, consumo-me e sofro e é uma frustração, já para não falar do trabalho e tempo gasto nas Lajes e no que que obriga a coordenar , para estar aqui, para vir fazer esta figura. Juntando a isso passar 4 dias 24 sobre 24 com 4 tipos  que são boas pessoas e tal mas que são, para simplificar, muito diferentes de mim em tudo, é demais.  Fui passear antes de jantar e tirei essa foto, das minhas preferidas de sempre, como sou um moço do meu tempo publiquei-a no facebook . Das quarenta a tal pessoas que “gostaram” só uma mão cheia sabe que isso é  a linha de chegada da regata. Olhei bem para ela e para tudo o que significa e percebi logo que não seria capaz de largar isto agora. São regatas mas isto é muito maior que as regatas.

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No jantar e na entrega dos prémios, 200 pessoas , todas as envolvidas no campeonato. Agradecimentos, discursos, um apupo geral à SATA pelo que nos aconteceu. As tripulações com pódio vão todas ao palco mas até ao terceiro lugar só vai o oficial. Subiu o oficial do ultimo bote, depois chamaram-me a mim e lá fui, com um sorriso conformado mas lembrei-me de endireitar as costas (não tenho ido ao yoga…) e de que há mais pessoas que foram ao espaço do que pessoas que fizeram uma regata ao leme de um bote baleeiro.  No palco o director da prova disse-me que ia fazer um agradecimento especial ao S.Pedro por ter trazido os 30kgs de lapas que toda a gente tinha acabado de comer.

-Se é para os chamar ao palco chame agora, disse eu, e lá vieram os moços , sob um aplauso enorme de 200 pessoas que sabem de onde nós viémos, o que nos custou lá chegar, as condições que temos e o esforço que é estarmos ali a competir. Foi bonito e aqueceu o coração. Daí para a frente foi vinho tinto com fartura e nessa noite peguei no colchão e fui dormir para o fundo do corredor, o mais longe possível dos roncos e assim descansei alguma coisinha.

O dia seguinte foi passado em viagem, a SATA chegou a horas , às 4 e meia, cheguei a casa exausto, com a vontade correspondente de ir trabalhar para o restaurante e vejo que me faltam 7 ovelhas. Passei hora e meia à procura, a rogar mil pragas e a dizer a mim próprio que isto não pode continuar, tenho demasiadas coisas na minha vida e sou só um, alguma tem forçosamente que ficar para trás e  se queremos fazer muitas coisas acabamos por não fazer fazer  nenhuma bem. Não ir trabalhar estava fora de questão, felizmente os patrões disseram-me para não me procupar com o serviço e ir procurá-las , um amigo ajudou-me a encontrá-las em menos de uma hora e quando finalmente cheguei a casa depois do restaurante fechar , mais  morto que vivo eram quase onze da noite, as ovelhas estavam todas onde deviam estar e o cão no seu estado de felicidade natural . Esqueci-me de jantar e na manhã seguinte às 9 já estava no meu novo trabalho, agora também sou jardineiro e se este verão não acaba depressa fico maluco.

Mesmo que metade dos moços se mantenha firme na decisão de abandonar o bote há 3 que não vão a lado nenhum, comigo quatro, hei-de arranjar os 3 que faltam e quando o S.Pedro chegar à grande rampa do porto da Horta a 11 de Agosto vai ter companha completa, vai arriar com os outros 20 ou 30 que lá vão estar e vai fazer a regata no Canal sem medo nenhum. Haja saúde.

Espertalhões

Como contei aqui há pouco tempo, recebi a visita de um amigo skipper inglês que não via desde que nos encontrámos a última vez em Ponta Delgada em 2014.  A visita foi curta mas dá sempre para trocar umas histórias, e a última dele era que já este ano tinha sido contratado por uns jovens dinamarqueses que tinham comprado um Swan 74  por 30 mil euros nas Caraíbas e o queriam na Dinamarca. Um Swan 74 por esse preço é como comprar um BMW por 300€, a razão era que o barco era um salvado dos últimos furacões que assolaram as caraíbas e foi vendido pela companhia de seguros. O meu amigo explicou-lhes bem o que uma coisa dessas envolvia, os riscos e as probabilidades, e lá foi. Duas vezes voltou para trás até que abandonou a empresa quando os novos donos se recusaram a pagar as reparações que ele achava necessárias para viagem. Dois garotos que fizeram fortuna ao ecran de um computador tiveram a audácia de contradizer a opinião sobre um barco de um tipo com mais de 300 000 milhas navegadas, e pior do que isso, não lhe pagaram o que deviam. Como em todas as profissões, sempre a aprender lições , umas mais caras que outras.

Na semana passada vi um barco a aproximar-se do porto das Lajes e fiquei a ver a manobra, especialmente para ver como é que o skipper se desenrascava sozinho. Aplaudi interiormente, não teve defeito nenhum, e como o mundo é pequeno nesse mesmo dia recebi uma mensagem do meu amigo inglês pelo FB:

-Está um tipo nas Flores que precisa bem de um amigo, chama-se Morten , boa pessoa.

-Um dinamarquês sozinho, barco de aço,  estai de vante partido?

-Esse mesmo.

Fiz conta de o ir lá ver, oferecer-lhe uma boleia para algum lado e companhia para uma cerveja, e no dia seguinte recebi um telefonema da marina. Resumindo a história, o Morten ia-se embora e o dono do barco queria alguém para o levar para o Faial, não tinha experiência. Viagens longas já não me interessam mas daqui ao Faial é viagem para sair de manhã e chegar lá na tarde do dia seguinte, e a oportunidade de ganhar em dois dias o que ganho no restaurante num mês, disse que sim e fui ver o barco.

É um barco de uns 45 pés, de aço e principalmente ferrugem, comprado no Panamá por 10000 dólares e num estado um bocado lastimável. Dei os parabéns aos Morten por ter conseguido atravessar sozinho naquilo sem grandes dramas, não o levei nada a mal por largar o barco numa desordem medonha e fiquei à espera do proprietário, que chegou hoje.

Mais um yuppie dinamarquês que está cheio de dinheiro, sonha com voltas ao mundo à vela mas como é mais esperto do que o resto das pessoas achou que era um negocião comprar aquele  barco por aquele preço e que compensava comprá-lo, aparelhá-lo, pagar o transporte do Panamá para a Dinamarca e lá fazer os fabricos todos para o deixar em ordem. Deve ser muito bom de matemáticas mas nisto ignorava muitos custos e variáveis e a cara e atitude do homem quando estive com ele hoje no barco era de desânimo. Já conheci muitos, e ainda não percebo bem como é que alguém compra um barco pela internet sem o ver ao perto só porque as fotos são bonitas e o preço é em conta. Sem ter a noção dos custos de navegação e recuperação e de tudo o que encolve uma travessia oceânica. Estes yuppies, como são ricos aos 30 e leram muitas revistas de vela, pensam que sabem mais que os outros e quando a sua ideia peregrina começa  a encravar e as facturas começam a chegar, lamentam muito, sentem-se enganados.

Está aí com duas filhas pequenas, não vi mais ningúem, com uma expressão desconsolada e inquieta, e o facto de o nosso porto ser desconfortável não ajuda. Já me pediu para o ajudar nas reparações necessárias para zarpar, eu já lhe disse que sim , mas vai pagar à dinamarquesa, e vamos então ver se para a semana lá levo  o chasso para o Faial.

Não vai antes porque daqui a umas horas embarco para a Terceira com a tripulação do S.Pedro, que já foi a semana passada num contentor. Este fim de semana corremos as três regatas do Campeonato Regional de botes Baleeiros, já estou cheio de nervos. Ainda podia recomendar aos interessados verem na RTP Açores mas o ano passado já deu para perceber que a RTP manda 2 repórteres mais 3 técnicos, carros e barcos e passa as tardes a acompanhar a prova e depois passa dez segundos de imagens pelo que não vale a pena.

Visitas

O Santa Maria Manuela esteve cá de visita e vai-se hoje embora, não vou falar muito sobre o navio , está tudo aí bem explicado no site oficial, menos uma coisa que não é imediatamente  aparente: esta magnífica peça da nossa história náutica está viva , linda , trabalha e leva longe e alto o nome e a tradição naval do país porque foi comprada e, com isso salva, por uma empresa privada, do Grupo Jerónimo Martins. Ali não entram comissões organizadoras, sindicatos, representantes das secretarias gerais nem se arranjam lugares para correligionários na base da confiança política ou favor prévio. É um belíssimo exemplo para mostrarem a todas as pessoas que acham e pregam que a defesa do património tem que ser  sempre competência do Estado.

Bom, os marinheiros do SMM repararam logo nos botes baleeiros na rampa e no Sábado e Domingo saíram com o Formosa, nós no S.Pedro. Foi a primeira vez em 3 anos que os dois botes arriaram aqui ao mesmo tempo, e isto  porque já é difícil encontrar tripulação para um quanto mais para dois. Foi lindo, há uma grande diferença entre andar a treinar só num bote ou andarmos a par e a medir-nos com outro , passámos duas belíssmas tardes no mar e diria que proporcionámos um bom espectáculo aos Florentinos, só que a esmagadora maioria dos Florentinos não se podia importar menos com os botes baleeiros. “Era enchê-los de gasóleo e largar-lhes o fogo”, foi um dos comentários que já ouvi, eu percebo indiferença e sei bem que o que a mim me encanta pode ser irrelevante para o próximo, mas animosidade clara já me custa mais a perceber.

Sintomático disto é a idade média da nossa tripulação, que anda pelos 55 pela minha estimativa. Fiz publicidade e fiz fazer, passou-se  a palavra, tentou-se entusiasmar alguma juventude para aparecer e tomar interesse, não é apenas a vela como desporto, é o património cultural , a herança dos Açorianos, uma coisa que não existe em mais lado nenhum do mundo. Ninguém se interessa, e os poucos que se interessaram desistiram quando perceberam que envolvia um bocado mais além de andar a passear de bote e ter viagens pagas para as regatas no Verão. Já desisti de tentar perceber ou mudar alguma coisa, o meu interesse é cada vez mais estreito : o S.Pedro está pronto a navegar e tenho mais 6 homens de confiança, disponiblidade  e vontade para o manobrar? Já me chega.

E mulheres?, poderiam perguntar-me, porque é que têm que ser 6 homens? A mim cabe-me encontrar e escolher uma tripulação ( na medida em que não há “veto” de quem manda mesmo a sério…) , e quando já está, não procuro mais. Se há mulheres que se queixam de não haver tripulações femininas ou mistas e que estão à espera de serem convidadas, esperem sentadas. Ir convidar mulheres só porque são mulheres é coisa do heteropatriarcado ou dos estúpidos, eu convidei toda a gente para aparecer logo no princípio da época  e se há mulheres que querem navegar nos botes organizem-se e cheguem-se à frente, se alguma me pedir ajuda, ajudarei como puder mas parece-me que a iniciativa e organização têm que partir delas, aqui ainda não temos quotas obrigatórias nem recebemos circulares do governo a exigir mais disto ou daquilo.

No fim da navegação de ontem fez-se uma patuscada no cais com as omnipresentes lapas grelhadas, foi um bom fim de semana de convívio náutico e , como de costume, os visitantes ficaram encantados com isto.

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O melhor momento da patuscada foi para mim quando uma senhora continental, sofisticada e coiso, quis saber o que é que ia no molho das lapas.

-E aqui, é o quê?

– É o molho , respondeu o sr Mendonça, 70 anos , florentino nascido e criado, tripulante do S.Pedro.

-Sim , mas é o molho de quê?

-É o molho das lapas, põe-se por cima e come-se.

É por estas e outras que eu me dou bem aqui.

O Porto das Lajes

Em Junho de 2005 estava  a caminho do Canadá vindo de Malta, com a natural escala nos Açores. Nessa época tanto nas idas como nas vindas parava em S.Miguel, descartando a Horta pelo congestionamento e também por estar farto de modas e da mania do Café Sport que já nessa altura tinha completado a sua transformação em atracção turística e império comercial.

Via a ilha das Flores na carta e via que só havia uma baía, um cais e um ancoradouro e  uma escala aqui nunca fazia parte dos planos mesmo sendo, geograficamente, o ponto lógico quer para fazer a última escala a caminho das Américas como a primeira no regresso à Europa. Os pilotos  (a versão náutica de guias de viagem que hoje foram substituídos por 567 sites de internet) concordavam todos: ilha belíssima, habitantes prestáveis e acolhedores para lá do normal, e mais nada. Em termos de infraestruturas, zero. Mesmo se a curiosidade me chamasse  para cá   não me pagavam para passear e passava sempre bem ao largo.

Nesse ano já estava a umas boas 200 milhas a Oeste das Flores quando apanhámos um temporal rijo, seguido de umas quebras e avarias a bordo, e uma das tripulantes estava há 3 dias deitada no seu beliche enjoada de morte, sem conseguir mexer-se quanto mais comer , nem água no estômago aguentava.

O temporal tinha que passar e com as avarias até podia bem, mas estava com medo da moça porque da minha experiência uma pessoa pode enjoar e sofrer 3 dias mas depois passa, se não passa depois de três dias, nunca mais, é para morrer de desidratação. Decidi dar meia volta, o porto mais próximo era o das Lajes.

Entrámos à vela ainda debaixo de temporal, acostámos  ao cais com o uso  que restava do motor e a ajuda de pessoal local, tivemos que voltar a largar  antes que a ondulação de fundo rebentasse com o barco contra o cais, ancorámos, e passadas quatro horas de descermos a terra havia duas novidades importantíssimas: a tripulação desertava-me , estando todos a caminho do aeroporto no dia seguinte, e eu tinha decidido que ia morar nesta ilha. Era este o barco e esta a amarração que se podia fazer, era isto ou fundear no meio da baía.

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Nessa altura não havia marina, descia-se a terra com os botes, e não obstante isso havia uma boa dúzia de veleiros oceânicos ancorados . Estava-se a aumentar o molhe exterior, como se pode ver na foto, para se poder receber um navio de abastecimento maior. Em terra havia um quiosque por cima da muralha que vendia bebidas e pouco mais, e mais acima uma pizzaria cuja dona prestava serviços como lavandaria e organizava transportes e coisas dessas. Fiquei uns 15 dias à espera de substituir a tripulação e a apaixonar-me irremediavelmente pela ilha e nesses dias houve sempre movimento no porto, veleiros a chegar e a partir.

Isto faz agora 13 anos, passemos para 2011 , a União Europeia pagou uma marina e o senhor César, que mandava nisto nessa altura, veio cá inaugurá-la como se tivesse sido feita por ele, como é  de resto normal. Foi no mesmo ano  em que fixei aqui residência e as críticas à marina não se fizeram esperar: não só era pequena e mal podia acolher e manter seguros barcos de mais de 9 metros em caso de ligeira mareta quanto mais temporal,  exposta a vento e ondulação de Nordeste que quando vem é sempre em força. Pessoas que conheciam bem o porto espantaram-se e avisaram que estavam a estender um molhe por cima de areia. Os senhores engenheiros desprezaram como de costume a sabedoria local e lá se enterraram milhões no que foi chamado de “porto de recreio” , tiveram a decência de não lhe chamar oficialmente “marina”.

Não sei nada de engenharia nem me atreveria a criticar os trabalhos mas achei muito estranho que consumissem milhões num porto de recreio e que nem uma alminha se lembrasse de investir umas escassas dezenas de milhar nas coisas tão importantes para os velejadores oceânicos como uma amarração segura: balneários, lavandaria, apoio técnico, bomba de combustível, para referir os mais importantes que continuam ausentes e nem sequer planeados ao fim de 7 anos. 

No primeiro inverno os temporais iam destruindo os pontões todos e no seguinte o pessoal do porto deu-se ao trabalho de os desmontar e arrumar. Nenhum barco, nem uma lanchinha de pesca, pode ficar ali na água durante o inverno com risco de se despedaçar, derrota-se logo o principal propósito de uma obra daquelas: ser um porto de abrigo. 

O trânsito e visitas de veleiros foi caindo, e este inverno tinha sido bom para trazerem aqui por uma orelha o responsável da obra, houve um temporal que nem foi nada de realmente especial mas que mostrou os problemas de assentar estruturas em areia, esta foto fui tirá-la hoje de propósito para que quando digo que a entrada do porto está escavacada não pensarem que estou a exagerar.

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Uma obra com seis anos, se é esse o prazo de validade destas coisas vou ali já venho. Talvez os engenheiros não soubessem que aqui o tempo é feroz no Inverno, tem que haver pessoas que não sabem isso, não é costume entregar-se a esses obras públicas de milhões mas estamos em Portugal.

Além dessa cabeça do molhe e do farolete ficou-se sem água nem electricidade nos pontões e o pontão maior, o único capaz de acolher barcos maiorzinhos, foi-se embora. Quem quiser ver as condições em que os barcos ficavam nesse pontão num dia mais fresco, está aqui este vídeo que fiz em 2015:

Esse pontão já foi, os outros estão mais ou menos presos por arames. Não há um sítio para os visitantes tomarem um duche quente quando chegam de pelo menos 15 dias de mar; um taxi tem que vir de longe, se se digna atender o telefone; para meterem gasóleo têm que andar 3 kms e ter os próprios jerrycans; não há uma lavandaria e o único bar restaurante de toda a zona do porto e da praia só serve refeições quase  por especial favor em dias certos e até certas horas. Coisas como um fusível, um cabo, uma poleia, enfim, aprestos náuticos, é muito difícil encontrar e se mandam vir uma peça do continente têm para pelo menos 15 dias.

É muito por isto que hoje (e ontem, e amanhã) o porto está assim:

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Na Horta, 140 milhas a sueste daqui , um dia de viagem, quase  não cabe mais ninguém , há um mês que o porto está abarrotado , e também na Terceira e em Ponta Delgada os iates enchem as marinas e dinamizam a economia local. Aqui fizeram esta marina porque havia dinheiro para o betão mas ninguém quis saber do resto. A construtora facturou, o César cortou uma fita e  fez um discurso, o tanque e bomba de gasóleo comprado de propósito está num canto a ganhar musgo e a Portos dos Açores , empresa pública que manda nisto, anda a ter orgasmos com o rendimento e movimento de todos os mastodontes de cruzeiros que descarregam turistas aos milhares e poluem o ar e as vistas (ou embelezam, consoante o ponto de vista) em ponta Delgada e quer lá saber mas é deste canto esquecido. Quem trabalha para eles ganha o mesmo quer haja cem iates quer não haja nenhum, eu se calhar no lugar deles também preferia nenhum.

Mas atenção: não é só por falta de condições que os veleiros já não param nas Flores, até à construção da marina também não havia condições e iam-se recebendo umas dúzias de visitas e havia animação no porto. O “problema” transcende isso e seria objecto de um post só por si mas estou embalado.

O problema é que a internet e as novas tecnologias desenvolvidas na última década mudaram radicalmente o perfil e atitudes dos velejadores de cruzeiro. Em primeiro lugar, dada a difusão do GPS e a eficiência dos aparelhos auxiliares de navegação (desde os computadores aos motores diesel)  qualquer pessoa consegue atravessar um oceano. Não vou estar a martelar em como era dantes , porque não era necessariamente melhor, mas a verdade é que a facilidade da navegação abriu a porta a muita gente que sem a facilidade do GPS, se tivesse sido obrigada a aprender e praticar navegação à estima e navegação astronómica e correr riscos de erro não se tinha feito ao mar.

Além da navegação, as comunicações: há uma sensação de segurança, hoje as pessoas sabem que se a coisa correr mal carregam num botão e  os socorros avançam, isto mandou ao mar outra revoada de gente que nunca o faria se soubesse que dependia essencialmente de si própria. Depois, as comodidades a bordo : dessalinizadores, congeladores, televisões, enfiou-se nos barcos de cruzeiro uma panóplia de objectos e dispositivos que convenceram a ir para o mar gente que não concebe viver sem os mesmo confortos de uma casa.  A seguir , e por fim , comunicações. Há internet a bordo e quando não há a bordo há nos portos todos, pelo que toda esta nova raça de navegadores pode passar parte dos dias a olhar para um ecran, a publicar as histórias mais banais que se possam imaginar como se fossem grandes aventuras e, em resumo , a publicitar as suas viagens num exibicionismo equivalente aos modelos do instagram que vivem e fazem tudo com o objectivo de se mostrar aos outros e acreditam que sem gostos, partilhas, seguidores e comentários não vale a pena andar a navegar.

Ora isto não é necessariamente mau, ate porque permite a muitas pessoas viajar e navegar vicariamente e às famílias acompanhar os seus em viagem. Muito teria gostado a minha mãezinha que houvesse internet quando viajei e atravessei o oceano pela primeira vez, se lhe tivesse podido mandar mensagens semi diárias em vez de um postal ou carta de mês a mês. O problema não é o exibicionismo, chamemos-lhe assim , que é quase generalizado, eu mesmo publico volta e meia fotos e este blog está cheio de relatos de viagem. A questão é que ninguém, ou quase, dá um passo que seja sem fazer a sua pesquisa. Ninguém vai à descoberta de coisíssima nenhuma, muito raros são os que por exemplo escolhem um porto de destino sem antes saberem tudo sobre esse porto, e quando digo saberem tudo não digo estudar cartas e pilotos, digo queimarem horas e horas nos milhentos foruns e sites “da especialidade” a pesquisar , pedir e oferecer informações sobre tudo desde o preço do gasóleo até aos dias de mercado passando pelas listas de procedimentos alfandegários. Há uma espécie de instinto de manada e se bem que há e haverá sempre uma minoria que se “perde” e gosta mesmo de descobrir a esmagadora maioria faz a sua pesquisa intensiva, sabe sempre o que vai encontrar, é uma questão de “segurança”.

O que é que isto tem a ver com a nossa marina deserta? Todos os iates que atravessam o Atlântico agora sabem bem que aqui não há condições (que há 15 anos não eram essenciais mas hoje são) e que o porto está danificado, e passam-nos ao largo. Os raros que aqui param têm uma determinação e objectivo antigo de ver isto ou não tiveram escolha e nem 24 horas ficam.

Não se pode fazer nada quanto à cultura do exibicionismo digital e da incessante presença online  (o tempo que os velejadores de cruzeiro modernos passam na doca a examinar e discutir as previsões meteorológicas disponíveis em 35 sites diferentes é qualquer coisa de surreal) mas havia coisas a fazer para que essas pessoas vissem nas suas pesquisas que vale a pena vir aqui, e para os que cá chegam não encontrassem esta miséria. Não se vai fazer NADA.

Tive várias ideias que podiam ajudar a transformar este porto numa escala agradável para os iatistas transatlânticos e mesmo os que vêm do Faial em barcos de aluguer ou da Europa do Norte em cruzeiro ao arquipélago mas como já vivo aqui há 7 anos e sou português   já sei o suficiente para não ter veleidades nenhumas nesse campo.

Existe a possibilidade desta minha análise estar errada, talvez em Junho a “marina ” se encha outra vez, se isso acontecer das primeiras coisas que vou fazer é vir aqui contar e dizer “olha , enganei-me”, mas a diferença que se vê  deste ano para os anteriores é tão grande que acho pouco provável. Todas as pessoas com quem falo aqui que sabem alguma coisa de navegação e cruzeiro concordam comigo.

Isto entristece-me um bocado mas não me preocupa, nesta outra foto pode ver-se o outro lado do porto e as nossas jóias , os botes baleeiros  S.Pedro e  Formosa.

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Mesmo com todos os defeitos, problemas, intrigas   e insuficiências, o nosso porto tem a sua vida própria,  os iates que vão lá para o Faial , beber gin no Café Sport , e dizer à sua audiência, real, imaginada ou desejada, que os Açores são magníficos depois de verem o porto da Horta ,  o Pico lá do outro lado do canal , mais umas fotografias e pouco mais, passando 1/4 do seu tempo acordados no Arquipélago a olhar para um écran.

Esta ilha não é para todos, e é assim que eu gosto dela.

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Belmiro e a Escravatura

A escravatura era o tema escolhido para o post e comecei a escrevê-lo motivado pelas notícias de que hoje em dia na Líbia se pode comprar uma pessoa por cerca de €400. Entretanto morreu o Belmiro de Azevedo, comecei a ler e ouvir as reacções, todas mais do que previsíveis, e lembrei-me de uma das coisas mais parvas que se dizem constantemente: esta vida (por exemplo a de um empregado por conta de outrem a ganhar o salário mínimo) é uma escravatura, somos todos escravos do sistema/capitalismo .

Primeiro o Belmiro. Bastou-lhe ter sido empresário, criado riqueza, revolucionado indústrias e ter sido patrão de milhares para ser detestado pelas esquerdas mais esquerdas. No mundo em que essas pessoas gostavam de viver ninguém podia possuir mais do que X, ninguém trabalhava sem ser sob direcção do Estado, ninguém fazia concorrência  a nada, ninguém na hora da morte podia deixar o fruto do seu trabalho aos descendentes. Felizmente esse mundo sempre foi  rejeitado e continua a ser, excepto onde o modelo é mantido à força, a única maneira de instalar e manter. Um individuo  no twitter  listou  os talhos e mercearias que fecharam por causa da chegada da grande distribuição, presume-se que preferia o modelo antigo e que ainda faça as suas compras dessa maneira. Não conheço nenhum sítio onde não haja ainda pequenas lojas, não tantas como havia mas ainda há, pelo que os consumidores têm  escolha. Surpreendentemente, escolhem um sítio mais acessível, com mais variedade e invariavelmente mais barato, é estranho.

Depois, este explorador ganancioso e sem coração torrou milhões para dotar o país de mais um jornal diário, no critério editorial do qual  nunca quis ter uma  palavra a dizer. Se não fossem directores passados e presentes a assegurá-lo bastaria  ler o Público para perceber que se a intenção do Belmiro com o jornal fosse guiar a opinião pública para o lado direito a coisa estava-lhe  a correr muito mal desde o princípio. Os políticos passam horas a tentar, com maior ou menor grau de sucesso, influenciar o que se publica nos jornais. Este era dono do jornal e nunca ligou para lá, mas nem isso moveu o Bloco, principal beneficiário do Público, a apoiar um voto de pesar, ao menos pela contribuição para a pluralidade da imprensa.

Outro motivador do escárnio e desprezo pelo homem é a sempre presente inveja, até de um tipo que não nasceu em berço de ouro, pegava ao serviço todos os dias às 8, subiu a pulso e  construiu um império. Os verdadeiros heróis, aqueles que são louvados pela Assembleia da República, são os que nunca criam nem produzem a ponta de um corno, nunca pagam um salário com o próprio dinheiro, nunca são responsabilizados financeiramente pela sua prestação, votam o tamanho do próprio salário e privilégios    e levam uma vida de retórica e teoria, feita de lutar por poder, manter o poder, estender influência e combater os de pensamento oposto . São esses os bons da História.

Em 1997 deixei a universidade, queria fazer outras coisas e precisava de dinheiro. Fui trabalhar para o Modelo como repositor de mercearias. Quem se lembra desses tempos sabe bem que não havia assim muitos empregos para jovens sem formação superior em que fosse só chegar e começar a trabalhar. Os talhos e mercearias de que o outro lamenta a sorte era negócios familiares por definição, que não cresciam nem empregavam. Recebia o ordenado mínimo, subsídio de turno e todas as demais contribuições previstas pela lei. Essa oportunidade que tive de avançar na vida não foi o Estado que ma deu, não foi o pequeno comércio e muito menos algum Gabinete de Observação da Interação Social da Osga Mediterrânica, o género de organismo estatal que hoje prolifera e emprega boa parte da juventude saída das universidades, com ou sem conclusão do currículo é irrelevante, se se tiverem os padrinhos certos e o cartão de militante apropriado para a época. A oportunidade devo-a ao  Belmiro de Azevedo e à sua importação  de um novo modelo de distribuição e serviços. A minha passagem por lá não foi muito longa mas sempre me foi explicado e demonstrado que podia ter ali uma carreira. As carpideiras do salário mínimo ignoram, ou preferem ignorar, que um repositor de mercearias motivado, dinâmico e interessado pode progredir, se eu tivesse queda e vontade para aquilo hoje podia ser director de um Modelo, formado na casa. Claro, não há progressões automáticas de carreira , conceito idiota que só podia existir mesmo no Estado, mas há oportunidade de subir na vida. Há é que trabalhar um bocado.

Irrita-me que se fale de escravatura relacionada com emprego de baixo salário por duas razões, a primeira é que a definição de escravatura está à disposição no dicionário , tal como também está a definição de quem usa conscientemente uma palavra errada para descrever uma realidade. A segunda razão é que existem milhões de escravos verdadeiros hoje em dia, pelo que dizer que alguém que tem um emprego em que ganha pouco é um escravo é uma falta de respeito.

A Líbia tornou-se um estado falhado e agora o passado é irrelevante, a culpa da situação é do Ocidente, nomeadamente do Clinton e do Sarkozy que promoveram a queda do Kadafi. Note-se que o Kadafi não tem culpa nenhuma da situação do país que governou com mão de ferro durante 42 anos, culpado do que se lá passa é de quem o derrubou, que presumivelmente devia ter continuado a tolerar autocracia e tudo o que vem com ela. O facto de os próprios líbios se terem revoltado em massa nunca diz nada aos defensores dessa visão, para os quais meia dúzia de operacionais da CIA com umas malas de dinheiro conseguem levar um povo à revolta, mesmo que se viva  bem no país. O sistema é bom, funciona , as pessoas estão contentes com a vida e as perspectivas de futuro, chegam duas agências governamentais estrangeiras, incendeiam uma nação e rebenta uma guerra civil. Fico sempre fascinado com este raciocínio.

Isto não quer dizer que as potências ocidentais sejam inocentes ou que as suas motivações sejam nobres, alguém que acredite em motivações nobres da parte de algum Estado ou seus representantes deve procurar outro tema para estudar. O que quero dizer é que o facto de haver hoje em dia escravatura na Líbia é apenas o ressurgir de uma pratica cultural  ancestral que apenas tinha sido reprimida. É o relembrar da relação que sempre houve entre os povos árabes do Norte de África e os povos negros do Sul do Saara. Se o Ocidente tem culpa no que se passa lá hoje é a culpa de não ter mantido no lugar um sistema que reprime esses instintos e práticas.

Creio que se vai construir em Lisboa um monumento aos escravos do Império, e eu acho bem, para que se preserve a memória e a noção de que o Portugal ultramarino construi-se muito em cima disso, para que se continue a abandonar  a ideia romantizada do  navegador e colono benévolo, para que se lembre que Portugal foi o país que mais escravos transportou para as Américas. É saudável lembrar isso, não se pode nem deve polir a História.

Em 2008 levei um barco para Mystic , no Connecticut , terra que é inteira um museu marítimo . Como a História que me interessa mais é a naval, conhecia bem os navios negreiros e foi por eles e as suas histórias que o horror indescritível da escravatura me bateu pela primeira vez. Quando a Marinha Real Inglesa começou a caçar os negreiros no Atlântico sabiam que estava um por perto porque se houvesse um negreiro vinte milhas a barlavento eles cheiravam-no , muito antes de o verem. Os navios negreiros, especialmente depois de os Ingleses terem banido o tráfico, eram construídos para  um equilíbrio entre velocidade, capacidade de carga e manobrabilidade, e isso fez  deles dos veleiros mais extraordinários de sempre.

Em Mystic corri tudo à procura de um, em modelo, em planos, em filmes. Nada , o Museu é a cidade inteira, em terra e no mar, e não encontrei uma só referência ao tráfico de escravos na terra que construiu a esmagadora maioria dos barcos usados pelos americanos nesse tráfico. Desde essa visita os EUA tiveram um presidente negro e fizeram um esforço maior por enfrentar a sua História (hoje  a ser paulatinamente desfeito) pelo que talvez já se fale de negreiros em Mystic, mas o que me ficou da visita foi essa vontade de varrer o Mal para debaixo do tapete, coisa que entre muitas outras permite que hoje um tipo que tem um salário baixo e uma vida vazia se considere um escravo.

No debate nacional sobre a escravatura vejo que  para muita gente escravatura é o tráfico atlântico de escravos africanos pelos europeus. Isso é uma visão redutora  e quando vemos em 2017 pessoas a serem vendidas vale a pena lembrar alguns factos que me parece não são suficientemente lembrados:

  • A escravatura existe no Mundo desde que duas sociedades ou grupos diferentes se encontraram e guerrearam.
  • A escravatura está não só prevista como justificada e autorizada no Antigo Testamento e foi a base de algumas das maiores realizações da História, desde a Democracia Ateniense ao Império Romano.
  • Cristo foi crucificado e considerado um inimigo simplesmente por defender que todos os homens eram iguais, logo, pondo em risco a escravatura que era a base de quase  todas as sociedades da época. O que a “sua igreja” tolerou, aprovou e promoveu depois da sua morte no que diz respeito à escravatura fala pelas intenções e motivações reais da mesma.
  • Dado que igreja de Cristo não foi capaz de cumprir a sua mais básica função, fazer com que os homens se amassem uns aos outros  em 1800 anos, coube a argumentos racionais e a homens políticos como Wilberforce ou Lincoln guerrearem contra o flagelo. O clero não liderou nada, alguns clérigos mais humanos participaram nos movimentos anti esclavagistas mas das altas hierarquias, nada.
  • No tráfico Atlântico a maior parte dos escravos embarcados para as Américas eram vendidos aos traficantes europeus quer por árabes que só se dedicavam à “caça” quer por outros africanos.
  • Além destas imagens aterradoras que chegam da Líbia é sabido há muito que nas monarquias árabes do Golfo sempre houve e continua a haver escravos.

Isto tudo para dizer que a verdadeira escravatura  é um fenómeno  muito maior, muito mais enraizado e muito mais actual, que é um insulto grave descrever salários baixos como escravatura e que se há culturas e sociedades que a desprezam há mais de um século, como a nossa, há outras nas quais ainda se tolera e pratica. É a essas que temos que criticar e denunciar, não é a nossa que já fez o que tinha a fazer:  banir e tornar a prática abominável e inaceitável.  Agora resta-nos erguer o tal monumento, explicar às crianças o que é a escravatura mas sem lhes mentir nem fazer passar outra coisa por escravatura, explicar-lhes  o que a nossa nação fez no passado  e perseguir e castigar os que o fazem hoje em dia.

Qualquer homem que crie oportunidades para que pessoas possam ter uma opção para ganhar a sua vida está a fazer precisamente o contrário de um esclavagista: está a proporcionar Liberdade às pessoas. Da minha parte, obrigado Belmiro de Azevedo, houvesse mais como ele.

Irma

Ontem escrevi um post sobre o furacão Irma e as Ilhas Virgens, depois apaguei-o porque era malvado. Tinha duas vertentes , uma resume-se em “20 anos a ir aí e a aturar-vos o racismo, a gabarolice, a preguiça, o queixume, a antipatia, a chulice, a falsidade, a fé  arcaica, a corrupção, a incompetência, não me peçam agora que tenha pena“. A outra vertente era : um trilião e meio em dinheiro lavado e escondido pelas offshores e parque de diversões de metade dos milionários e bilionários do mundo e agora querem que as pessoas façam donativos para reconstruir isso?Não.

Isto deu para duas páginas mas depois arrependi-me porque aquilo pode ter muitos defeitos mas vive lá muita gente que não tem culpa nenhuma  e agora não só perdeu quase tudo como ficou com o país literalmente devastado. Não se pode esperar pelos políticos para fazerem alguma coisa, porque como recentemente fomos lembrados por cá, não devemos confiar no Estado para nos proteger nem para reconstruir depois de uma  tragédia. Se eventualmente reconstrói alguma coisa podemos estar seguros de que gasta 10 para fazer o que se podia fazer com 6, porque de  tudo o que toca o Estado fica com uma parte, é da sua natureza, o monstro tem que se alimentar.

Há milhares de europeus e americanos  aos quais um deslizamento de terras que matou 500 na Serra Leoa o mês passado não aqueceu nem arrefeceu mas que a imagem de uma ilha das Caraíbas reduzida a entulho mesmo sem mortos já impressiona muito e dá vontade de ajudar com o que puderem. Ninguém , muito menos os ricos e famosos, passa férias na Serra Leoa ou no Bangladesh por isso as catástrofes por esses sítios são menos dramáticas.

A “comunidade” dos iates ficou meio histérica, como se o Irma tivesse aparecido do nada e não andassem por ali furacões todos os anos. Apreciei particularmente um casal de brasileiros que tinha um catamaran nas Ilhas Virgens, que afundou. “Depois de três anos nas Caraíbas, é uma tristeza enorme, blah blah blah , buáaa buáa” e é quase certo que além de centenas de mensagens de solidariedade vão receber donativos para refazer a sua vida, que consiste em andar de barco e falar disso. Não resisti a juntar o meu comentário à longa sequência de solidariedade e encorajamento, perguntei : ” a opção de zarpar para Sul o mais rápido possível nunca foi considerada?” Sem surpresa , fiquei sem resposta , nem sei se o meu comentário ainda lá está.

É que o Irma já se via a vir há muitos dias. Os marinheiros de cruzeiro  modernos passam 8/10 do seu tempo de viagem em terra e desse tempo metade é passada   ao computador a dizer ao mundo que são tão fixes e isto é espectacular.

Podiam usar algum desse tempo a ver a trajectória esperada do furacão, que em 2017 já é bem estimada. Se andavam pelo Caribe há 3 anos podiam ter-se dado ao trabalho de ter um plano para a estação dos furacões, que, por incrível que pareça , se repete todos os anos. Como sabe qualquer marinheiro que lá ande , a latitude de  12º N marca o começo da “cintura dos furacões”, o que quer dizer que eles se mantêm acima disso.Um marinheiro mais previdente, chegada a época, desce para St.Vincent, Grenada ou Trinidad onde já está senão completamente a salvo pelo menos com probabilidades muitíssimo  mais reduzidas de ser apanhado, em Trinidad por exemplo não há registo de um furacão. Se não quer passar o Verão todo lá em baixo pelo menos à aproximação de um foge para lá, são 3 dias, e em bem menos do que isso chegavam por exemplo a Guadeloupe que já ficou mais ou menos incólume. Não, estes navegadores de pacotilha  e dezenas de outros  que agora gemem porque ficaram sem barco  deixaram-se ficar, amarraram-se melhor ao cais, deitaram mais âncoras e defensas, rezaram e puseram posts no facebook enquanto viam um furacão de categoria 5 a aproximar-se. É contra intuitivo mas é verdadeiro, os danos piores numa tempestade sofrem-se em terra , não é no mar, e se bem que a ideia não é ir enfrentar o furacão no mar mas sim fugir dele, só a ideia de ir para o mar com um furacão a 500 milhas faz tremer as pernas a muita gente, preferem a falsa segurança de ficar num porto. Má decisão. Repito, desde que o Irma se mostrou ameaçador para as Ilhas Virgens houve mais do que tempo para que quem lá estivesse fugir para segurança, mas para isso seria preciso serem marinheiros e não turistas que andam de barco,  pelo que houve dezenas de iates  perdidos por ignorância e incúria , e o que me mete certos nervos é ver esta gente lacrimejante a fazer-se passar por vítima/herói que sobreviveu ao furacão mas vai precisar de ajuda para “refazer a vida”.

As Ilhas Virgens vão recuperar, quanto mais não seja porque umas são as Ilhas Virgens Britânicas e outras são as Americanas e  nestas alturas  independência,autonomia,  soberania e coisas assim passam para terceiro plano e nunca mais se ouvem até tudo estar a correr bem outra vez. Se não fossem as metrópoles aquilo era como a Serra Leoa , mas essas coisas não se dizem, fica mal. Se Barcelona fosse arrasada por um furacão de categoria 5 passavam todos a espanhóis dedicados e orgulhosos num instante.

Continuo a esperar nunca mais ir às Caraíbas, mesmo que o meu ex patrão esteja a esfregar as mãos e a fazer muitos contactos  porque houve milhares de barcos destruídos que têm que ser substituídos, e alguém os tem que lá levar, vão estar ocupados durantes anos. Nunca dizer nunca, mas mesmo que fosse uma viagem de turismo tenho meia dúzia de sítios aos quais voltava de boa vontade, nenhum deles nas Caraíbas. Vou ficar a ver que parte dos lucros da industria financeira vão ser taxados extraordinariamente para reconstruir aquilo, podiam fazê-lo sozinhos amanhã mas esse pessoal sabe muito e vai esperar que outros paguem a conta. Nem estranhava que o Richard Branson , que tem lá uma ilhota , fosse receber auxílio para a reconstruir.

Desejo-lhes sorte, mais ou menos na medida em que eles me desejam a mim,  não me esqueço de onde vivo e que já este inverno isto pode ir tudo com o cão, aqui não há tremores de terra nem erupções vulcânicas mas há vento que chega para tudo, há menos de 20 anos passou por aqui um ciclone que marcou 250kms/h ,porque o contador só ia até 250kms/h. Aqui as casas e estradas são mais bem construídas que lá e a infraestrutura em geral é mais sólida mas é  fácil haver   estragos sérios. Há que estar preparado, não é que eu seja crente em alguma coisa mas  fazer  pouco da desgraça alheia para ela depois nos bater á porta é das piores coisas  que pode haver, não me quero ver nessa situação. Excepto no futebol ,  posso dizer que me deu um belo gozo ver o benfas levar duas em casa do CSKA.