Natureza Pura o caraças

Tirei esta  foto  ontem, a uns 500 metros de minha casa, não é um caminho que faça muitas vezes mas calhou porque fui buscar a filha de uns amigos à escola, viemos a pé por aí acima e aproveitei , já queria uma foto dessa ponte há anos mas nunca passo a pé nessa estrada e não sou  de me deslocar por uma fotografia.

Publiquei-a no Instagram , onde tenho uma conta cheia de ovelhas e cães e algumas, poucas, fotos de cantos bonitos da ilha, geralmente com algum cão ou alguma ovelha a compôr o enquadramento, e volta e meia, no verão, os botes baleeiros. Os meus interesses estéticos.

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Uma amiga comentou “que lindo, a natureza pura!” e eu, que estou muito melhor do que já fui mas ainda assim tenho dificuldades em estar tão calado como seria recomendável e sociável, aproveitei logo a ocasião para explicar que  pouco nesta foto é natural e ainda menos puro.

É uma das minhas irritações de estimação, esta mania de aplicar o rótulo “Natureza Pura” à paisagem açoriana, e à força de repetições  exaustivas e de falta de originalidade,  criatividade e esforço, tornou-se o slogan dos Açores e as pessoas, como a minha amiga que comentou com o cliché por reflexo, ouvem ou vêm “Açores” e é como a campaínha  do cão do Pavlov, não começam a salivar mas dizem “natureza pura!”.

Por definição, o que é natural é o que não é feito nem modificado pelo homem, o que não tem artifíciocomposição ou mistura. 

Acho que isto não é complicado de entender nem controverso, mas às  vezes são as coisas mais simples que causam os maiores mal entendidos. Olhem lá para essa foto outra vez. Há os postes e fios da electricidade, a ponte, duas casas, o caminho e um campo cultivado num socalco. Nem vou entrar no tipo de vegetação, porque para muita gente moderna basta ser uma erva para ser natural, dou isso de barato. Essa foto não mostra nenhuma natureza pura, mostra uma paisagem modificada pelo Homem, e a maior parte da paisagem Açoriana,  que poucos apreciam mais do eu, é assim.

É preciso ser um bocadinho ignorante ou não ligar muito ao significado das palavras para não perceber , assim que se aterra ou aporta em qualquer  das ilhas, que o que vemos não é o trabalho da Natureza, o que vemos, depois de 500 e tal anos de ocupação humana, é uma paisagem moldada e criada pelos esforços do Homem.  Alguém pode descrever os prados da Terceira como naturais, quando levou séculos a desmatar, limpar a pedra, nivelar a terra, bordejar os talhões, semear e cuidar a relva? É isso um prado natural? No Corvo há uma paisagem natural, o Caldeirão, de resto não há em toda a ilha um metro quadrado que não tenha sido modificado pelo Homem. Aqui passa-se quase o mesmo, mas ainda assim , como é uma ilha muito montanhosa, mantém muitas partes que por inacessíveis e improdutivas nunca foram alvo de acção humana, é verdade, mas são poucas. E a maior parte das vezes basta desviarmos ligeiramente o olhar de determinado ponto de extraordinária beleza natural e vimos logo a acção do Homem.

Pode tirar-se esta esta foto (não é minha) deste sítio magnífico porque se fez um caminho  de pedra até lá e se cortaram árvores. A mata que se vê do lado esquerdo é de incensos, ou Pittosporum undulatum, planta originária da Austrália que não chegou aqui por meios naturais nem por obra e graça do espírito santo.

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Por todo o lado vejo pessoas deslumbradas a rotular de beleza natural as infindáveis sebes de hortênsias que nos bordejam as estradas ou as matas de criptomérias , como se as hortênsias tivessem crescido espontâneamente em filas ao longo das estradas ou a separar as terras ou a criptoméria fosse uma espécie endémica.

Se não fossem 500 anos de ocupação e labor humano, se não fosse a agricultura em todas as suas formas, se não fossem as importações, voluntárias ou involuntárias, de espécies vegetais e animais, se não fossem os esforços hercúleos de gerações a modificar constantemente a paisagem, todas as ilhas seriam muito diferentes, nem que fosse no tipo de vegetação.

Só há natureza pura em sítios onde o Homem não passou, ou passou muito ao de leve.  Já são muito poucos no Mundo, e o Arquipélago dos Açores não é um deles. Por isso visitem, sobretudo visitem o Grupo Central e Oriental , apreciem e deslumbrem-se com as belezas destas ilhas, que não faltam, mas não lhe chamem Natureza Pura.  Ou chamem, isto é só mais uma coisa que me irrita mas que no fundo não interessa nada.

Rebelião da Extinção

Em 1962 a americana  Rachel Carson publicou um livro chamado Silent Spring , ou Primavera Silenciosa , em que  pela primeira vez se alertava o mundo para a outra face do uso dos pesticidas que por essa altura começaram a revolucionar a agricultura. Como cientista, estudou principalmente o efeito do DDT nos humanos e noutras espécies animais e quem leu aquilo com atenção ficou alertado para o perigo emergente.

Foi há 57 anos e foi a origem da consciência ambiental moderna. O problema foi que as pessoas com poder de decisão e voto na matéria, ou seja, governos, agricultores e produtores de químicos, puseram num prato da balança os riscos e no outro as vantagens  e decidiram que as segundas compensavam largamente os primeiros, e foi sempre em crescendo químico até há bem pouco tempo .

Uns anos mais tarde, em 1989, apareceu outro livro, e esse já o li, chamado O Fim da Natureza, de Bill McKibben, a primeira vez, tanto quanto sei, que se chamou a atenção para as mudanças causadas pelo Homem e suas possíveis consequências, a primeira descrição do Antropoceno, como alguns designam agora a nossa era. Esse passou muito mais despercebido que o primeiro, além de ser tão ou mais importante, principalmente porque a conclusão das observações do autor sobre as alterações climáticas potencialmente catastróficas causadas pela acção humana era a seguinte : só há duas maneiras de lidar com este problema , ou acção reflexiva , contrariando e contendo directamente os efeitos perigosos, ou simplesmente um modo de vida mais humilde.

Isto foi há 30 anos, numa altura em que as democracias liberais capitalistas triunfavam em toda a linha, a História tinha chegado ao fim como dizia o F. Fukuyama, caminhávamos para a Democracia, Abundância e Paz e a última coisa que quem quisesse ser ouvido por multidões devia recomendar era uma vida mais humilde. Aliás, essa recomendação nunca passou muito bem nem nunca foi levada muito a sério em nenhum período histórico, não acabou bem por exemplo para Jesus Cristo e os pregadores da simplicidade, humildade e despojamento sempre foram relegados para a caixa dos excêntricos , quando não dos hipócritas. 

Era o nosso direito divino e destino natural  (manifesto, no caso dos americanos) ,  dominar e explorar a Natureza, e nisto vivemos e progredimos séculos, até que inovações o motor de combustão interna e o modo de produção capitalista aceleraram o processo até se tornar imparável. Os efeitos eram raros , espaçados e dispersos, as vantagens imensas e aparentes, e foi preciso virar o século e a comunicação de massas chegar a toda a gente para começarmos a perceber o sarilho em que nos metemos.

Os mais atentos (não era o meu caso, apesar de ter lido o McKibben) sabiam há décadas mas a generalidade da população não sabia e grande parte não queria saber. O facto de a causa ambientalista ter sido impulsionada pelos herdeiros dos hippies e financiada tantas vezes por inimigos do Ocidente (como a Rússia com o Greenpeace)  não ajudava nada à sua aceitação pela população em geral, que tradicionalmente só consegue ver um problema quando este lhe cai em cima e desconfia sempre , por vezes com razão, dos alarmes que vão soando. O Al Gore  acertou em cheio no título do seu documentário “Uma Verdade Inconveniente”. Ninguém  gosta de ver posto em causa o seu modo de vida, especialmente quando este é confortável, como o é o da sociedade ocidental, por mais reclamações e queixas que se façam.

Chegamos a 2019 , já haverá muito poucas pessoas que não estejam convencidas da gravidade do problema e das suas causas, mesmo que subsista uma espécie de debate entre os que negam a origem humana das alterações e os outros, mas ambos as aceitam, sobrando uns quantos trastes  ideológicos como o Trump que não só se nega a admitir que o aquecimento global é real e recusa sequer pensar em tomar medidas para o mitigar como elimina tentativas de protecção ambiental feitas pelo antecessor.

Mas hoje toda a gente sabe, toda a gente discute e toda a gente tem a sua posição, nem que seja de indiferença ou negação, no sentido de recusa em aceitar a realidade.  Como eu vejo as coisas os problemas principais são de 3 tipos, todos ligados : esgotamento dos recursos ; explosão demográfica e as alterações climáticas propriamente ditas,  como o aumento dos fenómenos metorológicos extremos  (uma das muitas razões que me fez abandonar a navegação oceânica) .

A soma destes 3 é simultâneamente causa e consequência de conflitos e tensões políticas que facilmente podem escalar, por exemplo : desertificação no Sahel aumenta a  miséria – aumenta o fluxo migratório –  os imigrantes não se integram bem – sobe a xenofobia – demagogos aproveitam-se dela para chegar ao poder, instala-se um regime autoritário. Isto já está a acontecer,  isso também veio alarmar a opinião pública e as coisas começam a mexer…à superfíce pelo menos.

Entra em cena a Greta Thunberg , de quem já falei aqui , moça que admiro e que temo  que não vá acabar bem, não por ser perseguida pela Exxon Mobil mas por ser  a face visível de um movimento caótico, vago e megalómano.  Esta moça iniciou na sua terra uma greve escolar para obrigar o governo a agir contra as as alterações climáticas, a greve tornou-se viral e global e   deu um impulso enorme a um movimento denominado Extinction Rebellion . cujo objectivo é  o exercício de pressão sobre os governantes e o público para aumentar a conscientização sobre a crise climática.[4]

Andei a ler manifestos e vídeos de acções e  propaganda destes e de de outros movimentos , e sofrem todos de dois problemas graves : acreditam que os governantes conseguiriam, mesmo que quisessem, tomar o género de medidas radicais necessárias a um combate eficaz às alterações climáticas e ignoram a principal mensagem do Bill McKibben : a chave está na redução drástica dos consumos , coisa que , parafraseando o Al Gore, é uma verdade inconveniente. Os rebeldes apelam à desobediência civil e resistência pacífica, não apelam nem exigem a redução drástica do tráfego automóvel e aéreo, o abandono da comida processada , dos guarda roupas cheios, das frutas todo o ano nos supermercados  e dos 300 canais de TV . Não têm, que eu tenha visto , nenhuma proposta de política económica concreta, nenhum programa de acção além de exigir que os governos façam alguma coisa.

Se amanhã o governo francês, por exemplo, decretasse o fecho das refinarias mais poluentes da França isto ia trazer ar muito mais limpo na zona mas ia mandar para o desemprego milhares, provocar o aumento do preço dos combustíveis e o aumento da refinação nos países vizinhos. Se a Nigéria parasse  de explorar petróleo e expulsasse as multinacionais o delta do Níger ia ficar muito mais limpo mas milhares de nigerianos ficavam sem emprego, a Shell mudava a tralha para Angola ou México ou qualquer dos outros países onde opera e o benefício total seria muito pequeno. Podíamos estar aqui a noite toda a dar exemplos destes para ilustrar uma verdade simples:

Um problema global não se resolve com soluções locais, e acreditar na eficácia de uma grande reunião de governos mundiais para resolver o problema é do campo da alucinação, não sei se lhes passaram despercebidas coisas como a conferência do Rio ou de Paris onde o que ficou claro foi que  entendimentos globais raramente passam da retórica e das declarações de intenções. Por isso  mesmo que os governos tivessem poder decisivo, um acordo global e acção consequente sobre isto é uma miragem, uma coisa só julgada possível por adolescentes como a Greta e  ingénuos de todas as idades.

Preparemo-nos para muitas notícias sobre a “rebelião” e zero resultados além de medidas simbólicas e pontuais. Como estratégia de combate a um problema grave, bloquear , manifestar e revoltar com exigências de que se faça alguma coisa mas não sabemos bem o quê, é muito fraquinho. Mas a estética está lá toda e é apelativa, especialmente porque permite às pessoas ventilar a frustração e identificar , apontar e atacar culpados  (os governos, as multinacionais) , ter a sensação de que se está a contribuir para a resolução do problema e esquecer a gravidade da nossa contribuição diária para a degradação ambiental , com os nossos actos e consumos , mesmo os mais banais.

A rebelião devia ser contra o consumismo, uma rebelião que não precisa de bandeiras, líderes, slogans,  discursos nem manifestações,  uma rebelião individual causada por uma decisão racional e consciente e devia ser essa a mensagem e exemplo destes activistas. Sem essa redução dos consumos não há nenhuma sustentabilidade, equilíbrio ou recuperação possível, e sendo assim creio que o foco devia ser todo para o modo como viver e sobreviver às alterações climáticas e não em carregar contra  moínhos de vento,  defender causas perdidas e exigir que outros façam alguma coisa.

 

Terra Comum

Este diálogo teve lugar ontem  no café da vila:

-Ó Jorge, não queres comprar lã?

-Ome não! Já dei a minha toda este ano , só serve para pôr no pés das arvores de fruto. ( este ome não/ome sim é dos meus regionalismos favoritos, volta e meia dou por mim a usá-lo e as pessoas sorriem)

– Dantes a minha mãe fazia isso tudo, lavava, cardava, fiava e depois fazia-nos camisolas. A gente não gostava nada daquilo porque dava muita comichão mas a minha mãe queria que as levássemos por causa do frio, a gente não tinha outras, dizia-nos que as camisolas salvavam dos relâmpagos, para a gente não as tirar. Dantes havia mais relâmpagos do que agora.

Este dantes , quando as pessoas daqui tinham que fazer a própria roupa, de péssima qualidade, com o que saía da terra, com esforços que hoje poucas pessoas concebem , é o passado que muitas pessoas romantizam, para minha irritação profunda.

Isto a propósito de uma proposta do Orçamento Participativo dos Açores,   que está a votação entre outras 12 para a Ilha das Flores. Um orçamento participativo é um dispositivo mediante o qual os políticos dispensam uns milhares  de um orçamento de milhões para financiar propostas dos cidadãos, dando assim uma ilusão de participação nas decisões sobre alocações de fundos. As pessoas ficam contentes e agradecidas por verem dez mil euros concedidos a um projecto por um gabinete que consome isso em ajudas de custo para os seus funcionários por semestre ou perto. Podia ser pior, podia não haver maneira de ver uma ideia saída da sociedade civil financiada sem ser pelos processos habituais, nomeadamente as boas ligações familiares e políticas.

Fui ver que propostas havia este ano porque recebi uma mensagem de uma amiga a pedir-me para ir votar na proposta deles. Começou mal porque um dos hábitos contemporâneos que mais me irrita ( isto hoje anda de irritações, deve ser do tempo que faz) é enviar  mensagens  a 500 pessoas a pedir alguma coisa. Se me querem pedir alguma coisa ao menos escrevam o meu nome, é o mínimo, se começam com um olá genérico e é aparente que aquilo é copiado e colado para toda a gente perdem logo 50% da minha eventual atenção e boa vontade.

Bom , então a proposta dos meus amigos chama-se Terra Comum e “abraça o conhecimento popular, resgatando a simplicidade e autonomia da vida antiga da ilha, aliando-a ao conhecimento moderno, tornando assim a vida quotidiana mais sustentável, saudável, diversificada, participativa e solidária.” 

Começo por dizer que sou amigo dos proponentes disto , sempre me dei bem com eles e considero-os pessoas impecáveis, mas isso comigo não isenta ninguém de críticas, tal como  recebo bem críticas que me fazem amigos que também me acham um gajo porreiro mas discordam de mim em muita coisa, acho que deve ser assim.

O meu problema com a Terra Comum começa logo no nome, porque eu acho que a terra que é comum são as estradas e os edifícios e terrenos públicos e tudo o que tem proprietário não é comum. As ideias e propostas comunitárias esbarram logo num conceito  quase tão velho como andar para a frente, a simples , famosíssima e ainda assim demasiado ignorada Tragédia dos Comuns .  Exemplo flagrante dessa tragédia  no nosso tempo é a devastação dos Oceanos, o bem comum por excelência, mas esses exemplos cristalinos não demovem os apologistas da comunidade. Além dos Oceanos e do seu estado evidente temos mais exemplos de  desgraças na  gestão pública, quando a coisa é de todos, todos são responsáveis e isso acaba por se traduzir na prática em ninguém ser responsável.

Para mim uma das maiores e mais fundamentais distinções nas bases ideológicas das pessoas é  entre  os que acreditam que os Homens são naturalmente “bons” e solidários e os que acreditam que os homens são naturalmente e geneticamente dedicados a prosseguir os seus interesses particulares. Na impossibilidade, para mim evidente, de se alterar a natureza humana, o que se deve fazer é conciliar e organizar os interesses individuais de modo a gerar o máximo de bem comum, como por exemplo no comércio: eu tenho 5 quilos de X , o meu vizinho tem 5  moedas, vendo-lhe 2,5kgs por 2,5 moedas e ficamos ambos melhor do que o que estávamos. Isto é complicado demais para  muita gente que acredita que eu devia, por altruísmo e igualitarismo, dar metade do meu X ao meu vizinho por ele não ter nenhum X e que ele , por sua vez, por solidariedade, me daria 2,5 moedas porque o que seria justo era termos todos o mesmo número e quantidade de objectos e moedas, só porque somos todos humanos. Recuso isto, para mim a igualdade que importa é a igualdade perante a Lei e a igualdade de tratamento entre os Homens, de resto todo o Homem que se levante acima dos outros sem desrespeitar essas igualdades fundamentais merece lá estar.

Voltando à proposta da Terra Comum, o que se propõe é recolher os saberes e modos de fazer ancestrais da agricultura, coisa que levaria , acredita-se, a um futuro mais sustentável, palavra que está em risco de se gastar de tão usada. Ora, se todos vivêssemos em barracas de madeira sem electricidade, andássemos a pé ou de burro e comêssemos o que se produz na nossa vizinhança segundo os modos e saberes ancestrais não há dúvidas de que o meio ambiente não sofria, o ar , a agua e os solos seriam limpos e não teríamos todas as pressões consumistas que temos.

De igual modo, se recusarmos a medicina e a farmacopéia moderna e nos virarmos para os saberes ancestrais também negamos lucros exagerados às diabólicas multinacionais e evitamos habituações e efeitos secundários tenebrosos, mas voltaremos a um tempo em que a esperança média de vida andava pelos 40 e de cada 3 crianças que nasciam morria uma, era mais natural.

As pessoas que defendem, particularmente nesta ilha, esse regresso aos saberes ancestrais esquecem-se de que existem boas razões pelas quais grande parte deles foi actualizado ou substituído: encontrou-se uma maneira melhor de fazer as coisas. Um projecto que defenda uma agricultura como ela era há 50 ou 100 anos defende uma agricultura no limite da subsistência em que a variedade alimentar andaria  pelos dez géneros distintos e em que havia FOME, há que dizê-lo com todas as letras, muita fome nesta ilha, a razão que fez com que de uma população de 12000 pessoas no século XIX passámos a 3500 hoje. As pessoas emigraram em massa por causa da miséria, miséria causada e perpetuada por uma agricultura incipiente, “ancestral”, que exigia esforços hercúleos e dava recompensas magras. As pessoas emigraram em massa porque a “autonomia” que este projecto reclama condena-nos ao isolamento e priva-nos dos contactos e comércios com o exterior, o motor da evolução .

Como disse, conheço pessoalmente os promotores da Terra Comum. São todos jovens da classe média urbana aos quais nunca faltou nada na vida e se faltou foi por escolha e rebeldia. Jovens que tiveram todas as oportunidades de estudar e viajar e aprender e evoluir, jovens que não morreram de varicela porque foram vacinados, jovens que se alimentaram bem porque a agricultura e distribuição moderna lhes permitiu isso, jovens que queimaram carbono às toneladas nas suas viagens pelo mundo nas quais descobriram as maravilhas de um mundo idealizado no qual se tivessem nascido dificilmente teriam passado de camponeses sub nutridos, estáticos e ignorantes, mergulhados no obscurantismo.

São pessoas assim que hoje por todo o lado no ocidente evoluído reclamam  um regresso a um passado de doença, escassez e desconforto (como as camisolas de lã da infância do meu vizinho) e que não desistem de idealizar e romantizar esse passado enquanto diabolizam  o progresso material da humanidade como causa dos nossos problemas.

Precisamos de idealistas, precisamos de pessoas empenhadas na conservação do património cultural , na defesa do ambiente e na busca de soluções para os problemas reais e dramáticos que enfrentamos como espécie e sociedade, mas não precisamos nada de pessoas que acreditam que voltar ao passado, mesmo que fosse possível, resolveria  alguma coisa. Já lhes disse que apoio a ideia deles de recuperar terras incultas e trabalharem na agricultura biológica, têm em mim um cliente regular se os preços forem competitivos e sei que há  muito dinheiro a ganhar na horticultura nesta ilha, para quem esteja disposto a mourejar na Terra de sol a sol…como era antigamente.

Desejo-lhes sorte, se a proposta deles ganhar vou-lhes dar os parabéns porque, como já disse, são excelentes pessoas e bem intencionadas…mas eu votei numa proposta que pretende melhorar o ensino de música na ilha.

Viva o Plástico

O plástico foi das maiores invenções da Humanidade mas como faz parte integrante da vida quotidiana há décadas poucos reconhecem e reparam nisso. Menos ainda conseguem imaginar o que seria a vida  sem plástico e tomam os confortos, comodidades e avanços da Modernidade por garantidos. Consegue-se  ao mesmo tempo utilizar o plástico e demonizar o plástico, coisa que a mim me surpreende um pouco, é um bocado como com o capitalismo, sistema que apesar de ser a origem da modernidade como a conhecemos é todos os dias aviltado e combatido por quem beneficia dele.

Está na moda falar dos problemas causados pelo plástico, nomeadamente ambientais, e não há dia que passe sem um ou seis vídeos no FB a mostrar uma praia cheia de lixo ou toneladas de plástico a flutuar no oceano.

A esses vídeos seguem-se  comentários indignados, é o plástico, é o capitalismo, é a ganância, é a inconsciência, há que exigir uma alternativa ao plástico, há que usar menos plástico. Das centenas de indignados e preocupados há uma mão cheia que toma uma atitude, e geralmente a atitude é levar um saco de pano às compras, deixar de pedir palhinhas com as bebidas e ralhar no facebook contra os outros. Estou à espera de ver um vídeo sobre um   millenial que em vez de moer a cabeça sensibilizar os outros e invectivar o plástico tenha tomado uma atitude séria, consequente e exemplar e eliminado  o plástico da sua vida.

É que isso é perfeitamente possível, é é um bocado incómodo, desconfortável e exige sacrifícios, por isso o que se faz são actos simbólicos e exigências que alguém faça alguma coisa.

Já não tenho paciência para quem me quer fazer culpado do problema  como membro da sociedade ocidental capitalista. Percebo bem quem se choca, eu já vi mais mar que a maioria dos ambientalistas vai ver a vida toda, já vi desgraças ambientais e já me choquei muita vez,  mas o que é sério e para mim triste é que com as exigências e recriminações  se está a falhar o alvo e a confundir um problema gravíssimo, que é o plástico que acaba no mar, na orla costeira e pelas ruas, com outra coisa que é a produção e utilização de plástico, e quer-se reduzir a segunda pensando que isso vai reduzir a primeira. Não vai.

O problema é o lixo, não a sua existência, que é inevitável mas a sua presença nos sítios errados. Se eu for ali acima à lixeira, tirar meia dúzia de fotos e as puser no facebook com a legenda “isto passa-se na ilha das Flores, reserva da Biosfera” aposto que se segue indignação, revolta  e invectivas a tudo. Mas a ilha é habitada, os habitantes produzem lixo, o lixo tem que  ir para algum lado e ali está contido e é tratado. Corram a ilha toda, desde a costa  até aos montes e matos e dificilmente encontram  uma ponta de plástico. Ou seja, aqui toda a gente usa plástico à vontade mas uma ínfima fracção o deita fora do sítio certo e temos um sistema de recolha e tratamento, por isso não é um problema.

Agora andem duas mil e poucas milhas para Oeste daqui e vão ver por exemplo uma cidade como Port au Prince nesse buraco infernal que é o Haiti. Não há tratamento nem recolha de resíduos, os esgotos são a céu aberto e todo o lixo vai dar ao mar. Passados meses parte dele aparece aqui, muito espalha-se por esse Atlântico. O mesmo na Indonésia, no Bangladesh, em grande  parte da China e na maior parte de Africa: as pessoas usam plástico pelas mesmas razões que nós usamos só que o descartam  por todo o lado, por razões também conhecidas: ignorância, falta de educação e falta de interesse e capacidade dos estados e governos.

Tal como a poluição  atmosférica não tem fronteiras , a marítima também não, por isso podia-se interditar e eliminar o uso do plástico em Portugal que as nossas costas e os nossos mares iam continuar cheios de lixo.

Isto não é óbvio para toda a gente, ou se é óbvio é difícil de ser dito porque implica uma crítica ao terceiro mundo e a todos os países, infelizmente são muitos, que não conseguem, não podem ou nem querem resolver o seu problema dos resíduos.

Já estou cansado de ver o plástico tratado como uma praga ou veneno quando a praga é a falta de consciência e educação, já me farta ver todos os dias exigido o fim ou redução do plástico e nunca, mas nunca ver exigido e valorizado o tratamento do lixo, que é o verdadeiro problema.