Agricultura Biológica

Quando há acções de formação nos Serviços Agrícolas vou sempre, mesmo que não tenham relação muito directa com o meu tipo de agricultura. Infelizmente não há muitas  acções destas porque não é fácil nem barato trazer os formadores, noutros sítios vão e vêm no seu carro, aqui implica avião, hotel, etc.  Inscrevo-me sempre por duas  razões, a primeira é  oportunidade de aprender alguma coisa à borla, a segunda é o contacto com as pessoas, os poucos participantes que não conhecíamos ficamos a conhecer e é bom trocar umas ideias sobre interesses comuns e conviver um bocado.

A formação não é uma brincadeira, foram 8 dias de 7 horas, eu nem tinha pensado nisso quando me inscrevi e foi uma disrupção na minha vida, que tirando um ano aqui e seis meses ali, muito episodicamente, nunca se organizou à volta de um horário das 9 às 5 com uma hora para almoço.

É um bocado misterioso para mim como é que se passam anos e anos a levantar de manhã para ir picar cartão num serviço de que se pode gostar ou não, passar lá o dia todo, voltar a casa ao fim da tarde e no dia seguinte repetir. No caso das mulheres, imensas das quais fazem isso e depois ainda voltam para casa para a limpar , lavar roupa, cozinhar e tratar de eventuais crianças, a coisa ultrapassa a minha capacidade de entendimento.

Também por isso, por ter evitado uma vida preso a uma máquina de ponto, sou um gajo de muita sorte e não há nenhum conforto nem bem material que pudesse ter adquirido numa profissão com horário de trabalho regular que me compensasse poder acordar de manhã e pensar “ora bem , então hoje vou fazer o quê?”.

Essa decisão aqui está sempre dependente do tempo que faz, estamos sempre a ver a previsão e ver quando é que se pode fazer alguma coisa na rua, e chegando ao fim o Inverno há uma lista enorme de ocupações e trabalhos a ser feitos . A minha lista actual tem 17 tarefas que  oscilam entre uma hora e um dia inteiro e 14 dessas só podem ser feitas se não chover, e estava a acumular porque a Primavera anda tarda um pouco.  Foi por isso  que me custou um bocado passar os primeiros dias bons do ano sentado numa sala a ouvir preleções sobre Agricultura Biológica, ou melhor, o Modo de Produção Biológico , que é  um sistema global de gestão das explorações agrícolas e de produção de géneros alimentícios que combina as melhores práticas ambientais, um elevado nível de biodiversidade, a preservação dos recursos naturais, a aplicação de normas exigentes em matéria de bem-estar dos animais e método de produção em sintonia com a preferência de certos consumidores por produtos obtidos utilizando substâncias e processos naturais.

É o sistema que se praticava antes de haver mecanização, introdução de agroquímicos e produtos fitossanitários , antes da agricultura industrial, mas utilizando todo conhecimento científico e técnico acumulado desde lá, acompanhado do conhecimento das consequências da agricultura industrial para os solos, climas e bio diversidade.

Se virem este símbolo num produto significa que  ele seguiu as regras do Modo de Produção Biológico, sendo por isso além de  mais benéfico para a saúde  muito mais benéfico para a sustentabilidade ambiental.

Prod_Biol

Se eu quisesse passar a vender borregos com esse rótulo não tinha que mudar  nada na minha exploração, já tenho tudo conforme no lado do bem estar animal, mas tinha que deixar de lhes dar as rações de reforço que dou no Inverno, porque as rações disponíveis aqui têm todas componentes OGM e o custo de importar rações biológicas é proibitivo. Tinha além disso que pagar uma taxa anual para financiar os testes e medidas de controlo e lidar com uma, mais uma , burocracia. À minha escala não se justifica de maneira nenhuma, nem que  passasse a vender a carne ao dobro.

Há amigos interessados em serem certificados, estão a debater-se com outro custo da ultra insularidade , tal como é difícil e custoso trazer cá os formadores também o é trazer cá os técnicos do controle e certificação periodicamente.

Já tive reservas não quanto à agricultura biológica em si mas quanto à sua capacidade para alimentar tanta gente, globalmente. Continuo com reservas mas já creio que seria possível alimentar toda a gente com uma reconversão da agricultura a estes métodos mas dependeria de muitos factores virtualmente impossíveis,  como alterações generalizadas nos hábitos alimentares. Além disso ia provocar, ou exigir, uma revolução no sistema de distribuição e transporte global que não creio nada provável e ia sobretudo exigir o fim de um problema tremendo, o desperdício.

A razão que me fez acreditar que é  possível produzir o suficiente de modo biológico foi saber que aproximadamente um terço dos alimentos produzidos globalmente são perdidos ou deitados fora “Bastaria” acabar com esse desperdício e podia produzir-se o bastante, sobretudo porque há também a hidroponia, método que permite produzir sem solo e tem muito menos impacto que a agricltura convencional e tem a vantagem fenomenal de poder ser feita em meio urbano.

Sendo Portugal e este processo envolvendo  entidades públicas e privadas e muita burocracia, é esperado que haja alguma corrupção e/ou falta de rigor. Se já escasseiam meios para fiscalizar as actividades agrícolas em geral, outro nicho ainda mais exigente em termos de controle e procedimentos não veio ajudar, e claro que há episódios  e casos de aldrabice, mas creio que regra geral quem se dedica ou interessa por este tipo de agricultura não busca a rentabilidade acima de tudo, ou melhor, não a busca a qualquer preço.

Talvez o maior obstáculo à generalização do modo de produção biológico seja o sistema global de agro indústria e distribuição instalado e lucrativo,  esse sistema não se  vai simplesmente converter ao localismo biológico e orgânico, essas  Bayers , Auchans e Monsantos cujos presidentes gerem mais dinheiro que o Primeiro Ministro de Portugal .  Particularmente para a Monsanto, a generalização do modo de produção biológico significaria o fim, pura e simplesmente. Não há que contar com isso, mas pode-se contar com um esforço e progresso nesse sentido, o sentido de ir tomando melhor conta dos solos, da água e do ar e  produzir  e consumir comida de uma maneira mais racional .

 

 

 

Terra Comum

Este diálogo teve lugar ontem  no café da vila:

-Ó Jorge, não queres comprar lã?

-Ome não! Já dei a minha toda este ano , só serve para pôr no pés das arvores de fruto. ( este ome não/ome sim é dos meus regionalismos favoritos, volta e meia dou por mim a usá-lo e as pessoas sorriem)

– Dantes a minha mãe fazia isso tudo, lavava, cardava, fiava e depois fazia-nos camisolas. A gente não gostava nada daquilo porque dava muita comichão mas a minha mãe queria que as levássemos por causa do frio, a gente não tinha outras, dizia-nos que as camisolas salvavam dos relâmpagos, para a gente não as tirar. Dantes havia mais relâmpagos do que agora.

Este dantes , quando as pessoas daqui tinham que fazer a própria roupa, de péssima qualidade, com o que saía da terra, com esforços que hoje poucas pessoas concebem , é o passado que muitas pessoas romantizam, para minha irritação profunda.

Isto a propósito de uma proposta do Orçamento Participativo dos Açores,   que está a votação entre outras 12 para a Ilha das Flores. Um orçamento participativo é um dispositivo mediante o qual os políticos dispensam uns milhares  de um orçamento de milhões para financiar propostas dos cidadãos, dando assim uma ilusão de participação nas decisões sobre alocações de fundos. As pessoas ficam contentes e agradecidas por verem dez mil euros concedidos a um projecto por um gabinete que consome isso em ajudas de custo para os seus funcionários por semestre ou perto. Podia ser pior, podia não haver maneira de ver uma ideia saída da sociedade civil financiada sem ser pelos processos habituais, nomeadamente as boas ligações familiares e políticas.

Fui ver que propostas havia este ano porque recebi uma mensagem de uma amiga a pedir-me para ir votar na proposta deles. Começou mal porque um dos hábitos contemporâneos que mais me irrita ( isto hoje anda de irritações, deve ser do tempo que faz) é enviar  mensagens  a 500 pessoas a pedir alguma coisa. Se me querem pedir alguma coisa ao menos escrevam o meu nome, é o mínimo, se começam com um olá genérico e é aparente que aquilo é copiado e colado para toda a gente perdem logo 50% da minha eventual atenção e boa vontade.

Bom , então a proposta dos meus amigos chama-se Terra Comum e “abraça o conhecimento popular, resgatando a simplicidade e autonomia da vida antiga da ilha, aliando-a ao conhecimento moderno, tornando assim a vida quotidiana mais sustentável, saudável, diversificada, participativa e solidária.” 

Começo por dizer que sou amigo dos proponentes disto , sempre me dei bem com eles e considero-os pessoas impecáveis, mas isso comigo não isenta ninguém de críticas, tal como  recebo bem críticas que me fazem amigos que também me acham um gajo porreiro mas discordam de mim em muita coisa, acho que deve ser assim.

O meu problema com a Terra Comum começa logo no nome, porque eu acho que a terra que é comum são as estradas e os edifícios e terrenos públicos e tudo o que tem proprietário não é comum. As ideias e propostas comunitárias esbarram logo num conceito  quase tão velho como andar para a frente, a simples , famosíssima e ainda assim demasiado ignorada Tragédia dos Comuns .  Exemplo flagrante dessa tragédia  no nosso tempo é a devastação dos Oceanos, o bem comum por excelência, mas esses exemplos cristalinos não demovem os apologistas da comunidade. Além dos Oceanos e do seu estado evidente temos mais exemplos de  desgraças na  gestão pública, quando a coisa é de todos, todos são responsáveis e isso acaba por se traduzir na prática em ninguém ser responsável.

Para mim uma das maiores e mais fundamentais distinções nas bases ideológicas das pessoas é  entre  os que acreditam que os Homens são naturalmente “bons” e solidários e os que acreditam que os homens são naturalmente e geneticamente dedicados a prosseguir os seus interesses particulares. Na impossibilidade, para mim evidente, de se alterar a natureza humana, o que se deve fazer é conciliar e organizar os interesses individuais de modo a gerar o máximo de bem comum, como por exemplo no comércio: eu tenho 5 quilos de X , o meu vizinho tem 5  moedas, vendo-lhe 2,5kgs por 2,5 moedas e ficamos ambos melhor do que o que estávamos. Isto é complicado demais para  muita gente que acredita que eu devia, por altruísmo e igualitarismo, dar metade do meu X ao meu vizinho por ele não ter nenhum X e que ele , por sua vez, por solidariedade, me daria 2,5 moedas porque o que seria justo era termos todos o mesmo número e quantidade de objectos e moedas, só porque somos todos humanos. Recuso isto, para mim a igualdade que importa é a igualdade perante a Lei e a igualdade de tratamento entre os Homens, de resto todo o Homem que se levante acima dos outros sem desrespeitar essas igualdades fundamentais merece lá estar.

Voltando à proposta da Terra Comum, o que se propõe é recolher os saberes e modos de fazer ancestrais da agricultura, coisa que levaria , acredita-se, a um futuro mais sustentável, palavra que está em risco de se gastar de tão usada. Ora, se todos vivêssemos em barracas de madeira sem electricidade, andássemos a pé ou de burro e comêssemos o que se produz na nossa vizinhança segundo os modos e saberes ancestrais não há dúvidas de que o meio ambiente não sofria, o ar , a agua e os solos seriam limpos e não teríamos todas as pressões consumistas que temos.

De igual modo, se recusarmos a medicina e a farmacopéia moderna e nos virarmos para os saberes ancestrais também negamos lucros exagerados às diabólicas multinacionais e evitamos habituações e efeitos secundários tenebrosos, mas voltaremos a um tempo em que a esperança média de vida andava pelos 40 e de cada 3 crianças que nasciam morria uma, era mais natural.

As pessoas que defendem, particularmente nesta ilha, esse regresso aos saberes ancestrais esquecem-se de que existem boas razões pelas quais grande parte deles foi actualizado ou substituído: encontrou-se uma maneira melhor de fazer as coisas. Um projecto que defenda uma agricultura como ela era há 50 ou 100 anos defende uma agricultura no limite da subsistência em que a variedade alimentar andaria  pelos dez géneros distintos e em que havia FOME, há que dizê-lo com todas as letras, muita fome nesta ilha, a razão que fez com que de uma população de 12000 pessoas no século XIX passámos a 3500 hoje. As pessoas emigraram em massa por causa da miséria, miséria causada e perpetuada por uma agricultura incipiente, “ancestral”, que exigia esforços hercúleos e dava recompensas magras. As pessoas emigraram em massa porque a “autonomia” que este projecto reclama condena-nos ao isolamento e priva-nos dos contactos e comércios com o exterior, o motor da evolução .

Como disse, conheço pessoalmente os promotores da Terra Comum. São todos jovens da classe média urbana aos quais nunca faltou nada na vida e se faltou foi por escolha e rebeldia. Jovens que tiveram todas as oportunidades de estudar e viajar e aprender e evoluir, jovens que não morreram de varicela porque foram vacinados, jovens que se alimentaram bem porque a agricultura e distribuição moderna lhes permitiu isso, jovens que queimaram carbono às toneladas nas suas viagens pelo mundo nas quais descobriram as maravilhas de um mundo idealizado no qual se tivessem nascido dificilmente teriam passado de camponeses sub nutridos, estáticos e ignorantes, mergulhados no obscurantismo.

São pessoas assim que hoje por todo o lado no ocidente evoluído reclamam  um regresso a um passado de doença, escassez e desconforto (como as camisolas de lã da infância do meu vizinho) e que não desistem de idealizar e romantizar esse passado enquanto diabolizam  o progresso material da humanidade como causa dos nossos problemas.

Precisamos de idealistas, precisamos de pessoas empenhadas na conservação do património cultural , na defesa do ambiente e na busca de soluções para os problemas reais e dramáticos que enfrentamos como espécie e sociedade, mas não precisamos nada de pessoas que acreditam que voltar ao passado, mesmo que fosse possível, resolveria  alguma coisa. Já lhes disse que apoio a ideia deles de recuperar terras incultas e trabalharem na agricultura biológica, têm em mim um cliente regular se os preços forem competitivos e sei que há  muito dinheiro a ganhar na horticultura nesta ilha, para quem esteja disposto a mourejar na Terra de sol a sol…como era antigamente.

Desejo-lhes sorte, se a proposta deles ganhar vou-lhes dar os parabéns porque, como já disse, são excelentes pessoas e bem intencionadas…mas eu votei numa proposta que pretende melhorar o ensino de música na ilha.

Agricultura Biológica

Antes de começar a falar disto  quero agradecer aos visitantes recentes que desde a  manhã de hoje já foram mais do que nos dois  meses anteriores  somados . Sucede que publiquei uma crónica do ano passado num grupo náutico do Facebook  e nunca se viu aqui tanta gente. Previno esses entusiastas do Mar que a minha carreira náutica , salvo uma proposta irrecusável , está terminada, dão-me muito gosto as visitas e leitores mas é pouco provável que volte a haver aqui histórias novas sobre viagens marítimas.

Ora bem , esta manhã um dos títulos  no Sapo era este : “Cada vez mais portugueses procuram “comida sem veneno”. Falta torná-la mais barata e acessível.”

Este é um tema que me interessa muito , nomeadamente porque mudei recentemente de opinião relativamente a isto. Costumava acreditar que não havia maneira de alimentar uma população mundial em crescimento galopante e cada vez mais urbanizada sem ser com recurso à agricultura industrial. Achava que a agricultura dita biológica e tradicional se devia preservar e manter sempre que possível , mas que simplesmente não era suficiente para alimentar tanta gente , que não só precisa de cada vez mais comida como de comida mais variada , há muito pouca gente como eu que come bem a mesma coisa uma semana a fio e para quem o principal é não ter fome. Além disso a vida de camponês tradicional dificilmente é apelativa , mesmo para aqueles hipsters & quejandos que dizem adorar a agricultura tradicional. Como em tantas coisas , é muito bom que outros o façam.

O que me fez mudar de opinião foi aprender a extensão medonha do desperdício global de comida , vou só dizer que 28% da superfície agrícola do planeta é empregue a produzir comida que vai para o lixo.  . Pensemos um pouco na loucura que isto representa  , na imensidão de recursos que estamos simplesmente a deitar fora. Acho muito curioso que em todas as discussões que tive sobre isto , sempre a defender a agricultura industrial , nunca nenhum dos meus interlocutores tenha sabido apontar-me  um facto tão básico. O problema eram sempre as multinacionais, as empresas serem grandes , usarem químicos a granel  , esgotarem os solos , serem ultra mecanizadas ,  só procurarem lucro e aumentos de produção ,  melhoramento genético de espécies e tudo isso mas nenhum dos hippies foi capaz de me dizer : o sistema está errado porque se manda fora mais de  um quarto do que se produz. Deve ser porque isso é uma análise capitalista , procurar eficiências e reduzir  desperdícios , e se é uma análise capitalista só pode ser perniciosa e nem vale a pena usá-la.

Vendo esses  números é fácil de perceber que basta não desperdiçar tanto para que se possa reduzir , e muito , o nível de químicos que se usa na agricultura e os processos que esgotam os solos, sujam e esgotam os aquíferos , produzir comida por conseguinte mais saudável para quem a come e para a terra onde é produzida  , e que seja suficiente para todos.

No campo nada mudou , as pessoas sempre souberam que o que vem da horta é melhor do  que o que vem da loja , mas nas cidades as coisas começam a mudar. Há campanhas urbanas contra o desperdício de comida  , como a famosa re food  , iniciativa brilhante que teve a sorte de ser tomada por um americano . Funciona mesmo exposta à rapaziada do costume que , a ser a coisa organizada , sei lá , por uma igreja , ia logo pegar em armas para dizer que os sem abrigo não precisam de esmolas , precisam de ser “capacitados” , quando toda a gente sabe que precisam  de comida  , e já , chamem-lhe o que quiserem.

Também pelas cidades as pessoas se começam a interrogar se estão a ser comidas por parvas pela Grande Distribuição ( dica: estão) ao comprarem frutas e verduras calibradas , uniformes , caríssimas e cujo processo de produção (ie , o grau de químicos aplicado) nunca é explícito. Se a maçã brilha e não tem manchas , é boa . A internet e a revolução na comunicação estão a mudar isto , há mais consciência e há mais produtores a  conseguir chegar aos mercados.

Mesmo quando defendia a inevitabilidade da agricultura industrial nunca me passou pela cabeça que o produto da agricultura tradicional não fosse mais saudável , para o consumidor e para a Terra e  fico satisfeito por ver que as coisas começam a mudar. Para atrapalhar e complicar esta pequena revolução agrária e de consumo , aí vem o Estado.

Pegando no título da notícia ,  “falta torná-la mais acessível” , eu digo já o que é que o governo podia fazer AMANHÃ para a tornar mais acessível : baixar as contribuições da Segurança Social e os impostos aos pequenos agricultores e reduzir os regulamentos , taxas e licenças cobrados a quem quer produzir e vender produtos agrícolas . Isto bastaria  para desafogar os pequenos agricultores e tornar a actividade mais rentável e aliciante , e isso  é o que é preciso para tornar os produtos mais acessíveis : mais facilidade de produção e escoamento, não tem nada que saber.

Mas não , isto é Portugal e o governo é Socialista pelo que vão criar uma Estratégia Nacional para a Agricultura Biológica e vai ser criado um Plano Nacional.Esta gente não funciona sem Planos Nacionais , mete nervos. Está já a correr como previsto : Entre 2 a 30 de setembro de 2016 decorreu uma consulta pública para ampliar a discussão sobre o assunto e o plano que deveria ter sido apresentado até ao fim de outubro do ano passado, está previsto vir a público no próximo mês de marçoTudo normal , criam-se comissões, contratam-se amigos , fazem-se estudos e reuniões , ouvem-se os lobbys , gastam-se milhares , criam-se powerpoints e o diabo a quatro , quando no fundo as coisas são tão simples : se querem tornar um produto mais acessível, facilitem a vida ao produtor e agilizem o funcionamento do mercado. Só um socialista não vê isto e precisa de Planos  Nacionais.

Se acham que estou a exagerar lembro-vos que se quiserem começar uma plantação de batatas só têm que se registar como agricultores e dar-lhe com força , tudo o que quiserem , fertilizantes, pesticidas , mecanização intensiva , tudo isso é permitido em qualquer grau para um agricultor. Experimentem querer instalar uma produção biológica de batatas e vêm-se afogados em certificações , formações , inspecções , taxas , autorizações , controlos e toda a parafernália regulamentar que eles conseguem juntar. É muito mais fácil e barato produzir com químicos a fundo do que em modo biológico, também isto deve ser culpa dos liberais .

Espero ZERO desse Plano Nacional , mas não obstante o que eles fizerem a consciência ambiental das pessoas vai mudando e haverá  mais mercado para produtos sem químicos. Apetecia-me  dizer-lhes “Deixem produzir e deixem o mercado funcionar e vão ver que os produtos biológicos se tornam logo mais acessíveis”, mas isso vai contra os dogmas destas pessoas , que acreditam piamente que o cidadão e o produtor se perdem se falhar a orientação do Estado e se as coisas não estiverem definidas num Plano.

Agricultura biológica

Inscrevi-me nos Serviços Agrícolas para todos os cursos que houvesse , incluindo relacionados com vacas . Não tenho intenção nenhuma de alguma vez ter vacas mas quando alguém nos oferece informação e formação relevante e importante à borla é um bocado estúpido recusar , e porque percebendo a cultura da vaca percebem-se melhor estas ilhas e quem cá vive .

Concluí na semana passada um curso 36 horas sobre produtos fitossanitários , já sou Aplicador licenciado , ou seja , sou legalmente habilitado a comprar e aplicar produtos químicos de uso agrícola. Para muitas pessoas deve ser novidade que seja preciso uma licença especial , mas é , a partir de 2014 acaba o regime vigente , que é qualquer pessoa pode comprar e aplicar estes produtos . Dado que se está a falar de substancias muitas vezes venenosas e tóxicas , aplicadas a produtos alimentares por pessoas que lhes são expostas , isto faz todo o sentido e só espanta ter levado tanto tempo , mas as reformas e evoluções são sempre lentas.

Eu sou de uma terra de muitos pomares e lembro-me bem de quando era miúdo ver os agricultores a sulfatar as árvores com os seus tractores ,com o boné como única protecção , envoltos numa nuvem. Parece que em França 60% dos agricultores com mais de 50 anos tem cancro , contraído pela convivência e trabalho com estes químicos.

Existe ciência e informação detalhada sobre os resíduos e níveis de produtos químicos nos alimentos , e eu quanto mais faço e aprendo mais me surpreendo com a aldrabice que grassa no sector da agricultura biológica , dos “produtos orgânicos” e da publicidade enganosa e também pela ingenuidade ( ou desafogo…) de consumidores que pagam 30% ou mais por uma maçã que lhes vendem com o rótulo de biológica ( como se houvesse maçãs que não fossem biológicas) , e com produtos “não biológicos” como a alface normal que não sei quanto custa porque nunca compro nem como , um vegetal composto nuns 98% por simples água e de todos os hortícolas aquele que mais depende de químicos. A alface não alimenta ninguém a não ser modelos de moda , é como beber um copo de água cheio de químicos , que não são letais e apatrecem em pequenas quantidades mas bem não fazem de certeza. Falem-me do valor das fibras e do sabor da alface , e eu não contrario , mas pessoalmente acho dinheiro mal gasto.

É fundamental que os agricultores reduzam e sejam mais criteriosos com os químicos mas a verdadeira agricultura biológica e orgânica é mais para hippies ( que hoje têm muito mais variantes e designações , e regra geral é muito boa gente) e para pessoas que cultivam o seu quintal para si próprias. Duvido muito que a diferença na saúde e no sabor valha as diferenças exorbitantes de preços , e acredito que no seu sector comercial a agricultura biológica vive de consumidores ricos e ingénuos e de alguns excêntricos , tipo vegetarianos ( sim , para mim ainda é uma excentricidade ) , que podem investir em arugula e tofu o que não gastam em alcatra .

Quando vivia em Fort Lauderdale havia na minha rua aos Domingos um “mercado de agricultores”, onde o pessoal vinha vender não só hortícolas como outros alimentos artesanais , eu costumava lá passar , ficava no caminho de todos os dias , e tinha mais ou menos ideia dos vendedores. Certo Domingo de manhã muito cedo ( ok , tecnicamente ainda era Sábado à noite) fui ao supermercado e vi uma senhora a comprar uma caixa de pêssegos e outra de mangas , pareceu-me familiar , e certo e sabido , uma hora depois lá estavam à venda na rua como se orgânicos e colhidos no quintal . Isto não será práctica geral mas é recorrente , e desconfio que não é só lá. Uma cadeia de supermercados muito popular ( já foi mais , antes da crise) chama-se Whole Foods e pretende ser orgânica a natural, se bem que as lojas têm o tamanho das outras. Só entrei numa uma vez , é o supermercado das pessoas bonitas , ricas e saudáveis . Confirmou-me tudo o que pensava dela quando li um estudo sobre “shrinkage” , que é o volume de frutos e legumes que os supermercados deitam fora ao renovar os expositores , as toneladas estragadas porque já não são brilhantes , frescos e apetecíveis. O número é imoral , tal como para mim é imoral o tamanho dos mesmos expositores , nos EU ou em Portugal, mas o interessante é que a Whole Foods era a única que não divulgava os seus números de desperdício , obviamente por serem gigantescos . Uma maçã que nunca tenha sido tratada não dura o mesmo que uma tratada , e talvez por cada duas que eles vendessem deitavam fora uma , mas acho que isto não preocupa ou impressiona muito os apologistas da “agricultura justa” e “biológica” .

Não ponho em causa que uma maçã de produção orgânica e biológica a sério é melhor em tudo do que uma “normal” . Para produzir essa qualidade superior há custos superiores , e logo , preço superior. Há mercado para todo o género de produtos e modos de produção , agora pensar que a agricultura orgânica e biológica é a agricultura do futuro é um bocado ingénuo. Pessoas que , como eu , pensam de vez em quando e a sério sobre como é que será produzir comida para 7 biliões de pessoas não podem deixar de agradecer as ajudas científicas da agricultura , desde os pesticidas , herbicidas e fertilizantes até às variedades mais fortes , mais rápidas , mais resistentes, mais produtivas que são desenvolvidas em laboratório.

Há consequências negativas para as Pessoas e o Ambiente? Há . Era melhor se não se usassem químicos na agricultura? Era. Podem-se alimentar decentemente 7 , 8 , 9 biliões de pessoas sem usar químicos e alterações genéticas? Não.