Insularidades

O meu mecânico telefonou-me, eu pensava que era para me dar novidades do carro mas era porque as minhas ovelhas que estão numa terra ao lado da oficina dele se tinham escapado. Fui logo para lá, o mecânico estava no meio da rua com o Lampião pela coleira  (sim, o carneiro usa coleira e tem nome)  e tinha achado muita graça a ver o bicho chegar-lhe à porta da oficina.

Já houve uma altura em que pensava que ia conseguir ter todas as terras definitivamente  vedadas e à prova de fugas mas já desisti, faço o meu melhor mas sei que mais tarde ou mais cedo ou encontram ou criam uma aberta na cerca, e o que é mais irritante é que podem ter comida com fartura mas isso não as impede de querer ir ver como é do outro lado. A erva é sempre mais verde do outro lado, já dizia o outro. Já toda a gente sabe quais são as minhas ovelhas,  tem o meu número e sabe que eu vou logo a correr assim que chamam, desde que as ovelhas não causem estragos tipo comer as batatas ou roer as arvores de fruto não é grave.

Depois de guardadas outra vez aproveitei para saber novas do carro, este mecânico acredita que afinal não vai ser  preciso um motor completo, já me encomendou peças e está optimista, mais optimista que eu.  No mais róseo dos cenários ainda tenho uma semana inteira de scooter, nem vale a pena listar todas as modos em que aquilo é inconveniente nem todas as vezes que fico dependente da boa vontade de amigos com carrinhas de caixa aberta para me ajudarem nas voltas da minha lavoura , que está cada vez mais empatada porque não me importo de pedir favores mas há limites.

Amanhã voo para o Faial, onde vou fazer um procedimento médico que leva 1 minuto, tirar sangue para enviar para análises. É uma coisa que está em falta desde Janeiro e tem sido uma verdadeira rábula sobre a qual não me vou alongar para o SRS & seus profissionais não ficarem mal no retrato. Como em tudo, as minhas expectativas são sempre baixas pelo que demorar 5 meses a requisitar, fazer e obter análises ao sangue não está mal, tenho a certeza de que é muito melhor do que no Ruanda ou na Venezuela, agradeço sinceramente e agora só espero que não demore outros 5 meses a marcar a consulta que está dependente dessas análises. Tendo que esperar meses, que sejam os de Verão, onde corro menos risco de sufocar com uma infecção pulmonar.

Felizmente conseguiram-me voo num dia regressando no outro pelo que nem é preciso alistar ou contratar ajuda para me tomarem conta da bicharada, os cães comem umas horas mais tarde na segunda feira e é só isso…se não for cancelado o voo, possiblidade sempre presente.

Os botes baleeiros já estão na rampa mas ainda não navegámos, principalmente porque o tempo tem estado uma miséria e ainda não há sinais de estabilizar em modo primaveril. Há dois botes mas como de costume é difícil encontrar tripulações para eles, toda a gente quer dar uma voltinha e toda a gente quer ir à Semana do Mar no Faial mas compromisso com um programa de treinos regular é muito mais difícil. Agora faço parte da direcção do clube naval e espero contribuir para dar um novo impulso àquilo, como já disse aqui espero não me vir a arrepender muito, para já ganhei responsabilidades e tarefas mas faço com gosto, durante muitos anos critiquei o clube naval , agora cabe-me mostrar que posso fazer melhor, ou ajudar a fazer melhor.

As regatas do  Campeonato Regional este ano vão ser  na Graciosa, como nós aqui não temos um campeonato de ilha que decida o representante  vamos alternando , o ano passado fui eu com o S.Pedro, este ano vai o Formosa mas eu vou também vou, havia falta de tripulação e eu ofereci-me , não só mas também porque nunca fui à Graciosa. Aposto  que  vamos ter uma prestação semelhante à minha do ano passado, que foi miserável, mas desta vez vou só fazer peso na borda,  a apreciar o cenário e a prestar atenção aos outros para aprender mais alguma coisinha.

Para a Semana do Mar já tenho expectativas mais altas para o S.Pedro, muito porque regressou à tripulação um moço com o qual me dou muito bem e que sabe ser proa, é claro que o oficial ao leme conta muito mas sem alguém capaz na proa nem o bote fica bem armado nem consegue virar nem cambar em condições, e sem isso, nada feito. Estou ansioso por ter a tripulação completa e começar  a treinar , se o objectivo o ano passado era terminar a prova (que não consegui), este ano é ficar no meio da tabela.

Já recebi os primeiros turistas, se forem todos como estes não vai haver problema de espécie nenhuma. Ontem levei o Lenine  (outro carneiro)  comigo para o jardim e lá o deixei numa estaca, o jardim é bastante grande , tem montes de erva que me leva horas e horas  a manter rente e acaba a apodrecer num monte de composto, assim alimento o bicho , aproveito a erva e ainda por cima é pitoresco para os camones, terem um carneiro a pastar no jardim.

Ontem acabei um livrinho chamado “Diário de um Náufrago nas Flores e no Faial” e entre outras coisas interessantes  aprendi que nessa época (1830) as carroças aqui na ilha eram puxadas por ovelhas. Continuo a rir-me da imagem e já tive amigos a sugerirem-me que já que estou sem carro,  explore essa possibilidade, e pensar nisso ainda me faz rir mais.

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Animais Rurais e Urbanos, Antigos e Modernos

O meu cão há meses apareceu com um furúnculo , ou o que me parecia a mim ser um furúnculo, no rabo. Não me pareceu sério nem grave, não o incomodava, deixei andar. Entretanto apareceu outro, e outro, fiquei preocupado. Aproveitando o facto de a cadela estar quase a fazer um ano e ainda não ter chip nem vacinas, marquei uma consulta no veterinário e lá fomos.

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A Bruma foi “chipada” e vacinada e foi marcada uma cirurgia para tirar os furúnculos do Rofe. Entretanto a meio da semana o veterinário, uma pessoa impecável que também já me tratou muita vez das ovelhas incluindo uma cirurgia numa que numa exploração normal tinha sido abatida mas que ainda aí está, com três patas mas fora isso impecável, mandou-me uma mensagem a sugerir castrar o Rofe.

Eu andava preocupado com o cio da cadela, aqui na ilha não é possível esterilizar uma e a última coisa que queria era que ela engravidasse de outro cão sem ser Border Collie. Não faltará  muito para alguns activistas do igualitarismo começarem a teorizar sobre as raças caninas dizendo que não existem e que são uma construção social, até lá, e mesmo depois, não quero cá misturas. A mestiçagem humana é uma coisa positiva, nos cães não é  e nem vou discutir isso porque quem põe isso em causa não sabe nada de cães.

Como o Rofe já entrava em parafuso e não tinha mão nele quando a cadela do meu vizinho ficava com o cio, a 300 metros daqui, já estava a ver que a minha vida quando a Bruma ficasse com o cio ia ser um inferno e até já andava a procurar na net de “cintos de castidade” para cadelas, pelo que concordei logo com o veterinário, que me fez a sugestão porque eu tinha falado do problema com ele. Ia levar anestesia geral de qualquer maneira, era um dois em um  e castrava-se o cão, coisa que eu nunca quis fazer antes preocupado com o ganho de peso e alterações de “personalidade” que chegam com a castração.

A cirurgia demorou mais de uma hora , correu bem, tenho menos uma preocupação e tudo me ficou por cerca de 50% do que me teria custado em Lisboa e 25% do que me teria custado em Bruxelas, razões para eu ainda apreciar  mais o meu veterinário e estar a reservar um borrego para lhe oferecer pela Páscoa, não só por ser boa pessoa e bom profissional mas por não ser ganancioso nem se aproveitar de situações em que não temos escolha.

A minha irmã tem um cão e vive em Lisboa, e é por isso que estou mais ou menos a par dos preços  que se praticam por lá, tal como vou vendo por amigos os hábitos de consumo e do modo de tratar os cães. Nesta época moderna da humanização dos cães (uma das tendências é dar aos cães nomes de gente) cada vez mais estes são mesmo tratados como se fossem gente e substituem em muitos casos a companhia e as relações humanas. Contra mim falo, não concebo levar a vida que levo sem cães.

Claro que se criou aqui um mercado , e onde há um mercado chegam os aproveitadores e o pessoal do marketing cuja vida é criar necessidades e convencer as pessoas de que precisam de algo que não precisam. O mercado da comida de cães a nível mundial está quase nos 90 mil milhões de dólares, não pára de crescer há uns dez anos , e o mercado das guloseimas para cães é perto de um quarto disso. Este das guloseimas é mais interessante, porque todos os cães precisam de nutrição mas nenhum cão precisa de guloseimas a menos que seja em situações de recompensa para treino, e aí qualquer coisa serve. Os meus cães respondem tanto a um pedaço de pão duro como a um super snack, simplesmente porque foram habituados a isso, como todo e qualquer cão pode ser habituado.Claro que se lhes derem coisas caríssimas e compostas desde pequeninos, vão preferir sempre isso a uma côdea ou uma casca de queijo.

Para o treino da Bruma uso uns pauzinhos “sabor borrego” marca branca que custam 75c por pacote com uns 30, e esses são partidos em pedaços pequenos. Já vi muita gente a usar para o mesmo fim biscoitos que custam 8€ por pacote de 20. É deitar dinheiro à rua, garanto-vos que o cão não nota a diferença. Aqui há dias , na estante de uma das lojas em que costuma haver promoções de produtos quase  a expirar de prazo ou mesmo expirados (e ainda bons para consumo humano ou animal) vi um pacote de “snacks dentais” em promoção. Também não falta muito para começarem a levar os cães ao dentista. Estavam a metade do preço , eram 1,5e por pacote e decidi levar uma coisa especial para os cães. Aquilo é vendido como bom para os dentes de todos os cães, o Rofe engoliu o dele em duas vezes, a Bruma levou talvez quatro, sem dúvida que o sabor é criado para eles adorarem mas quanto a fazer bem aos dentes estamos conversados. Sabem que é que lançou o alerta de que os ossos fazem mal aos cães e não se devem dar? Não é preciso muito para saber que foram as companhias que vendem produtos para os cães roerem, porque os cães todos precisam de roer, e é roer que lhes faz bem aos dentes.

Outra coisa que me deixa surpreendido é como a publicidade conseguiu fazer as pessoas acreditar que há comidas de cão que valem 200% mais do que outras e que uma comida para  um cão pequeno deve ser diferente da comida para um cão grande. Se alguém vos  argumentar em favor disso é porque vende essa comida . O Rofe tem 7 anos e pesa 42 kgs, a Bruma tem 1 e pesa uns 8, comem a mesma coisa e eu desafio quem quiser a compará-los , quer esteticamente (se lhes der um banho e uma escovadela)  quer em termos de saúde e actividade, a cães da mesma raça e idade que comam comidas que custam o dobro ou triplo. Até inventaram uma ração especial para cães castrados, que custa uma fortuna e que as pessoas compram pela mesma razão que compram sacas de 20kgs de ração a 60e em vez de 13 como eu: as pessoas adoram os seus cães , querem o melhor para eles e quando têm rendimento disponível gastam o que for para que os seus cães tenham o melhor. Os fabricantes sabem isso e não perdoam.

Aqui há dias a Bruma começou a tossir e a puxar vómitos em seco. Durou um  dia , fiquei preocupado. Continuou no dia seguinte, mais preocupado fiquei, mas via que não estava “em baixo”, comia bem , corria bem, tinha a sua actividade normal. Pensei que se tivesse engasgado com alguma coisa ou comido alguma coisa podre ou algum bicho. Não fiz mais nada, ao terceiro dia fartou-se de comer erva e lá conseguiu vomitar o que a irritava, está fina.  Digam-me se acham plausível um dono de um cão urbano e moderno reagir assim e deixar acontecer este curso de coisas. Têm bem com que  se assustar se pesquisarem esses sintomas na net, e além do pânico  que  ia levar logo a uma visita às urgências, talvez fazer um TAC ,, há outro problema: os cães das cidades, mesmo que o  instinto que resta lhes diga que há que comer erva para se purgarem, não têm erva à vista ou  se têm é de tal maneira nojenta  que ainda é capaz de lhes agravar o problema, a erva dos canteiros nos passeios não é bem a mesma coisa que a erva dos campos.

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Aqui estão eles a semana passada, a perpetuar os estereótipos de género com a menina a usar cor de rosa .

No departamento de animais de exploração , tive hoje um pequeno desgosto com uma ovelha. Começam a nascer os borregos do ano, geralmente as noites de mau tempo são propícias a partos, esta manhã uma das minhas ovelhas “de raça pura” que eu esperava que parisse a qualquer momento estava deitada e com um pedaço de um cordeiro de fora. Liguei ao veterinário mas ele estava de serviço no matadouro e o colega não estava na ilha . Lá tive que ir ser parteiro pela primeira vez, não foi nada bom porque eram tri gémeos e já estavam mortos.  A “importação” destas ovelhas de raça apurada foi dos piores erros que cometi desde que aqui estou mas é assim , vai-se aprendendo e vivendo. Já chegaram 5 cordeiros e estão outros tantos para nascer a qualquer momento, se vingarem esses dez já não é mau de todo. Já se notam uns sinais ténues de primavera, e como sempre, já é mais do que desejada.

Mundo Canino

Às vezes dizemos “isto é um mundo cão” mas eu acredito que se isto fosse mesmo um mundo cão era  melhor do que é hoje, quanto mais não seja porque era mais simples e mais puro.

Quer-me parecer que a minha cadela Bruma, de nome completo Bruma Lombardi de Carvalho, é a excepção que confirma a regra que diz que os Border Collies são os cães mais inteligentes de todos, por esta altura e com o trabalho que faço com ela já devia saber mais alguma coisinha mas é uma cabeça no ar, tem a capacidade de foco de uma libelinha e é um feixe de nervos, só consegue parar quieta quando está a dormir.

Claro que assim que uma pessoa se queixa de que alguém não está a aprender bem a primeira coisa a fazer é olhar para o professor, e eu sou fraco professor, não só porque me falta muita teoria e experiência mas porque não sou disciplinador nem muito metódico, e é muito difícil castigar e ser ríspido a olhar para aquele focinho. De qualquer maneira, há progressos e evolução e sabendo que leva cerca de 4 anos a “fazer” um cão pastor, estou contente com a maneira como isto vai. É o que se pode arranjar.

Muito importante é ver confirmado que ela tem um interesse em ovelhas que não tem por mais nada. Quando há uma ninhada destes cães e se quer escolher os que são bons para trabalhar levam-se ainda em pequeninos ao pé de umas quantas ovelhas e observa-se a reacção, porque nem todos os cães são iguais e nem todos são mesmo bons para aquilo, mesmo desta raça. A partir do momento em que há uma ovelha à vista a Bruma não pensa em mais nada senão em ir lá dar-lhe a volta, completamente diferente de todos os outros cães que eu conheço e que já vi.  Não é um exagero nenhum dizer que lhe está no sangue. Basta ouvir uma ovelha a balir a 50 metros e levanta logo as orelhas, não quer saber muito de vacas nem de outros cães, nem de galinhas (a menos que comecem a correr) mas com as ovelhas, pronto, não vê mais nada.

Levo-a para todo o lado mesmo que ainda não a possa soltar ao pé das ovelhas, e no outro dia fomos como de costume à Costa ver umas que lá tenho, são essas 10 que se vêm aí em baixo.

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Essas pastagens estão  vedadas e quando ando por lá deixo-a solta , passa o tempo todo a fazer piscinas ao longo da rede a tentar entrar e é um bom exercício chamá-la de volta, mas ainda não está nesse ponto e havendo ovelhas não ouve nem vê mais nada. Nesse dia conseguiu enfiar-se por debaixo da rede, entrou nessa cerca e começou a correr à volta delas. Não sei se  a altura dessa falésia é aparente pela foto, mas não está vedado do lado do mar porque é a pique e até chegar lá abaixo, entrar na cerca e conseguir apanhar a cadela foi uma angústia porque já estava a ver as ovelhas todas a fugirem e mandarem-se da rocha abaixo em pânico. Pela minha experiência bastava ir uma e outras iam atrás, tinha sido uma tragédia, acho que se tivesse acontecido tinha mandado a cadela a seguir e abandonado a criação de ovelhas mas lá a apanhei e trouxe de volta.

Dentro de casa é outro tema diferente. Primeiro, não concebo de maneira nenhuma como é que há pessoas que vivem em cidades e têm Border Collies, a menos que não tenham um emprego com horas regulares e tenham grandes jardins onde o cão possa andar à vontade, porque eles não só não param como ficam neuróticos sem actividade e começam a destruir tudo. Um cão destes não pode de maneira nenhuma viver a vida toda num apartamento e sair só de trela e ser saudável e feliz, e como já vi alguns em cidades e sei que as pessoas gostam tanto dos seus cães como eu concluo que esses donos passam grandes sacrifícios, em termos de tempo, para lhes proporcionar actividade. Ou então não se importam de ter um cão neurótico que lhes destrói a casa na sua ausência, ou ainda há uma terceira hipótese, se calhar já inventaram um canal de televisão que hipnotiza os cães e os entretém, não me espantava nada, se já se faz com as crianças para as quais não há tempo nem paciência é normal que já haja para cães.

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A minha preocupação era com a convivência da cadela com o Rofe mas correu tudo bem, eu sabia que o meu cão era um pachola e já deixou para trás há muito tempo a excitação da juventude mas ainda não consigo ver sem ficar surpreendido e me rir a bom rir, a maneira como ela abusa dele e ele não se importa, especialmente na questão dos brinquedos. Parecem dois garotos. Dou um a cada um , ela prefere sempre o dele. Ele deixa-a levá-lo, ela perde o interesse em 5 segundos, ele pega-lhe, ela volta logo a querer o brinquedo e vai-lho tirar da boca, ele não se importa.

Assim que nasce o sol a Bruma salta-me para cima  e não me larga mais enquanto não lhes abro a porta, espero bem que isto mude quando ela crescer um bocadinho como o Rofe e aprenda a aguentar as suas necessidades porque não estou de maneira nenhuma interessado em continuar indefinidamente a levantar-me ao nascer do sol e além disso no inverno chove metade do tempo e se bem que eu só tenho que lhes abrir a porta depois entram-me os dois ensopados pela casa dentro e não é nada bom para o ambiente em geral mas já me convenci de que esta casa , pelo menos até à primavera, vai feder a cão, eu é que já não reparo.

Enquanto escrevo isto lembro-me de que ainda não lhe pus o chip nem fui registar à Junta,e também ainda não a vacinei, tem que ser entretanto, e olha, lembro-me também que já vai para três meses que o Rofe não tem um ataque de epilepsia que costumava ser regular. Por tudo isto, no mundo canino vai tudo bem, agora para o ano que vem tenho que ver se cabe aqui dentro um gato, não porque sinta muito a falta de um mas porque andam por aqui ratos demais para o meu gosto.

Notícias da Fauna

Primeiro as notícias más, morreu-me hoje uma ovelha,  fico sempre agoniado e triste por dias, e não é só porque aquela me custou muito dinheiro e esperava dela pelo menos duas ou três gerações. Fico triste porque as cuido desde pequenas, vejo-as todos os dias, inquieto-me se estão doentes, ainda gasto mais em cercas, rações, veterinário e medicamentos do que consigo  lucrar com isto , ou seja,  o lucro não é o meu principal objectivo, e depois se morre uma fico sempre consumido porque parece-me sempre  que havia mais alguma coisa que eu podia e devia ter feito e não fiz. E depois porque não é uma morte distante e abstracta, vi-a doente, vi-a  morrer e fui eu que a enterrei. Vá lá, não lhes dou nomes já por causa disso mas ainda não tenho anos e experiência suficiente nisto para encarar estas coisas como normais e nada de especial.

As notícias boas são do lado da outra espécie, os canis familiaris , a Bruma e o Rofe dão-se muito bem, ainda não ouvi um rosnar que fosse, fartam-se de brincar nas horas de corridas e exercício, consola ver. Partilham tudo, incluindo a minha cama, comem a mesma ração, a mais barata, sempre, que eu continuo imune à publicidade e desafio qualquer pessoa a olhar para os meus cães e achar-lhes defeitos que possam vir da alimentação. Se posso dar um conselho sobre isto é não tentem compensar a falta de exercício ou atenção aos  cães com comidas gourmet ou “científicas”. Os cães quase não têm paladar e desde que não tenham fome , não estejam doentes e estejam com os donos, estão contentes. A partir do momento em que veem o vosso cão (se o deixassem veriam, qualquer cão) a comer bostas de vaca com sofreguidão começam logo a pensar na racionalidade de lhe dar pedigree pal super vitamina ultra a 40€ o saco quando ao lado há outra a 15€ o saco. Já disse isto aqui há uns anos, se o cão se mostrar relutante em comer, é como um garoto que não quer comer bróculos, não digo para lhe dizerem que ou come ou leva uma estalada, como se fazia muita vez no tempo da barbárie (quando eu era garoto), digo para o deixarem ter fome suficiente até comer o que está, e daí para a frente não há problema.

Uma das partes mais básicas da educação da Bruma está feita, foi ensiná-la a não me cagar a casa toda durante a noite, e muitas manhã roguei umas pragas e disse para mim “é bem feito, gozas com os citadinos que têm que andar atrás dos seus cães a recolher a merda, agora fazes o mesmo mas pela casa toda, chupa”. O problema é que ela fazia sempre tudo a meio da noite, e a maneira de ensinar é apanhá-los em flagrante e fazer um escarcéu enorme. Resolvi o problema começando a dar-lhe a comida logo de manhã, assim ao fim do dia estava tudo digerido, antes da hora de dormir abro-lhes a porta , eles dão mais uns saltos e umas corridas, fazem as suas últimas necessidades e já não há “acidentes” pela casa durante a noite. Percalços, como  dizia a minha avó quando eu era pequenino e fazia chichi na cama, então tiveste um percalço? 

O Rofe além de ter um estômago de ferro que lhe permite digerir qualquer quantidade de quase qualquer coisa já sabe perfeitamente onde é que se fazem as necessidades e, mais importante que isso, sabe pedir para sair se há falha na rotina, falha essa que pode ser como hoje, comeram ossos gigantescos, fresquinhos,  e claro que adoram mas desarranja-lhes um bocado o estômago. E esta de saber pedir para sair já me está a dar a primeira dor de cabeça com a Bruma, que é esperta como uma raposa e  percebeu logo que se raspar a porta eu abro-a, e está a começar a aproveitar-se disso para sair só porque quer ir dar uma volta, mas vai ter que aprender que não é assim.

Na restante parte do treino…eu sei que tinha razão em querer um cachorro, ela tem menos de um ano mas já passou aquela fase ultra maleável dos poucos meses em que se “imprime” tudo num cão, já passou tempo demais sem regras nem exercícios nem aprendizagem nenhuma, mais uma vez como com uma criança, agora é mais difícil. Claro que o instinto está lá , é de partir a rir vê-la a arrebanhar galinhas, o Rofe quando fazia isso era para apanhar logo uma e comê-la , esta só as quer juntar. Tenho a ajuda preciosa do meu vizinho e amigo que é perito em cães, eu sou daqueles que se alguém me diz que é perito nalguma coisa pergunto “mostra lá resultados da tua peritagem” e tenho bastantes desacordos com ele, e algumas discussões mas em tudo sobre cães calo-me logo, baixo as orelhas e faço tudo o que ele me diz, porque conheci o anterior cão dele, conheço a cadela dele desde que nasceu e não preciso de ver mais nada. Pode não ter os métodos super fofinhos da modernidade mas adora os cães e sabe trabalhá-los e ensiná-los, tenho sorte de o ter aqui ao pé. Que não me falte a paciência e que não haja demasiados dias de chuva (boa sorte com essa…) para se poder treinar todos os dias. E também que a cadela não se mostre esperta demais , história comum entre os Border Collies que muito depressa encontram os pontos fracos dos donos e os conseguem manipular, e eu sou bem mais fácil de  levar por um bicho do que por uma pessoa.

Não tenho tirado fotos, ou melhor, tenho tirado algumas mas apago-as porque acho que não fazem juz à beleza e alegria destes bichos, tenho aqui este vídeo que acho muito bom, não é um apelo disfarçado a que me sigam no instagram,  é para quem tem curiosidade de os ver a serem felizes.

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Rofe & Bruma

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Sonho com um Border Collie há muitos anos, uma das razões pelas quais crio ovelhas é um certo fascínio com os cães pastores, e acho  um pastor a controlar um rebanho com um ou dois cães uma coisa linda, intemporal, a ancestral parceria entre homem e animal. Se isto vos interessa vagamente e dispõem de um tempinho, vejam este vídeo, mesmo sem perceberem o que homem diz percebe-se bem o que se passa.

Este senhor deve ter uns cinquenta anos de treinar cães pastores e isto é o nível supremo, mas mesmo sem se almejar alguma coisa parecida com o que ele faz, um cão moderadamente bem treinado, com quatro ou cinco movimentos básicos bem estabelecidos, já seria uma ajuda enorme para mim, para nem falar da satisfação disto tudo para quem gosta de animais.

Tenho um cão, tem agora 7 anos, é principalmente Labrador preto e tem um toquezinho de Rotweiller , é lindo mas falhei muita coisa na adolescência dele e hoje é um toleirão que não posso levar a lado nenhum, agora mais do que nunca estou contente por ter terras vedadas à volta de casa onde ele pode correr e andar à vontade sem aterrorizar ninguém. Ainda assim, se não houver ninguém por perto, ele fica  e vem e deita-se, sai e entra de casa  e  é um bom cão, o meu  Rofe. Mesmo não tendo conseguido fazer dele o que ambicionava, permitiu-me aprender muito sobre cães e o seu treino, e agora sei o que implica ter um cão em condições, e também sei o que implica ter um cão disciplinado.

O que os cães pastores  fazem melhor que os outros é uma espécie de afinação dos tais movimentos, ou ordens básicas que todos os cães bem ensinados sabem, como  fica, vem, deita e vai . Chegar a essa afinação, em que o “vai” tem que chegar a “rodeia devagar pela direita” dá muito trabalho e exige muita persistência e paciência, e eu já tenho que ter persistência e paciência em coisas que me cheguem para tomar esse compromisso. Além do mais um Border Collie é caro e dá trabalho a encontrar, porque tem que vir de um criador com ovelhas e idealmente descender de uma linha de pastores, porque há muitos Border Collies mas poucos são  pastores. O ano passado cheguei a entrar em contacto com um criador de S.Jorge e reservei-lhe um da próxima ninhada mas tive que cancelar mais tarde , o tempo não estava ( nem está…) para dispor assim de 350€ para dar por um cão, mesmo um cão “especial”.

Outro obstáculo era a condição das ovelhas, para treinar é precisa uma cerca boa de uma dimensão que permita às ovelhas correr sem se escaparem e uma meia dúzia sempre à mão para os treinos, coisas que só tenho desde hoje mesmo, o que é interessante.

Interessante porque ontem um lavrador daqui veio saldar um negócio que fizemos e disse que tinha outro a propôr-me: uma cachorra Border Collie com menos de um ano, veio do tal criador de S.Jorge e o dono não tem paciência nem vida nem conhecimento nem interesse nem jeito (isto sou eu a dizer, ele só me disse que o outro não queria ficar com ela). Trocava-ma por quatro ovelhas. Tive que aceitar, sei lá quando é que estou em condições de dar 350€ por um cão, agora tenho 30 ovelhas que mudam de pasto regularmente, divididas em grupos mais pequenos, ou seja, tenho condições para o treinar e posso dar-lhe a vida mais feliz para estes cães: trabalhar e ajudar.

As 4 ovelhas já foram esta tarde para a sua nova terra, e a cadela vem assim que eu lhe fizer uma casota. Há  dois grandes desafios, o primeiro é que já não é cachorra, eu sempre “fiz questão” de que o cão viesse com 3 ou 4 meses no máximo , sobretudo porque são as lições aprendidas e a ligação com o dono que nunca mais se esquecem quando nessa idade. O segundo é o Rofe, que não precisa de falar para eu saber que se lhe perguntasse o que achava de vir agora para aqui uma cadela ele ia dizer que era contra , sobretudo porque não faço tenção nenhuma de alguma vez o deixar saltar-lhe para cima. Se o Border Collie vive para o trabalho este vive para a  atenção, e vai ter que a dividir com uma recém chegada. Esta introdução e primeiro convívio não vai ser fácil, porque tal como o Rofe a cadela não é socializada e viveu este primeiro ano de vida amarrada num cubículo de betão, miserável para um cão que é hiperactivo por natureza. Nesse aspecto isto também é um bocado um resgate de um bicho. Vai ter que se habituar a mim e ao Rofe. Não deve haver muitas pessoas que comprem um cão, seja com  dinheiro seja com ovelhas, sem nunca o terem visto, mas eu sou assim , o que é que  hei-de fazer.  Chama-se Bruma.

 

 

Acordos

Há mais de um ano a Associação Agrícola anunciou que ia importar ovelhas INRA 401, quem estivesse interessado era só inscrever-se. Na altura tinha metade do número de animais que era o objectivo e possibilidade e em vez de  ir procurar mais ovelhas “locais” decidi investir e encomendei 5 fêmeas.

As INRA 401 ( este nome  tão poético é porque foram aperfeiçoadas Instituto Nacional de Investigação Agrícola francês) trazem  sempre gémeos, muitas vezes trazem  3 , são maiores e ganham mais peso do que “as outras” e ainda têm pelo menos outra particularidade, a cauda fininha e curta que evita ter que se cortar como se faz de costume às fêmeas.

Não encomendei um macho porque custa o dobro de uma fêmea  ( já  me queixei à  Comissão da  Igualdade de Género ) e porque dois lavradores de cá encomendaram machos. Esperava chegar a acordo com um deles para que o macho dele viesse cobrir as minhas ovelhas, e depois de algum tempo encontrei o senhor.

Nunca ouvi ninguém dizer uma palavra agradável ou positiva sobre esse lavrador, antes pelo contrário, e a primeira vez que falei com ele além de carrancudo como de costume não se mostrou nada receptivo, ofereci-lhe uma cria por um mês de serviço do macho, ele disse que ia pensar nisso e logo se via. Pensei que não ia resultar, um amigo  estrangeiro  aconselhou-me a oferecer-lhe 3 borregos em vez de um , uma vez que o resultado final do trabalho do carneiro podiam ser 10 eu ficava a ganhar largamente. Dei a esse meu amigo o desconto de ser estrangeiro e como tal até ter boas ideias mas não perceber muito bem  isto e decidi oferecer 2 borregos. Entretanto uma das ovelhas  novas morreu de repente e eu nunca soube porquê, o veterinário fez-lhe a autópsia ajudado por mim e nada.

Pouco depois disso encontrei o lavrador no café e antes que eu tivesse dito qualquer disse-me:

-Já estive a pensar , pode levar lá as ovelhas agora em Novembro.

-Ainda bem, e olhe , também estive a pensar melhor e decidi que o compensava com dois borregos em vez de um.

Nada me obrigava a isso mas por alguma razão não fui capaz de ficar caladinho e agradecido, como tinha decidido dar-lhe dois, assim ficou.

Lá passaram quase um mês  na que é para mim  a freguesia mais bonita desta ilha, a Costa do Lajedo,  misturadas com o carneiro da sua raça. Este intervalo de tempo é porque os cios das ovelhas vêm a cada 20 ou 30 dias, por isso deixando um carneiro junto com uma ovelha um mês inteiro é quase certo ela que passa por um cio, se o carneiro for competente a coisa dá-se.

Fui esperando Abril com bastante ansiedade  mas fui desanimando porque se duas estavam nitidamente prenhas, outras duas não davam sinal nenhum. A primeira pariu na noite de pior temporal deste ano, e apesar de eu ter feito uma cabana para se abrigarem foi parir mesmo no meio da pastagem , mais exposto não havia. Quando lá cheguei de manhã estavam as duas crias mortas.

Passados dois dias pariu a outra, essa fêmea preta e branca malhada da foto do post anterior e um macho branquinho. Safaram-se  bem, estão lindos e crescem mas não vou ficar com um nem outro, daqui a 3 meses, depois de desmamados, vou levá-los à Costa e cumprir a minha parte do acordo tal como o homem cumpriu a dele. O acordo foi mal feito, em vez de dizer “dois borregos” devia dizer “ ¼ dos borregos nascidos”  mas acordos são acordos pelo que a operação toda para mim foi um desperdício, uma certa tristeza e um prejuízo, mas assim é que se aprende e se queremos que nos respeitem e comerciem connosco temos que cumprir  o acordado, mesmo se o acordo se mostra desvantajoso.

As outras INRAS agora estão caldeadas com o meu carneiro indígena, as crias que eventualmente saírem dali vão valer metade do que valeriam se fossem de raça pura  (já  me tinham  encomendado duas…) mas  não interessa agora, e chegado ao Outono vou propor outra vez um acordo ao lavrador da Costa, mas desta vez um acordo mais bem pensado.

PS: Não posso deixar de expressar satisfação pelos resultados desportivos do Domingo passado, não o sucesso do FCP, que só por si nunca me agrada, mas pela vitória esforçada do Sporting e pelo modo clássico  como alguns  adeptos do SLB exprimiram o seu desagrado por terem perdido em casa e estarem a ver o penta a complicar-se: confrontos entre eles e com a polícia,  consola ver.