Um Parafuso a Menos

Há duas ferramentas que aqui toda gente que tenha mais terra do  que um jardim possui na arrecadação, quer tenha animais quer não : uma motosserra e uma roçadora. A primeira tem mais uso no Inverno, a segunda no Verão quando a monda parece que cresce diante dos nossos olhos. Usa-se a roçadora para limpar terras bravas e de cada vez que os animais acabam de comer determinada pastagem, passa-se a máquina para cortar as ervas de que eles não gostam, e também para simplesmente aparar a relva nos jardins e quintais. Já as motosserras trabalham mais no Outono e no Inverno, eu uso a minha para cortar lenha e quase todos os dias para cortar incensos. Como falo aqui várias vezes de incensos cabe  explicar que não estou a falar dos incensos orientais que se queimam em pauzinhos para aromatizar, estou a falar do Pitosporum Undulatum, uma árvore que se encontra por toda ilha, cresce rápido,  diz a wikipedia que é nativa da Austrália , aqui estão muitas imagens.

Em S.Miguel usa-se na cultura do ananás, faz uma espécie de cama orgânica onde eles crescem, e também se usa  para camas do gado. Em certas ilhas (e aqui também) produz-se mel de incenso, se o encontrarem à venda comprem-no todo porque dificilmente encontrarão melhor e mais puro, feito por abelhas que quase só se alimentam dessas flores e passam as vidas sem cheirar nem comer nada que não sejam flores. Não sei se também acontece nas outras ilhas mas aqui também se dá incenso a comer aos animais, as minhas ovelhas fartam-se de comer folhas de incenso não porque eu lhes queira muito variar a dieta mas para completar a alimentação, no Inverno não há erva que chegue, um saco de ração ainda são quase 15€ pelo que quase dia sim dia não vou cortar incensos, em terras minhas, em terras emprestadas e em terras onde me dão autorização para isso. Por razões óbvias não se corta uma tonelada de uma vez e se guarda, pode parecer que não mas as ovelhas são bastante esquisitas e preferem as folhas frescas.

 

Como lenha para aquecimento o incenso já não é grande coisa mas não se pode ter tudo, e tenho sempre uma  reserva de lenha  cortada em pedaços pequeninos para caber na salamandra, que é à mesma escala do resto das coisas. Como a alimentação para os animais e o aquecimento estão muito alto na lista das prioridades  (aqui muito raramente baixa dos 14º mas eu sou friorento e além disso gosto de ficar meio mesmerizado a olhar para o lume), a motosserra é a ferramenta essencial do Inverno. Recentemente comprei uma terra nova que tem uma matazinha, tenho lá lenha para cortar para  anos, e como o meu ritmo de trabalho é, para ser caridoso, um tanto  lento, também aí há quase todos os dias trabalho para a motosserra.

Como na altura tinha essa possibilidade decidi investir na melhor motosserra que há, é uma Stihl , passe a publicidade e desculpem os fãs da Husqvarna,  podia ter comprado uma chinesa por metade do preço mas que duraria um quarto do tempo. Como não podia deixar de ser é a mais pequena da gama mas é excelente, serve-me  perfeitamente  e nunca me falhou, mas não há material nenhum que resista à falta de jeito do operador e de alguma maneira que ainda não percebi bem arranjei maneira de entortar o parafuso que ajusta a tensão da corrente.

Não é um parafuso standard, sem surpresa não tinham na loja de materiais de construção e ferragens aqui, nem na outra vila, nem na Associação de Agricultores. Acontece frequentemente não haver algum artigo, especialmente com peças para  carros, não há em lado nenhum e demora sempre no mínimo dos mínimos 15 dias a chegar de fora. Quando os CTT eram públicos era assim, agora que foram privatizados…é igual.

Na Associação encontrei um amigo que me disse que de certeza que tinha disso, ele é auto didacta da mecânica e guarda os parafusos todos, lá fomos à garagem dele.

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Não é bem uma agulha num palheiro mas é um parafuso m5 com dois terços de rosca, como é normal havia naquela gaveta quase todas as medidas e formas de parafuso conhecidas do Homem menos essa. Com um torno, uma lima, boa vontade e aquela vantagem enorme de nos conseguirmos desenrascar com uma aproximação recuperámos o parafuso e tenho outra vez a motosserra funcional, mas não pode ser permanente, primeiro porque qualquer parafuso torto e depois endireitado está comprometido, depois porque com coisas como motosserras não se brinca nem facilita.

Ontem houve um acidente mesmo aqui ao pé de casa, um tipo que ia perdido de bêbado passou para fora de mão e bateu noutro de frente (sei que estava perdido de bêbado porque 15 minutos antes estava no mesmo café que ele) ficou encarcerado e a ambulância e os bombeiros vieram do outro lado da ilha  (aqui  há quartel mas não há equipamento de prontidão) eu estava lá quando os chamaram e demoraram quase 45 minutos , pelo que é bom que o pessoal aqui não tenha ferimentos que não permitam aguentar 45 minutos.

Estava a falar disso com um amigo no outro dia, se me acontece alguma aí numa ribeira ou numa combrada por causa de um desiquilíbrio ou de uma falha (por exemplo um parafuso numa motosserra), é bom que consiga sair pelo meu pé, porque primeiro que alguém dê pela minha falta  pode demorar dias, depois chegar ao centro de saúde é outro problema, e se não der para ser remendado lá tem que se ir de avião para o Faial pelo que é bom fazer tudo com calma, ter muito cuidadinho onde se pisa e onde se agarra e ter a certeza de que os parafusos estão todos em ordem.

Há  visitantes e admiradores da ilha que apontam como principal  obstáculo a instalarem-se cá,  o que os anglo saxões chamam dealbreaker,   a falta de um hospital, a ideia de ter um problema grave e não ter assistência é-lhes inconcebível. Eu respondo que se vive aqui  há 500 anos, criaram-se gerações e viveram-se vidas tão seguras e felizes ou inseguras e infelizes como noutros sítios, e que todos os dias morrem dezenas de pessoas num raio de poucos quilómetros dos melhores e mais equipados hospitais. De qualquer maneira encomendo o parafuso novo, não há que viver com medo mas não há que facilitar.

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Terras

Esta terra fica a 20 metros da minha porta e há 6 anos que a arrendava  por 20€ por ano, não me perguntem como é que se calculam estas rendas que eu também não sei. Estava abandonada havia mais de 20 anos, fetos, silvas e cana roca da minha altura. Devagarinho transformei-a numa pastagem, vedei-a, e há dois anos no Verão conheci o proprietário , um “americano”. Disse-lhe que se a pensasse em vender que me dissesse, eu conhecia bem o procurador e sabia que não só como vizinho mas como rendeiro tinha direito de recusa se a terra ficasse à venda.

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Este Verão o procurador disse-me que estava tudo à venda. Numa das coisas mais estranhas que já me aconteceu aqui o procurador  não me disse o preço da terra até ao dia  antes da escritura. Eu dizia-lhe que tinha que saber porque era bem possível que não tivesse esse dinheiro, ele dizia-me que não me inquietasse, que de certeza que tinha, e se não tivesse não era problema, fazia-se a escritura à mesma e pagava quando pudesse. Apreciei a confiança mas não fiquei muito descansado, a cada vez que encontrava o homem ele dizia-me “não te rales”, até que em Novembro se ia finalmente marcar a escritura. Recebi um recado da notária (das minhas coisas favoritas aqui é a proximidade) a dizer-me que para se marcar a escritura era preciso um preço de venda, e ficou um pouco intrigada quando eu lhe disse que podia não acreditar mas eu não sabia. O procurador lá mandou o técnico da câmara avaliar aquilo e comunicou-me o preço no dia da escritura. Era o dobro do que eu calculava mas não tinha escolha, se não comprasse a terra comprava-a o outro vizinho e eu ficava sem esse pasto. Além disso deve-se sempre fazer todo e qualquer esforço para comprar terras  que sejam contíguas à nossa e devemos lembrar-nos de que terra é um bom investimento, especialmente porque já não se faz mais…tirando os casos em que estados reclamam terras ao mar, o que não é bem a mesma coisa e creio que no futuro vai ser mais comum o mar reclamar terras do que o contrário, especialmente porque com as perícias e capacidades dos Holandeses há muito poucos povos no mundo .

Além disso quanto mais o mundo urbano caminha para a degradação ambiental, segregação social e violências de toda a ordem mais valor tem um pedaço de terra num sítio com esta ilha. Todos os anos desembarcam aqui centenas de estrangeiros que olham para isto como um Refúgio Último e só não compram mais propriedades porque não as encontram. A publicidade incessante não abranda e creio que a tendência é para aumentar, ainda hoje conheci uma americana do Hawaii que cá apareceu com dois filhos e está determinada a instalar-se aqui. Diz que há aqui uma aura energética incrível, eu disse que não percebo nada da auras nem nunca vi nenhuma mas desde que cheguei aqui pela primeira vez que tive a certeza de que  esta ilha  era especial. Tão especial que tenho um certo receio pelo futuro disto ,  não  muito porque regra geral a minha preocupação com o futuro estende-se no máximo a 20 anos , depois disso é-me igual.

Na semana passada vendeu-se a Caldeira do Mosteiro inteira, consta que foi negócio de 1,5 milhões ou muito perto, é uma caldeira vulcânica inteira com uma aldeia abandonada.

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Vai ser um empreendimento turístico, como não podia deixar de ser, tal como 95% das casas que estão nesta altura a ser recuperadas, mas turismo ou não o que tenho por certo é que se há sítio onde o valor das terras só tende a aumentar é esta ilha, e por isso fiz um esforço gigante para pagar metade do preço da minha terra nova. O procurador nem pestanejou, depois da escritura feita depositei a metade do preço na conta do proprietário , apertámos a mão e sei que nunca mais tenho que lhe falar no caso excepto no dia em que pagar a outra metade.

Voltei a casa e fui andar para trás e para a frente na terra que já era minha , a apreciar a diferença, que é  enorme.

Pelo natal fui  dar a boas festas a uns vizinhos que por acaso eram as pessoas que tinham aquela terra arrendada há 20 anos atrás, contei-lhes a novidade e disseram-me logo que a mata também me pertencia, o que me deixou muito contente. Se repararem na foto a terra termina com umas árvores, é bordejada por uma “barroca” de uns 100m2 que estava brava como uma selva e que eu não sabia, nem o procurador, que fazia parte da  terra. “Mete-te já lá dentro para saberem que aquilo é teu!”, aconselhou o meu vizinho, e assim fiz, já comecei a limpá-la , de catana e motosserra,  são principalmente incensos mas há laranjeiras velhas, figueiras, araçás e as omnipresentes canas rocas e canas bravas, tenho para muito tempo a limpar aquilo e tirar de lá a lenha.A terra pode não ter ficado muito mais produtiva  pelo acrescento inesperado nem há grande coisa que se possa fazer numa barroca daquelas mas ficou mais bonita, também tenho uma mata! Como todo o resto, é pequenina, mas eu gosto de coisas pequeninas.

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Em trânsito

Já não saía do arquipélago há um ano e sinceramente a vontade de sair não era grande, mas há que fazer um esforço porque um dia vão-me faltar os meus pais e vou ficar  a pensar “quem me dera poder ir vistá-los agora…” . O esforço é mais por causa da bicharada, para as ovelhas e galinhas é igual mas o cão e o gato ficam desorientados e tristes, não estou a inventar que o cão fica triste, os vizinhos ouvem-no a uivar à noite, e são vizinhos não muito próximos. Já o gato tem reacções mais discretas mas também tem os seus hábitos e não há-de ficar satisfeito.

Das Flores a Lisboa implica sempre reservar um dia inteiro para viajar, saio de manhã das Lajes e chego a Lisboa noite cerrada depois de escalas na Horta e Ponta Delgada. A (única) cafetaria do aeroporto das Flores além de ser estritamente vegetariana agora apresenta em todas as mesas um exemplar de um jornal chamado MAPA. Nunca tinha ouvido falar, é um jornal auto designado de informação crítica, cheio de artigos sobre a opressão capitalista. Aliás, vendo bem todos os artigos são sobre a opressão capitalista, desde a luta contra a opressão que impede os okupas de se instalarem em propriedades que não lhes pertencem até às empresas que têm a veleidade de querer explorar minérios no fundo do mar passando por esse problema mundial grave que é a existência de fronteiras.

Diz lá no jornal que o bar do aeroporto é o único ponto de venda nos Açores, mas dado que há um exemplar em cada mesa quer-me parecer que é mais ponto de distribuição gratuito, mostra o activismo dos concessionários do bar. São um casal, ela é venezuelana, gostava de lhe perguntar que tal acha que vai a revolução popular no seu país e porque é que não está lá, já que lá luta-se a sério contra o capitalismo e constrói-se uma alternativa de futuro. É um governo que não consegue que haja papel higiénico nas lojas mas que  vai lançar uma moeda electrónica. O rapaz é americano , e a ele gostava de lhe  perguntar o que acha da contribuição do capitalismo do seu país que lhe permitiu juntar o guito necessário para se instalar nas Flores e explorar um bar. É sempre a velha história, o capitalismo é horrível excepto na parte que nos beneficia a todos, esqueçamos essa, foquemo-nos no que é mau e louvemos a utopia.

Um dia quando tiver dinheiro hei-de ir de avião ao Corvo, é o voo mais curto do país e creio que um dos mais curtos do mundo, o avião nem chega a ganhar altitude ou estabilizar, mal levanta começa logo a baixar.Dado que a passagem de barco custa 25€ e o voo uns €70 é uma excentricidade, mas um dia faço isso. Para o voo desta manhã havia um passageiro, que curiosamente não pode embarcar porque havia um problema com um artigo na bagagem. Quase toda a gente lá conhecia o rapaz, trabalha nas obras de expansão do porto mas esqueceu-se lá de um material qualquer proibido, veio a PSP e tudo e o moço ficou atrás.Regras são regras, é incrível.

Depois da hora de atraso habitual lá levantámos, 45 minutos de voo, escala de 25m na Horta e depois direitos a Ponta Delgada, cujo aeroporto está movimentadíssimo, comparado com aqui há 5 ou 6 anos. Fui beber um café com um amigo que trabalha na ANA e a notícia que andava na boca de toda a gente era que o concelho de administração da SATA se demitiu em bloco esta manhã. Há problemas sérios, os sindicatos estão a ajudar a resolvê-los convocando greves para o Natal e a SATA tem um buraco financeiro que mais parece uma cratera. Agravou-se quando o Banif rebentou e passou ao Santander. Uma das razões pelas quais o Banif estoirou foi que era mealheiro da administração pública, quem tivesse os contactos certos e ligasse do departamento certo tinha sempre crédito, sobretudo o governo, que nesta região se confunde com o PS. Certamente que esse uso liberal dos fundos  não teve nada a ver com a falência do Banif mas o que é certo é que os gestores do Santander não acharam muita graça ao processo e fecharam a torneira. Ora a SATA opera em permanente prejuízo, apesar de pagar e dar regalias como poucas empresas privadas e estas coisas podem aguentar-se uns anos bons mas forçosamente chegam a um limite.

Parece que foi agora, o CFO da empresa demitiu-se, provavelmente ao ver que não havia dinheiro para as despesas deste mês, e os outros decidiram ir também. Ainda não vejo nada nos jornais mas estas notícias  não me chegam de um nível nada baixo na ANA pelo que acredito nelas.Também acredito quando me dizem que já se fala na opção Francisco César , acredito e acho graça, para quem não sabe o Francisco César é filho do Carlos César e a piada faz-se sozinha.

Se esta administração não for convencida a recuar na decisão espero que a próxima tenha mais cuidado e rigor com o dinheiro público e que ponha isto na ordem, porque se esta região rebenta pelas costuras de organismos estatais de utilidade e eficiência dúbia a SATA não é um deles, se há empresa crucial nos Açores é  ela.

Isso tem sido mau na medida em que gestores e sindicalistas sabem que o accionista mor nunca  a pode deixar cair, podem fazer quase como quiserem que o contribuinte assina sempre o cheque. É o que se vai passar desta vez, e descansem que mesmo se as notícias desta convulsão não chegarem à imprensa isso não significa que não vai haver mais um camião de dinheiro para a SATA.  Pela minha parte esses fundos deviam vir com uma obrigação: acabavam de uma vez por todas com as rotas tipo escandinávia e Cabo Verde e limitavam-se a fazer o serviço público : ligar as ilhas entre elas, com o Continente e com as Comunidades Açorianas mais importantes. Para o resto não temos falta de escolha no sector privado.

Já vi mais pessoas esta tarde do que nos últimos 3  meses e ainda nem cheguei a Lisboa, estou a ficar cada vez pior. Deixo este videozinho de dois minutos e meio, mostra animais a ajudar outros animais, é fabuloso e faz-me sempre pensar na necessidade de um poder e lei superior para se ser bom e mostra-me  bem porque é que prefiro passar mais tempo com bichos do que com gente.

Boas Festas , um Santo e Feliz Natal e  juntava mais votos se soubesse o que é que irrita mais a rapaziada do politicamente correcto e da modernidade linguística nesta altura.Um santo Natal é das melhores para o efeito, vou andar a desejar isso a toda gente este ano.

Reportagens de Viagens

Desde que fui  pela primeira vez assinante da Volta ao Mundo e da Grande Reportagem que o mundo mudou muito, basta dizer que não havia telemóveis , internet,  gps terrestre  ou companhias aéreas low cost. Havia quatro canais de televisão e além da tv e rádio, toda a informação era em papel. Nessa altura os repóteres de viagens não só tinham a vida muito mais dificultada como escreviam para pessoas com um nível inferior de acesso, eu por exemplo gostava de ler aquilo porque estava fora do meu alcance não só ir e ver como perceber e explicar, e havia sempre sítios inóspitos e obscuros, daqueles que não são esquecidos porque nunca chegaram a ser lembrados, mesmo para miúdos cromos da geografia que liam atlas em pequeninos.

Hoje  não só é muito maior a percentagem de pessoas que viaja como nem vale a pena lembrar a explosão de informação que temos na ponta dos dedos. Em quinze minutos podemos  fazer uma visita de drone sobre Sófia, ler um blog sobre cozinha búlgara, ler os jornais búlgaros, ler sobre a história da bulgária , ver um filme búlgaro, ver o que diz a sabedoria colectiva de milhares de turistas sobre a Bulgária e por fim marcar um bilhete de ida e volta para a Bulgária. O trabalho que tinha um jornalista/repórter  a planear uma viagem para uma reportagem era no mínimo de semanas mas hoje numa tarde pode fazer-se isso . O jornalista mais dedicado passará mais tempo a estudar o objecto da sua reportagem, mas tenho a impressão (posso estar redondamente enganado porque raramente leio matérias dessas hoje em dia) de que a maior parte das vezes 3 parágrafos da wikipedia fazem o serviço no que toca a contextualizar o sítio e dar o apontamento histórico . O resto são sobretudo clichés , e  admira-me que o nível e fórmula de escrita dessas reportagens não tenha evoluído  em 30 anos.

A Visão mandou jornalistas aos Açores, ou os Açores convidaram a Visão, e fizeram um especial dedicado ao Arquipélago. Deve ser uma edição comemorativa porque usam o mesmo sub título de há 30 anos, o apelo da natureza, que é só o segundo mais fácil a seguir a escrever só “a natureza”. Esta coisa da natureza e dos mil lugares comuns que ela faz florescer quando se fala das ilhas sempre me intrigou um pouco porque para mim esta é das paisagens mais humanizadas que eu conheço, fora  de centros urbanos, obviamente. Grande parte da beleza disto é precisamente o modo como o homem se incrustou aqui , resistiu à natureza e modificou a paisagem.

A paisagem que escolheram para capa não é natureza modificada, é um  sítio que deve ser assim há muitos séculos, e é aqui nas Flores:

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Não vou fazer a crítica à prosa da jornalista, mesmo havendo o que criticar, quero criticar é o método, cujo resultado é uma das razões que me fez abandonar e desconsiderar bastante este género de leituras.

Para darem uma ideia boa das Flores  falaram com 14 pessoas . Conheço 12 dessas 14 pessoas e tanto os naturais como os imigrantes amam a ilha, vivem e trabalham na lha, sabem sobre a ilha e são pessoas com histórias interessantes para contar. A questão é que desses 14 só UM, o velho baleeiro que deles todos é o que eu conheço melhor e com quem passei mais tempo, só ele não vive do turismo. E mesmo ele, tal como os outros 13, está habituado a falar com visitantes, passa grande parte do tempo no museu da baleia ali no porto,  é uma peça de museu viva.

Isto para dizer que se queremos  fazer um retrato fiel de uma realidade não podemos ir perguntar aos que querem que o retrato saia o melhor possível, ou que querem que o retrato seja da visão particular que têm do objecto. Como sempre desde que me lembro, falam com estas pessoas:  quem lhes aluga a casa ; os guias turísticos; os donos dos restaurantes e  os empregados das “atracções” , ou seja, os jornalistas preferem, sem dúvida por preguiça, falar com quem está lá para falar com eles. É o mais fácil, e perde-se a conta às reportagens ( e até livros) cheios de citações de taxistas, bartenders e recepcionistas, que até podem ser uma amostra interessante  mas têm o problema de estarem ali para isso, se é que me estou a fazer entender.

Não foram  ver uma ordenha e saber  como se prepara o lavrador  para o Inverno. Não foram à escola falar com um professor, saber como é estar a trabalhar a mil quilómetros de casa e numa realidade tão diferente do continente. Não foram ao porto em dia de navio, não falaram com um pescador, não foram a uma câmara querer saber das intenções e perspectivas das autarquias, ou à Santa Casa ver de perto como é uma ilha envelhecida. Falar com algum desportista saber como é estar tão longe dos adversários ou talvez falar com um polícia sobre o seu trabalho aqui ou com um doente  ou médico sobre  como é que o processo que leva a transferir um doente para o hospital mais próximo, que fica a  45 minutos de avião. Nem a uma destas 14 pessoas com quem falaram perguntaram (ou se perguntaram não publicaram e acho mal) , de que é que gostam menos aqui, o que é que é mais difícil, do que é que sentem falta. Podiam perguntar-se o porquê desta ilha ser tão paradisíaca e espectacular e de apesar disso continuar a perder população.

Vão-me dizer, com razão, que o artigo da Visão não é uma reportagem de fundo, é uma divulgação turística. Ainda assim , porque é que não se  procuram visões mais  espontâneas, originais e locais? Visões que não estão comprometidas à partida com a visão paradisíaca que se pretende transmitir?  Não é  só falar dos defeitos, é procurar a visão e a história de quem não tem discurso preparado e incentivo alinhado, é tentar encontrar as belezas pela voz de quem cá vive o dia a dia sem sem se importar muito com o que  os outros pensarão disto.

Isto vale para qualquer destino, e certamente que há jornalistas de viagens que o fazem, para se distinguirem de turistas que tomam apontamentos.

Campanha Eleitoral

O cão deu sinal de movimento na canada, era uma caravana de campanha eleitoral que me visitava. Uma dúzia de pessoas, todas conhecidas, com T-shirts iguais e bandeiras . Tiveram que ficar em fila indiana porque na canada só passa  uma pessoa de cada vez.

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À frente vinha o ex presidente da junta novamente candidato nestas eleições. Agradeci, genuínamente, a consideração. Era a lista toda que se andava a apresentar aos eleitores , é um verdadeiro acto de democracia e cidadania que  não se reduz a entregar panfletos e debitar banalidades. Nestes encontros à porta das casas não só  as pessoas apontam os seus problemas práticos num instante e como o fazem a pessoas que se encontram todos os dias, é tudo vizinho, logo, mais responsabilizado.

O candidato disse que ia voltar a falar comigo sem ser em caravana,sobre o projecto para a junta, fiquei contente só de saber que há um projecto. Prefiro sempre algúem com um projecto a alguém sem projecto nenhum. O outro candidato tinha falado comigo , também é meu conhecido, mas tem mais dificuldades na parte do projecto. Agora fico à espera de receber  uma visita dele com a sua caravana de campanha. Se ele não vier ,  e depois me perguntar alguma coisa digo que não votei nele porque não me foi lá visitar para falar sobre as grandes opções de desenvolvimento  que ele envisiona para a freguesia, quais os eixos estruturantes para o seu mandato e em que me medida é que acha que a influência externa vai condicionar a actuação da junta nos próximos anos. Ainda não conheço o programa mas tenho a certeza que uma freguesia melhor faz parte dele.

Já passei por câmaras  de partidos diferentes e nunca tive razões de queixa nenhumas, de uns ou de outros. As grandes opções são uma discussão aparte, mas na relação autarquia-munícipe, sempre foram todos impecáveis comigo. Tem muito a ver com a acessibilidade,  aqui  conseguimos falar rapidamente com  a pessoa relevante , se o pedido ou requerimento for normal e justificado, a coisa faz-se sem se acumular aquela frustração que desencoraja e irrita as pessoas dos grandes centros urbanos às quais tudo demora horas e dias , só para chegarem ao edifício da Câmara é uma hora .

Outra coisa que facilita a minha relação com a administração e os serviços é que começo sempre perguntar o que é que é preciso para fazer X ou obter Y e nunca teço considerações sobre o que eu acho que devia ser preciso ou o que é que é preciso noutros sítios. Há muitas pessoas que acham não só que o funcionário está  interessado na sua opinião sobre a organização e funcionamento do Estado em geral e  do seu trabalho em particular como acreditam que transmitir essas mesmas opiniões e sugestões  ao funcionário vai fazer o seu caso avançar. Claro que a única coisa que isso gera é má disposição, isso sim já interfere no caso, mas não para o fazer avançar. Ou se pode fazer ou não se pode fazer, não há  intermédios e  perder  tempo, nosso e dos outros, a discutir universos paralelos onde as coisas são como deviam ser  e a lembrar as injustiças estruturais do nosso sistema  não ajuda muito.

A Câmara faz  e sempre fez coisas como  levar uma carrada de areia ou ceder o uso de uma ferramenta ou máquina pesada , serviços a todos os que o peçam, dentro do razoável. A junta tem menos meios e competências mas à   nova administração, seja a que for, vou pedir que me espalhem umas carradas de bagacina na entrada da canada, ou mesmo na canada toda se houver entusiasmo,  e que me emprestem o bobcat e respectivo operador para nivelar uma terra e cavar umas fundações. Como pedido público,  que empreguem  mais pessoal a mondar e limpar os trilhos e as ribeiras. Os trilhos têm que ser mantidos para que mesmo os turistas menos àgeis possam por lá andar contentes, e há aí umas ribeiras que em vindo uma carga de àgua dessas tipo Harvey iam forçosamente começar a sair do leito em vários pontos.É inevitável mas pode ser mais controlado, ou menos descontrolado. Só nas ribeiras que correm pelo meio da freguesia têm anos de trabalho se é para as limpar mesmo bem até ao mar e é daqueles trabalhos de que a maior parte das pessoas só se lembra quando há uma desgraça ao pé de uma ribeira. O meu grau de precupação com  isto é função da distância da minha casa à ribeira mais  próxima, e não é  muito alto  mas ainda que não pareça eu não me  preocupo só comigo próprio.

Também encontrei noutro dia o presidente da câmara,passou pelo bar do porto  numa acção de campanha. Quando ele entrou com a vereadora passámos a 5 pessoas no bar, e a empregada. A imprensa, inexplicavelmente, não apareceu. Conheço o presidente desde que  pôs o chip no meu cão, ainda não era presidente. Disse-lhe que votava nele, ele pareceu surpreendido e  perguntou-me se eu votava cá, disse-lhe que  já tinha votado cá nas últimas eleições, e contra ele,  mas desta vez voto nele. Fiz questão de clarificar que o meu voto era nele pessoalmente e não no seu partido. Vale o que vale , ou seja , o mesmo, um voto. Bebeu a que devia ser uma de muitas àgua das pedras do dia , eu aceitei uma mini , falámos um bocado do Clube Naval e ele lá seguiu para o próximo compromisso de campanha, foi misturar-se com a multidão de cerca de quatro pessoas que passava cá fora, saudou uma pessoa que estava na esplanada e dirigiu-se ao carro. Passou mais um carro ou dois e a tarde acalmou. Já houve comícios de campanha , e festas onde o eleitor é assegurado e encorajado nas suas convicções políticas por meio de discursos, jantares e bar aberto, argumentos que, de um determinado ponto de vista, são fortes.

Não há sondagens publicadas sobre as intenções de voto aqui na autarquia, por estranho que pareça. A minha previsão é dos cerca de 700 eleitores inscritos vão votar uns 400 , 230 para uns , 170 para os outros.

 

Cirurgia Ovinícola

Fiz um investimento em cinco ovelhas de raça apurada, daquelas de escandalizar os hippies, chamam-se INRA401 e foram “desenvolvidas” pelos franceses.Trazem sempre gémeos, muitas vezes trazem três crias e crescem mais depressa que as outras. Desde que as encomendei até chegarem foram quase 5 meses e como não podia deixar de ser chegaram na altura mais inconveniente de todas, no mesmo dia em que eu ia apanhar um avião para o Faial.

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Estava no porto às oito da manhã mas só as pude tirar  do contentor às 11, foi um dia muito difícil porque três delas fugiram quando estava a chegar a casa. Vieram  do Alentejo, é difícil encontrar região do país mais diferente disto, vinham de uma viagem de muitos dias num contentor, vinham enervadas e aterrorizadas e assim que se  apanharam com uma aberta largaram-se a fugir pelos campos fora , acabando duas delas no fundo de uma ribanceira de uns 15 metros, de onde eu nunca mais as conseguia tirar  sozinho, mesmo que não estivesse a duas horas de ter que estar no aeroporto.

Quem tem amigos tem tudo, pedi ajuda  e fui socorrido, estava a entrar no avião quando me mandaram uma mensagem a dizer que já estavam salvas e no seu sítio.

Quando regressei cinco dias depois uma delas tinha embrulhado uma das patas na corda que a prendia, tínha-lhe cortado a circulação e feito uma ferida e nunca mais recuperou.Desde então comecei a dar-lhe uma injecção de antibióticos por dia por indicação do veterinário, e a desinfectar a ferida mas sempre muito pessimista e ralado com a situação, a ver aquilo a piorar.

Diziam-me que o melhor  a fazer era metê-la na arca, por causa das despesas do veterinário e dos curativos  mas não, não era só por ter sido  muito cara mas também porque acho que se ela podia viver eu devia fazer o que pudesse. Em última análise a culpa era minha, o bicho não se embrulhou por querer embrulhar-se, foi porque a deixei com essa possibilidade e não a fui ver, ou melhor, não arranjei  as coisas de modo a que alguém a fosse ver todos os dias.

O veterinário foi  vê-la ao fim de uma semana e disse logo que a pata estava para lá de salvação, marcou-se a cirurgia para o dia seguinte, lá fui todo nervoso. Não tenho muito estômago para feridas e sangramentos e sofrimento, não é propriamente desmaiar a ver sangue mas fico sempre um bocado arrepiado. Como nunca tinha visto nada assim e estou farto de ver crueldades para com bichos ia preparado para que a amputação fosse sem anestesia, para aguentar a ovelha a olhar para outro lado enquanto o veterinário fazia o que tinha a fazer, mas se bem que fiquei um bocado incomodado a ver de perto a ferida já a criar bichos e a alastrar fiquei logo descansado ao ver primeiro a parafernália médica que o veterinário trouxe e depois porque não só lhe deu uma injecção de anestesia local como lhe deu outra quando viu que uma não bastava. Mais uma data de instrumentos  e produtos químicos, mais uma ocasião para me lembrar que a modernidade é assassina e insensível, as multinacionais farmacêuticas são horríveis, os modos ancestrais de criar gado é que eram bons e puros e que dantes tudo era melhor, incluindo abater  qualquer animal que se ferisse. O belo mundo antes dos antibióticos, desinfectantes  e anestesias.

Segurei a ovelha e fui olhando para o lado enquanto o veterinário limpava a ferida e preparava o corte mas depois tive mesmo que meter as mãos no sangue e segurar a pata enquanto ele serrava o osso e depois fechava a ferida com pontos. Foi mais fácil (para mim) do que eu pensava , mais uma vez me ajudou  ir preparado para o pior a pensar que ia ser muito difícil, fiquei bem contente, depois de feito o penso a ovelha levantou-se e foi ter com as outras e eu mais aliviado ainda fiquei com a conta, também aí ia preparado para levar uma marretada valente mas fiquei surpreendido , primeiro porque percebo  e dou valor ao que é preciso saber para chegar ali e fazer uma coisa daquelas, depois porque durou quase uma hora e mais ainda pela maneira calma, segura e atenciosa do veterinário, ia preparado para pagar o dobro ou mais , não sei se é aquela a tabela ou se tive desconto por ser…não me estico  a dizer “amigo da família” mas pelo menos sou conhecido, se teve alguma  influência ou não não sei, sei que voltei a casa satisfeito por ter corrido bem, por   a ovelha ter-se safo e deixar de sofrer mesmo ficando coxa e por não me ter custado os olhos da cara, digo isto porque sei que uma cirurgia daquelas num cãozinho em Lisboa custava pelo menos 3 vezes mais.

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Já está a comer melhor, a recuperar peso ( isto foi há 4 dias) e corre como as outras . Tenho agora 10 ovelhas, um carneiro e dois borregos que já estão vendidos, tudo de boa saúde e com as vacinas em dia. O número é ridículo para um ovinicultor alentejano, por exemplo, mas para aqui já é respeitável, já só me falta uma coisa: o cão, ou melhor, a cadela pastora que comecei a procurar e tratar, há-de vir para o ano de S.Jorge.

 

O Auge

Este ano em Outubro celebro 20 anos da partida para a minha primeira viagem marítima, 4 meses depois de ter velejado pela primeira vez.

Desde aí juntei 235000 milhas náuticas em todos os oceanos à excepção do Árctico e Antárctico, ao comando de 100 (número redondo, certo e documentado) barcos diferentes, alguns deles de valor na casa dos milhões .

Não tenho intenções nenhumas de voltar aos iates, não tenho saudades da vela oceânica e no Sábado passado na Horta, mesmo tendo ficado quase em último na regata, atingi o auge da minha carreira na vela, campo em que não ambiciono mais nada senão fazer isto o resto do tempo, enquanto puder.

Tenho centenas de fotos em todos esses barcos, mares, portos e ilhas mas esta é sem dúvida a minha fotografia preferida de sempre.

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