Sobre a Fauna

Para me lembrar de que está o Inverno à porta, ontem pela primeira vez tive que sair de casa debaixo de vento forte e chuva grossa para ir tratar das ovelhas. Para me lembrar das características do clima destas ilhas, assim que voltei a casa, ensopado e mal disposto, abriu o céu, brilhou o sol e tivémos um resto de manhã radioso, para à tarde voltarem os aguaceiros mas já sem vento. Cliché Açoriano #3 : as 4 estações num só dia.

As ovelhas, além da despesa e do trabalho que ultrapassam em muito a rentabilidade, dão-me preocupações. Tenho agora 11, uma com diarreia, já este ano me morreu outra, fizemos-lhe a autópsia e o veterinário não conseguiu descortinar a causa da morte. Tenho uma que teve que ter uma pata amputada e agora, ao contrario das outras, tem  muito medo de mim. As ovelhas reconhecem rostos, todo o tempo em que teve a pata doente eu dava-lhe injecções e  limpava-lhe a ferida, segurei-a quando se fez a cirurgia e depois mudava-lhe o penso, tudo coisas dolorosas portanto a ovelha associa-me a dor, obviamente que não percebia o que eu estava a fazer nem se convencia com o que eu lhe ia dizendo e agora  quer-me é longe. Tenho curiosidade em saber se vai ser sempre assim ou se à medida que os anos passarem ela perde o medo.

Há uma história a que acho muita graça e que já vi muita vez repetida como se fosse original, de quem ouviu mesmo isto : num parque público está um gajo com um cão e às tantas ouvem-no a dizer alto NÃO! e depois baixinho:   ja tínhamos falado disto…rio-me sempre porque falo muito com a minha bicharada. Ao gato, que é muito vadio, é  quase todos os dias quando o encontro:  Ó Moby, tás aí? e ele olha para mim com aquela expressão de gato que poderia perfeitamente querer dizer o que é que te parece? e de cada vez que ele volta a casa pergunto-lhe onde é que andaste? já quase como reflexo. Depois rio-me e penso que enquanto tiver consciência de que estou a falar com um bicho que não me responde nem percebe, não estou a ficar maluco.

Já com o cão as conversas são mais do género do outro: já tínhamos combinado, pá! ou já devias saber bem que não. O cão tem seis anos, nunca , mas nunca comeu nada da mesa mas isso não o impede de se ir sentar a olhar para mim quando estou a comer, na esperança de que caia alguma coisa.Nunca caiu nem vai cair, ele só come na tigela dele ou na cozinha, onde aí sim, de vez em quando cai alguma coisa, mas esperar ao meu lado quando estou à mesa chateia-me. Mas tás à espera de quê? Ele não perde a esperança.

A antropomorfização  é uma realidade muito presente nos animais de estimação  (já vi escrito que agora  em  Portugal também se começou a dizer pets, se alguem me disser isso pessoalmente não vai ser bonito de ver) e agora há uma corrente animalista que acha incorrecto e porventura opressivo que nos designemos como donos dos nossos animais pelo que o termo correcto é tutor. Não, aqui não, nem em sítio nenhum que eu conheça e respeite, eu por exemplo tenho três galinhas que são de estimação e não minha tutela, são minha propriedade tal como era o galo que agora está na arca congeladora porque nunca se soube comportar decentemente.  Os bichos compram-se, vendem-se , criam-se e são nossos, a posse não tem nada a ver com o modo como se criam e tratam, dizer que não somos donos é equiparar os bichos a pessoas com um destino, vontade, personalidade, potencial   e caminho próprio, isto talvez vá ser verdade no futuro mas comigo esse futuro está longe.

Duas dessas galinhas só estão vivas porque lhes acho alguma piada e vão limpando a horta, porque foram compradas (não apareceram aqui de livre vontade nem me escolheram para tutor) para pôr ovos. Por razões que não conheço deixaram de pôr ovos há meses e os ovos que puseram na vida toda não pagavam o que já gastei em rede de galinheiro quanto mais em milho. Voltei a comprar ovos e deixei de me preoucupar, ficam para ali, também não é o milho que elas comem que me vai arruinar.O galo foi executado porque era mau como as cobras, além de me perturbar o sossego aos gritos ao pé da janela atacava tudo o que se mexesse, até o cão, perdi a paciência. Tenho duas gaalinhas no galinheiro e outra que é mesmo de estimação, primeiro porque também foi criada desde pinto, depois porque e linda , de um preto brilhante , uma beleza ao pé das outras pindéricas de pescoço pelado . Depois porque desde pequena que as outras duas lhe fazem a vida negra, sempre a atacá-la, a não a deixar comer, enfim, umas miseráveis. Isto teve um belo desenvolvimento, que foi que a preta cresceu e consegue voar. As outras duas não, estão no galinheiro, a preta vai lá quando há distribuição de milho, come e vai-se embora, é livre. Já a vi em cima de árvores e fiquei muito impressionado, mas o que acho mais piada é que é amigalhaça das ovelhas, anda quase sempre com elas, é muito engraçado.

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A história das galinhas mais velhas infernizarem a preta lembra-me de outra ideia falsa que é a da pureza e uma certa bondade do mundo natural, muito cara aos hippies e aos seus sucessores, aquela noção que equipara o natural ao bom e com a qual eu sempre tive problemas. Na Primavera passada uma das ovelhas pariu gémeos e recusou um, partia o coração ver o cordeiro desesperado a tentar chegar-se à mãe e ela a afastá-lo, às patadas se fosse preciso.Isso também é o mundo natural, ninguem sabe porque é que isso acontece mas acontece. É bom que nos lembremos, com todo o nosso amor e dedicação aos animais, da Lei da Selva que e muito real e  não se chama assim por acaso. Existem muitos exemplos de cooperação entre animais mas são todos explicáveis na logica da perservação do grupo e reprodução da espécie, é esse o mecanismo, que eu saiba não há outro e se há, espero conhecê-lo porque estou sempre desejoso de aprender sobre estes temas.

Se eu morresse aqui  e ninguém viesse buscar o cadáver, em menos de 48 horas  o meu Rofe e o meu Moby queridos começavam a comer-me, em menos tempo do que isso  se houvesse sangue e feridas abertas. Isto é um bocado macabro mas a Vida é muitas vezes macabra , os bichos não se compadecem nem têm as nossas medidas nem noções, isto é óbvio mas não para todos.

 

Ainda sobre bichos, soube hoje que os toureiros e as touradas não pagam IVA, e acho uma vergonha. Soube porque o Bloco de Esquerda (que volta e meia me lembra de que mesmo um relógio parado está certo duas vezes ao dia) apresentou uma proposta para acabar com isso. Não consigo encontrar nenhuma razão para isentar toureiros e touradas de pagar IVA, e mesmo que tivesse sido  uma medida introduzida   discretamente por debaixo da mesa há anos, aqui estava a oportunidade de corrigir isso, entre muitas outras razões porque estamos em 2017. A proposta foi chumbada por todos os outros partidos. Que o CDS, a casa natural dos marialvas, votasse contra, entendo. Que o PSD votasse contra, também não surpreende muito. O PS votou contra porque a isenção foi dada por eles no tempo do Sócrates e eles não só não têm vergonha do que andaram a fazer nessa altura como até têm um certo orgulho. Agora porque raio é que o PCP, que até se coliga com os Verdes, é a favor da isenção do IVA para toureiros e touradas já é para mim mais misterioso…a menos que a razão seja a relutância em viablizar alguma coisa do Bloco.É sabido que entre os comunistas a ideologia vem antes de tudo.

Até entendo e aceito que não se proíbam touradas, mesmo que aquilo me repugne. Que não paguem IVA , quando neste país até os medicamentos de doenças crónicas pagam, já é um bocado ofensivo. Muito gostava eu de ver os partidos a explicar a razão de terem votado contra esta proposta do Bloco.

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Sexta Feira Negra

Não percebo bem porque é que não começámos já a celebrar o Dia de Acção de Graças dos americanos, que se assinala hoje, visto que existe muito potencial comercial de comunicação (ie, jornais e TVs a encher chouriços) e mais um  feriadozinho nunca fez mal a ninguém.

Provavelmente ainda nenhuma luminária importou e promoveu o Dia de Acção de Graças por causa dos tons religiosos da coisa, importa-se tudo quase indiscriminadamente mas há limites, uma tradição que junta famílias em agradecimento pela sorte que têm não tem muito apelo no nosso pós modernismo e iam chover críticas. É uma tradição não só do heteropatriarcado como tem laivos de colonialismo e outros ismos, de Acção de Graças ninguém quer saber até porque hoje em dia, como descobrimos que temos direito a tudo e tudo nos é devido (sim, você merece), não faz sentido agradecer a nada nem a ninguém, muito menos em família, essa outra construção artificial que só serve para perpetuar estereótipos .

Hoje não há Acção de Graças mas amanhã já é Black Friday , uma ocasião que  prezo porque me permite criticar ao mesmo tempo cinco coisas que detesto, a saber:

  • A pequenez  de importar tradições estrangeiras sem a mínima relação com o nosso país
  • A parolice de usar nomes em inglês a torto e a direito.
  • O consumismo desenfreado e a gratificação por via da aquisição de objectos.
  • A vacuidade dos meios de comunicação social que transformam  operações comerciais  em assuntos.
  • A mentalidade de manada que faz com que muitas pessoas  gastem  dinheiro a comprar coisas porque veem os outros a fazer o mesmo.

Amanhã então há que encontrar tempo para ir às compras, quer se precise de alguma coisa quer não, mas que digo, é claro que se precisa, a distinção entre bens necessários e bens supérfluos já se esbateu há muito e tenho a impressão de que uma boa campanha publicitária consegue sempre transformar seja o que for numa coisa que faz falta.

No dia a seguir, o Sábado Lilás , vamos poder ver notícias sobre trânsito infernal, poluição, dificuldades económicas, endividamento de alto a baixo, desintegração social, desigualdades e esgotamento dos recursos, mas tudo isso empalidece perante a possibilidade de passar duas horas no trânsito e outras tantas num barracão com ar condicionado cheio de luzes e gente para comprar um plasma por €432, 16% de desconto, imperdível. Depois , já a usar aquele casaquinho que só custou 65€ e que é o sexto dos casaquinhos que teem lá num armário a abarrotar, vão poder pronunciar-se sobre a desgraça das crianças do Bangladesh que trabalham na indústria do vestuário e  de como as pessoas (as outras) só ligam às aparências.

 

 

 

Um Professor

Sou filho de um professor e se sei pensar, escrever, ler e contar devo-o não só a ele mas a muitos dos professores que tive. Muitos outros andaram lá a ocupar tempo e espaço, eu deixei de ser aluno há mais de 20 anos mas tenho quase a certeza de que hoje existe o mesmo rácio de professores competentes para professores incompetentes. Qual é exactamente esse rácio? Impossível saber , dado que os sindicatos, com a  justificação absurda de que é difícil, injusto e incerto, se recusam a discutir e implementar um sistema de avaliação funcional,transparente e consequente. A única explicação que encontro para isto é a vontade de proteger os incompetentes e desqualificados.

Como se isso não bastasse, defende-se que para ter uma carreira na Educação basta entrar e lá estar, vamos subindo de escalão à medida que os anos passam, cristalizando uma ideia  que toda a gente que já andou na escola sabe que é falsa: quanto mais velhos, melhores os professores e mais devem ganhar.

Não me vou alongar muito sobre a curiosidade que é ver a dra. Mortágua a apoiar a última greve dos professores, greve que segundo quem a convoca serve  para protestar contra a situação provocada pelo orçamento votado e aprovado pela dra Mortágua. Isto é suficiente para uma pessoa poder pensar que está instalada a loucura mas depois lembra-se do Orwell, não só do que ele antecipou e descreveu mas, muito mais sério, que há pessoas, incluindo as Mortáguas, que citam o Orwell sem se darem conta que também era deles que ele estava a falar quando nos explicava conceitos como o duplopensar . Na cabeça dessas pessoas podemos apoiar um governo e votar-lhe os orçamentos às terças e quintas e às segundas e sextas ir para a rua protestar contra o governo, isto ata-me um nó na cabeça mas tenho a certeza de que há argumentos a favor e que demonstram, de um determindado ponto de vista, que é uma atitude não só legítima como necessária e louvável.

Falo dos professores porque ontem participei numa discussão que ainda me deixa incrédulo, não só por ter participado nela  activamente como pelo tema e teor. Então um amigo partilhou no facebook uma notícia da SIC sobre a conferência organizada pela Sociedade da Terra Plana. 

Podem estar a pensar: Como? Li bem,  isso existe? Não estamos em 2017? Pois é verdade, existe, e eu encolhi os ombros e passei à frente, mais uma americanice. Passado pouco tempo aparece-me outra vez a discussão, porque um amigo do meu amigo tinha comentado, com convicção, que até fazia sentido, estavam a descobrir-se muitas coisas e muitos argumentos em favor da teoria da Terra Plana. Meti-me na conversa, num espírito de galhofa. Tal como um creacionista se arruma com uma só palavra, fósseis, também um terraplanista, na ocasião improvável de encontramos um,  se devia poder arrumar com uma outra: satélites. Passado pouco tempo outro amigo manda-me uma mensagem:

– Não te lembras desse gajo? É o não sei quantos.

-Ah, já me lembro, coitado.

-Queres saber a melhor?É professor.

-Não acredito.

-Melhor ainda: professor de Geografia

Fiquei de olhos esbugalhados. Não podia ser. Fui confirmar. É verdade.Levei a discussão mais a sério e fui ficando cada vez mais chocado, porque o homem é claramente uma pessoa educada, articulada e que sabe argumentar, mesmo que os argumentos sejam inanes sabe expô-los e sabe discutir civilizadamente. A discussão é uma espiral de absurdos, cheguei a introduzir desenhos, sim , desenhos e a minha experiência de navegação oceânica que, tal como a de todos os navegadores desde o século XVI, só é possível porque existem métodos baseados num  facto conhecido, observável e demonstrado matematicamente e empiricamente desde o Pitágoras, há mais de 2500 anos: a Terra é redonda.

Não ponho aqui o link dessa discussão porque não quero estar a  identificar e humilhar o homem publicamente mas se alguém tiver real interesse ou duvidar disto, é só pedir e posso mandá-lo em privado .

Já hoje enviei uma mensagem à escola onde ele lecciona (e que divulga publicamente no seu perfil do FB) a pedir que me informem de como e onde posso apresentar uma queixa formal. Sou um defensor acérrimo da liberdade de se acreditar no que quer que seja que achemos plausível ou simplesmente agradável ou confortador. As convicções e crenças de cada um, mesmo que contrárias à realidade visível, são precisamente de cada um e se não causarem dano a terceiros, haja liberdade de acreditar à vontade. A questão neste caso é  o dano potencial. Este indivíduo, que renega a Geografia , aparece regularmente frente a miúdos em formação para supostamente lhes ensinar Geografia. Ele não refere os lunáticos da Terra plana como curiosidade ou história caucionária para nos lembrar dos perigos da disseminação da informação falsa e sem fundamento. Refere a Terra plana como uma hipótese, e isso não pode ser, tal como não se pode ensinar a Evolução como uma de entre várias teorias possíveis para explicar o Homo Sapiens, pelo menos no Ensino Público.

Não tenho filhos, tenho um sobrinho que nesta altura anda a construir robots no Técnico pelo que já passou o perigo de ser contaminado pela idiotia e outros cinco que  estão para lá do que eu possa fazer, e claro que não tenho nada que me meter na educação deles, mesmo que seja fortíssima em mitologia sem ser vista pelo lado filosófico.Não tenho por isso interesse directo no tema mas sou um cidadão que depende, como todos, das gerações que se estão a educar e nos vão guiar e governar. Deixa-me aterrorizado que se permita literalmente a qualquer pessoa com uma licenciatura ser professor em Portugal. Isto levou-me a imaginar (até dormi mal) a quantidade de coisas que se transmite às crianças por essas salas de aula fora, sem que ninguém , muito menos o sindicato que devia ser o líder dessa luta, diga :

-Temos que conhecer, analisar e avaliar bem as capacidades e convicções das pessoas que se propõem a ensinar as nossas crianças, porque ser professor não é para qualquer um.

Se este indivíduo fosse professor de Português ou de Musica eu não tinha grandes objecções a fazer, pode-se ser ignorante em Ciência e incapaz de raciocíno lógico, pode ser-se crédulo e propenso a ser enganado e apesar disso ser um excelente especialista na disciplina e bom a comunicar com crianças. Um professor de Geografia que admite que a Terra possa ser plana , isso já não se pode tolerar. Já não se devia tolerar.

 

Reflexão Dominical

Aqui há uns meses, como prova de que nunca estamos verdadeiramente a salvo em lado nenhum, um casal de Testemunhas de Jeová chamou-me ao portão, ou melhor: o cão começou a ladrar, fui ver quem era, eram as Testemunhas de Jeová. Propunham-me alguns minutos para falar sobre Jesus, olhei para eles como se me tivessem proposto  fazer-me sócio do Benfica e recusei, resistindo à tentação de os convidar a discutir comigo por exemplo a viagem dos pinguins e dos koalas desde o Monte Ararat até à Antártica e à Austrália depois do Dilúvio ou o episódio em que  Deus mandou  dois ursos despedaçar 42 crianças  porque gozaram com a careca do profeta Eliseu  (Livro dos Reis, 2, versos 23 e 24, que isto não se inventa).

É de notar que os ateus não se organizam nem andam por aí a fazer proselitismo, primeiro porque não é fácil chegar ao pé de uma pessoa e dizer “venho-lhe falar do nada “, depois porque é difícil, dado que não há organização de espécie nenhuma, ganhar dinheiro com o ateísmo, ao contrário da mina que sempre foi a religião. Isso pode dever-se ao facto de que se  uma pessoa acredita no Antigo Testamento não é difícil fazê-la acreditar que tem que dar dinheiro ao mensageiro, do mesmo modo que se uma pessoa é céptica e desconfiada tem muita dificuldade em pagar por algo que não se explica nem demonstra nem vê.

Ainda ontem assisti aqui a uma peça de teatro  (não só há ocasionalmente Testemunhas de Jeová como  há ocasionalmente teatro, isto é muito mais do que se possa suspeitar), uma adptação de uma peça chamada Nunca Nada de Ninguém, de Luísa Costa Gomes, à qual o encenador decidiu, por razões que no meu filistinismo  me ultrapassam largamente, juntar uma secção em que conta a história de Job, um abastado e devoto lavrador a quem Deus resolve testar tirando-lhe tudo,  incluindo os filhos, por sugestão de Satanás. Estes testes divinos são muito pedagógicos, o pobre Job nem sequer tinha dúvidas na sua fé mas pelo sim pelo não, talvez num momento de aborrecimento, o deus do amor e misericórdia achou que devia  dar-lhe cabo da vida, para ver a reacção. Entre este deus de amor e um , sei  lá ,  Ahura Mazda dos Persas , antes o Ahura Mazda que ao menos acreditava quando os homens lhe diziam que eram fiéis, sem ter que os reduzir a nada  só para ter a certeza.

Tirando perturbações mentais e lavagens cerebrais como as que evidenciam seitas e cultos como as Testemunhas de Jeová, hoje em dia a maioria das  pessoas , mesmo religiosas, já percebeu que o Antigo Testamento é mitologia simbólica . Os milhões de católicos que vão acorrer às igrejas em mais um Domingo acreditam por exemplo na Evolução e na universalidade da noção de Bem, ou seja, que um árabe ou um yanomani pode ser bom e fazer o Bem mesmo não estando  inscrito no colectivo .  Ainda assim, existe uma grande variedade de premissas e dogmas dos católicos que não resistem assim lá muito bem a uma análise racional e acabam a ter que  ser defendidos pela Fé. Não é por nada que a Fé é um oposto da Razão,  a capacidade de crer sem provas e sem aplicar um raciocínio lógico.

Acabei de escrever um email a um dos meus melhores amigos, católico, a propôr-lhe um exercício para realizar amanhã na missa, e depois lembrei-me de o propôr aqui também. Este amigo é doutor, daquela espécie rara que é doutor por ter feito um doutoramento, e em História, pelo que se ri comigo a bom rir de coisas como a Arca de Noé. Também porque tem um sentido de humor parecido com o meu e passávamos muito tempo a dizer parvoíces e rirmo-nos delas. Desde que vim para aqui morar que só o vejo muito raramente, uma vez por ano de fugida, e desta vez tínhamos combinado que quando nos encontrássemos íamos falar de Deus a sério, sem sermos ridículos. Sucede que já sei que não vai haver tempo,  provavelmente quando nos encontrarmos no mês que vem vai ser mais numa ocasião curta que só vai dar para beber umas minis e falar de futebol e política com o resto da rapaziada, será difícil uma discussão séria sobre isto. Sendo assim , e como gosto de encorajar dúvidas , propus-lhe o seguinte exercício:

Que amanhã na altura de recitar o Credo faça uma pausa mental e considere bem cada frase e cada palavra que está a dizer.

A liturgia é feita de fórmulas e rituais, muitos deles com séculos e séculos. Toda a gente baptizada e criada no catolicismo como eu aprende a repeti-las desde criança, torna-se uma coisa automática que se recita de cor. A minha transição de católico a agnóstico (considerei-me agnóstico durante muitos anos até que ficar em cima da cerca para ver o que acontece deixou de me parecer a atitude certa)  deveu-se a uma espécie de epifania num Domingo, depois de ter assistido a cerca de quinhentas missas sem pensar duas vezes no que estava ali a dizer, porque tinha aprendido a responder desde pequenino. Foi como se me tivessem dado uma bofetada na cara, porque no fim de contas eu não acreditava que Deus foi o criador do Céu e da Terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis e  que Cristo nasceu do pai antes de todos os séculos; não professava um só baptismo para a remissão dos pecados, nem sequer concordava com a noção de pecado. Já não acreditava, conforme ampla evidência, na santidade e unidade da Igreja  e certamente não esperava a ressurreição dos mortos, esta última por razões mais ligadas à Física e à Biologia. Se, pensando bem, eu não cria nestas coisas, como é que era capaz de me levantar ali no meio de dezenas de pessoas e afirmar em voz alta que acreditava?

Seguiu-se uma curta fase em que passava as missas em silêncio até que finalmente me deixei de hipocrisias.

Lembremo-nos que até ao Concílio Vaticano II, em 1969, a missa católica era celebrada em Latim. Não tenho dados nenhuns sobre isto mas suspeito muito de que a percentagem de fiéis que sabe e consegue acompanhar Latim, fosse  em 1600 fosse em 1969 ou que seja hoje, é muito, muito reduzida. Não concebo nenhuma razão para que se celebre um ritual numa língua que os participantes não compreendem, nenhuma além de manter a exclusividade da interpretação e explicação, desencorajar  questões e estabelecer a autoridade  do clero.

Tal como disse ao meu amigo, se depois de pensarem bem nas palavras do Credo concluírem que sim, que realmente, conscientemente e inequivocamente creem naquela lista de coisas, vão ficar com a fé reforçada e retirar paz, confiança  e satisfação de proclamar em público “É nisto que eu creio”. Caso contrário, é ir fazendo mais   perguntas  e não ter medo das conclusões.

Receita I

No interesse da diversificação dos temas deste blog, e como parece que o estilo de vida, lifestyle, é uma tendência, trend, muito popular, decidi  publicar, to publish, algumas receitas dos  pratos que cozinho mais frequentemente, porque me dão muitas vezes  vontade de rir e porque há pessoas que têm curiosidade sobre o meu dia a dia e os meus hábitos.

Essa segunda parte é falsa, ninguém além da minha mãe quer saber do que eu cozinho e como mas ninguém querer saber nunca foi obstáculo antes e não vai começar a ser agora. Cá vai a primeira, foi o meu jantar de hoje e em princípio vai ser o de amanhã.

Frango com Molho Bechamel

Ingredientes- Frango, arroz e molho bechamel

Dificuldade- Não

Tempo de praparação-  Algum

  • Escolher um pedaço de frango entre as 200g e o meio quilo, que apresente a mesma cor em toda a superfície e não esteja mais de uma semana além do prazo de validade.
  • Cortá-lo aos pedaços pequenos e regá-los com limão sintético que vem em frascos, juntando uma pitada de sal e  duas de pimenta preta.
  • Descascar e cortar aos pedaços uma cebola de tamanho normal.
  • Verter umas golfadas de azeite numa frigideira, acender o lume e passados 2 minutos e 16 segundos juntar a cebola.
  • Enquanto a cebola refoga, pôr a aquecer dois copos de água num tacho pequeno,médio ou grande.
  • Quando levantar fervura, juntar um copo de arroz, daquele arroz  que se vende em grãos, e mexer bem. Quanto maior o tacho mais vezes é preciso mexer.
  • Deitar os pedaços de frango em cima da cebola e mexer bem, deixando tudo em lume  entre o brando e o médio/forte.
  • Quando o arroz parecer seco, apagar o lume e pôr a tampa no tacho.
  • Passados 7 minutos de cozedura do frango, abrir um pacote de molho bechamel parmalat (para melhores resultados agitar o pacote antes de abrir) e misturar  no frango, mexendo sempre com uma colher de pau. Se não puder ser com uma colher de pau pode ser um garfo, de metal ou plástico branco.
  • Deixar tudo a ferver mais um bocadinho ou dois, consoante a preferência.
  • Quando o frango parecer  que já está bom , deitar o conteúdo da frigideira dentro do tacho do arroz e misturar  tudo muito bem até se obter uma consistência homogénea e uma distribuição equilibrada do frango pelo arroz.
  • Servir com um individual de verga por debaixo do tacho e juntar tabasco à medida que a insipidez ser for tornando mais notória.

Uma refeiçao rápida, saudável e simples, que apela ao paladar de um modo progressivo e subtil. É um prato que emparelha melhor com vinho tinto, branco, cerveja, água, coca cola ou sumos de fruta, é cheio de anti oxidantes naturais e não há-de ter assim muito glúten. Serve dois adultos ou um adulto e um gato por dois dias.

Tecnoforma e “Whataboutism”

Volta e meia passam-se coisas na actualidade nacional que são verdadeiramente exemplares. No meio do debate e indignação sobre o jantar da websummit no Panteão trouxe-se para a discussão o caso da Tecnoforma.

No Panteão tomou-se uma decisão de mau gosto em cima de uma decisão racional que é autorizar em princípio eventos em monumentos. Joana Mortágua (ou Mariana, não as distingo bem), disse que “meteram o património à venda”, lembrando-me assim de mais uma  razão pela qual não sou fã dela nem do seu grupo, falam mal. Não se mete nada à venda, um deputado da Nação devia  falar melhor, mas fazer exames de Português, exigir que pessoas licenciadas o dominem e respeitem e que os deputados tenham um nível cultural acima da média deve ser  fascista. Além do mais vender é muito diferente de arrendar ou concessionar, pessoas com reputação de saberem de economia deviam ter respeito pela exactidão dos termos.

O primeiro ministro, ao ver que a população soube da festa  no Panteão  e  que a parte dela que se interessou pelo caso não achou graça nenhuma, disse logo que aquilo era indigno. Felizmente que a indignidade não é retroactiva e jantares que lá se fizeram antes não mereceram essa classificação.Se ninguém souber, não é indigno. Também confirmou que por cá um membro do governo pode ser responsável por autorizações para coisas indignas que isso não tem consequências.

No “calor do debate” o Público decidiu publicar uma notícia requentada  sobre o caso da Tecnoforma uma empresa de formação profissional que fechou há  anos . Como, arrisco, nuns 80% das empresas de formação profissional na época, houve aldrabice da grossa. Não só se engrupia quem pagava (os horríveis alemães) com todo o género de despesas falsas e actividades fantasma como o que se produzia, em princípio pessoas formadas , estava longe de ser o que se esperava e que o país precisava. Milhares de portugueses passaram por programas de formação e novas oportunidades e saíram pouco melhor do que entraram, mas sempre tiveram umas horas subsidiadas e os formadores, mais os formadores dos formadores e os coordenadores dos formadores dos formadores, safaram-se bem, pagos por tabelas europeias.

O caso da Tecnoforma foi exemplar porque estava ligada ao Relvas e ao Passos Coelho. O Relvas para mim é um modelo de pato bravo arrangista , um chico esperto licenciado instantâneamente que andou na política para fazer negócios, e correu-lhe bem, está milionário e à solta, cheio de amigos poderosos e reconhecidos. O Passos, ao que sei do que li sobre este caso, já não estava ligado à Tecnoforma na altura a que se refere esta investigação por fraude. Não interessa a quem o ataca e sinceramente a mim também não muito, porque acho que qualquer pessoa inteligente com ambições e responsabilidades políticas se deve afastar sempre de coisas em que haja nem que seja um aroma de irregularidade, e esses esquemas sempre tresandaram.  Ainda assim uma pessoa mais distraída podia perguntar, ao ver as redes sociais indignadas com a Tecnoforma  e  uma notícia velha de meses: mas o que tem uma coisa a ver com  a outra?

Ando a passar tempo demais no twitter e faz-me um certo mal aos nervos, não sei se tenho estômago para continuar, porque ou só seguimos pessoas que partilham as nossas ideias ou, se queremos alargar os horizontes e seguir “adversários” tipo comunistas ou benfiquistas, é bom termos muita calma e sermos compreensivos.  Uma das “personalidades” disse , perante aclamação : de cada vez que me disserem Panteão eu digo Tecnoforma. O twitter é bastante tribal e se tivermos muitos seguidores podemos dizer coisas estúpidas que há sempre quem aplauda. Deixei este link como resposta a um tweet tão espirituoso , define “whataboutism” , e este post é sobre isso.

Whataboutism pode ser, com boa vontade,  traduzido como Entãoeaquilismo , e é o processo pelo qual se contraria uma crítica com uma observação pouco ou nada relacionada com o objecto da crítica. Está cada vez mais em uso, porque é fácil e poupa a trabalheira de pensar ,recolher e apresentar argumentos pertinentes. Exemplos:

-O islâmismo  é uma das maiores ameaças à cultura e sociedade europeias.

-E as cruzadas e a inquisição?

-Este governo está a aumentar e consolidar privilégios de funcionários públicos que não têm justificação .

-Gostavas mais quando o Passos cortava as pensões, não era?

-O comunismo criou mais miséria que outra coisa.

-E a devastação ambiental produzida pelo capitalismo?

-O Trump está gravado a orgulhar-se de molestar mulheres.

-E os bicos ao Bill Clinton na sala oval?

-Há demasiados subsídios que distorcem o mercado e desincentivam a criatividade ,a  iniciativa e a concorrência.

-E os subsídios todos que vão para os Açores?

-O Benfica tem a judite e o MP à perna por indícios de corrupção.

-E aquele gajo do Sporting que foi apanhado a fazer um depósito na conta de um árbitro?

Os exemplos são muitos, basta estar atento e encontram-se todos os dias , eu próprio tenho a certeza de que  em dez anos de blog e mais de mil posts sobre muita coisa hei-de ter  recorrido ao processo, mesmo sem o saber, nalguma crítica que fiz. Num mundo feito de imediatismo , de reacções por reflexo, de casos que “incendeiam” num dia para serem esquecidos três dias depois, de inconsequência e superficialidade, cada vez vamos ter mais disto.

Ainda sobre o relacionar do que não tem relação, um indivíduo chamado Aurélio Malva criou um quadro em excel onde contabiliza as referências na imprensa aos casos Panteão e Tecnoforma. Esse quadro excel, mais a diatribe sobre a imprensa de referência  que o acompanha, está neste momento a ser partilhado e aplaudido por milhares por todas as redes. O sr. Malva, que se apresenta como “músico na Brigada Vítor Jara”, logo, muito qualificado para elaborar esses estudos, demonstra  que a imprensa não dedicou nenhuma  atenção à Tecnoforma em comparação com o Panteão, por exemplo vê-se lá que o Público não fez qualquer referência ao caso Tecnoforma entre os dias 11 e 14 deste mês. Esta é a capa do Público de dia 13.

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Em inglês fica sempre melhor

Uma das bandas portuguesas de que gosto são os Clã , que têm uma música muito bonita chamada “Problema de Expressão” , com este verso:

Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.

É uma das nossas modas mais prevalentes e que  a mim me faz trepar pelas paredes por achar que é das mais estúpidas e sem justificação:  tudo em inglês.

-A  cidadezinha  onde cresci, Alcobaça, organiza regularmente um festival literário e de cinema. O programa está aqui , a edição deste ano já acabou mas estive mesmo agora a vê-lo. Dura uma semana, o número de autores de língua inglesa presente é aproximadamente zero, a percentagem de convidados nacionais andará pelos 98%  e  o número de livros ingleses apresentados também anda entre o zero e o dois, não tenho a certeza porque não vi tudo.Os filmes são na esmagadora maioria nacionais e não me consta que o evento sejam transmitido no estrangeiro. Qual é o nome deste festival de livros & filmes? Books and Movies.

-Aveiro tem uma revista que só conheci anteontem, chamada Litoral , e conheci-a porque um grande marinheiro português que muito honra a vela nacional, Renato Conde, recebeu uma distinção pública pela sua carreira numa cerimónia em que a revista atribui prémios. São os Litoral Awards.

– A recente “websummit” é um festival de startup networking empowering  and disruptive technologies em que os participantes estão estatutariamente obrigados a usar um termo em inglês por cada quatro palavras que pronunciem, independentemente da  audiência.

-O mundo do espectáculo carbura a anglicismos e palavras inglesas, artista que não use regularmente essas expressões fica para trás. Desde os anos 60 que  um  “yeah” é quase obrigatório na  música moderna  nacional, a maoria das novas bandas escolhe nomes em inglês e perde-se a conta às  letras de canções em inglês escritas por quem devia ir tentar melhorar o inglês.

-No comércio, serviços e eventos culturais nem vale a pena  pensar em só usar o português, parece que  a língua da modernidade e inovação é obrigatoriamente o inglês, eu vivo numa aldeia perdida onde isso não é aparente  mas quem vive em centros urbanos pode verificar isso facilmente.

-Num mundo que me interessa mais de perto, o da cerveja artesanal , nota-se bem que já existe mais craft beer do que cerveja artesanal e no mundo do hipsterismo , das pessoas cuja filosofia de vida se baseia não no visual mas sim no look ( grandes consumidores de craft beer, nem tudo é negativo…) as coisas acontecem mais frequentemente em inglês do que em português, mesmo se vivem em Cantanhede.

-No turismo , em conformidade com a evidência de que os visitantes procuram sobretudo experiências e vivências locais e autênticas, faz-se questão de que tudo seja apresentado em inglês, desde os nomes aos programas e aos produtos. Traduzir e explicar faz sentido, tudo em inglês logo à partida, já não.

-O Estado naturalmente partilha da doença e baptiza quantidades de coisas em inglês. Desde os anos 50 que todos os ingleses sabem o que é e onde é a Costa Brava , e adoram, nós para evitar confusões  é mais Silver Coast, Allgarve e parvoíces semelhantes.

Ora, há palavras , especialmente no campo da tecnologia e das finanças mas não só, que não têm tradução exacta ou clara, por exemplo stress , roaming ou upgrade, é normal que as pessoas que trabalham nisso os vão usando.   Do mesmo modo, se se trata de um evento inequivocamente internacional, faz sentido marcar isso.  O inglês é a língua dominante , aposto que vai continuar a ser língua de trabalho da UE quando o único país anglófono for a pequena Irlanda e é claro que aprender inglês é do interesse de toda a gente. Agora, que se sinta que é não só normal como positivo e quase mandatório polvilhar o discurso com palavras em inglês, já  me parece bizarro.

No jornalismo até mete medo, e nos sítios onde eles falam uns com os outros tipo o twitter chega a ser delirante, não só o uso dos termos e expressões em inglês (que ao invés de mostrar que dominam a língua só mostra que veem televisão e filmes) como a adopção regular de coisas que leem e veem na imprensa americana , a última é chamar alt right à extrema direita.

Uma parolice pegada, demonstração de preguiça para procurar a palavra certa (temos cerca de 600 mil à disposição, em princípio devia chegar, e hoje quase todos andamos com um dicionário no bolso…) ou simples presunção, a noção  de que se introduzirmos termos em inglês parecemos sofisticados. A mim dá-me sempre a ideia contrária.