Natureza Pura o caraças

Tirei esta  foto  ontem, a uns 500 metros de minha casa, não é um caminho que faça muitas vezes mas calhou porque fui buscar a filha de uns amigos à escola, viemos a pé por aí acima e aproveitei , já queria uma foto dessa ponte há anos mas nunca passo a pé nessa estrada e não sou  de me deslocar por uma fotografia.

Publiquei-a no Instagram , onde tenho uma conta cheia de ovelhas e cães e algumas, poucas, fotos de cantos bonitos da ilha, geralmente com algum cão ou alguma ovelha a compôr o enquadramento, e volta e meia, no verão, os botes baleeiros. Os meus interesses estéticos.

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Uma amiga comentou “que lindo, a natureza pura!” e eu, que estou muito melhor do que já fui mas ainda assim tenho dificuldades em estar tão calado como seria recomendável e sociável, aproveitei logo a ocasião para explicar que  pouco nesta foto é natural e ainda menos puro.

É uma das minhas irritações de estimação, esta mania de aplicar o rótulo “Natureza Pura” à paisagem açoriana, e à força de repetições  exaustivas e de falta de originalidade,  criatividade e esforço, tornou-se o slogan dos Açores e as pessoas, como a minha amiga que comentou com o cliché por reflexo, ouvem ou vêm “Açores” e é como a campaínha  do cão do Pavlov, não começam a salivar mas dizem “natureza pura!”.

Por definição, o que é natural é o que não é feito nem modificado pelo homem, o que não tem artifíciocomposição ou mistura. 

Acho que isto não é complicado de entender nem controverso, mas às  vezes são as coisas mais simples que causam os maiores mal entendidos. Olhem lá para essa foto outra vez. Há os postes e fios da electricidade, a ponte, duas casas, o caminho e um campo cultivado num socalco. Nem vou entrar no tipo de vegetação, porque para muita gente moderna basta ser uma erva para ser natural, dou isso de barato. Essa foto não mostra nenhuma natureza pura, mostra uma paisagem modificada pelo Homem, e a maior parte da paisagem Açoriana,  que poucos apreciam mais do eu, é assim.

É preciso ser um bocadinho ignorante ou não ligar muito ao significado das palavras para não perceber , assim que se aterra ou aporta em qualquer  das ilhas, que o que vemos não é o trabalho da Natureza, o que vemos, depois de 500 e tal anos de ocupação humana, é uma paisagem moldada e criada pelos esforços do Homem.  Alguém pode descrever os prados da Terceira como naturais, quando levou séculos a desmatar, limpar a pedra, nivelar a terra, bordejar os talhões, semear e cuidar a relva? É isso um prado natural? No Corvo há uma paisagem natural, o Caldeirão, de resto não há em toda a ilha um metro quadrado que não tenha sido modificado pelo Homem. Aqui passa-se quase o mesmo, mas ainda assim , como é uma ilha muito montanhosa, mantém muitas partes que por inacessíveis e improdutivas nunca foram alvo de acção humana, é verdade, mas são poucas. E a maior parte das vezes basta desviarmos ligeiramente o olhar de determinado ponto de extraordinária beleza natural e vimos logo a acção do Homem.

Pode tirar-se esta esta foto (não é minha) deste sítio magnífico porque se fez um caminho  de pedra até lá e se cortaram árvores. A mata que se vê do lado esquerdo é de incensos, ou Pittosporum undulatum, planta originária da Austrália que não chegou aqui por meios naturais nem por obra e graça do espírito santo.

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Por todo o lado vejo pessoas deslumbradas a rotular de beleza natural as infindáveis sebes de hortênsias que nos bordejam as estradas ou as matas de criptomérias , como se as hortênsias tivessem crescido espontâneamente em filas ao longo das estradas ou a separar as terras ou a criptoméria fosse uma espécie endémica.

Se não fossem 500 anos de ocupação e labor humano, se não fosse a agricultura em todas as suas formas, se não fossem as importações, voluntárias ou involuntárias, de espécies vegetais e animais, se não fossem os esforços hercúleos de gerações a modificar constantemente a paisagem, todas as ilhas seriam muito diferentes, nem que fosse no tipo de vegetação.

Só há natureza pura em sítios onde o Homem não passou, ou passou muito ao de leve.  Já são muito poucos no Mundo, e o Arquipélago dos Açores não é um deles. Por isso visitem, sobretudo visitem o Grupo Central e Oriental , apreciem e deslumbrem-se com as belezas destas ilhas, que não faltam, mas não lhe chamem Natureza Pura.  Ou chamem, isto é só mais uma coisa que me irrita mas que no fundo não interessa nada.

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Insularidades

O meu mecânico telefonou-me, eu pensava que era para me dar novidades do carro mas era porque as minhas ovelhas que estão numa terra ao lado da oficina dele se tinham escapado. Fui logo para lá, o mecânico estava no meio da rua com o Lampião pela coleira  (sim, o carneiro usa coleira e tem nome)  e tinha achado muita graça a ver o bicho chegar-lhe à porta da oficina.

Já houve uma altura em que pensava que ia conseguir ter todas as terras definitivamente  vedadas e à prova de fugas mas já desisti, faço o meu melhor mas sei que mais tarde ou mais cedo ou encontram ou criam uma aberta na cerca, e o que é mais irritante é que podem ter comida com fartura mas isso não as impede de querer ir ver como é do outro lado. A erva é sempre mais verde do outro lado, já dizia o outro. Já toda a gente sabe quais são as minhas ovelhas,  tem o meu número e sabe que eu vou logo a correr assim que chamam, desde que as ovelhas não causem estragos tipo comer as batatas ou roer as arvores de fruto não é grave.

Depois de guardadas outra vez aproveitei para saber novas do carro, este mecânico acredita que afinal não vai ser  preciso um motor completo, já me encomendou peças e está optimista, mais optimista que eu.  No mais róseo dos cenários ainda tenho uma semana inteira de scooter, nem vale a pena listar todas as modos em que aquilo é inconveniente nem todas as vezes que fico dependente da boa vontade de amigos com carrinhas de caixa aberta para me ajudarem nas voltas da minha lavoura , que está cada vez mais empatada porque não me importo de pedir favores mas há limites.

Amanhã voo para o Faial, onde vou fazer um procedimento médico que leva 1 minuto, tirar sangue para enviar para análises. É uma coisa que está em falta desde Janeiro e tem sido uma verdadeira rábula sobre a qual não me vou alongar para o SRS & seus profissionais não ficarem mal no retrato. Como em tudo, as minhas expectativas são sempre baixas pelo que demorar 5 meses a requisitar, fazer e obter análises ao sangue não está mal, tenho a certeza de que é muito melhor do que no Ruanda ou na Venezuela, agradeço sinceramente e agora só espero que não demore outros 5 meses a marcar a consulta que está dependente dessas análises. Tendo que esperar meses, que sejam os de Verão, onde corro menos risco de sufocar com uma infecção pulmonar.

Felizmente conseguiram-me voo num dia regressando no outro pelo que nem é preciso alistar ou contratar ajuda para me tomarem conta da bicharada, os cães comem umas horas mais tarde na segunda feira e é só isso…se não for cancelado o voo, possiblidade sempre presente.

Os botes baleeiros já estão na rampa mas ainda não navegámos, principalmente porque o tempo tem estado uma miséria e ainda não há sinais de estabilizar em modo primaveril. Há dois botes mas como de costume é difícil encontrar tripulações para eles, toda a gente quer dar uma voltinha e toda a gente quer ir à Semana do Mar no Faial mas compromisso com um programa de treinos regular é muito mais difícil. Agora faço parte da direcção do clube naval e espero contribuir para dar um novo impulso àquilo, como já disse aqui espero não me vir a arrepender muito, para já ganhei responsabilidades e tarefas mas faço com gosto, durante muitos anos critiquei o clube naval , agora cabe-me mostrar que posso fazer melhor, ou ajudar a fazer melhor.

As regatas do  Campeonato Regional este ano vão ser  na Graciosa, como nós aqui não temos um campeonato de ilha que decida o representante  vamos alternando , o ano passado fui eu com o S.Pedro, este ano vai o Formosa mas eu vou também vou, havia falta de tripulação e eu ofereci-me , não só mas também porque nunca fui à Graciosa. Aposto  que  vamos ter uma prestação semelhante à minha do ano passado, que foi miserável, mas desta vez vou só fazer peso na borda,  a apreciar o cenário e a prestar atenção aos outros para aprender mais alguma coisinha.

Para a Semana do Mar já tenho expectativas mais altas para o S.Pedro, muito porque regressou à tripulação um moço com o qual me dou muito bem e que sabe ser proa, é claro que o oficial ao leme conta muito mas sem alguém capaz na proa nem o bote fica bem armado nem consegue virar nem cambar em condições, e sem isso, nada feito. Estou ansioso por ter a tripulação completa e começar  a treinar , se o objectivo o ano passado era terminar a prova (que não consegui), este ano é ficar no meio da tabela.

Já recebi os primeiros turistas, se forem todos como estes não vai haver problema de espécie nenhuma. Ontem levei o Lenine  (outro carneiro)  comigo para o jardim e lá o deixei numa estaca, o jardim é bastante grande , tem montes de erva que me leva horas e horas  a manter rente e acaba a apodrecer num monte de composto, assim alimento o bicho , aproveito a erva e ainda por cima é pitoresco para os camones, terem um carneiro a pastar no jardim.

Ontem acabei um livrinho chamado “Diário de um Náufrago nas Flores e no Faial” e entre outras coisas interessantes  aprendi que nessa época (1830) as carroças aqui na ilha eram puxadas por ovelhas. Continuo a rir-me da imagem e já tive amigos a sugerirem-me que já que estou sem carro,  explore essa possibilidade, e pensar nisso ainda me faz rir mais.

Hoje temos temporal,  creio ser alerta laranja, mas já deixei de acompanhar os alertas coloridos. O problema maior agora é que continuo sem carro e sem data à vista para o voltar a ter, desloco-me numa scooter alugada, que se torna muito inconveniente quando chove ou quando tenho que transportar alguma coisa. Tenho coisas suspensas por isso, tenho terras que preciso de mondar e não tenho como lá levar a roçadora, ovelhas para mudar de sítio e não podem vir em cima da scooter, ração a acabar e tenho que pedir a amigos para ma irem buscar à Associação, isto já para não falar do frio que se rapa . Há 30 anos uma scooter daquelas tinha feito a minha felicidade terrena, hoje é uma incoveniência e uma chatice ter que andar numa, é assim.

Quem também sofre são os cães, principalmenter a Bruma que andava comigo no carro para todo o lado e agora tem que ficar amarrada quando saio, claro que não fica contente nem é bom para ela. O Rofe já estava mais ou menos habituado e tem um “posto” mais confortável que lhe permite entrar em casa e deitar-se num sofá mesmo com o seu cabo de amarração ao pescoço.

Depois de um mês encontrei um mecânico com tempo e um lugar na agenda para me começar a mexer no carro, pelo menos é um avaanço mesmo que entre diagnósticos, encomenda de peças e montagem ainda vão ser semanas. Se puserem um anúncio a dizer “precisa-se de licenciado em ciências da comunicação para a ilha das Flores” se calhar recebem 20 propostas; se procurarem um mecânico qualificado, que faz realmente falta , tinha trabalho com fartura e era bem pago, não aparecxe ninguém.

Tive uma “mini discussão” no twitter com um activista das bicicletas que defendia que a gasolina não é um bem essencial. É pessoal que não faz a mínima ideia do que é a vida e o trabalho no meio rural e pensa que toda a gente pode andar de bicicleta ou transportes públicos. Ficou intrigado quando lhe disse que só o facto de ele falar no estacionamento como um problema mostrava bem que só sabe , e só quer saber, do que se passa nas cidades. São pessoas assim que acabam a legislar e regular, eu gostava de ver aqui o ciclista a subir ladeiras com um saco de ração às costas ou fazer 15 kms à chuva para ir ver animais. Acham que usar automóvel é uma escolha, e até é, é a escolha entre a conveniência e o trabalho prático ou viver como há 150 anos, a pé ou de burro com cargas às costas debaixo de chuva e sol. Dantes é que era puro.

Outra quebra mecânica, a máquina de lavar roupa finalmente cedeu depois de  3 anos de luta contra a humidade reinante que me fazia , no inverno, ter  que estar 5 minutos com um secador de cabelo a secar a placa electrónica antes de a pôr a lavar. Aqui há 15 dias deu três saltos, um estoiro e parou, fui saber de uma possível reparação e decidi deixar de ter máquina de lavar. Felizmente o ano passado abriu no porto uma lavandaria automática que lava 10ks de roupa por 4 €, detergentes incluídos, aberta dia e noite. Fiz as contas e compensa-me mais passar a usar a lavandaria do que reparar ou comprar uma máquina, menos um electrodoméstico a ocupar espaço e consumir electricidade em casa, vou transformar a casota que tinha contruído para a máquina em “paiol” de ferramentas e outras tralhas e passo a ir lavar roupa ao porto de 15 em 15 dias. Sim, 10kgs de roupa de 15 em 15 dias, não me julguem. Ou julguem, dá no mesmo.

Tenho um trabalho novo , graças ao governo  capitalismo global e às regras da UE que permitiram  a uma alemã comprar aqui uma propriedade , recuperá-la e explorá-la em AL. Claro que o governo também faz a sua parte,  afogando a actividade em burocracia tão sensata como a obrigatoriedade de ter uma televisão e um microondas e subindo as taxas tentando chegar àquele ponto em que fazer esse investimento e ter esse trabalho é só marginalmente lucrativo, há que sustentar a casta e sabemos que o lucro é imoral.

Já me ocupava dos jardins dessa propriedade, agora trato também de todo o resto, menos das limpezas. Para quem tem uma espécie de trauma de infância com os turistas é um desenvolvimento interessante, não me vai resolver os meus problemas mas é uma ajuda e não me custa muito, é mesmo ao pé de minha casa e ocupa-me muito menos tempo que o jardim. Já tive muitos  “avisos” e ofertas de ajuda dos meus amigos que já trabalham nisso, incluindo o que desistiu e que eu vou substituir, porque a proprietária é “esquisita” e “difícil”. Agradeci e tal mas lembrei que já trabalho para ela há um ano e nunca tive o mínimo problema, por duas razões.

Primeira, pedi-lhe antes de começar que me explicasse claramente o que é que queria de mim e como queria que eu mantivesse a propriedade. Com isso na mão, basta fazer como ela  quer e não há ocasião para atritos,  já que  ela paga a horas e sem falta. Negociações laborais simples, o truque é evitar ambiguidades e intermediários e aceitar essa proposição tão controversa para muita gente : quem paga, manda .

Segundo, ela é professora universitária e consultora de empresas gigantes e isso ou intimidou  ou causou  uns certos complexos de inferioridade nas relações com os antigos empregados, algumas falhas de comunicação  e o inevitável choque cultural e frustrações de quem vem para aqui fazer negócios vindo de um ambiente muito diferente. Eu navego bem nessas àguas, faço-me sempre entender e entendo bem e depois tenho outra perícia importante neste trabalho, como já me ajudou o ano passado quando fui empregado de mesa : sou capaz de ser simpático, ouvir e mostrar interesse mesmo quando não me interessa nada ouvir .

Um amigo recomendou-me que passe pelo menos meia hora a falar com os hóspedes sobre a ilha, eu disse-lhe que se calhar o método dele mostra que ele gosta muito de se ouvir e parte do princípio que os turistas estão interessados em levar uma seca do porteiro, que é o que somos no fundo.  Alguns estão , outros não, e acho  melhor perguntar se têm alguma questão e se podemos ajudar nalguma coisa do que passar meia hora a oferecer respostas e indicações não solicitadas e aceites por cortesia, porque nem toda a gente é como eu , capaz de interromper uma pessoa e dizer “ok ,ok , eu se precisar de mais alguma coisa logo digo” .

Amanhã recebo os primeiros, os apartamentos estão quase todos cheios até Outubro e estou plenamente convencido de que vai ser um Verão ainda mais complicado que o passado porque o Governo continua a gastar cenenas de milhar em propaganda e subsídios para atrair cá turistas mas a SATA não é elástica , não se compraram mais aviões nem contratou mais gente (se calhar porque o prejuízo da companhia o ano passado ficou nos 53 milhões ) Tal como o ano passado, não há capacaidade para mover toda esta gente e aposto o que queiserem que centenas de residentes vão ter as suas deslocações muito limitadas para haver lugar para os turistas. Isto contribui para irritação dos locais com os turistas e para mais prejuízos para a SATA o contribuinte , porque há que compensar todos, turistas e locais, pelos inevitáveis atrasos e cancelamentos.

Tenho opiniões muito fortes sobre a estratégia para o turismo que está a ser seguida pelos Açores, cujos problemas começam no facto de os decisores lidarem com dinheiro que não é deles e nunca serem responsabilizados por resultados. Esta foto foi tirada na semana passada em S.Miguel, ilha que eu já considero perdida para aquele ideal que continuam a tentar vender. Décadas a mentir dizendo que não queriam turismo de massas nos Açores e depois promovem coisas destas e festejam a ver isto.

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PS:  Perante esta última rábula vergonhosa do PSD, PCP, BE, PS e CDS a propósito do tempo de serviço do professores:   pessoas que seguem a política, gostam de se manter informadas, gostam de pensar nas coisas e não são radicais só têm duas opções de voto nas próximas eleições :  Iniciativa Liberal ou Livre , consoante o lado para o qual se inclinem mais. Continuar a votar nos partidos tradicionais do regime é um absurdo, é acreditar nas mentiras e manobras todas e pactuar com elas, é contribuir para a continuidade de tudo aquilo de que nos queixamos.

Animais Rurais e Urbanos, Antigos e Modernos

O meu cão há meses apareceu com um furúnculo , ou o que me parecia a mim ser um furúnculo, no rabo. Não me pareceu sério nem grave, não o incomodava, deixei andar. Entretanto apareceu outro, e outro, fiquei preocupado. Aproveitando o facto de a cadela estar quase a fazer um ano e ainda não ter chip nem vacinas, marquei uma consulta no veterinário e lá fomos.

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A Bruma foi “chipada” e vacinada e foi marcada uma cirurgia para tirar os furúnculos do Rofe. Entretanto a meio da semana o veterinário, uma pessoa impecável que também já me tratou muita vez das ovelhas incluindo uma cirurgia numa que numa exploração normal tinha sido abatida mas que ainda aí está, com três patas mas fora isso impecável, mandou-me uma mensagem a sugerir castrar o Rofe.

Eu andava preocupado com o cio da cadela, aqui na ilha não é possível esterilizar uma e a última coisa que queria era que ela engravidasse de outro cão sem ser Border Collie. Não faltará  muito para alguns activistas do igualitarismo começarem a teorizar sobre as raças caninas dizendo que não existem e que são uma construção social, até lá, e mesmo depois, não quero cá misturas. A mestiçagem humana é uma coisa positiva, nos cães não é  e nem vou discutir isso porque quem põe isso em causa não sabe nada de cães.

Como o Rofe já entrava em parafuso e não tinha mão nele quando a cadela do meu vizinho ficava com o cio, a 300 metros daqui, já estava a ver que a minha vida quando a Bruma ficasse com o cio ia ser um inferno e até já andava a procurar na net de “cintos de castidade” para cadelas, pelo que concordei logo com o veterinário, que me fez a sugestão porque eu tinha falado do problema com ele. Ia levar anestesia geral de qualquer maneira, era um dois em um  e castrava-se o cão, coisa que eu nunca quis fazer antes preocupado com o ganho de peso e alterações de “personalidade” que chegam com a castração.

A cirurgia demorou mais de uma hora , correu bem, tenho menos uma preocupação e tudo me ficou por cerca de 50% do que me teria custado em Lisboa e 25% do que me teria custado em Bruxelas, razões para eu ainda apreciar  mais o meu veterinário e estar a reservar um borrego para lhe oferecer pela Páscoa, não só por ser boa pessoa e bom profissional mas por não ser ganancioso nem se aproveitar de situações em que não temos escolha.

A minha irmã tem um cão e vive em Lisboa, e é por isso que estou mais ou menos a par dos preços  que se praticam por lá, tal como vou vendo por amigos os hábitos de consumo e do modo de tratar os cães. Nesta época moderna da humanização dos cães (uma das tendências é dar aos cães nomes de gente) cada vez mais estes são mesmo tratados como se fossem gente e substituem em muitos casos a companhia e as relações humanas. Contra mim falo, não concebo levar a vida que levo sem cães.

Claro que se criou aqui um mercado , e onde há um mercado chegam os aproveitadores e o pessoal do marketing cuja vida é criar necessidades e convencer as pessoas de que precisam de algo que não precisam. O mercado da comida de cães a nível mundial está quase nos 90 mil milhões de dólares, não pára de crescer há uns dez anos , e o mercado das guloseimas para cães é perto de um quarto disso. Este das guloseimas é mais interessante, porque todos os cães precisam de nutrição mas nenhum cão precisa de guloseimas a menos que seja em situações de recompensa para treino, e aí qualquer coisa serve. Os meus cães respondem tanto a um pedaço de pão duro como a um super snack, simplesmente porque foram habituados a isso, como todo e qualquer cão pode ser habituado.Claro que se lhes derem coisas caríssimas e compostas desde pequeninos, vão preferir sempre isso a uma côdea ou uma casca de queijo.

Para o treino da Bruma uso uns pauzinhos “sabor borrego” marca branca que custam 75c por pacote com uns 30, e esses são partidos em pedaços pequenos. Já vi muita gente a usar para o mesmo fim biscoitos que custam 8€ por pacote de 20. É deitar dinheiro à rua, garanto-vos que o cão não nota a diferença. Aqui há dias , na estante de uma das lojas em que costuma haver promoções de produtos quase  a expirar de prazo ou mesmo expirados (e ainda bons para consumo humano ou animal) vi um pacote de “snacks dentais” em promoção. Também não falta muito para começarem a levar os cães ao dentista. Estavam a metade do preço , eram 1,5e por pacote e decidi levar uma coisa especial para os cães. Aquilo é vendido como bom para os dentes de todos os cães, o Rofe engoliu o dele em duas vezes, a Bruma levou talvez quatro, sem dúvida que o sabor é criado para eles adorarem mas quanto a fazer bem aos dentes estamos conversados. Sabem que é que lançou o alerta de que os ossos fazem mal aos cães e não se devem dar? Não é preciso muito para saber que foram as companhias que vendem produtos para os cães roerem, porque os cães todos precisam de roer, e é roer que lhes faz bem aos dentes.

Outra coisa que me deixa surpreendido é como a publicidade conseguiu fazer as pessoas acreditar que há comidas de cão que valem 200% mais do que outras e que uma comida para  um cão pequeno deve ser diferente da comida para um cão grande. Se alguém vos  argumentar em favor disso é porque vende essa comida . O Rofe tem 7 anos e pesa 42 kgs, a Bruma tem 1 e pesa uns 8, comem a mesma coisa e eu desafio quem quiser a compará-los , quer esteticamente (se lhes der um banho e uma escovadela)  quer em termos de saúde e actividade, a cães da mesma raça e idade que comam comidas que custam o dobro ou triplo. Até inventaram uma ração especial para cães castrados, que custa uma fortuna e que as pessoas compram pela mesma razão que compram sacas de 20kgs de ração a 60e em vez de 13 como eu: as pessoas adoram os seus cães , querem o melhor para eles e quando têm rendimento disponível gastam o que for para que os seus cães tenham o melhor. Os fabricantes sabem isso e não perdoam.

Aqui há dias a Bruma começou a tossir e a puxar vómitos em seco. Durou um  dia , fiquei preocupado. Continuou no dia seguinte, mais preocupado fiquei, mas via que não estava “em baixo”, comia bem , corria bem, tinha a sua actividade normal. Pensei que se tivesse engasgado com alguma coisa ou comido alguma coisa podre ou algum bicho. Não fiz mais nada, ao terceiro dia fartou-se de comer erva e lá conseguiu vomitar o que a irritava, está fina.  Digam-me se acham plausível um dono de um cão urbano e moderno reagir assim e deixar acontecer este curso de coisas. Têm bem com que  se assustar se pesquisarem esses sintomas na net, e além do pânico  que  ia levar logo a uma visita às urgências, talvez fazer um TAC ,, há outro problema: os cães das cidades, mesmo que o  instinto que resta lhes diga que há que comer erva para se purgarem, não têm erva à vista ou  se têm é de tal maneira nojenta  que ainda é capaz de lhes agravar o problema, a erva dos canteiros nos passeios não é bem a mesma coisa que a erva dos campos.

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Aqui estão eles a semana passada, a perpetuar os estereótipos de género com a menina a usar cor de rosa .

No departamento de animais de exploração , tive hoje um pequeno desgosto com uma ovelha. Começam a nascer os borregos do ano, geralmente as noites de mau tempo são propícias a partos, esta manhã uma das minhas ovelhas “de raça pura” que eu esperava que parisse a qualquer momento estava deitada e com um pedaço de um cordeiro de fora. Liguei ao veterinário mas ele estava de serviço no matadouro e o colega não estava na ilha . Lá tive que ir ser parteiro pela primeira vez, não foi nada bom porque eram tri gémeos e já estavam mortos.  A “importação” destas ovelhas de raça apurada foi dos piores erros que cometi desde que aqui estou mas é assim , vai-se aprendendo e vivendo. Já chegaram 5 cordeiros e estão outros tantos para nascer a qualquer momento, se vingarem esses dez já não é mau de todo. Já se notam uns sinais ténues de primavera, e como sempre, já é mais do que desejada.

Foi a primeira e mais provável das 3 possibilidades, o mastro partiu e abandonámos a prova. Fomos os primeiros a fazê-lo de mais 10 que também entraram a reboque, as condições foram um bocado duras para toda a gente.

Os botes já estão encostados à muralha no porto das Lajes, tanto quanto sei as companhas foram, regressaram e  trabalharam em conjunto sem  ninguém se chatear, o pessoal divertiu-se na Semana do Mar , toda a gente aprendeu e pela  parte que me toca cá estou pronto a continuar.

Mesmo que os momentos bons sejam curtos e o trabalho e chatice sejam bastantes, fazer parte disto não tem preço.

O Campeonato

Saímos daqui na quinta feira à tarde com bilhetes de avião para estar na Terceira à noite. Não se conseguiram arranjar lugares no voo directo e assim só chegaríamos tarde na véspera da primeira regata sem sequer ter tempo de ver o bote.

Vai já o primeiro de alguns apartes : esta explosão do turismo já está a prejudicar os locais na medida em que o governo gasta milhões em publicidade à região, introduziram umas das medidas mais estúpidas  que já vi que é subsidiar os voos inter ilhas dos turistas com dinheiro público, claro que isto atrai batalhões de turistas mas a SATA tem o mesmo número de aviões pequenos de há cinco ou seis anos. Não é preciso ser engenheiro para perceber que se aumentou enormemente o número de visitantes sem acautelar transporte para todos, visitantes e locais. No alojamento e restauração, que dependem dos privados, a coisa ajusta-se. Nos transportes aéreos , que dependem do Estado, os problemas acumulam-se de dia para dia, não há resposta, há caos e segue-se um exemplo pessoal e claríssimo.

Tínhamos prevista escala em S.Miguel, lá chegámos sem novidade, só com uma ligeira hora de atraso. O voo para a Terceira estava marcado para as 21, até às 23.40 foram-se sucedendo os adiamentos até que pouco antes da meia noite foi anunciado voo cancelado por razões técnicas. estas razões técnicas, soube-se depois, prendiam-se com uma greve do pessoal da manutenção. 80 pessoas em terra com a vida encravada. Fila enorme para as reclamações até que somos informados de que “não há hotéis” . Estupefacção geral. A SATA torra por ano centenas de milhar em hotéis e indemnizações provocadas pela própria incompetência e desorganização (excepto a parte dos cancelamentos por razões meteorológicas) , e isso nota-se nas contas. Quando  não é desorganização, incompetência ou o mau tempo a cancelar voos, podemos sempre contar com os sindicatos a ajudar a manter os aviões em terra e  destruir a reputação e rendimentos da companhia.

Tenho amigos em S.Miguel, se lhes ligasse, memso àquela  hora,  vinham-me buscar de boa vontade, e trazer no dia seguinte às 6, mas nunca deixei tripulações atrás e não ia começar agora, assim ficámos todos por lá nos bancos e nos cantos, sem comida porque tudo no aeroporto já estava fechado. Turistas, idosos, crianças, uma vergonha.

No dia seguinte pelas 10 da manhã chegámos à Terceira e tínhamos uma carrinha da Junta de S.Mateus à nossa espera, lá nos instalámos no edifício da junta e apesar de estar toda a gente estoirada fomos ao porto para ver o bote. Estavam 12 na rampa, o 13º seria o S.Pedro, mas nem vê-lo. Telefonei,  informaram-me que estava no contentor onde veio, num canto do porto. Encontrar um reboque (uma treila) emprestado, tirá-lo de lá de dentro e levá-lo para o porto, tudo coisas que demoram e exigem esforço. Quando finalmente estava na rampa com os outros era hora de almoço, lá fomos para a Casa do Povo já sem esperança nenhuma de poder verificar e ensaiar o material, nem de dormir uma sesta e tomar um duche. A primeira regata foi às duas da tarde e informaram-me aí que estavam previstas duas para essa sexta feira. Vamos a isso.

É das partes mais bonitas, para quem não está podre de sono e estafado, 13 botes a arriar, as tripulações a levantar e aparelhar os mastros e a Walkiria e a Rosa Maria, as lanchas baleeiras nesta prova, a recolhê-los todos num reboque de seis cada uma, cada uma na sua amarra de 15 metros. Levam-nos até cerca de uma milha e meia da primeira bóia , alinham-nos a cerca de 90º do vento, soa a buzina e todos os botes largam a sua amarra, içam o pano e arrancam.  Rodar 3 bóias e cruzar uma linha de chegada mesmo frente ao porto, quando rodei a primeira ainda ia mais ou menos dentro do tempo mas quando rodei a segunda já a maior parte dos botes tinha rodado a terceira, acabámos por chegar em penúltimo, o que para mim nem foi muito mau porque a distância dos outros não foi assim tão grande.

A diferença de nível entre botes que fazem regatas todo o verão e são tripulados por quem anda naquilo há anos e o nosso, em que a primeira regata que o oficial (neste caso, eu) fez na vida foi o ano passado e que nunca participou noutra desde então e treina sem outro bote que seja para se medir, é abissal. Ficámos à espera da chamada para a segunda regata e já havia cabeças a pender de sono, lá se repetiu o ritual, e dessa vez ficámos mesmo em último, não apareceu assim na tabela porque um dos botes virou e abandonou. Varámos o bote estafados, foi jantar e tentar dormir, mas isso fui eu, porque a rapaziada foi para Angra do Heroísmo. Destaque especial para o sr. Medonça, 70 anos, que passou uma noite num banco de aeroporto, correu duas regatas de vela e no fim ainda foi para a festarola para Angra, incrível.

O meu amigo que faz a proa do bote ressona valentemente, não adormeci, e pela uma ou duas chegaram os moços meio bêbados e contentes, foi mais uma noite mal passada. A regata desse dia correu ainda pior, não consegui acabar o percurso no tempo determinado, podia dar umas quantas razões tipo as condições dificílimas de ventos muito variáveis, mas foram muito variáveis para todos e só eu e outro é que não acabámos. Há um tempo determinado para acabar o percurso, esgotado isso levam-nos  a reboque para dentro. Pediram-nos que não varássemos os botes na rampa porque ao fim do dia ia haver uma tourada no porto, deixei o S.Pedro amarrado ao de um amigo do Pico, ficou o último de quatro botes amarrados a  uma traineira. Fui perguntar à organização se podia ficar lá à noite, disseram-me que sim, que fizesse como entendesse, fomos para os copos.

Nesse dia havia mais 3 touradas na Terceira e mesmo assim em S.Mateus estava mais gente a ver do que vive nas Flores. Fui espreitar, só para ver o animal, e era um touro a sério. Não vi mais nada, olho para aquilo e só penso na desorientação e fúria e confusão do animal. Fiquei com outros da mesma opinião numa esplanada cá para trás, e às tantas, quando um dos vários bêbados locais se veio assegurar de que estava tudo bem connosco e garantir as boas vindas à freguesia, perguntei-lhe:

-Ó senhor, se chegasse aqui alguém do governo e dissesse que as touradas eram para acabar , o que é as pessoas faziam?

Ele pensou um bocado nessa proposição tão descabelada, largou-se a rir como se eu tivesse contado  a melhor anedota do ano e foi-se embora a rir. Eu acho que eles diziam que sim, que estava bem,  no dia seguinte faziam uma tourada e tenho pena de quem quisesse impedi-los.

Lá acabou a tourada, pela meia noite já estava tudo a carburar bem quando me vêm avisar de que tenho que tirar dali o bote, a traineira vai sair. Foi complicado, dada a hora, o grau alcoólico, a tripulação reduzida, o facto de estes botes não serem feitos nem estarem equipados para amarrar a um cais, mas ao fim de nem sei quanto tempo lá acabei por o deixar em segurança aqui:

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Seguiu-se mais uma noite mal dormida pelas mesmas causas, eu gostava de saber se também ressono mas não faço ideia, nunca está lá ninguém para ouvir por isso parto do princípio de que não ressono, mas na nossa tripulação não faltava quem ressonasse. Da próxima vou prevenido com tampões para os ouvidos. No dia seguinte o humor e disposição da tripulação, incluindo o meu, estavam de rastos. Ao cansaço e esforço da coisa toda juntava-se o desagrado por perder, ninguém gosta de ser último e a responsabilidade é sempre do mesmo.

Lá fomos para a última das regatas, eu como não acredito em milagres e já tinha visto que todos os botes conseguiam orçar pelo menos mais 10º do que nós,  sabia que ia correr mal e consumia-me de culpa por antecipação. Estava um dia limpo e vento estável , nem largámos mal mas quando rodámos a primeira bóia já iam 11 botes a rodar a segunda , é preciso ânimo e saber que se pode abandonar a prova a qualquer altura mas abandonar , apesar de ser o que se tem vontade, não pode ser de maneira nenhuma, tem que se levar até ao fim. O Senhora do Socorro, bote ultra campeão da freguesia no Salão , no Faial, cortou a meta em primeiro ainda nem tínhamos rodado a última bóia. Só perderam uma regata, para o Maria Pequena cujo oficial é um amigo meu francês que mora no Pico há muitos anos. Quem estiver interessado no contraste entre um marinheiro científico e um marinheiro instintivo é ver esses dois. O do Faial é uma máquina e o bote sempre numa afinação extraordinária. O do Pico é só coração , instinto e desenrascanço, mas pede-lhe meças facilmente, já lhe ganhou e há-de tornar a ganhar. São ambos cavalheiros, com as respectivas diferenças. A dada altura aproximei-me do antepenúltimo bote, Senhora da Guia, tripulação feminina do Faial. Pensei logo que tinham tido algum problema porque não era natural estarem ali tão para trás, mas lá o resolveram e em dois bordos deixaram-nos atrás.

Fomos mais uma vez os últimos a cruzar a linha de chegada, a lancha  já andava a recolher as bóias , passou por nós sem um aceno nem uma oferta de reboque, os moços ressentiram-se, eu também , um bocadinho. Varámos o bote já os outros estavam quase todos arrumados, chegou o Zé Lizandro , o trancador que faz 90 anos este ano e anda sempre connosco.

-Ome então?

-Olhe, é o que está, encolhi os ombros.

– Ficaram atrás das moças?

Abanei a cabeça que sim, e  passou um desconsolo pelos olhos do homem

-Ome é assim , ninguém se pisou e o bote tá bom, já é bem bom.

Sem pausa fomos carregar o bote num atrelado e enfiá-lo no contentor onde veio, ambiente funerário. Nunca mais, disseram quatro dos moços, e eu , no fim do contentor estar fechado também disse que acabou. Não me estou a divertir com isto, consumo-me e sofro e é uma frustração, já para não falar do trabalho e tempo gasto nas Lajes e no que que obriga a coordenar , para estar aqui, para vir fazer esta figura. Juntando a isso passar 4 dias 24 sobre 24 com 4 tipos  que são boas pessoas e tal mas que são, para simplificar, muito diferentes de mim em tudo, é demais.  Fui passear antes de jantar e tirei essa foto, das minhas preferidas de sempre, como sou um moço do meu tempo publiquei-a no facebook . Das quarenta a tal pessoas que “gostaram” só uma mão cheia sabe que isso é  a linha de chegada da regata. Olhei bem para ela e para tudo o que significa e percebi logo que não seria capaz de largar isto agora. São regatas mas isto é muito maior que as regatas.

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No jantar e na entrega dos prémios, 200 pessoas , todas as envolvidas no campeonato. Agradecimentos, discursos, um apupo geral à SATA pelo que nos aconteceu. As tripulações com pódio vão todas ao palco mas até ao terceiro lugar só vai o oficial. Subiu o oficial do ultimo bote, depois chamaram-me a mim e lá fui, com um sorriso conformado mas lembrei-me de endireitar as costas (não tenho ido ao yoga…) e de que há mais pessoas que foram ao espaço do que pessoas que fizeram uma regata ao leme de um bote baleeiro.  No palco o director da prova disse-me que ia fazer um agradecimento especial ao S.Pedro por ter trazido os 30kgs de lapas que toda a gente tinha acabado de comer.

-Se é para os chamar ao palco chame agora, disse eu, e lá vieram os moços , sob um aplauso enorme de 200 pessoas que sabem de onde nós viémos, o que nos custou lá chegar, as condições que temos e o esforço que é estarmos ali a competir. Foi bonito e aqueceu o coração. Daí para a frente foi vinho tinto com fartura e nessa noite peguei no colchão e fui dormir para o fundo do corredor, o mais longe possível dos roncos e assim descansei alguma coisinha.

O dia seguinte foi passado em viagem, a SATA chegou a horas , às 4 e meia, cheguei a casa exausto, com a vontade correspondente de ir trabalhar para o restaurante e vejo que me faltam 7 ovelhas. Passei hora e meia à procura, a rogar mil pragas e a dizer a mim próprio que isto não pode continuar, tenho demasiadas coisas na minha vida e sou só um, alguma tem forçosamente que ficar para trás e  se queremos fazer muitas coisas acabamos por não fazer fazer  nenhuma bem. Não ir trabalhar estava fora de questão, felizmente os patrões disseram-me para não me procupar com o serviço e ir procurá-las , um amigo ajudou-me a encontrá-las em menos de uma hora e quando finalmente cheguei a casa depois do restaurante fechar , mais  morto que vivo eram quase onze da noite, as ovelhas estavam todas onde deviam estar e o cão no seu estado de felicidade natural . Esqueci-me de jantar e na manhã seguinte às 9 já estava no meu novo trabalho, agora também sou jardineiro e se este verão não acaba depressa fico maluco.

Mesmo que metade dos moços se mantenha firme na decisão de abandonar o bote há 3 que não vão a lado nenhum, comigo quatro, hei-de arranjar os 3 que faltam e quando o S.Pedro chegar à grande rampa do porto da Horta a 11 de Agosto vai ter companha completa, vai arriar com os outros 20 ou 30 que lá vão estar e vai fazer a regata no Canal sem medo nenhum. Haja saúde.

Visitas

O Santa Maria Manuela esteve cá de visita e vai-se hoje embora, não vou falar muito sobre o navio , está tudo aí bem explicado no site oficial, menos uma coisa que não é imediatamente  aparente: esta magnífica peça da nossa história náutica está viva , linda , trabalha e leva longe e alto o nome e a tradição naval do país porque foi comprada e, com isso salva, por uma empresa privada, do Grupo Jerónimo Martins. Ali não entram comissões organizadoras, sindicatos, representantes das secretarias gerais nem se arranjam lugares para correligionários na base da confiança política ou favor prévio. É um belíssimo exemplo para mostrarem a todas as pessoas que acham e pregam que a defesa do património tem que ser  sempre competência do Estado.

Bom, os marinheiros do SMM repararam logo nos botes baleeiros na rampa e no Sábado e Domingo saíram com o Formosa, nós no S.Pedro. Foi a primeira vez em 3 anos que os dois botes arriaram aqui ao mesmo tempo, e isto  porque já é difícil encontrar tripulação para um quanto mais para dois. Foi lindo, há uma grande diferença entre andar a treinar só num bote ou andarmos a par e a medir-nos com outro , passámos duas belíssmas tardes no mar e diria que proporcionámos um bom espectáculo aos Florentinos, só que a esmagadora maioria dos Florentinos não se podia importar menos com os botes baleeiros. “Era enchê-los de gasóleo e largar-lhes o fogo”, foi um dos comentários que já ouvi, eu percebo indiferença e sei bem que o que a mim me encanta pode ser irrelevante para o próximo, mas animosidade clara já me custa mais a perceber.

Sintomático disto é a idade média da nossa tripulação, que anda pelos 55 pela minha estimativa. Fiz publicidade e fiz fazer, passou-se  a palavra, tentou-se entusiasmar alguma juventude para aparecer e tomar interesse, não é apenas a vela como desporto, é o património cultural , a herança dos Açorianos, uma coisa que não existe em mais lado nenhum do mundo. Ninguém se interessa, e os poucos que se interessaram desistiram quando perceberam que envolvia um bocado mais além de andar a passear de bote e ter viagens pagas para as regatas no Verão. Já desisti de tentar perceber ou mudar alguma coisa, o meu interesse é cada vez mais estreito : o S.Pedro está pronto a navegar e tenho mais 6 homens de confiança, disponiblidade  e vontade para o manobrar? Já me chega.

E mulheres?, poderiam perguntar-me, porque é que têm que ser 6 homens? A mim cabe-me encontrar e escolher uma tripulação ( na medida em que não há “veto” de quem manda mesmo a sério…) , e quando já está, não procuro mais. Se há mulheres que se queixam de não haver tripulações femininas ou mistas e que estão à espera de serem convidadas, esperem sentadas. Ir convidar mulheres só porque são mulheres é coisa do heteropatriarcado ou dos estúpidos, eu convidei toda a gente para aparecer logo no princípio da época  e se há mulheres que querem navegar nos botes organizem-se e cheguem-se à frente, se alguma me pedir ajuda, ajudarei como puder mas parece-me que a iniciativa e organização têm que partir delas, aqui ainda não temos quotas obrigatórias nem recebemos circulares do governo a exigir mais disto ou daquilo.

No fim da navegação de ontem fez-se uma patuscada no cais com as omnipresentes lapas grelhadas, foi um bom fim de semana de convívio náutico e , como de costume, os visitantes ficaram encantados com isto.

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O melhor momento da patuscada foi para mim quando uma senhora continental, sofisticada e coiso, quis saber o que é que ia no molho das lapas.

-E aqui, é o quê?

– É o molho , respondeu o sr Mendonça, 70 anos , florentino nascido e criado, tripulante do S.Pedro.

-Sim , mas é o molho de quê?

-É o molho das lapas, põe-se por cima e come-se.

É por estas e outras que eu me dou bem aqui.