Febre

Daqui a uns tempos vais ver que as febres aqui não dão com muita força e passam depressa.

Diziam-me isto a respeito da febre dos botes da baleia, eu sofro de um caso galopante e espero que haja mais contaminação mas mantenho sempre as expectativas baixas.Cada bote precisa de 7 tripulantes e numa ilha como esta, mesmo no verão, isto não é lá muito fácil de conseguir. As febres de Verão são reconhecidamente curtas e além disso há muitas outras  condições locais a conspirar contra o sucesso disto. O sucesso , para este ano, seria  levar os dois botes com companhas completas à Semana do Mar e acabar todas as regatas. Se depois disso houvesse condições para reorganizar o clube naval, melhor.Não faço apostas.

Entretanto já mudei outra vez de bote, tinha passado do  S.Pedro para o Formosa “por empréstimo” mas dada a desistência forçada do oficial do S.Pedro, voltei. Havia um oficial “nominal” e havia um moço que ia ao leme, sucede que ele não tem 18 anos, há idade mínima nas competições, e sendo assim, vou ser eu.

Por um lado fico contente, por outro nem por isso porque é uma grande responsabilidade e, sem falsas modéstias, não sei bem se vou estar à altura, há uma diferença abismal entre a vela que me é familiar e os botes da baleia, mas não me resta mais que não prometer nada e fazer o melhor que conseguir. Faltam 15 dias para as regatas no Faial, faltam sete dias  até os botes serem metidos no navio, é nesses sete dias que temos que arriar o bote tantas vezes quantas forem possíveis para nos prepararmos o melhor possível para uma competição onde vão estar mais de 25 botes, todos com tripulações com anos de experiência em competição e fora dela. Isto dava um argumento para um filme.

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Regata em Santa Maria

Lá fomos na quinta feira, ainda aqui no aeroporto  houve confusões com os bilhetes da tripulação que expuseram logo os problemas desta participação da ilha no campeonato de botes baleeiros. Há uma velha máxima militar  que diz que “os amadores falam de tácticas, os profissionais falam de logística”, numa ilha como esta seria de esperar que a logística já estivesse dominada há muito tempo, dominada no sentido de ser preparada com antecedência e cuidado mas não, tirando algumas  excepções o conceito nem sequer é bem compreendido. Como tenho quase 20 anos de carreira numa actividade que dependia de mover barcos, tripulações e abastecimentos de A para B arrepia-me um bocado o nível de amadorismo, mas é mesmo assim.

Como de costume, há escalas, não se sai daqui directamente para lado nenhum a não ser para Ponta Delgada ou Horta e leva sempre que tempos. Logo na aproximação a Santa Maria vi uma das principais características da ilha e uma das mais importantes para mim: não há água.

Exagero um pouco mas a verdade é que  para mim o principal factor para determinar a “habitabilidade” de um lugar é  a água e como moro num sítio onde no meu tempo de vida e salvo catástrofes vai ser sempre um bem abundante (muitas vezes tão abundante que quase deixa de ser um bem) sítios secos não me atraem nada nem concebo viver onde houver escassez de água. Azar para grande parte da população do mundo e mesmo para muita do nosso país, mas tirando as alturas em que falta na torneira ou que se tem que pagar uma conta maior, está-se toda a gente nas tintas, tirando alguns mais esclarecidos. A esmagadora maioria da população vê abrir uma torneira e sair água potável como uma coisa natural e um dado adquirido, muita gente vai-se  dar mal no futuro próximo.

A parte “baixa” da ilha é seca , com cactos , palmeiras e campos amarelados. Chamam-lhe a “Ilha do Sol” , coisa linda para veraneantes. Vieram-nos buscar ao aeroporto e fomos deixar as bagagens na escola secundária, onde estava montado o “acampamento”, fomos os primeiros a chegar e deram-nos uma sala de aula com colchões no chão, o normal nestes eventos.Daí para o porto, saber  do nosso bote. Esta vista do porto não foi tirada no Verão, tudo o que se vê aqui verdinho agora está amarelo.

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Alguns já tinham estado na ilha mas a primeira coisa que toda a gente viu e comentou é que eles têm lá um porto lindo, bem feito, bem protegido, bem dividido, e a nós custa-nos ver isto porque gastaram milhões aqui na ilha  e ficámos com um arremedo de marina que mete dó, e parece a toda a gente que com um pouco mais de cuidado podíamos ter ficado com um porto decente. Aqui há anos falava-se numa marina para Santa Cruz das Flores, a mim parecia-me daquelas ideias que só podem ter saído da cabeça dos que pensam e mexem no dinheiro do Estado como se fosse deles e não tivesse fim.O país faliu pela mão do génio injustiçado e incompreendido que é o Sócrates, chegou o Passos para nos arruinar e levar à miséria, entre outras coisas fazendo com que fosse mais difícil encontrar dinheiro para delírios de políticos  que o torram em coisas que não percebem.Entretanto o Costa já nos salvou e voltou a pôr no bom caminho, vejo  com certa consternação que já avança a obra da marina de Santa Cruz. É assim.

Abrimos o contentor onde estava o bote e demos dois passos atrás com o fedor que vinha de lá. No porto da Lajes vivem muitos gatos, um deles foi-se meter no contentor quando carregamos o bote e quando se fechou ninguém reparou nele nem ele soube fugir, morreu ali, provavelmente de calor antes de sede e fome, morte macaca. O porto emprestou-nos um reboque , carregámos o bote e varámo-lo na rampa do porto em frente ao clube naval, fomos os primeiros a chegar.

19748520_10155472793400477_7510617614021084786_nDa Horta veio por mar a Walkiria , uma lancha baleeira que é património regional, a melhor maneira de arranjarem inimigos no Faial é criticar aquela lancha ou encontrar-lhe algum defeito, tudo o que seja abaixo de Rainha dos Mares é falta de respeito. A bordo vinham figuras grandes da vela tradicional de competição que iam liderar a comissão de regatas. No dia seguinte saímos para testar o equipamento com um dos velhos lobos do mar faialenses que já foi campeão 3 vezes e nos vinha dar umas dicas.O homem ficou impressionado com o nível de preparação do bote e o nosso, e a impressão não era boa, desejou-nos boa sorte e tenho a certeza que desembarcou aliviado. Eu tinha saído duas vezes nas Lajes como oficial mas fui amigavelmente despromovido, o que nem me espantou (o que me tinha espantado a sério era poder ter sido oficial) nem desagradou nada e depois de ver aquilo fiquei ainda mais satisfeito por a coisa não estar na minha mão.

Ao fim da tarde fez-se uma patuscada no clube com 15 quilos de lapas que tínhamos levado, aqueles pobres ali só têm umas lapas ridículas como as da Madeira, é das poucas coisas em que os açorianos reconhecem a superioridade das Flores, não há lapas como as de cá, e o presidente do nosso clube naval fez a única coisa para que tem real préstimo, cozinhou um molho espectacular e organizou o petisco. Se houvesse corrupção na vela podíamos ter sido acusados de tentar influenciar a direcção da prova com aquilo.

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Passou uma carrinha da Polícia Marítima.

-Olha o Silva!! Anda cá uóme, tás aqui agora?Come umas lapas ca gente!

O Silva parou a carrinha no meio da estrada, desceu com um sorriso enorme, cumprimentou toda a gente e ali esteve um pouco na conversa, na galhofa e nas lapas connosco, ele tinha passado uns anos nas Flores e era muito querido por todos, como se podia bem ver. Eu lembrava-me dele mas nunca o conheci bem, gostei de ver aquilo e gostava que mais gente visse porque o Silva é preto e no nosso país o racismo é uma coisa muito estranha, há pessoas que a ver um jogo de futebol gritam “ah, preto do cara$%#!” e depois se for preciso tiram a camisa para dar a um preto que esteja à frente deles e precise e vêm-lhes as lágrimas aos olhos a falar de amigos que deixaram em África. Há outros que se pudessem faziam um altar ao Éder e depois no autocarro afastam-se de um preto que esteja ao pé si e desconfiam logo. É um bocado esquizofrénico.

Ficámos no último bar aberto de Vila do Porto até às 3 da manhã, o pessoal encontrou gente que conhece gente que é prima de gente que pescou com gente que é cunhada de gente que emigrou e passam-se que tempos naquilo. Na manhã seguinte descemos para o porto, durante a noite tinham chegado os outros botes no navio de passageiros, um catamaran de alta velocidade que foi mais uma compra muito judiciosa, especialmente para os que foram envolvidos no negócio e se devem ter tratado bem, entre comissões , pareceres e outros esquemas. Como ferry para o arquipélago é uma bela merda.O apontamento cómico foi que se atrasou porque teve que ir à Graciosa buscar um burro.

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Fui ver os outros botes e ficou mais claro ainda  que no Faial e no Pico o nível é outro, desde o material das velas às pequenas afinações passando pelo pequeno pormenor  de nós nem sequer termos t-shirts  do clube para irmos todos de igual. Têm dezenas de botes , treinam o ano todo e se nos cá temos que andar a pedir e penamos para arranjar uma tripulação completa lá rejeitam candidatos às dezenas e só os melhores vão às competições.

Arriámos os botes, levantámos o mastro e ficámos a pairar à espera do reboque. As partidas nestas regatas são feitas de uma linha criada pela lancha. As lanchas rebocam 6 botes cada uma , fazem uma linha longa que dá uma volta de cortesia ao porto, posicionam-se e quando dão o sinal largam-se as amarras, içam-se as velas e começa a regata, um circuito à volta de 3 bóias, em frente à Praia Formosa. Rebentaram dois foguetes e um dos dois pescadores que fazem parte da nossa tripulação e andaram à baleia virou-.se para mim e mostrou-me o braço todo arrepiado, com um sorriso. No tempo da baleia havia vigias em cima dos montes e não havia rádios (não havia quase nada), pelo que o vigia , quando avistava baleias, mandava um foguete e todas as companhas largavam o que estavam a fazer e corriam para o porto para arriar os botes. Deu-se o sinal de largada e o outro pescador que também andou à baleia e é o nosso proa disse bem alto:

-Vamos  moços,  à vontade de Deus!

Foi a minha vez de me arrepiar um bocado. Passados poucos minutos as diferenças de andamento e facilidade de manobra vieram ao de cima e ficámos para trás.Houve 3 regatas nessa tarde, ficámos em nono de onze na primeira, em último na segunda e na terceira acabou o tempo sem conseguirmos chegar à meta.Não me ralei nada, estava encantado com aquilo tudo.

Nessa noite fomos à Maia,sítio incrivelmente bonito, ao festival de música folk, vimos a actuação de uns espanhóis chamados “El Gueto com Botas” , com uma mistura musical que eu gosto bastante. Via-se que  são todos do Podemos e diziam  coisas parvas como “esta música chama-se Las Plazas, em memória das praças que antes eram sítios do povo onde se bebia e comia e fumava e hoje não são de ninguém”. Devem ter tocado pouco em Portugal porque ainda não sabiam que o tuga não dança, podiam passar a noite toda a pedir para as pessoas se chegarem à frente e dançarem que não valia de nada. É assim desde que me lembro. A seguir houve um DJ , mas um DJ mais engraçado que o normal ( vem cá um agora, pôs no cartaz que está muito contente por vir tocar aos Açores e se o apanhar pergunto-lhe logo o que é que ele acha que toca). Este tinha misturas de músicas tradicionais e ele sim, conseguia por as pessoas a dançar (ou andar de roda, que é quase o mesmo) com músicas como a Saia da Carolina, eu quanto mais bebo mais nostálgico fico e gostei de ver aquilo. Voltámos ao acampamento na escola já passava bem das 4, no domingo só havia a última regata, e era à tarde.

O nosso oficial tinha subido muito na consideração que tenho por ele porque admitiu sem reservas que a culpa da nossa prestação fraca era dele, não sabia mais do que aquilo. Ofereci  que os problemas principais  eram não saber quando parar a orça , coisa que nos deixou a boiar muita vez, e não saber regular a escota da vela grande em função da mareação, andámos muito com o vento pelo través e à popa com a escota caçada, e fomos ficando para trás. Para a próxima falo mais cedo e previno antecipadamente que vou falar, para não surpreender ninguém. Ele teve que se ir embora e combinou com uma moça do Faial para ser nossa oficial.Eu ia caindo para trás e disse que antes queria chegar em último cinquenta vezes com uma tripulação das Flores do que ganhar uma regata com um oficial do Faial mas a verdade é que eu também não posso falar muito de origens e não tinha vontade nenhuma de pegar no leme sem ter tido oportunidade de treinar mais um bocado. Mais dois ou três meses deviam chegar.

Chegou a moça, que já foi  campeã, vi  que não só  sabia daquilo como, para meu descanso, a tripulação  tratou-a  impecavelmente, se calhar se fosse um homem não tinha sido tão respeitado. Mostrou-nos alguns problemas com o aparelho e a palamenta do bote e lá fizemos a última regata, mesmo bem comandados chegámos outra vez em último. Se não estivesse com as vacinas em dia era homem para me ter apaixonado  por ela, porque além de marinheira tinha as medidas, a educação e o sorriso certos.

Fez-se a entrega dos prémios.Esse senhor que se vê na foto tem 83 anos, anda com os nossos botes para todo o lado, é talvez o trancador mais velho do arquipélago, conhecido e estimado em todo o lado e  um monumento vivo da baleação.

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Já está bastante confundido nas suas recordações e passa a vida a insultar-nos de morte mas quando desaparecer vai deixar saudades.Já me desculpa ser continental e do Sporting e diz que eu sou uma pessoa com quem se pode falar. Chamaram ao palco os oficiais dos botes que ficaram abaixo do terceiro lugar, o nosso tinha-se ido embora e o presidente do nosso clube, em vez de mandar o moço mais novo receber a lembrança, como mandava a decência e a boa ordem das coisas, foi ele, perdendo assim o pouco que lhe restava da minha consideração.

No fim da cerimónia fui falar com o director das provas e sugeri-lhe que se mudasse o nome de campeonato Regional para Nacional, aberto à participação de botes baleeiros de todo o país. Se o resto do país não tem botes, paciência, mas os campeões são nacionais.Ele disse que fazia sentido e não ia ser esquecido.Perguntou-me se eu era das Flores eu disse que sim, nasci no continente mas sou das Flores.

Veio um reboque do porto, subimos para lá o bote e metemo-lo no contentor, certificando-nos de que desta vez não iam lá gatos, e fomos jantar. Na madrugada seguinte foram-nos buscar para estarmos no aeroporto uma hora antes do que estaríamos se fosse eu a mandar e embarcámos para S.Miguel , um voo de 15 minutos ou perto.São Miguel rebenta pelas costuras de tanto turista. O que para mim é rebentar pelas costuras será para muitos “bastante gente”.A rapaziada foi para cidade passear e fazer compras, eu já conheço aquilo tudo, já me estava a fartar de tanta gente e nesta altura compras, só mercearias mesmo. Seis horas no aeroporto, ou melhor , cinco porque um grande amigo meu que por acaso até trabalha no aeroporto veio buscar-me para irmos beber um café e por a conversa em dia. Ainda li o Açoriano Oriental e tinha marcado umas matérias para dizer aqui mal mas isto já vai longo demais para isso, fica para a próxima.

Quando aterrámos não havia ninguém à nossa espera, não era um comité de recepção que esperávamos, era  a mesma carrinha da Câmara que nos trouxe das Lajes, mas o presidente do clube tinha-se esquecido , a tal logística. Telefonou-se para o presidente  da câmara que lá foi chamar um empregado que já tinha despegado para nos vir buscar depois de quase uma hora de espera e quando já tinha vindo a Santa Cruz nesse dia. Foi com satisfação que soube há pouco que o presidente do clube se tinha demitido hoje, possivelmente porque ontem deixámos na sede um papel assinado por todos a dizer que não queríamos que ele nos acompanhasse para a regata da Semana do Mar.

Este fim de semana marcou o fim de uma era de seis anos em que não me envolvi a sério em nada que meta políticas pequenas ou grandes e que me esforcei sobretudo para não criar inimizades. Uma já está, e não foi só pela incompetência, é que não gosto que me mintam nem que mintam à minha frente sobretudo sobre  assuntos que me são caros e a partir de posições de responsabilidade. O velho mestre baleeiro (que tem muito desconto e pode-me mentir à vontade que continuamos amigos) disse-nos  “quando chegarem às Flores não dizem nada do que se passou aqui!”, ao que eu respondi que estava com azar porque se me fazem uma pergunta eu respondo e além do mais não tenho vergonha nenhuma de ter ficado tecnicamente em último, e quem me quiser dar lições de vela tem  que vir comigo para o mar.

Já hoje me disseram que ficar em quinto não era mau, eu só respondi que não era nada mau mesmo e calei-me, há pessoas que ainda vivem em 1980 e pensam que se pode fazer uma coisa noutra ilha e chegar aqui e contar uma historia diferente que ninguém vai saber. Prevê-se grande confusão até à Semana do Mar , em Agosto, o que eu sei é que vou lá estar num dos botes das Flores para a regata e vamo-nos esganar para não ficar em último. E ficar em último é melhor do que ficar em casa.

Outra Ilha

Amanhã vou com o resto da tripulação da Formosa para Santa Maria participar no Campeonato Regional de Botes Baleeiros e acho que se fosse eu o oficial (homem do leme) esta noite não dormia, mas como felizmente já não sou não estou nada preocupado, antes pelo contrário. O bote foi a semana passada no navio:

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Saímos daqui pelas duas da tarde para chegar ao fim do dia a Santa Maria, na sexta feira tiramos o bote do contentor e fazemos uns testes, as regatas são no Sábado e Domingo.

Dado que a minha política de base é “zero conflitos” e dado que não sei se alguém desta ilha lê isto ( aqui inventa-se muito, ouve-se uma braça e conta-se uma milha) não me vou alongar muito sobre as circunstâncias desta participação, sobre a organização e modo de funcionamento das regatas de botes baleeiros e sobre o modo como isso se faz cá, repito só que estou contente por fazer parte, que temos muita margem de progressão é que é possível que depois desta iniciação eu continue envolvido nisto no futuro, mesmo que a participação neste campeonato não tenha grande brilho…ou que seja mesmo completamente baça.

Santa Maria fica na outra ponta do arquipélago, e sei pouco  sobre ela: foi a primeira ilha a ser descoberta ; tem 5500 habitantes e é mais pequena que as Flores; tem um aeroporto que parece uma gare para uma pista gigantesca onde aterrava o Concorde; tem a única praia de areia branca das ilhas e tem  encostas escarpadas com uns acessos inacreditáveis onde se cultivavam  vinhas com esforço tremendo. Essas vinhas começaram a ser cultivadas logo no século XVI e a primeira vez que vi fotos delas pensei : era preciso estar mesmo num desespero por vinho para fazer aquilo. Estou agora mesmo a instruir-me um pouco na wikipedia e vejo que Sta Maria tem 36 igrejas e ermidas e 3 escolas, destas três aposto que duas são pós 25 de Abril e isto é o género de coisa  que para mim explica muito bem a condição do nosso belo país.

Vou cheio de curiosidade, sei que vamos ser recebidos e acomodados com hospitalidade e que não vai faltar convívio são (em terra) e passeios pela ilha, nestes intercâmbios entre os clubes todas as ilhas querem impressionar os visitantes das outras ilhas, e ainda por cima há um festival de música folclórica  o Maia Folk , que não é aquele folclore dos ranchos e gente desafinada e esganiçada a bater canas rachadas e massacrar acordeões, é musica popular de inspiração tradicional, como estes moços que vão lá estar, gosto disto:

Como a ausência é curta as ovelhas ficam em autogestão, amanhã de manhã ainda tenho preparações a fazer para as deixar todas com erva suficiente para estes dias, as galinhas vão ter que ser mais empreendedoras porque ninguém lhes vai dar milho, vão ter que esgravatar mais e procurar mais bicharocos e o meu vizinho vai cá passar para para alimentar cão e gato, que fazem companhia um ao outro, vou descansado.

 

O Bote da Baleia

Faz agora 30 anos que se caçou a última baleia nos Açores, nas Lajes do Pico. Foi o fim de uma história longa, heróica e muitas vezes dramática, felizmente está documentada e o património está cuidado, desde os vários museus que contam a história da faina e guardam os artefactos à memória viva dos muitos baleeiros que ainda estão entre nós, e no principal: as embarcações que são mantidas e navegam todos os anos, com a juventude do arquipélago misturada com os velhos lobos para se manter a arte e termos a certeza que os garotos de amanhã vão poder ver um bote da baleia a todo o pano e, quem sabe, navegar num.

Não há grandes dúvidas de que os melhores baleeiros eram dos Açores, não são os Açorianos quem o diz, são os estudiosos das maiores armações baleeiras de sempre, nomeadamente Ingleses de Liverpool e Americanos da Nova Inglaterra, até no livro que vem à cabeça de toda a gente quando se fala em baleias está escrito com todas as letras, os melhores e mais procurados eram os ilhéus dos Açores.  Baleeiros de Nantucket e New Bedford faziam quase 2000 milhas para Leste  até aos Açores antes de rumarem aos mares do Sul para épocas de caça que duravam anos, não só para refrescar e posicionarem-se melhor para a descida do Atlântico mas também para recrutar marinheiros, tantos quantos pudessem. Sabendo das condições de vida no arquipélago no século XIX e princípio do século passado, é normal que as fortunas ganhas com bravura em  mares distantes faziam sonhar muita juventude, que se aplicava ainda com mais empenho do que o que a necessidade já ditava. Um trancador (o que lança o arpão que apanha a baleia) açoriano que embarcasse numa escuna americana sabia que deixava a sua família orientada por meses e que dentro de poucos anos podia voltar rico, quem sabe até chegar às califórnias perdidas de abundância. 

Convido os mais curiosos a fazer uma simples busca no google tipo “baleação nos Açores” para aceder  a minas de informação detalhada, e para os mesmo interessados, uma visita às ilhas,principalmente o Pico,o Faial e as Flores, que sendo pequena mesmo assim figurou alto na história e teve a sua fábrica da baleia, hoje um museu impecável.

Desde que aqui arribei pela primeira vez que os botes da baleia me chamaram a atenção e pensava em navegar com eles e ver de perto o que seria a sensação de andar atrás de baleias em coisas daquelas. Os anos passaram, há 6 vim morar para cá, os botes na rampa do porto no verão, raramente os via sair. Fiz-me sócio do clube naval mas não pensava em participar, até porque me ausentava frequentemente no Verão. Além disso sei bem que posso viver aqui mais 30 anos que vou ser sempre continental, há uma linha. Não estou a protestar, acho perfeitamente normal e gosto muito de linhas, todos devíamos saber e poder traçar claramente as linhas e limites e ter noção  do que é preciso para os atravessar.

Há uns meses  perguntaram-me  do clube naval se este ano eu queria fazer parte de uma companha para ir às regatas na Horta e no Pico. Eu pensei:  a linha já foi afastada mais para diante! e como dei por encerradas as viagens oceânicas,disse logo que sim.Ficaram de  me dizer alguma “entretanto”.

Passaram meses e nada, e eu sou um gajo que não só gosta de um certo nível de organização como tenho uma noção boa do que é preciso para juntar, treinar e soldar uma tripulação nova num barco novo. Também conheço o nível dos marinheiros do Pico e do Faial, que têm dezenas de botes e montes de juventude e mestria que faz isto regularmente e com dedicação, estruturas e programas montados e anos de experiência. Aqui é tudo aleatório e incipiente, e eu sei bem que não  podemos pensar em ir ganhar a regata da Semana do Mar mas temos a obrigação de ir lá e não ser uma vergonha.Há uma grande diferença entre chegar em último e ser uma vergonha.

Como nunca mais me disseram nada tirei daí o sentido e felicitei-me por não ter logo começado a escrever um grande post sobre os botes da baleia. Eis que na semana passada outro conhecido meu diz-me que o clube naval lhe tinha confiado a responsabilidade de um dos botes para levar às regatas do Pico e do Faial, e se eu queria ir. Claro que sim, com os  pressupostos:  começávamos já a treinar; eu estou feliz tanto de oficial ao leme como a fazer lastro na borda; há que ver que nunca andei num bote e eles diferem imenso dos barcos a que eu estou habituado e, finalmente,  o objectivo não é ir de festa para as lendárias adegas do Pico e depois no dia arriar o bote, dar meia dúzia de voltas e abandonar, à maneira de um conhecido navegador solitário português, e regressar à doca confiante de que temos desconto porque somos lá das Flores, é esperado vir fazer número e marcar presença. O objectivo tem que ser  ir aprender o máximo com os que sabem mais que nós, acabar o percurso e que quem estiver a ver não diga “aqueles toleirões das Flores” e sim “não se amanharam nada mal, mesmo assim”.

Já saímos quatro vezes, dou-me bem com a companha toda, é um mundo novo para mim e temos muito trabalho pela frente,  muito que aprender uns com os outros e  estou radiante não só porque já naveguei como oficial num bote da baleia como isto me faz sentir aceite e parte desta terra. Não são as minhas perícias de vela que vão levar isto a um nível novo mas sei que tenho um contributo positivo a dar e de qualquer maneira é uma aventura. Uma aventura marítima na senda  de homens admiráveis em embarcações históricas, e ao fim do dia  subo o monte e vou para casa. Também sonhei isto quando era pequeno.

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PS: O cordeiro enjeitado vive,ainda não está safo mas aguenta-se.

As regras

Como já me parece normal e recorrente, o meu projecto da microcervejaria voltou à estaca quase zero.Fiquei um pouco  chateado mas já percebi há muito tempo que se me vou enervar e desanimar por causa do modo como funciona o Estado mais vale meter-me já na cama e nunca mais me levantar.

Re-capitulando, em 2011 instalei-me aqui com a ideia de me retirar na navegação profissional e criar uma micro cervejaria, coisa que tinha visto pela primeira nos EUA. Em Portugal começava a falar-se do tema, havia talvez duas cervejarias artesanais e meia dúzia de entusiastas, no resto do mundo ocidental já a actividade estava consolidada e se expandia.É sabido que aqui é sempre tudo ao retardador.

Comecei por dar os primeiros passos a aprender o fabrico. Para desconsolo dos que gostam de manter controlo sobre tudo e para confusão dos anti tecnologia, no nosso tempo podemos aprender literalmente qualquer coisa desde que tenhamos uma ligação à internet e não sejamos muito  básicos. O percurso do principiante é difícil , ainda mais a 1000kms do fornecedor  mais próximo e ao longo de anos fui cometendo todos os erros e evoluindo lentamente.Hoje compreendo o processo, tenho equipamento e sei fazer cerveja com malte, lúpulo,água e fermento.É uma cerveja que  não ganhará nenhum concurso mas que “escapa bem” e já tem muita procura.

Além dos erros, atrasos e trambolhões relacionados com o próprio fabrico há outro calvário diferente,o das instalações e licenças. “Calvário” é das palavras mais usadas por empresários que se querem instalar e licenciar. Primeiro o problema foi que ninguém sabia encontrar-me legislação e regras para a cerveja artesanal. Aqui informaram-me  de que só era artesanal  se utilizasse matéria prima local. Para a Direcção Regional  “artesanal” não se refere ao método, refere-se à origem dos materiais. Acho isso estúpido, mas eles é que são doutores, e se lhes pedirem que justifiquem isso vão receber o tal sorriso condescendente e ouvir “aqui é assim”.  Andei com as minhas tralhas de casa em casa, garagem em garagem, à procura de um espaço que não fosse apenas adequado mas que fosse legalizável. Isto demorou muito mais do que devia porque periodicamente saía da ilha por meses para uma viagem oceânica , deixando tudo em suspenso.

Fiz uma formação em Inglaterra e quando voltei a pegar na minha legalização fiquei espantado com a folha de requerimentos do edifício. Exigiam-me coisas como 3 metros de pé direito livre e chão com pavimento lavável e eu acabava de chegar de uma microcervejaria com chão de madeira, entre outras coisas. Conversa com o inspector do IRAE:

-Isto não é legislação europeia?

-Sim.

-Então não devia ser igual em todos os países?

-Devia.

-Então como é que uma microcervejaria pode ter chão de madeira em Inglaterra e em Portugal precisa de ter pavimento lavável?

-O que acontece é que Bruxelas faz regras e leis e envia para todos os países , que as analisam, discutem e propõem ou não alterações. Os ingleses e outros pediram alterações a essa lei, nós cá aceitamos e carimbamos as leis que vem de Bruxelas tal como estão , passa a ser lei do país.Não se lembra da história dos galheteiros?

Lembrava-me perfeitamente, uma demonstração cabal de como a burocracia reguladora mal informada e fanática provoca desperdícios gigantescos e inconveniências enormes. Para quem não está lembrado,a dada altura pareceu a algum gajo/a de Bruxelas que virem dois galheteiros para a mesa do restaurante era uma ameaça à saúde pública e os condimentos tinham que passar a vir em doses individuais.Até alguém repor a sanidade isto foi mesmo lei, é bom para nos dar uma medida das pessoas com quem se lida nestes assuntos.

Foram passando os anos , fui melhorando a cerveja mas não me via muito mais próximo de encontrar um sítio em que me deixassem trabalhar. Aluguei um imóvel que tinha sido talho e peixaria,mas larguei-o  passado uns meses. De todas as exigências há uma mais crítica, os 3 metros de pé direito livre, que aquilo não tinha. Não encontrava nada na ilha disponível com essas medidas e não tinha meios nem terreno  para construir de novo.

Há 3 anos este edifício , no começo da canada que vai dar a minha casa, ficou disponível.

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Demorei um ano a conseguir arrendá-lo, pensei que como tinha sido licenciado para recolher o leite dos produtores das freguesias antes de ser levado à fábrica podia ser facilmente renovado para continuar a lidar com produtos alimentares. Isso poderia ser verdade noutro país, mas em Portugal um edifício que serve para recolher leite cru acabado de ordenhar, juntá-lo em tanques até perfazer 500lts e depois bombá-lo para um auto tanque, já não serve para fazer cerveja. Os funcionários da Segurança Alimentar também não são capazes de me explicar isso.

Arrendei-o porque  se queria chegar a fazer boa cerveja precisava de praticar, e o espaço serve-me também de arrumação. Entretanto o dono do tal “ex talho” que eu tinha arrendado encontrou-me na rua:

-Ó sr Jorge, olhe que afinal podia ter ficado a fazer a cerveja lá no talho, ainda ontem vi na televisão uns tipos a fazerem cerveja numa cozinha, e vendiam-na!

Voltei aos fóruns e grupos da cerveja artesanal e eis que as coisas tinham mesmo mudado desde 2011: alguém reparou que a cerveja artesanal existe e é uma coisa boa e foi criado o regime dos pequenos produtores de cerveja: se produzirmos até 2500lts por ano não somos obrigados a cumprir todas as exigências de uma instalação industrial do tipo 3. Desafio qualquer engenheiro de qualquer área a explicar-me convincentemente porque é que uma panela de 50 litros a ferver precisa de estar numa sala com 3 metros de pé direito em vez de 2,5 e um exaustor, onde é que está a diferença, onde é que está o risco, onde é que está a justificação para se exigir uma coisa dessas. Não está em lado nenhum.

Entusiasmado por ver o meu país chegar ao século XXI no que diz respeito à cerveja artesanal, voltei a negociações com a cooperativa dona do imóvel. Tudo leva meses. Finalmente comunicaram-me que não me vendiam o prédio mas que em vez de contratos de aluguer de um ano me faziam um por 3 anos. Quaisquer obras tinham que ser da minha responsabilidade. Calculei que me valia  a pena avançar , mesmo que ninguém goste de fazer obras no que não é seu em 3 anos conseguiria finalmente trabalhar e ter receitas e se ao fim do período o aluguer não funcionasse, já não começava do zero.

Fui à Câmara Municipal, aqui temos a vantagem inestimável de que se queremos falar seja com um técnico seja com o Presidente basta lá ir e regra geral somos recebidos imediatamente. Podia começar as obras quando quisesse, era só fazer um ofício, e quanto à licença de utilização, é só levar a planta, a matriz e uma descrição da actividade e dão-me isso no mesmo dia. Arranquei para o Gabinete do Empreendedor, cuja vocação principal é organizar subsídios, para saber que documentos tinha que entregar para o licenciamento. Mostrei à senhora o regime especial dos pequenos produtores de cerveja. A senhora sorriu e explicou-me como se eu fosse muito burro que nos Açores a legislação regional tem precedência.Tal como no continente se regista uma empresa na hora no Portal do Cidadão e nos Açores não, também no continente podemos ser um pequeno produtor de cerveja mas nos Açores não. Incredulidade é a palavra.

Voltei a perguntar, custava-me a crer que houvesse discriminação, ainda por cima numa coisa tão básica. A senhora deu-se ao trabalho de ir buscar a legislação relevante e mostrou-me  por exemplo que a Direcção Regional de Economia até regula quantos ovos um  produtor pode produzir para ter acesso ao regime dos pequenos produtores mas que não quer saber da existência de pequenos produtores de cerveja para nada.

Como não existe regime especial, qualquer aspirante a micro cervejeiro como eu tem que cumprir as regras de um estabelecimento industrial do tipo 3, sem apelo nem agravo. Nos Açores, claro, porque felizmente no resto do país a explosão e crescimento da indústria da micro cervejaria e cerveja artesanal deve-se sobretudo aos desbloquear da criatividade e trabalho de muitos , não os obrigando a ser industriais.

Não sei se é por aqui estarem habituados a indústria a sério e não quererem contemplar pequenos.Não sei se é por ignorância pura ou se é por vontade de ser diferente e mostrar que aqui quem manda são eles. Sei é que não posso fazer nada legalmente enquanto não tiver um espaço com os malfadados 3 metros de pé direito livre mais coisas imprescindíveis à segurança do processo como uma porta para as matérias primas entrarem e outra para o produto sair.Sabe-se lá o que poderia acontecer se o malte entrasse pela mesma porta por onde saem as garrafas.

Os orçamento para obras no antigo posto do leite supera em muito o valor do próprio edifício, já para não falar da complexidade da coisa, especialmente o rebaixar 40cm do piso. Fico com o sítio alugado, porque  a renda é barata e me dá jeito como arrecadação. Estou à procura, com um certo optimismo, de um canto de 30m2 que possa comprar para construir uma coisa de raiz, espero fazer um cubo, um cubo quanto mais feio melhor para que fique como testemunho de um país que prefere que se faça novo do que se recupere o velho, para poder dizer que queria recuperar e voltar a tornar produtivo um edifício existente mas dadas as regras , peguem lá este cubo roxo  à beira da estrada. Está regulamentar.

Não tenho dúvidas nenhumas de que daqui a poucos anos , será mais ou menos quando eu terminar todas as obras e estiver  a respeitar todas as regras, o Governo Regional vai chegar a este século e mudar a lei, harmonizando-a com a da República. É muito provável que até vá mais longe e torne mais simples a vida aos pequenos produtores nos Açores do que no continente. Será talvez pela mesma altura em que o filho ou primo de um deputado se interesse pela micro cervejaria como negócio.  Já estou mesmo a ver os títulos dos jornais e das entrevistas : governo congratula-se com o crescimento da cerveja artesanal nos Açores, tal como se congratulam com o crescimento do turismo devido à liberalização do espaço aéreo, os mesmos que passaram 10 anos a impedi-la.

Fiz uma página no FB para a Ovelha Negra porque tenho noção do valor e do que é preciso para criar uma marca e um mercado. As palavras do Gabinete do Apoio ao Empreendedor, para além de me explicarem que aqui é assim porque aqui é assim , foram :  tenha cuidado, já ouvi dizer que foram caixas dessa cerveja para fora…. o nível de interesse sobre o meu negócio, as minhas actividades correntes e as minhas perspectivas não passou disto.

Estamos bem entregues, bem aconselhados e bem orientados.

Tinha duas resoluções para o ano novo, a primeira era organizar uma rotina semanal dedicando certos dias a determinadas tarefas.Tirando as quartas feiras,que continuam a ser  o dia de fazer um lote de cerveja, o plano começou logo a ser  desrespeitado em Março. A segunda resolução era ler um livro do Saramago, já está e não doeu nada. Li o “Ensaio sobre a lucidez” , não dou o tempo por  mal empregue e fiquei finalmente a conhecer o virtuosismo do vocabulário mas vão passar-se décadas até pensar em repetir a experiência.

Uma coisa que não fazia parte das resoluções de ano novo mas calhou assim foi o yoga, e estou muito satisfeito porque vamos quase a meio do ano e persisto, todas as segundas há aula. Não me parece que tenha evoluído por aí além e muito mais do que fazer os exercícios gosto do bem que me sinto quando acaba. É para continuar.

Este ano foi a instrutora de yoga que me tosquiou as ovelhas, aqui está uma frase que tenho a certeza de que não lêem muitas vezes .

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Para não dar azo a especulações, a moça é comprometida,não comigo, e não foi por andar atrás de uma maneira de a encontrar fora do yoga, foi porque nos cruzámos uma manhã quando eu ia com uma das minhas ovelhas e uma cria e ela ia de tesoura na mão a caminho de tosquiar outras ovelhas,  combinámos. Uma das razões pelas quais crio ovelhas é porque acho tudo bonito , assim fica o quadro mais completo.

Está confirmada a chegada em Julho de cinco ovelhas de raça apurada e em Janeiro, quando se fazem os “recenseamentos” , vou ter 12, o que me dá direito a um subsídio estatal . Não tenho problemas nenhuns em cumprir o meu papel na economia recebendo uma subvenção do Estado, pela primeira vez na vida. Se dão subsídios para a criação de ovelhas e se eu crio ovelhas seria estúpido se não aceitasse o dinheiro, questionável seria se começasse a criar ovelhas só para ter o subsídio.

Mantendo doze ovelhas o subsídio é o suficiente para pagar a segurança social, vou receber  do Estado e pagar  ao Estado quase o mesmo valor . Um libertário pegava nisto e explicava que eliminando o Estado do meio eu  beneficiava: não recebia subsídio mas tinha à mesma o lucro da exploração das ovelhas e ficando desobrigado das contribuições podia poupar autonomamente para a reforma. É provável, mas não vai acontecer em lado nenhum em nenhum futuro próximo e  temos que jogar o jogo como ele foi inventado e nos é imposto.

O Presidente está nos Açores, como não há manifestação popular em que ele não ache apropriado imiscuir-se , veio às festas do Senhor Santo Cristo. Como português nunca fui bem habituado com o nível de  oratória e retórica dos políticos, não sei se são os jornalistas que são de menos e nunca destacam a frase bem conseguida e inspiradora se são os próprios políticos que não dão para mais.Talvez tenham todos um Demóstenes latente mas achem que dado o nível do público, não é preciso grande esforço.

Acabado de chegar a esta grande terra com grande gente, antes mesmo desse outro momento espiritual que projeta essa terra e essa gente em todo o mundo”. Bom, nem isto é uma grande terra nem a gente é maior ou mais pequena que as outras, e os momentos espirituais  a que se referia o Presidente eram o plantar de uma árvore e uma  procissão. O Santo Cristo não projecta grande coisa além de devoção e saudade nas comunidades Açorianas, que não grandes nem são em todo o mundo , mas isso é o menos, o exagero e a lisonja são  parte integrante destes discursos de afectos.  Aqui há uns meses ouvi dizer que o Presidente vinha cá à ilha, se calhar é desta vez, vou começar a fazer a lista das possíveis banalidades, lugares comuns, exageros,generalizações e comentários básicos que vão ser as suas declarações, para comparar. As pessoas gostam e não pedem mais, eu já o disse e repito, das melhores coisas que fiz na minha vida de eleitor foi votar Henrique Neto, se soubesse que tinha contribuído para estas figuras retorcia-me de remorso.

No outro dia olhei para uma  televisão e estavam em directo de fora de um hotel onde estava hospedada a Madonna. Vi aquilo vários minutos, no rodapé lia-se “Madonna procura casa em Lisboa” e a repórter repetia isso à porta do hotel. No dia seguinte um jornal desportivo noticiava que o filho da Madonna tinha sido apanha bolas num jogo do Benfica e outro informou-me de que  a Assembleia da República homenageou o Salvador Sobral.

O meu país nunca me parece tão pequeno como quando olho para a televisão.

Incubemos, então.

Esta é a minha terra adoptiva , o concelho mais ocidental da Europa, esquecido no meio do Atlântico , mais longe de Lisboa do que Paris ou Londres e onde viviam à altura do último censo, 1500 pessoas. O concelho tem 5 freguesias pelo que a população permanente da vila  andará mais pelas 1000. A seguir ao Corvo é o concelho menos populoso de Portugal,e nesta foto vê-se a vila quase toda:

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Esta manhã fui surpreendido por uma notícia da Câmara Municipal, lançaram um concurso público para a construção de uma incubadora de empresas. Já tinha ouvido falar na intenção mas achava que, dada a nossa dimensão, mercado e potencial, esta incubadora seria instalada nalgum dos vários espaços municipais sub utilizados ou mesmo fechados e que seria uma coisa à nossa escala, mais focada em dar apoio técnico e administrativo a ideias e empreendedores, coisa que se faz com dois ou três gabinetes ligados à net e pouco mais.

Por momentos esqueci-me de que estava em Portugal  mas fui lembrado disso pelo projecto da incubadora, que é este:

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Numa ilha em processo de desertificação, com as acessibilidades e comunicações mais difíceis de todo o país (excepto o Corvo) , onde o Estado  é, de muito longe, o maior empregador e onde o sector com mais futuro é o turismo, onde não há muito que incubar, de onde os jovens têm que sair para se irem  formar e raramente voltam e onde há excesso de edifícios vazios e desaproveitados, vamos  pedir dinheiro emprestado para investir  centenas de milhar nesta obra e juntar à factura pública mais uns milhares em custos mensais fixos . Lembrem-se : temos 1500 pessoas no concelho, 3500 na ilha toda.

Quando há uns meses ouvi falar do projecto da incubadora fiz logo conta de ir falar com o presidente da câmara e dizer-lhe que estou muito interessado em que a  Ovelha Negra  possa ser incubada, entendendo por isso beneficiar de apoio técnico e administrativo para navegar os meandros das leis e regras e processos de legalização e licenciamento.Isto consegue-se com umas horas com um técnico num canto de um gabinete.  Nunca me passou pela cabeça que se estivesse a planear uma coisa desta dimensão ou que se achasse que isto era funcional e necessário.

Espero muito estar errado mas aposto com quem quiser que o investimento e custos permanentes desta incubadora vão superar em muito os rendimentos da soma das empresas que ela vai incubar. Olhando para isto por outra perspectiva,aproveita-se o crédito barato pago a perder de vista pelo que parece que não custa nada, dá-se trabalho a uma construtora, faz-se uma obra, sonho e motivação de todo o autarca, e criam-se três ou quatro postos de trabalho , equivalentes aos vários que do género que já temos por cá: pessoas que tomam conta de equipamentos sem uso.

Esta câmara, do PS, tem o meu voto principalmente porque sei que os outros não fariam diferente , mas com esta da incubadora desiludiu-me em grande. Espero estar a ser Velho do Restelo e que daqui por dois anos as Lajes fervilhem de actividade empresarial e que a incubadora esteja cheia de boas ideias a crescer. Também espero que o Sporting seja campeão europeu em 2019, as probabilidades  são semelhantes.