Belmiro e a Escravatura

A escravatura era o tema escolhido para o post e comecei a escrevê-lo motivado pelas notícias de que hoje em dia na Líbia se pode comprar uma pessoa por cerca de €400. Entretanto morreu o Belmiro de Azevedo, comecei a ler e ouvir as reacções, todas mais do que previsíveis, e lembrei-me de uma das coisas mais parvas que se dizem constantemente: esta vida (por exemplo a de um empregado por conta de outrem a ganhar o salário mínimo) é uma escravatura, somos todos escravos do sistema/capitalismo .

Primeiro o Belmiro. Bastou-lhe ter sido empresário, criado riqueza, revolucionado indústrias e ter sido patrão de milhares para ser detestado pelas esquerdas mais esquerdas. No mundo em que essas pessoas gostavam de viver ninguém podia possuir mais do que X, ninguém trabalhava sem ser sob direcção do Estado, ninguém fazia concorrência  a nada, ninguém na hora da morte podia deixar o fruto do seu trabalho aos descendentes. Felizmente esse mundo sempre foi  rejeitado e continua a ser, excepto onde o modelo é mantido à força, a única maneira de instalar e manter. Um individuo  no twitter  listou  os talhos e mercearias que fecharam por causa da chegada da grande distribuição, presume-se que preferia o modelo antigo e que ainda faça as suas compras dessa maneira. Não conheço nenhum sítio onde não haja ainda pequenas lojas, não tantas como havia mas ainda há, pelo que os consumidores têm  escolha. Surpreendentemente, escolhem um sítio mais acessível, com mais variedade e invariavelmente mais barato, é estranho.

Depois, este explorador ganancioso e sem coração torrou milhões para dotar o país de mais um jornal diário, no critério editorial do qual  nunca quis ter uma  palavra a dizer. Se não fossem directores passados e presentes a assegurá-lo bastaria  ler o Público para perceber que se a intenção do Belmiro com o jornal fosse guiar a opinião pública para o lado direito a coisa estava-lhe  a correr muito mal desde o princípio. Os políticos passam horas a tentar, com maior ou menor grau de sucesso, influenciar o que se publica nos jornais. Este era dono do jornal e nunca ligou para lá, mas nem isso moveu o Bloco, principal beneficiário do Público, a apoiar um voto de pesar, ao menos pela contribuição para a pluralidade da imprensa.

Outro motivador do escárnio e desprezo pelo homem é a sempre presente inveja, até de um tipo que não nasceu em berço de ouro, pegava ao serviço todos os dias às 8, subiu a pulso e  construiu um império. Os verdadeiros heróis, aqueles que são louvados pela Assembleia da República, são os que nunca criam nem produzem a ponta de um corno, nunca pagam um salário com o próprio dinheiro, nunca são responsabilizados financeiramente pela sua prestação, votam o tamanho do próprio salário e privilégios    e levam uma vida de retórica e teoria, feita de lutar por poder, manter o poder, estender influência e combater os de pensamento oposto . São esses os bons da História.

Em 1997 deixei a universidade, queria fazer outras coisas e precisava de dinheiro. Fui trabalhar para o Modelo como repositor de mercearias. Quem se lembra desses tempos sabe bem que não havia assim muitos empregos para jovens sem formação superior em que fosse só chegar e começar a trabalhar. Os talhos e mercearias de que o outro lamenta a sorte era negócios familiares por definição, que não cresciam nem empregavam. Recebia o ordenado mínimo, subsídio de turno e todas as demais contribuições previstas pela lei. Essa oportunidade que tive de avançar na vida não foi o Estado que ma deu, não foi o pequeno comércio e muito menos algum Gabinete de Observação da Interação Social da Osga Mediterrânica, o género de organismo estatal que hoje prolifera e emprega boa parte da juventude saída das universidades, com ou sem conclusão do currículo é irrelevante, se se tiverem os padrinhos certos e o cartão de militante apropriado para a época. A oportunidade devo-a ao  Belmiro de Azevedo e à sua importação  de um novo modelo de distribuição e serviços. A minha passagem por lá não foi muito longa mas sempre me foi explicado e demonstrado que podia ter ali uma carreira. As carpideiras do salário mínimo ignoram, ou preferem ignorar, que um repositor de mercearias motivado, dinâmico e interessado pode progredir, se eu tivesse queda e vontade para aquilo hoje podia ser director de um Modelo, formado na casa. Claro, não há progressões automáticas de carreira , conceito idiota que só podia existir mesmo no Estado, mas há oportunidade de subir na vida. Há é que trabalhar um bocado.

Irrita-me que se fale de escravatura relacionada com emprego de baixo salário por duas razões, a primeira é que a definição de escravatura está à disposição no dicionário , tal como também está a definição de quem usa conscientemente uma palavra errada para descrever uma realidade. A segunda razão é que existem milhões de escravos verdadeiros hoje em dia, pelo que dizer que alguém que tem um emprego em que ganha pouco é um escravo é uma falta de respeito.

A Líbia tornou-se um estado falhado e agora o passado é irrelevante, a culpa da situação é do Ocidente, nomeadamente do Clinton e do Sarkozy que promoveram a queda do Kadafi. Note-se que o Kadafi não tem culpa nenhuma da situação do país que governou com mão de ferro durante 42 anos, culpado do que se lá passa é de quem o derrubou, que presumivelmente devia ter continuado a tolerar autocracia e tudo o que vem com ela. O facto de os próprios líbios se terem revoltado em massa nunca diz nada aos defensores dessa visão, para os quais meia dúzia de operacionais da CIA com umas malas de dinheiro conseguem levar um povo à revolta, mesmo que se viva  bem no país. O sistema é bom, funciona , as pessoas estão contentes com a vida e as perspectivas de futuro, chegam duas agências governamentais estrangeiras, incendeiam uma nação e rebenta uma guerra civil. Fico sempre fascinado com este raciocínio.

Isto não quer dizer que as potências ocidentais sejam inocentes ou que as suas motivações sejam nobres, alguém que acredite em motivações nobres da parte de algum Estado ou seus representantes deve procurar outro tema para estudar. O que quero dizer é que o facto de haver hoje em dia escravatura na Líbia é apenas o ressurgir de uma pratica cultural  ancestral que apenas tinha sido reprimida. É o relembrar da relação que sempre houve entre os povos árabes do Norte de África e os povos negros do Sul do Saara. Se o Ocidente tem culpa no que se passa lá hoje é a culpa de não ter mantido no lugar um sistema que reprime esses instintos e práticas.

Creio que se vai construir em Lisboa um monumento aos escravos do Império, e eu acho bem, para que se preserve a memória e a noção de que o Portugal ultramarino construi-se muito em cima disso, para que se continue a abandonar  a ideia romantizada do  navegador e colono benévolo, para que se lembre que Portugal foi o país que mais escravos transportou para as Américas. É saudável lembrar isso, não se pode nem deve polir a História.

Em 2008 levei um barco para Mystic , no Connecticut , terra que é inteira um museu marítimo . Como a História que me interessa mais é a naval, conhecia bem os navios negreiros e foi por eles e as suas histórias que o horror indescritível da escravatura me bateu pela primeira vez. Quando a Marinha Real Inglesa começou a caçar os negreiros no Atlântico sabiam que estava um por perto porque se houvesse um negreiro vinte milhas a barlavento eles cheiravam-no , muito antes de o verem. Os navios negreiros, especialmente depois de os Ingleses terem banido o tráfico, eram construídos para  um equilíbrio entre velocidade, capacidade de carga e manobrabilidade, e isso fez  deles dos veleiros mais extraordinários de sempre.

Em Mystic corri tudo à procura de um, em modelo, em planos, em filmes. Nada , o Museu é a cidade inteira, em terra e no mar, e não encontrei uma só referência ao tráfico de escravos na terra que construiu a esmagadora maioria dos barcos usados pelos americanos nesse tráfico. Desde essa visita os EUA tiveram um presidente negro e fizeram um esforço maior por enfrentar a sua História (hoje  a ser paulatinamente desfeito) pelo que talvez já se fale de negreiros em Mystic, mas o que me ficou da visita foi essa vontade de varrer o Mal para debaixo do tapete, coisa que entre muitas outras permite que hoje um tipo que tem um salário baixo e uma vida vazia se considere um escravo.

No debate nacional sobre a escravatura vejo que  para muita gente escravatura é o tráfico atlântico de escravos africanos pelos europeus. Isso é uma visão redutora  e quando vemos em 2017 pessoas a serem vendidas vale a pena lembrar alguns factos que me parece não são suficientemente lembrados:

  • A escravatura existe no Mundo desde que duas sociedades ou grupos diferentes se encontraram e guerrearam.
  • A escravatura está não só prevista como justificada e autorizada no Antigo Testamento e foi a base de algumas das maiores realizações da História, desde a Democracia Ateniense ao Império Romano.
  • Cristo foi crucificado e considerado um inimigo simplesmente por defender que todos os homens eram iguais, logo, pondo em risco a escravatura que era a base de quase  todas as sociedades da época. O que a “sua igreja” tolerou, aprovou e promoveu depois da sua morte no que diz respeito à escravatura fala pelas intenções e motivações reais da mesma.
  • Dado que igreja de Cristo não foi capaz de cumprir a sua mais básica função, fazer com que os homens se amassem uns aos outros  em 1800 anos, coube a argumentos racionais e a homens políticos como Wilberforce ou Lincoln guerrearem contra o flagelo. O clero não liderou nada, alguns clérigos mais humanos participaram nos movimentos anti esclavagistas mas das altas hierarquias, nada.
  • No tráfico Atlântico a maior parte dos escravos embarcados para as Américas eram vendidos aos traficantes europeus quer por árabes que só se dedicavam à “caça” quer por outros africanos.
  • Além destas imagens aterradoras que chegam da Líbia é sabido há muito que nas monarquias árabes do Golfo sempre houve e continua a haver escravos.

Isto tudo para dizer que a verdadeira escravatura  é um fenómeno  muito maior, muito mais enraizado e muito mais actual, que é um insulto grave descrever salários baixos como escravatura e que se há culturas e sociedades que a desprezam há mais de um século, como a nossa, há outras nas quais ainda se tolera e pratica. É a essas que temos que criticar e denunciar, não é a nossa que já fez o que tinha a fazer:  banir e tornar a prática abominável e inaceitável.  Agora resta-nos erguer o tal monumento, explicar às crianças o que é a escravatura mas sem lhes mentir nem fazer passar outra coisa por escravatura, explicar-lhes  o que a nossa nação fez no passado  e perseguir e castigar os que o fazem hoje em dia.

Qualquer homem que crie oportunidades para que pessoas possam ter uma opção para ganhar a sua vida está a fazer precisamente o contrário de um esclavagista: está a proporcionar Liberdade às pessoas. Da minha parte, obrigado Belmiro de Azevedo, houvesse mais como ele.

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Irma

Ontem escrevi um post sobre o furacão Irma e as Ilhas Virgens, depois apaguei-o porque era malvado. Tinha duas vertentes , uma resume-se em “20 anos a ir aí e a aturar-vos o racismo, a gabarolice, a preguiça, o queixume, a antipatia, a chulice, a falsidade, a fé  arcaica, a corrupção, a incompetência, não me peçam agora que tenha pena“. A outra vertente era : um trilião e meio em dinheiro lavado e escondido pelas offshores e parque de diversões de metade dos milionários e bilionários do mundo e agora querem que as pessoas façam donativos para reconstruir isso?Não.

Isto deu para duas páginas mas depois arrependi-me porque aquilo pode ter muitos defeitos mas vive lá muita gente que não tem culpa nenhuma  e agora não só perdeu quase tudo como ficou com o país literalmente devastado. Não se pode esperar pelos políticos para fazerem alguma coisa, porque como recentemente fomos lembrados por cá, não devemos confiar no Estado para nos proteger nem para reconstruir depois de uma  tragédia. Se eventualmente reconstrói alguma coisa podemos estar seguros de que gasta 10 para fazer o que se podia fazer com 6, porque de  tudo o que toca o Estado fica com uma parte, é da sua natureza, o monstro tem que se alimentar.

Há milhares de europeus e americanos  aos quais um deslizamento de terras que matou 500 na Serra Leoa o mês passado não aqueceu nem arrefeceu mas que a imagem de uma ilha das Caraíbas reduzida a entulho mesmo sem mortos já impressiona muito e dá vontade de ajudar com o que puderem. Ninguém , muito menos os ricos e famosos, passa férias na Serra Leoa ou no Bangladesh por isso as catástrofes por esses sítios são menos dramáticas.

A “comunidade” dos iates ficou meio histérica, como se o Irma tivesse aparecido do nada e não andassem por ali furacões todos os anos. Apreciei particularmente um casal de brasileiros que tinha um catamaran nas Ilhas Virgens, que afundou. “Depois de três anos nas Caraíbas, é uma tristeza enorme, blah blah blah , buáaa buáa” e é quase certo que além de centenas de mensagens de solidariedade vão receber donativos para refazer a sua vida, que consiste em andar de barco e falar disso. Não resisti a juntar o meu comentário à longa sequência de solidariedade e encorajamento, perguntei : ” a opção de zarpar para Sul o mais rápido possível nunca foi considerada?” Sem surpresa , fiquei sem resposta , nem sei se o meu comentário ainda lá está.

É que o Irma já se via a vir há muitos dias. Os marinheiros de cruzeiro  modernos passam 8/10 do seu tempo de viagem em terra e desse tempo metade é passada   ao computador a dizer ao mundo que são tão fixes e isto é espectacular.

Podiam usar algum desse tempo a ver a trajectória esperada do furacão, que em 2017 já é bem estimada. Se andavam pelo Caribe há 3 anos podiam ter-se dado ao trabalho de ter um plano para a estação dos furacões, que, por incrível que pareça , se repete todos os anos. Como sabe qualquer marinheiro que lá ande , a latitude de  12º N marca o começo da “cintura dos furacões”, o que quer dizer que eles se mantêm acima disso.Um marinheiro mais previdente, chegada a época, desce para St.Vincent, Grenada ou Trinidad onde já está senão completamente a salvo pelo menos com probabilidades muitíssimo  mais reduzidas de ser apanhado, em Trinidad por exemplo não há registo de um furacão. Se não quer passar o Verão todo lá em baixo pelo menos à aproximação de um foge para lá, são 3 dias, e em bem menos do que isso chegavam por exemplo a Guadeloupe que já ficou mais ou menos incólume. Não, estes navegadores de pacotilha  e dezenas de outros  que agora gemem porque ficaram sem barco  deixaram-se ficar, amarraram-se melhor ao cais, deitaram mais âncoras e defensas, rezaram e puseram posts no facebook enquanto viam um furacão de categoria 5 a aproximar-se. É contra intuitivo mas é verdadeiro, os danos piores numa tempestade sofrem-se em terra , não é no mar, e se bem que a ideia não é ir enfrentar o furacão no mar mas sim fugir dele, só a ideia de ir para o mar com um furacão a 500 milhas faz tremer as pernas a muita gente, preferem a falsa segurança de ficar num porto. Má decisão. Repito, desde que o Irma se mostrou ameaçador para as Ilhas Virgens houve mais do que tempo para que quem lá estivesse fugir para segurança, mas para isso seria preciso serem marinheiros e não turistas que andam de barco,  pelo que houve dezenas de iates  perdidos por ignorância e incúria , e o que me mete certos nervos é ver esta gente lacrimejante a fazer-se passar por vítima/herói que sobreviveu ao furacão mas vai precisar de ajuda para “refazer a vida”.

As Ilhas Virgens vão recuperar, quanto mais não seja porque umas são as Ilhas Virgens Britânicas e outras são as Americanas e  nestas alturas  independência,autonomia,  soberania e coisas assim passam para terceiro plano e nunca mais se ouvem até tudo estar a correr bem outra vez. Se não fossem as metrópoles aquilo era como a Serra Leoa , mas essas coisas não se dizem, fica mal. Se Barcelona fosse arrasada por um furacão de categoria 5 passavam todos a espanhóis dedicados e orgulhosos num instante.

Continuo a esperar nunca mais ir às Caraíbas, mesmo que o meu ex patrão esteja a esfregar as mãos e a fazer muitos contactos  porque houve milhares de barcos destruídos que têm que ser substituídos, e alguém os tem que lá levar, vão estar ocupados durantes anos. Nunca dizer nunca, mas mesmo que fosse uma viagem de turismo tenho meia dúzia de sítios aos quais voltava de boa vontade, nenhum deles nas Caraíbas. Vou ficar a ver que parte dos lucros da industria financeira vão ser taxados extraordinariamente para reconstruir aquilo, podiam fazê-lo sozinhos amanhã mas esse pessoal sabe muito e vai esperar que outros paguem a conta. Nem estranhava que o Richard Branson , que tem lá uma ilhota , fosse receber auxílio para a reconstruir.

Desejo-lhes sorte, mais ou menos na medida em que eles me desejam a mim,  não me esqueço de onde vivo e que já este inverno isto pode ir tudo com o cão, aqui não há tremores de terra nem erupções vulcânicas mas há vento que chega para tudo, há menos de 20 anos passou por aqui um ciclone que marcou 250kms/h ,porque o contador só ia até 250kms/h. Aqui as casas e estradas são mais bem construídas que lá e a infraestrutura em geral é mais sólida mas é  fácil haver   estragos sérios. Há que estar preparado, não é que eu seja crente em alguma coisa mas  fazer  pouco da desgraça alheia para ela depois nos bater á porta é das piores coisas  que pode haver, não me quero ver nessa situação. Excepto no futebol ,  posso dizer que me deu um belo gozo ver o benfas levar duas em casa do CSKA.

O Auge

Este ano em Outubro celebro 20 anos da partida para a minha primeira viagem marítima, 4 meses depois de ter velejado pela primeira vez.

Desde aí juntei 235000 milhas náuticas em todos os oceanos à excepção do Árctico e Antárctico, ao comando de 100 (número redondo, certo e documentado) barcos diferentes, alguns deles de valor na casa dos milhões .

Não tenho intenções nenhumas de voltar aos iates, não tenho saudades da vela oceânica e no Sábado passado na Horta, mesmo tendo ficado quase em último na regata, atingi o auge da minha carreira na vela, campo em que não ambiciono mais nada senão fazer isto o resto do tempo, enquanto puder.

Tenho centenas de fotos em todos esses barcos, mares, portos e ilhas mas esta é sem dúvida a minha fotografia preferida de sempre.

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Regata

Saímos com o S.Pedro na Sexta  para treinar, correu bem lá fora da baía mas o vento estava fresco e de Sul , não consegui voltar a entrar no porto à bolina , perdi a calma e desisti de tentar, entrámos a reboque, humilhação. Da parte da tarde saí no Formosa para completar a tripulação. O  Formosa é o segundo bote das Flores e levou ao leme e na genoa gente do Faial com mais de vinte anos de botes. Voltei para terra a pensar que ia mesmo ficar em último e a esperar que os moços não me levassem a mal.

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No dia seguinte tinha os nervos em franja.De manhã chegaram os  botes do Pico a reboque de duas lanchas e a rampa era uma coisa linda, 23 botes a prepararem-se para arriar.Nos Açores há 43 botes em maior ou menor condição de navegação. Nas ilhas pequenas há cada vez mais dificuldade em mantê-los e tripulá-los e  S.Miguel nunca contou muito para isto.

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Um bote baleeiro mede 11 metros, pesa 700 quilos, tem uma tripulação  de 7 homens (ou mulheres) e uma velocidade de casco de cerca de 8 nós mas já se marcaram a 16. Todos os botes são aparelhados como antigamente e há muito poucos ou nenhuns materiais modernos. Um turista veio dizer-me “barcos tão lindos e fizeram tanto mal…” , eu disse-lhe  barcos tão lindos que deram de comer a muitas famílias e salvaram as ilhas de uma miséria ainda maior. Gente que  avalia 1950 pelos padrões de 2017 pode ir bardamerda.

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Arriámos o bote , remámos para fora do porto interior , içámos a vela grande para ver se estava tudo em ordem , saímos disparados pelo meio da frota à popa arrasada, a retranca tem quase dez metros e ultrapassámos   outros barcos com distâncias de centímetros , não sei como é que fiz isso e quando voltámos a baixar a vela para tomarmos o nosso lugar na linha de reboque da largada ia a tremer.

Este é um vídeo da largada , especial atenção para o minuto 3.30 , quem ficar indiferente a uma coisa destas não pode ser bom.

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A regata é um percurso à volta de três boias , uma de bolina , uma de largo e outra de bolina à entrada no porto, e depois meia milha de bolina , mais ou menos, para  a meta mesmo em frente à cidade. Partimos em 15º da linha.

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Há festivais de velas clássicas em sítios de alto snobismo tipo St.Tropez , já lá vi muita coisa bonita e digo sem problema nenhum que um bote baleeiro bem pintadinho passa por eles e vira cabeças e causa admiração de quem sabe, não andam aí muitas embarcações  mais elegantes e rápidas que estas.

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Aqui já estávamos a rondar a última bóia, nesta altura devíamos ir em décimo segundo mas quase todos esses atrás de nós acabaram por nos passar. Bordos grandes com brisa constante e todo o espaço são uma coisa , bordos pequenos com brisas variáveis dentro de um porto com outros barcos à nossa volta são outra muito diferente, é aí que vem ao de cima a experiência,e  falhei muito. Nessa foto já se podem ver barcos atrás muito mais orçados que nós:IMG_20170812_161105

Mesmo assim demos os bordos precisos para cortar a meta, apitou a nossa buzina e tocámos na bóia , um segundo mais tarde e éramos desclassificados. Doze segundos atrás de nós cortou a meta o Formosa , e isso para mim foi vencer . Terminámos em 16º de 23, os moços ficaram contentes, eu fiquei radiante, para primeira prova foi bem bom, para não falar da beleza enorme do cenário e do dia.

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Com o bote varado fomos celebrar , e mais tarde na noite encontrei-me sozinho sentado a um balcão e achei graça porque que me sentia exactamente como me costumava sentir de cada vez que atravessava o Atlântico, uma satisfação  que me percorria o corpo todo e me deixava um sorriso fixo. Acabei  por reencontrar a tripulação na festa, não há como ter vinte anos, aqueles moços conseguiram todos os dias voltar ao alojamento de manhã clara e cheios de cerveja até aos olhos. Ah, a juventude.

No dia seguinte subimos os botes para os atrelados e arrumámos a palamenta aqui:

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É a casa dos botes do Clube Naval da Horta, um armazém de pausar  a respiração a quem gosta destas coisas e que ainda nos vincou mais a diferença abismal que vai deles para nós. Não interessa muito. Fizemos boa figura, aprendemos, ganhámos confiança e já nunca mais vou para uma prova a pensar em terminá-la , vou a pensar em classificar-me bem. Tenho o privilégio incrível de ser oficial de um bote baleeiro três  meses depois de ter subido pela primeira vez a um , há muitas pessoas que sonham com isto e passam anos e anos até  lá chegarem , quando chegam .

Agora estamos para aqui à espera que regressem os botes, vai levar uns quinze dias. Antes de os guardarmos para o Inverno e começarmos a lixar e pintar queríamos ainda navegar mais um bocado, não falta vontade nem ideias de coisas giras que podemos fazer aqui, incluindo levar turistas a navegar por uma quantia, juntar dinheiro para termos material melhor e podermos ir mais vezes ao Triângulo para o ano, para provas no Faial e no Pico. Fala-se nas “altas esferas” da possibilidade de mantermos um bote no Faial para não termos que o andar a carregar para a frente e para trás, isto claro que está dependente de haver uma tripulação de prontidão para ir para lá competir em condições, coisa que nunca houve antes. Agora há.

Preparados…

Devia ser Maio, devíamos estar a começar era agora, que temos uma tripulação completa, que já se entende e se conhece um pouco, que já brinca e se diverte na água , que já faz as manobras e  aparece nos dias combinados e que o oficial, neste caso eu, começa a ganhar alguma confiança e a perceber alguma coisinha.

Em vez disso acabaram anteontem os treinos, devíamos ter arriado o bote  hoje pela última vez mas sem barco de apoio não, mesmo que alguns dos moços com mais sangue na guelra não se importassem. Está uma aragem fresca, estes botes mesmo com especialistas ao leme podem virar por um descuido, e se viram sem que ande por perto um apoio para nos vir pescar e endireitar o bote arriscamos uma situação muito desconfortável, eu já não tenho paciência nem tenho saúde para esses números. O Clube Naval, com a atenção e dedicação que tem mostrado à nossa participação na Semana do Mar , fecha a porta depois do almoço e lá dentro fica o equipamento do semi-rígido de apoio, para o qual eu tive sempre que encontrar tripulante por mim, recorrendo a amigos de boa vontade. Da parte de outras pessoas envolvidas está tudo bem porque desde que os botes estejam na rampa na Horta no dia 12 o subsídio bate na conta , mesmo que não cheguem a arriar.

Ontem estavam cá três picarotos a trabalhar num veleiro que compraram aí, um deles  um veterano conhecido dos botes da baleia, fui falar com ele e  perguntar umas coisas, entre elas o que é que era preciso para ele vir cá passar uma semana ou duas a ensinar-nos, já que cá parece-me que ninguém sabe e  pouca gente se interessa ou  quer saber. Os mais antigos que andaram na baleação que me desculpem mas podem saber muito de mar e de trancar baleias mas de vela sabem pouco, nos antigos baleeiros a vela era quase um  acessório , ninguém andava atrás das baleias a dar bordos à vela, iam a remos ou usavam a vela quando a baleia estava a sotavento e voltavam a remos ou a reboque das lanchas a motor, e muitos que hoje falam  das velas já têm memórias muito romantizadas da coisa.

O picaroto disse-me que bastava escrever uma carta para a Direcção Geral do Património  ou coisa que o valha , já não me lembro bem, a pedir para destacar os serviços dele para aqui; pagar a alguém que lhe tomasse conta das vacas nesse período e alojá-lo e alimentá-lo cá. Que já tinha corrido as ilhas todas a treinar e ensinar e que já tinha inclusivamente falado sobre isso com um dos presidentes do clube de cá , que disse que sim, que se ia fazer e isso foi a última coisa que lhe disse. Sabendo que é muito improvável isso acontecer perguntei se eu fosse ao Pico tinha lugar num dos botes  deles durante uns dias, claro que sim , sem problema nenhum. Ficou registado , e como ainda não estou a ponto de perder completamente o interesse pelos botes nem acredito que o nosso clube naval se chegue a organizar e ser liderado em condições, sou capaz de me meter num avião e ir ao Pico passar a Semana dos Baleeiros, eu arrumo-me em qualquer canto, sou de baixa manutenção, não chateio ninguém e gostava de ter a oportunidade de navegar com quem sabe. O que me enerva  mais nesta história é que não somos ridículos  por falta de recursos, o Estado investe dezenas de milhar na preservação e navegação dos botes, é só pedir e há dinheiro para manutenção, formação e competição. Somos assim por desorganização e falta de interesse.

Já ao fim da tarde voltei a encontrar no bar os picarotos , vinham do porto.

-Você é que é o responsável por aquele bote que ali está na água? -perguntou-me o tal veterano.

Hesitei um bocado em responder mas se bem que ninguém mo disse nesses termos nem me formalizou a responsabilidade, a verdade é que nesta altura sou mesmo eu.

-Se não o varar já fo#e-se todo, já está a criar cabelo na junta, mais um dia na água e  vai  começar a apodrecer por dentro.

Fiquei confuso e alarmado, tinha sido eu a dizer que o devíamos deixar na água em vez de varado na rampa por me ter sido dado a entender que ficar ao sol fazia a madeira secar demasiado, as juntas dilatarem e as tábuas deformarem, pelo que ficando na água mantinha-se “fresco” e nunca chegava a “estalar”. Sucede que na água vai começando a criar algas minúsculas que se infiltram nas juntas e em pouco tempo começam a apodrecer a madeira, as juntas não são calafetadas. Um bote baleeiro nunca pode ficar mais do que um dia na água.  Ajudaram-me a vará-lo , felizmente apareceram alguns moços da tripulação, um deles com um  jipe que o puxou  para cima , é  daquelas ocasiões em que me estou  nas tintas para os recursos naturais globais que acabaram ontem , para as emissões poluentes e para a maneira tradicional de fazer as coisas, dêem-me um motor  potente e vantagem mecânica , quem quiser viver em 1920 tem bom remédio. Sou  adepto dos motores de combustão interna , dos aviões a jacto, dos químicos  e do plástico. Não gosto  é que mandem o plástico ao mar  ou que larguem por todo o lado, são problemas diferentes. Assim que os motores eléctricos fizerem o que fazem os de combustão interna pelo mesmo custo, lixo com os motores poluentes. Até lá, haja gasóleo.Sobre este tema só aceito críticas de quem só  anda a pé ou de bicicleta, o resto devia deixar-se de hipocrisias.

De volta à rampa, onde o homem até encontrou um banco (peça de madeira que serve para assentar a quilha) dele que ficou cá das provas do ano passado e ele reconhecia por uma  marca.

-Olhe aqui, passe aqui o dedo.Vocês é que não sabem mas nós olhamos para isto ao longe e vimos logo!

O “cabelo” a que ele se referia eram as algas que em dois dias já tinham começado a crescer ao longo da junta.

-Tem que ir buscar um pulverizador , desses de sulfatar, encha-o de lixívia e dê-lhe no casco .Já viu isto?

E começou a apontar-me defeitos e particularidades do casco que eu nunca mais tinha descortinado sozinho, e depois no bar estive a ouvir  e perguntar mais sobre como se tratam, guardam e navegam os botes baleeiros em condições. Idealmente até a construção em que se guardam no Inverno tem particularidades, paredes de pedra, telha de barro e chão de bagacina ou de “areão” , tudo ao contrário do barracão onde ficam os nossos, cimento e cimento sobre cimento. Isto por causa das temperaturas, humidades e suas variações. Ouvi sobre os botes do Pico, tantos nas Lajes , tantos nas Ribeiras, tantos na Calheta de Nesquim (adoro este nome) , tantos na Madalena,  e como correm todos contra todos , de Maio a Outubro, e contra os do Faial onde há outros tantos, com rivalidades ferozes no mar e belas  festas em terra. Como os cais e muros ao longo do porto e da praia ficam cheios de gente de cada vez que se arreiam os botes.

Vamos amanhã meter o botes nos seus atrelados.O Formosa chegou de Santa Maria há quinze dias e está onde o deixámos quando o tirámos do contentor, não foi arriado uma única vez e uma pessoa pergunta-se “se era para isto não  valia mais ter ido directamente para o Faial…?”. Recebemos “ordem” para carregar seis remos, o que é estranho dado que ninguém remou aqui este ano nem  ninguém está inscrito nas provas de remo, calculo que seja para emprestar, bote e remos, a alguém do Faial. Há muita coisa que se trata entre amigos. Os nossos bilhetes de avião são para dia 11 mas estamos em lista de espera , os bilhetes foram marcados tarde , todos os voos pelo arquipélago estão sobrelotados porque a SATA, coitada, não tinha maneira nenhuma de prever que o turismo ia aumentar tanto e que a procura ia explodir, é normal que tenham sido apanhados desprevenidos pela chegada da Easyjet e Ryanair , há quase 3 anos, e ao que parece ainda estão desprevenidos. Também dá ideia que foram apanhados desprevenidos pelas campanhas publicitárias do governo, chamam para cá pessoas aos milhares e depois não as conseguem transportar todas , boa sorte a quem quer voar inter ilhas neste Verão. Por isso existe a possibilidade de não termos lugar no voo dia 11, a regata é às duas da tarde do dia 12.

Não é grave, os botes chegam lá e vão estar na rampa com os outros no Sábado pelo que o subsídio está garantido, e como ouvi eu pessoalmente, não custa nada arranjar uma companha no Faial para competir  nos nossos botes. A minha motivação e  entusiasmo correm um certo  risco de ir tão depressa como vieram.

S.Pedro

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Ainda não sei se estou contente ou não por ser o oficial do S.Pedro, essa beleza que se vê na foto. Acho que já disse vezes que chegue que sou eu porque mais ninguém se chegou à frente, acho que toda a gente percebe que ninguém pode entrar num bote baleeiro pela primeira vez em em Junho e classificar-se numa regata em Agosto, mas não tenho a certeza.

Já expliquei o melhor que consigo que só porque já naveguei centenas de milhar de milhas e vi mares do todos os feitios isso não quer dizer que tenha a ciência infusa e que compreenda e domine uma máquina e tripulação destas assim num instante.

Já tentei fazer saber que por mais qualidades de comando que possa ter a coisa funcionou sempre  bem com 3 marinheiros que sabiam  uma fracção do que eu sabia em barcos em que consigo  fazer tudo sozinho e que se “alistam” por viagens de 2 ou 3 meses mas  é tudo muito diferente com 6 , alguns dos quais com muito mais experiência em botes e vela ligeira do que eu e com muito mais espírito competitivo. Se dar ordens ,ser o responsável e manter uma tripulação coesa e treinada  fosse o que mais gosto de fazer na vida não tinha deixado de ser skipper profissional.

Não tenho espírito competitivo, claro que ganhar é bom mas há coisas muito mais importantes (senão pensasse assim não era do Sporting) , no caso dos botes para mim mais importante do que vencer ou mesmo correr é simplesmente preservar os botes e  navegar neles sem ter que necessariamente andar mais depressa que os outros. A minha carreira foi feita de chegar lá em segurança, com tudo inteiro e num tempo normal, o meu trabalho era esse, não era tirar o nó de velocidade extra nem bater o tempo de ninguém.As vezes em que cheguei antes de outros em competição informal  deram-me muita satisfação mas os percursos mediam-se em semanas e centenas de milhas, não era em minutos à volta de bóias.

A motivação da participação nas regatas em outras ilhas é, para a maioria das companhas aqui, precisamente a viagem a outras ilhas e a festa , eu ficava satisfeito da vida se nunca navegasse mais longe do que ao largo das Lajes, talvez um dia ao Corvo.

Temos saído algumas vezes, finalmente conseguimos sair dois dias seguidos com a  mesma companha, a  que, em princípio, vai ser a que vai estar na Horta . Da minha parte noto um progresso enorme em relação à primeira vez que peguei no leme de um bote mas, como em tudo o que se leva a sério, quanto mais se aprende mais consciência se tem do que falta aprender.Isto não é uma questão de fé. Há moços que estão bem contentes assim como está, há outros que estão um bocado frustrados com o andamento e o meu desempenho como oficial, ou porque já viram melhor ou porque acham que fariam melhor, é natural, não me incomoda nada .

Mas vamos para o Faial para apanhar uma bebedeira ou para ganhar?! perguntava um moço que se juntou agora à tripulação, é o que sabe mais e fez muita  diferença porque finalmente a genoa ( gibra) é bem manobrada, viramos em metade to tempo com ele lá. Moço muito competitivo.

O mestre é que sabe…. disse outro. Eu disse que para mim o objectivo era dar o máximo,chegar ao fim,  não fazer figuras ridículas e, caso o Formosa vá competir com uma tripulação das Flores (pouco provável ) , chegar à frente deles. Participar, aprender e voltar de lá com uma tripulação motivada para começar a trabalhar com o ano que vem em vista e para se romper com esta sina malvada em que nada tem continuidade, é tudo aleatório , improvisado, desorganizado  e mal planeado. Voltar de lá com a confiança de que podemos melhorar e para o ano já vamos pelo menos dar que fazer aos craques do Pico e do Faial e representar a ilha em condições.

Para que se tenha uma medida da nossa organização, esta tarde vamos pela primeira vez, a 12 dias da prova, deitar umas bóias de regata na baía das Lajes para em vez de ir para aqui, virar, ir para ali e virar outra vez podermos finalmente dar umas voltas a um percurso com bóias como numa regata a sério. A 12 dias da prova, e não foi o Clube Naval que teve essa ideia de treino revolucionária nem faz mais do que dar-nos a chave do sítio onde estão essas bóias.

Faltam doze dias para a regata e temos exactamente mais 2 dias para treinar,  o tempo vai refrescar na quarta e na quinta e na sexta já embarcamos os botes no navio de passageiros a caminho do Faial, só lhes voltamos a tocar na rampa quando for para arriar para a regata . Adormeço a pensar nisto e acordo a pensar nisto.

 

Febre

Daqui a uns tempos vais ver que as febres aqui não dão com muita força e passam depressa.

Diziam-me isto a respeito da febre dos botes da baleia, eu sofro de um caso galopante e espero que haja mais contaminação mas mantenho sempre as expectativas baixas.Cada bote precisa de 7 tripulantes e numa ilha como esta, mesmo no verão, isto não é lá muito fácil de conseguir. As febres de Verão são reconhecidamente curtas e além disso há muitas outras  condições locais a conspirar contra o sucesso disto. O sucesso , para este ano, seria  levar os dois botes com companhas completas à Semana do Mar e acabar todas as regatas. Se depois disso houvesse condições para reorganizar o clube naval, melhor.Não faço apostas.

Entretanto já mudei outra vez de bote, tinha passado do  S.Pedro para o Formosa “por empréstimo” mas dada a desistência forçada do oficial do S.Pedro, voltei. Havia um oficial “nominal” e havia um moço que ia ao leme, sucede que ele não tem 18 anos, há idade mínima nas competições, e sendo assim, vou ser eu.

Por um lado fico contente, por outro nem por isso porque é uma grande responsabilidade e, sem falsas modéstias, não sei bem se vou estar à altura, há uma diferença abismal entre a vela que me é familiar e os botes da baleia, mas não me resta mais que não prometer nada e fazer o melhor que conseguir. Faltam 15 dias para as regatas no Faial, faltam sete dias  até os botes serem metidos no navio, é nesses sete dias que temos que arriar o bote tantas vezes quantas forem possíveis para nos prepararmos o melhor possível para uma competição onde vão estar mais de 25 botes, todos com tripulações com anos de experiência em competição e fora dela. Isto dava um argumento para um filme.

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