Alabama

A primeira coisa que vem à cabeça de muita gente quando ouve “Alabama” é  a canção dos Lynyrd Synyrd  que toda a gente conhece, mesmo à das pessoas que se riem ao lembrar-se desse estado.  Não há muitos sítios que definam melhor o Sul dos EUA que o Alabama, e tudo o que sei dele, incluindo algumas passagens (não lhes posso chamar bem  visitas) e conversas com nativos  chega para o considerar o fundo  da nação, talvez dispute o título com o Mississipi, dá ideia que a única salvação do Alabama é  a equipa de futebol universitário, que é dominante a nível nacional, e não se pode tomar o futebol universitário como coisa irrelevante. Quem não gosta ou não segue futebol americano não tem lá nada para admirar, até a costa do Golfo do México está morta e degradada.

A história do Estado conta-se em pouco tempo. Os espanhóis foram os primeiros a passar por lá, no século XVI, vindos das suas deambulações por La Florida, sem fazer grande coisa que ficasse. Nos princípios do século XVIII  Instalaram-se  franceses e  fundaram Mobile, ainda hoje o maior porto do Estado. Quem já lá andava há muito tempo eram os índios, mas a esses nunca ninguém perguntou nada. Em 1800, apenas 20 anos antes de o Estado ser criado viviam no território do Alabama 1250 pessoas.Ou melhor, brancos, porque o resto não contava. No primeiro ano como Estado já lá viviam 127000 e acelerou  o processo inspirado pela teoria do Destino Manifesto que dizia que  Deus os levou àquela terra em reconhecimento da  virtude deles e que podiam fazer como entendessem, desde que de acordo com a Bíblia. Os selvagens, como tal, são para  expulsar e exterminar. Foi rápido, devido à desproporção de forças e ao influxo gigantesco de imigrantes europeus. Irónico, o ressentimento de tantos descendentes desses  imigrantes contra os novos imigrantes.

Depois do massacre e expulsão dos índios, a escravatura. Importaram-se centenas de milhar de africanos ou de pessoas que já não eram africanas por terem nascido na América mas eram tratados como bichos na mesma, e continuou a exploração. Em 1860 rebenta a Guerra Civil,  o Alabama foi dos primeiros a pegar em armas para defender os direitos dos estados , nomeadamente o direito a ter outras pessoas como propriedade. Não havia grande contradição, no Alabama de  hoje 78% da população é Protestante e desses, 49% são Evangélicos. ainda hoje mais de metade das pessoas do Alabama acredita no mundo criado em 6 dias, em  Eva  feita a partir de uma  costela de Adão e  na cobra falante. Tentei saber a proporção exacta de crentes em  Portugal, lamento mas não me apeteceu procurar muito e não encontrei, mas acredito e espero que a percentagem que aceita a Evolução seja muitissimo maior, tal como a dos que  não procuram orientação literal e fixa na Bíblia. No Alabama sempre houve mais pessoas que adoram e estudam a Bíblia literalmente, e sendo assim , encontraram  lá consolo e justificação para terem e maltratarem outras pessoas, especialmente sendo as outras pessoas filhos de Ham, como são biblicamente os africanos. Tem a ver com a história do Noé, pai de Ham, mas não me vou alongar sobre  imbecilidades senão isto nunca mais acaba.

O Sul perdeu a guerra civil mas se lá andarem hoje fartam-se de ver a cada passo muito orgulho nos  derrotados. Os escravos foram libertados mas como está bom de ver não basta uma lei, ainda por cima uma lei que levou a uma guerra, para que as pessoas comecem a olhar para as outras de modo diferente, ou,  vá lá, como pessoas. Os negros sempre tiveram a vida desgraçada no Alabama do pós guerra civil, com uma fracção dos direitos dos brancos e sempre, sempre sujeitos a toda a espécie de discriminações, abusos e violências, a começar pelas do Estado.  É ler “To Kill a Mockingbird”, por exemplo . O romance por excelência de denúncia e alarme contra  os preconceitos e iniquidades causadas pelo  racismo  nos EUA  passa-se  no Alabama. Como redenção na desgraça, mostra-nos que no meio dos animais se pode sempre erguer um Atticus Finch,  que há justos em todos os cantos do Mundo.

A segregação racial, o KKK, o criacionismo nas escolas, durante toda a metade do século passado o Alabama ia ficando para trás enquanto o resto da América evoluía na direcção de reconhecer igualdade de direitos  entre raças, que já chegou em teoria mas ainda não chegou na prática. O Alabama permanecia firme no século XIX, e figura alto numa das minhas histórias preferidas, que li nesta Biografia de África:

Em 1957 Richard  Nixon, então Vice Presidente, foi ao Gana por ocasião da celebração da independência do país. Num cocktail depois das  cerimónias oficiais Nixon aproximou-se de um jovem impecavelmente vestido que ele tomou como  Ganês e perguntou-lhe:

-Então, que tal é ser livre?

-Não faço ideia, senhor. Sou do Alabama.

E nesta base se desenvolveu  o Alabama, que só chegava às notícias por causa da luta dos Direitos Civis. Rosa Parks tornou-se heroína da nação ao recusar-se a ceder o seu lugar a um branco no autocarro, no Alabama. Martin Luther King jr fazia discursos tremendos e marchas de protesto enormes, no Alabama. O KKK incendiava igrejas e enforcava pessoas a meio da noite, no Alabama.

Chegamos a 2017 e o presidente é um indivíduo que não se cansa de dizer que ama o Alabama e os seus valores, o que não surpreende dado que é o mesmo que foi processado pelo Estado nos anos 80 por só aceitar  inquilinos brancos nos seus prédios em NY, que se diz muito cristão apesar de já ir no terceiro casamento escabroso e  não vale a pena começar a tentar listar a podridão do homem senão nunca mais me despacho, ele é a podridão em forma de gente.

O lugar de senador do Alabama vagou e ontem houve eleição especial para o substituir. O candidato democrata era um homem conhecido por ser o procurador que processou membros do KKK pelo assassínio de quatro  meninas quando puseram uma bomba numa igreja , lá no tempo em que a América era Grande . O candidato republicano era um ex juiz chamado Roy Moore, conhecido entre outras coisas por ter sido condenado e demitido pelo Supremo Tribunal por ter mandado instalar no relvado do seu  tribunal uma placa com os 10 Mandamentos. Acredita e diz para quem o quer ouvir que Deus tem que ser  fonte da Lei, como dizem os Ayatolahs, e não aceita ( juiz, atenção) a separação constitucional entre Estado e Igreja sem a qual, concordam todos os lúcidos, não pode existir verdadeira democracia. É  declaradamente contra os direitos dos homossexuais , acha que devia ser ilegal e também  disse que ” eliminar as emendas constitucionais depois da décima eliminava muitos problemas do país”. 

A 13a emenda aboliu a escravatura ; a 14a confere protecção igual a todos os cidadãos; a 15a proibe a negação do direito de voto baseado na raça; a 19a dá o direito de voto às mulheres e a 22a instituiu termos de mandato para os presidentes. Já dá para ter uma ideia razoável do pensamento político deste homem. Apareceu num comício vestido de cowboy, a mostrar uma pistola e tudo, e ontem foi votar  a cavalo.Não percebo de cavalos nem sei montar  mas  achei cómico e toda a gente que percebe de equitação se fartou de rir, porque se o homem alguma vez soube montar, já foi há muitos anos,  fez uma triste figura.

Também de há muitos anos vieram acusações um bocado sórdidas: O juíz Moore, na altura procurador nos seus 30 anos, gostava de miúdas adolescentes, andava atrás delas , “namorava” com elas, algumas de 14 anos. Foi proibido de entrar num centro comercial por andar a importunar as moças. Se é crime não sei, mas mostra uma pessoa um bocado nojenta. Nestes dias se  se fala de nojo na política americana o Trump não anda longe, e claro está, acabou a apelar ao voto no Moore para Senador. Um racista que defende a teocracia e é um alegado abusador de menores. Categoria. Classe. Sentido de Estado.

Deitei-me a pensar na eleição (é estranho mas é verdade, e nem conheço ninguém no Alabama…) e hoje para variar tive boas notícias pela manhã, o Moore perdeu. Os resultados foram 49.9% para 48.4%, margem finíssima mas prevaleceu a decência. Claro que o Trump já veio dizer que sempre soube que o Moore ia perder, confirmando que está sempre ao lado dos seus amigos e apoiantes e que é um homem de convicções. No Alabama que vive no século XXI respirou-se de alívio e ganhou-se alento, em Washington consta que agora só falta aprovar o novo regime fiscal, feito isso os oligarcas já têm o que querem e já podem deixar cair o presidente, esse palhaço que é uma vergonha para a América. E que tem 55% de apoio no Alabama.

 

 

 

 

 

Anúncios

Assédio

Por estes dias ficámos a saber que Hollywood é um antro de maníacos egocêntricos onde impera a vaidade e a sexualidade  como moeda de troca e  meio de pressão e negociação, com rédea solta e desrespeitando normas , regras e decência. Que está repleto de actores, produtores, agentes e outros que se acham tão espectaculares que são irresistíveis e não são abrangidos pelas leis que regem os comuns mortais e que como tal podem fazer o que lhes apetece quando lhes aparece à frente uma mulher que lhes agrada. A novidade é só uma : as vítimas começaram a queixar-se em público.

É preciso ser um bocadinho  básico para não perceber  logo à partida que uma indústria que gira em torno de fantasias, ilusões, sonhos, sexo e publicidade não esteja  contaminada por comportamentos abusivos . Também é preciso uns óculos cor de rosa ou muita ingenuidade para não saber  que legiões de jovens actrizes e actores chegaram ao sucesso e à fama não por serem melhores do que quem  estava ao lado mas por terem dormido com a pessoa certa. Quando a coisa resulta nunca mais se ouve falar no caso, se não resulta , ou se a boa vontade do tubarão já não é necessária, denuncia-se.

Hollywood podia amanhã ser engolida pela falha de San Andreas num tremor de terra que a minha vida não mexia um millímetro nem perdia nada, é a importância que eu dou ao que se  faz lá e a quem lá anda.  Apesar disso , e apesar de me falhar um bocado a solidariedade para com as starlets e vítimas que decidiram entrar na selva mesmo sabendo dos tigres e tarântulas, observo isto com uma certa atenção e interesse porque deste debate, acusações, defesas e condenações estão a sair novas regras que todos devemos perceber e seguir, no nosso próprio interesse.   Observo com satisfação as vítimas de abusos a perder o medo e a falar e denunciar, coisa impossível há dez anos, por falta de meios técnicos. Observo as “estrelas” que se achavam  fenomenais a ver o mundo a chamar-lhes porcos e a negar-lhes a carreira e a posteridade, e acho piada a isso.

Acho menos piada a uma certa hipocrisia que no entanto persiste, a maior delas o facto de o país agora a espumar de ultraje contra os abusadores sexuais ter um presidente que está gravado a gabar-se de ser um predador sexual . Já acho outra vez piada aos contorcionismos dos republicanos e idiotas sortidos para se tentarem safar dessa evidência. Volto a achar menos piada quando vejo que conseguem e que o país pede a cabeça de gente como o Weinstein mas perdoa um presidente que disse que “quando se é famoso pode-se fazer tudo. Agarrá-las pela rata, tudo.” e no fôlego seguinte descreveu graficamente e muito orgulhoso o modo  como assediou uma mulher casada. Passado pouco tempo foi eleito presidente, e ainda há  muita gente que estranha e critica o ódio ao Trump, não lhes ocorrendo que há pessoas que se arrepiam com predadores sexuais, de esquerda ou direita, e não confiam neles para nada. Porque são pessoas más, incapazes de empatia e respeito, que se lixem as opiniões políticas, é uma questão de humanidade.

Também há um aspecto que gostava de referir porque ainda não o vi referido em mais lado nenhum (também é verdade que não ando a ler tudo o que se escreve sobre o tema , nem conseguia mesmo que não fizesse mais nada na vida) : Tenho a impressão de que a qualificação de assédio  tem muito a ver com o nível de atractividade da pessoa em causa. Exemplo, a starlet  chega à Califórnia a sonhar com filmes, conhece Harvey Weinstein  que lhe faz uns avanços, apalpa o rabo e tenta levar para a cama: assédio . A mesma starlet conhece Brad Pitt que lhe faz uns avanços, apalpa o rabo e tenta levar para a cama: engate . É muito provável que esteja  enganado mas muita da qualificação de assédio depende da apreciação que a pessoa assediada faz do assediador. Passo a ilustrar essa relatividade com um exemplo pessoal.

Aqui há dez anos cheguei de barco ao Canadá, a  Yarmouth , vilória portuária da Nova Escócia, depois de mais uma travessia do Atlântico. Uma tarde no bar comentei que precisava de usar a internet para marcar as viagens de regresso , isto era antes do wifi e cyber café era coisa que não havia ali. Uma mulher, mais ou menos da minha idade, com quem já tínhamos (eu e a tripulação) falado nessa tarde, disse-me que eu estava à vontade para usar a ligação em casa dela, era mesmo ali. Aceitei de bom grado e lá fomos os dois. depois de vinte minutos de caminho comecei a estranhar a distância mas depois lembrei-me de que na América do Norte eles têm medidas diferentes das nossas. Casa enorme, no meio de um pinhal, não estava ninguém , mostrou-me o quarto onde estava o computador e disse-me para estar á vontade, vou tomar um duche , se precisares de alguma coisa ,é só dizeres … Eu sempre fui bastante tapado no que toca a mulheres e percebo pouco, a ficha só caiu quando ela entrou pelo quarto de roupão meio aberto e se sentou no braço da cadeira com a mão no meu ombro. Seguiram-se uns minutos confrangedores e muito desconfortáveis durante os quais tentei evadir-me das atenções dela sem ser bruto, o que , olhando para trás, só fez parecer que eu estava a hesitar quando só queria ir-me embora dali o mais rápido possível. Finalmente percebeu que não era o dia, foi-se vestir e levou-me de volta à cidade, viagem bem disposta como se pode imaginar.

Eu considero isto  assédio e lembro-me do episódio com um arrepio de desconforto,  mas só por uma razão: a senhora era um camafeu . Se fosse uma mulher que me atraísse provavelmente hoje falava nisso como uma das melhores tardes da minha vida mas  como era uma mulher que me repugnava, foi assédio. Tenho-me lembrado bastante dessa tarde em Yarmouth quando vejo todas as acusações  a voar pela comunicação social . Em quantos casos não será  o mesmo mecanismo em acção?

De qualquer modo, o tema não é muito difícil nem muito complicado: sexo é uma coisa muito boa mas têm que ser todos crescidinhos e estar  de livre acordo, se não passa a ser uma coisa muito má.

 

PS: Sara Sampaio, a maior exportação da aeronáutica nacional dos últimos anos, foi por alguma razão a uma conferência de tecnologia em Lisboa e disse que “sentiu muitas vezes que foi levada a fazer coisas que não queria”.  O emprego desta moça é desfilar e aparecer semi nua à frente de multidões, emprego  que já lhe rendeu o suficiente para não ter medo de o perder. Quando era levada a fazer coisas que não queria, o  cálculo era diferente. Tudo tem um preço, às vezes é a dignidade,  muitos pagam-no de bom grado.

Depois queixem-se

Não há nesta altura no mundo  governante que eu deteste mais que o Trump, e isto inclui vermes como  Mugabe ou  Maduro. No Terceiro Mundo (perdão por usar este anacronismo mas para mim ainda faz sentido) ainda é como o outro, as instituições são fracas , corruptas ou ambas, a população não é educada e informada e a imprensa raramente é livre pelo que é mais fácil um ditador instalar-se e permanecer lá. Quando há uma ruptura do calibre de um Trump, quando uma democracia ocidental elege uma figura daquelas, primeiro há choque mas depois há que procurar  as razões, e podem já todos ter-se esquecido mas foram mais do que dissecadas nos meses seguintes às eleições e era bom voltar a elas numa altura em que, ao retardador como é nosso timbre, começamos a importar debates e movimentos que nos EUA já têm décadas. Há gente que parece só estar à espera da deixa dos americanos para falar, vi uma jornalista pelos vistos famosa, chamada Alexandra Lucas Coelho,  a defender um monumento aos índios e africanos ao lado do Padrão dos Descobrimentos. Não achar que se deve deitar abaixo já não é mau, mas não deve tardar.

Além das mentiras , demagogias , matrafices e “hacks” da última campanha eleitoral americana , além das lutas internas entre Republicanos e  além da inépcia dos Democratas houve um factor muito importante em jogo, para mim o mais importante: quase metade dos eleitores  da América fartou-se  dos insultos, reclamações, condescêndencia, exigências e teorias sociológicas avançadas da intelectualidade urbana de esquerda, que só vê o seu umbigo e olha para o resto como atrasados e iludidos.

Cansaram-se de serem chamados de primitivos, intolerantes, anacrónicos, de lhes atirarem à cara a maldade das suas tradições e da sua cultura, de lhes ridicularizarem as crenças . Cansaram-se de ver que tudo é decidido longe, pela elite sofisticada , fartaram-se de ver os sociólogos de Berkeley a ditar regulamentos para o Wisconsin, cansaram-se de ver a imprensa e a TV nacionais centrarem-se nas Costas e ignorarem o resto do país. Chamam-lhe fly over country e não é a brincar, é uma extensão imensa onde vivem dezenas de milhões de pessoas que são excluídas dos debates nacionais e quando não são excluídos é para serem menosprezadas. São racistas? Muitos são, mas nem os que o são gostam de ser chamados racistas, quanto mais os que não são, ou acham que não são…

Pessoas religiosas e tradicionalistas a terem que levar com o debate das casas de banho para  transexuais, a verem a linguagem a ser policiada e normalizada, a verem garotos a levantarem queixas  por se sentirem ofendidos nas suas convicções por dá cá aquela palha. Pessoas a verem as suas vizinhanças e cidades a ter uma população cada vez mais de cor e religião diferente e a ser-lhe martelado que isso é bom. Pode ser ou pode não ser.

Depois de terem mais prosperidade material do que conseguem fazer com ela os americanos passaram à guerra cultural, liberais contra conservadores. Toda a gente deu por adquirido que havia dinheiro que chegasse para tudo e empregos para toda a gente que os quisesse, começaram a ocupar-se da famosa justiça social, onde manda uma regra velha e universal que pode ser exprimida cruamente assim : quem não chora não mama, e outra que diz que o importante é culpar alguém e exigir que alguém , normalmente o Estado, faça alguma coisa.

O problema não era a política externa, a produtividade, os impostos, as infraestruturas, a educação, a saúde. Os problemas nas últimas décadas têm sido coisas como o casamento gay, as chamadas causas fracturantes nas quais se especializam grupos políticos como o Bloco de Esquerda, quanto mais não seja porque o lastro técnico necessário para escrever uma lei sobre igualdade de género é uma fracção do necessário para , por exemplo, negociar um acordo de comércio externo ou reformar uma política fiscal. Por outras palavras , é mais fácil e imediato e qualquer actriz de teatro consegue falar horas sobre justiça social sem mentir ao passo que nem dez minutos aguenta se lhe pedirem para explicar o impacto da política agrícola comum na produção de vinho, por exemplo.

As causas fracturantes também se tornaram populares por serem mais emocionais, ninguém se exalta a falar de vias férreas ou portos de águas profundas, mas falem lá da co-adopção e têm para horas de exaltação, já para não  falar do aborto. Com estas  e outras questões  se passam horas nos parlamentos, juntando as discussões a  votos ridículos de louvor e pesar e infindáveis comissões que servem sobretudo para engonhar, criar ilusão de progresso , ocupação e encher os proverbiais chouriços. O cidadão conservador e tradicionalista vê isto e franze o sobrolho.

Quando os debates mais populares são desse género, causas que uns apoiam e outros abominam,  quando uns menosprezam e ridicularizam os outros, basta vir um aldrabão encartado como o  Trump para levar uma das metades. Basta ter o discurso fácil, basta fazer uma das metades rever-se nele, basta prometer um fim aos abusos e aos ataques, basta falar no mesmo tom . Não tem que saber fazer mais nada, não tem que mostrar serviço na área que se propõe dirigir, basta saber falar para o seu público , apelar-lhe  aos instintos , medos e aspirações básicas e os ânimos estão de tal maneira exaltados nesta idade das overdoses de informação, 3/4 dela manipulada, que no dia das eleições a escolha é fácil. Dá para os dois lados, ninguém se iluda, o processo básico que elege populistas à esquerda elege-os à direita.

No caso dos americanos foi a histeria do politicamente correcto , da engenharia social, do multiculturalismo como valor superior e objectivo, da perseguição e demonização dos outros,  que lá pôs o Trump.

Os guerreiros da justiça social por cá ganham saúde e gritam alto, são declaradamente contra uma quantidade de coisas, desde o heteropatriarcado aos sacos de plástico, agora descobriram que é mau haver coisas para meninos e meninas e em todas essas lutas olham de cima para baixo para os que ou não concordam ou nem sequer querem saber. São pessoas que não percebem bem o conceito de empatia , que é diferente do de simpatia, não temos que simpatizar mas devemos tentar compreender . Enervam muita gente, insultam muita gente, agridem as convicções de muita gente, muitas vezes com uma arrogância que nada justifica.

Custa-lhes, é-lhes virtualmente impossível aceitar que haja pessoas religiosas, que defendam que a vida começa com a concepção e é sagrada, que vão a touradas, têm carros grandes, acham que a homossexualidade é um mal, o casamento é exclusivo para reprodução, o aquecimento global é uma invenção, um travesti é uma aberração e usar drogas é crime. Pessoas que defendem a pena de morte, são contra a imigração , não gostam de gente de outras cores nem de quem depende de subsídios estatais para sobreviver. Eu não partilho nenhuma dessas  convicções mas não considero quem as tem um inimigo ou inferior  e haveria  muito menos problemas se conseguíssemos todos funcionar assim, não é desistir da discussão , é reconhecer que há mais pontos de vista válidos, mesmo que não concordemos com eles.

Os modernos guerreiros da justiça social não acreditam que todos esses milhões de pessoas têm uma palavra a dizer, o direito a fazerem-se ouvir e voto na matéria no que diz respeito ao gverno e leis da Nação. Acham que é gente para calar, que se deve reduzir à sua ignorância e que todos os que não concordam com eles são estúpidos. Isto é profundamente irritante.

Um dia qualquer aparece um candidato a defender  precisamente todas essas coisas que a imprensa e os círculos urbanos sofisticados abominam e têm por consignadas ao caixote do lixo da história. Um candidato bem falante, de discurso articulado, que fala, como o Trump, aos medos, convicções  e aspirações dessas pessoas e de repente, num dia de eleições,  a inteligentsia , entre duas dentadas de sushi num rooftop da capital pega no seu ipad  e enquanto lê mais um artigo na Monocle e partilha uma foto com o seu amigo cisgénero dinamarquês que está na Malásia constata que há muita gente no resto do país que tem ideias ,preocupações e concepções do mundo muito diferentes, que toda essa gente vota e que, olha, quem diria , elege um populista com um plano para pôr isto na ordem, não obstante sondagens e colunas de opinião que garantiam ser impossível.

Depois vão passar anos a queixar-se, sem perceberem  que a culpa foi deles.

 

Os Escuteiros, Trump e Marcelo

Fui escuteiro vários anos, até à idade em que tem piada e vale a pena , lá pelos 16. Depois disso, é bom para quem quer  orientar e organizar os pequenos. O Escutismo ensina trabalho de equipa, respeito pela natureza, desenrascanço, criatividade, serviço cívico, descoberta dos espaços abertos e leva os miúdos para a rua e o mato, coisa que acho muito importante , hoje mais do que nunca, quando cada vez mais a população é urbana e a juventude é digital.

Recomendo a toda a gente com filhos pequenos, até a religião que é forçosamente parte das actividades do CNE não é nada de grave, há o respeito por tradições e rituais mais não há nenhuma lavagem cerebral nem imposições drásticas e de qualquer maneira não é levado mais a sério do que a maior parte das pessoas leva a religião, são umas fórmulas que se observam e umas coisas que se dizem, uma missa aos Domingos, procissões nos dias santos e essas coisas.  Para os religiosos sérios há outras organizações de jovens mais, digamos, militantes na parte da fé que se asseguram de que os miúdos não começam a pensar ou questionar enquanto acampam.

Todos os Verões há grandes acampamentos de escuteiros pelo mundo fora que juntam dezenas de milhar de jovens e os padres e políticos, na devida medida e proporção, incrustam-se como fazem sempre que podem e que há multidões. Nos Estados Unidos o Presidente é o chefe Honorário dos Escuteiros. O actual Presidente americano é um burgesso mentiroso, ignorante , indecente e sem um pingo de classe, de um egocentrismo sem paralelo na História moderna. Quem duvida disto é porque não se deu ao trabalho, ou não é capaz , de ver e ouvir os seus discursos e intervenções , desde a campanha até por exemplo ontem à noite.

Não é por ele ser de direita , xenófobo ou elitista que me mete nojo, a direita tem tanta legitimidade para governar como a esquerda, é por ele ser uma besta acabada que domina mal a própria língua , é capaz de se contradizer na mesma frase e não ter maneiras. Quando uma pessoa diz “sou muito rico” e “sou  muito inteligente” as probabilidades são que não seja  uma coisa nem outra. Quando um político tem que vir dizer que “não há caos na administração” a probabilidade é o caos estar instalado.

É ver e ouvir, está tudo registado mas a maior parte das pessoas não se quer dar a esse trabalho ou infelizmente tem que depender de traduções. Tenho um amigo americano que votou nele esperando somente política de emigração forte e um Supremo Tribunal de Justiça conservador, o resto não lhe  importa. Tenho um familiar que o apoia pela simples razão de que ele quer e está a tornar o aborto mais difícil, o resto não importa. Não me lembro de detestar tanto uma figura pública e isto não abate porque costumo ver o Stephen Colbert  e outros como o John Oliver e o Seth Meyers que vão expondo  e comentando as misérias morais da administração Trump e do próprio com um sentido de humor cáustico que pelo menos alivia. Podemos rir-nos dele, já não é mau.

Então o Trump, que nunca perde a oportunidade de falar para uma audiência cativa , foi discursar perante 40 mil escuteiros, e foi tão confrangedor que até o chefe dos escuteiros pediu desculpa. O Obama também se dirigiu aos escuteiros em jamborees, mas em alturas em que tinha que trabalhar ( este não se preocupa com isso) fazia-o em vídeo e deixava uma mensagem de motivação , apreciação e encorajamento à juventude e aos seus sonhos. Este javardo foi para lá fazer campanha, falar de política partidária , de  “matar o Obamacare”, remoer a sua “vitória eleitoral”, gabar-se e , entre outras coisas que deviam chocar qualquer pai de uma criança a ouvir um político, deu um exemplo de sucesso segundo ele o entende , o de um industrial americano do século passado, que ficou rico. O Trump escreve com os pés, tem o vocabulário de um miúdo de 12 anos, massacra a semântica a cada parágrafo e isso nota-se ainda mais quando fala de improviso, por isso isto não é a tradução literal, é mais compreensível . O discurso todo está aqui . Então esse  industrial trabalhou muito na construção e  ao fim de 20 anos “foi-lhe oferecido muito dinheiro pela sua companhia , e vendeu-a por uma quantia tremenda. Comprou um iate muito grande e teve uma vida muito interessante.Não vou mais longe do que isto, porque vocês são escuteiros e não vos vou dizer o que ele fez …. Digo? Devo dizer-vos? (aplauso) .Vocês são escuteiros mas sabem da vida.Vocês conhecem a vida.”

É sabido que a medida do sucesso na América é em grande parte o dinheiro, mas ainda assim pessoas decentes trabalham na ideia de que há , ainda vai havendo, valores superiores e especialmente quando se fala à juventude deve-se fazer um esforço por inspirar para as coisas como deviam ser e não como são, para termos a tal esperança num mundo melhor. Este animal não tem esses pruridos nem deveres de consciência, nem sequer tem consciência e por isso achou apropriado referir como exemplo de sucesso na vida um milionário que vendeu a empresa , comprou um iate e passou a fazer coisas que se hesitam em comentar frente a crianças. É este o Presidente americano, e continua a haver quem o apoie por cá.

Por cá também há acampamento nacional, e o nosso Presidente lá foi. Não encontrei nenhum discurso mas não é preciso: conhecendo a peça sei que vai dizer precisamente o que os ouvintes esperam ouvir numa ocasião destas, que deve ser politicamente neutra. Vai homenagear, reconhecer o trabalho e a história do CNE, não me espantava que tivesse sido escuteiro e vai motivar os jovens a trabalhar por um Portugal melhor. Mais uma ou duas banalidades e declarações óbvias e está ali feito o seu trabalho. 300 selfies, alguns abraços e fica toda a gente contente. Antes assim, mil vezes.

 

PS: a Venezuela está em estado de sítio , morrem pessoas às dezenas e oposição arrisca-se a ser visitada em casa a meio da noite pelas milícias do regime. Foi preciso chegar aqui para que figuras como Daniel Oliveira, Rui Tavares ou as manas Mortágua criticassem o Maduro e a herança do Chavez. Passaram 13 anos a defendê-los enquanto dezenas de pessoas (humildemente incluo-me no número, está tudo aí escrito) diziam que ia acabar mal, só podia acabar mal. Agora já acham que está mal. Além desses a quem as evidências impedem de continuar a defender o Socialismo Venezuelano temos outros como Louçã e o Sousa Santos, para os quais a crise se explica pela queda dos preços do petróleo. Não me consta que algum jornalista lhes tenha perguntado : Então o preço do petróleo só caiu para a Venezuela? E as dezenas de outros países produtores de petróleo em que ainda há papel higiénico e fraldas nos supermercados e a polícia não anda  a matar gente na rua? Como é que isso se explica?

Mais coisas estúpidas

Quero clarificar que o que escrevi no último post sobre a origem e desenvolvimento de um “movimento anti vacinas”  refere-se muito mais à realidade norte americana do que à nossa, felizmente , e tanto quanto sei , aqui não há “celebridades” a fazer campanha contra as vacinas nem nenhum “movimento”, como lá. Infelizmente  não deixei isso claro na altura. Ontem foi dia de polémica e discussão a fundo sobre vacinas pelas “redes sociais”, o que é muito saudável porque em agregado as pessoas vão tomar decisões mais informadas, mesmo se uma parte do debate tenha sido o Correio da Manhã a publicar fotos da jovem que morreu , na praia. Não há muitos comentários a fazer a jornalismo assim.

Retomo o tema da estupidez  para trazer outro dado interessante para nos fazer reflectir um pouco.É sabido que na política permitimos e deixamos passar  coisas a governantes que apoiamos ou aprovamos que nunca faríamos aos adversários. Acho que mesmo os socialistas nacionais concordam que muitas coisas que fazem hoje no governo eram inadmissíveis com o anterior governo e mesmo o público parece que já não se importa muito com coisas que o angustiavam e indignavam ainda há dois anos. Isto não é necessariamente estupidez mas a meu ver anda perto. Peço a vossa atenção para este gráfico, que descreve a evolução do apoio do público americano aos bombardeamentos na Síria :

C9QcIKpV0AEuOHz

Será que se pode olhar para isto e  concluir que os republicanos são mais estúpidos que os democratas ?

Outra coisa interessante , tristemente interessante , a situação na Venezuela. Todos os dias vejo as capas dos jornais nacionais e hoje , depois de anos de desgoverno e tragédias várias , finalmente a Venezuela chegou às capas dos diários. Na televisão felizmente não faço ideia de como é a cobertura do tema. É preciso haver centenas de milhar nas ruas e gente a morrer , em confrontos ou por fome e falta de cuidados, para que jornalismo nacional se comece a interrogar sobre o que está a correr mal. Isto tem uma relação muito estreita com a estupidez , tal como tentar  explicar a crise venezuelana com a queda dos preços do petróleo. Voltarei ao assunto.

Agradeço a quem me lembra de que a melhor maneira de debater e marcar um ponto não é chamar estúpido aos outros. É verdade, não é  a melhor nem é a que mostra mais educação ou conhecimento. Se eu fosse jornalista , comentador profissional ou político nunca chamaria estúpido a quem tem opiniões que eu considero estúpidas. Como não sou nada disso nem estou aqui para convencer pessoas , vender coisas ou fazer amigos , vou continuar a dizer que acho estúpidas as coisas que acho estúpidas.

Mohammad Smith

De vez em quando passo uns tempos pelo twitter , se encontrarmos as pessoas certas para “seguir”  é uma excelente fonte de informação , e às vezes de entretenimento . Sigo  pessoas que admiro, tipo o Elon Musk, e outras que abomino , tipo o presidente eleito Trump. Sigo várias contas associadas ao SCP , muitos comediantes , alguns políticos , jornalistas e comentadores. Umas das pessoas que sigo é uma tal de Anne Coulter, uma harpia da extrema direita americana , senhora de um discurso venenoso e racista que chega bem. Ora ontem a sra “retuítou” um indivíduo que afirmava que “Mohammad” é o nome de bebé mais comum em Inglaterra este ano. Fiquei chocado, não podia ser , fui confirmar que de facto o nome mais comum é Oliver, mandei uma resposta a chamar-lhes agitadores mentirosos por outras palavras mas depois voltei à lista dos nomes e e fiquei outra vez chocado.

A verdade é que Oliver é o nome mais popular em Inglaterra, mas Mohammad é o segundo mais popular . Processem esta informação com calma. No Reino Unido em 2016 o segundo nome mais dado a bebés é Mohammad.  Três coisas sobre isto .

  • Esta popularidade revela o que a demografia já previa e que nenhum brexit vai prevenir : as caracteristicas  étnicas da Europa estão a mudar depressa , e o grupo demográfico em  expansão é o muçulmano.
  • Sempre considerei uma estupidez pura o facto de imigrantes não darem aos seus filhos nascidos no país de acolhimento nomes comuns do país de acolhimento.Se fogem de um país que por uma ou outra razão não os satisfaz ou , no limite , persegue ; se sonham dar uma vida melhor aos filhos que nascem nesse país e gostavam de os ver integrados , o pior que podem fazer é carregá-los com um nome estrangeiro que nunca os vai largar e lhes vai condicionar a vida, quase sempre para pior. “ah , e a herança cultural, orgulho nas raízes, respeito pelo passado?” Tudo coisas óptimas , e é para isso que servem os apelidos. Se me querem convencer que é indiferente chamar-se  , em Portugal , por exemplo , Ahmed El Amin ou Julio El Amin , façam favor , eu acho que não mas eu sou um bocado esquisito. Os imigrantes portugueses das levas de 60  e 70 para França perceberam isso muito bem e desataram a ter Sandrines Silva e Pierres Pereiras , e hoje são o que são em França , os emigrantes do Médio Oriente querem ter o seu país no novo país, e eu sou dos que acha que isso não deve ser nem pode ser.
  • Por fim , estes milhares de Mohamedezinhos  britânicos são mais uma face visível dos problemas trazidos pela imigração, problemas que existem apesar da opinião pessoal que possamos ter sobre a imigração.

Está provado , pelo menos a mim já me ofereceram provas concretas, de que a imigração, economicamente , favorece um país . Economicamente , mas há nervos que são tocados que vão muito para lá dos rendimentos, e não me peçam que rotule de racistas todas as pessoas que se sentem desconfortaveis ao ver o número destes imigrantes subir de dia para dia , que sentem a sua identidade ameaçada , que lamentam e não se conseguem adaptar à ideia de um Europeu que não vem em graduações de branco que vão do algarvio ao sueco e graduações de religião que vão do  cristão…ao cristão . É mais um problema do qual estou isolado mas imagino às vezes como me sentiria se ainda vivesse em Alcobaça e se lá aterrassem de um ano para o outro 3000 somalis ou afegãos.

Para os apóstolos do multiculturalismo e da inclusão não há dúvida que a única opção ética é aceitar todos os refugiados e imigrantes e tolerá-los .Questionar isto tem valido logo o rótulo de racista , mesmo que as objecções não se prendam tanto com  a raça mas sim com a diferença. Há poucas coisas mais humanas do que procurar o semelhante , procurar pertencer e agrupar-se com semelhantes , e distinguir e desconfiar do diferente. Isto até os bichinhos fazem  ,  foi uma estratégia evolutiva desenvolvida ao longo de dezenas de milhar de anos , estratégia  que os políticos da inclusão a todo o custo querem desmantelar em poucas décadas , como se o Homo Sapiens pudesse  desaprender em 30 ou 40 anos o que levou 20 mil a aprender. Não vai acontecer tão cedo e quanto mais as diferenças se tornam aparentes , quanto mais contrastes existem entre as comunidades , pior será a convivência. A doutrina do politicamente correcto ensina sensibilidade, ensina a procurar palavras suaves , ensina a evitar  ofender , ensina a considerar todos iguais , ensina a procurar eufemismos e a escrever uma página de apologias para poder apresentar um parágrafo de acusações. O politicamente correcto meteu-nos num lindo sarilho.

Em Setembro deste ano escrevi aqui  “estou agora convencido de que o Trump vai ganhar as eleições“. Escrevi isso na América , escrevi isso porque vivia e trabalhava 24/24 com americanos , escrevi isso porque , presunção e água benta cada qual toma  a que quer, conheço bastante da América e por detrás do sorriso simpático sempre pronto , da cortesia quase universal ,  do have a nice day! as pessoas são racistas .Mesmo muitas  que não sabem e se ofenderiam de lhes chamassem isso na cara. Uma vez  estava em Gibraltar com mais uns americanos e no mesmo bar estava uma mesa com meia dúzia de rapazes americanos ( reconheciam-se pelo sotaque). Eu disse casualmente que eram militares , os meus amigos duvidaram  do meu “salto de raciocínio” , eu perguntei se viam muitas vezes na América três brancos , dois pretos e um mexicano  nos copos , um grupo de amigos. Talvez em Nova Iorque e nas grandes cidades e mesmo assim será raro, e na América Real é virtualmente impossível…Aqueles seis estavam ali juntos porque eram da mesma unidade , têm uma relação entre eles que não tem paralelo no mundo civil.

Se eu fosse editor de jornal o título que eu tinha escolhido para o dia das eleições era “Estalou o Verniz”, a capa de sofisticação e tolerância que nos chega pela televisão , a nós e aos americanos ,  não corresponde à realidade , quebrou-se e houve votos suficientes para eleger aquele homem presidente. Do mesmo modo ninguém duvida que os votos do Brexit foram uma reacção ao crescimento da imigração e á sensação que muitos ingleses têm de que a sua identidade está de certo modo ameaçada , e se o segundo nome de bebé mais popular é Mohammad se calhar os receios não são completamente injustificados.

Não sei quantas pessoas admitiriam em frente a uma câmara de televisão ou um microfone de um entevistador que “acham que há estrangeiros a mais” , mas tenho quase a certeza que o número real é muitíssimo maior do que as sondagens sugerem. Isto foi a propósito dos milhares de Mohamades a crescer em Inglaterra mas a mim leva-me também a pensar que a França nos pode trazer uma surpresa e muitos mais votarão na sra Le Pen do que estão prontos a admitir e do que sugerem as sondagens.

Aprecio o multiculturalismo mas é quando visito uma grande cidade, são feitas para isso , e as  visitas costumam ser  curtas. Adoro ler sobre as culturas dos outros e viajar foi uma  grande paixão da minha vida mas sempre retirei um grande conforto de me saber português ( Tó M. , por favor não relances outra vez o debate sobre o que é ser português, obrigado) , defeitos e tudo,  e de viver num sítio onde mal ou bem sinto que é meu e que é onde pertenço. Talvez seja isto que me faz ser sensível à causa dos que perdem a pátria , por me imaginar nas mesmas circunstâncias , a ter que fugir do meu país por causa da fome ou da guerra . Não gostava de ver milhares de imigrantes e refugiados à minha volta , não gostava de ver cedências culturais às preferências dos recém chegados , e como pessoa que já não gosta assim muito de pessoas para começar , se forem muito diferentes de mim , lá está , fico desconfortável , mas não é por isso que sou contra os fluxos migratórios, o que é um bocado como ser contra a Lei da Gravidade. Imaginar que um muro ou uma fronteira fechada é boa política , imaginar que se conseguem defender culturas barrando os estrangeiros é fantasioso. Não perco de vista o benefício económico que a imigração tem para um país ( se não perderem a cabeça como os escandinavos e cobrirem os emigrantes com tantos subsídios que não há incentivo nenhum a trabalhar) ; não perco de vista a obrigação moral de ajudar refugiados de países em guerra ; não perco de vista a nossa humanidade comum e por isso, se a escolha fosse minha , acolhiam-se mais emigrantes na Europa. Se calhar digo isso porque para o meu quintal ninguém quer e mal pode vir , se calhar até sou racista e não tenho consciência disso. Sei que daqui a 30 anos os Europeus vão ser bastante diferentes do que são hoje , e esforço-me por pensar que vão ser diferentes para melhor , mas não é fácil, e por um lado fico contente por não estar cá para ver .

Quando começar a campanha eleitoral em França não se espantem muito se a Le Pen se começar a chegar à frente , e não fiquem muito surpreendidos se ganhar , apesar do que diz hoje a inteligentsia e as sondagens.

Prevaleceu a Razão

No Dakota não houve mais momentos dramáticos nem  escalada de tensão até à última hora , o Corpo de Engenheiros do Exército anunciou que não vai deixar passar o oleoduto nas terras em questão , o traçado vai ser desviado , as forças de segurança já desmobilizaram e houve fogo de artifício no acampamento dos Protectores da Agua.

 

Pelo menos desta vez a máquina não passou , e eu fiquei satisfeito , não por acreditar que os problemas ambientais vão diminuir e a água vai ser mais defendida pelo Estado nem  por acreditar que  um desvio de 100 ou 500kms resolve o problema . A probabilidade maior é que a administração Trump reverta a decisão . Tal como os agravos feitos aos índios não se resolvem dando dinheiro aos índios , a ameaça à água não se inverte cancelando um projecto industrial.

Fiquei satisfeito por ver o Estado admitir que não podia resolver a questão pela força  e recuar na face de pessoas que do seu lado não tinham mais que do força moral e convicções fortes.  Gostei de ver a determinação dos manifestantes , a dos índios compreende-se bem , mas a das centenas e centenas de pessoas que foram para os confins do Dakota em Dezembro , gente de todos os cantos do país , só para estar ali .

Nada disto seria possível sem tecnologia moderna , a mesma que na sua base tem o líquido que é transportados nos oleodutos. A mobilização , a cobertura mediática , as organizações populares, a logística , as comunicações , os SUVs e aviões que levavam os manifestantes para Standing Rock . Esta é a contradição com a qual temos que lidar constantemente : o mal que nos fazem as coisas que nos fazem jeito.

Se se procurar nos arquivos deste blog a palavra “manifestante” não se encontram muitas referências simpáticas , por várias razões , a principal  é a enorme futilidade e inconsequência da esmagadora maioria das manifestações e protestos que vejo. Estou mais habituado a ver seis autocarros de sindicalistas a encravar os trânsito por causa de 2% no subsídio de almoço ou gente que interrompe políticos com canções de protesto no meio de actos oficiais insignificantes . A ver manifestações que começam quando chegam as televisões e dispersam quando os jornalistas , tendo recolhido o seu soundbyte e conferido com isso importância à manifestação , se vão embora. A ver a imprensa tratar seis pessoas a ralhar como um protesto popular .A  ver enormes manifestações  , como na Grécia , a protestarem  , às vezes violentamente , contra o inevitável.

Por isso simpatizei com estes manifestantes e esta luta :  por ser clara , inequívoca ,  inflexível ,  pacífica e com resultados muito fáceis de medir : ou ganhamos e aquilo não passa , ou aquilo passa e perdemos. Por ser simples : o que há a fazer é ficar aqui . To stand.  Por dizer  respeito à água ,  diz-nos respeito a todos. Por ser uma luta dos índios em particular , se se pode falar em mérito histórico , está ali.

Dá um certo alento , do mesmo modo que um desfecho violento teria deprimido , saber que há muito espaço ,  especialmente com esta tecnologia que nos assiste , para fazer a diferença , para organizar oposição , para contrariar o Estado e as Indústrias poluentes ,  para parar algo “mau” . Dá alento ver confirmado que , pelo menos no Ocidente , o Estado não é todo poderoso .  Que as pessoas se importam  , que o mundo está , potencialmente , a ver , e se as pessoas  virem que a causa é justa e a escolha clara ,  vão-se manifestar ,  informar e apoiar.

Por um fim de semana quase que estava a tornar-me ambientalista , isto não pode continuar.