Material de guerra

Não sei se o Presidente já foi a Tancos abraçar o pelotão que estava escalado para sentinela naquela zona naqueles dias e confortar os soldados, que fizeram o que podiam. Não sei se as televisões arrancaram em manada para directos de Tancos e arredores,  filmar a vedação, ouvir o Presidente da Câmara de  Vila Nova da Barquinha  e não haverá falta de populares para declarar que sempre viveram ali ao pé do Polígono e não se lembram de nada assim. Podem ir um bocadinho mais abaixo a Almourol fazer uma peça de grande valor cénico sobre o simbolismo do Castelo  nos conflitos que ainda hoje exasperam os fundamentalistas islâmicos, que são senão os autores deste roubo pelo menos os seus receptadores prováveis.

Tanto quanto sei, alguém furou a vedação, percorreu 600 metros até aos paióis, arrombou as portas e foi-se embora pelo mesmo caminho , com um arsenalzinho : “ Para além das granadas de mão ofensivas e das munições de 9mm, foram também detetadas as faltas de “granadas foguete anticarro”, granadas de gás lacrimogéneo, explosivos e material diverso de sapadores, como bobines de arame, disparadores e iniciadores”. 

A primeira coisa que me veio à cabeça foi que se tivessem cães lá , mais cães, seria muito mais difícil atravessar 600 metros de perímetro em ambas as direcções , quanto mais chegar-se a um paiol que fosse designado área a proteger. O meu cão não se pode comparar aos cães militares e se mexe alguma coisa num raio de 100 metros ele  fica logo atento. Sou só um curioso destas coisas mas sei que Tancos é a casa dos Paraquedistas, a arma que por excelência é  a mais devotada e melhor com os cães.

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Na Escola de Tropas Paraquedistas há uma Companhia de Cães de Guerra, que não sendo como os outros cães têm habilidades e capacidades que muitas vezes só não são mais utilizadas por falta de treinadores e “manejadores” , se eu pertencesse a uma unidade de cães e o perímetro fosse violado assim ia fazer algumas perguntas sobre se se estava trabalhar e utilizar os cães da melhor maneira.Dentro dos limites que os militares têm para questionar as coisas, claro está… Isto é um aparte de um gajo que gosta de cães , porque um sistema de video vigilância sai mais barato, come menos , não fica doente nem precisa de treino nem exercício nem horas de dedicação humana. Ainda assim, se fosse eu o responsável por paióis de material de guerra , mesmo com um sistema de video vigilância que funcionasse, “largava”  os cães muito regularmente.

Voltando ao arsenal roubado,  é medonho , e é possível que esse material hoje já esteja em Estocolmo ou Viena, meia dúzia de  elementos que saibam mexer naquilo bastam para levantar um inferno no meio de qualquer cidade. Talvez os apanhem,talvez vá morrer gente em explosões provocadas por material pago pelo contribuinte português para a defesa da Nação. É grave. É outra demonstração de que o Estado não está à altura das suas responsabilidades mais básicas, neste caso assegurar o controle  e segurança das armas de guerra , não há muito mais básico que isto.

Este roubo não é , ao contrário do incêndio de Pedrógão, um caso de má organização estrutural, incompetência e descoordenação no terreno que exige uma demissão ou seis, mas não deixa de ser uma tragédia potencial que resulta de cortes no financiamento de coisas básicas como vigilância a instalações militares. Já vi que do lado da esquerda se diz que os subsídios aos colégios privados davam para pagar  vigilância do melhor e do outro lado que os aumentos a funcionários públicos também.  Pela ordem de ideias destas pessoas, é legítimo retirar recursos às causas que valorizamos menos, ou nada , para os alocar a causas que nos são mais queridas e isto para mim não é maneira muito racional de pensar no Estado.

Espero bem que encontrem o material roubado, de preferência junto de quem o roubou, e que se fique a saber a história toda antes de morrerem não sei quantos.  Também gostava que mais uma vez outra falha clara do Estado servisse para se pensar nas suas funções. Fazer bem as contas e tentar perceber se o Estado está a deixar de cumprir funções básicas para cumprir outras menos essenciais. Da minha parte gosto que o essencial esteja assegurado antes de passar ao acessório, mas eu sou um bocado esquisito.

Verão

Começa hoje o Verão e bombeiros, empregados das televisões e jornais e alguns jornalistas estão preparados para mais uma época num país em que a época dos incêndios é como uma época desportiva, sabe-se que vai sempre haver jogos e espectadores e audiências  nesta altura.Não me vou alongar muito sobre isto porque receio bem que toda a gente esteja saturada do tema, quero só lembrar umas coisitas:

– Noutros países da OCDE (para nos separar do verdadeiro terceiro mundo) já houve governos a cair por causa de respostas falhadas a catástrofes naturais ou humanas. No nosso caso acresce que a pessoa que nesta altura nos lidera foi, entre vários outros cargos, Ministro da Administração Interna, com  responsabilidade directa sobre o combate aos fogos. Ardeu antes dele, durante e depois, pelo que podemos perguntar o que fez ele pela resolução do problema , além de assinar ajustes directos para comprar equipamento deficiente por fortunas? Também foi ministro da Justiça, que também tem alguma coisa a dizer sobre o problema, e agora é o primeiro dos ministros, pelo que num mundo sério o dr. Costa teria muitas explicações para dar e contrição a mostrar. Não esperemos nada, a ter falhado alguém foram outros, nomeadamente o governo anterior. O governo anterior ao governo anterior já não se deve poder culpar, prescreveu…

-Um dos alvos preferidos na busca de culpados  é  Assunção Cristas e a sua decisão de “liberalizar” os eucaliptos, é um alvo fácil. Não sei que percentagem de floresta ardida em Pedrógão era de  eucalipto mas o que sei é que as fábricas de celulose têm  milhares de hectares de eucaliptos que nunca ardem, pelo que suspeito que o problema não está só no eucalipto. Não gosto da sra Cristas nem pintadinha de azul celeste e os eucaliptos têm a sua quota parte de culpa mas há coisas mais importantes…

-…Como a desertificação do interior, contra a qual nada se faz de relevante e eficiente, nem estou certo de que se poderia fazer, tendências demográficas não se controlam por decretos lei. O que sei é que TODOS os partidos trabalham em primeiro lugar para as cidades (Quantas estações de metro novas? Aeroporto?), que é onde estão os votos,  e muito raramente se lembram ou querem saber dos poucos que ficam perdidos e abandonados atrás de montes e vales.

-Por último, enquanto eu  escrevia o post anterior  o presidente e PM diziam que tinha sido feito o possível . No caso do Costa , é de lembrar que é a mesma abordagem que teve quanto às cheias em Lisboa quando era presidente da Câmara: “não há nada a fazer, são desastres…” . Hoje vejo que o Presidente já tem outro discurso e já exige que se reavalie tudo, como eu tinha “pedido” mostrando nada mais do que  senso comum e sem ver 1 minuto de televisão ou comentário profissional. Gostava de saber o que é que o fez mudar de “fez-se o possível” para “falhou muita coisa e há que repensar tudo” em dois dias. Qualquer pessoa lúcida teria dito isso bem alto assim que chegaram as primeiras notícias de mortos e habitações destruídas . Não se pode confiar neste homem para nada além de abraços, aconchego, apaziguamento  e palavras de circunstância, espero bem que isso seja finalmente claro para todos.

É angústia o que sinto por aquelas pessoas, e basta-me ouvir ou ler uma frase. Uma prima psicóloga foi para lá dar assistência e contava de uma velhota que lamentava “as suas coisinhas”. Parte-me o coração porque há muitas , muitas coisas que não se pagam com dinheiro nem se substituem. Se não vivesse num sítio imune à praga dos incêndios ralava-me muito com isso, porque vivo numa casinha pequena e isolada, cujo valor mal chega aos cinco dígitos e alguém que entre em minha casa e não dê valor a livros pode facilmente concluir que eu vivo na pobreza. Mas se a minha casa ardesse podiam dar-me cem mil euros que nunca iam trazer de volta as minhas coisinhas nem curar a angústia de perder o que, pouco ou muito, é nosso , foi feito e acarinhado por nós e escora a nossa vida. Não há donativos nem solidariedade que tragam isso de volta àquelas pessoas. Nem quero falar dos animais.

Voltando ao Verão que pus no título, é bem vindo, choveu aqui toda a Primavera e houve bastante mau tempo, pela primeira vez este ano olho para a previsão e vejo uma semana inteira de sol e brisa amena, é um consolo.

O cordeiro enjeitado vive, a colaboração com a senhora holandesa não correu muito bem e ao fim de dois dias trouxe tudo de volta a casa. Gosto que me ajudem, peço ajuda quando preciso mas não sou capaz de ver que é  demasiado esforço ou drama. Pensei que tinha ficado claro o que é que envolvia alimentar o bicho segurando a mãe ( que é grande e forte e protesta) durante 15 minutos de 5 em 5 horas. Se é para ter que ouvir que é difícil e não sei quê todos os dias e ver expressões angustiadas como se estivéssemos a falar de um bebé humano, dispenso, obrigadinho, eu tomo conta dele.

Vai em quase 15 dias, o mais difícil está feito e dentro em pouco já vai tolerar leite de vaca, aí levo-o de volta à minha amiga holandesa, pegar no pequeno e dar-lhe o biberom ao colo já se adapta melhor à noção urbana do que é salvar um animal e custa pouco. Estou contente porque o bicho já tem destino, eu vendo todos os machos e acabam todos no talho, é natural que este me fosse custar muito mais mas já está vendido para uma casa de estrangeiros onde vai passar o resto dos seus dias como cortador de relva, fiquei satisfeito.

Entretanto no mundo dos botes da baleia, fui transferido para a tripulação do segundo bote do clube para ser oficial. Dentro de uma semana esse  bote vai de navio para Santa Maria, onde vamos participar numa regata dentro de 15 dias. Saímos com esse bote uma vez, não foi nada bom, pelo que estou a antecipar uma humilhação em Santa Maria mas todos os meus amigos me dizem homem não te rales, aquilo é mesmo assim, é participar numa festa. Já desistiram uns, já se encontraram outros , esta tarde vamos sair pela segunda vez e nem tenho a certeza de que numa semana conseguimos dar uma volta a um circuito de três bóias quanto mais fazê-lo num tempo decente e sem confusão, mas não se pode fazer nada a não ser sair quando for possível nesta semana   e  dar o nosso melhor.

Enjeitado

Uma das minhas ovelhas pariu  gémeos , foi a primeira vez que vi tudo. Continuo a não perceber porque é que lhe chamam o milagre da vida se  sabemos perfeitamente o que é que está ali a acontecer e porquê. Em menos de uma hora estavam os dois a mamar, limpinhos, e a ovelha já a pastar depois de ter comido a placenta, altura em que fui fazer outra coisa qualquer noutro lado.  Comecei a filmar isto uns dois minutos depois de eles estarem cá fora:

Dois dias depois acordei de manhã e estavam mais dois , isto é mesmo à frente da porta. São da ovelha cega, e já por causa disso eu antecipava problemas com crias, que também vêm mal.  Passados 15 minutos era claro que a ovelha estava  a rejeitar um dos filhos, parte o coração ver um cordeiro que mal se aguenta nas patas a querer chegar à mãe e ela a afastá-lo. Passei que tempos a tentar manter a ovelha quieta e a fazer o cordeiro chegar à teta, mas ele não conseguia mamar e só com dois braços não  dá, porque a ovelha resiste. Os meus amigos capazes de me dar uma mão estavam do outro lado da ilha , outro à pesca e só ao fim da tarde um pode vir-me ajudar a segurar a ovelha e ensinar o cordeiro a mamar, demorou que tempos. Temos ali na mão uma criatura fraquíssima a lutar pela vida , é um bocado intenso.  Se eles não mamarem a substância que as mães produzem nos primeiros dias após o parto, que se chama colostro e está carregada com tudo o que o pequeno precisa para ter um sistema imunitário funcional, nunca se safam. Se se conseguir que bebam o colostro nos primeiros dias depois podem-se alimentar de biberon com leite de cabra ou fórmula de bebé, ou ordenhando a mãe. Depois do pequeno já ter aprendido a mamar já me consigo desenrascar sozinho, amarro a ovelha bem justa  numa estaca à altura do pescoço, levanto-lhe e seguro-lhe uma pata de trás e o pequeno vai mamando. Faço isto de cinco em cinco horas e esta noite quando tocou o despertador só pensava que deixei de navegar para não ter que me levantar durante a noite, e levantar por levantar antes por ter o vento a mudar ou para um quarto de vigia do que porque tenho um animal a morrer.

Que me conste ainda ninguém sabe o que é que leva as ovelhas a rejeitar uma das crias, na Nova Zelândia, terra onde sabem umas coisas de ovelhas, disseram-me que uma das coisas que fazem quando isso acontece é pegar na cria rejeitada , juntá-la a outra mãe que esteja a amamentar e atiçar-lhes o cão, que leva a mãe a proteger e depois a adoptar a cria enjeitada. Não tive confiança nem estômago para aterrorizar as ovelhas e dar maus hábitos ao cão, que ao contrário de um Border Collie não ia perceber o objectivo do exercício,não a tem a mesma sensibilidade.

Num golpe de sorte aterrou ontem um casal de holandeses que tem cá uma casa há muitos anos e passa cá parte dos verões. A propriedade tem umas pastagens  onde eles me deixam ter ovelhas, que me dá um jeitão. Fui esta manhã cortar-lhes a erva do quintal e numa pausa, entre conversas sobre o populismo de direita nos Países Baixos, as consequências do Brexit e a esperança no Macron,  contei-lhe do meu cordeiro enjeitado. A senhora é completamente pró animais,activista, PETA, vegetariana e tudo isso, e uma das razões pelas quais me deixa ter lá ovelhas é que sabe que eu as trato bem. Ofereceu-se logo para tomar conta do cordeiro, o resto do dia de hoje e esta noite ainda o alimento aqui mas amanhã de manhã levo para lá ovelha e cordeiros, mostro-lhe como tenho feito e ela vai ter uma ocupação que adora nestas férias, fica toda a gente contente e talvez o cordeiro se safe.

Tinha duas resoluções para o ano novo, a primeira era organizar uma rotina semanal dedicando certos dias a determinadas tarefas.Tirando as quartas feiras,que continuam a ser  o dia de fazer um lote de cerveja, o plano começou logo a ser  desrespeitado em Março. A segunda resolução era ler um livro do Saramago, já está e não doeu nada. Li o “Ensaio sobre a lucidez” , não dou o tempo por  mal empregue e fiquei finalmente a conhecer o virtuosismo do vocabulário mas vão passar-se décadas até pensar em repetir a experiência.

Uma coisa que não fazia parte das resoluções de ano novo mas calhou assim foi o yoga, e estou muito satisfeito porque vamos quase a meio do ano e persisto, todas as segundas há aula. Não me parece que tenha evoluído por aí além e muito mais do que fazer os exercícios gosto do bem que me sinto quando acaba. É para continuar.

Este ano foi a instrutora de yoga que me tosquiou as ovelhas, aqui está uma frase que tenho a certeza de que não lêem muitas vezes .

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Para não dar azo a especulações, a moça é comprometida,não comigo, e não foi por andar atrás de uma maneira de a encontrar fora do yoga, foi porque nos cruzámos uma manhã quando eu ia com uma das minhas ovelhas e uma cria e ela ia de tesoura na mão a caminho de tosquiar outras ovelhas,  combinámos. Uma das razões pelas quais crio ovelhas é porque acho tudo bonito , assim fica o quadro mais completo.

Está confirmada a chegada em Julho de cinco ovelhas de raça apurada e em Janeiro, quando se fazem os “recenseamentos” , vou ter 12, o que me dá direito a um subsídio estatal . Não tenho problemas nenhuns em cumprir o meu papel na economia recebendo uma subvenção do Estado, pela primeira vez na vida. Se dão subsídios para a criação de ovelhas e se eu crio ovelhas seria estúpido se não aceitasse o dinheiro, questionável seria se começasse a criar ovelhas só para ter o subsídio.

Mantendo doze ovelhas o subsídio é o suficiente para pagar a segurança social, vou receber  do Estado e pagar  ao Estado quase o mesmo valor . Um libertário pegava nisto e explicava que eliminando o Estado do meio eu  beneficiava: não recebia subsídio mas tinha à mesma o lucro da exploração das ovelhas e ficando desobrigado das contribuições podia poupar autonomamente para a reforma. É provável, mas não vai acontecer em lado nenhum em nenhum futuro próximo e  temos que jogar o jogo como ele foi inventado e nos é imposto.

O Presidente está nos Açores, como não há manifestação popular em que ele não ache apropriado imiscuir-se , veio às festas do Senhor Santo Cristo. Como português nunca fui bem habituado com o nível de  oratória e retórica dos políticos, não sei se são os jornalistas que são de menos e nunca destacam a frase bem conseguida e inspiradora se são os próprios políticos que não dão para mais.Talvez tenham todos um Demóstenes latente mas achem que dado o nível do público, não é preciso grande esforço.

Acabado de chegar a esta grande terra com grande gente, antes mesmo desse outro momento espiritual que projeta essa terra e essa gente em todo o mundo”. Bom, nem isto é uma grande terra nem a gente é maior ou mais pequena que as outras, e os momentos espirituais  a que se referia o Presidente eram o plantar de uma árvore e uma  procissão. O Santo Cristo não projecta grande coisa além de devoção e saudade nas comunidades Açorianas, que não grandes nem são em todo o mundo , mas isso é o menos, o exagero e a lisonja são  parte integrante destes discursos de afectos.  Aqui há uns meses ouvi dizer que o Presidente vinha cá à ilha, se calhar é desta vez, vou começar a fazer a lista das possíveis banalidades, lugares comuns, exageros,generalizações e comentários básicos que vão ser as suas declarações, para comparar. As pessoas gostam e não pedem mais, eu já o disse e repito, das melhores coisas que fiz na minha vida de eleitor foi votar Henrique Neto, se soubesse que tinha contribuído para estas figuras retorcia-me de remorso.

No outro dia olhei para uma  televisão e estavam em directo de fora de um hotel onde estava hospedada a Madonna. Vi aquilo vários minutos, no rodapé lia-se “Madonna procura casa em Lisboa” e a repórter repetia isso à porta do hotel. No dia seguinte um jornal desportivo noticiava que o filho da Madonna tinha sido apanha bolas num jogo do Benfica e outro informou-me de que  a Assembleia da República homenageou o Salvador Sobral.

O meu país nunca me parece tão pequeno como quando olho para a televisão.

Animalismo

Uma das polémicas correntes é sobre a nova lei que reconhece os animais como seres vivos dotados de sensibilidade e protecção jurídica. Os bichos deixam de ser coisas perante a lei, e  para mim , que nesta altura tenho 15 bichos de várias qualidades e funções, é um marco civilizacional.

No entanto, ao ler alguns artigos e  comentários sobre o assunto vejo que anda aqui um mal entendido. Henrique Raposo é um colunista que eu aprecio porque pertence a uma minúscula minoria de opinadores que não tem medo de se assumir como pessoa de direita, e ainda por cima escreve bem. Discordo com ele numa quantidade de coisas, por exemplo desagrada-me profundamente o seu identificar do SLB como o fulcro, glória e essência do futebol nacional e o martelar permanente na tecla do “sou de uma família pobre que veio para a grande cidade e subi a pulso” . Não dou para os seus peditórios sobre religião ou valores sociais mas o que é certo é que ele representa uma grande faixa da população portuguesa que cada vez tem menos voz na comunicação social. Da última vez que se ouviu falar dele foi por causa de um livro que escreveu sobre o Alentejo das suas raízes.O livro não agradou a muita gente da esquerda, que por deformação congénita não consegue encolher os ombros e escolher outro livro: tem que se protestar, boicotar e insultar. É uma forma de luta.

Desta vez o homem salta outra vez das páginas do Expresso para o vespeiro das redes sociais por causa deste texto sobre as recentes alterações à lei sobre os animais . O Henrique Raposo vê nela outro passo não para a humanização das relações com os bichos mas sim para a desumanização do próprio homem. É um grande salto de raciocínio dizer que a lei “faz “equivaler o homem e o cão”,  é errado e diria mesmo um pouco estúpido porque está-se , felizmente , longe de conceder qualquer espécie de equivalência, o que se faz é reconhecer que os bichos sentem e sofrem e não podem ser tratados como coisas. Saltar  daqui para qualquer equivalência, legal ou qualquer outra , entre homem e bicho é impossível.

No entanto há aqui uma preocupação com um problema bem real, que é o excesso de zelo em que caem frequentemente as militâncias e os defensores das causas como esta , basta ver certas acções e reinvindicações da PETA, por exemplo . Basta ver os números do mercado dos animais de estimação e muita gente torceria o nariz perante as centenas de milhões gastas em comida gourmet para os gatos, sessões termais para cães ou  ainda pessoas que dizem coisas como “o meu cão ensinou-me a ser pai”.  Os excessos de “humanização” dos bichos podem ser encorajados por esta lei mas certamente que não seriam prevenidos com a falta dela.

Há também a questão da visão religiosa do autor, as Sagradas Escrituras ensinam que o Homem foi posto na terra para dominar as outras espécies, e a outra visão que diz que só por haver superioridade e capacidade de dominação isso não é carta branca para se fazer o que se quer com os bichos. Por alguma coisa Deus Nosso Senhor teve aquela trabalheira toda a ajudar o Noé a enfiar numa arca 78 milhões de casais  de espécies animais , pinguins ao lado de raposas, osgas para a direita, águias para a esquerda, e a salvá-los do dilúvio que Ele próprio enviou. Uma operação dessas só pode provar o amor de Deus por todos os bichos ( se ele até os inventou um a um…) e obrigar a concluir que temos que os tratar bem.

Henrique Raposo vê nesta nova concessão de direitos aos animais mais um passo de gigante numa caminhada feita de coisas como o casamento gay, a co-adopção,as barrigas de aluguer e tudo mais que forem,digamos, inovações sociais.É tudo sintoma da mesma desagregação social que ele lamenta, dizendo que transforma os humanos em coisas ao mesmo tempo que quer transformar os animais em humanos. É muita confusão, muita evolução no sentido que não era o preferido, para a cabeça de um jovem conservador católico que consegue ver numa lei que protege os animais mais um degrau da degeneração da sociedade e da degradação dos costumes.

Como ele se refere várias vezes ao “animalismo” como filosofia, eu gostava de lembrar que o animalismo defende apenas que os homens são animais . Isto a mim parece-me incontestável e devia ser aceite por todos, deixando a questão seguinte (o que é que nos distingue dos restantes animais) para ser resolvida de outra maneira.Ou a racionalidade que nos faz Homens é produto da Evolução e Selecção Natural , ou foi toque mágico de uma entidade superior, seja qual for a nossa explicação preferida é muito difícil negar que somos todos animais. Para muita gente , animalismo e a defesa dos direitos dos animais confunde-se com uma exigência de igualdade ou , como para o HR, equivalência. Tirando a  minoria de extremistas que se pudesse acabava amanhã com a pecuária e obrigava a consultas veterinárias regulares pagas por todos, a maior parte das pessoas não acha que exista nem que seja desejável essa equivalência.

É por isso que considero esse artigo  um tiro ao lado,  confunde um avanço social que é reconhecer os bichos como seres sencientes  (uma evidência, de resto) com uma causa perdida , inútil e marginal que é a “equivalência” de que se queixa o Henrique Raposo.

 

Coisas Várias

Começando pela “actualidade local”, uma taróloga veio visitar a ilha e dar umas consultas e eu já incomodei algumas pessoas por dizer no facebook que “quem está farto de ser enganado à distância tem agora a oportunidade de ser enganado em pessoa”.

Tudo o que é esoterismo causa-me urticária, que se agrava em duas circunstâncias : Quando os praticantes da “disciplina” têm rendimentos à custa dos pobres de espírito que acreditam que significados aleatórios atribuídos a cartas de jogar podem em determinadas combinações prever o futuro  e quando os praticantes ou crentes são pessoas que pela sua formação e nível cultural deviam já estar um nível acima.  Ainda vou ter uma discussão com a pessoa que acolheu e divulgou a “taróloga” porque é  a mesma pessoa que há poucos meses organizava aulas de filosofia para crianças . Não se pode querer ensinar as crianças a pensar e um mês depois andar a divulgar o tarot, é como dizer que se está a trabalhar num modelo de análise meteorológica por imagens de satélite e depois rezar por uma chuvinha.

Nunca penso mal das pessoas dadas ao esoterismo mas nunca as posso levar a sério em matéria de pensamento ou capacidade de análise. O horóscopo de hoje para Caranguejo : não se esqueça de respirar , aproveite as oportunidades que estão à sua espera e tenha cuidado com os fritos.

O meu vizinho está de cama e mal se mexe e eu visito-o mais frequentemente para lhe dar uma ajuda com tudo. Já lhe disse que só o faço porque sou interesseiro , há muito poucas coisas que eu faço sem ser por interesse, neste caso o meu interesse é ver o meu amigo recuperado e fazer como espero que alguém me faça a mim quando eu precisar. Tenho interesse nisso.  A cadela dele está com uma alergia qualquer , levei-a ao veterinário e quando lá estava lembrei-me de que o meu cão já não via um veterinário há muitos anos , no dia seguinte levei-o lá.

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Tinha as vacinas em falta há anos mas tirando a sua epilepsia está impecável e é o maior, mais forte e mais bonito “semi labrador” desta  ilha , e há cá muitos. O próprio irmão dele tem  2/3 do tamanho, acho que ninguém precisa de provas de que corpos fortes e saudáveis só se conseguem com boa alimentação e exercício. Já que não consegui chegar lá com o meu próprio corpo, consegui com o cão, já não é mau.

A visita ao veterinário foi “notável” sobretudo porque foi a primeira vez que o tratei pelo nome. Ele é daqui , um rapaz novo e muito  simpático, a primeira vez que falei com ele foi por causa de uma cabra doente que tinha e tratei-o sempre por doutor, ainda acho que médicos e veterinários devem ser distinguidos do resto dos licenciados que por cortesia e hábito se tratam por doutor. Vejo-o todos os anos na matança do porco do meu vizinho , que é tio dele,  ao fim de seis anos achei que já tínhamos confiança que chegue para nos tratarmos por tu, e fiquei contente por isso.

Além disto tenho três assuntos de que quero falar , assuntos políticos para nos ajudarem a desesperar.

1- O ex presidente Jorge Sampaio escreveu um livro com as suas memórias , que por definição são pessoais. Este senhor, ao qual o Estado fornece gabinete , motorista,carro e  assessores além da reforma principesca pelos seus serviços , encontrou seis entidades públicas para patrocinarem o seu livrinho. Os seus recursos não chegavam e o tema não era interessante que chegue para uma editora normal.Em casos destes , se somos socialistas , socializamos as nossas acções fazendo com que todos paguem por elas.Um bocadinho a cada um , não custa nada . Estas pessoas servem-se do Estado desde o primeiro fôlego público até morrerem, o funeral deste também há-de ser o Estado a pagar. Desse livrinho sobre a sua contribuição para a República  destaco a afirmação sobre o momento em 2004 em que demitiu um governo legal e com apoio parlamentar : Fartei-me de Santana Lopes . Fartou-se, pronto, e por isso demitiu um  governo legalmente em funções e abriu a porta ao maior trafulha que Portugal viu nas últimas décadas que em pouco tempo conduziu o país à falência . Isso não deve tirar o sono ao dr.Sampaio.

2- A situação de Portugal chegou ao Economist , o que acontece muito raramente . O artigo fala do sucesso do governo ao conseguir reduzir o deficit ao mesmo tempo que aumentou pensões e o desemprego caiu. Os problemas estruturais mantêm-se TODOS , eu farto-me de rir porque parece que estas análises ao sucesso deste ano se satisfazem com o curto prazo: se está bom agora, está bom.

Um paralelismo:     faz de conta que Portugal sou eu com o meu enfizema pulmonar. Respiro mal e tenho crises. Chega o meu médico/PS e receita-me cargas de Bricanyl/keynesianismo . Eu inalo aquilo e começo logo a respirar melhor. O meu médico declara-me bom, o  enfisema está na mesma, quando se me acabar o dinheiro para o Bricanyl deixo outra vez de respirar mas isso não interessa nada , até porque se chegarmos a esse estado  alguém me pagará a medicação, presumivelmente por solidariedade. Nesta imagem o médico nunca me disse que eu nunca mais vou ter uma vida normal e que as dificuldades só se agravam com o tempo, receitou-me a droga e encorajou-me a depender dela .

3- O governo sugeriu que a Santa Casa da Misericórdia contribuísse para salvar o próximo banco a rebentar , pelos vistos vai ser o Montepio. Pensemos nisto, o governo achou bem que uma instituição de solidariedade social investisse num banco problemático, é das coisas mais estranhas que vi deste governo até hoje , apesar de ser outra boa ilustração da maneira como estas pessoas olham para uma economia: constituída por partes que se não estão sob controlo directo estão sempre sob influência do Estado, que pode  mandar estes investir aqui e aqueles mandar dinheiro para ali e assim tentar fazer as contas “bater certo” no fim. Quando não baterem certo logo se encontrarão os culpados,em todo o lado menos em quem pensou e executou as medidas.

6 anos

Faz seis anos que para aqui vim.Conhecia duas pessoas,tinha uma terra de 400m2  com um palheiro velho,a ideia de fazer uma micro cervejaria,criar animais e viver o mais longe possível da confusão. A primeira prioridade  foi encontrar companhia de confiança e ao mesmo tempo  realizar  um sonho que a vida de marinheiro não permitia.

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Hoje saio de casa, olho à volta e continuo encantado com o que vejo.Tenho um cão sempre por perto e um gato que me faz sempre sorrir, quando não rir mesmo.Como ovos das minhas galinhas , tenho uma horta mais simbólica que outra coisa mas que me permite a satisfação de cultivar e comer o que cultivo.Tenho oito ovelhas em terras minhas e outras que arrendei ou me emprestaram , já sei alguma coisa sobre o cuidado e criação das ovelhas e terras, o rebanho está para aumentar e  talvez para o ano vá ter um cão pastor.

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Reconstruí o palheiro e cumpri todas as burocracias relativas a passar um terreno rural para um prédio urbano e habitação legalizada, a casa é pequenina e mal acabada mas é minha, cumpre todas as funções de uma casa e por ser minha parece-me um castelo.

Tanto quanto sei não criei  inimizades, não prejudiquei ninguém e tirando um ou outro delinquente que me roubou uma ou outra ferramenta, nunca ninguém me prejudicou.As pessoas que não me cumprimentam ignoram-me e não se pode pedir muito melhor do que isso.Fiz muitos amigos e se passo a maior parte do tempo sozinho não é por necessidade.  Não falar demais, respeitar toda a gente, pagar as contas a horas,fazer o que se diz que se vai fazer,ajudar quando se pode, dizer “se faz favor” e “obrigado”,sorrir.A minha receita para uma integração de sucesso.

E sobre tudo isto, e porque ninguém vive de simpatia e meia dúzia de ovelhas e estou determinado a deixar de navegar, há a cerveja. Nunca fui grande conhecedor ou apreciador, o interesse pelo fabrico da cerveja apareceu primeiro há mais de 12 anos,nos Estados Unidos, quando provei uma cerveja feita por um gajo em sua casa e fiquei a saber que nem só em grandes fábricas se podia fazer cerveja .Em Portugal nessa altura devia haver talvez meia dúzia de entusiastas da cerveja artesanal, lá já então  era uma grande indústria.

Perante a necessidade de ter trabalho e rendimento aqui  a cerveja sempre foi a que me pareceu a melhor ideia  de negócio,ao fim de  anos de constante remoer e avaliar das possibilidades, e pouco tempo depois de cá chegar recebi um “kit de principiante”. Fazer cerveja não é complicado e vivemos na Idade da Informação mas ainda assim requer muito tempo, algum equipamento,atenção e prática até se conseguirem fazer boas cervejas, já para não falar do que requer transformar esse conhecimento numa operação comercial numa ilha pequena e bastante remota.

Seis anos depois, tenho  uma micro cervejaria artesanal  (nano cervejaria talvez seja mais adequado…) na Ilha das Flores , produzo e aperfeiçoo  cerveja que com  sorte ainda este ano vai ser vendida legalmente. Recebi ontem os rótulos e sacos de malte em 25kgs,  marcando assim o dia em que aparece o produto completo e agora isto é a sério.

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Por tudo isto estou satisfeito,orgulhoso e motivado para os próximos tempos. Ao rever estes seis anos lembrei-me muito disto:  “Ser um casal permite-nos resolver a dois problemas que não teríamos se fôssemos só um”.