Cirurgia Ovinícola

Fiz um investimento em cinco ovelhas de raça apurada, daquelas de escandalizar os hippies, chamam-se INRA401 e foram “desenvolvidas” pelos franceses.Trazem sempre gémeos, muitas vezes trazem três crias e crescem mais depressa que as outras. Desde que as encomendei até chegarem foram quase 5 meses e como não podia deixar de ser chegaram na altura mais inconveniente de todas, no mesmo dia em que eu ia apanhar um avião para o Faial.

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Estava no porto às oito da manhã mas só as pude tirar  do contentor às 11, foi um dia muito difícil porque três delas fugiram quando estava a chegar a casa. Vieram  do Alentejo, é difícil encontrar região do país mais diferente disto, vinham de uma viagem de muitos dias num contentor, vinham enervadas e aterrorizadas e assim que se  apanharam com uma aberta largaram-se a fugir pelos campos fora , acabando duas delas no fundo de uma ribanceira de uns 15 metros, de onde eu nunca mais as conseguia tirar  sozinho, mesmo que não estivesse a duas horas de ter que estar no aeroporto.

Quem tem amigos tem tudo, pedi ajuda  e fui socorrido, estava a entrar no avião quando me mandaram uma mensagem a dizer que já estavam salvas e no seu sítio.

Quando regressei cinco dias depois uma delas tinha embrulhado uma das patas na corda que a prendia, tínha-lhe cortado a circulação e feito uma ferida e nunca mais recuperou.Desde então comecei a dar-lhe uma injecção de antibióticos por dia por indicação do veterinário, e a desinfectar a ferida mas sempre muito pessimista e ralado com a situação, a ver aquilo a piorar.

Diziam-me que o melhor  a fazer era metê-la na arca, por causa das despesas do veterinário e dos curativos  mas não, não era só por ter sido  muito cara mas também porque acho que se ela podia viver eu devia fazer o que pudesse. Em última análise a culpa era minha, o bicho não se embrulhou por querer embrulhar-se, foi porque a deixei com essa possibilidade e não a fui ver, ou melhor, não arranjei  as coisas de modo a que alguém a fosse ver todos os dias.

O veterinário foi  vê-la ao fim de uma semana e disse logo que a pata estava para lá de salvação, marcou-se a cirurgia para o dia seguinte, lá fui todo nervoso. Não tenho muito estômago para feridas e sangramentos e sofrimento, não é propriamente desmaiar a ver sangue mas fico sempre um bocado arrepiado. Como nunca tinha visto nada assim e estou farto de ver crueldades para com bichos ia preparado para que a amputação fosse sem anestesia, para aguentar a ovelha a olhar para outro lado enquanto o veterinário fazia o que tinha a fazer, mas se bem que fiquei um bocado incomodado a ver de perto a ferida já a criar bichos e a alastrar fiquei logo descansado ao ver primeiro a parafernália médica que o veterinário trouxe e depois porque não só lhe deu uma injecção de anestesia local como lhe deu outra quando viu que uma não bastava. Mais uma data de instrumentos  e produtos químicos, mais uma ocasião para me lembrar que a modernidade é assassina e insensível, as multinacionais farmacêuticas são horríveis, os modos ancestrais de criar gado é que eram bons e puros e que dantes tudo era melhor, incluindo abater  qualquer animal que se ferisse. O belo mundo antes dos antibióticos, desinfectantes  e anestesias.

Segurei a ovelha e fui olhando para o lado enquanto o veterinário limpava a ferida e preparava o corte mas depois tive mesmo que meter as mãos no sangue e segurar a pata enquanto ele serrava o osso e depois fechava a ferida com pontos. Foi mais fácil (para mim) do que eu pensava , mais uma vez me ajudou  ir preparado para o pior a pensar que ia ser muito difícil, fiquei bem contente, depois de feito o penso a ovelha levantou-se e foi ter com as outras e eu mais aliviado ainda fiquei com a conta, também aí ia preparado para levar uma marretada valente mas fiquei surpreendido , primeiro porque percebo  e dou valor ao que é preciso saber para chegar ali e fazer uma coisa daquelas, depois porque durou quase uma hora e mais ainda pela maneira calma, segura e atenciosa do veterinário, ia preparado para pagar o dobro ou mais , não sei se é aquela a tabela ou se tive desconto por ser…não me estico  a dizer “amigo da família” mas pelo menos sou conhecido, se teve alguma  influência ou não não sei, sei que voltei a casa satisfeito por ter corrido bem, por   a ovelha ter-se safo e deixar de sofrer mesmo ficando coxa e por não me ter custado os olhos da cara, digo isto porque sei que uma cirurgia daquelas num cãozinho em Lisboa custava pelo menos 3 vezes mais.

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Já está a comer melhor, a recuperar peso ( isto foi há 4 dias) e corre como as outras . Tenho agora 10 ovelhas, um carneiro e dois borregos que já estão vendidos, tudo de boa saúde e com as vacinas em dia. O número é ridículo para um ovinicultor alentejano, por exemplo, mas para aqui já é respeitável, já só me falta uma coisa: o cão, ou melhor, a cadela pastora que comecei a procurar e tratar, há-de vir para o ano de S.Jorge.

 

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O Clube Naval

Está a acabar o Verão, passou mais um em que o nosso Clube Naval se limitou a receber subsídios e a gastá-los, sem sair do buraco financeiro nem cumprir a parte principal do seu objectivo fundamental: proporcionar oportunidades e condições para a juventude do concelho aprender e participar em desportos náuticos. Como saí duas vezes da ilha para participar nas regatas de botes baleeiros pude ver a diferença abismal que nos separa dos outros e que não se justifica só por sermos uma ilha pequena e remota.Pude sentir a vergonha e tristeza dos miúdos na Semana do Mar com o fiasco que foi a quase participação deles nas provas de optimist. Tembém pude ver a atitude de quem é responsável, que se escuda nessa mesma pequenez e distância, se limita a gemer por subsídios e se contenta em ser o parente pobre e distante que por ser pobre  e morar longe acha que os outros lhe devem mais.

Este ano passei cá todo o Verão e estive envolvido nas provas pelo que também pude ver a organização, projectos, aspirações e planos ou mais concretamente, a falta disso tudo. Mais de 300 iates visitam a ilha e o nosso porto, desses o Clube beneficia ZERO, para dar um exemplo. Aqui há anos o clube recebeu do Estado um iate que tinha sido apreendido cheio de droga. Esse iate, que podia ter sido escola de vela e fonte de rendimento para o clube, limitou-se a ser brinquedo de um grupo selecto de amigos. O iate foi vendido, ao desbarato por estar a decair, os amigos ainda cá estão, nenhum miúdo da ilha chegou a dar uma voltinha nele. Ninguém tem vergonha disto.

Os botes baleeiros operam um pouco melhor que o resto da vela ligeira mas ainda assim só à medida em que são subsidiados e a , arrisco eu, 60% do seu potencial. O que marca o compasso são os subsídios estatais, iniciativa própria é coisa estranha.

Passei o Verão a dizer mal da situação e gestão do Clube e a pedir , inclusivamente ao Presidente da Câmara (entidade que mantém o Clube à tona) que alguém avançasse com uma lista e um projecto de renovação, dizendo que eu oferecia o meu tempo e a minha colaboração para participar. Ninguém avançou mas várias pessoas me disseram que se eu  avançasse me seguiam e ajudavam.

Ora eu nem sou natural desta ilha nem tenho ambições, sociais ou materiais, tenho a sorte de ser aos 44 um homem realizado que aspira a viver o resto da vida descansado com o que é e o que tem e como conheço um pouco do associativismo em Portugal sei o que implica liderar uma associação que funcione bem. Implica muito trabalho não remunerado, muitas críticas, muitas desilusões, muito esforço e tempo dispendido e não eram exactamente coisas que eu quisesse para mim. Por outro lado não está na minha natureza criticar sem ser capaz de oferecer solução, e se passei o Verão todo a criticar esta direcção e o modo como um grupo selecto de amigos enterrou o Clube cabe-me no mínimo propôr-me fazer melhor, vejo as coisas assim.

É muito fácil, vemos todos os dias, desde treinadores de bancada no futebol até analistas políticos profissionais que nunca se candidataram a nada passando por economistas que mal gerem a própria casa e  críticos de música que só tocam campaínhas de porta, há sempre um exército de críticos disposto a deitar abaixo os outros mas se lhes dizem  “ok, faz lá tu melhor, vá!” escapam-se logo para o seu buraco. Falar é fácil.

Não me quero contar nesse número, sei que posso fazer melhor e se não conseguir fazer melhor pelo menos chego-me à frente e tento, com o meu melhor esforço e vontade à vista de todos. Estou a ultimar uma lista que se vai candidatar aos órgãos gerentes do Clube Naval em Setembro ou Outubro, consoante a Assembleia Geral for ordinária ou extraordinária. Candidato-me a presidente pela mesma razão que fui o oficial do S.Pedro este Verão : não há ninguém melhor que eu que avance .

Isto é  um meio muito pequenino e as velhas políticas , intrigas, hábitos, mentiras  e interesses instalados de décadas vão estar ao rubro, não só porque “quem é que este continental pensa que é” como porque algumas pessoas arriscam-se a perder poder, influência e nalguns casos, rendimentos. Não me interessa, podiam manter esse poder, rendimentos e estatuto se ao menos gerissem o clube em condições, agora desgovernar e manter privilégios pode funcionar na política nacional mas nesta escala não pode. Não deve.

Não me interessa nada que pessoas que me davam abraços há um mês deixem de falar comigo ou inventem histórias, da minha parte a atitude não muda e como sempre fiz, se tenho alguma coisa a dizer a alguém vou ter com essa pessoa e digo-lhe. O que eu quero e proponho para o clube não são abstrações genéricas nem mais do mesmo , são coisas muito concretas que espero em breve poder explicar a todos os sócios que se interessem. Encabeço uma lista fortíssima, com pessoas de estatuto, respeito e experiência, com um boa mistura de juventude e maturidade e o facto de eu não estar preso por  nenhumas amarras familiares, políticas ou de passado e de trazer uma visão nova de quem conhece alguma coisinha do mundo e já viu uns quantos clubes náuticos,  em oposição a pessoas que gerem o clube há anos e o têm como está, devia ser o suficiente para vencermos com margem enorme, mas não tenho ilusões nenhumas e é bem possível que não aconteça. Se perder também é bem possível que me digam “não tocas mais num bote baleeiro deste clube”, e também isso não me interessa, a experiência que tive neles já me encheu a alma e o que eu quero mesmo é dormir descansado à noite a saber que fiz o meu melhor por aquilo em que acredito.

O Auge

Este ano em Outubro celebro 20 anos da partida para a minha primeira viagem marítima, 4 meses depois de ter velejado pela primeira vez.

Desde aí juntei 235000 milhas náuticas em todos os oceanos à excepção do Árctico e Antárctico, ao comando de 100 (número redondo, certo e documentado) barcos diferentes, alguns deles de valor na casa dos milhões .

Não tenho intenções nenhumas de voltar aos iates, não tenho saudades da vela oceânica e no Sábado passado na Horta, mesmo tendo ficado quase em último na regata, atingi o auge da minha carreira na vela, campo em que não ambiciono mais nada senão fazer isto o resto do tempo, enquanto puder.

Tenho centenas de fotos em todos esses barcos, mares, portos e ilhas mas esta é sem dúvida a minha fotografia preferida de sempre.

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Expressões populares

Sempre gostei de provérbios, ditados, adágios e outras expressões que no fundo são o mesmo : concentração de sabedoria numa frase ou a expressão de uma verdade, explicação  ou observação. Há muitos que são comuns a vários países, há outros que são contraditórios ( quem espera desespera/quem espera sempre alcança) e há outros que não pretendem explicar nada , apenas ilustrar uma realidade. Há uns que querem dizer o mesmo mas variam de região, por exemplo no continente diz-se “um olho no burro outro no cigano” aqui diz-se “um olho na faca outro na lapa” para exprimir a mesma ideia.

Há dois que me andam na cabeça há uns meses, o primeiro é um bocado bruto e cínico e usei-o há pouco tempo quando uns amigos , certamente preocupados ou pelo menos interessados no meu bem estar emocional  me sugeriram e encorajaram a , digamos, conhecer melhor uma certa pessoa que para aí andava e que pelos vistos toda a gente acha espectacular menos eu. Uma das  vantagens de estar a ficar velho , ter visto muito e estar satisfeito e em paz com a vida é que não sinto aquela pressão de ver o tempo a passar e pensar que me escapou alguma coisa , que a vida está incompleta e que é tempo de me acomodar , aceitar , esquecer os padrões , encolher os ombros e dizer “é melhor do que nada” . Não, nada disso , e o provérbio que usei para explicar isso mesmo está no topo da minha lista de favoritos : quem comeu a carne que roa os ossos.

O segundo é ainda mais simples e curto, já andava há que tempos na minha cabeça mas anteontem fui a um funeral e passei o dia todo a pensar nele. Foi a primeira vez que fui a um funeral aqui, já tinham  morrido algumas pessoas mas não as conhecia pelo que  não me sentia na obrigação de lá ir. O senhor que morreu na semana passada era meu amigo, era simpático e alegre para todos, bem disposto, trabalhador , sempre pronto a ajudar, com dois filhos criados, homens às direitas com a vida feita e suas famílias. Morreu no mar, estava sozinho à pesca no calhau como gostava de fazer e ainda não se sabe , ou eu não sei, porquê, apareceu morto a boiar.

O ditado em causa é muito regional, já o ouvi da boca de pessoas de educação superior e de  pessoas analfabetas, em várias ilhas e com algumas variações, é uma expressão que se utiliza em várias circunstancias diferentes e  à primeira vista , ou mesmo à segunda , pode parecer banal , óbvia e básica , uma evidência que não sugere nem provoca nada mas a mim faz-me pensar muito e é filosofia pura.

A gente morre e fica tudo aí.

Regata

Saímos com o S.Pedro na Sexta  para treinar, correu bem lá fora da baía mas o vento estava fresco e de Sul , não consegui voltar a entrar no porto à bolina , perdi a calma e desisti de tentar, entrámos a reboque, humilhação. Da parte da tarde saí no Formosa para completar a tripulação. O  Formosa é o segundo bote das Flores e levou ao leme e na genoa gente do Faial com mais de vinte anos de botes. Voltei para terra a pensar que ia mesmo ficar em último e a esperar que os moços não me levassem a mal.

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No dia seguinte tinha os nervos em franja.De manhã chegaram os  botes do Pico a reboque de duas lanchas e a rampa era uma coisa linda, 23 botes a prepararem-se para arriar.Nos Açores há 43 botes em maior ou menor condição de navegação. Nas ilhas pequenas há cada vez mais dificuldade em mantê-los e tripulá-los e  S.Miguel nunca contou muito para isto.

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Um bote baleeiro mede 11 metros, pesa 700 quilos, tem uma tripulação  de 7 homens (ou mulheres) e uma velocidade de casco de cerca de 8 nós mas já se marcaram a 16. Todos os botes são aparelhados como antigamente e há muito poucos ou nenhuns materiais modernos. Um turista veio dizer-me “barcos tão lindos e fizeram tanto mal…” , eu disse-lhe  barcos tão lindos que deram de comer a muitas famílias e salvaram as ilhas de uma miséria ainda maior. Gente que  avalia 1950 pelos padrões de 2017 pode ir bardamerda.

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Arriámos o bote , remámos para fora do porto interior , içámos a vela grande para ver se estava tudo em ordem , saímos disparados pelo meio da frota à popa arrasada, a retranca tem quase dez metros e ultrapassámos   outros barcos com distâncias de centímetros , não sei como é que fiz isso e quando voltámos a baixar a vela para tomarmos o nosso lugar na linha de reboque da largada ia a tremer.

Este é um vídeo da largada , especial atenção para o minuto 3.30 , quem ficar indiferente a uma coisa destas não pode ser bom.

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A regata é um percurso à volta de três boias , uma de bolina , uma de largo e outra de bolina à entrada no porto, e depois meia milha de bolina , mais ou menos, para  a meta mesmo em frente à cidade. Partimos em 15º da linha.

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Há festivais de velas clássicas em sítios de alto snobismo tipo St.Tropez , já lá vi muita coisa bonita e digo sem problema nenhum que um bote baleeiro bem pintadinho passa por eles e vira cabeças e causa admiração de quem sabe, não andam aí muitas embarcações  mais elegantes e rápidas que estas.

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Aqui já estávamos a rondar a última bóia, nesta altura devíamos ir em décimo segundo mas quase todos esses atrás de nós acabaram por nos passar. Bordos grandes com brisa constante e todo o espaço são uma coisa , bordos pequenos com brisas variáveis dentro de um porto com outros barcos à nossa volta são outra muito diferente, é aí que vem ao de cima a experiência,e  falhei muito. Nessa foto já se podem ver barcos atrás muito mais orçados que nós:IMG_20170812_161105

Mesmo assim demos os bordos precisos para cortar a meta, apitou a nossa buzina e tocámos na bóia , um segundo mais tarde e éramos desclassificados. Doze segundos atrás de nós cortou a meta o Formosa , e isso para mim foi vencer . Terminámos em 16º de 23, os moços ficaram contentes, eu fiquei radiante, para primeira prova foi bem bom, para não falar da beleza enorme do cenário e do dia.

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Com o bote varado fomos celebrar , e mais tarde na noite encontrei-me sozinho sentado a um balcão e achei graça porque que me sentia exactamente como me costumava sentir de cada vez que atravessava o Atlântico, uma satisfação  que me percorria o corpo todo e me deixava um sorriso fixo. Acabei  por reencontrar a tripulação na festa, não há como ter vinte anos, aqueles moços conseguiram todos os dias voltar ao alojamento de manhã clara e cheios de cerveja até aos olhos. Ah, a juventude.

No dia seguinte subimos os botes para os atrelados e arrumámos a palamenta aqui:

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É a casa dos botes do Clube Naval da Horta, um armazém de pausar  a respiração a quem gosta destas coisas e que ainda nos vincou mais a diferença abismal que vai deles para nós. Não interessa muito. Fizemos boa figura, aprendemos, ganhámos confiança e já nunca mais vou para uma prova a pensar em terminá-la , vou a pensar em classificar-me bem. Tenho o privilégio incrível de ser oficial de um bote baleeiro três  meses depois de ter subido pela primeira vez a um , há muitas pessoas que sonham com isto e passam anos e anos até  lá chegarem , quando chegam .

Agora estamos para aqui à espera que regressem os botes, vai levar uns quinze dias. Antes de os guardarmos para o Inverno e começarmos a lixar e pintar queríamos ainda navegar mais um bocado, não falta vontade nem ideias de coisas giras que podemos fazer aqui, incluindo levar turistas a navegar por uma quantia, juntar dinheiro para termos material melhor e podermos ir mais vezes ao Triângulo para o ano, para provas no Faial e no Pico. Fala-se nas “altas esferas” da possibilidade de mantermos um bote no Faial para não termos que o andar a carregar para a frente e para trás, isto claro que está dependente de haver uma tripulação de prontidão para ir para lá competir em condições, coisa que nunca houve antes. Agora há.

Semana do Mar & Turismo

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A Semana do Mar já começou , há nestes dias na Horta mais actividades do que é possível uma pessoa ver ou participar, incluindo dezenas de concertos de musica ao vivo e outros eventos, do lado do mar há dezenas de provas numa variedade enorme de modalidades. Só me interessam duas coisas, a regata de botes baleeiros  no Sábado, na qual vou levar o bote  S.Pedro, e os barcos para o Pico para onde espero ir assim que puder.  Quanto à preparação para a regata, está tudo dito aí mais atrás. Se não ficar em último já não fico triste e  se ficar em último não é  vergonha nenhuma. Chama-se Regata da Casa do Pessoal da RTP pelo que suponho que  parte dela vá ser transmitida pela RTP Açores, quem tem curiosidade pode tentar ver, começa às duas da tarde de Sábado, 15:00 no continente.

Não conheço a ilha do Faial toda mas quase, e estou fartinho da Horta, em condições normais não é uma cidade que me encante, se lhe juntarmos a multidão que para lá vai andar nestes dias, pior. Por isso assim que estiver feito o trabalho relativo aos botes e a menos que aconteça algum imprevisto (há que guardar sempre espaço para imprevistos) , passo o canal para o Pico, onde nunca estive e que estou há tempo demais para conhecer. Tenho lá um amigo novo e outro mais antigo  e tenho sítios e coisas que quero ver.

Vamos uma semana para competir uma tarde, vamos ter muito tempo livre por causa dos turistas. Tinha escrito uma página inteira a dizer mal dos turistas ressalvando que esta ilha precisa muito deles para não acabarmos todos funcionários públicos, eu em particular preciso deles para lhes vender cerveja artesanal, por isso são uma coisa a tolerar e acolher nem que seja de sorriso amarelo, mas mais uma vez encravam-nos a vida e estorvam-nos.  Parte das tripulações foi na segunda de madrugada com os botes no navio de passageiros, o resto era para ir na Sexta mas estava tudo em lista de espera e nada nos garantia estar na Horta no Sábado, pelo que mudei os bilhetes para amanhã, quando nos podiam confirmar a viagem. Pouco a pouco começo a tomar iniciativas e responsabilidades, mais do que gostaria mas há coisas em que ou sou eu ou não é ninguém . Para o regresso estamos à mesma em lista de espera, possivelmente até quarta feira, e uma semana fora não é fácil, especialmente para quem não quer , não precisava nem planeava gastar dinheiro com umas férias. Enquanto durarem as provas náuticas somos acolhidos e alimentados pelo Clube Naval da Horta mas a festa acaba no Domingo e não é legítimo esperar que nos sustentem até Quarta, alguma despesa vai sempre acontecer.

Os voos estão repletos, o pessoal da SATA aqui é cinco estrelas mas andam a  aturar muito problema e reclamação, não pára a enchente de turistas e há viagens canceladas e atrasadas constantemente, no Sábado passado foram os Xutos que vinham cá tocar mas tiveram que voltar para trás, o pessoal não gosta dessas coisas.  Parece que pariu aqui a galega e esta história dos voos todos cheios é um bocado má, agora no nosso caso concreto é uma  viagem “desportiva” mas aqui na ilha já há muitas pessoas com dificuldades em comparecer a consultas médicas e exames , e isso é muito mais sério. Caso não saibam , daqui ao médico especialista vai-se de avião, tal como para análises e exames, e no meu entender seriam os turistas a ficar em lista de espera sempre que houvesse um residente  a querer ou precisar de viajar.

É um tema muito falado na imprensa e um debate actual, muita gente pensa que o turismo está descontrolado e em níveis exagerados, principalmente as pessoas que não beneficiam directamente do turismo  e os que se pelam por taxar e controlar tudo o que mexa. Eu cresci numa casa de Turismo de Habitação, das primeiras do país, e o dia em que os meus pais a decidiram vender foi dos mais felizes da minha vida, quase que me traumatizaram uns 20 anos de estranhos e entrarem-me pela casa dentro. Dada a loucura da procura aqui um amigo propôs-me no outro dia ir ficar com ele e alugar a minha casa , parece que a  minha reacção foi como se me tivesse proposto comprar-me o cão . Tolero os turistas mas há limites e a minha propriedade está para lá desses limites.

Mesmo que não contasse lucrar com o turismo  vendendo  a cerveja artesanal, nunca seria completamente contra porque compreendo o valor que trazem à economia toda . Além do mais todos nos devíamos sentir elogiados e orgulhosos por tantos estrangeiros quererem vir visitar e apreciar a nossa terra. Vejo que o Bloco e o PC estão muito preocupados, mas eles ficam sempre preocupados por ver pessoas a ganhar dinheiro com as suas propriedades e o seu engenho sem terem que se sindicalizar ou dar metade ao Estado e inventam logo oito problemas laterais para animar a rapaziada, passando se for preciso por cima de  contradições engraçadas como : cinco mil somalis desempregados para sustentar, bom , cinco mil ingleses para gastar dinheiro, mau. Entretêm-se com questões de lana caprina como a distinção entre turismo e turistificação mas no fundo  o que os apoquenta é haver gente a ganhar dinheiro sem sofrer carga fiscal e regulamentação adequada.Como de costume, têm  uma imagem ideal do turismo como o aceitam, o que ande fora disso tem que ser combatido e vão lutar para adaptar a realidade à sua ideia e não o contrário.

Por aqui só vejo benefícios (não obstante a impreparação da SATA) e estou preparado para perder algum do meu  sossego  e tranquilidade , que para muitas pessoas é pasmaceira desértica. Duvido de que apareçam  construções tipo Algarve, as estradas são as que há, o aeroporto não pode crescer e há aí muito mato e muitos trilhos para o pessoal andar com espaço bastante.Os turistas que para aqui vêem não largam lixo nem andam bêbados em público, não há barulho e em geral têm uma atitude muito respeitosa, de apreciação e paciência . Espero ver mais empregos, mais trabalho, mais actividades, mais ofertas, mais serviços. Idealmente apareceria uma “mini easyjet” privada com meia dúzia de avionetas para fazer voos inter ilhas, concorrer com a SATA e dar mais uso aos aeroportos do arquipélago.

Não duvido de que vai haver muito em breve quem se queixe também aqui dos turistas, mas o Verão está a acabar, daqui a dois meses já quase ninguém vem para aqui e o turismo volta a ser um problema exclusivo dos lisboetas e dos jornalistas.

 

PS: Já tinha escrito e publicado isto quando vi no twitter um cartaz do PNR contra o turismo. É muito raro lembrar-me de que o PNR existe por isso nunca falo nele. É normal que a extrema direita partilhe preocupações e proponha soluções semelhantes à extrema esquerda, neste caso partilham a xenofobia, que para o PNR é mais natural, nos outros vem mais disfarçada. Espero que o PNR não desapareça porque mesmo os malucos devem podem ter voz e liberdade de expressão.

 

 

Preparados…

Devia ser Maio, devíamos estar a começar era agora, que temos uma tripulação completa, que já se entende e se conhece um pouco, que já brinca e se diverte na água , que já faz as manobras e  aparece nos dias combinados e que o oficial, neste caso eu, começa a ganhar alguma confiança e a perceber alguma coisinha.

Em vez disso acabaram anteontem os treinos, devíamos ter arriado o bote  hoje pela última vez mas sem barco de apoio não, mesmo que alguns dos moços com mais sangue na guelra não se importassem. Está uma aragem fresca, estes botes mesmo com especialistas ao leme podem virar por um descuido, e se viram sem que ande por perto um apoio para nos vir pescar e endireitar o bote arriscamos uma situação muito desconfortável, eu já não tenho paciência nem tenho saúde para esses números. O Clube Naval, com a atenção e dedicação que tem mostrado à nossa participação na Semana do Mar , fecha a porta depois do almoço e lá dentro fica o equipamento do semi-rígido de apoio, para o qual eu tive sempre que encontrar tripulante por mim, recorrendo a amigos de boa vontade. Da parte de outras pessoas envolvidas está tudo bem porque desde que os botes estejam na rampa na Horta no dia 12 o subsídio bate na conta , mesmo que não cheguem a arriar.

Ontem estavam cá três picarotos a trabalhar num veleiro que compraram aí, um deles  um veterano conhecido dos botes da baleia, fui falar com ele e  perguntar umas coisas, entre elas o que é que era preciso para ele vir cá passar uma semana ou duas a ensinar-nos, já que cá parece-me que ninguém sabe e  pouca gente se interessa ou  quer saber. Os mais antigos que andaram na baleação que me desculpem mas podem saber muito de mar e de trancar baleias mas de vela sabem pouco, nos antigos baleeiros a vela era quase um  acessório , ninguém andava atrás das baleias a dar bordos à vela, iam a remos ou usavam a vela quando a baleia estava a sotavento e voltavam a remos ou a reboque das lanchas a motor, e muitos que hoje falam  das velas já têm memórias muito romantizadas da coisa.

O picaroto disse-me que bastava escrever uma carta para a Direcção Geral do Património  ou coisa que o valha , já não me lembro bem, a pedir para destacar os serviços dele para aqui; pagar a alguém que lhe tomasse conta das vacas nesse período e alojá-lo e alimentá-lo cá. Que já tinha corrido as ilhas todas a treinar e ensinar e que já tinha inclusivamente falado sobre isso com um dos presidentes do clube de cá , que disse que sim, que se ia fazer e isso foi a última coisa que lhe disse. Sabendo que é muito improvável isso acontecer perguntei se eu fosse ao Pico tinha lugar num dos botes  deles durante uns dias, claro que sim , sem problema nenhum. Ficou registado , e como ainda não estou a ponto de perder completamente o interesse pelos botes nem acredito que o nosso clube naval se chegue a organizar e ser liderado em condições, sou capaz de me meter num avião e ir ao Pico passar a Semana dos Baleeiros, eu arrumo-me em qualquer canto, sou de baixa manutenção, não chateio ninguém e gostava de ter a oportunidade de navegar com quem sabe. O que me enerva  mais nesta história é que não somos ridículos  por falta de recursos, o Estado investe dezenas de milhar na preservação e navegação dos botes, é só pedir e há dinheiro para manutenção, formação e competição. Somos assim por desorganização e falta de interesse.

Já ao fim da tarde voltei a encontrar no bar os picarotos , vinham do porto.

-Você é que é o responsável por aquele bote que ali está na água? -perguntou-me o tal veterano.

Hesitei um bocado em responder mas se bem que ninguém mo disse nesses termos nem me formalizou a responsabilidade, a verdade é que nesta altura sou mesmo eu.

-Se não o varar já fo#e-se todo, já está a criar cabelo na junta, mais um dia na água e  vai  começar a apodrecer por dentro.

Fiquei confuso e alarmado, tinha sido eu a dizer que o devíamos deixar na água em vez de varado na rampa por me ter sido dado a entender que ficar ao sol fazia a madeira secar demasiado, as juntas dilatarem e as tábuas deformarem, pelo que ficando na água mantinha-se “fresco” e nunca chegava a “estalar”. Sucede que na água vai começando a criar algas minúsculas que se infiltram nas juntas e em pouco tempo começam a apodrecer a madeira, as juntas não são calafetadas. Um bote baleeiro nunca pode ficar mais do que um dia na água.  Ajudaram-me a vará-lo , felizmente apareceram alguns moços da tripulação, um deles com um  jipe que o puxou  para cima , é  daquelas ocasiões em que me estou  nas tintas para os recursos naturais globais que acabaram ontem , para as emissões poluentes e para a maneira tradicional de fazer as coisas, dêem-me um motor  potente e vantagem mecânica , quem quiser viver em 1920 tem bom remédio. Sou  adepto dos motores de combustão interna , dos aviões a jacto, dos químicos  e do plástico. Não gosto  é que mandem o plástico ao mar  ou que larguem por todo o lado, são problemas diferentes. Assim que os motores eléctricos fizerem o que fazem os de combustão interna pelo mesmo custo, lixo com os motores poluentes. Até lá, haja gasóleo.Sobre este tema só aceito críticas de quem só  anda a pé ou de bicicleta, o resto devia deixar-se de hipocrisias.

De volta à rampa, onde o homem até encontrou um banco (peça de madeira que serve para assentar a quilha) dele que ficou cá das provas do ano passado e ele reconhecia por uma  marca.

-Olhe aqui, passe aqui o dedo.Vocês é que não sabem mas nós olhamos para isto ao longe e vimos logo!

O “cabelo” a que ele se referia eram as algas que em dois dias já tinham começado a crescer ao longo da junta.

-Tem que ir buscar um pulverizador , desses de sulfatar, encha-o de lixívia e dê-lhe no casco .Já viu isto?

E começou a apontar-me defeitos e particularidades do casco que eu nunca mais tinha descortinado sozinho, e depois no bar estive a ouvir  e perguntar mais sobre como se tratam, guardam e navegam os botes baleeiros em condições. Idealmente até a construção em que se guardam no Inverno tem particularidades, paredes de pedra, telha de barro e chão de bagacina ou de “areão” , tudo ao contrário do barracão onde ficam os nossos, cimento e cimento sobre cimento. Isto por causa das temperaturas, humidades e suas variações. Ouvi sobre os botes do Pico, tantos nas Lajes , tantos nas Ribeiras, tantos na Calheta de Nesquim (adoro este nome) , tantos na Madalena,  e como correm todos contra todos , de Maio a Outubro, e contra os do Faial onde há outros tantos, com rivalidades ferozes no mar e belas  festas em terra. Como os cais e muros ao longo do porto e da praia ficam cheios de gente de cada vez que se arreiam os botes.

Vamos amanhã meter o botes nos seus atrelados.O Formosa chegou de Santa Maria há quinze dias e está onde o deixámos quando o tirámos do contentor, não foi arriado uma única vez e uma pessoa pergunta-se “se era para isto não  valia mais ter ido directamente para o Faial…?”. Recebemos “ordem” para carregar seis remos, o que é estranho dado que ninguém remou aqui este ano nem  ninguém está inscrito nas provas de remo, calculo que seja para emprestar, bote e remos, a alguém do Faial. Há muita coisa que se trata entre amigos. Os nossos bilhetes de avião são para dia 11 mas estamos em lista de espera , os bilhetes foram marcados tarde , todos os voos pelo arquipélago estão sobrelotados porque a SATA, coitada, não tinha maneira nenhuma de prever que o turismo ia aumentar tanto e que a procura ia explodir, é normal que tenham sido apanhados desprevenidos pela chegada da Easyjet e Ryanair , há quase 3 anos, e ao que parece ainda estão desprevenidos. Também dá ideia que foram apanhados desprevenidos pelas campanhas publicitárias do governo, chamam para cá pessoas aos milhares e depois não as conseguem transportar todas , boa sorte a quem quer voar inter ilhas neste Verão. Por isso existe a possibilidade de não termos lugar no voo dia 11, a regata é às duas da tarde do dia 12.

Não é grave, os botes chegam lá e vão estar na rampa com os outros no Sábado pelo que o subsídio está garantido, e como ouvi eu pessoalmente, não custa nada arranjar uma companha no Faial para competir  nos nossos botes. A minha motivação e  entusiasmo correm um certo  risco de ir tão depressa como vieram.