Reportagens de Viagens

Desde que fui  pela primeira vez assinante da Volta ao Mundo e da Grande Reportagem que o mundo mudou muito, basta dizer que não havia telemóveis , internet,  gps terrestre  ou companhias aéreas low cost. Havia quatro canais de televisão e além da tv e rádio, toda a informação era em papel. Nessa altura os repóteres de viagens não só tinham a vida muito mais dificultada como escreviam para pessoas com um nível inferior de acesso, eu por exemplo gostava de ler aquilo porque estava fora do meu alcance não só ir e ver como perceber e explicar, e havia sempre sítios inóspitos e obscuros, daqueles que não são esquecidos porque nunca chegaram a ser lembrados, mesmo para miúdos cromos da geografia que liam atlas em pequeninos.

Hoje  não só é muito maior a percentagem de pessoas que viaja como nem vale a pena lembrar a explosão de informação que temos na ponta dos dedos. Em quinze minutos podemos  fazer uma visita de drone sobre Sófia, ler um blog sobre cozinha búlgara, ler os jornais búlgaros, ler sobre a história da bulgária , ver um filme búlgaro, ver o que diz a sabedoria colectiva de milhares de turistas sobre a Bulgária e por fim marcar um bilhete de ida e volta para a Bulgária. O trabalho que tinha um jornalista/repórter  a planear uma viagem para uma reportagem era no mínimo de semanas mas hoje numa tarde pode fazer-se isso . O jornalista mais dedicado passará mais tempo a estudar o objecto da sua reportagem, mas tenho a impressão (posso estar redondamente enganado porque raramente leio matérias dessas hoje em dia) de que a maior parte das vezes 3 parágrafos da wikipedia fazem o serviço no que toca a contextualizar o sítio e dar o apontamento histórico . O resto são sobretudo clichés , e  admira-me que o nível e fórmula de escrita dessas reportagens não tenha evoluído  em 30 anos.

A Visão mandou jornalistas aos Açores, ou os Açores convidaram a Visão, e fizeram um especial dedicado ao Arquipélago. Deve ser uma edição comemorativa porque usam o mesmo sub título de há 30 anos, o apelo da natureza, que é só o segundo mais fácil a seguir a escrever só “a natureza”. Esta coisa da natureza e dos mil lugares comuns que ela faz florescer quando se fala das ilhas sempre me intrigou um pouco porque para mim esta é das paisagens mais humanizadas que eu conheço, fora  de centros urbanos, obviamente. Grande parte da beleza disto é precisamente o modo como o homem se incrustou aqui , resistiu à natureza e modificou a paisagem.

A paisagem que escolheram para capa não é natureza modificada, é um  sítio que deve ser assim há muitos séculos, e é aqui nas Flores:

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Não vou fazer a crítica à prosa da jornalista, mesmo havendo o que criticar, quero criticar é o método, cujo resultado é uma das razões que me fez abandonar e desconsiderar bastante este género de leituras.

Para darem uma ideia boa das Flores  falaram com 14 pessoas . Conheço 12 dessas 14 pessoas e tanto os naturais como os imigrantes amam a ilha, vivem e trabalham na lha, sabem sobre a ilha e são pessoas com histórias interessantes para contar. A questão é que desses 14 só UM, o velho baleeiro que deles todos é o que eu conheço melhor e com quem passei mais tempo, só ele não vive do turismo. E mesmo ele, tal como os outros 13, está habituado a falar com visitantes, passa grande parte do tempo no museu da baleia ali no porto,  é uma peça de museu viva.

Isto para dizer que se queremos  fazer um retrato fiel de uma realidade não podemos ir perguntar aos que querem que o retrato saia o melhor possível, ou que querem que o retrato seja da visão particular que têm do objecto. Como sempre desde que me lembro, falam com estas pessoas:  quem lhes aluga a casa ; os guias turísticos; os donos dos restaurantes e  os empregados das “atracções” , ou seja, os jornalistas preferem, sem dúvida por preguiça, falar com quem está lá para falar com eles. É o mais fácil, e perde-se a conta às reportagens ( e até livros) cheios de citações de taxistas, bartenders e recepcionistas, que até podem ser uma amostra interessante  mas têm o problema de estarem ali para isso, se é que me estou a fazer entender.

Não foram  ver uma ordenha e saber  como se prepara o lavrador  para o Inverno. Não foram à escola falar com um professor, saber como é estar a trabalhar a mil quilómetros de casa e numa realidade tão diferente do continente. Não foram ao porto em dia de navio, não falaram com um pescador, não foram a uma câmara querer saber das intenções e perspectivas das autarquias, ou à Santa Casa ver de perto como é uma ilha envelhecida. Falar com algum desportista saber como é estar tão longe dos adversários ou talvez falar com um polícia sobre o seu trabalho aqui ou com um doente  ou médico sobre  como é que o processo que leva a transferir um doente para o hospital mais próximo, que fica a  45 minutos de avião. Nem a uma destas 14 pessoas com quem falaram perguntaram (ou se perguntaram não publicaram e acho mal) , de que é que gostam menos aqui, o que é que é mais difícil, do que é que sentem falta. Podiam perguntar-se o porquê desta ilha ser tão paradisíaca e espectacular e de apesar disso continuar a perder população.

Vão-me dizer, com razão, que o artigo da Visão não é uma reportagem de fundo, é uma divulgação turística. Ainda assim , porque é que não se  procuram visões mais  espontâneas, originais e locais? Visões que não estão comprometidas à partida com a visão paradisíaca que se pretende transmitir?  Não é  só falar dos defeitos, é procurar a visão e a história de quem não tem discurso preparado e incentivo alinhado, é tentar encontrar as belezas pela voz de quem cá vive o dia a dia sem sem se importar muito com o que  os outros pensarão disto.

Isto vale para qualquer destino, e certamente que há jornalistas de viagens que o fazem, para se distinguirem de turistas que tomam apontamentos.

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Campanha Eleitoral

O cão deu sinal de movimento na canada, era uma caravana de campanha eleitoral que me visitava. Uma dúzia de pessoas, todas conhecidas, com T-shirts iguais e bandeiras . Tiveram que ficar em fila indiana porque na canada só passa  uma pessoa de cada vez.

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À frente vinha o ex presidente da junta novamente candidato nestas eleições. Agradeci, genuínamente, a consideração. Era a lista toda que se andava a apresentar aos eleitores , é um verdadeiro acto de democracia e cidadania que  não se reduz a entregar panfletos e debitar banalidades. Nestes encontros à porta das casas não só  as pessoas apontam os seus problemas práticos num instante e como o fazem a pessoas que se encontram todos os dias, é tudo vizinho, logo, mais responsabilizado.

O candidato disse que ia voltar a falar comigo sem ser em caravana,sobre o projecto para a junta, fiquei contente só de saber que há um projecto. Prefiro sempre algúem com um projecto a alguém sem projecto nenhum. O outro candidato tinha falado comigo , também é meu conhecido, mas tem mais dificuldades na parte do projecto. Agora fico à espera de receber  uma visita dele com a sua caravana de campanha. Se ele não vier ,  e depois me perguntar alguma coisa digo que não votei nele porque não me foi lá visitar para falar sobre as grandes opções de desenvolvimento  que ele envisiona para a freguesia, quais os eixos estruturantes para o seu mandato e em que me medida é que acha que a influência externa vai condicionar a actuação da junta nos próximos anos. Ainda não conheço o programa mas tenho a certeza que uma freguesia melhor faz parte dele.

Já passei por câmaras  de partidos diferentes e nunca tive razões de queixa nenhumas, de uns ou de outros. As grandes opções são uma discussão aparte, mas na relação autarquia-munícipe, sempre foram todos impecáveis comigo. Tem muito a ver com a acessibilidade,  aqui  conseguimos falar rapidamente com  a pessoa relevante , se o pedido ou requerimento for normal e justificado, a coisa faz-se sem se acumular aquela frustração que desencoraja e irrita as pessoas dos grandes centros urbanos às quais tudo demora horas e dias , só para chegarem ao edifício da Câmara é uma hora .

Outra coisa que facilita a minha relação com a administração e os serviços é que começo sempre perguntar o que é que é preciso para fazer X ou obter Y e nunca teço considerações sobre o que eu acho que devia ser preciso ou o que é que é preciso noutros sítios. Há muitas pessoas que acham não só que o funcionário está  interessado na sua opinião sobre a organização e funcionamento do Estado em geral e  do seu trabalho em particular como acreditam que transmitir essas mesmas opiniões e sugestões  ao funcionário vai fazer o seu caso avançar. Claro que a única coisa que isso gera é má disposição, isso sim já interfere no caso, mas não para o fazer avançar. Ou se pode fazer ou não se pode fazer, não há  intermédios e  perder  tempo, nosso e dos outros, a discutir universos paralelos onde as coisas são como deviam ser  e a lembrar as injustiças estruturais do nosso sistema  não ajuda muito.

A Câmara faz  e sempre fez coisas como  levar uma carrada de areia ou ceder o uso de uma ferramenta ou máquina pesada , serviços a todos os que o peçam, dentro do razoável. A junta tem menos meios e competências mas à   nova administração, seja a que for, vou pedir que me espalhem umas carradas de bagacina na entrada da canada, ou mesmo na canada toda se houver entusiasmo,  e que me emprestem o bobcat e respectivo operador para nivelar uma terra e cavar umas fundações. Como pedido público,  que empreguem  mais pessoal a mondar e limpar os trilhos e as ribeiras. Os trilhos têm que ser mantidos para que mesmo os turistas menos àgeis possam por lá andar contentes, e há aí umas ribeiras que em vindo uma carga de àgua dessas tipo Harvey iam forçosamente começar a sair do leito em vários pontos.É inevitável mas pode ser mais controlado, ou menos descontrolado. Só nas ribeiras que correm pelo meio da freguesia têm anos de trabalho se é para as limpar mesmo bem até ao mar e é daqueles trabalhos de que a maior parte das pessoas só se lembra quando há uma desgraça ao pé de uma ribeira. O meu grau de precupação com  isto é função da distância da minha casa à ribeira mais  próxima, e não é  muito alto  mas ainda que não pareça eu não me  preocupo só comigo próprio.

Também encontrei noutro dia o presidente da câmara,passou pelo bar do porto  numa acção de campanha. Quando ele entrou com a vereadora passámos a 5 pessoas no bar, e a empregada. A imprensa, inexplicavelmente, não apareceu. Conheço o presidente desde que  pôs o chip no meu cão, ainda não era presidente. Disse-lhe que votava nele, ele pareceu surpreendido e  perguntou-me se eu votava cá, disse-lhe que  já tinha votado cá nas últimas eleições, e contra ele,  mas desta vez voto nele. Fiz questão de clarificar que o meu voto era nele pessoalmente e não no seu partido. Vale o que vale , ou seja , o mesmo, um voto. Bebeu a que devia ser uma de muitas àgua das pedras do dia , eu aceitei uma mini , falámos um bocado do Clube Naval e ele lá seguiu para o próximo compromisso de campanha, foi misturar-se com a multidão de cerca de quatro pessoas que passava cá fora, saudou uma pessoa que estava na esplanada e dirigiu-se ao carro. Passou mais um carro ou dois e a tarde acalmou. Já houve comícios de campanha , e festas onde o eleitor é assegurado e encorajado nas suas convicções políticas por meio de discursos, jantares e bar aberto, argumentos que, de um determinado ponto de vista, são fortes.

Não há sondagens publicadas sobre as intenções de voto aqui na autarquia, por estranho que pareça. A minha previsão é dos cerca de 700 eleitores inscritos vão votar uns 400 , 230 para uns , 170 para os outros.

 

Cirurgia Ovinícola

Fiz um investimento em cinco ovelhas de raça apurada, daquelas de escandalizar os hippies, chamam-se INRA401 e foram “desenvolvidas” pelos franceses.Trazem sempre gémeos, muitas vezes trazem três crias e crescem mais depressa que as outras. Desde que as encomendei até chegarem foram quase 5 meses e como não podia deixar de ser chegaram na altura mais inconveniente de todas, no mesmo dia em que eu ia apanhar um avião para o Faial.

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Estava no porto às oito da manhã mas só as pude tirar  do contentor às 11, foi um dia muito difícil porque três delas fugiram quando estava a chegar a casa. Vieram  do Alentejo, é difícil encontrar região do país mais diferente disto, vinham de uma viagem de muitos dias num contentor, vinham enervadas e aterrorizadas e assim que se  apanharam com uma aberta largaram-se a fugir pelos campos fora , acabando duas delas no fundo de uma ribanceira de uns 15 metros, de onde eu nunca mais as conseguia tirar  sozinho, mesmo que não estivesse a duas horas de ter que estar no aeroporto.

Quem tem amigos tem tudo, pedi ajuda  e fui socorrido, estava a entrar no avião quando me mandaram uma mensagem a dizer que já estavam salvas e no seu sítio.

Quando regressei cinco dias depois uma delas tinha embrulhado uma das patas na corda que a prendia, tínha-lhe cortado a circulação e feito uma ferida e nunca mais recuperou.Desde então comecei a dar-lhe uma injecção de antibióticos por dia por indicação do veterinário, e a desinfectar a ferida mas sempre muito pessimista e ralado com a situação, a ver aquilo a piorar.

Diziam-me que o melhor  a fazer era metê-la na arca, por causa das despesas do veterinário e dos curativos  mas não, não era só por ter sido  muito cara mas também porque acho que se ela podia viver eu devia fazer o que pudesse. Em última análise a culpa era minha, o bicho não se embrulhou por querer embrulhar-se, foi porque a deixei com essa possibilidade e não a fui ver, ou melhor, não arranjei  as coisas de modo a que alguém a fosse ver todos os dias.

O veterinário foi  vê-la ao fim de uma semana e disse logo que a pata estava para lá de salvação, marcou-se a cirurgia para o dia seguinte, lá fui todo nervoso. Não tenho muito estômago para feridas e sangramentos e sofrimento, não é propriamente desmaiar a ver sangue mas fico sempre um bocado arrepiado. Como nunca tinha visto nada assim e estou farto de ver crueldades para com bichos ia preparado para que a amputação fosse sem anestesia, para aguentar a ovelha a olhar para outro lado enquanto o veterinário fazia o que tinha a fazer, mas se bem que fiquei um bocado incomodado a ver de perto a ferida já a criar bichos e a alastrar fiquei logo descansado ao ver primeiro a parafernália médica que o veterinário trouxe e depois porque não só lhe deu uma injecção de anestesia local como lhe deu outra quando viu que uma não bastava. Mais uma data de instrumentos  e produtos químicos, mais uma ocasião para me lembrar que a modernidade é assassina e insensível, as multinacionais farmacêuticas são horríveis, os modos ancestrais de criar gado é que eram bons e puros e que dantes tudo era melhor, incluindo abater  qualquer animal que se ferisse. O belo mundo antes dos antibióticos, desinfectantes  e anestesias.

Segurei a ovelha e fui olhando para o lado enquanto o veterinário limpava a ferida e preparava o corte mas depois tive mesmo que meter as mãos no sangue e segurar a pata enquanto ele serrava o osso e depois fechava a ferida com pontos. Foi mais fácil (para mim) do que eu pensava , mais uma vez me ajudou  ir preparado para o pior a pensar que ia ser muito difícil, fiquei bem contente, depois de feito o penso a ovelha levantou-se e foi ter com as outras e eu mais aliviado ainda fiquei com a conta, também aí ia preparado para levar uma marretada valente mas fiquei surpreendido , primeiro porque percebo  e dou valor ao que é preciso saber para chegar ali e fazer uma coisa daquelas, depois porque durou quase uma hora e mais ainda pela maneira calma, segura e atenciosa do veterinário, ia preparado para pagar o dobro ou mais , não sei se é aquela a tabela ou se tive desconto por ser…não me estico  a dizer “amigo da família” mas pelo menos sou conhecido, se teve alguma  influência ou não não sei, sei que voltei a casa satisfeito por ter corrido bem, por   a ovelha ter-se safo e deixar de sofrer mesmo ficando coxa e por não me ter custado os olhos da cara, digo isto porque sei que uma cirurgia daquelas num cãozinho em Lisboa custava pelo menos 3 vezes mais.

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Já está a comer melhor, a recuperar peso ( isto foi há 4 dias) e corre como as outras . Tenho agora 10 ovelhas, um carneiro e dois borregos que já estão vendidos, tudo de boa saúde e com as vacinas em dia. O número é ridículo para um ovinicultor alentejano, por exemplo, mas para aqui já é respeitável, já só me falta uma coisa: o cão, ou melhor, a cadela pastora que comecei a procurar e tratar, há-de vir para o ano de S.Jorge.

 

O Clube Naval

Está a acabar o Verão, passou mais um em que o nosso Clube Naval se limitou a receber subsídios e a gastá-los, sem sair do buraco financeiro nem cumprir a parte principal do seu objectivo fundamental: proporcionar oportunidades e condições para a juventude do concelho aprender e participar em desportos náuticos. Como saí duas vezes da ilha para participar nas regatas de botes baleeiros pude ver a diferença abismal que nos separa dos outros e que não se justifica só por sermos uma ilha pequena e remota.Pude sentir a vergonha e tristeza dos miúdos na Semana do Mar com o fiasco que foi a quase participação deles nas provas de optimist. Tembém pude ver a atitude de quem é responsável, que se escuda nessa mesma pequenez e distância, se limita a gemer por subsídios e se contenta em ser o parente pobre e distante que por ser pobre  e morar longe acha que os outros lhe devem mais.

Este ano passei cá todo o Verão e estive envolvido nas provas pelo que também pude ver a organização, projectos, aspirações e planos ou mais concretamente, a falta disso tudo. Mais de 300 iates visitam a ilha e o nosso porto, desses o Clube beneficia ZERO, para dar um exemplo. Aqui há anos o clube recebeu do Estado um iate que tinha sido apreendido cheio de droga. Esse iate, que podia ter sido escola de vela e fonte de rendimento para o clube, limitou-se a ser brinquedo de um grupo selecto de amigos. O iate foi vendido, ao desbarato por estar a decair, os amigos ainda cá estão, nenhum miúdo da ilha chegou a dar uma voltinha nele. Ninguém tem vergonha disto.

Os botes baleeiros operam um pouco melhor que o resto da vela ligeira mas ainda assim só à medida em que são subsidiados e a , arrisco eu, 60% do seu potencial. O que marca o compasso são os subsídios estatais, iniciativa própria é coisa estranha.

Passei o Verão a dizer mal da situação e gestão do Clube e a pedir , inclusivamente ao Presidente da Câmara (entidade que mantém o Clube à tona) que alguém avançasse com uma lista e um projecto de renovação, dizendo que eu oferecia o meu tempo e a minha colaboração para participar. Ninguém avançou mas várias pessoas me disseram que se eu  avançasse me seguiam e ajudavam.

Ora eu nem sou natural desta ilha nem tenho ambições, sociais ou materiais, tenho a sorte de ser aos 44 um homem realizado que aspira a viver o resto da vida descansado com o que é e o que tem e como conheço um pouco do associativismo em Portugal sei o que implica liderar uma associação que funcione bem. Implica muito trabalho não remunerado, muitas críticas, muitas desilusões, muito esforço e tempo dispendido e não eram exactamente coisas que eu quisesse para mim. Por outro lado não está na minha natureza criticar sem ser capaz de oferecer solução, e se passei o Verão todo a criticar esta direcção e o modo como um grupo selecto de amigos enterrou o Clube cabe-me no mínimo propôr-me fazer melhor, vejo as coisas assim.

É muito fácil, vemos todos os dias, desde treinadores de bancada no futebol até analistas políticos profissionais que nunca se candidataram a nada passando por economistas que mal gerem a própria casa e  críticos de música que só tocam campaínhas de porta, há sempre um exército de críticos disposto a deitar abaixo os outros mas se lhes dizem  “ok, faz lá tu melhor, vá!” escapam-se logo para o seu buraco. Falar é fácil.

Não me quero contar nesse número, sei que posso fazer melhor e se não conseguir fazer melhor pelo menos chego-me à frente e tento, com o meu melhor esforço e vontade à vista de todos. Estou a ultimar uma lista que se vai candidatar aos órgãos gerentes do Clube Naval em Setembro ou Outubro, consoante a Assembleia Geral for ordinária ou extraordinária. Candidato-me a presidente pela mesma razão que fui o oficial do S.Pedro este Verão : não há ninguém melhor que eu que avance .

Isto é  um meio muito pequenino e as velhas políticas , intrigas, hábitos, mentiras  e interesses instalados de décadas vão estar ao rubro, não só porque “quem é que este continental pensa que é” como porque algumas pessoas arriscam-se a perder poder, influência e nalguns casos, rendimentos. Não me interessa, podiam manter esse poder, rendimentos e estatuto se ao menos gerissem o clube em condições, agora desgovernar e manter privilégios pode funcionar na política nacional mas nesta escala não pode. Não deve.

Não me interessa nada que pessoas que me davam abraços há um mês deixem de falar comigo ou inventem histórias, da minha parte a atitude não muda e como sempre fiz, se tenho alguma coisa a dizer a alguém vou ter com essa pessoa e digo-lhe. O que eu quero e proponho para o clube não são abstrações genéricas nem mais do mesmo , são coisas muito concretas que espero em breve poder explicar a todos os sócios que se interessem. Encabeço uma lista fortíssima, com pessoas de estatuto, respeito e experiência, com um boa mistura de juventude e maturidade e o facto de eu não estar preso por  nenhumas amarras familiares, políticas ou de passado e de trazer uma visão nova de quem conhece alguma coisinha do mundo e já viu uns quantos clubes náuticos,  em oposição a pessoas que gerem o clube há anos e o têm como está, devia ser o suficiente para vencermos com margem enorme, mas não tenho ilusões nenhumas e é bem possível que não aconteça. Se perder também é bem possível que me digam “não tocas mais num bote baleeiro deste clube”, e também isso não me interessa, a experiência que tive neles já me encheu a alma e o que eu quero mesmo é dormir descansado à noite a saber que fiz o meu melhor por aquilo em que acredito.

O Auge

Este ano em Outubro celebro 20 anos da partida para a minha primeira viagem marítima, 4 meses depois de ter velejado pela primeira vez.

Desde aí juntei 235000 milhas náuticas em todos os oceanos à excepção do Árctico e Antárctico, ao comando de 100 (número redondo, certo e documentado) barcos diferentes, alguns deles de valor na casa dos milhões .

Não tenho intenções nenhumas de voltar aos iates, não tenho saudades da vela oceânica e no Sábado passado na Horta, mesmo tendo ficado quase em último na regata, atingi o auge da minha carreira na vela, campo em que não ambiciono mais nada senão fazer isto o resto do tempo, enquanto puder.

Tenho centenas de fotos em todos esses barcos, mares, portos e ilhas mas esta é sem dúvida a minha fotografia preferida de sempre.

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Expressões populares

Sempre gostei de provérbios, ditados, adágios e outras expressões que no fundo são o mesmo : concentração de sabedoria numa frase ou a expressão de uma verdade, explicação  ou observação. Há muitos que são comuns a vários países, há outros que são contraditórios ( quem espera desespera/quem espera sempre alcança) e há outros que não pretendem explicar nada , apenas ilustrar uma realidade. Há uns que querem dizer o mesmo mas variam de região, por exemplo no continente diz-se “um olho no burro outro no cigano” aqui diz-se “um olho na faca outro na lapa” para exprimir a mesma ideia.

Há dois que me andam na cabeça há uns meses, o primeiro é um bocado bruto e cínico e usei-o há pouco tempo quando uns amigos , certamente preocupados ou pelo menos interessados no meu bem estar emocional  me sugeriram e encorajaram a , digamos, conhecer melhor uma certa pessoa que para aí andava e que pelos vistos toda a gente acha espectacular menos eu. Uma das  vantagens de estar a ficar velho , ter visto muito e estar satisfeito e em paz com a vida é que não sinto aquela pressão de ver o tempo a passar e pensar que me escapou alguma coisa , que a vida está incompleta e que é tempo de me acomodar , aceitar , esquecer os padrões , encolher os ombros e dizer “é melhor do que nada” . Não, nada disso , e o provérbio que usei para explicar isso mesmo está no topo da minha lista de favoritos : quem comeu a carne que roa os ossos.

O segundo é ainda mais simples e curto, já andava há que tempos na minha cabeça mas anteontem fui a um funeral e passei o dia todo a pensar nele. Foi a primeira vez que fui a um funeral aqui, já tinham  morrido algumas pessoas mas não as conhecia pelo que  não me sentia na obrigação de lá ir. O senhor que morreu na semana passada era meu amigo, era simpático e alegre para todos, bem disposto, trabalhador , sempre pronto a ajudar, com dois filhos criados, homens às direitas com a vida feita e suas famílias. Morreu no mar, estava sozinho à pesca no calhau como gostava de fazer e ainda não se sabe , ou eu não sei, porquê, apareceu morto a boiar.

O ditado em causa é muito regional, já o ouvi da boca de pessoas de educação superior e de  pessoas analfabetas, em várias ilhas e com algumas variações, é uma expressão que se utiliza em várias circunstancias diferentes e  à primeira vista , ou mesmo à segunda , pode parecer banal , óbvia e básica , uma evidência que não sugere nem provoca nada mas a mim faz-me pensar muito e é filosofia pura.

A gente morre e fica tudo aí.

Regata

Saímos com o S.Pedro na Sexta  para treinar, correu bem lá fora da baía mas o vento estava fresco e de Sul , não consegui voltar a entrar no porto à bolina , perdi a calma e desisti de tentar, entrámos a reboque, humilhação. Da parte da tarde saí no Formosa para completar a tripulação. O  Formosa é o segundo bote das Flores e levou ao leme e na genoa gente do Faial com mais de vinte anos de botes. Voltei para terra a pensar que ia mesmo ficar em último e a esperar que os moços não me levassem a mal.

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No dia seguinte tinha os nervos em franja.De manhã chegaram os  botes do Pico a reboque de duas lanchas e a rampa era uma coisa linda, 23 botes a prepararem-se para arriar.Nos Açores há 43 botes em maior ou menor condição de navegação. Nas ilhas pequenas há cada vez mais dificuldade em mantê-los e tripulá-los e  S.Miguel nunca contou muito para isto.

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Um bote baleeiro mede 11 metros, pesa 700 quilos, tem uma tripulação  de 7 homens (ou mulheres) e uma velocidade de casco de cerca de 8 nós mas já se marcaram a 16. Todos os botes são aparelhados como antigamente e há muito poucos ou nenhuns materiais modernos. Um turista veio dizer-me “barcos tão lindos e fizeram tanto mal…” , eu disse-lhe  barcos tão lindos que deram de comer a muitas famílias e salvaram as ilhas de uma miséria ainda maior. Gente que  avalia 1950 pelos padrões de 2017 pode ir bardamerda.

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Arriámos o bote , remámos para fora do porto interior , içámos a vela grande para ver se estava tudo em ordem , saímos disparados pelo meio da frota à popa arrasada, a retranca tem quase dez metros e ultrapassámos   outros barcos com distâncias de centímetros , não sei como é que fiz isso e quando voltámos a baixar a vela para tomarmos o nosso lugar na linha de reboque da largada ia a tremer.

Este é um vídeo da largada , especial atenção para o minuto 3.30 , quem ficar indiferente a uma coisa destas não pode ser bom.

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A regata é um percurso à volta de três boias , uma de bolina , uma de largo e outra de bolina à entrada no porto, e depois meia milha de bolina , mais ou menos, para  a meta mesmo em frente à cidade. Partimos em 15º da linha.

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Há festivais de velas clássicas em sítios de alto snobismo tipo St.Tropez , já lá vi muita coisa bonita e digo sem problema nenhum que um bote baleeiro bem pintadinho passa por eles e vira cabeças e causa admiração de quem sabe, não andam aí muitas embarcações  mais elegantes e rápidas que estas.

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Aqui já estávamos a rondar a última bóia, nesta altura devíamos ir em décimo segundo mas quase todos esses atrás de nós acabaram por nos passar. Bordos grandes com brisa constante e todo o espaço são uma coisa , bordos pequenos com brisas variáveis dentro de um porto com outros barcos à nossa volta são outra muito diferente, é aí que vem ao de cima a experiência,e  falhei muito. Nessa foto já se podem ver barcos atrás muito mais orçados que nós:IMG_20170812_161105

Mesmo assim demos os bordos precisos para cortar a meta, apitou a nossa buzina e tocámos na bóia , um segundo mais tarde e éramos desclassificados. Doze segundos atrás de nós cortou a meta o Formosa , e isso para mim foi vencer . Terminámos em 16º de 23, os moços ficaram contentes, eu fiquei radiante, para primeira prova foi bem bom, para não falar da beleza enorme do cenário e do dia.

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Com o bote varado fomos celebrar , e mais tarde na noite encontrei-me sozinho sentado a um balcão e achei graça porque que me sentia exactamente como me costumava sentir de cada vez que atravessava o Atlântico, uma satisfação  que me percorria o corpo todo e me deixava um sorriso fixo. Acabei  por reencontrar a tripulação na festa, não há como ter vinte anos, aqueles moços conseguiram todos os dias voltar ao alojamento de manhã clara e cheios de cerveja até aos olhos. Ah, a juventude.

No dia seguinte subimos os botes para os atrelados e arrumámos a palamenta aqui:

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É a casa dos botes do Clube Naval da Horta, um armazém de pausar  a respiração a quem gosta destas coisas e que ainda nos vincou mais a diferença abismal que vai deles para nós. Não interessa muito. Fizemos boa figura, aprendemos, ganhámos confiança e já nunca mais vou para uma prova a pensar em terminá-la , vou a pensar em classificar-me bem. Tenho o privilégio incrível de ser oficial de um bote baleeiro três  meses depois de ter subido pela primeira vez a um , há muitas pessoas que sonham com isto e passam anos e anos até  lá chegarem , quando chegam .

Agora estamos para aqui à espera que regressem os botes, vai levar uns quinze dias. Antes de os guardarmos para o Inverno e começarmos a lixar e pintar queríamos ainda navegar mais um bocado, não falta vontade nem ideias de coisas giras que podemos fazer aqui, incluindo levar turistas a navegar por uma quantia, juntar dinheiro para termos material melhor e podermos ir mais vezes ao Triângulo para o ano, para provas no Faial e no Pico. Fala-se nas “altas esferas” da possibilidade de mantermos um bote no Faial para não termos que o andar a carregar para a frente e para trás, isto claro que está dependente de haver uma tripulação de prontidão para ir para lá competir em condições, coisa que nunca houve antes. Agora há.