Agricultura Biológica

Quando há acções de formação nos Serviços Agrícolas vou sempre, mesmo que não tenham relação muito directa com o meu tipo de agricultura. Infelizmente não há muitas  acções destas porque não é fácil nem barato trazer os formadores, noutros sítios vão e vêm no seu carro, aqui implica avião, hotel, etc.  Inscrevo-me sempre por duas  razões, a primeira é  oportunidade de aprender alguma coisa à borla, a segunda é o contacto com as pessoas, os poucos participantes que não conhecíamos ficamos a conhecer e é bom trocar umas ideias sobre interesses comuns e conviver um bocado.

A formação não é uma brincadeira, foram 8 dias de 7 horas, eu nem tinha pensado nisso quando me inscrevi e foi uma disrupção na minha vida, que tirando um ano aqui e seis meses ali, muito episodicamente, nunca se organizou à volta de um horário das 9 às 5 com uma hora para almoço.

É um bocado misterioso para mim como é que se passam anos e anos a levantar de manhã para ir picar cartão num serviço de que se pode gostar ou não, passar lá o dia todo, voltar a casa ao fim da tarde e no dia seguinte repetir. No caso das mulheres, imensas das quais fazem isso e depois ainda voltam para casa para a limpar , lavar roupa, cozinhar e tratar de eventuais crianças, a coisa ultrapassa a minha capacidade de entendimento.

Também por isso, por ter evitado uma vida preso a uma máquina de ponto, sou um gajo de muita sorte e não há nenhum conforto nem bem material que pudesse ter adquirido numa profissão com horário de trabalho regular que me compensasse poder acordar de manhã e pensar “ora bem , então hoje vou fazer o quê?”.

Essa decisão aqui está sempre dependente do tempo que faz, estamos sempre a ver a previsão e ver quando é que se pode fazer alguma coisa na rua, e chegando ao fim o Inverno há uma lista enorme de ocupações e trabalhos a ser feitos . A minha lista actual tem 17 tarefas que  oscilam entre uma hora e um dia inteiro e 14 dessas só podem ser feitas se não chover, e estava a acumular porque a Primavera anda tarda um pouco.  Foi por isso  que me custou um bocado passar os primeiros dias bons do ano sentado numa sala a ouvir preleções sobre Agricultura Biológica, ou melhor, o Modo de Produção Biológico , que é  um sistema global de gestão das explorações agrícolas e de produção de géneros alimentícios que combina as melhores práticas ambientais, um elevado nível de biodiversidade, a preservação dos recursos naturais, a aplicação de normas exigentes em matéria de bem-estar dos animais e método de produção em sintonia com a preferência de certos consumidores por produtos obtidos utilizando substâncias e processos naturais.

É o sistema que se praticava antes de haver mecanização, introdução de agroquímicos e produtos fitossanitários , antes da agricultura industrial, mas utilizando todo conhecimento científico e técnico acumulado desde lá, acompanhado do conhecimento das consequências da agricultura industrial para os solos, climas e bio diversidade.

Se virem este símbolo num produto significa que  ele seguiu as regras do Modo de Produção Biológico, sendo por isso além de  mais benéfico para a saúde  muito mais benéfico para a sustentabilidade ambiental.

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Se eu quisesse passar a vender borregos com esse rótulo não tinha que mudar  nada na minha exploração, já tenho tudo conforme no lado do bem estar animal, mas tinha que deixar de lhes dar as rações de reforço que dou no Inverno, porque as rações disponíveis aqui têm todas componentes OGM e o custo de importar rações biológicas é proibitivo. Tinha além disso que pagar uma taxa anual para financiar os testes e medidas de controlo e lidar com uma, mais uma , burocracia. À minha escala não se justifica de maneira nenhuma, nem que  passasse a vender a carne ao dobro.

Há amigos interessados em serem certificados, estão a debater-se com outro custo da ultra insularidade , tal como é difícil e custoso trazer cá os formadores também o é trazer cá os técnicos do controle e certificação periodicamente.

Já tive reservas não quanto à agricultura biológica em si mas quanto à sua capacidade para alimentar tanta gente, globalmente. Continuo com reservas mas já creio que seria possível alimentar toda a gente com uma reconversão da agricultura a estes métodos mas dependeria de muitos factores virtualmente impossíveis,  como alterações generalizadas nos hábitos alimentares. Além disso ia provocar, ou exigir, uma revolução no sistema de distribuição e transporte global que não creio nada provável e ia sobretudo exigir o fim de um problema tremendo, o desperdício.

A razão que me fez acreditar que é  possível produzir o suficiente de modo biológico foi saber que aproximadamente um terço dos alimentos produzidos globalmente são perdidos ou deitados fora “Bastaria” acabar com esse desperdício e podia produzir-se o bastante, sobretudo porque há também a hidroponia, método que permite produzir sem solo e tem muito menos impacto que a agricltura convencional e tem a vantagem fenomenal de poder ser feita em meio urbano.

Sendo Portugal e este processo envolvendo  entidades públicas e privadas e muita burocracia, é esperado que haja alguma corrupção e/ou falta de rigor. Se já escasseiam meios para fiscalizar as actividades agrícolas em geral, outro nicho ainda mais exigente em termos de controle e procedimentos não veio ajudar, e claro que há episódios  e casos de aldrabice, mas creio que regra geral quem se dedica ou interessa por este tipo de agricultura não busca a rentabilidade acima de tudo, ou melhor, não a busca a qualquer preço.

Talvez o maior obstáculo à generalização do modo de produção biológico seja o sistema global de agro indústria e distribuição instalado e lucrativo,  esse sistema não se  vai simplesmente converter ao localismo biológico e orgânico, essas  Bayers , Auchans e Monsantos cujos presidentes gerem mais dinheiro que o Primeiro Ministro de Portugal .  Particularmente para a Monsanto, a generalização do modo de produção biológico significaria o fim, pura e simplesmente. Não há que contar com isso, mas pode-se contar com um esforço e progresso nesse sentido, o sentido de ir tomando melhor conta dos solos, da água e do ar e  produzir  e consumir comida de uma maneira mais racional .

 

 

 

Terra Comum

Este diálogo teve lugar ontem  no café da vila:

-Ó Jorge, não queres comprar lã?

-Ome não! Já dei a minha toda este ano , só serve para pôr no pés das arvores de fruto. ( este ome não/ome sim é dos meus regionalismos favoritos, volta e meia dou por mim a usá-lo e as pessoas sorriem)

– Dantes a minha mãe fazia isso tudo, lavava, cardava, fiava e depois fazia-nos camisolas. A gente não gostava nada daquilo porque dava muita comichão mas a minha mãe queria que as levássemos por causa do frio, a gente não tinha outras, dizia-nos que as camisolas salvavam dos relâmpagos, para a gente não as tirar. Dantes havia mais relâmpagos do que agora.

Este dantes , quando as pessoas daqui tinham que fazer a própria roupa, de péssima qualidade, com o que saía da terra, com esforços que hoje poucas pessoas concebem , é o passado que muitas pessoas romantizam, para minha irritação profunda.

Isto a propósito de uma proposta do Orçamento Participativo dos Açores,   que está a votação entre outras 12 para a Ilha das Flores. Um orçamento participativo é um dispositivo mediante o qual os políticos dispensam uns milhares  de um orçamento de milhões para financiar propostas dos cidadãos, dando assim uma ilusão de participação nas decisões sobre alocações de fundos. As pessoas ficam contentes e agradecidas por verem dez mil euros concedidos a um projecto por um gabinete que consome isso em ajudas de custo para os seus funcionários por semestre ou perto. Podia ser pior, podia não haver maneira de ver uma ideia saída da sociedade civil financiada sem ser pelos processos habituais, nomeadamente as boas ligações familiares e políticas.

Fui ver que propostas havia este ano porque recebi uma mensagem de uma amiga a pedir-me para ir votar na proposta deles. Começou mal porque um dos hábitos contemporâneos que mais me irrita ( isto hoje anda de irritações, deve ser do tempo que faz) é enviar  mensagens  a 500 pessoas a pedir alguma coisa. Se me querem pedir alguma coisa ao menos escrevam o meu nome, é o mínimo, se começam com um olá genérico e é aparente que aquilo é copiado e colado para toda a gente perdem logo 50% da minha eventual atenção e boa vontade.

Bom , então a proposta dos meus amigos chama-se Terra Comum e “abraça o conhecimento popular, resgatando a simplicidade e autonomia da vida antiga da ilha, aliando-a ao conhecimento moderno, tornando assim a vida quotidiana mais sustentável, saudável, diversificada, participativa e solidária.” 

Começo por dizer que sou amigo dos proponentes disto , sempre me dei bem com eles e considero-os pessoas impecáveis, mas isso comigo não isenta ninguém de críticas, tal como  recebo bem críticas que me fazem amigos que também me acham um gajo porreiro mas discordam de mim em muita coisa, acho que deve ser assim.

O meu problema com a Terra Comum começa logo no nome, porque eu acho que a terra que é comum são as estradas e os edifícios e terrenos públicos e tudo o que tem proprietário não é comum. As ideias e propostas comunitárias esbarram logo num conceito  quase tão velho como andar para a frente, a simples , famosíssima e ainda assim demasiado ignorada Tragédia dos Comuns .  Exemplo flagrante dessa tragédia  no nosso tempo é a devastação dos Oceanos, o bem comum por excelência, mas esses exemplos cristalinos não demovem os apologistas da comunidade. Além dos Oceanos e do seu estado evidente temos mais exemplos de  desgraças na  gestão pública, quando a coisa é de todos, todos são responsáveis e isso acaba por se traduzir na prática em ninguém ser responsável.

Para mim uma das maiores e mais fundamentais distinções nas bases ideológicas das pessoas é  entre  os que acreditam que os Homens são naturalmente “bons” e solidários e os que acreditam que os homens são naturalmente e geneticamente dedicados a prosseguir os seus interesses particulares. Na impossibilidade, para mim evidente, de se alterar a natureza humana, o que se deve fazer é conciliar e organizar os interesses individuais de modo a gerar o máximo de bem comum, como por exemplo no comércio: eu tenho 5 quilos de X , o meu vizinho tem 5  moedas, vendo-lhe 2,5kgs por 2,5 moedas e ficamos ambos melhor do que o que estávamos. Isto é complicado demais para  muita gente que acredita que eu devia, por altruísmo e igualitarismo, dar metade do meu X ao meu vizinho por ele não ter nenhum X e que ele , por sua vez, por solidariedade, me daria 2,5 moedas porque o que seria justo era termos todos o mesmo número e quantidade de objectos e moedas, só porque somos todos humanos. Recuso isto, para mim a igualdade que importa é a igualdade perante a Lei e a igualdade de tratamento entre os Homens, de resto todo o Homem que se levante acima dos outros sem desrespeitar essas igualdades fundamentais merece lá estar.

Voltando à proposta da Terra Comum, o que se propõe é recolher os saberes e modos de fazer ancestrais da agricultura, coisa que levaria , acredita-se, a um futuro mais sustentável, palavra que está em risco de se gastar de tão usada. Ora, se todos vivêssemos em barracas de madeira sem electricidade, andássemos a pé ou de burro e comêssemos o que se produz na nossa vizinhança segundo os modos e saberes ancestrais não há dúvidas de que o meio ambiente não sofria, o ar , a agua e os solos seriam limpos e não teríamos todas as pressões consumistas que temos.

De igual modo, se recusarmos a medicina e a farmacopéia moderna e nos virarmos para os saberes ancestrais também negamos lucros exagerados às diabólicas multinacionais e evitamos habituações e efeitos secundários tenebrosos, mas voltaremos a um tempo em que a esperança média de vida andava pelos 40 e de cada 3 crianças que nasciam morria uma, era mais natural.

As pessoas que defendem, particularmente nesta ilha, esse regresso aos saberes ancestrais esquecem-se de que existem boas razões pelas quais grande parte deles foi actualizado ou substituído: encontrou-se uma maneira melhor de fazer as coisas. Um projecto que defenda uma agricultura como ela era há 50 ou 100 anos defende uma agricultura no limite da subsistência em que a variedade alimentar andaria  pelos dez géneros distintos e em que havia FOME, há que dizê-lo com todas as letras, muita fome nesta ilha, a razão que fez com que de uma população de 12000 pessoas no século XIX passámos a 3500 hoje. As pessoas emigraram em massa por causa da miséria, miséria causada e perpetuada por uma agricultura incipiente, “ancestral”, que exigia esforços hercúleos e dava recompensas magras. As pessoas emigraram em massa porque a “autonomia” que este projecto reclama condena-nos ao isolamento e priva-nos dos contactos e comércios com o exterior, o motor da evolução .

Como disse, conheço pessoalmente os promotores da Terra Comum. São todos jovens da classe média urbana aos quais nunca faltou nada na vida e se faltou foi por escolha e rebeldia. Jovens que tiveram todas as oportunidades de estudar e viajar e aprender e evoluir, jovens que não morreram de varicela porque foram vacinados, jovens que se alimentaram bem porque a agricultura e distribuição moderna lhes permitiu isso, jovens que queimaram carbono às toneladas nas suas viagens pelo mundo nas quais descobriram as maravilhas de um mundo idealizado no qual se tivessem nascido dificilmente teriam passado de camponeses sub nutridos, estáticos e ignorantes, mergulhados no obscurantismo.

São pessoas assim que hoje por todo o lado no ocidente evoluído reclamam  um regresso a um passado de doença, escassez e desconforto (como as camisolas de lã da infância do meu vizinho) e que não desistem de idealizar e romantizar esse passado enquanto diabolizam  o progresso material da humanidade como causa dos nossos problemas.

Precisamos de idealistas, precisamos de pessoas empenhadas na conservação do património cultural , na defesa do ambiente e na busca de soluções para os problemas reais e dramáticos que enfrentamos como espécie e sociedade, mas não precisamos nada de pessoas que acreditam que voltar ao passado, mesmo que fosse possível, resolveria  alguma coisa. Já lhes disse que apoio a ideia deles de recuperar terras incultas e trabalharem na agricultura biológica, têm em mim um cliente regular se os preços forem competitivos e sei que há  muito dinheiro a ganhar na horticultura nesta ilha, para quem esteja disposto a mourejar na Terra de sol a sol…como era antigamente.

Desejo-lhes sorte, se a proposta deles ganhar vou-lhes dar os parabéns porque, como já disse, são excelentes pessoas e bem intencionadas…mas eu votei numa proposta que pretende melhorar o ensino de música na ilha.

Acordos

Há mais de um ano a Associação Agrícola anunciou que ia importar ovelhas INRA 401, quem estivesse interessado era só inscrever-se. Na altura tinha metade do número de animais que era o objectivo e possibilidade e em vez de  ir procurar mais ovelhas “locais” decidi investir e encomendei 5 fêmeas.

As INRA 401 ( este nome  tão poético é porque foram aperfeiçoadas Instituto Nacional de Investigação Agrícola francês) trazem  sempre gémeos, muitas vezes trazem  3 , são maiores e ganham mais peso do que “as outras” e ainda têm pelo menos outra particularidade, a cauda fininha e curta que evita ter que se cortar como se faz de costume às fêmeas.

Não encomendei um macho porque custa o dobro de uma fêmea  ( já  me queixei à  Comissão da  Igualdade de Género ) e porque dois lavradores de cá encomendaram machos. Esperava chegar a acordo com um deles para que o macho dele viesse cobrir as minhas ovelhas, e depois de algum tempo encontrei o senhor.

Nunca ouvi ninguém dizer uma palavra agradável ou positiva sobre esse lavrador, antes pelo contrário, e a primeira vez que falei com ele além de carrancudo como de costume não se mostrou nada receptivo, ofereci-lhe uma cria por um mês de serviço do macho, ele disse que ia pensar nisso e logo se via. Pensei que não ia resultar, um amigo  estrangeiro  aconselhou-me a oferecer-lhe 3 borregos em vez de um , uma vez que o resultado final do trabalho do carneiro podiam ser 10 eu ficava a ganhar largamente. Dei a esse meu amigo o desconto de ser estrangeiro e como tal até ter boas ideias mas não perceber muito bem  isto e decidi oferecer 2 borregos. Entretanto uma das ovelhas  novas morreu de repente e eu nunca soube porquê, o veterinário fez-lhe a autópsia ajudado por mim e nada.

Pouco depois disso encontrei o lavrador no café e antes que eu tivesse dito qualquer disse-me:

-Já estive a pensar , pode levar lá as ovelhas agora em Novembro.

-Ainda bem, e olhe , também estive a pensar melhor e decidi que o compensava com dois borregos em vez de um.

Nada me obrigava a isso mas por alguma razão não fui capaz de ficar caladinho e agradecido, como tinha decidido dar-lhe dois, assim ficou.

Lá passaram quase um mês  na que é para mim  a freguesia mais bonita desta ilha, a Costa do Lajedo,  misturadas com o carneiro da sua raça. Este intervalo de tempo é porque os cios das ovelhas vêm a cada 20 ou 30 dias, por isso deixando um carneiro junto com uma ovelha um mês inteiro é quase certo ela que passa por um cio, se o carneiro for competente a coisa dá-se.

Fui esperando Abril com bastante ansiedade  mas fui desanimando porque se duas estavam nitidamente prenhas, outras duas não davam sinal nenhum. A primeira pariu na noite de pior temporal deste ano, e apesar de eu ter feito uma cabana para se abrigarem foi parir mesmo no meio da pastagem , mais exposto não havia. Quando lá cheguei de manhã estavam as duas crias mortas.

Passados dois dias pariu a outra, essa fêmea preta e branca malhada da foto do post anterior e um macho branquinho. Safaram-se  bem, estão lindos e crescem mas não vou ficar com um nem outro, daqui a 3 meses, depois de desmamados, vou levá-los à Costa e cumprir a minha parte do acordo tal como o homem cumpriu a dele. O acordo foi mal feito, em vez de dizer “dois borregos” devia dizer “ ¼ dos borregos nascidos”  mas acordos são acordos pelo que a operação toda para mim foi um desperdício, uma certa tristeza e um prejuízo, mas assim é que se aprende e se queremos que nos respeitem e comerciem connosco temos que cumprir  o acordado, mesmo se o acordo se mostra desvantajoso.

As outras INRAS agora estão caldeadas com o meu carneiro indígena, as crias que eventualmente saírem dali vão valer metade do que valeriam se fossem de raça pura  (já  me tinham  encomendado duas…) mas  não interessa agora, e chegado ao Outono vou propor outra vez um acordo ao lavrador da Costa, mas desta vez um acordo mais bem pensado.

PS: Não posso deixar de expressar satisfação pelos resultados desportivos do Domingo passado, não o sucesso do FCP, que só por si nunca me agrada, mas pela vitória esforçada do Sporting e pelo modo clássico  como alguns  adeptos do SLB exprimiram o seu desagrado por terem perdido em casa e estarem a ver o penta a complicar-se: confrontos entre eles e com a polícia,  consola ver.

Um Parafuso a Menos

Há duas ferramentas que aqui toda gente que tenha mais terra do  que um jardim possui na arrecadação, quer tenha animais quer não : uma motosserra e uma roçadora. A primeira tem mais uso no Inverno, a segunda no Verão quando a monda parece que cresce diante dos nossos olhos. Usa-se a roçadora para limpar terras bravas e de cada vez que os animais acabam de comer determinada pastagem, passa-se a máquina para cortar as ervas de que eles não gostam, e também para simplesmente aparar a relva nos jardins e quintais. Já as motosserras trabalham mais no Outono e no Inverno, eu uso a minha para cortar lenha e quase todos os dias para cortar incensos. Como falo aqui várias vezes de incensos cabe  explicar que não estou a falar dos incensos orientais que se queimam em pauzinhos para aromatizar, estou a falar do Pitosporum Undulatum, uma árvore que se encontra por toda ilha, cresce rápido,  diz a wikipedia que é nativa da Austrália , aqui estão muitas imagens.

Em S.Miguel usa-se na cultura do ananás, faz uma espécie de cama orgânica onde eles crescem, e também se usa  para camas do gado. Em certas ilhas (e aqui também) produz-se mel de incenso, se o encontrarem à venda comprem-no todo porque dificilmente encontrarão melhor e mais puro, feito por abelhas que quase só se alimentam dessas flores e passam as vidas sem cheirar nem comer nada que não sejam flores. Não sei se também acontece nas outras ilhas mas aqui também se dá incenso a comer aos animais, as minhas ovelhas fartam-se de comer folhas de incenso não porque eu lhes queira muito variar a dieta mas para completar a alimentação, no Inverno não há erva que chegue, um saco de ração ainda são quase 15€ pelo que quase dia sim dia não vou cortar incensos, em terras minhas, em terras emprestadas e em terras onde me dão autorização para isso. Por razões óbvias não se corta uma tonelada de uma vez e se guarda, pode parecer que não mas as ovelhas são bastante esquisitas e preferem as folhas frescas.

 

Como lenha para aquecimento o incenso já não é grande coisa mas não se pode ter tudo, e tenho sempre uma  reserva de lenha  cortada em pedaços pequeninos para caber na salamandra, que é à mesma escala do resto das coisas. Como a alimentação para os animais e o aquecimento estão muito alto na lista das prioridades  (aqui muito raramente baixa dos 14º mas eu sou friorento e além disso gosto de ficar meio mesmerizado a olhar para o lume), a motosserra é a ferramenta essencial do Inverno. Recentemente comprei uma terra nova que tem uma matazinha, tenho lá lenha para cortar para  anos, e como o meu ritmo de trabalho é, para ser caridoso, um tanto  lento, também aí há quase todos os dias trabalho para a motosserra.

Como na altura tinha essa possibilidade decidi investir na melhor motosserra que há, é uma Stihl , passe a publicidade e desculpem os fãs da Husqvarna,  podia ter comprado uma chinesa por metade do preço mas que duraria um quarto do tempo. Como não podia deixar de ser é a mais pequena da gama mas é excelente, serve-me  perfeitamente  e nunca me falhou, mas não há material nenhum que resista à falta de jeito do operador e de alguma maneira que ainda não percebi bem arranjei maneira de entortar o parafuso que ajusta a tensão da corrente.

Não é um parafuso standard, sem surpresa não tinham na loja de materiais de construção e ferragens aqui, nem na outra vila, nem na Associação de Agricultores. Acontece frequentemente não haver algum artigo, especialmente com peças para  carros, não há em lado nenhum e demora sempre no mínimo dos mínimos 15 dias a chegar de fora. Quando os CTT eram públicos era assim, agora que foram privatizados…é igual.

Na Associação encontrei um amigo que me disse que de certeza que tinha disso, ele é auto didacta da mecânica e guarda os parafusos todos, lá fomos à garagem dele.

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Não é bem uma agulha num palheiro mas é um parafuso m5 com dois terços de rosca, como é normal havia naquela gaveta quase todas as medidas e formas de parafuso conhecidas do Homem menos essa. Com um torno, uma lima, boa vontade e aquela vantagem enorme de nos conseguirmos desenrascar com uma aproximação recuperámos o parafuso e tenho outra vez a motosserra funcional, mas não pode ser permanente, primeiro porque qualquer parafuso torto e depois endireitado está comprometido, depois porque com coisas como motosserras não se brinca nem facilita.

Ontem houve um acidente mesmo aqui ao pé de casa, um tipo que ia perdido de bêbado passou para fora de mão e bateu noutro de frente (sei que estava perdido de bêbado porque 15 minutos antes estava no mesmo café que ele) ficou encarcerado e a ambulância e os bombeiros vieram do outro lado da ilha  (aqui  há quartel mas não há equipamento de prontidão) eu estava lá quando os chamaram e demoraram quase 45 minutos , pelo que é bom que o pessoal aqui não tenha ferimentos que não permitam aguentar 45 minutos.

Estava a falar disso com um amigo no outro dia, se me acontece alguma aí numa ribeira ou numa combrada por causa de um desiquilíbrio ou de uma falha (por exemplo um parafuso numa motosserra), é bom que consiga sair pelo meu pé, porque primeiro que alguém dê pela minha falta  pode demorar dias, depois chegar ao centro de saúde é outro problema, e se não der para ser remendado lá tem que se ir de avião para o Faial pelo que é bom fazer tudo com calma, ter muito cuidadinho onde se pisa e onde se agarra e ter a certeza de que os parafusos estão todos em ordem.

Há  visitantes e admiradores da ilha que apontam como principal  obstáculo a instalarem-se cá,  o que os anglo saxões chamam dealbreaker,   a falta de um hospital, a ideia de ter um problema grave e não ter assistência é-lhes inconcebível. Eu respondo que se vive aqui  há 500 anos, criaram-se gerações e viveram-se vidas tão seguras e felizes ou inseguras e infelizes como noutros sítios, e que todos os dias morrem dezenas de pessoas num raio de poucos quilómetros dos melhores e mais equipados hospitais. De qualquer maneira encomendo o parafuso novo, não há que viver com medo mas não há que facilitar.

Terras

Esta terra fica a 20 metros da minha porta e há 6 anos que a arrendava  por 20€ por ano, não me perguntem como é que se calculam estas rendas que eu também não sei. Estava abandonada havia mais de 20 anos, fetos, silvas e cana roca da minha altura. Devagarinho transformei-a numa pastagem, vedei-a, e há dois anos no Verão conheci o proprietário , um “americano”. Disse-lhe que se a pensasse em vender que me dissesse, eu conhecia bem o procurador e sabia que não só como vizinho mas como rendeiro tinha direito de recusa se a terra ficasse à venda.

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Este Verão o procurador disse-me que estava tudo à venda. Numa das coisas mais estranhas que já me aconteceu aqui o procurador  não me disse o preço da terra até ao dia  antes da escritura. Eu dizia-lhe que tinha que saber porque era bem possível que não tivesse esse dinheiro, ele dizia-me que não me inquietasse, que de certeza que tinha, e se não tivesse não era problema, fazia-se a escritura à mesma e pagava quando pudesse. Apreciei a confiança mas não fiquei muito descansado, a cada vez que encontrava o homem ele dizia-me “não te rales”, até que em Novembro se ia finalmente marcar a escritura. Recebi um recado da notária (das minhas coisas favoritas aqui é a proximidade) a dizer-me que para se marcar a escritura era preciso um preço de venda, e ficou um pouco intrigada quando eu lhe disse que podia não acreditar mas eu não sabia. O procurador lá mandou o técnico da câmara avaliar aquilo e comunicou-me o preço no dia da escritura. Era o dobro do que eu calculava mas não tinha escolha, se não comprasse a terra comprava-a o outro vizinho e eu ficava sem esse pasto. Além disso deve-se sempre fazer todo e qualquer esforço para comprar terras  que sejam contíguas à nossa e devemos lembrar-nos de que terra é um bom investimento, especialmente porque já não se faz mais…tirando os casos em que estados reclamam terras ao mar, o que não é bem a mesma coisa e creio que no futuro vai ser mais comum o mar reclamar terras do que o contrário, especialmente porque com as perícias e capacidades dos Holandeses há muito poucos povos no mundo .

Além disso quanto mais o mundo urbano caminha para a degradação ambiental, segregação social e violências de toda a ordem mais valor tem um pedaço de terra num sítio com esta ilha. Todos os anos desembarcam aqui centenas de estrangeiros que olham para isto como um Refúgio Último e só não compram mais propriedades porque não as encontram. A publicidade incessante não abranda e creio que a tendência é para aumentar, ainda hoje conheci uma americana do Hawaii que cá apareceu com dois filhos e está determinada a instalar-se aqui. Diz que há aqui uma aura energética incrível, eu disse que não percebo nada da auras nem nunca vi nenhuma mas desde que cheguei aqui pela primeira vez que tive a certeza de que  esta ilha  era especial. Tão especial que tenho um certo receio pelo futuro disto ,  não  muito porque regra geral a minha preocupação com o futuro estende-se no máximo a 20 anos , depois disso é-me igual.

Na semana passada vendeu-se a Caldeira do Mosteiro inteira, consta que foi negócio de 1,5 milhões ou muito perto, é uma caldeira vulcânica inteira com uma aldeia abandonada.

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Vai ser um empreendimento turístico, como não podia deixar de ser, tal como 95% das casas que estão nesta altura a ser recuperadas, mas turismo ou não o que tenho por certo é que se há sítio onde o valor das terras só tende a aumentar é esta ilha, e por isso fiz um esforço gigante para pagar metade do preço da minha terra nova. O procurador nem pestanejou, depois da escritura feita depositei a metade do preço na conta do proprietário , apertámos a mão e sei que nunca mais tenho que lhe falar no caso excepto no dia em que pagar a outra metade.

Voltei a casa e fui andar para trás e para a frente na terra que já era minha , a apreciar a diferença, que é  enorme.

Pelo natal fui  dar a boas festas a uns vizinhos que por acaso eram as pessoas que tinham aquela terra arrendada há 20 anos atrás, contei-lhes a novidade e disseram-me logo que a mata também me pertencia, o que me deixou muito contente. Se repararem na foto a terra termina com umas árvores, é bordejada por uma “barroca” de uns 100m2 que estava brava como uma selva e que eu não sabia, nem o procurador, que fazia parte da  terra. “Mete-te já lá dentro para saberem que aquilo é teu!”, aconselhou o meu vizinho, e assim fiz, já comecei a limpá-la , de catana e motosserra,  são principalmente incensos mas há laranjeiras velhas, figueiras, araçás e as omnipresentes canas rocas e canas bravas, tenho para muito tempo a limpar aquilo e tirar de lá a lenha.A terra pode não ter ficado muito mais produtiva  pelo acrescento inesperado nem há grande coisa que se possa fazer numa barroca daquelas mas ficou mais bonita, também tenho uma mata! Como todo o resto, é pequenina, mas eu gosto de coisas pequeninas.

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Cirurgia Ovinícola

Fiz um investimento em cinco ovelhas de raça apurada, daquelas de escandalizar os hippies, chamam-se INRA401 e foram “desenvolvidas” pelos franceses.Trazem sempre gémeos, muitas vezes trazem três crias e crescem mais depressa que as outras. Desde que as encomendei até chegarem foram quase 5 meses e como não podia deixar de ser chegaram na altura mais inconveniente de todas, no mesmo dia em que eu ia apanhar um avião para o Faial.

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Estava no porto às oito da manhã mas só as pude tirar  do contentor às 11, foi um dia muito difícil porque três delas fugiram quando estava a chegar a casa. Vieram  do Alentejo, é difícil encontrar região do país mais diferente disto, vinham de uma viagem de muitos dias num contentor, vinham enervadas e aterrorizadas e assim que se  apanharam com uma aberta largaram-se a fugir pelos campos fora , acabando duas delas no fundo de uma ribanceira de uns 15 metros, de onde eu nunca mais as conseguia tirar  sozinho, mesmo que não estivesse a duas horas de ter que estar no aeroporto.

Quem tem amigos tem tudo, pedi ajuda  e fui socorrido, estava a entrar no avião quando me mandaram uma mensagem a dizer que já estavam salvas e no seu sítio.

Quando regressei cinco dias depois uma delas tinha embrulhado uma das patas na corda que a prendia, tínha-lhe cortado a circulação e feito uma ferida e nunca mais recuperou.Desde então comecei a dar-lhe uma injecção de antibióticos por dia por indicação do veterinário, e a desinfectar a ferida mas sempre muito pessimista e ralado com a situação, a ver aquilo a piorar.

Diziam-me que o melhor  a fazer era metê-la na arca, por causa das despesas do veterinário e dos curativos  mas não, não era só por ter sido  muito cara mas também porque acho que se ela podia viver eu devia fazer o que pudesse. Em última análise a culpa era minha, o bicho não se embrulhou por querer embrulhar-se, foi porque a deixei com essa possibilidade e não a fui ver, ou melhor, não arranjei  as coisas de modo a que alguém a fosse ver todos os dias.

O veterinário foi  vê-la ao fim de uma semana e disse logo que a pata estava para lá de salvação, marcou-se a cirurgia para o dia seguinte, lá fui todo nervoso. Não tenho muito estômago para feridas e sangramentos e sofrimento, não é propriamente desmaiar a ver sangue mas fico sempre um bocado arrepiado. Como nunca tinha visto nada assim e estou farto de ver crueldades para com bichos ia preparado para que a amputação fosse sem anestesia, para aguentar a ovelha a olhar para outro lado enquanto o veterinário fazia o que tinha a fazer, mas se bem que fiquei um bocado incomodado a ver de perto a ferida já a criar bichos e a alastrar fiquei logo descansado ao ver primeiro a parafernália médica que o veterinário trouxe e depois porque não só lhe deu uma injecção de anestesia local como lhe deu outra quando viu que uma não bastava. Mais uma data de instrumentos  e produtos químicos, mais uma ocasião para me lembrar que a modernidade é assassina e insensível, as multinacionais farmacêuticas são horríveis, os modos ancestrais de criar gado é que eram bons e puros e que dantes tudo era melhor, incluindo abater  qualquer animal que se ferisse. O belo mundo antes dos antibióticos, desinfectantes  e anestesias.

Segurei a ovelha e fui olhando para o lado enquanto o veterinário limpava a ferida e preparava o corte mas depois tive mesmo que meter as mãos no sangue e segurar a pata enquanto ele serrava o osso e depois fechava a ferida com pontos. Foi mais fácil (para mim) do que eu pensava , mais uma vez me ajudou  ir preparado para o pior a pensar que ia ser muito difícil, fiquei bem contente, depois de feito o penso a ovelha levantou-se e foi ter com as outras e eu mais aliviado ainda fiquei com a conta, também aí ia preparado para levar uma marretada valente mas fiquei surpreendido , primeiro porque percebo  e dou valor ao que é preciso saber para chegar ali e fazer uma coisa daquelas, depois porque durou quase uma hora e mais ainda pela maneira calma, segura e atenciosa do veterinário, ia preparado para pagar o dobro ou mais , não sei se é aquela a tabela ou se tive desconto por ser…não me estico  a dizer “amigo da família” mas pelo menos sou conhecido, se teve alguma  influência ou não não sei, sei que voltei a casa satisfeito por ter corrido bem, por   a ovelha ter-se safo e deixar de sofrer mesmo ficando coxa e por não me ter custado os olhos da cara, digo isto porque sei que uma cirurgia daquelas num cãozinho em Lisboa custava pelo menos 3 vezes mais.

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Já está a comer melhor, a recuperar peso ( isto foi há 4 dias) e corre como as outras . Tenho agora 10 ovelhas, um carneiro e dois borregos que já estão vendidos, tudo de boa saúde e com as vacinas em dia. O número é ridículo para um ovinicultor alentejano, por exemplo, mas para aqui já é respeitável, já só me falta uma coisa: o cão, ou melhor, a cadela pastora que comecei a procurar e tratar, há-de vir para o ano de S.Jorge.

 

Enjeitado

Uma das minhas ovelhas pariu  gémeos , foi a primeira vez que vi tudo. Continuo a não perceber porque é que lhe chamam o milagre da vida se  sabemos perfeitamente o que é que está ali a acontecer e porquê. Em menos de uma hora estavam os dois a mamar, limpinhos, e a ovelha já a pastar depois de ter comido a placenta, altura em que fui fazer outra coisa qualquer noutro lado.  Comecei a filmar isto uns dois minutos depois de eles estarem cá fora:

Dois dias depois acordei de manhã e estavam mais dois , isto é mesmo à frente da porta. São da ovelha cega, e já por causa disso eu antecipava problemas com crias, que também vêm mal.  Passados 15 minutos era claro que a ovelha estava  a rejeitar um dos filhos, parte o coração ver um cordeiro que mal se aguenta nas patas a querer chegar à mãe e ela a afastá-lo. Passei que tempos a tentar manter a ovelha quieta e a fazer o cordeiro chegar à teta, mas ele não conseguia mamar e só com dois braços não  dá, porque a ovelha resiste. Os meus amigos capazes de me dar uma mão estavam do outro lado da ilha , outro à pesca e só ao fim da tarde um pode vir-me ajudar a segurar a ovelha e ensinar o cordeiro a mamar, demorou que tempos. Temos ali na mão uma criatura fraquíssima a lutar pela vida , é um bocado intenso.  Se eles não mamarem a substância que as mães produzem nos primeiros dias após o parto, que se chama colostro e está carregada com tudo o que o pequeno precisa para ter um sistema imunitário funcional, nunca se safam. Se se conseguir que bebam o colostro nos primeiros dias depois podem-se alimentar de biberon com leite de cabra ou fórmula de bebé, ou ordenhando a mãe. Depois do pequeno já ter aprendido a mamar já me consigo desenrascar sozinho, amarro a ovelha bem justa  numa estaca à altura do pescoço, levanto-lhe e seguro-lhe uma pata de trás e o pequeno vai mamando. Faço isto de cinco em cinco horas e esta noite quando tocou o despertador só pensava que deixei de navegar para não ter que me levantar durante a noite, e levantar por levantar antes por ter o vento a mudar ou para um quarto de vigia do que porque tenho um animal a morrer.

Que me conste ainda ninguém sabe o que é que leva as ovelhas a rejeitar uma das crias, na Nova Zelândia, terra onde sabem umas coisas de ovelhas, disseram-me que uma das coisas que fazem quando isso acontece é pegar na cria rejeitada , juntá-la a outra mãe que esteja a amamentar e atiçar-lhes o cão, que leva a mãe a proteger e depois a adoptar a cria enjeitada. Não tive confiança nem estômago para aterrorizar as ovelhas e dar maus hábitos ao cão, que ao contrário de um Border Collie não ia perceber o objectivo do exercício,não a tem a mesma sensibilidade.

Num golpe de sorte aterrou ontem um casal de holandeses que tem cá uma casa há muitos anos e passa cá parte dos verões. A propriedade tem umas pastagens  onde eles me deixam ter ovelhas, que me dá um jeitão. Fui esta manhã cortar-lhes a erva do quintal e numa pausa, entre conversas sobre o populismo de direita nos Países Baixos, as consequências do Brexit e a esperança no Macron,  contei-lhe do meu cordeiro enjeitado. A senhora é completamente pró animais,activista, PETA, vegetariana e tudo isso, e uma das razões pelas quais me deixa ter lá ovelhas é que sabe que eu as trato bem. Ofereceu-se logo para tomar conta do cordeiro, o resto do dia de hoje e esta noite ainda o alimento aqui mas amanhã de manhã levo para lá ovelha e cordeiros, mostro-lhe como tenho feito e ela vai ter uma ocupação que adora nestas férias, fica toda a gente contente e talvez o cordeiro se safe.