Febre

Daqui a uns tempos vais ver que as febres aqui não dão com muita força e passam depressa.

Diziam-me isto a respeito da febre dos botes da baleia, eu sofro de um caso galopante e espero que haja mais contaminação mas mantenho sempre as expectativas baixas.Cada bote precisa de 7 tripulantes e numa ilha como esta, mesmo no verão, isto não é lá muito fácil de conseguir. As febres de Verão são reconhecidamente curtas e além disso há muitas outras  condições locais a conspirar contra o sucesso disto. O sucesso , para este ano, seria  levar os dois botes com companhas completas à Semana do Mar e acabar todas as regatas. Se depois disso houvesse condições para reorganizar o clube naval, melhor.Não faço apostas.

Entretanto já mudei outra vez de bote, tinha passado do  S.Pedro para o Formosa “por empréstimo” mas dada a desistência forçada do oficial do S.Pedro, voltei. Havia um oficial “nominal” e havia um moço que ia ao leme, sucede que ele não tem 18 anos, há idade mínima nas competições, e sendo assim, vou ser eu.

Por um lado fico contente, por outro nem por isso porque é uma grande responsabilidade e, sem falsas modéstias, não sei bem se vou estar à altura, há uma diferença abismal entre a vela que me é familiar e os botes da baleia, mas não me resta mais que não prometer nada e fazer o melhor que conseguir. Faltam 15 dias para as regatas no Faial, faltam sete dias  até os botes serem metidos no navio, é nesses sete dias que temos que arriar o bote tantas vezes quantas forem possíveis para nos prepararmos o melhor possível para uma competição onde vão estar mais de 25 botes, todos com tripulações com anos de experiência em competição e fora dela. Isto dava um argumento para um filme.

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Esquemas de Imagem

Há  4 anos passei pelo Panamá a caminho do Peru  e um português amigo meu que lá trabalhava pôs-me em contacto com uma rapariga alemã que lá tinha comprado um barco e estava na mesma marina onde está toda a gente do lado Atlântico.

A moça estava a iniciar uma aventura marítima que passava pela compra de um veleiro  usado e posteriores navegações, o meu amigo tinha-a conhecido  quando ele  trabalhava em charters e , como toda a gente, tinha passado uns tempos encravado em Shelter Bay .Tinham-se dado bem e ele, sabendo que eu estava para chegar,  disse-lhe para me procurar, que eu era um gajo com experiência e que lhe podia dar umas dicas.

A marina em causa é pequena e isolada, parece um enclave ou um resort, há aí pelos arquivos muitos posts sobre essa passagem pelo Panamá como este . Como essas marinas são um mundo  pequeno, eu tenho um radar muito afinado e a moça é bonita, reparei nela nem passava uma hora de ter lá chegado.O contrário não se verificou , coisa a que estou habituado, faz parte da ordem natural do mundo, já me afectou mas hoje é-me absolutamente indiferente, espero sempre precisamente zero e já nada me desilude por uma simples razão: já nada me ilude. Passei por ela ao pé do seu barco, foi como se não passasse. O que também é verdade é que há uma diferença enorme entre um desconhecido com a minha figura que passa por ali e o capitão de um catamaran novo de 58 pés vindo de St.Barts  a caminho de Peru, é daquelas coisas que nos tornam logo pessoas mais interessantes, que vale a pena conhecer, e a rapariga, ao receber a sugestão do meu amigo, veio ter à mesa onde eu estava com a tripulação.

Fui o mais civilizado possível mas sabia bem que a rapariga estava ali para falar com  o Capitão Ventura e não com o Jorge. O Jorge até teria  gostado muito de a conhecer mas  o Capitão Ventura tinha mais que fazer e nunca teve muita  paciência para amadores armados em aventureiros. O meu  horário estava apertado, a escala contava-se em horas,  entre trocas de tripulação, manutenção das máquinas e partida para Bocas del Toro para ir buscar os donos do barco que estavam para chegar de avião particular. Ainda assim e por atenção ao meu amigo convidei-a  para passar no barco mais tarde.Passou já  era de noite quando eu e o imediato ainda estávamos a suar enfiados nas casas das máquinas, viu logo que  aquele barco e o seu programa eram o mais distante possível do barco dela e dos seus sonhos e que não ia levar dali nada. Levar dali nada no sentido de algum favor, dica, contacto ou serviço  em tempo útil, porque ao contrário dos velhos todos que passavam o tempo a babarem-se para ela, a inventarem histórias, a trabalharem para ela e a partilhar as suas experiências muitas vezes ridículas, eu não tinha tempo nem interesse , não lhe ia oferecer nenhum presente nem ajuda nem dar a atenção a que ela está habituada. Moça inteligente como é nem sequer pediu para ver o barco por dentro, disse que como estávamos ocupados falávamos depois e foi-se embora. Na madrugada seguinte zarpei para Bocas del Toro e só voltei a essa marina depois de uma semana.

Lá continuava ela de volta do chasso ferrugento e cansado que tinha comprado sem saber navegar nem sequer apertar um parafuso, com a sua corte de iatistas reformados e vagabundos sortidos a tentar a sua sorte.  Vi-a passar com um bote de borracha a sair da oficina

-Bote novo, muito bem.

-Foi uma prenda, o não sei quantos sabia que eu precisava de um ,comprou um novo para ele e deu-me este

-A sorte das mulheres bonitas, nunca se lhes nega nada.

Deu-me um sorrisozinho ambíguo, seguiu caminho a arrastar o bote e foi a última vez que a vi.

Apesar disso, graças ao incontornável facebook, volta e meia vejo notícias dela, que usa essa rede social e um canal do youtube de uma maneira perfeitamente comercial. Inventou uma “organização” de objectivo incerto para além de lhe permitir andar de barco. Reuniu um número considerável de seguidores que mantém interessados com historietas e vídeos, sem nunca conseguir realmente  arranjar o barco, que como relíquia que é , é impossível de arranjar e de preparar para uma navegação séria, eu não embarcava naquilo se envolvesse perder a costa de vista, e mesmo assim não sei. À falta de alguma navegação séria  ou progresso e exploração real, tem a atracção,valor e  força toda na sua simpatia e beleza física, que não são pequenas. Angariou patrocinadores que lhe pagam estes passeios e esta vida mansa nos trópicos, e seguidores que não se cansam de a encorajar e de lhe afagar o ego, mesmo talvez sabendo que é uma menina europeia rica que passa 3/4 do ano na praia a fingir que se farta de trabalhar a arranjar um barco para ir ninguém sabe onde fazer ninguém sabe o quê, para nada mais do que o seu entretenimento e satisfação pessoal.

Passados mais de quatro anos vi hoje que ainda está no Panamá, recebeu ontem um motor novo para instalar num barco que vale muito menos que o motor, cortesia de um patrocinador que tem que achar que tem retorno,  que aquilo funciona, em termos de imagem. Tudo neste mundo é medido em termos de imagem .

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Se esta moça tivesse mais 50 quilos e não tivesse um  palminho de cara  estava possivelmente a trabalhar nalguma caixa de supermercado na  sua Alemanha natal, a poupar para as férias, a sonhar com os trópicos e com alguém que um dia a levasse lá. Como é assim pagam-lhe o modo de vida, não lhe exigem absolutamente nada e “seguem-na” aos milhares, com retorno de capital em “visualizações”, “partilhas”, patrocínios e apoios vários.

Podem dizer que isto  é inveja de um gajo que nunca conseguiu nada à custa do aspecto, que gostava era de ter o talento para fazer outros darem-lhe dinheiro, que queria  era  ter sido capaz de fazer o mesmo enquanto navegou, de usar a imagem , que toda a gente sabe que hoje em dia também se pode preparar e melhorar.

Não me parece que seja isso, acho que é mais um lamento por um mundo em que o que parecemos se sobrepõe ao que somos e fazemos, podemos não fazer nada de jeito mas se parecermos bem ao fazê-lo, meio caminho andado. Nesta época em que cada um pode ser o seu publicista, realizador , produtor e relações públicas isto é muito mais aparente. A forma em prejuízo da substância, a aparência como modo de vida.

Regata em Santa Maria

Lá fomos na quinta feira, ainda aqui no aeroporto  houve confusões com os bilhetes da tripulação que expuseram logo os problemas desta participação da ilha no campeonato de botes baleeiros. Há uma velha máxima militar  que diz que “os amadores falam de tácticas, os profissionais falam de logística”, numa ilha como esta seria de esperar que a logística já estivesse dominada há muito tempo, dominada no sentido de ser preparada com antecedência e cuidado mas não, tirando algumas  excepções o conceito nem sequer é bem compreendido. Como tenho quase 20 anos de carreira numa actividade que dependia de mover barcos, tripulações e abastecimentos de A para B arrepia-me um bocado o nível de amadorismo, mas é mesmo assim.

Como de costume, há escalas, não se sai daqui directamente para lado nenhum a não ser para Ponta Delgada ou Horta e leva sempre que tempos. Logo na aproximação a Santa Maria vi uma das principais características da ilha e uma das mais importantes para mim: não há água.

Exagero um pouco mas a verdade é que  para mim o principal factor para determinar a “habitabilidade” de um lugar é  a água e como moro num sítio onde no meu tempo de vida e salvo catástrofes vai ser sempre um bem abundante (muitas vezes tão abundante que quase deixa de ser um bem) sítios secos não me atraem nada nem concebo viver onde houver escassez de água. Azar para grande parte da população do mundo e mesmo para muita do nosso país, mas tirando as alturas em que falta na torneira ou que se tem que pagar uma conta maior, está-se toda a gente nas tintas, tirando alguns mais esclarecidos. A esmagadora maioria da população vê abrir uma torneira e sair água potável como uma coisa natural e um dado adquirido, muita gente vai-se  dar mal no futuro próximo.

A parte “baixa” da ilha é seca , com cactos , palmeiras e campos amarelados. Chamam-lhe a “Ilha do Sol” , coisa linda para veraneantes. Vieram-nos buscar ao aeroporto e fomos deixar as bagagens na escola secundária, onde estava montado o “acampamento”, fomos os primeiros a chegar e deram-nos uma sala de aula com colchões no chão, o normal nestes eventos.Daí para o porto, saber  do nosso bote. Esta vista do porto não foi tirada no Verão, tudo o que se vê aqui verdinho agora está amarelo.

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Alguns já tinham estado na ilha mas a primeira coisa que toda a gente viu e comentou é que eles têm lá um porto lindo, bem feito, bem protegido, bem dividido, e a nós custa-nos ver isto porque gastaram milhões aqui na ilha  e ficámos com um arremedo de marina que mete dó, e parece a toda a gente que com um pouco mais de cuidado podíamos ter ficado com um porto decente. Aqui há anos falava-se numa marina para Santa Cruz das Flores, a mim parecia-me daquelas ideias que só podem ter saído da cabeça dos que pensam e mexem no dinheiro do Estado como se fosse deles e não tivesse fim.O país faliu pela mão do génio injustiçado e incompreendido que é o Sócrates, chegou o Passos para nos arruinar e levar à miséria, entre outras coisas fazendo com que fosse mais difícil encontrar dinheiro para delírios de políticos  que o torram em coisas que não percebem.Entretanto o Costa já nos salvou e voltou a pôr no bom caminho, vejo  com certa consternação que já avança a obra da marina de Santa Cruz. É assim.

Abrimos o contentor onde estava o bote e demos dois passos atrás com o fedor que vinha de lá. No porto da Lajes vivem muitos gatos, um deles foi-se meter no contentor quando carregamos o bote e quando se fechou ninguém reparou nele nem ele soube fugir, morreu ali, provavelmente de calor antes de sede e fome, morte macaca. O porto emprestou-nos um reboque , carregámos o bote e varámo-lo na rampa do porto em frente ao clube naval, fomos os primeiros a chegar.

19748520_10155472793400477_7510617614021084786_nDa Horta veio por mar a Walkiria , uma lancha baleeira que é património regional, a melhor maneira de arranjarem inimigos no Faial é criticar aquela lancha ou encontrar-lhe algum defeito, tudo o que seja abaixo de Rainha dos Mares é falta de respeito. A bordo vinham figuras grandes da vela tradicional de competição que iam liderar a comissão de regatas. No dia seguinte saímos para testar o equipamento com um dos velhos lobos do mar faialenses que já foi campeão 3 vezes e nos vinha dar umas dicas.O homem ficou impressionado com o nível de preparação do bote e o nosso, e a impressão não era boa, desejou-nos boa sorte e tenho a certeza que desembarcou aliviado. Eu tinha saído duas vezes nas Lajes como oficial mas fui amigavelmente despromovido, o que nem me espantou (o que me tinha espantado a sério era poder ter sido oficial) nem desagradou nada e depois de ver aquilo fiquei ainda mais satisfeito por a coisa não estar na minha mão.

Ao fim da tarde fez-se uma patuscada no clube com 15 quilos de lapas que tínhamos levado, aqueles pobres ali só têm umas lapas ridículas como as da Madeira, é das poucas coisas em que os açorianos reconhecem a superioridade das Flores, não há lapas como as de cá, e o presidente do nosso clube naval fez a única coisa para que tem real préstimo, cozinhou um molho espectacular e organizou o petisco. Se houvesse corrupção na vela podíamos ter sido acusados de tentar influenciar a direcção da prova com aquilo.

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Passou uma carrinha da Polícia Marítima.

-Olha o Silva!! Anda cá uóme, tás aqui agora?Come umas lapas ca gente!

O Silva parou a carrinha no meio da estrada, desceu com um sorriso enorme, cumprimentou toda a gente e ali esteve um pouco na conversa, na galhofa e nas lapas connosco, ele tinha passado uns anos nas Flores e era muito querido por todos, como se podia bem ver. Eu lembrava-me dele mas nunca o conheci bem, gostei de ver aquilo e gostava que mais gente visse porque o Silva é preto e no nosso país o racismo é uma coisa muito estranha, há pessoas que a ver um jogo de futebol gritam “ah, preto do cara$%#!” e depois se for preciso tiram a camisa para dar a um preto que esteja à frente deles e precise e vêm-lhes as lágrimas aos olhos a falar de amigos que deixaram em África. Há outros que se pudessem faziam um altar ao Éder e depois no autocarro afastam-se de um preto que esteja ao pé si e desconfiam logo. É um bocado esquizofrénico.

Ficámos no último bar aberto de Vila do Porto até às 3 da manhã, o pessoal encontrou gente que conhece gente que é prima de gente que pescou com gente que é cunhada de gente que emigrou e passam-se que tempos naquilo. Na manhã seguinte descemos para o porto, durante a noite tinham chegado os outros botes no navio de passageiros, um catamaran de alta velocidade que foi mais uma compra muito judiciosa, especialmente para os que foram envolvidos no negócio e se devem ter tratado bem, entre comissões , pareceres e outros esquemas. Como ferry para o arquipélago é uma bela merda.O apontamento cómico foi que se atrasou porque teve que ir à Graciosa buscar um burro.

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Fui ver os outros botes e ficou mais claro ainda  que no Faial e no Pico o nível é outro, desde o material das velas às pequenas afinações passando pelo pequeno pormenor  de nós nem sequer termos t-shirts  do clube para irmos todos de igual. Têm dezenas de botes , treinam o ano todo e se nos cá temos que andar a pedir e penamos para arranjar uma tripulação completa lá rejeitam candidatos às dezenas e só os melhores vão às competições.

Arriámos os botes, levantámos o mastro e ficámos a pairar à espera do reboque. As partidas nestas regatas são feitas de uma linha criada pela lancha. As lanchas rebocam 6 botes cada uma , fazem uma linha longa que dá uma volta de cortesia ao porto, posicionam-se e quando dão o sinal largam-se as amarras, içam-se as velas e começa a regata, um circuito à volta de 3 bóias, em frente à Praia Formosa. Rebentaram dois foguetes e um dos dois pescadores que fazem parte da nossa tripulação e andaram à baleia virou-.se para mim e mostrou-me o braço todo arrepiado, com um sorriso. No tempo da baleia havia vigias em cima dos montes e não havia rádios (não havia quase nada), pelo que o vigia , quando avistava baleias, mandava um foguete e todas as companhas largavam o que estavam a fazer e corriam para o porto para arriar os botes. Deu-se o sinal de largada e o outro pescador que também andou à baleia e é o nosso proa disse bem alto:

-Vamos  moços,  à vontade de Deus!

Foi a minha vez de me arrepiar um bocado. Passados poucos minutos as diferenças de andamento e facilidade de manobra vieram ao de cima e ficámos para trás.Houve 3 regatas nessa tarde, ficámos em nono de onze na primeira, em último na segunda e na terceira acabou o tempo sem conseguirmos chegar à meta.Não me ralei nada, estava encantado com aquilo tudo.

Nessa noite fomos à Maia,sítio incrivelmente bonito, ao festival de música folk, vimos a actuação de uns espanhóis chamados “El Gueto com Botas” , com uma mistura musical que eu gosto bastante. Via-se que  são todos do Podemos e diziam  coisas parvas como “esta música chama-se Las Plazas, em memória das praças que antes eram sítios do povo onde se bebia e comia e fumava e hoje não são de ninguém”. Devem ter tocado pouco em Portugal porque ainda não sabiam que o tuga não dança, podiam passar a noite toda a pedir para as pessoas se chegarem à frente e dançarem que não valia de nada. É assim desde que me lembro. A seguir houve um DJ , mas um DJ mais engraçado que o normal ( vem cá um agora, pôs no cartaz que está muito contente por vir tocar aos Açores e se o apanhar pergunto-lhe logo o que é que ele acha que toca). Este tinha misturas de músicas tradicionais e ele sim, conseguia por as pessoas a dançar (ou andar de roda, que é quase o mesmo) com músicas como a Saia da Carolina, eu quanto mais bebo mais nostálgico fico e gostei de ver aquilo. Voltámos ao acampamento na escola já passava bem das 4, no domingo só havia a última regata, e era à tarde.

O nosso oficial tinha subido muito na consideração que tenho por ele porque admitiu sem reservas que a culpa da nossa prestação fraca era dele, não sabia mais do que aquilo. Ofereci  que os problemas principais  eram não saber quando parar a orça , coisa que nos deixou a boiar muita vez, e não saber regular a escota da vela grande em função da mareação, andámos muito com o vento pelo través e à popa com a escota caçada, e fomos ficando para trás. Para a próxima falo mais cedo e previno antecipadamente que vou falar, para não surpreender ninguém. Ele teve que se ir embora e combinou com uma moça do Faial para ser nossa oficial.Eu ia caindo para trás e disse que antes queria chegar em último cinquenta vezes com uma tripulação das Flores do que ganhar uma regata com um oficial do Faial mas a verdade é que eu também não posso falar muito de origens e não tinha vontade nenhuma de pegar no leme sem ter tido oportunidade de treinar mais um bocado. Mais dois ou três meses deviam chegar.

Chegou a moça, que já foi  campeã, vi  que não só  sabia daquilo como, para meu descanso, a tripulação  tratou-a  impecavelmente, se calhar se fosse um homem não tinha sido tão respeitado. Mostrou-nos alguns problemas com o aparelho e a palamenta do bote e lá fizemos a última regata, mesmo bem comandados chegámos outra vez em último. Se não estivesse com as vacinas em dia era homem para me ter apaixonado  por ela, porque além de marinheira tinha as medidas, a educação e o sorriso certos.

Fez-se a entrega dos prémios.Esse senhor que se vê na foto tem 83 anos, anda com os nossos botes para todo o lado, é talvez o trancador mais velho do arquipélago, conhecido e estimado em todo o lado e  um monumento vivo da baleação.

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Já está bastante confundido nas suas recordações e passa a vida a insultar-nos de morte mas quando desaparecer vai deixar saudades.Já me desculpa ser continental e do Sporting e diz que eu sou uma pessoa com quem se pode falar. Chamaram ao palco os oficiais dos botes que ficaram abaixo do terceiro lugar, o nosso tinha-se ido embora e o presidente do nosso clube, em vez de mandar o moço mais novo receber a lembrança, como mandava a decência e a boa ordem das coisas, foi ele, perdendo assim o pouco que lhe restava da minha consideração.

No fim da cerimónia fui falar com o director das provas e sugeri-lhe que se mudasse o nome de campeonato Regional para Nacional, aberto à participação de botes baleeiros de todo o país. Se o resto do país não tem botes, paciência, mas os campeões são nacionais.Ele disse que fazia sentido e não ia ser esquecido.Perguntou-me se eu era das Flores eu disse que sim, nasci no continente mas sou das Flores.

Veio um reboque do porto, subimos para lá o bote e metemo-lo no contentor, certificando-nos de que desta vez não iam lá gatos, e fomos jantar. Na madrugada seguinte foram-nos buscar para estarmos no aeroporto uma hora antes do que estaríamos se fosse eu a mandar e embarcámos para S.Miguel , um voo de 15 minutos ou perto.São Miguel rebenta pelas costuras de tanto turista. O que para mim é rebentar pelas costuras será para muitos “bastante gente”.A rapaziada foi para cidade passear e fazer compras, eu já conheço aquilo tudo, já me estava a fartar de tanta gente e nesta altura compras, só mercearias mesmo. Seis horas no aeroporto, ou melhor , cinco porque um grande amigo meu que por acaso até trabalha no aeroporto veio buscar-me para irmos beber um café e por a conversa em dia. Ainda li o Açoriano Oriental e tinha marcado umas matérias para dizer aqui mal mas isto já vai longo demais para isso, fica para a próxima.

Quando aterrámos não havia ninguém à nossa espera, não era um comité de recepção que esperávamos, era  a mesma carrinha da Câmara que nos trouxe das Lajes, mas o presidente do clube tinha-se esquecido , a tal logística. Telefonou-se para o presidente  da câmara que lá foi chamar um empregado que já tinha despegado para nos vir buscar depois de quase uma hora de espera e quando já tinha vindo a Santa Cruz nesse dia. Foi com satisfação que soube há pouco que o presidente do clube se tinha demitido hoje, possivelmente porque ontem deixámos na sede um papel assinado por todos a dizer que não queríamos que ele nos acompanhasse para a regata da Semana do Mar.

Este fim de semana marcou o fim de uma era de seis anos em que não me envolvi a sério em nada que meta políticas pequenas ou grandes e que me esforcei sobretudo para não criar inimizades. Uma já está, e não foi só pela incompetência, é que não gosto que me mintam nem que mintam à minha frente sobretudo sobre  assuntos que me são caros e a partir de posições de responsabilidade. O velho mestre baleeiro (que tem muito desconto e pode-me mentir à vontade que continuamos amigos) disse-nos  “quando chegarem às Flores não dizem nada do que se passou aqui!”, ao que eu respondi que estava com azar porque se me fazem uma pergunta eu respondo e além do mais não tenho vergonha nenhuma de ter ficado tecnicamente em último, e quem me quiser dar lições de vela tem  que vir comigo para o mar.

Já hoje me disseram que ficar em quinto não era mau, eu só respondi que não era nada mau mesmo e calei-me, há pessoas que ainda vivem em 1980 e pensam que se pode fazer uma coisa noutra ilha e chegar aqui e contar uma historia diferente que ninguém vai saber. Prevê-se grande confusão até à Semana do Mar , em Agosto, o que eu sei é que vou lá estar num dos botes das Flores para a regata e vamo-nos esganar para não ficar em último. E ficar em último é melhor do que ficar em casa.

Outra Ilha

Amanhã vou com o resto da tripulação da Formosa para Santa Maria participar no Campeonato Regional de Botes Baleeiros e acho que se fosse eu o oficial (homem do leme) esta noite não dormia, mas como felizmente já não sou não estou nada preocupado, antes pelo contrário. O bote foi a semana passada no navio:

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Saímos daqui pelas duas da tarde para chegar ao fim do dia a Santa Maria, na sexta feira tiramos o bote do contentor e fazemos uns testes, as regatas são no Sábado e Domingo.

Dado que a minha política de base é “zero conflitos” e dado que não sei se alguém desta ilha lê isto ( aqui inventa-se muito, ouve-se uma braça e conta-se uma milha) não me vou alongar muito sobre as circunstâncias desta participação, sobre a organização e modo de funcionamento das regatas de botes baleeiros e sobre o modo como isso se faz cá, repito só que estou contente por fazer parte, que temos muita margem de progressão é que é possível que depois desta iniciação eu continue envolvido nisto no futuro, mesmo que a participação neste campeonato não tenha grande brilho…ou que seja mesmo completamente baça.

Santa Maria fica na outra ponta do arquipélago, e sei pouco  sobre ela: foi a primeira ilha a ser descoberta ; tem 5500 habitantes e é mais pequena que as Flores; tem um aeroporto que parece uma gare para uma pista gigantesca onde aterrava o Concorde; tem a única praia de areia branca das ilhas e tem  encostas escarpadas com uns acessos inacreditáveis onde se cultivavam  vinhas com esforço tremendo. Essas vinhas começaram a ser cultivadas logo no século XVI e a primeira vez que vi fotos delas pensei : era preciso estar mesmo num desespero por vinho para fazer aquilo. Estou agora mesmo a instruir-me um pouco na wikipedia e vejo que Sta Maria tem 36 igrejas e ermidas e 3 escolas, destas três aposto que duas são pós 25 de Abril e isto é o género de coisa  que para mim explica muito bem a condição do nosso belo país.

Vou cheio de curiosidade, sei que vamos ser recebidos e acomodados com hospitalidade e que não vai faltar convívio são (em terra) e passeios pela ilha, nestes intercâmbios entre os clubes todas as ilhas querem impressionar os visitantes das outras ilhas, e ainda por cima há um festival de música folclórica  o Maia Folk , que não é aquele folclore dos ranchos e gente desafinada e esganiçada a bater canas rachadas e massacrar acordeões, é musica popular de inspiração tradicional, como estes moços que vão lá estar, gosto disto:

Como a ausência é curta as ovelhas ficam em autogestão, amanhã de manhã ainda tenho preparações a fazer para as deixar todas com erva suficiente para estes dias, as galinhas vão ter que ser mais empreendedoras porque ninguém lhes vai dar milho, vão ter que esgravatar mais e procurar mais bicharocos e o meu vizinho vai cá passar para para alimentar cão e gato, que fazem companhia um ao outro, vou descansado.

 

O Bote da Baleia

Faz agora 30 anos que se caçou a última baleia nos Açores, nas Lajes do Pico. Foi o fim de uma história longa, heróica e muitas vezes dramática, felizmente está documentada e o património está cuidado, desde os vários museus que contam a história da faina e guardam os artefactos à memória viva dos muitos baleeiros que ainda estão entre nós, e no principal: as embarcações que são mantidas e navegam todos os anos, com a juventude do arquipélago misturada com os velhos lobos para se manter a arte e termos a certeza que os garotos de amanhã vão poder ver um bote da baleia a todo o pano e, quem sabe, navegar num.

Não há grandes dúvidas de que os melhores baleeiros eram dos Açores, não são os Açorianos quem o diz, são os estudiosos das maiores armações baleeiras de sempre, nomeadamente Ingleses de Liverpool e Americanos da Nova Inglaterra, até no livro que vem à cabeça de toda a gente quando se fala em baleias está escrito com todas as letras, os melhores e mais procurados eram os ilhéus dos Açores.  Baleeiros de Nantucket e New Bedford faziam quase 2000 milhas para Leste  até aos Açores antes de rumarem aos mares do Sul para épocas de caça que duravam anos, não só para refrescar e posicionarem-se melhor para a descida do Atlântico mas também para recrutar marinheiros, tantos quantos pudessem. Sabendo das condições de vida no arquipélago no século XIX e princípio do século passado, é normal que as fortunas ganhas com bravura em  mares distantes faziam sonhar muita juventude, que se aplicava ainda com mais empenho do que o que a necessidade já ditava. Um trancador (o que lança o arpão que apanha a baleia) açoriano que embarcasse numa escuna americana sabia que deixava a sua família orientada por meses e que dentro de poucos anos podia voltar rico, quem sabe até chegar às califórnias perdidas de abundância. 

Convido os mais curiosos a fazer uma simples busca no google tipo “baleação nos Açores” para aceder  a minas de informação detalhada, e para os mesmo interessados, uma visita às ilhas,principalmente o Pico,o Faial e as Flores, que sendo pequena mesmo assim figurou alto na história e teve a sua fábrica da baleia, hoje um museu impecável.

Desde que aqui arribei pela primeira vez que os botes da baleia me chamaram a atenção e pensava em navegar com eles e ver de perto o que seria a sensação de andar atrás de baleias em coisas daquelas. Os anos passaram, há 6 vim morar para cá, os botes na rampa do porto no verão, raramente os via sair. Fiz-me sócio do clube naval mas não pensava em participar, até porque me ausentava frequentemente no Verão. Além disso sei bem que posso viver aqui mais 30 anos que vou ser sempre continental, há uma linha. Não estou a protestar, acho perfeitamente normal e gosto muito de linhas, todos devíamos saber e poder traçar claramente as linhas e limites e ter noção  do que é preciso para os atravessar.

Há uns meses  perguntaram-me  do clube naval se este ano eu queria fazer parte de uma companha para ir às regatas na Horta e no Pico. Eu pensei:  a linha já foi afastada mais para diante! e como dei por encerradas as viagens oceânicas,disse logo que sim.Ficaram de  me dizer alguma “entretanto”.

Passaram meses e nada, e eu sou um gajo que não só gosta de um certo nível de organização como tenho uma noção boa do que é preciso para juntar, treinar e soldar uma tripulação nova num barco novo. Também conheço o nível dos marinheiros do Pico e do Faial, que têm dezenas de botes e montes de juventude e mestria que faz isto regularmente e com dedicação, estruturas e programas montados e anos de experiência. Aqui é tudo aleatório e incipiente, e eu sei bem que não  podemos pensar em ir ganhar a regata da Semana do Mar mas temos a obrigação de ir lá e não ser uma vergonha.Há uma grande diferença entre chegar em último e ser uma vergonha.

Como nunca mais me disseram nada tirei daí o sentido e felicitei-me por não ter logo começado a escrever um grande post sobre os botes da baleia. Eis que na semana passada outro conhecido meu diz-me que o clube naval lhe tinha confiado a responsabilidade de um dos botes para levar às regatas do Pico e do Faial, e se eu queria ir. Claro que sim, com os  pressupostos:  começávamos já a treinar; eu estou feliz tanto de oficial ao leme como a fazer lastro na borda; há que ver que nunca andei num bote e eles diferem imenso dos barcos a que eu estou habituado e, finalmente,  o objectivo não é ir de festa para as lendárias adegas do Pico e depois no dia arriar o bote, dar meia dúzia de voltas e abandonar, à maneira de um conhecido navegador solitário português, e regressar à doca confiante de que temos desconto porque somos lá das Flores, é esperado vir fazer número e marcar presença. O objectivo tem que ser  ir aprender o máximo com os que sabem mais que nós, acabar o percurso e que quem estiver a ver não diga “aqueles toleirões das Flores” e sim “não se amanharam nada mal, mesmo assim”.

Já saímos quatro vezes, dou-me bem com a companha toda, é um mundo novo para mim e temos muito trabalho pela frente,  muito que aprender uns com os outros e  estou radiante não só porque já naveguei como oficial num bote da baleia como isto me faz sentir aceite e parte desta terra. Não são as minhas perícias de vela que vão levar isto a um nível novo mas sei que tenho um contributo positivo a dar e de qualquer maneira é uma aventura. Uma aventura marítima na senda  de homens admiráveis em embarcações históricas, e ao fim do dia  subo o monte e vou para casa. Também sonhei isto quando era pequeno.

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PS: O cordeiro enjeitado vive,ainda não está safo mas aguenta-se.

Biosegurança

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Começo por falar em biosegurança  porque foi parte importante da experiência Nova Zelândia/Fiji.

Ambos os países são arquipélagos , como tal têm um ecossistema isolado e mais sensível que os continentais. Conscientes disso, implementam regras para se protegerem de espécies invasivas. Mesmo chegando de avião os visitantes são obrigados a declarar , sob pena de sofrerem multas pesadas, quaisquer coisas vivas ou frescas que tragam na bagagem. Animais são interditos e quando se chega de barco todo o lixo e produtos frescos que haja a bordo têm que ser incinerados separadamente . Com isto pretende-se proteger o ambiente de espécies invasoras , animais e vegetais, cuja introdução pode ter efeitos catastróficos num ecossistema. Há espécies invasoras que não fazem grande mal , há outras que causam milhões em prejuízos e destruições enormes, e claro que uma ilha está muito mais sujeita a isso.

O arquipélago onde eu vivo também tem ecossistemas delicados e reservas naturais , a minha ilha é toda uma reserva da Biosfera e todos gostaríamos que se mantivesse assim , sem corrermos riscos de importar algum bicho ou planta que possa dar cabo das coisas, como já aconteceu por exemplo com a introdução da varroa que nos dizimou as abelhas.

Ao Arquipélago dos Açores chegam todos os anos milhares de iates, alguns vêm da civilização mas a maior parte vem das caraíbas , e vêm com produtos alimentares, frutas , vegetais e o lixo acumulado durante a travessia. Seria no nosso interesse um controlo destas importações , um mecanismo e regras para prevenir alguma desgraça biológica . Fazer como se faz na maior parte dos países e territórios insulares e conscientes e obrigar quem chega a declarar e entregar tudo o que é vivo e fresco e informar com antecedência os visitantes que não podem trazer nada que não tenha passaporte fitosanitário.Quando compro árvores de fruto na associação agrícola , por exemplo, têm que vir com essa garantia de sanidade , mas se enfiar dez arbustos na mochila e os trouxer de avião não há problema.

 Gostava de saber qual é razão para não se fazer este controlo na fronteira ,  acho que toda a gente concorda que o património e a segurança biológica são cruciais na manutenção dos Açores tal como os conhecemos e amamos mas ninguém se lembra destas coisas e os iates vão continuar a entrar à vontade com toda a merda possível e imaginária trazida das caraíbas. Por outro lado, sabendo que tinha que ser o governo a encarregar-se disso , não fico assim muito desiludido porque iam  implementar um programa de milhões , contratar dezenas de novos funcionários, instituir uma burocracia nova , vinha  um urso qualquer do governo  mostrar vacas voadoras e panfletos novos e depois o risco era mais ou menos o mesmo , porque  rigor estrito é noção fora do léxico nacional e é sabido que não somos os únicos a gostar de contornar regras . Além do mais podiam instituir um monte de regras que não podiam impedir algum bicharoco de chegar sem o conhecimento  dos donos do barco, fosse agarrado ao casco ou refundido num canto qualquer. Sendo assim , já que se corria o risco à mesma , mais vale não gastar esse dinheiro…mas é certo que tenho medo de que chegue em breve às nossas costas algum ser, seja um piolho seja uma alga ou uma erva , que nos venha dar cabo do equilíbrio.

A Nova Zelândia e a Austrália têm leis draconianas para essa protecção mas são países ricos , aqui as Fiji são um país pobre mas também se protegem , nós estamos a meio caminho e não queremos saber disso para nada.

Fiji

Como esperava , foi uma viagem monótona como as melhores, feita de rotina instalada e sem surpresas. Perguntem a qualquer marinheiro profissional e ele diz-vos que a monotonia é a marca  da viagem de sucesso, porque regra geral os acontecimentos são problemas ou surpresas más.

No dia da partida o capitão estava agitadíssimo , repetia-me “isto é mesmo real!” e coisas semelhantes , eu respondia com um sorriso, compreendia-o bem porque também eu , no lugar dele , sinto borboletas no estômago nas horas que antecedem uma partida , às vezes nem durmo. Interrogava-me se  a minha ansiedade nessas alturas era tão aparente para os meus tripulantes como a dele era para mim , e não estava minimamente preocupado porque sabia que era apenas isso, a excitação da partida , quando tudo finalmente está ali na nossa mão e estamos prestes a levar homens e embarcação para alto mar por muitos dias , com tudo o que isso implica mesmo nestes tempos de tecnologias incríveis.

Estava um dia lindo , deixámos para trás Bay of Islands debaixo de um sol radioso , uma brisa ligeira e uma ondulação bem grande , deixada dos temporais dos últimos dias. Tinha dito que como já não navegava num monocasco há mais de cinco anos ia ter provavelmente algumas dificuldades a entrar no ritmo mas foi apenas um ligeiro mal estar , no dia seguinte já estava tranquilamente na cabine de proa com o nariz enfiado nos meus livros sem ligar nada aos balanços e ao movimento do barco, tão diferentes dos catamarans nos quais faço a grande maioria das minhas navegações.

Fui prestando atenção aos modos e processos do capitão, posso bem ansiar pela “reforma” mas nunca gosto de perder uma oportunidade de aprender. Infelizmente para a minha qualidade de profissional  não naveguei como uma variedade suficiente de capitães , fui mais ou menos lançado às feras e tive poucos exemplos práticos , a oportunidade de servir e ser mandado é o melhor para aprender a mandar e ser servido, e faltou-me isso na minha carreira. O capitão é metódico ao ponto de ser picuínhas mas nunca ninguém naufragou nem teve danos por excesso de atenção  ao detalhe.  Por exemplo chamou-me para me dizer que a esponja da louça não podia ser deixada dentro do lava louças, era para ser espremida e ficar no canto do balcão. Perante isto dei a única resposta possível : “não há problema , não me vou esquecer”. Podem parecer coisas estúpidas mas são essas coisas que trazem ordem a um barco, ordem imprescindível para viagens oceânicas de sucesso.

Os quartos de vigia são duas horas on , seis off , sendo quatro pessoas isto faz que tenhamos sempre os mesmos quartos , eu tenho sempre o do nascer do sol e gosto muito. Viemos o caminho todo a motor, mesmo quando tivemos ventos mais do que favoráveis , o máximo que houve de “protestos” foram umas trocas de olhares significantes entre mim e o velho kiwi , nem nunca nos passou pela cabeça sugerir içar mais pano e seguir à vela mesmo que se perdesse velocidade. A escolha estava feita e quem manda , manda . Mas é verdade que pareceu estranho e às vezes lembrava-me de ocasiões em que , nos meus barcos,  segui a motor quando a brisa até servia . São escolhas e cálculos que só dizem respeito ao capitão. Passei sete dias em que nem olhei para  a carta , nem sequer de relance olhei para manómetros da água ou combustível , nem uma só vez tive curiosidade de ir ver quanto tínhamos corrido nesse dia ou quantas milhas faltavam.

O ambiente a bordo é  excepcional, como só se consegue com uma tripulação experimentada , que não só domina todos os pormenores da marinharia como está farta de saber como é que se vive em harmonia num espaço pequeno . Tirando coisas como não esquecer de espremer a esponja ninguém nunca teve  que ser chamado à atenção sobre nada. Temos todos um fundo considerável de histórias náuticas ,  além delas vamos conversando sobre como são as coisas nos nossos respectivos países e toda a gente tem o sentido de humor suficiente para levar as coisas com ligeireza e boa disposição. É tudo ateu , pelo que  podemos rir à vontade dos absurdos implausíveis e mitologias várias sem ofender ninguém , num barco basta haver um crente para o assunto ter que ser tratado com circunspecção. Curiosamente temos um judeu, um católico e um protestante que deixados a pensar por si chegaram à mesma conclusão.

Pela primeira vez estou num barco em que ninguém lê uma linha que seja de nada , os únicos livros a bordo são os meus e isto causa-me espanto. Não consigo perceber como é possível. Que se viva assim em terra , com televisão e todas as mil distracções e alienações à disposição , percebo bem, agora no mar , quando temos pelo menos 15 horas do dia para dormir e fazer o que quisermos , que se passem essas horas sem fazer nada além de comer e dormir  , acho espantoso. O O. , o canadiano , tem um tablet e entretem-se com jogos , percebo bem e não sou estranho a essa forma de entertenimento , mas o T, o kiwi , sobe ao cockpit quando me rende a seguir ao nascer do sol e lá fica até ao pôr do sol , sempre bem disposto mas sem fazer nada a não ser ter o olho no mar e no barco e ir conversando com quem  está de vigia. O capitão passa imenso tempo em comunicação com terra , tem uma quantidade grande de zingarelhos electrónicos e comunicações satélite , e passa muito tempo no seu computador, até o diário de bordo é ele que preenche sempre.

Já nos habituámos  uns aos outros , falta-nos um temporal decente para soldar isto e não tenho dúvidas de que no que depende da tripulação a viagem vai ser um sucesso.

Ontem ao nascer do sol vi a ilha de Viti Levu, a maior das Fiji , onde aportámos pelo meio da manhã e que espero agora descobrir. No meu mundo isto era chegar na segunda , trabalhar na terça , festarola na quarta e partida na quinta mas já está estabelecido que antes de Sábado não saímos, não há queixas.

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