Visitas

O Santa Maria Manuela esteve cá de visita e vai-se hoje embora, não vou falar muito sobre o navio , está tudo aí bem explicado no site oficial, menos uma coisa que não é imediatamente  aparente: esta magnífica peça da nossa história náutica está viva , linda , trabalha e leva longe e alto o nome e a tradição naval do país porque foi comprada e, com isso salva, por uma empresa privada, do Grupo Jerónimo Martins. Ali não entram comissões organizadoras, sindicatos, representantes das secretarias gerais nem se arranjam lugares para correligionários na base da confiança política ou favor prévio. É um belíssimo exemplo para mostrarem a todas as pessoas que acham e pregam que a defesa do património tem que ser  sempre competência do Estado.

Bom, os marinheiros do SMM repararam logo nos botes baleeiros na rampa e no Sábado e Domingo saíram com o Formosa, nós no S.Pedro. Foi a primeira vez em 3 anos que os dois botes arriaram aqui ao mesmo tempo, e isto  porque já é difícil encontrar tripulação para um quanto mais para dois. Foi lindo, há uma grande diferença entre andar a treinar só num bote ou andarmos a par e a medir-nos com outro , passámos duas belíssmas tardes no mar e diria que proporcionámos um bom espectáculo aos Florentinos, só que a esmagadora maioria dos Florentinos não se podia importar menos com os botes baleeiros. “Era enchê-los de gasóleo e largar-lhes o fogo”, foi um dos comentários que já ouvi, eu percebo indiferença e sei bem que o que a mim me encanta pode ser irrelevante para o próximo, mas animosidade clara já me custa mais a perceber.

Sintomático disto é a idade média da nossa tripulação, que anda pelos 55 pela minha estimativa. Fiz publicidade e fiz fazer, passou-se  a palavra, tentou-se entusiasmar alguma juventude para aparecer e tomar interesse, não é apenas a vela como desporto, é o património cultural , a herança dos Açorianos, uma coisa que não existe em mais lado nenhum do mundo. Ninguém se interessa, e os poucos que se interessaram desistiram quando perceberam que envolvia um bocado mais além de andar a passear de bote e ter viagens pagas para as regatas no Verão. Já desisti de tentar perceber ou mudar alguma coisa, o meu interesse é cada vez mais estreito : o S.Pedro está pronto a navegar e tenho mais 6 homens de confiança, disponiblidade  e vontade para o manobrar? Já me chega.

E mulheres?, poderiam perguntar-me, porque é que têm que ser 6 homens? A mim cabe-me encontrar e escolher uma tripulação ( na medida em que não há “veto” de quem manda mesmo a sério…) , e quando já está, não procuro mais. Se há mulheres que se queixam de não haver tripulações femininas ou mistas e que estão à espera de serem convidadas, esperem sentadas. Ir convidar mulheres só porque são mulheres é coisa do heteropatriarcado ou dos estúpidos, eu convidei toda a gente para aparecer logo no princípio da época  e se há mulheres que querem navegar nos botes organizem-se e cheguem-se à frente, se alguma me pedir ajuda, ajudarei como puder mas parece-me que a iniciativa e organização têm que partir delas, aqui ainda não temos quotas obrigatórias nem recebemos circulares do governo a exigir mais disto ou daquilo.

No fim da navegação de ontem fez-se uma patuscada no cais com as omnipresentes lapas grelhadas, foi um bom fim de semana de convívio náutico e , como de costume, os visitantes ficaram encantados com isto.

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O melhor momento da patuscada foi para mim quando uma senhora continental, sofisticada e coiso, quis saber o que é que ia no molho das lapas.

-E aqui, é o quê?

– É o molho , respondeu o sr Mendonça, 70 anos , florentino nascido e criado, tripulante do S.Pedro.

-Sim , mas é o molho de quê?

-É o molho das lapas, põe-se por cima e come-se.

É por estas e outras que eu me dou bem aqui.

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O Porto das Lajes

Em Junho de 2005 estava  a caminho do Canadá vindo de Malta, com a natural escala nos Açores. Nessa época tanto nas idas como nas vindas parava em S.Miguel, descartando a Horta pelo congestionamento e também por estar farto de modas e da mania do Café Sport que já nessa altura tinha completado a sua transformação em atracção turística e império comercial.

Via a ilha das Flores na carta e via que só havia uma baía, um cais e um ancoradouro e  uma escala aqui nunca fazia parte dos planos mesmo sendo, geograficamente, o ponto lógico quer para fazer a última escala a caminho das Américas como a primeira no regresso à Europa. Os pilotos  (a versão náutica de guias de viagem que hoje foram substituídos por 567 sites de internet) concordavam todos: ilha belíssima, habitantes prestáveis e acolhedores para lá do normal, e mais nada. Em termos de infraestruturas, zero. Mesmo se a curiosidade me chamasse  para cá   não me pagavam para passear e passava sempre bem ao largo.

Nesse ano já estava a umas boas 200 milhas a Oeste das Flores quando apanhámos um temporal rijo, seguido de umas quebras e avarias a bordo, e uma das tripulantes estava há 3 dias deitada no seu beliche enjoada de morte, sem conseguir mexer-se quanto mais comer , nem água no estômago aguentava.

O temporal tinha que passar e com as avarias até podia bem, mas estava com medo da moça porque da minha experiência uma pessoa pode enjoar e sofrer 3 dias mas depois passa, se não passa depois de três dias, nunca mais, é para morrer de desidratação. Decidi dar meia volta, o porto mais próximo era o das Lajes.

Entrámos à vela ainda debaixo de temporal, acostámos  ao cais com o uso  que restava do motor e a ajuda de pessoal local, tivemos que voltar a largar  antes que a ondulação de fundo rebentasse com o barco contra o cais, ancorámos, e passadas quatro horas de descermos a terra havia duas novidades importantíssimas: a tripulação desertava-me , estando todos a caminho do aeroporto no dia seguinte, e eu tinha decidido que ia morar nesta ilha. Era este o barco e esta a amarração que se podia fazer, era isto ou fundear no meio da baía.

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Nessa altura não havia marina, descia-se a terra com os botes, e não obstante isso havia uma boa dúzia de veleiros oceânicos ancorados . Estava-se a aumentar o molhe exterior, como se pode ver na foto, para se poder receber um navio de abastecimento maior. Em terra havia um quiosque por cima da muralha que vendia bebidas e pouco mais, e mais acima uma pizzaria cuja dona prestava serviços como lavandaria e organizava transportes e coisas dessas. Fiquei uns 15 dias à espera de substituir a tripulação e a apaixonar-me irremediavelmente pela ilha e nesses dias houve sempre movimento no porto, veleiros a chegar e a partir.

Isto faz agora 13 anos, passemos para 2011 , a União Europeia pagou uma marina e o senhor César, que mandava nisto nessa altura, veio cá inaugurá-la como se tivesse sido feita por ele, como é  de resto normal. Foi no mesmo ano  em que fixei aqui residência e as críticas à marina não se fizeram esperar: não só era pequena e mal podia acolher e manter seguros barcos de mais de 9 metros em caso de ligeira mareta quanto mais temporal,  exposta a vento e ondulação de Nordeste que quando vem é sempre em força. Pessoas que conheciam bem o porto espantaram-se e avisaram que estavam a estender um molhe por cima de areia. Os senhores engenheiros desprezaram como de costume a sabedoria local e lá se enterraram milhões no que foi chamado de “porto de recreio” , tiveram a decência de não lhe chamar oficialmente “marina”.

Não sei nada de engenharia nem me atreveria a criticar os trabalhos mas achei muito estranho que consumissem milhões num porto de recreio e que nem uma alminha se lembrasse de investir umas escassas dezenas de milhar nas coisas tão importantes para os velejadores oceânicos como uma amarração segura: balneários, lavandaria, apoio técnico, bomba de combustível, para referir os mais importantes que continuam ausentes e nem sequer planeados ao fim de 7 anos. 

No primeiro inverno os temporais iam destruindo os pontões todos e no seguinte o pessoal do porto deu-se ao trabalho de os desmontar e arrumar. Nenhum barco, nem uma lanchinha de pesca, pode ficar ali na água durante o inverno com risco de se despedaçar, derrota-se logo o principal propósito de uma obra daquelas: ser um porto de abrigo. 

O trânsito e visitas de veleiros foi caindo, e este inverno tinha sido bom para trazerem aqui por uma orelha o responsável da obra, houve um temporal que nem foi nada de realmente especial mas que mostrou os problemas de assentar estruturas em areia, esta foto fui tirá-la hoje de propósito para que quando digo que a entrada do porto está escavacada não pensarem que estou a exagerar.

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Uma obra com seis anos, se é esse o prazo de validade destas coisas vou ali já venho. Talvez os engenheiros não soubessem que aqui o tempo é feroz no Inverno, tem que haver pessoas que não sabem isso, não é costume entregar-se a esses obras públicas de milhões mas estamos em Portugal.

Além dessa cabeça do molhe e do farolete ficou-se sem água nem electricidade nos pontões e o pontão maior, o único capaz de acolher barcos maiorzinhos, foi-se embora. Quem quiser ver as condições em que os barcos ficavam nesse pontão num dia mais fresco, está aqui este vídeo que fiz em 2015:

Esse pontão já foi, os outros estão mais ou menos presos por arames. Não há um sítio para os visitantes tomarem um duche quente quando chegam de pelo menos 15 dias de mar; um taxi tem que vir de longe, se se digna atender o telefone; para meterem gasóleo têm que andar 3 kms e ter os próprios jerrycans; não há uma lavandaria e o único bar restaurante de toda a zona do porto e da praia só serve refeições quase  por especial favor em dias certos e até certas horas. Coisas como um fusível, um cabo, uma poleia, enfim, aprestos náuticos, é muito difícil encontrar e se mandam vir uma peça do continente têm para pelo menos 15 dias.

É muito por isto que hoje (e ontem, e amanhã) o porto está assim:

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Na Horta, 140 milhas a sueste daqui , um dia de viagem, quase  não cabe mais ninguém , há um mês que o porto está abarrotado , e também na Terceira e em Ponta Delgada os iates enchem as marinas e dinamizam a economia local. Aqui fizeram esta marina porque havia dinheiro para o betão mas ninguém quis saber do resto. A construtora facturou, o César cortou uma fita e  fez um discurso, o tanque e bomba de gasóleo comprado de propósito está num canto a ganhar musgo e a Portos dos Açores , empresa pública que manda nisto, anda a ter orgasmos com o rendimento e movimento de todos os mastodontes de cruzeiros que descarregam turistas aos milhares e poluem o ar e as vistas (ou embelezam, consoante o ponto de vista) em ponta Delgada e quer lá saber mas é deste canto esquecido. Quem trabalha para eles ganha o mesmo quer haja cem iates quer não haja nenhum, eu se calhar no lugar deles também preferia nenhum.

Mas atenção: não é só por falta de condições que os veleiros já não param nas Flores, até à construção da marina também não havia condições e iam-se recebendo umas dúzias de visitas e havia animação no porto. O “problema” transcende isso e seria objecto de um post só por si mas estou embalado.

O problema é que a internet e as novas tecnologias desenvolvidas na última década mudaram radicalmente o perfil e atitudes dos velejadores de cruzeiro. Em primeiro lugar, dada a difusão do GPS e a eficiência dos aparelhos auxiliares de navegação (desde os computadores aos motores diesel)  qualquer pessoa consegue atravessar um oceano. Não vou estar a martelar em como era dantes , porque não era necessariamente melhor, mas a verdade é que a facilidade da navegação abriu a porta a muita gente que sem a facilidade do GPS, se tivesse sido obrigada a aprender e praticar navegação à estima e navegação astronómica e correr riscos de erro não se tinha feito ao mar.

Além da navegação, as comunicações: há uma sensação de segurança, hoje as pessoas sabem que se a coisa correr mal carregam num botão e  os socorros avançam, isto mandou ao mar outra revoada de gente que nunca o faria se soubesse que dependia essencialmente de si própria. Depois, as comodidades a bordo : dessalinizadores, congeladores, televisões, enfiou-se nos barcos de cruzeiro uma panóplia de objectos e dispositivos que convenceram a ir para o mar gente que não concebe viver sem os mesmo confortos de uma casa.  A seguir , e por fim , comunicações. Há internet a bordo e quando não há a bordo há nos portos todos, pelo que toda esta nova raça de navegadores pode passar parte dos dias a olhar para um ecran, a publicar as histórias mais banais que se possam imaginar como se fossem grandes aventuras e, em resumo , a publicitar as suas viagens num exibicionismo equivalente aos modelos do instagram que vivem e fazem tudo com o objectivo de se mostrar aos outros e acreditam que sem gostos, partilhas, seguidores e comentários não vale a pena andar a navegar.

Ora isto não é necessariamente mau, ate porque permite a muitas pessoas viajar e navegar vicariamente e às famílias acompanhar os seus em viagem. Muito teria gostado a minha mãezinha que houvesse internet quando viajei e atravessei o oceano pela primeira vez, se lhe tivesse podido mandar mensagens semi diárias em vez de um postal ou carta de mês a mês. O problema não é o exibicionismo, chamemos-lhe assim , que é quase generalizado, eu mesmo publico volta e meia fotos e este blog está cheio de relatos de viagem. A questão é que ninguém, ou quase, dá um passo que seja sem fazer a sua pesquisa. Ninguém vai à descoberta de coisíssima nenhuma, muito raros são os que por exemplo escolhem um porto de destino sem antes saberem tudo sobre esse porto, e quando digo saberem tudo não digo estudar cartas e pilotos, digo queimarem horas e horas nos milhentos foruns e sites “da especialidade” a pesquisar , pedir e oferecer informações sobre tudo desde o preço do gasóleo até aos dias de mercado passando pelas listas de procedimentos alfandegários. Há uma espécie de instinto de manada e se bem que há e haverá sempre uma minoria que se “perde” e gosta mesmo de descobrir a esmagadora maioria faz a sua pesquisa intensiva, sabe sempre o que vai encontrar, é uma questão de “segurança”.

O que é que isto tem a ver com a nossa marina deserta? Todos os iates que atravessam o Atlântico agora sabem bem que aqui não há condições (que há 15 anos não eram essenciais mas hoje são) e que o porto está danificado, e passam-nos ao largo. Os raros que aqui param têm uma determinação e objectivo antigo de ver isto ou não tiveram escolha e nem 24 horas ficam.

Não se pode fazer nada quanto à cultura do exibicionismo digital e da incessante presença online  (o tempo que os velejadores de cruzeiro modernos passam na doca a examinar e discutir as previsões meteorológicas disponíveis em 35 sites diferentes é qualquer coisa de surreal) mas havia coisas a fazer para que essas pessoas vissem nas suas pesquisas que vale a pena vir aqui, e para os que cá chegam não encontrassem esta miséria. Não se vai fazer NADA.

Tive várias ideias que podiam ajudar a transformar este porto numa escala agradável para os iatistas transatlânticos e mesmo os que vêm do Faial em barcos de aluguer ou da Europa do Norte em cruzeiro ao arquipélago mas como já vivo aqui há 7 anos e sou português   já sei o suficiente para não ter veleidades nenhumas nesse campo.

Existe a possibilidade desta minha análise estar errada, talvez em Junho a “marina ” se encha outra vez, se isso acontecer das primeiras coisas que vou fazer é vir aqui contar e dizer “olha , enganei-me”, mas a diferença que se vê  deste ano para os anteriores é tão grande que acho pouco provável. Todas as pessoas com quem falo aqui que sabem alguma coisa de navegação e cruzeiro concordam comigo.

Isto entristece-me um bocado mas não me preocupa, nesta outra foto pode ver-se o outro lado do porto e as nossas jóias , os botes baleeiros  S.Pedro e  Formosa.

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Mesmo com todos os defeitos, problemas, intrigas   e insuficiências, o nosso porto tem a sua vida própria,  os iates que vão lá para o Faial , beber gin no Café Sport , e dizer à sua audiência, real, imaginada ou desejada, que os Açores são magníficos depois de verem o porto da Horta ,  o Pico lá do outro lado do canal , mais umas fotografias e pouco mais, passando 1/4 do seu tempo acordados no Arquipélago a olhar para um écran.

Esta ilha não é para todos, e é assim que eu gosto dela.

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Energia boa, energia má.

Ontem foi o dia de visitar  o lar de idosos da Santa Casa  para o nosso “espectáculo” de animação. Lembrava-me de uma vez lá ter entrado e ter ficado chocado com o  cheiro, que depois soube que é  comum, e passei o mês dos ensaios a preparar-me mentalmente para aguentar aquilo. Mais uma vez mostrando que o melhor é prepararmo-nos e esperar o pior, entrei, respirei fundo e fiquei surpreendido e aliviado, não notava nenhum cheiro especial e não faço ideia de a que se deve essa diferença de uma visita para a outra.

O lar é impecável, é daquelas coisas que nos faz achar que há parte da dívida pública que vale a pena. Tem nesta altura 23 utentes com capacidade para 32, se não estou em erro, os que não estão de cama estavam no salão principal e ainda vieram algumas amigas para ver a apresentação.

As canções eram belíssimas, abanei o “ovo” de percussão com competência relativa, os teatrinhos foram engraçados,  a minha historieta trouxe vários sorrisos lindos e isso recompensou-me à larga. Pediram-nos para a semana irmos apresentar o mesmo ao lar de Santa Cruz. Não sou  pessoa de crer muito em  auras nem magnetismos e afins mas parece-me  óbvio que uma troca como aquela traz “boas energias” a quem dá e a quem recebe. Como é que meço essa energia? Não tenho maneira, mas se saio a sentir-me melhor do que entrei e se quem me ouviu sorriu e passou uns momentos positivos, isso é boa energia.

-Temos que publicar essa história, tu escreves muito bem, devias escrever mais

Dizia-me uma amiga de cá, eu ri-me e disse que escrevo umas coisas mas para minha edificação e entretenimento pessoal e que não via necessidade nem vantagem em   publicar uma historieta tão básica feita para uma ocasião específica.

 Nunca quis publicitar este blog, especialmente desde que vivo aqui, saber que todos os meus  vizinhos  podem ler o que escrevo ia-me condicionar um bocado. Nem sequer lá ia com um pseudónimo, primeiro porque gosto sempre de assinar o que escrevo e depois porque, para escrever como gosto, toda a gente percebia num instante quem era. Haverá um ou outro leitor disto aqui na ilha e tenho uma mão cheia de amigos pessoais que acompanha estas páginas e para mim está bom assim.

A meio da tarde, outro tipo de energias, as energias da bola. O meu amigo Beru, francês que cá vive há uns anos bons, ex marinheiro, marceneiro, carpinteiro e em geral uma pessoa adorável,  é desde o ano passado o meu companheiro do futebol. Nunca tinha ligado muito mas hoje é sportinguista que já conhece os jogadores e já se exaspera e celebra como o resto. Todas as semanas lhe mando um sms com a hora do jogo (ele também vive fora do alcance da “comunicação social”)  e lá nos encontramos no bar do porto.

Ontem foi difícil, e quando o Bas Dost falhou o penalti e dois benfiquistas atrás de nós celebraram efusivamente pensei “é isto o nosso destino” , mas até ao lavar dos cestos é vindima e o Sporting lá arranjou energia, determinação e força que, com a imprescindível ponta de sorte, meteram a bola lá dentro e nos colocaram nos quartos de final da Liga Europa.

Para o fim do dia estava marcada uma apresentação e discussão pública de um projecto da EDA  para a ilha, uma nova mini hídrica, um projecto de energia daquela que se mede .

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Se alguém tem algumas dúvidas de que a democracia directa é uma má  ideia basta-lhe ir a uma destas sessões e fica logo esclarecido. Por partes:

– Desde 1990 que a EDA anda de volta disto, o aproveitamento hidroeléctrico de duas das ribeiras da costa Oeste.

-A conclusão dessa mini hídrica permitirá (?) à ilha ter as necessidades energéticas satisfeitas sem utilizar a central térmica , ou seja, a par com a renovação das eólicas aquilo pode permitir às Flores ter 100% de energia renovável, coisa que no mundo só a Islândia consegue, por via da geotermia.

-O auditório estava completamente cheio, foi o  melhor da noite, prefiro o conflito, protesto  e discussão à apatia e alheamento.

-A EDA mandou o presidente e mais uma data de engenheiros e especialistas, incluindo da EDP, e preparou  uma apresentação detalhada.

-Todas as pessoas que  pediram a palavra (pelo menos até eu me ter levantado e saído por estar exasperado com o nível da discussão) já iam com a sua opinião formada, são liminarmente contra e seriam sempre. Não foram para conhecer o projecto, foram para protestar.

– Estes  protestos não se baseavam em nada técnico, não se questionaram a sério os cálculos ou desenhos, a objecção é simples e é sempre a mesma: não se deve construir mais nada porque assim é que é bom , há que conservar tudo como está e queremos que os turistas não se incomodem com nada.

-A maioria dos activistas tem como facto comprovado que as empresas, todas as empresas, existem para destruir , espoliar e lucrar com essa destruição e que as obras são para gerar lucro. Se o presidente da EDA diz que o investimento vai ser de 20 milhões e que só será recuperado, eventualmente, em mais de 30 anos, eles dizem que é mentira e obfuscação, sobretudo porque o homem usa gravata e é presidente de uma empresa, logo, o demo encarnado.

– O representante da associação ambiental local acusou a EDA de não ser fiscalizada por ninguém, levantou-se o representante da Direcção Regional do Ambiente e informou que por  lei eles fiscalizam  as actividades da  EDA. Não serviu de nada.

– Outra objecção era devida às alterações verificadas no curso das ribeiras ao logo das décadas, ia-se construir em zonas que já foram pontualmente leito das ribeiras. Lembrar que  os pontos de captação e condutas servem igualmente para regularizar e estabilizar os leitos e caudais não serviu de nada.

– Uma sala cheia de ambientalistas foi insensível à possibilidade de se alimentar toda a ilha com electricidade sem importar e queimar gasóleo.

-Um indivíduo americano que cá vive há mais de 3 anos, é iluminado, conhece O Caminho, nunca se coíbe de apontar os problemas, dramas e falhas da ilha e dos habitantes mas nunca teve tempo nem interesse para aprender uma palavra de português, atirou “dude, your numbers are fake!” , deixando-me na dúvida de como é que ele conhece os números ou o próprio projecto já que não há versão inglesa. Devia ter visto  que eram falsos pelas gravatas dos engenheiros. Mais tarde disse que o que era preciso era racionar e diminuir o consumo de energia. A sua companheira, que ao menos fala português, esclareceu (aqui ninguém nunca se tinha lembrado disso, valham-nos estes beneméritos) que fala com quase todos os turistas  e que o que eles querem é pureza e silêncio. Nós a pensar que eles vinham pela vida nocturna e as praias. “A mini hídrica vai arruinar a economia da ilha”, com essa demonstrou  que nem percebeu bem o projecto nem conhece a economia da ilha como pensa que conhece.

– Outra moça protestou que ninguém tinha medido os caudais das ribeiras , eram estimativas. Foi explicado como se fazem as estimativas, por pessoas que há décadas, pela EDA e EDP, se dedicam a estudar e calcular caudais, com aparente sucesso na medida em que as luzes estão acesas e as barragens trabalham, mas também isso não fui suficiente.

– O gerente do maior e mais famoso aldeamento turístico da ilha, pessoa que me parece confundir o interesse da ilha com o do seu aldeamento e que acha que a cada passo que se tome nesta ilha ele deve ser consultado e dar o seu acordo, diz que o nível de ruído é inaceitável. Tenho a certeza de que qualquer nível de ruído acima de zero seria inaceitável para ele.

– Uma outra  moça, que foi mãe recentemente e como tal está energizada para lutar por um mundo puro para  sua cria, protestou que a mini hídrica não servia no Verão porque havia tempos em que as ribeiras estão quase secas. Não adianta explicar como funciona um centro de retenção, ou sequer a própria mini hídrica, isto são objecções que vêm do coração, não há técnica nem economia que as contrarie.

Foi por esta altura do debate entre o Bem e o Mal que abandonei a sala, pegando na deixa de um interveniente que afirmou, cheio de razão, que convocam estas reuniões quando os projectos estão feitos e as decisões tomadas, pelo que é uma perda de tempo.

Eu fui lá simplesmente para saber do que se tratava, convicto de que a minha opinião não conta. Se contasse, diria que acho positivo trabalhar para que a ilha não tenha que importar e queimar gasóleo às toneladas para gerar electricidade; que acho que a paralisação geral de tudo e o regresso ao passado não são  resposta para nada; que as pessoas que acreditam que é têm bom e rápido remédio: vivam sem electricidade, água corrente e apreciem a enorme superioridade moral que isso lhes confere.Também acho que as empresas como a EDA cometem muitos erros mas que dado que é precisa uma política de energia se queremos ter energia, essa política deve ser entregue a engenheiros e não a activistas; que os activistas acreditam demasiadas vezes que o seu trabalho é obstruir e condenar e que especialmente os estrangeiros e imigrantes recentes adoram a paisagem da ilha mas  para os habitantes estão-se nas tintas, para não dizer que os consideram um empecilho, uns atrasados e manipulados que não conseguem entender.

Para terminar, duas notas que não têm a ver com a ilha mas têm tudo a ver com o tema:

-Aqui há poucos meses a Associação Ambientalista Zero, que como o nome indica propõe e defende crescimento, emissões e tudo o mais a zero, levou a cabo uma campanha de re plantação no extinto Pinhal de Leiria. Plantaram mil sobreiros, o que para quem conhece o terreno e clima das terras do Pinhal de Leiria só ilustra uma certa  discrepância entre as intenções destas pessoas e o seu conhecimento da realidade.

– Está calculado que os 15 maiores navios de carga do mundo emitem tantos poluentes como todos os automóveis do mundo, devido ao tipo de combustível que usam. Há mais de 50 000 navios de carga no mundo. Apesar disto ser do domínio público, os ambientalistas batem as palmas quando se proíbem carros velhos ou a gasóleo nos centros das cidades e se promovem os carros eléctricos como uma coisa que vai fazer alguma diferença.

De cada vez que um porta contentores passa aqui ao largo das Flores polui mais que um ano de tráfego rodoviário, mas em breve vamos ter aqui os leafs e prius, a assinalar a virtude, subsidiados, claro está, e apresentados como uma coisa positiva para o ambiente, mesmo que a simples fabricação de uma bateria para um deles polua mais que todo o ciclo de vida de uma automóvel a gasóleo.

Nas questões ambientais para mim o principal problema é a ordenação das prioridades, e continuo sem vislumbrar uma esperança de que isso mude.

Ps: Acabo de ver isto, chamo portanto a atenção para o  facto de ontem à noite o Presidente da EDA se ter mostrado  mal informado, apesar de ter estado recentemente em Paris numa reunião das pessoas importantes do sector. A acreditar no Canal Arte a ilha de Hierro é 100% autónoma num sistema que só reforça os argumentos dele.Não percebo porque não mencionou isto. Energia e Engenharia, de aço e betão e  biológica. Equilíbrios para um futuro possível, talvez.

Um Parafuso a Menos

Há duas ferramentas que aqui toda gente que tenha mais terra do  que um jardim possui na arrecadação, quer tenha animais quer não : uma motosserra e uma roçadora. A primeira tem mais uso no Inverno, a segunda no Verão quando a monda parece que cresce diante dos nossos olhos. Usa-se a roçadora para limpar terras bravas e de cada vez que os animais acabam de comer determinada pastagem, passa-se a máquina para cortar as ervas de que eles não gostam, e também para simplesmente aparar a relva nos jardins e quintais. Já as motosserras trabalham mais no Outono e no Inverno, eu uso a minha para cortar lenha e quase todos os dias para cortar incensos. Como falo aqui várias vezes de incensos cabe  explicar que não estou a falar dos incensos orientais que se queimam em pauzinhos para aromatizar, estou a falar do Pitosporum Undulatum, uma árvore que se encontra por toda ilha, cresce rápido,  diz a wikipedia que é nativa da Austrália , aqui estão muitas imagens.

Em S.Miguel usa-se na cultura do ananás, faz uma espécie de cama orgânica onde eles crescem, e também se usa  para camas do gado. Em certas ilhas (e aqui também) produz-se mel de incenso, se o encontrarem à venda comprem-no todo porque dificilmente encontrarão melhor e mais puro, feito por abelhas que quase só se alimentam dessas flores e passam as vidas sem cheirar nem comer nada que não sejam flores. Não sei se também acontece nas outras ilhas mas aqui também se dá incenso a comer aos animais, as minhas ovelhas fartam-se de comer folhas de incenso não porque eu lhes queira muito variar a dieta mas para completar a alimentação, no Inverno não há erva que chegue, um saco de ração ainda são quase 15€ pelo que quase dia sim dia não vou cortar incensos, em terras minhas, em terras emprestadas e em terras onde me dão autorização para isso. Por razões óbvias não se corta uma tonelada de uma vez e se guarda, pode parecer que não mas as ovelhas são bastante esquisitas e preferem as folhas frescas.

 

Como lenha para aquecimento o incenso já não é grande coisa mas não se pode ter tudo, e tenho sempre uma  reserva de lenha  cortada em pedaços pequeninos para caber na salamandra, que é à mesma escala do resto das coisas. Como a alimentação para os animais e o aquecimento estão muito alto na lista das prioridades  (aqui muito raramente baixa dos 14º mas eu sou friorento e além disso gosto de ficar meio mesmerizado a olhar para o lume), a motosserra é a ferramenta essencial do Inverno. Recentemente comprei uma terra nova que tem uma matazinha, tenho lá lenha para cortar para  anos, e como o meu ritmo de trabalho é, para ser caridoso, um tanto  lento, também aí há quase todos os dias trabalho para a motosserra.

Como na altura tinha essa possibilidade decidi investir na melhor motosserra que há, é uma Stihl , passe a publicidade e desculpem os fãs da Husqvarna,  podia ter comprado uma chinesa por metade do preço mas que duraria um quarto do tempo. Como não podia deixar de ser é a mais pequena da gama mas é excelente, serve-me  perfeitamente  e nunca me falhou, mas não há material nenhum que resista à falta de jeito do operador e de alguma maneira que ainda não percebi bem arranjei maneira de entortar o parafuso que ajusta a tensão da corrente.

Não é um parafuso standard, sem surpresa não tinham na loja de materiais de construção e ferragens aqui, nem na outra vila, nem na Associação de Agricultores. Acontece frequentemente não haver algum artigo, especialmente com peças para  carros, não há em lado nenhum e demora sempre no mínimo dos mínimos 15 dias a chegar de fora. Quando os CTT eram públicos era assim, agora que foram privatizados…é igual.

Na Associação encontrei um amigo que me disse que de certeza que tinha disso, ele é auto didacta da mecânica e guarda os parafusos todos, lá fomos à garagem dele.

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Não é bem uma agulha num palheiro mas é um parafuso m5 com dois terços de rosca, como é normal havia naquela gaveta quase todas as medidas e formas de parafuso conhecidas do Homem menos essa. Com um torno, uma lima, boa vontade e aquela vantagem enorme de nos conseguirmos desenrascar com uma aproximação recuperámos o parafuso e tenho outra vez a motosserra funcional, mas não pode ser permanente, primeiro porque qualquer parafuso torto e depois endireitado está comprometido, depois porque com coisas como motosserras não se brinca nem facilita.

Ontem houve um acidente mesmo aqui ao pé de casa, um tipo que ia perdido de bêbado passou para fora de mão e bateu noutro de frente (sei que estava perdido de bêbado porque 15 minutos antes estava no mesmo café que ele) ficou encarcerado e a ambulância e os bombeiros vieram do outro lado da ilha  (aqui  há quartel mas não há equipamento de prontidão) eu estava lá quando os chamaram e demoraram quase 45 minutos , pelo que é bom que o pessoal aqui não tenha ferimentos que não permitam aguentar 45 minutos.

Estava a falar disso com um amigo no outro dia, se me acontece alguma aí numa ribeira ou numa combrada por causa de um desiquilíbrio ou de uma falha (por exemplo um parafuso numa motosserra), é bom que consiga sair pelo meu pé, porque primeiro que alguém dê pela minha falta  pode demorar dias, depois chegar ao centro de saúde é outro problema, e se não der para ser remendado lá tem que se ir de avião para o Faial pelo que é bom fazer tudo com calma, ter muito cuidadinho onde se pisa e onde se agarra e ter a certeza de que os parafusos estão todos em ordem.

Há  visitantes e admiradores da ilha que apontam como principal  obstáculo a instalarem-se cá,  o que os anglo saxões chamam dealbreaker,   a falta de um hospital, a ideia de ter um problema grave e não ter assistência é-lhes inconcebível. Eu respondo que se vive aqui  há 500 anos, criaram-se gerações e viveram-se vidas tão seguras e felizes ou inseguras e infelizes como noutros sítios, e que todos os dias morrem dezenas de pessoas num raio de poucos quilómetros dos melhores e mais equipados hospitais. De qualquer maneira encomendo o parafuso novo, não há que viver com medo mas não há que facilitar.

Terras

Esta terra fica a 20 metros da minha porta e há 6 anos que a arrendava  por 20€ por ano, não me perguntem como é que se calculam estas rendas que eu também não sei. Estava abandonada havia mais de 20 anos, fetos, silvas e cana roca da minha altura. Devagarinho transformei-a numa pastagem, vedei-a, e há dois anos no Verão conheci o proprietário , um “americano”. Disse-lhe que se a pensasse em vender que me dissesse, eu conhecia bem o procurador e sabia que não só como vizinho mas como rendeiro tinha direito de recusa se a terra ficasse à venda.

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Este Verão o procurador disse-me que estava tudo à venda. Numa das coisas mais estranhas que já me aconteceu aqui o procurador  não me disse o preço da terra até ao dia  antes da escritura. Eu dizia-lhe que tinha que saber porque era bem possível que não tivesse esse dinheiro, ele dizia-me que não me inquietasse, que de certeza que tinha, e se não tivesse não era problema, fazia-se a escritura à mesma e pagava quando pudesse. Apreciei a confiança mas não fiquei muito descansado, a cada vez que encontrava o homem ele dizia-me “não te rales”, até que em Novembro se ia finalmente marcar a escritura. Recebi um recado da notária (das minhas coisas favoritas aqui é a proximidade) a dizer-me que para se marcar a escritura era preciso um preço de venda, e ficou um pouco intrigada quando eu lhe disse que podia não acreditar mas eu não sabia. O procurador lá mandou o técnico da câmara avaliar aquilo e comunicou-me o preço no dia da escritura. Era o dobro do que eu calculava mas não tinha escolha, se não comprasse a terra comprava-a o outro vizinho e eu ficava sem esse pasto. Além disso deve-se sempre fazer todo e qualquer esforço para comprar terras  que sejam contíguas à nossa e devemos lembrar-nos de que terra é um bom investimento, especialmente porque já não se faz mais…tirando os casos em que estados reclamam terras ao mar, o que não é bem a mesma coisa e creio que no futuro vai ser mais comum o mar reclamar terras do que o contrário, especialmente porque com as perícias e capacidades dos Holandeses há muito poucos povos no mundo .

Além disso quanto mais o mundo urbano caminha para a degradação ambiental, segregação social e violências de toda a ordem mais valor tem um pedaço de terra num sítio com esta ilha. Todos os anos desembarcam aqui centenas de estrangeiros que olham para isto como um Refúgio Último e só não compram mais propriedades porque não as encontram. A publicidade incessante não abranda e creio que a tendência é para aumentar, ainda hoje conheci uma americana do Hawaii que cá apareceu com dois filhos e está determinada a instalar-se aqui. Diz que há aqui uma aura energética incrível, eu disse que não percebo nada da auras nem nunca vi nenhuma mas desde que cheguei aqui pela primeira vez que tive a certeza de que  esta ilha  era especial. Tão especial que tenho um certo receio pelo futuro disto ,  não  muito porque regra geral a minha preocupação com o futuro estende-se no máximo a 20 anos , depois disso é-me igual.

Na semana passada vendeu-se a Caldeira do Mosteiro inteira, consta que foi negócio de 1,5 milhões ou muito perto, é uma caldeira vulcânica inteira com uma aldeia abandonada.

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Vai ser um empreendimento turístico, como não podia deixar de ser, tal como 95% das casas que estão nesta altura a ser recuperadas, mas turismo ou não o que tenho por certo é que se há sítio onde o valor das terras só tende a aumentar é esta ilha, e por isso fiz um esforço gigante para pagar metade do preço da minha terra nova. O procurador nem pestanejou, depois da escritura feita depositei a metade do preço na conta do proprietário , apertámos a mão e sei que nunca mais tenho que lhe falar no caso excepto no dia em que pagar a outra metade.

Voltei a casa e fui andar para trás e para a frente na terra que já era minha , a apreciar a diferença, que é  enorme.

Pelo natal fui  dar a boas festas a uns vizinhos que por acaso eram as pessoas que tinham aquela terra arrendada há 20 anos atrás, contei-lhes a novidade e disseram-me logo que a mata também me pertencia, o que me deixou muito contente. Se repararem na foto a terra termina com umas árvores, é bordejada por uma “barroca” de uns 100m2 que estava brava como uma selva e que eu não sabia, nem o procurador, que fazia parte da  terra. “Mete-te já lá dentro para saberem que aquilo é teu!”, aconselhou o meu vizinho, e assim fiz, já comecei a limpá-la , de catana e motosserra,  são principalmente incensos mas há laranjeiras velhas, figueiras, araçás e as omnipresentes canas rocas e canas bravas, tenho para muito tempo a limpar aquilo e tirar de lá a lenha.A terra pode não ter ficado muito mais produtiva  pelo acrescento inesperado nem há grande coisa que se possa fazer numa barroca daquelas mas ficou mais bonita, também tenho uma mata! Como todo o resto, é pequenina, mas eu gosto de coisas pequeninas.

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Em trânsito

Já não saía do arquipélago há um ano e sinceramente a vontade de sair não era grande, mas há que fazer um esforço porque um dia vão-me faltar os meus pais e vou ficar  a pensar “quem me dera poder ir vistá-los agora…” . O esforço é mais por causa da bicharada, para as ovelhas e galinhas é igual mas o cão e o gato ficam desorientados e tristes, não estou a inventar que o cão fica triste, os vizinhos ouvem-no a uivar à noite, e são vizinhos não muito próximos. Já o gato tem reacções mais discretas mas também tem os seus hábitos e não há-de ficar satisfeito.

Das Flores a Lisboa implica sempre reservar um dia inteiro para viajar, saio de manhã das Lajes e chego a Lisboa noite cerrada depois de escalas na Horta e Ponta Delgada. A (única) cafetaria do aeroporto das Flores além de ser estritamente vegetariana agora apresenta em todas as mesas um exemplar de um jornal chamado MAPA. Nunca tinha ouvido falar, é um jornal auto designado de informação crítica, cheio de artigos sobre a opressão capitalista. Aliás, vendo bem todos os artigos são sobre a opressão capitalista, desde a luta contra a opressão que impede os okupas de se instalarem em propriedades que não lhes pertencem até às empresas que têm a veleidade de querer explorar minérios no fundo do mar passando por esse problema mundial grave que é a existência de fronteiras.

Diz lá no jornal que o bar do aeroporto é o único ponto de venda nos Açores, mas dado que há um exemplar em cada mesa quer-me parecer que é mais ponto de distribuição gratuito, mostra o activismo dos concessionários do bar. São um casal, ela é venezuelana, gostava de lhe perguntar que tal acha que vai a revolução popular no seu país e porque é que não está lá, já que lá luta-se a sério contra o capitalismo e constrói-se uma alternativa de futuro. É um governo que não consegue que haja papel higiénico nas lojas mas que  vai lançar uma moeda electrónica. O rapaz é americano , e a ele gostava de lhe  perguntar o que acha da contribuição do capitalismo do seu país que lhe permitiu juntar o guito necessário para se instalar nas Flores e explorar um bar. É sempre a velha história, o capitalismo é horrível excepto na parte que nos beneficia a todos, esqueçamos essa, foquemo-nos no que é mau e louvemos a utopia.

Um dia quando tiver dinheiro hei-de ir de avião ao Corvo, é o voo mais curto do país e creio que um dos mais curtos do mundo, o avião nem chega a ganhar altitude ou estabilizar, mal levanta começa logo a baixar.Dado que a passagem de barco custa 25€ e o voo uns €70 é uma excentricidade, mas um dia faço isso. Para o voo desta manhã havia um passageiro, que curiosamente não pode embarcar porque havia um problema com um artigo na bagagem. Quase toda a gente lá conhecia o rapaz, trabalha nas obras de expansão do porto mas esqueceu-se lá de um material qualquer proibido, veio a PSP e tudo e o moço ficou atrás.Regras são regras, é incrível.

Depois da hora de atraso habitual lá levantámos, 45 minutos de voo, escala de 25m na Horta e depois direitos a Ponta Delgada, cujo aeroporto está movimentadíssimo, comparado com aqui há 5 ou 6 anos. Fui beber um café com um amigo que trabalha na ANA e a notícia que andava na boca de toda a gente era que o concelho de administração da SATA se demitiu em bloco esta manhã. Há problemas sérios, os sindicatos estão a ajudar a resolvê-los convocando greves para o Natal e a SATA tem um buraco financeiro que mais parece uma cratera. Agravou-se quando o Banif rebentou e passou ao Santander. Uma das razões pelas quais o Banif estoirou foi que era mealheiro da administração pública, quem tivesse os contactos certos e ligasse do departamento certo tinha sempre crédito, sobretudo o governo, que nesta região se confunde com o PS. Certamente que esse uso liberal dos fundos  não teve nada a ver com a falência do Banif mas o que é certo é que os gestores do Santander não acharam muita graça ao processo e fecharam a torneira. Ora a SATA opera em permanente prejuízo, apesar de pagar e dar regalias como poucas empresas privadas e estas coisas podem aguentar-se uns anos bons mas forçosamente chegam a um limite.

Parece que foi agora, o CFO da empresa demitiu-se, provavelmente ao ver que não havia dinheiro para as despesas deste mês, e os outros decidiram ir também. Ainda não vejo nada nos jornais mas estas notícias  não me chegam de um nível nada baixo na ANA pelo que acredito nelas.Também acredito quando me dizem que já se fala na opção Francisco César , acredito e acho graça, para quem não sabe o Francisco César é filho do Carlos César e a piada faz-se sozinha.

Se esta administração não for convencida a recuar na decisão espero que a próxima tenha mais cuidado e rigor com o dinheiro público e que ponha isto na ordem, porque se esta região rebenta pelas costuras de organismos estatais de utilidade e eficiência dúbia a SATA não é um deles, se há empresa crucial nos Açores é  ela.

Isso tem sido mau na medida em que gestores e sindicalistas sabem que o accionista mor nunca  a pode deixar cair, podem fazer quase como quiserem que o contribuinte assina sempre o cheque. É o que se vai passar desta vez, e descansem que mesmo se as notícias desta convulsão não chegarem à imprensa isso não significa que não vai haver mais um camião de dinheiro para a SATA.  Pela minha parte esses fundos deviam vir com uma obrigação: acabavam de uma vez por todas com as rotas tipo escandinávia e Cabo Verde e limitavam-se a fazer o serviço público : ligar as ilhas entre elas, com o Continente e com as Comunidades Açorianas mais importantes. Para o resto não temos falta de escolha no sector privado.

Já vi mais pessoas esta tarde do que nos últimos 3  meses e ainda nem cheguei a Lisboa, estou a ficar cada vez pior. Deixo este videozinho de dois minutos e meio, mostra animais a ajudar outros animais, é fabuloso e faz-me sempre pensar na necessidade de um poder e lei superior para se ser bom e mostra-me  bem porque é que prefiro passar mais tempo com bichos do que com gente.

Boas Festas , um Santo e Feliz Natal e  juntava mais votos se soubesse o que é que irrita mais a rapaziada do politicamente correcto e da modernidade linguística nesta altura.Um santo Natal é das melhores para o efeito, vou andar a desejar isso a toda gente este ano.

Reportagens de Viagens

Desde que fui  pela primeira vez assinante da Volta ao Mundo e da Grande Reportagem que o mundo mudou muito, basta dizer que não havia telemóveis , internet,  gps terrestre  ou companhias aéreas low cost. Havia quatro canais de televisão e além da tv e rádio, toda a informação era em papel. Nessa altura os repóteres de viagens não só tinham a vida muito mais dificultada como escreviam para pessoas com um nível inferior de acesso, eu por exemplo gostava de ler aquilo porque estava fora do meu alcance não só ir e ver como perceber e explicar, e havia sempre sítios inóspitos e obscuros, daqueles que não são esquecidos porque nunca chegaram a ser lembrados, mesmo para miúdos cromos da geografia que liam atlas em pequeninos.

Hoje  não só é muito maior a percentagem de pessoas que viaja como nem vale a pena lembrar a explosão de informação que temos na ponta dos dedos. Em quinze minutos podemos  fazer uma visita de drone sobre Sófia, ler um blog sobre cozinha búlgara, ler os jornais búlgaros, ler sobre a história da bulgária , ver um filme búlgaro, ver o que diz a sabedoria colectiva de milhares de turistas sobre a Bulgária e por fim marcar um bilhete de ida e volta para a Bulgária. O trabalho que tinha um jornalista/repórter  a planear uma viagem para uma reportagem era no mínimo de semanas mas hoje numa tarde pode fazer-se isso . O jornalista mais dedicado passará mais tempo a estudar o objecto da sua reportagem, mas tenho a impressão (posso estar redondamente enganado porque raramente leio matérias dessas hoje em dia) de que a maior parte das vezes 3 parágrafos da wikipedia fazem o serviço no que toca a contextualizar o sítio e dar o apontamento histórico . O resto são sobretudo clichés , e  admira-me que o nível e fórmula de escrita dessas reportagens não tenha evoluído  em 30 anos.

A Visão mandou jornalistas aos Açores, ou os Açores convidaram a Visão, e fizeram um especial dedicado ao Arquipélago. Deve ser uma edição comemorativa porque usam o mesmo sub título de há 30 anos, o apelo da natureza, que é só o segundo mais fácil a seguir a escrever só “a natureza”. Esta coisa da natureza e dos mil lugares comuns que ela faz florescer quando se fala das ilhas sempre me intrigou um pouco porque para mim esta é das paisagens mais humanizadas que eu conheço, fora  de centros urbanos, obviamente. Grande parte da beleza disto é precisamente o modo como o homem se incrustou aqui , resistiu à natureza e modificou a paisagem.

A paisagem que escolheram para capa não é natureza modificada, é um  sítio que deve ser assim há muitos séculos, e é aqui nas Flores:

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Não vou fazer a crítica à prosa da jornalista, mesmo havendo o que criticar, quero criticar é o método, cujo resultado é uma das razões que me fez abandonar e desconsiderar bastante este género de leituras.

Para darem uma ideia boa das Flores  falaram com 14 pessoas . Conheço 12 dessas 14 pessoas e tanto os naturais como os imigrantes amam a ilha, vivem e trabalham na lha, sabem sobre a ilha e são pessoas com histórias interessantes para contar. A questão é que desses 14 só UM, o velho baleeiro que deles todos é o que eu conheço melhor e com quem passei mais tempo, só ele não vive do turismo. E mesmo ele, tal como os outros 13, está habituado a falar com visitantes, passa grande parte do tempo no museu da baleia ali no porto,  é uma peça de museu viva.

Isto para dizer que se queremos  fazer um retrato fiel de uma realidade não podemos ir perguntar aos que querem que o retrato saia o melhor possível, ou que querem que o retrato seja da visão particular que têm do objecto. Como sempre desde que me lembro, falam com estas pessoas:  quem lhes aluga a casa ; os guias turísticos; os donos dos restaurantes e  os empregados das “atracções” , ou seja, os jornalistas preferem, sem dúvida por preguiça, falar com quem está lá para falar com eles. É o mais fácil, e perde-se a conta às reportagens ( e até livros) cheios de citações de taxistas, bartenders e recepcionistas, que até podem ser uma amostra interessante  mas têm o problema de estarem ali para isso, se é que me estou a fazer entender.

Não foram  ver uma ordenha e saber  como se prepara o lavrador  para o Inverno. Não foram à escola falar com um professor, saber como é estar a trabalhar a mil quilómetros de casa e numa realidade tão diferente do continente. Não foram ao porto em dia de navio, não falaram com um pescador, não foram a uma câmara querer saber das intenções e perspectivas das autarquias, ou à Santa Casa ver de perto como é uma ilha envelhecida. Falar com algum desportista saber como é estar tão longe dos adversários ou talvez falar com um polícia sobre o seu trabalho aqui ou com um doente  ou médico sobre  como é que o processo que leva a transferir um doente para o hospital mais próximo, que fica a  45 minutos de avião. Nem a uma destas 14 pessoas com quem falaram perguntaram (ou se perguntaram não publicaram e acho mal) , de que é que gostam menos aqui, o que é que é mais difícil, do que é que sentem falta. Podiam perguntar-se o porquê desta ilha ser tão paradisíaca e espectacular e de apesar disso continuar a perder população.

Vão-me dizer, com razão, que o artigo da Visão não é uma reportagem de fundo, é uma divulgação turística. Ainda assim , porque é que não se  procuram visões mais  espontâneas, originais e locais? Visões que não estão comprometidas à partida com a visão paradisíaca que se pretende transmitir?  Não é  só falar dos defeitos, é procurar a visão e a história de quem não tem discurso preparado e incentivo alinhado, é tentar encontrar as belezas pela voz de quem cá vive o dia a dia sem sem se importar muito com o que  os outros pensarão disto.

Isto vale para qualquer destino, e certamente que há jornalistas de viagens que o fazem, para se distinguirem de turistas que tomam apontamentos.