Misérias e raios de luz.

– Recorri à airhelp para ser compensado pelo cancelamento do voo de S.Miguel para a Terceira no fim de semana passado, enviei os documentos, preenchi tudo e disseram-me que tinha direito a 250€ de compensação, melhor que os 0€ que a SATA oferece. Informaram-me de que ia levar um mês a apresentar a minha queixa e em média demora 3 meses a ser efectuado um pagamento. No dia seguinte recebi outro email a avisar que o meu caso é inválido porque o voo foi cancelado por razões meteorológicas.

Além de incompetentes e negligentes são também estúpidos porque alegar que o voo cancelou por causa do tempo quando toda a gente viu e está registado o tempo que fez no arquipélago é de loucos. No ano passado a SATA deu 47 milhões de euros de prejuízo, a resposta a esse descalabro foi subsidiar os voos inter ilhas dos turistas, ceder a todas as chantagens dos sindicatos e abrir rotas para Copenhaga e Moscovo. E claro, no quadro de pessoal devem ter entrado mais uma dúzia ou duas de sobrinhos e afilhados para assessor e assistente e secretário e pelo meio encomendado umas campanhas publicitárias à agência do primo. No fecho do exercício, a SATA vai a ganir para o governo dizer que não tem dinheiro para pagamentos a fornecedores e pessoal, o governo regional vai a ganir para a República dizer o mesmo, a República vai a ganir para Bruxelas e no fim quem se lixa são os de sempre, que além de terem um serviço de merda pagam pelos erros e incompetência destes gestores de topo com ordenados, regalias  e reformas de ouro quer a empresa vá à falência quer tenha lucro. Viva o Estado, a SATA é nossa!

– Vi um vídeo assombroso, na cimeira da NATO o JC Juncker, o Presidente da Comissão Europeia sem ninguém ter votado nele, a apresentar-se em público com uma bebedeira monstruosa. Foi das coisas mais vergonhosas que já vi, o homem mal se tinha nas pernas, não foi a primeira vez que foi filmado em público em funções oficiais bêbado como um cacho, é daqueles segredos abertos em Bruxelas que depois do almoço ele já não diz coisa com coisa e que os copinhos de água que lhe servem nas conferências não são de água. Um idoso alcoólico e não eleito, é o nosso presidente, mas a vergonha maior não foi essa. Para mim a vergonha maior foi os serviços da UE virem dizer que era uma crise de ciática e pedirem respeito. Respeito. Mais uma vez tratam-nos como se fôssemos todos estúpidos e não soubéssemos distinguir entre uma crise de ciática e uma bebedeira monstra, e ainda têm a lata descomunal de pedir respeito por uma figurinha execrável como a do Juncker. Tratam-nos como estúpidos porque se calhar somos mesmo estúpidos. Ele continua presidente, a esta hora do dia já se deve ter emborrachado com vinhos e licores  dos melhores, pagos por nós, e está a rir-se destes tolos que somos.

-Já cheguei à conclusão que os apoiantes do Trump por cá são ou fascistas , racistas ou ambos, ou são fundamentalistas cristãos , ou são imbecis ou então simplesmente não percebem inglês e nunca vêm nem compreendem um discurso dele e apnahm excertos e traduções. Um cronista do Observador , Rui Ramos, de quem eu gosto bastante em condições normais, discutiu a última cimeira da NATO e  o que disse do Trump foi que “tem excentricidades”. Podem-se ver as declarações do próprio ao lado do Putin a dizer, com todas as palavras , que “os seus serviços de informações lhe garantiram que houve interferência russa nas eleições mas o Putin garante que não e ele não vê razão para não acreditar” . Pessoas pensantes não acharam isso excêntrico, acharam isso traição à pátria e uma declaração sem precedentes em que um presidente diz claramente que confia mais num ditador de uma nação inimiga do que nos seus prórpios serviços. Excentricidades, desisto.

-Ontem o Costa foi a Viana ao lançamento de um navio da Marinha lá construído. Há 5 anos , perante a ruinosa gestão dos Estaleiros como empresa pública o governo decidiu privatizar o que se podia e acabar com a chulice orquestrada pelos sindicatos e a incompetência dos gestores públicos. Foi a tropa fandanga para Viana, Mortáguas, Abrunhosa, até para lá arrastaram o Soares,  para dar um “Grito Nacional” em defesa dos Estaleiros,  diziam que “a construção naval não pode morrer” partindo do princípio que se for privada, morre. Estava tudo  a correr bem por isso era continuar a verter para lá dinheiro sem retorno. O presidente da Câmara de Viana , perante a privatização, depositou uma coroa de flores num enterro simbólico dos estaleiros. Esse mesmo indivíduo ontem brindou com o Costa ao sucesso da WestSea, a empresa privada que recuperou os estaleiros e os pôs a trabalhar e a render assim que saíram os cancros. Ninguém tem vergonha, nem memória , nem noção.

Longe, quanto mais longe disso tudo, melhor.

Esta manhã estive a mondar um plantação de ananases, parte dos jardins de que agora me ocupo, com grande satisfação. Mil vezes jardinar do que servir a mesas, felizmente a jardinagem é para continuar o ano todo, é ao lado de casa e os proprietários são ausentes, já me explicaram como querem o jardim, trabalho quando quero quantas horas quero desde que o jardim esteja ao gosto deles. Não vejo ninguém, ninguém anda de volta de mim, estou a criar e manter uma coisa bonita e como um jardim é uma coisa viva, tenho trabalho até querer, ou até deixar de o fazer bem.

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No restaurante ontem um casal jovem de franceses no fim de jantar, depois de me ter perguntado de onde vinha o meu francês, agradeceu-me por os ter servido tão bem , ser simpático e por ser , cito , radiante, rayonnant  . Já me chamaram muita coisa mas isso foi a primeira vez. Alegraram-me uma noite longa e trabalhosa, não lhes disse que detesto aquilo e que se os donos não fossem meus amigos há tantos anos e só os conhecesse dali já me tinha ido embora. Não lhes disse que estou ali todos os dias em esforço e fiquei muito contente por ver que esse esforço não transpira. Ao contrário da jardinagem e das outras coisas que faço como a cerveja artesanal e o cuidado das minhas ovelhas, aquilo não me dá gosto nenhum …. além do gosto de  um trabalho bem feito. Há muitos anos li um conselho que repasso : se fores médico, trabalha para seres o melhor médico do hospital. Se fores varredor de rua, deves trabalhar para ser o melhor varredor de ruas da cidade. Se queres dormir bem à noite e viver em paz contigo mesmo, dá o teu melhor em tudo o que faças. O meu melhor muitas vezes não chega, mas durmo bem à noite e ando na rua de cabeça bem levantada.

Recebi um email de S.Francisco, de uma moça que não vejo há 10 anos e que hoje é  outra pessoa, tal como eu. Eu não me esqueci, e ela pelos vistos também não, eu preferia que não fosse assim. As distâncias são enormes, demasiadas e  de toda a espécie, não há nada a esperar  e no entanto espera-se. Como uma rocha.

 

Ano Novo

Passei uma semana no continente, é curto demais para uma visita em condições e mal tenho tempo de ver toda a família e amigos mas dá sempre para estar com a família nuclear e aquela meia dúzia de amigos crucial.

Ser largado no aeroporto de Lisboa nas vésperas do natal depois de um ano inteiro numa ilha pequenina é sempre um choque, a confusão, o barulho e a poluição começam logo à saída. Uma pessoa que chegue de uma grande cidade nem repara nessas coisas mas vindo de onde venho chego ali, olho em volta, respiro fundo e abano a cabeça. Como é possível?

Lisboa já esteve muito mais suja, falando  de lixo na rua, mas quer-me parecer que também já a vi mais limpa, não sei se a CML gasta o dinheiro todo em assessores e adjuntos a €4k por cabeça e depois fica sem verba para varredores e camiões do lixo, será uma questão de prioridades, pode haver uns montes de lixo aqui e ali mas podemos estar seguros de que o trabalho político é da melhor qualidade.

Todos os anos gosto de levar os meus 5 sobrinhos pequenos a alguma experiência diferente do que eles fazem todos os dias, é melhor do que oferecer um brinquedo e o ano passado tinha ficado combinado que este ano  íamos a um jogo de futebol. Eles nunca se esquecem e vieram logo saber do jogo, disse-lhes que não dava, não havia nenhum jogo do Sporting que pudéssemos ir ver nessa semana, à hora do jogo em Belém já eu tinha que estar no aeroporto para regressar. A minha sobrinha, que tem 4 anos e 4 irmãos, protestou que “não era justo porque o futebol é para meninos”. Ainda não reflectiu o suficiente sobre a questão do heteropatriarcado e da igualdade de género e eu fiquei sem saber qual a abordagem certa, se dizer-lhe que o futebol também é para meninas ou que íamos fazer outra coisa mais consensual e neutra. Devia enviar um email às Capazes a pedir indicações sobre qual a atitude correcta se a menina se recusa a participar numa actividade porque acha que é para meninos.

Lembrei-me de levá-los a dar uma voltinha de barco no Tejo, ficaram histéricos, pedi recomendações num grupo náutico no FB sobre barcos de aluguer no Tejo. Dantes havia 2 ou 3 barcos de charter, hoje há dezenas. Fiz uns telefonemas e percebi que os preços podiam não ser caros mas estavam bem fora do meu alcance. Uma das minhas expressões favoritas da vida é “quem tem amigos tem tudo” porque se prova verdadeira constantemente, e um amigo disse-me que não podia ir, estava a trabalhar mas que era só eu ir à doca e pegar no barco dele. Agradeci a confiança e a simpatia mas estes 5 são  um bocado índios e manter olho neles é incompatível com manobrar um barco. Outro amigo ofereceu-se para sair connosco no seu veleiro, lá fomos à doca de Alcântara e demos um belíssimo passeio até à Trafaria. O amigo é comunista e benfiquista, os meus sobrinhos ainda não sabem o que é um comunista mas aproveitei a ocasião para lhes explicar que há pessoas boas e amigas mesmo sendo do Benfica. Nisto a minha sobrinha comunica-me que se calhar é do Porto mas perante a minha expressão de tristeza disse-me que ainda estava a pensar. É que gosta muito de azul, critério tão válido como qualquer outro. Se acabar por não ser do Sporting mesmo com toda a lavagem cerebral e influência desavergonhada do tio, antes que seja do Porto.

De Lisboa para Alcobaça e no dia seguinte para as Caldas, cumprir uma tradição de mais de 18 anos, um jantar com os amigos da faculdade. Além da galhofa, da celebração da amizade e de contarmos uns aos outros como vai a vida é bom porque discute-se sempre muita política, coisa que aqui eu não faço por falta de interlocutores. Com aqueles amigos não só tenho a confiança de muitos anos como a vantagem de pontos de vista antagónicos, o que dá sempre pano para mangas. Um dos temas foi este  recente atingir de um novo mínimo na política nacional com a manobra dos partidos para tratarem da própria vidinha, juntando-se discretamente e aprovando sem actas uma nova lei que os isentava de IVA e eliminava o tecto de angariação de fundos. Dois problemas num : o conteúdo da proposta e o modo como foi cozinhada, difícil descobrir qual o mais grave.

A minha amiga simpatizante do Bloco acha que os partidos, como são fundamentais à democracia, se devem financiar assim e ter isenções destas. O comentário do Bloco ( que já vi noutras 3 ocasiões) de que são contra mas votam a favor, não lhe parece repugnante. O PCP também foi contra mas votou a favor e os contornos deste caso são uma nojeira pura, especialmente as declarações de uma deputada do PS (soube depois que é a sua vida desde os 22, tem 44 e nunca fez outra coisa) que disse que a isenção do IVA não prejudicava os cofres do estado, afirmação estúpida e obviamente falsa, mas é o que se pode arranjar.Espera-se agora que o presidente vete esta vergonha.

Quanto à questão da vida estar melhor graças à geringonça, é um facto para todos os funcionários públicos e pessoas que não sabem fazer contas. Ninguém se chateia com as cativações, com a degradação dos serviços, com os aumentos de impostos e  com o nepotismo porque há a percepção que a vida está melhor, e é esse para mim o grande triunfo da geringonça : convencer as pessoas de que isto está melhor por causa deles. O crédito ao consumo  também está a disparar e para muita gente isso é positivo, a mim mete-me medo mas talvez eu esteja enganado e seja bom para a economia.A manobra de transferir 200 milhões a Santa Casa para salvar um banco a falir seria, em 2013, suficiente para pedir a cabeça do primeiro ministro é confirmar que  governo não se importava com as pessoas e queria saber era dos bancos e empresas.Hoje não há problema nenhum , e é a essas e outras semelhantes que se deve o sucesso da geringonça: alteração de percepções sobre factos idênticos.

Houve acordo comum à mesa na excoriação do Trump, flagelo da humanidade e negação da decência na política e os amigos benfiquistas declinaram discutir bola, sabe-se lá porquê têm perdido o interesse.

Outro tema engraçado foram os pernis da Venezuela (tenho amigos de esquerda mas nenhum  defende o Maduro, são de esquerda mas não são estúpidos). Então a Venezuela não pagou a conta, não seguiram os tradicionais pernis de porco para o Natal e o mundo foi brindado com o Maduro a dizer que tinha assinado pessoalmente os cheques para pagar os pernis mas que Portugal os tinha sabotado. Tudo isto é maravilhoso, desde a ideia de ser o presidente a assinar pagamentos de importações até à noção de Portugal sabotar alguma coisa na Venezuela, é muito ridículo junto  mesmo vindo de quem já nos habituou a isso. O que é certo é que houve mais sofrimento para os venezuelanos e que a empresa nacional exportadora (por coincidência propriedade de um ex ministro, mas claro que é só coincidência) vai receber o dinheiro em falta, nem que seja do contribuinte português. É normal e tradicional que déspotas em todas as partes do mundo culpem interferências externas pela própria incompetência e a Venezuela está a testar essa ideia até ao limite.

Queria ir a um encontro da Iniciativa Liberal que decorreu no Saldanha mas nessa altura já estava doente e não conseguia sair, tive pena.Faço conta de lhes confiar o meu voto e queria aproveitar a oportunidade para fazer algumas perguntas e ouvir as pessoas que me poderão representar. Creio que se está a atingir um estado de saturação, que as pessoas se sentem roubadas e enganadas todos os dias pelos partidos com assento parlamentar e que muitos anseiam por uma mudança para lá da velha dicotomia esquerda/direita . Lembro que um ano antes do Macron ser eleito presidente da França o seu movimento era quase desconhecido, o que dá alguma esperança numa escolha que possa ir além dos partidos que há 40 anos dizem o mesmo e se dedicam a colonizar o estado e usá-lo ou a promover ideias do século XIX.  Fiquemos atentos.

Embarquei na sexta feira com febre e sei lá que mais, passei a noite em casa de amigos em Ponta Delgada e na manhã seguinte para a Horta, onde esperava, pelas previsões meteorológicas que via, ficar cancelado um dia ou dois. Depois da hora de atraso da praxe levantámos mesmo, fiquei um tudo nada apreensivo mas sei bem que não só o pessoal da Sata tem melhores fontes de meteorologia do que eu como confio a 100% nas decisões dos pilotos. Mesmo assim aterrámos nas Flores com alguns gritos, orações e muitos aplausos, abanou demais para o meu gosto e pousou numa roda, mas pousou. De volta à minha existência privilegiada em que deixo o carro, aberto, a 40 metros das chegadas e de regresso às Lajes, onde encontrei um cordeirinho acabado de nascer, o cão um bocado deprimido e o gato ausente em parte incerta. A do cordeiro é interessante porque na sexta feira sonhei  que tinham nascido cordeiros, e nessa tarde recebo uma mensagem do amigo que me tomou conta dos bichos a dizer que tinha nascido um. É daquelas coisas que dá que  pensar a gajos cépticos com dificuldades a acreditar no sobrenatural, como eu.

Continuo de cama mas em recuperação franca, a congratular-me por ter trazido caixas de comida sobrada das ceias que me vai manter uns dias evitando-me o suplício de cozinhar. O gato já voltou, o cão esta mais bem disposto e espero passar o ano na cama, provavelmente a dormir. A noite da passagem de ano só teve significado especial para mim quando era novo e era uma noite que se podia passar fora. A partir da altura em que podemos passar fora todas as noites que quisermos perde muito o encanto.

Não há balanços nem listas, coisas que nesta altura saturam tudo, há só a observação de que há um ano comecei a fazer yoga e o que e certo é que ainda lá ando e espero continuar, pela primeira vez uma das famosas “resoluções” foi levada a termo e é para continuar. De resto os meus desejos para 2018 são ver o Sporting  campeão, fazer melhor do que 16º nas regatas de botes baleeiros na Semana do Mar  e finalmente poder iniciar a produção legal de Ovelha Negra  .

 

Em trânsito

Já não saía do arquipélago há um ano e sinceramente a vontade de sair não era grande, mas há que fazer um esforço porque um dia vão-me faltar os meus pais e vou ficar  a pensar “quem me dera poder ir vistá-los agora…” . O esforço é mais por causa da bicharada, para as ovelhas e galinhas é igual mas o cão e o gato ficam desorientados e tristes, não estou a inventar que o cão fica triste, os vizinhos ouvem-no a uivar à noite, e são vizinhos não muito próximos. Já o gato tem reacções mais discretas mas também tem os seus hábitos e não há-de ficar satisfeito.

Das Flores a Lisboa implica sempre reservar um dia inteiro para viajar, saio de manhã das Lajes e chego a Lisboa noite cerrada depois de escalas na Horta e Ponta Delgada. A (única) cafetaria do aeroporto das Flores além de ser estritamente vegetariana agora apresenta em todas as mesas um exemplar de um jornal chamado MAPA. Nunca tinha ouvido falar, é um jornal auto designado de informação crítica, cheio de artigos sobre a opressão capitalista. Aliás, vendo bem todos os artigos são sobre a opressão capitalista, desde a luta contra a opressão que impede os okupas de se instalarem em propriedades que não lhes pertencem até às empresas que têm a veleidade de querer explorar minérios no fundo do mar passando por esse problema mundial grave que é a existência de fronteiras.

Diz lá no jornal que o bar do aeroporto é o único ponto de venda nos Açores, mas dado que há um exemplar em cada mesa quer-me parecer que é mais ponto de distribuição gratuito, mostra o activismo dos concessionários do bar. São um casal, ela é venezuelana, gostava de lhe perguntar que tal acha que vai a revolução popular no seu país e porque é que não está lá, já que lá luta-se a sério contra o capitalismo e constrói-se uma alternativa de futuro. É um governo que não consegue que haja papel higiénico nas lojas mas que  vai lançar uma moeda electrónica. O rapaz é americano , e a ele gostava de lhe  perguntar o que acha da contribuição do capitalismo do seu país que lhe permitiu juntar o guito necessário para se instalar nas Flores e explorar um bar. É sempre a velha história, o capitalismo é horrível excepto na parte que nos beneficia a todos, esqueçamos essa, foquemo-nos no que é mau e louvemos a utopia.

Um dia quando tiver dinheiro hei-de ir de avião ao Corvo, é o voo mais curto do país e creio que um dos mais curtos do mundo, o avião nem chega a ganhar altitude ou estabilizar, mal levanta começa logo a baixar.Dado que a passagem de barco custa 25€ e o voo uns €70 é uma excentricidade, mas um dia faço isso. Para o voo desta manhã havia um passageiro, que curiosamente não pode embarcar porque havia um problema com um artigo na bagagem. Quase toda a gente lá conhecia o rapaz, trabalha nas obras de expansão do porto mas esqueceu-se lá de um material qualquer proibido, veio a PSP e tudo e o moço ficou atrás.Regras são regras, é incrível.

Depois da hora de atraso habitual lá levantámos, 45 minutos de voo, escala de 25m na Horta e depois direitos a Ponta Delgada, cujo aeroporto está movimentadíssimo, comparado com aqui há 5 ou 6 anos. Fui beber um café com um amigo que trabalha na ANA e a notícia que andava na boca de toda a gente era que o concelho de administração da SATA se demitiu em bloco esta manhã. Há problemas sérios, os sindicatos estão a ajudar a resolvê-los convocando greves para o Natal e a SATA tem um buraco financeiro que mais parece uma cratera. Agravou-se quando o Banif rebentou e passou ao Santander. Uma das razões pelas quais o Banif estoirou foi que era mealheiro da administração pública, quem tivesse os contactos certos e ligasse do departamento certo tinha sempre crédito, sobretudo o governo, que nesta região se confunde com o PS. Certamente que esse uso liberal dos fundos  não teve nada a ver com a falência do Banif mas o que é certo é que os gestores do Santander não acharam muita graça ao processo e fecharam a torneira. Ora a SATA opera em permanente prejuízo, apesar de pagar e dar regalias como poucas empresas privadas e estas coisas podem aguentar-se uns anos bons mas forçosamente chegam a um limite.

Parece que foi agora, o CFO da empresa demitiu-se, provavelmente ao ver que não havia dinheiro para as despesas deste mês, e os outros decidiram ir também. Ainda não vejo nada nos jornais mas estas notícias  não me chegam de um nível nada baixo na ANA pelo que acredito nelas.Também acredito quando me dizem que já se fala na opção Francisco César , acredito e acho graça, para quem não sabe o Francisco César é filho do Carlos César e a piada faz-se sozinha.

Se esta administração não for convencida a recuar na decisão espero que a próxima tenha mais cuidado e rigor com o dinheiro público e que ponha isto na ordem, porque se esta região rebenta pelas costuras de organismos estatais de utilidade e eficiência dúbia a SATA não é um deles, se há empresa crucial nos Açores é  ela.

Isso tem sido mau na medida em que gestores e sindicalistas sabem que o accionista mor nunca  a pode deixar cair, podem fazer quase como quiserem que o contribuinte assina sempre o cheque. É o que se vai passar desta vez, e descansem que mesmo se as notícias desta convulsão não chegarem à imprensa isso não significa que não vai haver mais um camião de dinheiro para a SATA.  Pela minha parte esses fundos deviam vir com uma obrigação: acabavam de uma vez por todas com as rotas tipo escandinávia e Cabo Verde e limitavam-se a fazer o serviço público : ligar as ilhas entre elas, com o Continente e com as Comunidades Açorianas mais importantes. Para o resto não temos falta de escolha no sector privado.

Já vi mais pessoas esta tarde do que nos últimos 3  meses e ainda nem cheguei a Lisboa, estou a ficar cada vez pior. Deixo este videozinho de dois minutos e meio, mostra animais a ajudar outros animais, é fabuloso e faz-me sempre pensar na necessidade de um poder e lei superior para se ser bom e mostra-me  bem porque é que prefiro passar mais tempo com bichos do que com gente.

Boas Festas , um Santo e Feliz Natal e  juntava mais votos se soubesse o que é que irrita mais a rapaziada do politicamente correcto e da modernidade linguística nesta altura.Um santo Natal é das melhores para o efeito, vou andar a desejar isso a toda gente este ano.

O Aeroporto e o Interesse Público

Aqui há dez anos os especialistas concluíram que o aeroporto da Portela estava “esgotado” e que era imprescindível construir um novo. Ia entrar em colapso mais ou menos por esta altura, eu lamento não ser forte a apresentar links para estas declarações mas se alguém duvidar de que essas coisas se disseram e defenderam posso fazer um esforço e encontrar os registos.

Como dizem alguns mais cáusticos e insensíveis , esse governo socialista acabou como eles costumam acabar , que é quando gastam o dinheiro todo que há e não há e não têm outro remédio senão irem-se embora. O plano do aeroporto novo , tal como o TGV , foi encostado , não sem antes consumir  centenas de milhar em estudos e contra estudos e provocar muita especulação imobiliária.

Frequentei muito o aeroporto de Lisboa nestes dez anos , a última vez ainda no Natal e ano novo, tradicionalmente picos de tráfico, e por estranho que pareça o aeroporto funciona normalmente e quem quiser voar para Lisboa de qualquer ponto do globo pode fazê-lo amanhã, o que leva a crer que há espaço e condições.

É estranho  reparar que nestes dez anos desde que se anunciou o colapso iminente do aeroporto o turismo explodiu para níveis nunca vistos e as exportações cresceram , mesmo com um aeroporto que , a acreditar no que nos diziam os senhores doutores e engenheiros , estava no limite.  Como turismo e exportações são coisas que precisam nalguma medida de aviões a ir e vir com regularidade e eficiência , só podemos concluir que foi milagre da senhora de Fátima. Dir-me-ão “funciona bem  porque se fizeram obras” , sim , e muito bem , mas o aeroporto precisar de obras é sinal de que é preciso um novo?

Temos um Tempo Novo, puseram outra vez  Keynes no pedestal e os estatistas estão no poder , altura de inventar outra vez grandes obras públicas , daquelas que se fazem sem necessariamente haver procura e justificação além dos egos e manias dos políticos e que são uma mina para os amigos dos mesmos com ligações à indústria .O  famigerado lobby do betão  era bem  real no tempo do Cavaco e  há  quem se engane a achar   que desapareceu ou foi domesticado só porque o governo é de esquerda . O custo destes projectos é sempre fluido, podem fazer as projecções e estimativas que quiserem que aposto a minha casa em como não as cumprem, nem chegam lá perto. As famosas “derrapagens” são coisas que para os políticos são normais, para os industriais politicamente ligados são um modo de vida e para os contribuintes são só mais um modo de serem extorquidos e enganados pelo Estado.

Os governantes decidiram mesmo que vai haver novo aeroporto, e estão tão entusiasmados que já lhe juntam uma linha de metro ligeiro  , como não podia deixar de ser . Segundo esse artigo , o governo diz que o aeroporto vai ser terminado em 2021 e financiado com taxas aeroportuárias. As receitas da taxas aeroportuárias em 2015 , segundo a ANA , foram de  367 milhões de euros . Ou eu  não estou a ver bem ou o novo aeroporto vai ser feito de esferovite  , porque mesmo que as receitas das taxas  dupliquem (e que ANA as entregue sem mais ao Estado, coisa que acho um pouco estranha) não me parece que chegue  para pagar um aeroporto novo ,  mas eles é que sabem, talvez tenham ido    buscar os estudos e projecções  que usaram para planear e construir o Aeroporto de Beja.

O que salva isto , ou pode amenizar , é que o governo fala muito mas não se pode meter  nesses números sem o aval de Bruxelas , onde espero que vá havendo gente que saiba fazer contas sem usar sistemas algébricos alternativos . Se Bruxelas quiser pagar , quem sou eu para desdenhar um , mais um , presente .

Há um ponto muito bem levantado neste artigo  :  é preciso questionar o critério destas decisões do Estado .  Simplificando, só há duas opções básicas  para a localização de um novo aeroporto para servir Lisboa: A  Norte ou a Sul do Tejo. Há dez anos o ministro da pasta afirmou categoricamente que na margem Sul, jamais , com a pronúncia que lhe quiserem dar . Dez anos depois o ministro da mesma pasta e do mesmo partido escolhe a margem Sul. O que é que mudou em 10 anos para que uma localização que não fazia sentido nenhum faça hoje todo o sentido?  “Quais são os critérios de decisão dos decisores públicos? Decisões que têm impacto na vida de todos nós e que são pagas com o nosso dinheiro. Onde está, neste caso, o tão propalado «interesse público» e como pode ele ser defendido, num tão breve período temporal, com duas soluções antagónicas?” É uma boa pergunta , não é?

Para terminar , o gajo das selfies , sem ninguém lhe perguntar nada nem ninguém sequer ter falado num eventual nome para uma eventual obra , veio muito a propósito dizer que o aeroporto se deve chamar Mario Soares. Não querendo desdenhar a contribuição do dr Soares para a aviação  nacional , nomeadamente pelo uso intensivo dos aviões da TAP e FAP para percorrer o mundo , e não querendo de modo nenhum sugerir que o dr. Soares já foi homenageado que chegue ( o que é manifestamente impossível)  , defendo que só há um nome digno e adequado para  um novo aeroporto em Portugal :  Gago Coutinho , pioneiro da navegação e aviação mundial e verdadeiro herói nacional . O problema disto é que o Gago Coutinho não foi , que se saiba , “resistente anti fascista” , logo está desqualificado para seja o que for . Nesse artigo da wikipédia pode ver-se que há mais   mo numentos e homenagens a Gago Coutinho no Brasil do que em Portugal , isso diz bastante de como tratamos a nossa História.

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A Quadra

Fui passar uma semana ao continente  com a família e amigos , faço-o enquanto puder e não por querer sair da ilha mas para não deixar a distância fazer esmorecer os laços. As festas em si dizem-me pouco . O solstício de Inverno escolhido pelos cristãos para celebrar o nascimento de Jesus merecia ser celebrado só por si , e o que hoje em dia é o Natal parece-me um bocado absurdo.

Passar um Natal sem falar de religião é difícil mas consegue-se , eu evito seja que discussão for para manter a paz e a relação que tenho com os meus irmãos, se  quisesse irritar o meu irmão dizia-lhe  que o laço entre  nós  deve ser mais forte que qualquer construção mitológica e política  e que irmãos não devem guerrear por causa de abstracções e conceitos improváveis , mas nada disso , simplesmente evitamos o tema e se por acaso algum dos miúdos  , com a curiosidade e perspicácia da idade , pergunta “porque é que o tio  não faz isto ou aquilo?” eu digo que pessoas diferentes fazem coisas diferentes e nem toda a gente faz a mesma coisa . Acho que não basta como explicação , especialmente para crianças entre os 3 e os 8 , mas não me compete a mim explicar-lhes  porque é que por exemplo não rezo nem vou a missas . Gostava , mas não posso.

Apesar de não ter o chamado espírito natalício   acho que as crianças devem receber presentes no Natal .Para não oferecer aos meus sobrinhos um brinquedo que dá uma hora ou duas de brincadeira e depois era encostado preferi levar  os 5 mais pequenos ao zoo. Pode ser o cinema , uma tarde num parque , para o ano será um jogo de futebol , este ano escolhi o zoo por estar convencido de que é bom para todos os miúdos ver e conhecer os animais. Eles divertiram-se muito e adoraram a bicharada , eu só não saí de lá deprimido por causa da felicidade deles e do pouquíssimo tempo que temos juntos.

Se por um lado valorizo o trabalho dos zoológicos por outro parte-me o coração ver por exemplo 5 chitas em 200m2 e  pássaros que só voam até à rede. Sei que as condições melhoraram muito , que os bichos não passam fome e estão bem tratados e que se não fosse pelos zoos muitos já tinham desaparecido da face da terra mas acho que vale mais uma hora a ver um documentário da BBC ou NG sobre a vida selvagem do que ver um rinoceronte ancião a dar quatro passos de cada vez entre umas poça de lama ridícula e muros de betão ou um hipopótamo a apanhar água de uma mangueira. É deprimente , nunca mais vou a nenhum , prefiro nunca mais ver um leão ao vivo do que ver um leão naquelas condições.

A tradição de jogar ao Risco com os amigos pelo  Natal  manteve-se mas muito a custo e está cada vez mais ameaçada . Se há cinco e dez anos éramos sempre seis ou sete este ano  fomos  três, parece que somos os últimos solteiros , os últimos que podem fazer o que lhes apetece. É tudo muito espectacular , todas as criancinhas são geniais e , por alguma razão por explicar , são todas acima da média e valem tudo mas não deixei de notar duas ou três vezes um olhar desconsolado quando perguntava:

-Então o Risco, não vens?

-Eh pá quem me dera…. Não dá…

Fui ver um amigo brasileiro que se instalou por uma temporada na Praia do Norte, é surfista e está lá mas vai surfar a Peniche , na Nazaré é só para ver… Gosto de ver a revolução e animação que o surf está a trazer a Portugal , espero que continue e aumente e tenho pena que na ilha  não haja ondas regulares . Não faço nem nunca farei  surf mas adoro ver e os surfistas , como visitantes e turistas , são do melhor que se pode ter . Nunca deixo de ir à Nazaré sem sorrir ao lembrar-me de que passei metade da juventude a caminhar para lá constantemente e não me lembro de ver mais do que um ou outro bodyboarder na Praia do Norte , agora é a explosão de praticantes e espectadores , com direito a monumento e tudo.

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Ainda não falei com ninguém que goste do surfista veado mas certamente haverá alguém , uma coisa que aprendi ao longo dos anos é que  obra de arte é um conceito elástico e o que é uma merda sem jeito nenhum para uns  é uma peça magnífica para outros. Percebo bem a motivação de fazer um monumento ao surfista intrépido mas a cabeça de veado, ao que consta numa evocação do animal que , reza a lenda, o D.Fuas Roupinho perseguia por ali, parece-me estúpida, mas pronto. Se calhar evoca a super-humanidade dos gajos  que se metem naquelas ondas, não sei.

Sempre no eixo Alcobaça- Lisboa onde divido o tempo no continente, jantei nas Caldas com os amigos da faculdade, é  dos meus dias favoritos do ano. Dois dos meus melhores amigos são de esquerda  a sério , e diga-se o que se quiser dos debates na imprensa e net, não há nada como a conversa e troca directa de pontos de vista . Falou-se de muita coisa , discutiram-se as razões pelas quais o país “está melhor”. Destaco dois pontos de contenção que , naturalmente , não ficaram nem nunca ficarão resolvidos : a teoria esquerdista que condena o assistencialismo  e a atribuição de responsabilidades em geral.

Para os meus amigos à esquerda o Banco Alimentar é anátema , o topo da odiada caridadaezinha . Acham que só serve para apaziguar consciências , dar lucro aos hipermercados e emprego  a tias como a sra. Jonet , que entre outros defeitos intoleráveis diz coisas óbvias como “os pobres não podem comer   bifes” coisa que chocou meio mundo . Acham  que  dar comida aos pobres só serve para perpetuar a pobreza e que o que faz falta não é auxiliar , é capacitar. Eu discordo, acho que a caridade é um dever não só para pessoas religiosas , que não me interessa assim muito onde se compra a comida desde que chegue a quem tem fome ,   que “capacitar” é mais um conceito vago que ninguém consegue concretizar  e que sonhar com um  mundo sem pobres é como sonhar com um mundo sem guerra . Enquanto se protesta porque não acaba deixa-se de aliviar , porque é preciso erradicar e não aliviar. É como não querer tratar  sintomas de doença porque não pode curar a causa. Irrita-me que haja quem ache que o  RSI é bom mas o banco alimentar é mau : Assistencialismo do Estado , bom , assistencialismo privado, mau.

A outra questão é a da responsabilidade , a melhoria da situação do país deve-se ao PS e seus suportes. Que esta melhoria aparente seja alicerçada em aumento da despesa pública e  e das benesses aos clientes  não parece incomodar os meus amigos. Coisas que há 4 anos aconteciam, como as mortes nas urgências , continuam a acontecer como é  normal mas há 4 anos enchiam as capas dos jornais  numa cacofonia de morte e calamidade e desgraça , hoje são notas de rodapé.  A palhaçada que vimos na discussão dos resultados de PISA é outro exemplo, foi tal o afã em minimizar as reformas do Nuno Crato que se mentiu e inventou descaradamente , tudo para evitar dizer “afinal nem tudo foi horrível e melhoraram muitas coisas”.  Os impostos e os preços aumentam mas como a austeridade saiu do léxico isso já não é grave. Os portugueses gastaram uns 5  biliões de euros no Natal , coisa que me parece estranha tendo em conta que , segundo a esquerda, o país estava na miséria , tinham destruído tudo ainda aqui há ano e meio. Se a situação estivesse tão má como a pintaram era impossível estar tão boa como a pintam agora  , e as melhorias na economia devem-se a coisas que nada têm a ver com este governo , como a explosão do turismo. Entretanto a dívida continua a aumentar, os custos das empresas de transportes públicos subiram 30% no ano passado mas não há falta de quem pense que isso não é relevante.   Como toda a gente devia saber , a factura desta “melhoria” vai chegar mais cedo ou mais tarde. Para os problemas , existentes ou por descobrir , pode-se sempre culpar o BCE e a conjuntura externa , factores que não interessavam no anterior governo , que era só neo liberais a querer vender e destruir o país. Agora a conjuntura externa já deve ser  tida muito em conta. Exemplos da dualidade de critérios na análise aos governos são às carradas, basta ter alguma memória e ir lendo os jornais. A vergonha , como sempre, anda ausente em parte incerta , ausente inclusivamente do Passos Coelho , que já devia ter percebido há meses que acabou, os portugueses muito dificilmente lhe  voltarão a confiar o poder e só está nesta altura a atrapalhar, mas lá está , os políticos têm a sua própria visão, nem sempre directamente  ligada à realidade.

Também não gosto que me respondam a críticas que faço ao Presidente da República lembrando o anterior. Eu não quero saber do anterior para nada , os seus defeitos  não atenuam em nada os deste e isso não é forma  de discutir política : este é um bocado parvo mas olha que o anterior era uma múmia.  Ah , sendo assim , há que lhe tolerar as palhaçadas e a hiperactividade, ok.

Bom , abaixo a Política , eu quero é que o Costa aguente a geringonça  e que quando rebentar outra vez  que  não seja assim tão humilhante e profundo como conseguiu o Sócrates. Tal como nas eleições antes das últimas , a minha expectativa  e desejo principal é que a legislatura se cumpra inteira , e estou bastante mais optimista quanto à paz social porque enquanto a esquerda for governo a Imprensa está pacificada , e por extensão a opinião pública , e há  menos contestação e protestos, não porque não haja razões mas porque as percepções mudaram.

Passeei muito pela Baixa e pela zona do rio, Lisboa está linda , ferve de turistas e movimento e por todo o lado se vêm pessoas a adaptar ideias importadas, que é uma  maneira muito  portuguesa de inovar. Se não se importa a ideia importa-se o nome , dos  hábitos mais parolos que temos. Agora por exemplo S.Martinho do Porto já não fica na Costa De Prata , é na Silver Coast . Acho graça aos que ralham contra o turismo , mas graça como se acha a um bebé que borra a cara toda com tinta , é uma estupidez que tem piada  . Da minha parte , venham , e não é hipocrisia por viver numa ilha isolada , mesmo na minha ilha começa a ver-se o aumento do turismo ( o governo PS , que durante décadas impediu a liberalização do espaço aéreo recolhe agora alegremente os louros do desenvolvimento trazido pela mesma , é lindo de se ver) e espero que continue , paz e sossego são das coisas que prezo mais na vida mas não quero viver numa ilha miserável , envelhecida  e vazia. As pessoas devem lembrar-se de que mesmo que não tenham rendimentos directos do turismo esta expansão beneficia o país todo como poucas actividades económicas conseguem fazer. Podemos melhorar e beneficiar ainda muito mais , sobretudo não estragando o tanto que temos de bom , e sobre isso  deixo aqui uma observação e um reparo  : das coisas que mais impressionam e agradam a uma parte grande dos que nos visitam é a facilidade  com que se pode comprar e consumir álcool em Portugal, e o seu preço.  Não sei se toda a gente percebe isso,  obviamente nem toda agente liga  a isso e certamente muita gente desaprova minis a um euro que se podem beber numa esquina ou garrafas de vinho  de   €5 num banco de jardim mas sei que  a vantagem pode bem ser estragada num instante com coisas que governos deste género adoram fazer : mais taxas e regulamentos. Espero que não mexam nisso como já conseguiram fazer com o negócio do alojamento turístico.

Não fui ver o Sporting anteontem para ir jantar com uma moça que conheci do outro lado do mundo e que veio passar cá o ano , foi um erro  porque jogos do Sporting ao vivo só posso ver um ou dois por ano mas mulheres para me criarem esperanças que depois destroem em três tempos aparecem sempre   , eu já devia saber mas alguma coisa me diz para não desistir de vez , o que é que eu hei-de fazer…  Das coisas mais odiosas que conheço é o que os franceses chamam “coquetterie” , uma atitude   que consiste em prometer o que não se tem intenção de dar. Encara-se isto com boa disposição, até se louva, como os chamados flirts, eu acho que  não passa de enganar os outros para própria satisfação, é bastante mau .

No dia 1 às 7 da manhã estava no aeroporto para apanhar o voo para os Açores, não houve festa nenhuma , como já  há muitos anos . Apontamento pirrónico de viagem , daquelas coisas que me fazem esperar só voltar a voar daqui a muitos meses : a quantidade de pessoas que vai avançando na fila para a inspecção de segurança , lentamente , e que apesar de à sua frente se estar a desenrolar o processo todo ; apesar de haver cartazes a avisar o que tem que se fazer e de estar lá um agente a dar as mesmas indicações constantemente, apesar de verem todas as pessoas a fazer as mesmas coisas devagarinho à sua frente, chegam à sua vez  tal e qual ocuparam o seu lugar no início da fila : Mochilas às costas , cintos, computadores , líquidos , talão de embarque, casacos, coisas nos bolsos. É inacreditável, essas pessoas fazem-nos perder minutos de vida ali por não serem capazes de perceber o que está a acontecer e o que vão ter que fazer a seguir e ligar as coisas, nunca deixa de me surpreender esta estupidez.

Ainda não me estreei a voar para os Açores com as low cost porque até ver a diferença de preço ainda não chega para me compensar vantagens que tenho na  Sata , espero que a companhia aproveite e potencie o boom do turismo mas a conta continua a crescer . Aqui há uns anos , ainda no tempo do último Grande Primeiro Ministro Socialista que tivemos , quando a vida era mais doce e o céu era o limite , a Sata lembrou-se de criar uma rota para Salvador da Baía. Como é que isto se enquadra  numa companhia cuja missão é ligar os Açores ao Continente e às Comunidades Açorianas não ficou bem claro , mas fez-se apesar dos velhos do Restelo. Correu como previsível mas  não foi muito grave , creio que os prejuízos não passaram das centenas de milhar. Como  a austeridade  trazida  pelos neoliberais acabou  é  Tempo Novo , outra vez tempo de fazer investimentos duvidosos  com recursos públicos e para contentar amigos e interesses particulares , por isso a Sata em 2017 vai voar para Cabo Verde. Só conheço a aviação comercial do ponto de vista do passageiro e do curioso mas parece-me uma aposta escusada que vai sai cara , mesmo se o objectivo for  dar mais uso ao A320, que no meu voo de ontem ia assim, 165 lugares, 25 passageiros.

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Na Horta ainda esperei uma hora  e pensei que ia começar o ano como em 2014 , cancelado no Faial, mas não , o tempo abriu e lá se aterrou sem abanões de maior e num dia relativamente claro.  Cão, gato e restante bicharada estavam de saúde e tranquilos e encontrei tudo mais ou menos em ordem.

Não tenho grandes razões de queixa de 2016. A morte de celebridades não me afecta , mesmo as de artistas dos quais eu gostava. O ano político foi negativo em agregado ,  muito más notícias para um liberal , mas houve algumas boas e há áreas de progresso .Não me lembro e acho que não houve um ano sem guerra desde que existo , o que há agora é mais informação por isso sem ir comparar números e estatísticas de especialistas  não sei se 2016 foi mais ou menos mortífero que os outros.  Tenho a certeza que 2017 não vai ser um ano aborrecido , da minha parte vou dar o meu melhor e esperar que este ano o meu melhor seja melhor que o do ano passado.

 

Biosegurança

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Começo por falar em biosegurança  porque foi parte importante da experiência Nova Zelândia/Fiji.

Ambos os países são arquipélagos , como tal têm um ecossistema isolado e mais sensível que os continentais. Conscientes disso, implementam regras para se protegerem de espécies invasivas. Mesmo chegando de avião os visitantes são obrigados a declarar , sob pena de sofrerem multas pesadas, quaisquer coisas vivas ou frescas que tragam na bagagem. Animais são interditos e quando se chega de barco todo o lixo e produtos frescos que haja a bordo têm que ser incinerados separadamente . Com isto pretende-se proteger o ambiente de espécies invasoras , animais e vegetais, cuja introdução pode ter efeitos catastróficos num ecossistema. Há espécies invasoras que não fazem grande mal , há outras que causam milhões em prejuízos e destruições enormes, e claro que uma ilha está muito mais sujeita a isso.

O arquipélago onde eu vivo também tem ecossistemas delicados e reservas naturais , a minha ilha é toda uma reserva da Biosfera e todos gostaríamos que se mantivesse assim , sem corrermos riscos de importar algum bicho ou planta que possa dar cabo das coisas, como já aconteceu por exemplo com a introdução da varroa que nos dizimou as abelhas.

Ao Arquipélago dos Açores chegam todos os anos milhares de iates, alguns vêm da civilização mas a maior parte vem das caraíbas , e vêm com produtos alimentares, frutas , vegetais e o lixo acumulado durante a travessia. Seria no nosso interesse um controlo destas importações , um mecanismo e regras para prevenir alguma desgraça biológica . Fazer como se faz na maior parte dos países e territórios insulares e conscientes e obrigar quem chega a declarar e entregar tudo o que é vivo e fresco e informar com antecedência os visitantes que não podem trazer nada que não tenha passaporte fitosanitário.Quando compro árvores de fruto na associação agrícola , por exemplo, têm que vir com essa garantia de sanidade , mas se enfiar dez arbustos na mochila e os trouxer de avião não há problema.

 Gostava de saber qual é razão para não se fazer este controlo na fronteira ,  acho que toda a gente concorda que o património e a segurança biológica são cruciais na manutenção dos Açores tal como os conhecemos e amamos mas ninguém se lembra destas coisas e os iates vão continuar a entrar à vontade com toda a merda possível e imaginária trazida das caraíbas. Por outro lado, sabendo que tinha que ser o governo a encarregar-se disso , não fico assim muito desiludido porque iam  implementar um programa de milhões , contratar dezenas de novos funcionários, instituir uma burocracia nova , vinha  um urso qualquer do governo  mostrar vacas voadoras e panfletos novos e depois o risco era mais ou menos o mesmo , porque  rigor estrito é noção fora do léxico nacional e é sabido que não somos os únicos a gostar de contornar regras . Além do mais podiam instituir um monte de regras que não podiam impedir algum bicharoco de chegar sem o conhecimento  dos donos do barco, fosse agarrado ao casco ou refundido num canto qualquer. Sendo assim , já que se corria o risco à mesma , mais vale não gastar esse dinheiro…mas é certo que tenho medo de que chegue em breve às nossas costas algum ser, seja um piolho seja uma alga ou uma erva , que nos venha dar cabo do equilíbrio.

A Nova Zelândia e a Austrália têm leis draconianas para essa protecção mas são países ricos , aqui as Fiji são um país pobre mas também se protegem , nós estamos a meio caminho e não queremos saber disso para nada.

De Partida

 Na sexta feira embarco na viagem de avião mais longa que já fiz , das Flores até Kerikeri , na Nova Zelândia , onde vou chegar no Domingo . O voo mais longo  dura  18 horas , entre o Dubai e Auckland , e ainda por cima todas as escalas (Ponta Delgada , Lisboa , Dubai e Auckland ) são na casa das quatro horas , ou seja, nem curtas que chegue para despachar nem longas suficiente para descansar , por exemplo em Lisboa nem dá para sair do aeroporto.  Só há duas maneiras de me fazer recuperar algum entusiasmo pelas viagens aéreas : bilhetes de primeira classe ou companhia , e  não estou bem certo quanto à companhia.  E mesmo as viagens  marítimas vão pelo mesmo caminho , esta que se apresenta agora entusiasma  mais pelas coisas que não vou ter que fazer do que pelo que vou ter que fazer.

Se me pedissem uma lista de sítios que eu queria mesmo ver nem as Fiji nem o Hawaii figuravam na lista , e muito menos Los Angeles   , a Nova Zelândia sim , e lamentei, pouco , não estar noutras circunstâncias porque andei a ver umas coisas sobre o país e vejo que uma das modalidades mais populares de turismo é a autocaravana , alugam –se por preços muito razoáveis e pode-se correr aquilo tudo. Além das belezas naturais sobre a Nova Zelândia interessa-me a política, consta que é um dos países mais liberais do mundo , e as ovelhas. Gostava de visitar uma estação , ver uns rebanhos e a cara de um criador quando eu lhe disser que também sou criador , tenho seis.  Também ia  de boa vontade ver um jogo de rugby , o desporto que eles dominam , eu já consigo seguir um jogo , mais ou menos  .  Noutro desporto em que eles são muito sérios é na vela , e aí já estou mais em casa em Opua , onde está o barco , fica na famosa ( para nós) Bay of Islands. Isso vou ver de certeza.

Deixo  as Flores no pico da curva  anual de beleza , é uma curva muito pouco acentuada que deve este pico mais à explosão das hortênsias e ao comprimento dos dias que a outra coisa qualquer , e vou chegar quando começa a descida para o Inverno , a viagem  deve levar  coisa de dois meses  . Ocorre-me agora que vou dar a volta ao mundo ,  vou para a Nova Zelândia voando para Este e vou voltar navegando (e depois voando) na mesma direcção.

Deixo tudo em ordem , espero que não haja novidade especialmente entre a bicharada , custa-me menos deixar o cão tanto tempo desde que tenho o gato , porque os cães não gostam nada de estar sozinhos , especialmente se não estão habituados , e o gato faz-lhe muita companhia. Arranjar este gato foi das melhores coisas que fiz este ano , não só pelos ratos que desapareceram como pelo que me faz rir o dia todo , a brincar no jardim mas sobretudo a andar atrás do cão e a meter-se com ele , só mesmo visto.São uma bela equipa .

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Não tenho andado  muito atento às notícias mas vejo que hoje é o primeiro conselho de líderes na União Europeia sem a Inglaterra. O Cameron vai lá comunicar formalmente a decisão, sai e a reunião continua com todos os restantes países . Em Inglês, suponho.