Acordos

Há mais de um ano a Associação Agrícola anunciou que ia importar ovelhas INRA 401, quem estivesse interessado era só inscrever-se. Na altura tinha metade do número de animais que era o objectivo e possibilidade e em vez de  ir procurar mais ovelhas “locais” decidi investir e encomendei 5 fêmeas.

As INRA 401 ( este nome  tão poético é porque foram aperfeiçoadas Instituto Nacional de Investigação Agrícola francês) trazem  sempre gémeos, muitas vezes trazem  3 , são maiores e ganham mais peso do que “as outras” e ainda têm pelo menos outra particularidade, a cauda fininha e curta que evita ter que se cortar como se faz de costume às fêmeas.

Não encomendei um macho porque custa o dobro de uma fêmea  ( já  me queixei à  Comissão da  Igualdade de Género ) e porque dois lavradores de cá encomendaram machos. Esperava chegar a acordo com um deles para que o macho dele viesse cobrir as minhas ovelhas, e depois de algum tempo encontrei o senhor.

Nunca ouvi ninguém dizer uma palavra agradável ou positiva sobre esse lavrador, antes pelo contrário, e a primeira vez que falei com ele além de carrancudo como de costume não se mostrou nada receptivo, ofereci-lhe uma cria por um mês de serviço do macho, ele disse que ia pensar nisso e logo se via. Pensei que não ia resultar, um amigo  estrangeiro  aconselhou-me a oferecer-lhe 3 borregos em vez de um , uma vez que o resultado final do trabalho do carneiro podiam ser 10 eu ficava a ganhar largamente. Dei a esse meu amigo o desconto de ser estrangeiro e como tal até ter boas ideias mas não perceber muito bem  isto e decidi oferecer 2 borregos. Entretanto uma das ovelhas  novas morreu de repente e eu nunca soube porquê, o veterinário fez-lhe a autópsia ajudado por mim e nada.

Pouco depois disso encontrei o lavrador no café e antes que eu tivesse dito qualquer disse-me:

-Já estive a pensar , pode levar lá as ovelhas agora em Novembro.

-Ainda bem, e olhe , também estive a pensar melhor e decidi que o compensava com dois borregos em vez de um.

Nada me obrigava a isso mas por alguma razão não fui capaz de ficar caladinho e agradecido, como tinha decidido dar-lhe dois, assim ficou.

Lá passaram quase um mês  na que é para mim  a freguesia mais bonita desta ilha, a Costa do Lajedo,  misturadas com o carneiro da sua raça. Este intervalo de tempo é porque os cios das ovelhas vêm a cada 20 ou 30 dias, por isso deixando um carneiro junto com uma ovelha um mês inteiro é quase certo ela que passa por um cio, se o carneiro for competente a coisa dá-se.

Fui esperando Abril com bastante ansiedade  mas fui desanimando porque se duas estavam nitidamente prenhas, outras duas não davam sinal nenhum. A primeira pariu na noite de pior temporal deste ano, e apesar de eu ter feito uma cabana para se abrigarem foi parir mesmo no meio da pastagem , mais exposto não havia. Quando lá cheguei de manhã estavam as duas crias mortas.

Passados dois dias pariu a outra, essa fêmea preta e branca malhada da foto do post anterior e um macho branquinho. Safaram-se  bem, estão lindos e crescem mas não vou ficar com um nem outro, daqui a 3 meses, depois de desmamados, vou levá-los à Costa e cumprir a minha parte do acordo tal como o homem cumpriu a dele. O acordo foi mal feito, em vez de dizer “dois borregos” devia dizer “ ¼ dos borregos nascidos”  mas acordos são acordos pelo que a operação toda para mim foi um desperdício, uma certa tristeza e um prejuízo, mas assim é que se aprende e se queremos que nos respeitem e comerciem connosco temos que cumprir  o acordado, mesmo se o acordo se mostra desvantajoso.

As outras INRAS agora estão caldeadas com o meu carneiro indígena, as crias que eventualmente saírem dali vão valer metade do que valeriam se fossem de raça pura  (já  me tinham  encomendado duas…) mas  não interessa agora, e chegado ao Outono vou propor outra vez um acordo ao lavrador da Costa, mas desta vez um acordo mais bem pensado.

PS: Não posso deixar de expressar satisfação pelos resultados desportivos do Domingo passado, não o sucesso do FCP, que só por si nunca me agrada, mas pela vitória esforçada do Sporting e pelo modo clássico  como alguns  adeptos do SLB exprimiram o seu desagrado por terem perdido em casa e estarem a ver o penta a complicar-se: confrontos entre eles e com a polícia,  consola ver.

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Um Parafuso a Menos

Há duas ferramentas que aqui toda gente que tenha mais terra do  que um jardim possui na arrecadação, quer tenha animais quer não : uma motosserra e uma roçadora. A primeira tem mais uso no Inverno, a segunda no Verão quando a monda parece que cresce diante dos nossos olhos. Usa-se a roçadora para limpar terras bravas e de cada vez que os animais acabam de comer determinada pastagem, passa-se a máquina para cortar as ervas de que eles não gostam, e também para simplesmente aparar a relva nos jardins e quintais. Já as motosserras trabalham mais no Outono e no Inverno, eu uso a minha para cortar lenha e quase todos os dias para cortar incensos. Como falo aqui várias vezes de incensos cabe  explicar que não estou a falar dos incensos orientais que se queimam em pauzinhos para aromatizar, estou a falar do Pitosporum Undulatum, uma árvore que se encontra por toda ilha, cresce rápido,  diz a wikipedia que é nativa da Austrália , aqui estão muitas imagens.

Em S.Miguel usa-se na cultura do ananás, faz uma espécie de cama orgânica onde eles crescem, e também se usa  para camas do gado. Em certas ilhas (e aqui também) produz-se mel de incenso, se o encontrarem à venda comprem-no todo porque dificilmente encontrarão melhor e mais puro, feito por abelhas que quase só se alimentam dessas flores e passam as vidas sem cheirar nem comer nada que não sejam flores. Não sei se também acontece nas outras ilhas mas aqui também se dá incenso a comer aos animais, as minhas ovelhas fartam-se de comer folhas de incenso não porque eu lhes queira muito variar a dieta mas para completar a alimentação, no Inverno não há erva que chegue, um saco de ração ainda são quase 15€ pelo que quase dia sim dia não vou cortar incensos, em terras minhas, em terras emprestadas e em terras onde me dão autorização para isso. Por razões óbvias não se corta uma tonelada de uma vez e se guarda, pode parecer que não mas as ovelhas são bastante esquisitas e preferem as folhas frescas.

 

Como lenha para aquecimento o incenso já não é grande coisa mas não se pode ter tudo, e tenho sempre uma  reserva de lenha  cortada em pedaços pequeninos para caber na salamandra, que é à mesma escala do resto das coisas. Como a alimentação para os animais e o aquecimento estão muito alto na lista das prioridades  (aqui muito raramente baixa dos 14º mas eu sou friorento e além disso gosto de ficar meio mesmerizado a olhar para o lume), a motosserra é a ferramenta essencial do Inverno. Recentemente comprei uma terra nova que tem uma matazinha, tenho lá lenha para cortar para  anos, e como o meu ritmo de trabalho é, para ser caridoso, um tanto  lento, também aí há quase todos os dias trabalho para a motosserra.

Como na altura tinha essa possibilidade decidi investir na melhor motosserra que há, é uma Stihl , passe a publicidade e desculpem os fãs da Husqvarna,  podia ter comprado uma chinesa por metade do preço mas que duraria um quarto do tempo. Como não podia deixar de ser é a mais pequena da gama mas é excelente, serve-me  perfeitamente  e nunca me falhou, mas não há material nenhum que resista à falta de jeito do operador e de alguma maneira que ainda não percebi bem arranjei maneira de entortar o parafuso que ajusta a tensão da corrente.

Não é um parafuso standard, sem surpresa não tinham na loja de materiais de construção e ferragens aqui, nem na outra vila, nem na Associação de Agricultores. Acontece frequentemente não haver algum artigo, especialmente com peças para  carros, não há em lado nenhum e demora sempre no mínimo dos mínimos 15 dias a chegar de fora. Quando os CTT eram públicos era assim, agora que foram privatizados…é igual.

Na Associação encontrei um amigo que me disse que de certeza que tinha disso, ele é auto didacta da mecânica e guarda os parafusos todos, lá fomos à garagem dele.

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Não é bem uma agulha num palheiro mas é um parafuso m5 com dois terços de rosca, como é normal havia naquela gaveta quase todas as medidas e formas de parafuso conhecidas do Homem menos essa. Com um torno, uma lima, boa vontade e aquela vantagem enorme de nos conseguirmos desenrascar com uma aproximação recuperámos o parafuso e tenho outra vez a motosserra funcional, mas não pode ser permanente, primeiro porque qualquer parafuso torto e depois endireitado está comprometido, depois porque com coisas como motosserras não se brinca nem facilita.

Ontem houve um acidente mesmo aqui ao pé de casa, um tipo que ia perdido de bêbado passou para fora de mão e bateu noutro de frente (sei que estava perdido de bêbado porque 15 minutos antes estava no mesmo café que ele) ficou encarcerado e a ambulância e os bombeiros vieram do outro lado da ilha  (aqui  há quartel mas não há equipamento de prontidão) eu estava lá quando os chamaram e demoraram quase 45 minutos , pelo que é bom que o pessoal aqui não tenha ferimentos que não permitam aguentar 45 minutos.

Estava a falar disso com um amigo no outro dia, se me acontece alguma aí numa ribeira ou numa combrada por causa de um desiquilíbrio ou de uma falha (por exemplo um parafuso numa motosserra), é bom que consiga sair pelo meu pé, porque primeiro que alguém dê pela minha falta  pode demorar dias, depois chegar ao centro de saúde é outro problema, e se não der para ser remendado lá tem que se ir de avião para o Faial pelo que é bom fazer tudo com calma, ter muito cuidadinho onde se pisa e onde se agarra e ter a certeza de que os parafusos estão todos em ordem.

Há  visitantes e admiradores da ilha que apontam como principal  obstáculo a instalarem-se cá,  o que os anglo saxões chamam dealbreaker,   a falta de um hospital, a ideia de ter um problema grave e não ter assistência é-lhes inconcebível. Eu respondo que se vive aqui  há 500 anos, criaram-se gerações e viveram-se vidas tão seguras e felizes ou inseguras e infelizes como noutros sítios, e que todos os dias morrem dezenas de pessoas num raio de poucos quilómetros dos melhores e mais equipados hospitais. De qualquer maneira encomendo o parafuso novo, não há que viver com medo mas não há que facilitar.

Sobre a Fauna

Para me lembrar de que está o Inverno à porta, ontem pela primeira vez tive que sair de casa debaixo de vento forte e chuva grossa para ir tratar das ovelhas. Para me lembrar das características do clima destas ilhas, assim que voltei a casa, ensopado e mal disposto, abriu o céu, brilhou o sol e tivémos um resto de manhã radioso, para à tarde voltarem os aguaceiros mas já sem vento. Cliché Açoriano #3 : as 4 estações num só dia.

As ovelhas, além da despesa e do trabalho que ultrapassam em muito a rentabilidade, dão-me preocupações. Tenho agora 11, uma com diarreia, já este ano me morreu outra, fizemos-lhe a autópsia e o veterinário não conseguiu descortinar a causa da morte. Tenho uma que teve que ter uma pata amputada e agora, ao contrario das outras, tem  muito medo de mim. As ovelhas reconhecem rostos, todo o tempo em que teve a pata doente eu dava-lhe injecções e  limpava-lhe a ferida, segurei-a quando se fez a cirurgia e depois mudava-lhe o penso, tudo coisas dolorosas portanto a ovelha associa-me a dor, obviamente que não percebia o que eu estava a fazer nem se convencia com o que eu lhe ia dizendo e agora  quer-me é longe. Tenho curiosidade em saber se vai ser sempre assim ou se à medida que os anos passarem ela perde o medo.

Há uma história a que acho muita graça e que já vi muita vez repetida como se fosse original, de quem ouviu mesmo isto : num parque público está um gajo com um cão e às tantas ouvem-no a dizer alto NÃO! e depois baixinho:   ja tínhamos falado disto…rio-me sempre porque falo muito com a minha bicharada. Ao gato, que é muito vadio, é  quase todos os dias quando o encontro:  Ó Moby, tás aí? e ele olha para mim com aquela expressão de gato que poderia perfeitamente querer dizer o que é que te parece? e de cada vez que ele volta a casa pergunto-lhe onde é que andaste? já quase como reflexo. Depois rio-me e penso que enquanto tiver consciência de que estou a falar com um bicho que não me responde nem percebe, não estou a ficar maluco.

Já com o cão as conversas são mais do género do outro: já tínhamos combinado, pá! ou já devias saber bem que não. O cão tem seis anos, nunca , mas nunca comeu nada da mesa mas isso não o impede de se ir sentar a olhar para mim quando estou a comer, na esperança de que caia alguma coisa.Nunca caiu nem vai cair, ele só come na tigela dele ou na cozinha, onde aí sim, de vez em quando cai alguma coisa, mas esperar ao meu lado quando estou à mesa chateia-me. Mas tás à espera de quê? Ele não perde a esperança.

A antropomorfização  é uma realidade muito presente nos animais de estimação  (já vi escrito que agora  em  Portugal também se começou a dizer pets, se alguem me disser isso pessoalmente não vai ser bonito de ver) e agora há uma corrente animalista que acha incorrecto e porventura opressivo que nos designemos como donos dos nossos animais pelo que o termo correcto é tutor. Não, aqui não, nem em sítio nenhum que eu conheça e respeite, eu por exemplo tenho três galinhas que são de estimação e não minha tutela, são minha propriedade tal como era o galo que agora está na arca congeladora porque nunca se soube comportar decentemente.  Os bichos compram-se, vendem-se , criam-se e são nossos, a posse não tem nada a ver com o modo como se criam e tratam, dizer que não somos donos é equiparar os bichos a pessoas com um destino, vontade, personalidade, potencial   e caminho próprio, isto talvez vá ser verdade no futuro mas comigo esse futuro está longe.

Duas dessas galinhas só estão vivas porque lhes acho alguma piada e vão limpando a horta, porque foram compradas (não apareceram aqui de livre vontade nem me escolheram para tutor) para pôr ovos. Por razões que não conheço deixaram de pôr ovos há meses e os ovos que puseram na vida toda não pagavam o que já gastei em rede de galinheiro quanto mais em milho. Voltei a comprar ovos e deixei de me preoucupar, ficam para ali, também não é o milho que elas comem que me vai arruinar.O galo foi executado porque era mau como as cobras, além de me perturbar o sossego aos gritos ao pé da janela atacava tudo o que se mexesse, até o cão, perdi a paciência. Tenho duas gaalinhas no galinheiro e outra que é mesmo de estimação, primeiro porque também foi criada desde pinto, depois porque e linda , de um preto brilhante , uma beleza ao pé das outras pindéricas de pescoço pelado . Depois porque desde pequena que as outras duas lhe fazem a vida negra, sempre a atacá-la, a não a deixar comer, enfim, umas miseráveis. Isto teve um belo desenvolvimento, que foi que a preta cresceu e consegue voar. As outras duas não, estão no galinheiro, a preta vai lá quando há distribuição de milho, come e vai-se embora, é livre. Já a vi em cima de árvores e fiquei muito impressionado, mas o que acho mais piada é que é amigalhaça das ovelhas, anda quase sempre com elas, é muito engraçado.

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A história das galinhas mais velhas infernizarem a preta lembra-me de outra ideia falsa que é a da pureza e uma certa bondade do mundo natural, muito cara aos hippies e aos seus sucessores, aquela noção que equipara o natural ao bom e com a qual eu sempre tive problemas. Na Primavera passada uma das ovelhas pariu gémeos e recusou um, partia o coração ver o cordeiro desesperado a tentar chegar-se à mãe e ela a afastá-lo, às patadas se fosse preciso.Isso também é o mundo natural, ninguem sabe porque é que isso acontece mas acontece. É bom que nos lembremos, com todo o nosso amor e dedicação aos animais, da Lei da Selva que e muito real e  não se chama assim por acaso. Existem muitos exemplos de cooperação entre animais mas são todos explicáveis na logica da perservação do grupo e reprodução da espécie, é esse o mecanismo, que eu saiba não há outro e se há, espero conhecê-lo porque estou sempre desejoso de aprender sobre estes temas.

Se eu morresse aqui  e ninguém viesse buscar o cadáver, em menos de 48 horas  o meu Rofe e o meu Moby queridos começavam a comer-me, em menos tempo do que isso  se houvesse sangue e feridas abertas. Isto é um bocado macabro mas a Vida é muitas vezes macabra , os bichos não se compadecem nem têm as nossas medidas nem noções, isto é óbvio mas não para todos.

 

Ainda sobre bichos, soube hoje que os toureiros e as touradas não pagam IVA, e acho uma vergonha. Soube porque o Bloco de Esquerda (que volta e meia me lembra de que mesmo um relógio parado está certo duas vezes ao dia) apresentou uma proposta para acabar com isso. Não consigo encontrar nenhuma razão para isentar toureiros e touradas de pagar IVA, e mesmo que tivesse sido  uma medida introduzida   discretamente por debaixo da mesa há anos, aqui estava a oportunidade de corrigir isso, entre muitas outras razões porque estamos em 2017. A proposta foi chumbada por todos os outros partidos. Que o CDS, a casa natural dos marialvas, votasse contra, entendo. Que o PSD votasse contra, também não surpreende muito. O PS votou contra porque a isenção foi dada por eles no tempo do Sócrates e eles não só não têm vergonha do que andaram a fazer nessa altura como até têm um certo orgulho. Agora porque raio é que o PCP, que até se coliga com os Verdes, é a favor da isenção do IVA para toureiros e touradas já é para mim mais misterioso…a menos que a razão seja a relutância em viablizar alguma coisa do Bloco.É sabido que entre os comunistas a ideologia vem antes de tudo.

Até entendo e aceito que não se proíbam touradas, mesmo que aquilo me repugne. Que não paguem IVA , quando neste país até os medicamentos de doenças crónicas pagam, já é um bocado ofensivo. Muito gostava eu de ver os partidos a explicar a razão de terem votado contra esta proposta do Bloco.

Cirurgia Ovinícola

Fiz um investimento em cinco ovelhas de raça apurada, daquelas de escandalizar os hippies, chamam-se INRA401 e foram “desenvolvidas” pelos franceses.Trazem sempre gémeos, muitas vezes trazem três crias e crescem mais depressa que as outras. Desde que as encomendei até chegarem foram quase 5 meses e como não podia deixar de ser chegaram na altura mais inconveniente de todas, no mesmo dia em que eu ia apanhar um avião para o Faial.

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Estava no porto às oito da manhã mas só as pude tirar  do contentor às 11, foi um dia muito difícil porque três delas fugiram quando estava a chegar a casa. Vieram  do Alentejo, é difícil encontrar região do país mais diferente disto, vinham de uma viagem de muitos dias num contentor, vinham enervadas e aterrorizadas e assim que se  apanharam com uma aberta largaram-se a fugir pelos campos fora , acabando duas delas no fundo de uma ribanceira de uns 15 metros, de onde eu nunca mais as conseguia tirar  sozinho, mesmo que não estivesse a duas horas de ter que estar no aeroporto.

Quem tem amigos tem tudo, pedi ajuda  e fui socorrido, estava a entrar no avião quando me mandaram uma mensagem a dizer que já estavam salvas e no seu sítio.

Quando regressei cinco dias depois uma delas tinha embrulhado uma das patas na corda que a prendia, tínha-lhe cortado a circulação e feito uma ferida e nunca mais recuperou.Desde então comecei a dar-lhe uma injecção de antibióticos por dia por indicação do veterinário, e a desinfectar a ferida mas sempre muito pessimista e ralado com a situação, a ver aquilo a piorar.

Diziam-me que o melhor  a fazer era metê-la na arca, por causa das despesas do veterinário e dos curativos  mas não, não era só por ter sido  muito cara mas também porque acho que se ela podia viver eu devia fazer o que pudesse. Em última análise a culpa era minha, o bicho não se embrulhou por querer embrulhar-se, foi porque a deixei com essa possibilidade e não a fui ver, ou melhor, não arranjei  as coisas de modo a que alguém a fosse ver todos os dias.

O veterinário foi  vê-la ao fim de uma semana e disse logo que a pata estava para lá de salvação, marcou-se a cirurgia para o dia seguinte, lá fui todo nervoso. Não tenho muito estômago para feridas e sangramentos e sofrimento, não é propriamente desmaiar a ver sangue mas fico sempre um bocado arrepiado. Como nunca tinha visto nada assim e estou farto de ver crueldades para com bichos ia preparado para que a amputação fosse sem anestesia, para aguentar a ovelha a olhar para outro lado enquanto o veterinário fazia o que tinha a fazer, mas se bem que fiquei um bocado incomodado a ver de perto a ferida já a criar bichos e a alastrar fiquei logo descansado ao ver primeiro a parafernália médica que o veterinário trouxe e depois porque não só lhe deu uma injecção de anestesia local como lhe deu outra quando viu que uma não bastava. Mais uma data de instrumentos  e produtos químicos, mais uma ocasião para me lembrar que a modernidade é assassina e insensível, as multinacionais farmacêuticas são horríveis, os modos ancestrais de criar gado é que eram bons e puros e que dantes tudo era melhor, incluindo abater  qualquer animal que se ferisse. O belo mundo antes dos antibióticos, desinfectantes  e anestesias.

Segurei a ovelha e fui olhando para o lado enquanto o veterinário limpava a ferida e preparava o corte mas depois tive mesmo que meter as mãos no sangue e segurar a pata enquanto ele serrava o osso e depois fechava a ferida com pontos. Foi mais fácil (para mim) do que eu pensava , mais uma vez me ajudou  ir preparado para o pior a pensar que ia ser muito difícil, fiquei bem contente, depois de feito o penso a ovelha levantou-se e foi ter com as outras e eu mais aliviado ainda fiquei com a conta, também aí ia preparado para levar uma marretada valente mas fiquei surpreendido , primeiro porque percebo  e dou valor ao que é preciso saber para chegar ali e fazer uma coisa daquelas, depois porque durou quase uma hora e mais ainda pela maneira calma, segura e atenciosa do veterinário, ia preparado para pagar o dobro ou mais , não sei se é aquela a tabela ou se tive desconto por ser…não me estico  a dizer “amigo da família” mas pelo menos sou conhecido, se teve alguma  influência ou não não sei, sei que voltei a casa satisfeito por ter corrido bem, por   a ovelha ter-se safo e deixar de sofrer mesmo ficando coxa e por não me ter custado os olhos da cara, digo isto porque sei que uma cirurgia daquelas num cãozinho em Lisboa custava pelo menos 3 vezes mais.

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Já está a comer melhor, a recuperar peso ( isto foi há 4 dias) e corre como as outras . Tenho agora 10 ovelhas, um carneiro e dois borregos que já estão vendidos, tudo de boa saúde e com as vacinas em dia. O número é ridículo para um ovinicultor alentejano, por exemplo, mas para aqui já é respeitável, já só me falta uma coisa: o cão, ou melhor, a cadela pastora que comecei a procurar e tratar, há-de vir para o ano de S.Jorge.

 

O Busílis

bu·sí·lis 
(origem duvidosa)

substantivo masculino 

Parte mais importantemais central ou mais difícil de algo.

CERNEDIFICULDADE

 As touradas e a Venezuela são duas discussões  que me têm ocupado algum tempo, não parece à primeira vista mas são discussões com coisas em comum, nomeadamente o problema de não se ir  ao cerne, ao fundamental , ao busílis da questão.

Quanto às touradas, partilhei uma peça sobre touros de fogo , uma prática milenar no país vizinho que consiste em pegar fogo aos cornos de um touro e largá-lo a correr pelas ruas. Como é à noite o efeito visual é mais forte, e faz sempre parte de alguma festa em honra de um santinho qualquer. Deve vir lá nos escritos ancestrais do cristianismo que não só o Homem deve dominar as outras espécies como está autorizado a atormentá-las à vontade. Um dos santos , um italiano chamado Francisco , era muito amigo dos animais e consta que andava por todo a lado a dizer que éramos todos criaturas de Deus e devíamos ter compaixão mas ainda há muito católico que não lhe passa cartucho. Tem uma ordem em seu nome e  o actual líder mundial dos católicos adoptou o seu nome mas em religião a  coerência dos fiéis é uma coisa um pouco rara. As mesmas pessoas que vão a uma missinha no Domingo de manhã à tarde são capazes de ralhar  contra os pretos e os gays e os refugiados e à noite vão ver touros a correr com os cornos a arder.

O Papa Francisco disse num tweet (e num encíclica, calculo) : É contrário à dignidade humana fazer animais sofrer ou morrer desnecessariamente”. Sucede que os católicos são especialistas em escolher as partes que lhes interessam e descartar as que não lhes agradam ou não lhes dão jeito. Se houvesse moral nisto e se essa gente tivesse integridade na Fé ouvia o que diz o Papa e bania imediatamente touradas e outras brincadeiras que consistem em atazanar animais para diversão, e falo no Papa porque por alguma razão todos os países onde há “tauromaquia” são católicos e aposto o que quiserem que a esmagadora maioria dos aficionados se define como católico.

A verdade que eu vejo é esta : qualquer espectáculo tauromáquico consiste em atazanar o touro para lhe provocar comportamentos que divertem as pessoas . Já pedi várias vezes a pessoas que gostam de touradas que me digam se estou errado, que me corrijam , que me iluminem, mas até hoje ainda não ouvi nem li nem vi  ninguém honesto que possa negar isto.Os argumentos em defesa da tauromaquia são sempre os mesmos:

-É uma tradição cultural milenar

-Há muitas pessoas que gostam

-Envolve muito dinheiro

– É para isso que se criam touros bravos

Dão-me estes argumentos e esperam que por isso se continue a tolerar e promover o que são sem sombra  de dúvida  maus tratos a animais como espectáculo. A escravatura, o tráfico de droga,a prostituição infantil, a caça a espécies protegidas e até a guerra pode ser defendida com os 3 primeiros argumentos, quanto ao último, desculpem lá mas entre criar uma raça só para a atormentar e não a criar…a escolha não me parece complicada.

Na Idade Média  e até ao início do século XIX, atiçavam-se cães a touros e ursos e a populaça aplaudia. Há uma  noção fantástica , negada pela Igreja até lhe ser possível, que é a Evolução, e a Evolução não é só um conceito biológico, é também social e cultural. Começou a olhar-se de modo diferente para os cães e hoje em dia em qualquer país civilizado se alguém quiser  promover uma luta de cães ou de cães contra touros vai  preso. Para os touros ainda se olha como em 1600, bestas bravas que devem e podem ser “lidadas” e enfernizadas para diversão.

Ainda espero ver  e ouvir um aficionado a admitir honestamente : é verdade, os touros sofrem e são afligidos, é essa aflição do touro que provoca o espectáculo, e eu não me importo com isso, não me importo e até gosto de ver um touro a ser atazanado e a reagir. É esse o busílis da questão, admitam.

 

O outro tema é a Venezuela e o caos que lá grassa. Ouço e leio muitos argumentos , dizem-me que dantes era  pior, nos governos da oligarquia. Para os comunistas e pessoas que são comunistas mas têm uma certa vergonha de se designarem como tal apesar de não apresentarem designação alternativa (tipo o Sousa Santos), a minha questão  é esta, e bem simples  : Se Chavez foi eleito em 1999, se o chavismo governa a Venezuela há 18 anos, como é que a responsabilidade da situação é da oposição ou do estrangeiro?

18 anos de poder , incluindo uma nova constituição que foi saudada como triunfo do socialismo, e o que há  para  mostrar é isto? Os nossos socialistas mandam há dois, aceito sem problemas que muitos dos falhanços e fracassos se devam ao que vem de trás, mas 18 anos? Mas estão a brincar com isto? Se 18 anos de poder quase absoluto não chega para criar alguma coisa que se veja, se em 18 anos 75% das pessoas estão contra o governo e um maço de notas não compra um pão, quando há pão, a culpa é dos outros? Quanto tempo é preciso a um projecto socialista para se impor e resultar? 30 anos? 40?

E a oposição, e aqui é que está o busílis desta questão, a oposição tem direito a existir ou não? É que na Venezuela, ainda no tempo do Chavez, fechavam-se jornais e TVs que fossem do contra, metiam-se políticos na cadeia e correligionários nas empresas, censuravam-se as notícias, desfavoreciam-se oponentes políticos, cerceavam-se liberdades e , tal como hoje, perseguia-se , insultava-se e prendia-se a oposição. Queria ouvir de uma vez por todas um comunista, bolivarianista ou parecido a admitir que a oposição não se pode permitir, porque é isso que é evidente: não se dá espaço, não se dá voz , não se admite que haja quem seja contra.

Dos portugueses adeptos deste marxismo tropical que deixou a Venezuela como está, só se ouve que a oposição e os protestos são  manipulados (gostava de saber como é que se manipulam 75% da população de um país para ser contra um governo benevolente e competente mas essa parte já não explicam)  e chamam democracia a um regime que não tolera oposição. Esse é que é o busílis.

Tal como no caso das touradas, gostava de ver um comunista ter a coragem de admitir o cerne na questão:  não se pode dar espaço nem representação nem poder a quem é contra o governo, só pode haver um partido .

É uma tristeza e uma vergonha.

Material de guerra

Não sei se o Presidente já foi a Tancos abraçar o pelotão que estava escalado para sentinela naquela zona naqueles dias e confortar os soldados, que fizeram o que podiam. Não sei se as televisões arrancaram em manada para directos de Tancos e arredores,  filmar a vedação, ouvir o Presidente da Câmara de  Vila Nova da Barquinha  e não haverá falta de populares para declarar que sempre viveram ali ao pé do Polígono e não se lembram de nada assim. Podem ir um bocadinho mais abaixo a Almourol fazer uma peça de grande valor cénico sobre o simbolismo do Castelo  nos conflitos que ainda hoje exasperam os fundamentalistas islâmicos, que são senão os autores deste roubo pelo menos os seus receptadores prováveis.

Tanto quanto sei, alguém furou a vedação, percorreu 600 metros até aos paióis, arrombou as portas e foi-se embora pelo mesmo caminho , com um arsenalzinho : “ Para além das granadas de mão ofensivas e das munições de 9mm, foram também detetadas as faltas de “granadas foguete anticarro”, granadas de gás lacrimogéneo, explosivos e material diverso de sapadores, como bobines de arame, disparadores e iniciadores”. 

A primeira coisa que me veio à cabeça foi que se tivessem cães lá , mais cães, seria muito mais difícil atravessar 600 metros de perímetro em ambas as direcções , quanto mais chegar-se a um paiol que fosse designado área a proteger. O meu cão não se pode comparar aos cães militares e se mexe alguma coisa num raio de 100 metros ele  fica logo atento. Sou só um curioso destas coisas mas sei que Tancos é a casa dos Paraquedistas, a arma que por excelência é  a mais devotada e melhor com os cães.

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Na Escola de Tropas Paraquedistas há uma Companhia de Cães de Guerra, que não sendo como os outros cães têm habilidades e capacidades que muitas vezes só não são mais utilizadas por falta de treinadores e “manejadores” , se eu pertencesse a uma unidade de cães e o perímetro fosse violado assim ia fazer algumas perguntas sobre se se estava trabalhar e utilizar os cães da melhor maneira.Dentro dos limites que os militares têm para questionar as coisas, claro está… Isto é um aparte de um gajo que gosta de cães , porque um sistema de video vigilância sai mais barato, come menos , não fica doente nem precisa de treino nem exercício nem horas de dedicação humana. Ainda assim, se fosse eu o responsável por paióis de material de guerra , mesmo com um sistema de video vigilância que funcionasse, “largava”  os cães muito regularmente.

Voltando ao arsenal roubado,  é medonho , e é possível que esse material hoje já esteja em Estocolmo ou Viena, meia dúzia de  elementos que saibam mexer naquilo bastam para levantar um inferno no meio de qualquer cidade. Talvez os apanhem,talvez vá morrer gente em explosões provocadas por material pago pelo contribuinte português para a defesa da Nação. É grave. É outra demonstração de que o Estado não está à altura das suas responsabilidades mais básicas, neste caso assegurar o controle  e segurança das armas de guerra , não há muito mais básico que isto.

Este roubo não é , ao contrário do incêndio de Pedrógão, um caso de má organização estrutural, incompetência e descoordenação no terreno que exige uma demissão ou seis, mas não deixa de ser uma tragédia potencial que resulta de cortes no financiamento de coisas básicas como vigilância a instalações militares. Já vi que do lado da esquerda se diz que os subsídios aos colégios privados davam para pagar  vigilância do melhor e do outro lado que os aumentos a funcionários públicos também.  Pela ordem de ideias destas pessoas, é legítimo retirar recursos às causas que valorizamos menos, ou nada , para os alocar a causas que nos são mais queridas e isto para mim não é maneira muito racional de pensar no Estado.

Espero bem que encontrem o material roubado, de preferência junto de quem o roubou, e que se fique a saber a história toda antes de morrerem não sei quantos.  Também gostava que mais uma vez outra falha clara do Estado servisse para se pensar nas suas funções. Fazer bem as contas e tentar perceber se o Estado está a deixar de cumprir funções básicas para cumprir outras menos essenciais. Da minha parte gosto que o essencial esteja assegurado antes de passar ao acessório, mas eu sou um bocado esquisito.

Verão

Começa hoje o Verão e bombeiros, empregados das televisões e jornais e alguns jornalistas estão preparados para mais uma época num país em que a época dos incêndios é como uma época desportiva, sabe-se que vai sempre haver jogos e espectadores e audiências  nesta altura.Não me vou alongar muito sobre isto porque receio bem que toda a gente esteja saturada do tema, quero só lembrar umas coisitas:

– Noutros países da OCDE (para nos separar do verdadeiro terceiro mundo) já houve governos a cair por causa de respostas falhadas a catástrofes naturais ou humanas. No nosso caso acresce que a pessoa que nesta altura nos lidera foi, entre vários outros cargos, Ministro da Administração Interna, com  responsabilidade directa sobre o combate aos fogos. Ardeu antes dele, durante e depois, pelo que podemos perguntar o que fez ele pela resolução do problema , além de assinar ajustes directos para comprar equipamento deficiente por fortunas? Também foi ministro da Justiça, que também tem alguma coisa a dizer sobre o problema, e agora é o primeiro dos ministros, pelo que num mundo sério o dr. Costa teria muitas explicações para dar e contrição a mostrar. Não esperemos nada, a ter falhado alguém foram outros, nomeadamente o governo anterior. O governo anterior ao governo anterior já não se deve poder culpar, prescreveu…

-Um dos alvos preferidos na busca de culpados  é  Assunção Cristas e a sua decisão de “liberalizar” os eucaliptos, é um alvo fácil. Não sei que percentagem de floresta ardida em Pedrógão era de  eucalipto mas o que sei é que as fábricas de celulose têm  milhares de hectares de eucaliptos que nunca ardem, pelo que suspeito que o problema não está só no eucalipto. Não gosto da sra Cristas nem pintadinha de azul celeste e os eucaliptos têm a sua quota parte de culpa mas há coisas mais importantes…

-…Como a desertificação do interior, contra a qual nada se faz de relevante e eficiente, nem estou certo de que se poderia fazer, tendências demográficas não se controlam por decretos lei. O que sei é que TODOS os partidos trabalham em primeiro lugar para as cidades (Quantas estações de metro novas? Aeroporto?), que é onde estão os votos,  e muito raramente se lembram ou querem saber dos poucos que ficam perdidos e abandonados atrás de montes e vales.

-Por último, enquanto eu  escrevia o post anterior  o presidente e PM diziam que tinha sido feito o possível . No caso do Costa , é de lembrar que é a mesma abordagem que teve quanto às cheias em Lisboa quando era presidente da Câmara: “não há nada a fazer, são desastres…” . Hoje vejo que o Presidente já tem outro discurso e já exige que se reavalie tudo, como eu tinha “pedido” mostrando nada mais do que  senso comum e sem ver 1 minuto de televisão ou comentário profissional. Gostava de saber o que é que o fez mudar de “fez-se o possível” para “falhou muita coisa e há que repensar tudo” em dois dias. Qualquer pessoa lúcida teria dito isso bem alto assim que chegaram as primeiras notícias de mortos e habitações destruídas . Não se pode confiar neste homem para nada além de abraços, aconchego, apaziguamento  e palavras de circunstância, espero bem que isso seja finalmente claro para todos.

É angústia o que sinto por aquelas pessoas, e basta-me ouvir ou ler uma frase. Uma prima psicóloga foi para lá dar assistência e contava de uma velhota que lamentava “as suas coisinhas”. Parte-me o coração porque há muitas , muitas coisas que não se pagam com dinheiro nem se substituem. Se não vivesse num sítio imune à praga dos incêndios ralava-me muito com isso, porque vivo numa casinha pequena e isolada, cujo valor mal chega aos cinco dígitos e alguém que entre em minha casa e não dê valor a livros pode facilmente concluir que eu vivo na pobreza. Mas se a minha casa ardesse podiam dar-me cem mil euros que nunca iam trazer de volta as minhas coisinhas nem curar a angústia de perder o que, pouco ou muito, é nosso , foi feito e acarinhado por nós e escora a nossa vida. Não há donativos nem solidariedade que tragam isso de volta àquelas pessoas. Nem quero falar dos animais.

Voltando ao Verão que pus no título, é bem vindo, choveu aqui toda a Primavera e houve bastante mau tempo, pela primeira vez este ano olho para a previsão e vejo uma semana inteira de sol e brisa amena, é um consolo.

O cordeiro enjeitado vive, a colaboração com a senhora holandesa não correu muito bem e ao fim de dois dias trouxe tudo de volta a casa. Gosto que me ajudem, peço ajuda quando preciso mas não sou capaz de ver que é  demasiado esforço ou drama. Pensei que tinha ficado claro o que é que envolvia alimentar o bicho segurando a mãe ( que é grande e forte e protesta) durante 15 minutos de 5 em 5 horas. Se é para ter que ouvir que é difícil e não sei quê todos os dias e ver expressões angustiadas como se estivéssemos a falar de um bebé humano, dispenso, obrigadinho, eu tomo conta dele.

Vai em quase 15 dias, o mais difícil está feito e dentro em pouco já vai tolerar leite de vaca, aí levo-o de volta à minha amiga holandesa, pegar no pequeno e dar-lhe o biberom ao colo já se adapta melhor à noção urbana do que é salvar um animal e custa pouco. Estou contente porque o bicho já tem destino, eu vendo todos os machos e acabam todos no talho, é natural que este me fosse custar muito mais mas já está vendido para uma casa de estrangeiros onde vai passar o resto dos seus dias como cortador de relva, fiquei satisfeito.

Entretanto no mundo dos botes da baleia, fui transferido para a tripulação do segundo bote do clube para ser oficial. Dentro de uma semana esse  bote vai de navio para Santa Maria, onde vamos participar numa regata dentro de 15 dias. Saímos com esse bote uma vez, não foi nada bom, pelo que estou a antecipar uma humilhação em Santa Maria mas todos os meus amigos me dizem homem não te rales, aquilo é mesmo assim, é participar numa festa. Já desistiram uns, já se encontraram outros , esta tarde vamos sair pela segunda vez e nem tenho a certeza de que numa semana conseguimos dar uma volta a um circuito de três bóias quanto mais fazê-lo num tempo decente e sem confusão, mas não se pode fazer nada a não ser sair quando for possível nesta semana   e  dar o nosso melhor.