O Apocalipse, actualizado.

Passou mais um mês e o sistema não se desconjuntou todo, uma parte dos meus receios eram infundados e fico contente por isso. Já se sabe muito mais  sobre o vírus do que se sabia em Janeiro, tranquiliza-me ver que afinal não é tão letal como se receava e foi controlado sem colapso dos serviços de saúde e dezenas de milhar de mortos. E esta é a única parte em que os meus receios iniciais diminuíram, em tudo o resto mantêm-se e reforçam-se.

Já antes da pandemia poucas pessoas sensatas e observadoras acreditavam no governo, neste ou noutro, os governos quase por definição estão impedidos de contar as verdades todas à população, e isso é partindo do princípio que sabem essas verdades, o que nem sempre se verifica.

Para dar um exemplo desta cultura de aldrabice que mina a confiança dos mais atentos , lembro que o PM, no início de Março, anunciou que o SNS tinha mais de 1000 ventiladores. Isto tem piada porque hoje o secretário de estado da saúde disse que tinham chegado da China 400 ventiladores, ficando assim a capacidade nos 700. Daqui decorre que o Costa estava a mentir, mais uma vez, mas certamente que foi para o nosso bem, para não nos alarmar.  Um governo não devia dizer em Março “estamos numa luta existencial pela nossa sobrevivência” para em Maio dizer “o nosso pior inimigo é o medo”, não fica lá muito bem. Mesmo que boa parte dos mecanismos e realidade do vírus sejam ainda desconhecidas, deve haver uma unidade de mensagem da liderança e não foi isso que eu vi, mesmo na minha existência priviligiada em que vejo muito poucas mensagens da liderança. A retórica da “guerra contra o vírus” enfurece-me por ser descabida e prejudicial mas isso merece um post inteiro.

Do lado da economia, não sou o melhor para contas mas se não via possibilidade de recuperação rápida e relativamente indolor nem que  tivéssemos podido curar e vacinar e voltar aos anteriores modos de convivência, numa realidade que está para durar só vejo mais miséria a crescer, com tudo o que ela traz. Os críticos dos liberais, sempre prontos com uma vergastada sobre a prioridade à economia e às contas, têm agora a oportunidade de demonstrar como se consegue evitar miséria humana sem  a prioridade na criação de riqueza, por meio de sorrisos, calor humano, aplausos, solidariedade, interseccionalidade e outros conceitos modernos que não dão de comer a ninguém. Criar e, sim, distribuir, que eu sou liberal mas não sou doido e sei que riqueza tem que ser distribuída para aproveitar à sociedade mas o problema  nisto é que os governos teoricamente mais equipados para essa distribuição , os encabeçados por socialistas, são-no só nominalmente, aqui ou na vizinha Espanha o que se vê mais são fortunas feitas e existências plácidas à conta do orçamento do Estado em vez de uma política fiscal sã, do encorajamento e apoio a quem cria riqueza  e uma justiça capaz de castigar todos os abusos.

O que me metia medo há dois meses continua a meter, agora com uma possível agravante: o eventual colapso do sistema não chegou em meses impulsionado pela quebra nos serviços de saúde e com dezenas de milhar de mortos mas poderá ir chegando, ao longo de muitos meses. E isso seria uma agravante porquê? Porque quando o sofrimento é lento e espaçado as pessoas habituam-se, quando nos roubam 5 centimos por dia ao longo de um ano não reagimos como se nos roubassem €20 de repente. É diferente irem-nos tirando uma liberdade de cada vez ao longo de meses do que perdê-las todas numa revolução ou golpe de estado. Isto é uma agravante porque pessoas habituadas não protestam, aceitam tudo, quando muito ralham um bocado, mais agora que há meios de ralhar, soltar vapor , ventilar, faz-se um comentário numa rede social ou assina-se uma petição e já se sente que se contribuiu. Perdem-se liberades aos poucos e quando se dá por ela, é tarde, já foi.

Vi hoje um video feito na Alemanha em que centenas de casais estão dentro dos seus automóveis alinhados em frente a um palco onde um individuo passa o que muitos consideram música, era uma “rave drive in”. O público tinha uma espécie de bastões de neon que agitavam pela janela, iam apitando (esse género de música  acompanha-se bem à buzina) e fazendo sinais de luzes e toda a gente parecia radiante com aquilo. Contentes e dispostos a repetir, gente que há dois meses ia a concertos e festas com milhares de pessoas agora, porque lhes disseram, aceitam com um sorriso que a partir daqui e pelo menos até uma vacina, têm que fazer aquelas figuras.

Por cá, e isto tive que ir confirmar por me parecer  sátira, querem pôr semáforos a controlar o acesso às praias depois de umas regras para as creches que me convenceram de que o objectivo só podia ser ou desencorajá-las de abrir ou tornar-lhes a vida num inferno. Os burocratas da DGS e outras dezenas de organismos públicos com o dedo em tudo estão no céu, têm quase carta branca que é dada pelo medo das pessoas e pelo governo que prefere errar por excesso do que por defeito. Talvez tenham razão, mas quando chegar a altura de pagar a factura espero  que não a tentem passar a outro. Entretanto educadoras de infância desesperam a arranjar maneiras de maneter as crianças a  metro e meio umas das outras  e sem partilhar brinquedos e mais de metade dos restaurantes do país não tem condições de trabalhar com a avalanche de regras, a minha preferida nesse campo é a que determina que pessoas que vivam em casas diferentes não podem comer juntas. Como se espera fazer o controlo desta medida, é mistério. Produzem regras porque não sabem fazer outra coisa, quanto maiores as burocracias maior a produção.

Quando há 78 regras para o “acesso seguro às praias” ao mesmo tempo que qualquer pessoa pode entrar num autocarro cheio desde que leve uma máscara, temos que questionar o critério dessas  regras e restrições e sobretudo a sua utilidade. E  há outra parte notável sobre estas regras : como ontem o próprio Presidente da República explicou com todas as palavras sobre o seu caso pessoal dos mergulhos na praia, há sempre um esquema para contornar , ou não fosse isto Portugal. Metade delas não são para cumprir e não vai acontecer nada.

Do lado da economia, só existe uma entidade capaz de manter o país  à tona, como de resto o faz há mais de 20 anos, a União Europeia. Entregues a nós próprios, vamos rapidamente para os anos 80 do século passado, e o problema é que a União Europeia não está propriamente a respirar saúde. Todos os países estão com deficits a explodir por causa do virus, o Brexit já tinha dado um abanão na estrutura, temos os Europeus do Norte agastados com os dos Sul e vice versa (2008 outra vez, para mim sempre foi certinho) e um terceiro elemento, a degradação das instituições quando um estado membro, no caso a Hungria, já prende pessoas por criticar o governo e fecha jornais e universidades. Nisto tudo o BCE tem que dar mangueiradas  nas impressoras para as arrefecer e eu gostava de saber mais de economia para perceber qual é o limite disto, por quanto  tempo mais vão poder continuar a imprimir dinheiro antes da inflação começar a subir.

Juntemos a isto a corrupção épica que já se vê  nas traficâncias entre governos, industrias, estados e amigos nesta  nova “economia covid” e mais uns pós de populismo ,tipo o do meu homónimo sempre à espera de que as coisas corram mal para avançar com a sua demagogia e sinceramente, gostava de ver um optimista, alguém que perante estes cenários, que nem são os piores possíveis, diga que tem confiança num futuro melhor. Gostava de saber qual é o segredo dessas  pessoas além da alienação. A alienação não é uma coisa necessariamente negativa.

Voltando à parte clínica do vírus, nota-se perfeitamente uma sensação de “o pior já passou” , que junto com “não foi assim tão mau” leva a desvalorizar o risco, já para não falar da disseminação de “documentários” inanes como um chamado Plandemic (nunca uma coisa tão básica e tão estúpida desinformou tanta gente na História da Humanidade) que convenceu milhões de que isto é tudo uma aldrabice.  Entretanto na China  mais de 100 milhões (!) de pessoas vão voltar ao confinamento, os contágios e mortes voltaram a aumentar, vai começar tudo outra vez para esses.

As Regras

Não fora a pandemia e  já estaríamos a trabalhar nos botes, um já estaria a navegar ainda que com a pintura do ano passado e um inverno um bocado rigoroso em cima, o outro a reparar as mazelas da época passada. Já havia  interessados, homens e mulheres, para equipas de vela e remo e vontade de navegar e eu cheio de expectativas e ideias para o meu primeiro verão à frente do Clube Naval. Se tivessemos equipas de vela e remos masculinas, femininas e mistas e participado no campeonato e na Semana do Mar e lançado á água dois ou tres optimists com miúdos, um “embrião”de escola de vela, para mim teria sido uma alegria e um  triunfo… mas o verão foi cancelado. Não há iates , não há regatas, não há festas, não há campeonato regional, não há aulas náuticas.

Ficou tudo em suspenso mas agora começo a ver como e em que moldes podemos retomar a actividade do clube. Desde o tempo do Heraclito que sabemos que a única coisa permanente é a mudança mas para uma mudança deste nível, por toda a Sociedade e em dois meses, não estava  preparado e acho que ninguém estava. Uma coisa é a preparação individual e pessoal, a preparação para a mudança na nossa esfera. Outra é a mudança generalizada e a convivência e gestão de uma revolução  que afecta tudo e se ramifica por todo o lado.

Ando à espera de saber quando é que é permitido a 7 pessoas  juntarem-se em proximidade para arriar um bote baleeiro e ir navegar.Pelas novas regras da náutica de recreio podem ir 4 pessoas, para nós não chega. Como vivemos na Época das Regras e  em tempos de medo e ansiedade geral, não posso basear-me no meu senso comum , juntar a companha e arriar o bote, coisa que faria sem problemas se o bote fosse meu, mas não é.

Como responsável pelo clube naval não posso arriscar não só penalizações e atritos com a Autoridade Marítima ou a GNR como  muito menos a desaprovação e crítica social que se seguiria imediatamente. E atenção, a crítica não seria tanto no sentido de “olhem aqueles a pôr em risco a saúde pública” mas sim “olhem para eles a não cumprir as regras”, porque  regras, mesmo as arbitrárias e mal fundamentadas, são regras. Temos uma história longa de respeitinho e obediência que facilita esta imposição de regras mas os nossos tempos são novos  noutros aspectos.

Estas novas regras são impostas perante uma ameaça clara, concreta e com risco mortal (não discuto o grau, mas risco real) , uma doença contagiosa, e isso leva as pessoas a não hesitar em obedecer, ou pelo menos a protestar menos. Hoje, numa escala imensamente maior do que nas pandemias ou epidemias anteriores, a confiança na capacidade de quem  faz as  regras é posta em causa  todas as horas. Quando se disseminam modelos, análises, teorias , opiniões, especulações e dados a uma velocidade enorme por toda a gente, e quando há vozes dissonantes e visões em conflito misturadas com agendas políticas, as regras podem ser ainda mais perigosas porque provocam repulsa e aumentam os atritos no dia a dia já cheio de tensões.

Por outras palavras, se ninguém tem a certeza de que o acesso livre  à praia é prejudicial ou benéfico para a saúde pública mas se  fazem 25 regras de acesso às praias, é normal esperar um número grande de pessoas que diz  não quero saber, vou à praia como sempre fui. É normal que os que não vão à praia depois os critiquem e pode-se esperar confusão séria quando puserem a GNR a controlar se se vai surfar ou só apanhar sol, de fita métrica na mão , ou a contar o número de banhistas para ver se está conforme o decreto.

Para manter a ordem pública é preciso que as pessoas a entendam e aceitem, e se vão prender pessoas na praia (como já acontece em vários países) enquanto todas as manhãs centenas se enfiam em transportes públicos para ir trabalhar, perdem toda a razão e legitimidade. Cada regra que não é entendida ou aceite dificulta o entendimento e aceitação de todas as outras.

Agora estou de olho na Horta e no Pico, assim que os vir arriar os botes  é sinal de que se pode, aproveito a deixa e a cobertura e também vamos. Entretanto é preciso esperar por mais clarificação da miríade de regras que nos vai reger a vida nos próximos tempos. Isto é um inferno para toda a gente mas para os individualistas , liberais e libertários tem mais uns círculos extra.

 

O Despertar

A pandemia tem potencial para irritar toda a gente, independentemente da crença ou convicção há motivos para dar com qualquer um em maluco ou pelo menos para obrigar a querer desligar, parar de pensar e focar-se só na tarefa mecânica mais à mão.

No topo da minha lista vem o arco íris e o “vai ficar tudo bem”, gostava de saber quem inventou ou iniciou a disseminação desse slogan ridículo, mentiroso e enganador, deve estar nalgum manual de política ou comunicação que é preciso passar uma mensagem de esperança e aqueles indigentes mentais optaram por dourar a pílula e motivar por intermédio de uma afirmação demonstravelmente falsa. A vida não é cinema, isto não é a história do pai que inventa brincadeiras para o filho se distrair dos nazis e nós não temos 5 anos, como tal não devia bastar o paizinho dizer que vai ficar bem para sorrirmos e seguirmos com a nossa vida. Não lhes perdoo a infantilização da população.

Continuo convencido de que a  maioria das pessoas não sabe bem o que está a acontecer. Eu não sei, em termos de situação de saúde pública, o que está a acontecer,  nem  se o vírus é tão letal/contagioso/perigoso/extraordinário como nos dizem. Não sei se seria melhor confinar toda a gente mais tempo ou deixar as coisas andar e que Deus reconheça os seus, morre sempre muita gente , etc. O que sei  desde muito cedo é que a mera existência da doença e sua progressão pôs em marcha um processo imparável com ramificações impossíveis de contabillizar , quase todas, na minha visão, negativas.

Não vai ficar tudo bem e quanto mais cedo pararem com isso melhor.

Depois, o júbilo encapotado dos ambientalistas. Durante anos a minha principal crítica às exigências de Novos Planos Verdes e quejandos era  ( além de serem Planos, já vamos a essa parte) que se recusavam a contabilizar e falar sobre o empobrecimento que  exigiria a redução das activdades económicas e  consumo necessária às reduções de emissões que eles declaravam essenciais. Muito pensamento mágico, muito unicórnio, muita confiança na tecnologia ao mesmo tempo que se pretendia pear e cercear  o motor da evolução tecnológica: o interesse económico. As Gretas falavam sempre das misérias que íamos sofrer pelo aumento da temperatura global, raramente das misérias que  provocariam os encerramentos de metade das indústrias que queriam encerrar. Essa parte ficava para os outros se preocuparem e de qualquer maneira a pobreza é sempre culpa do capitalismo.

TODOS os ambientalistas que conheço são viajantes dedicados, e acreditavam, talvez ainda acreditem, que as viagens prejudiciais são as dos ricos ociosos,  dos homens de negócios a ir para reuniões ou dos vendedores da globalização, porque as viagens deles eram sempre, obviamente, experiências de conhecimento pessoal e contacto com o outro que não eram prejuciais a nada, desde que levassem uma garrafa de alumínio em vez de plástico e um porta moedas artesanal de sarja em vez de nylon. Os outros são turistas, os ambientalistas são todos viajantes.

Agora, como metade deles ainda não tem a noção da depressão que se avizinha e cava todos os dias, e porque só estudam a História a partir da Industrialização, estão contentes por as pessoas terem que circular e consumir menos, por obrigação. Eu concluo que se tivessem poder já tinham tomado uma série de medidas autoritárias  tipo recolher obrigatório e transportes racionados. Vive aqui um americano que sugeriu num fórum público, ouvi eu, racionar electricidade e desligá-la a partir das 22, coisas que talvez na terra dele lhe tivessem valido ser atirado pela janela mas aqui não, é um cool bro, um dude, completamente woke sempre pronto a apontar o que de mal e atrasado se faz aqui e como tudo seria melhor se nós o ouvíssemos.

Toda essa gente só vai ver a miséria que esta quebra da produção global vai trazer quando lhe entrar pela porta adentro, o desejado e exigido “decrescimento” vai doer mas nessa altura vão começar a ralhar a dizer que outro decrescimento é possível, não querem este, querem outro, e continuar a diabolizar os que sempre fizeram tudo para manter o crescimento. Se crescia era porque crescia, se pára de crescer é porque não devia parar desta maneira. De que maneira  devia parar? De alguma maneira fantasiosa, de acordo com um plano justo. 

Dos conceitos mais simples, racionais  e bonitos que existem é o de Ordem Espontânea, a ideia do surgimento espontâneo de ordem no caos aparente; o surgimento de vários tipos de ordem sociais a partir de uma combinação de indivíduos auto-interessados que não tentam intencionalmente criar ordem. A evolução da vida na Terra, a linguagem humana, e uma economia de livre-mercado têm sido propostos como exemplos de sistemas que evoluíram através de uma ordem espontânea. 

Resumidamente, as coisas organizam-se do modo mais conducente ao equilíbrio se forem deixadas seguir o seu curso e se todos puderem agir livremente. Os Homens já tentaram muitas vezes gizar planos para a Sociedade, foi sempre desatroso quando passou das fantasias teóricas. Desde o Grande Salto em Frente do Mao aos planos quinquenais dos comunistas passando pela solução final nazi, quando meia dúzia, ou um todo poderoso iluminado se sentou a traçar um  plano para a organização da Sociedade acabou em miséria, morte e destruição. Os que não acabaram em tragédia simplesmente falharam ou não atingiram os objectivos com que tinham começado. Isto deve-se ao facto de uma sociedade e economia ser simplesmente a soma de milhões de interacções e estas são impossíveis de prever, controlar e dirigir fora de uma distopia totalitária. Se queremos viver numa sociedade livre temos que estar preparados para aceitar que as acções livres vão sempre ter consequências boas e más e que é fisicamente impossível prevê-las ou condicioná-las.

Daí a minha surpresa quando vejo pessoas com mais de 20 anos e alguma educação a dizer que “está na altura de mudarmos o modelo”, como se este modelo que agora aparentemente soçobra tivesse sido implantado por alguém ou algum grupo e como se fosse possível “mudar o modelo” como quem muda o software de uma máquina. Como se  o feudalismo tivesse terminado porque a sociedade “decidiu” acabar com ele ou a  industrialização tivesse surgido por decisão de um grupo. É idiótica a crença nesse poder de decisão colectivo para mudar paradigmas. Há neste momento centenas de milhar de pessoas , nem todos com insuficiências educacionais ou cognitivas , convencidas de que seria possível alterar a  organização social  e económica sem ser à força e/ou  num processo  que geralmente se chama “correr atrás do prejuízo”, reagir  como se pode a acontecimentos mais ou menos inesperados.

Reclama-se que por alguma espécie de magia, por algum fenómeno que nunca se viu até hoje, a humanidade faça isto ou aquilo, como se se convocasse a Humanidade para decidir e implementar mudanças. Como numa reunião de condomínio ou AG de um clube.O  estatismo disseminou uma falsa sensação de poder colectivo, depois de séculos em que os donos do Estado fizeram o que queriam seguindo os seus interesses individuais convencendo as pessoas de que estavam a organizar tudo quando se limitavam a supervisionar e condicionar onde podiam.

“É preciso um novo despertar humanista!” Demasiada  gente, principalmente a nova leva de demagogos que compõe a indústria dos influenciadores , palestrantes, aspirantes a políticos  e  apóstolos de seitas variadas, apela a uma elusiva “tomada de consciência” como se acreditassem, e muitos sem dúvida acreditam, que esta pandemia e  colapso vão unir de alguma forma a humanidade e podem provocar mudanças positivas e deliberadas. “Respirem fundo, afinal a vossa pressa não fazia assim muito sentido, certo?” dizem esses intrujões a partir das suas posições confortáveis, como se a consequência de uma pessoa ter que ficar em casa sem trabalhar um mês fosse apenas a perda do salário desse mês ou o que deixou de produzir. Gente  incapaz de ter um visão de conjunto, ver o que se passa no mundo além da sua cidade e cultura  ou ver com calma a extensão enorme das zonas cinzentas entre o bom e o mau e que, por não querer ou não ser capaz de fazer de outro modo, simplifica constantemente o que é complexo, oferece soluções pontuais para problemas recorrentes e explicações redutoras para situações que atingem a Espécie inteira e duram séculos.

Os governos andam a fazer horas extraordinárias  para inventar financiamento para manter a coisa à tona mas , de onde eu vejo as coisas, é  impossível controlar ou reverter a sangria, muito por imperativos humanitários e muito por causa da brigada d’ “o dinheiro não é tudo” que geralmente diz isso porque não entende bem o dinheiro. Eu estou longe de entender a fundo mas convenci-me de que pelo menos entendo mais do que por exemplo o ex presidente do Brasil que veio dizer num tweet que, e não estou a brincar nem a inventar, o governo devia imprimir dinheiro para dar às pessoas porque como o consumo caiu não há risco de inflação. Isto devia ter causado um ataque cardíaco em muitos economistas mas felizmente o Lula está na prisão e não na presidência, foi substituído por um que está na presidência mas devia estar na prisão, pobre Brasil.

Lá, cá e  um pouco por todo o lado  é aparente para mim que todos  estes meses de despesa a aumentar e receita a extinguir , sem termo à vista, só têm um fim possível,  mas espero estar enganado e que se mostre o quão pouco eu sei de economia e finanças. Tanto no Brasil como cá e na maioria dos países a evolução parece-me muito má mas nós andamos aqui há 900 anos,  já vimos pior e vamos aguentar no mesmo sítio com mais ou menos convulsões e miséria mas há um país que me quebra o coração, os Estados Unidos, todos os dias que olho para lá ou falo com amigos lá vejo a quebra  lenta e evitável de uma grande nação e do seu lugar na liderança do Mundo, é uma dor de alma. Também aí espero muito estar enganado.

E para o fim outro cancro dos nossos dias, o conspiracionismo, a tendência a explicar aquilo que não se  compreende com recurso a processos de intenções, preconceitos, ao rejeitar  da noção de Acaso e Coincidência, à negação do Método Científico e sobretudo ao recurso ilimitado  à imaginação. Não é um fenómeno novo, como a maior parte dos nossos problemas, acompanha-nos desde o começo das sociedades: os ignorantes na busca de protagonismo por sentirem que sabem alguma coisa que os outros não sabem, por sentirem o poder de ter uma explicação que desafia o poder vigente ou o conhecimento estabelecido e assim faz deles especiais, reduz os outros e lhes valoriza um conhecimento que não é conhecimento por nenhuma medida racional do termo. Rebeldia, contestação e dissidência, tudo valores estimáveis, são pervertidos  e desvirtuados por legiões de crentes unidos pela tecnologia moderna na paranóia, difamação e total alheamento da realidade. A partir do momento em que se tornou possível dizer, com razão ou não, que a propria realidade é manipulável, abriu-se a porta  a tudo. Podem encontrar hoje as teorias mais abstruzas, dementes , malévolas e sem sentido nenhum que vão a seguir encontrar milhares de pessoas que não só acreditam nelas como estão dispostas a espalhá-las e a actuar sobre essa crença. É medonho e desmoralizante.

Dois exemplos: há 6 meses acreditavam  que a conspiração global estava a instalar a tecnologia de reconhecimento facial no mundo todo. Hoje acreditam que a conspiração global trouxe o uso obrigatório das  máscaras faciais que tornam essa tecnologia inútil. Como os religiosos, quando chegam a um beco sem saída lógica argumentam que as vias dos conspiradores são misteriosas mas um dia se saberá.

O segundo, tive há pouco uma troca muito instrutiva no facebook com uma conhecida que já tendia ao alternativo mas com a pandemia queimou completamente. Ela acha que a tecnologia 5G tem efeitos dramáticos na saúde humana e  é promovida por uma elite  conspiratória, recusando aceitar a informação científica pública sobre essas radiações. A minha questão: se o 5G, como rede de comunicações, vai ter pelo menos a mesma cobertura que o actual 4G que já cobre tudo, e se é mortal e destruidora, exactamente onde e como é que vão viver essas elites conspiratórias e que comunicações vão eles  usar?

Foi o suficiente para ela chutar para canto e ir-se embora, mas sei perfeitamente que outros com mais traquejo na irracionalidade vão defender não só que essas pessoas têm um antídoto para radições como até se for preciso que têm uma rede global de comunicações própria ou vivem no espaço sideral.  Os mesmos pensadores  que, sem prova nenhuma,  inventaram o conceito de actores de crise e sempre que deparados, como agora em Nova Iorque, com calamidades públicas, dizem que aquilo são tudo actores pagos para interpretar aqueles papéis. Chegando a este ponto a pessoa que não quer perder a própria sanidade e a calma  tem que abandonar o convívio e o contacto com eles, mas sempre consciente de que o mal está feito e eles nunca se vão convencer, nunca. É sempre tudo falso. Um tempo de caos, incerteza e medo só faz essas pseudo explicações e teorias florescerem, e aqui não me preocupa assim muito se cem ou duzentos cretinos  acham que os judeus inventaram o covid19 e o 5G em conjunto com o Bill Gates para nos vacinar obrigatoriamente a todos, mas exprimentem olhar para a Índia, por exemplo, onde basta um desses mentecaptos levantar uma acusação  tipo “o covid foi trazido pelos muçulmanos” para desencadear um pogrom assassino. Isto já se passa hoje em dia.

Por tudo isto, não, não vai vai haver nenhum despertar, nenhum regenerar, nenhuma alteração geral da ordem das coisas por acordo , plano ou projecto comum, por muito que isso custe aos idealistas.

Gostava muito de ver uns raios de optimismo e esperança. Dos melhores tempos que passo  são os poucos momentos com a filha de uma das minhas melhores amigas, que tem cinco anos e não percebe nada, só brincamos e rimos muito. Talvez me faça  falta, admito, mais convívio humano em vez de estar sempre a remoer comigo mesmo. As probabilidades disso, já pequenas em épocas normais e muito por características minhas, quase desapareceram com esta praga que nos isola, fixa e separa a todos.

É  preciso pensar que não vai ficar tudo bem mas dias melhores virão.

 

A Máscara Social

Fui à Junta de Freguesia buscar um pacote de máscaras,  agora aqui são  obrigatórias. Vêm numa caixinha com o logotipo do governo, não ser o do PS já não é mau, para as pessoas não se esquecerem de quem é que trata de nós e nos dá coisas. Por alguma razão que desconheço decidiram chamar-lhes “máscaras sociais”.

Desde Janeiro que todas as semanas vou ao centro de saúde fazer um tratamento e desde que isto começou e me disseram para o fazer, uso lá uma máscara. Detesto a máscara mas não me vou armar em parvo, vou usar mesmo  que numa ilha que continua encerrada e onde nunca houve casos as máscaras não sirvam  para absolutamente nada a não ser fazer lixo e incomodar. Mais uma vez fica exposto o problema de haver soluções nacionais para problemas que se manifestam de formas diferentes em sítios diferentes.

O governo regional emitiu ontem legislação que decretava , entre DEZENAS de outras regras, a “obrigatoriedade do uso de máscara social nos transportes públicos e privados, aéreos, marítimos e terrestres, em veículos pesados ou ligeiros”. Li isto e pensei que tinha que passar a andar de máscara no carro, mas passadas umas horas, presumo que  perante a confusão gerada, o director regional lá explicou que se referia apenas a transportes colectivos. Acho sempre muita graça quando os burocratas passam dias a produzir discurso legislativo para depois terem que explicar o que queriam dizer, a capacidade de síntese, clareza e simplificação é rara.

Achei muito instrutivo o processo das máscaras desde o início da pandemia, como a DGS passou  de dizer que não se recomendavam até  serem obrigatórias. Uma das  justificações avançadas para isso não é incompetência ou incapacidade de decidir, é que não queriam provocar uma corrida às máscaras para não haver escassez para os profissionais de saúde. Como é normal, não se podem tratar as pessoas como adultos responsáveis e tem que se lhes mentir, isso é o modo de funcionamento dos governos, se dissessem à população todas as verdades que conhecem talvez houvesse uma revolução no dia seguinte. Ainda assim eu preferia que tentassem .

Vou usar a máscara, aqui inútil, por duas razões:  a primeira é porque é obrigatório, logo, a polícia, que aqui sofre particularmente de tédio e tem muito tempo livre, vai fiscalizar e multar. A segunda é a ausência total de anonimato , não estou para ser vilipendiado por toda a gente agora convencida da indispensabilidade da máscara e com o nível de paranóia mediática perto do vermelho.

E como é que vou no meu tremendismo catastrofista sobre a pandemia? Aliviou-se por um lado, vi que em Portugal e no resto do mundo desenvolvido os serviços de saúde têm conseguido responder, não se confirmou o descalabro que eu antecipava ainda que a mortandade seja alta. Não tenho grandes dúvidas de que isso se deve ao distanciamento e confinamento, faltaria  saber se as vidas salvas compensam o desastre económico provocado mas  não são contas que eu peça nem saiba ou queira fazer.

No resto, mantenho os meus receios todos e acrescento um que agora está a tomar dimensão maior e mais clara, por todo o lado : a corrupção e o aproveitamento da pandemia para negociatas entre os governos e os seus familiares e amigos. Quando há compras feitas por estados a coberto de “necessidade imperiosa e urgente” usando e abusando dos ajustes directos e outras ferramentas opacas, estão abertas as portas para se fazerem fortunas às custas do medo, sofrimento, ignorância e corrupção. Como sempre, de resto.

 

Um Hino

Muito de vez em quando aparece-me uma canção que me bate fundo logo à primeira, depois passo um dia inteiro a ouvi-la em loop e daí vai  para a lista das canções que me  arrepiam um bocadinho e nas circunstâncias  certas até me dão um nó na garganta.

Esta foi a última, chegou por intermédio de um querido e velho amigo e nunca mais me vai largar. Podem tocá-la  no meu funeral.

“…and long after we’re gone, the light will stay on.

And if you bury me, add three feet to it. One for your sorrow, two for your sweat, three for the strange things we never forget.

Long after we’re gone, the light will stay on,  and long after we’re safe, the light will not fade…”

A Marcha da Loucura

A historiadora Barbara Tuchman  tem um livro chamado  The March of Folly,  A Marcha da Loucura, em que descreve acontecimentos e processos históricos marcantes que tiveram origem em decisões “loucas” por parte dos políticos, decisões  que acabaram por ser prejudiciais a tudo, incluindo os seus  interesses pessoais, e levaram a catástrofes.

O sub título é “De Tróia ao Vietname” e analisa uma série de casos que mostram esta marcha da loucura para a desgraça.  Na visão da historiadora, os critérios   para que se possa falar numa  “loucura política”  são 4 :

– A prossecução de uma política contrária aos interesses últimos do Estado na face de vozes discordantes .

– Provas de que a  mesma política era contra producente.

-A política  ser o produto de decisão de um grupo em vez de um indivíduo

– Tinha que haver uma alternativa clara .

Estas condições estiveram todas presentes em várias ocasiões, desde a queda de Tróia à perda da América do Norte pela Inglaterra passando pela Reforma da Igreja e às guerras que se seguiram. O livro foi escrito em 1983, provavelmente a invasão do Iraque pelos EU teria lugar de destaque numa edição actualizada.

Não tenho posição nenhuma sobre a escolha ou os méritos das diferentes abordagens dos Estados à pandemia. Para isso tinha que me informar e aprender muito sobre epidemiologia, estatística, modelos matemáticos e uma série de outras coisas necessárias  para poder dizer : “acho que se devia continuar com o confinamento até X”, “estas medidas de confinamento são inúteis” e outras do género.

Começo é a ter cada vez mais dúvidas sobre se se terá embarcado ou não numa loucura colectiva em que se verificam claramente os 4 critérios de Tuchman , e chegado ao ponto de não retorno.

 

Um Liberal Admite a Derrota

Em qualquer confronto é preciso reconhecer o momento em que se perde. O dr. Soares  disse para a posteridade que “só perde quem desiste de lutar” e fizeram-se  cartazes com isso,   sempre achei a afirmação vazia. Insistir numa luta que já se perdeu é inútil e leva a prejuízos, saber perceber que se perdeu é sinal de lucidez.

A minha educação, experiência de vida, leituras, observações, debates e reflexões levaram-me a um conjunto de convicções, valores  e maneiras de ver o mundo que se identificam com o Liberalismo. Não me interessam assim muito as variações, seitas, correntes, interpretações, minúcias  e facções, sei que me defino como Liberal e basta-me.

Na minha concepção, do lado oposto do Liberalismo temos o Estatismo, a doutrina que preconiza a preponderância e primazia do Estado na organização da sociedade e da economia. Pela esquerda ou pela direita o princípio orientador é o mesmo, o indivíduo subordina-se ao Estado, o interesse comum é sempre superior ao interesse individual e é determinado por quem governa o Estado.

O confronto já ocupou  gerações, a História foi avançando e a sociedade mudando. Se o motor da História é a luta de classes o combustível desse motor são  ideias.  Umas maiores e abrangentes, outras menores e mais focadas. Umas  que evoluem até serem princípios orientadores, outras que se perdem pelo caminho por se revelarem perniciosas , ineficazes ou obsoletas.

Idealmente, as ideias discutiam-se, avaliavam-se, concretizavam-se, estabeleciam-se e aperfeiçoavam-se ou então não, abandonavam-se, tudo consoante os seus méritos e os seus resultados. Poucas coisas se passam idealmente e o que são para uns ideias nefastas e comprovadamente perniciosas para outros são um modelo que, com um ou outro ajuste, é desejável. O que para uns é uma sociedade livre e próspera a outros parecerá sempre uma sociedade opressiva e injusta. Isto não tem solução. Tudo o que há de mau no modelo ou ideia de que não gostamos passa a ser o alvo e a preocupação durante o confronto. Tudo o que há de bom é sempre visto como acessório, insignificante ou como um  efeito secundário.

Portugal, nação estatista dos quatro costados, habituada a baixar a cabeça e pedir uma mercê e  a calar-se quando a mandam,  elegeu um deputado Liberal. De um ano para o outro começou a falar-se de liberalismo, que ganhou uma voz. Iniciou-se um confronto que pelo menos eu nunca tinha visto, alegrei-me, aplaudi, apoiei e votei.

A esquerda levantou-se em armas, a direita preferiu pegar na parte económica da teoria e ignorar o resto, por ser tão estatista como a esquerda. O debate prosseguia,  com a sua quota  de caricaturas, ignorância, incompreensão, falta de empatia e falácias de parte a parte, às vezes algum ódio, ou não fosse política. Se nunca pensei em ver um regime verdadeiramente liberal houve alturas em que pensei que havia espaço e contribuição a dar e que se conseguiria encontrar em muitos temas algo próximo de um equilíbrio ou consenso, e melhorar. Dar uma hipótese a propostas liberais.

Chegou  a pandemia,  para mim é aparente há bastante tempo que é um momento de viragem histórico. Só um Estado forte pode reagir bem a uma pandemia, isto parece-me evidente e vai ser em breve posto mais uma vez à prova em países com estados falhados. Esta evidência está a ser o suficiente para se negar a validade do Liberalismo e enaltecer o Estatismo. A Globalização económica, triunfo maior do Liberalismo que trouxe décadas de prosperidade e paz à Europa, está a cair aos bocados, todas as suas insuficiências e inconvenientes postos em evidência, todas os benefícios desvalorizadas e esquecidos. O consumo já não evoca conforto material, evoca desperdício, opressão e poluição, mesmo para os que sempre exigiram e aspiraram a  poder consumir mais e melhor.

Os Liberais, ao que parece sem mão nenhuma  em 60 anos de  paz , conforto e prosperidade , passaram a ser os obreiros da desgraça, como já eram de outros dramas e ameaças, desde o renascer da extrema direita ao aquecimento global. O que o Mundo tem de Bom e Belo foi-nos trazido pela Esquerda e o Estado, enquanto os Liberais trabalhavam noite e dia para explorar, oprimir e destruir o que de bom ia sendo feito, ou pelo menos tentar. O corretor de acções é um parasita da sociedade, dizem os mesmos que esperam que sua pensão lhes seja paga a tempo e horas na velhice e que o Estado se possa financiar nos mercados internacionais.

Dois motivos me  levam a admitir a derrota. O primeiro é que não vale a pena sequer tentar argumentar agora que o Estado deve ser menor e ter menos influência na vida das pessoas. Valeria numa crise de solução clara e termo à vista, não é o caso desta. O segundo é que o caminho que as coisas tomam, no meu entender, é o oposto do fortalecimento dos direitos e liberdades do indivíduo e do sector privado e  do refrear do poder estatal. Só vejo nacionalismo, populismo, desinformação, centralização e proteccionismo no horizonte, num cenário generalizado de medo, conflito e crise económica em que todos se agarram ao Estado para sobreviver, não por escolha mas por necessidade. Não será certamente o fim do mundo mas creio que o que vivemos já é suficientemente distópico e o potencial que se está a criar é assustador.

Não vai ser agora que se vai prestar atenção aos Liberais, pelo contrário, serão, com outros, o bode expiatório. Não me presto a esse papel. Admito sem problema que há várias  soluções propostas pelos liberais não têm lugar na época em que entramos. Admito que no cenário em que vamos viver não haja outra maneira de assegurar as necessidades básicas de todos por outra via que não o Estado. Uma ideia pode permanecer boa em abstracto e ser impraticável. A isto junta-se o facto de as franjas mais radicais nunca andarem longe, não posso “partilhar uma área”  com pessoas que defendem as vantagens do açambarcamento ou o fim do sistema público de saúde. Há casos em que a moral tem precedência sobre a eficiência económica.

Ganharam,  reconheço a derrota. Mas espero que sejam dignos da vitória. Espero que, depois de o combaterem tão arduamente e ganharem, não deixem o inimigo a agonizar no chão, ainda  a jeito de levar uns pontapés para alegrar a turba na plateia  ou de servir de papão, derrotado mas vivo. Espero que, se  liberalizar era assim tão mau,  “desliberalizem” e nacionalizem com ânimo,  sem hipocrisia nem deixar resquícios. Que apliquem as  receitas e métodos a fundo e sobretudo que depois assumam a responsabilidade plena dos resultados. Espero que não estranhem nem culpem os liberais quando um dia esse grande e poderoso aparelho estatal que tanto veneram cair nas mãos de um demagogo perigoso.  E não, não vão poder estar 20 anos a dizer “isto está muito mau porque os Liberais deixaram assim”. Os Liberais nunca mandaram em Portugal nem vão mandar.

Pessoas  mais corajosas, capazes, determinadas e pacientes que eu vão continuar  com a bandeira do Liberalismo. Manter a chama acesa, etc. Desejo-lhes sorte, eu retiro-me de uma contenda em que  nunca participei  a sério  mas que me ocupou demasiado tempo e energia. A causa era boa mas está perdida.

Faço como o Estado me mandar, agradeço o que me derem, digo que têm razão. Vou continuar a votar sobre o que me  deixarem e a pagar os impostos que devo, enquanto puder. Vou deixar de defender  utopias e vou seguir  o mais alegremente que possa pelo caminho da servidão. Vai sempre haver coisas boas e bonitas ao longo do caminho.