Aí está

Os regimes autoritários nacionalistas estão à vista de quem quiser olhar.  Os elementos estão todos no lugar , desde a xenofobia ao primado da repressão, os inimigos externos, o passado de grandeza, as narrativas religiosas, o controlo da informação, a corrosão das instituições, os entraves à liberdade de imprensa.

Na Hungria, em Itália, na Turquia , na Inglaterra dos Brexiteers, na França da  Le Pen, na Polónia, na China, na Rússia e claro, nos Estados Unidos, o autoritarismo nacionalista ou se instala ou está cada vez mais confortável. A popularidade destes regimes cresce, a democracia liberal anda a perder encanto pelo mundo, ao que parece.

A história de separar as famílias dos emigrantes ilegais na fronteira sul dos Estados Unidos  é sintomática e exemplar de limites que se estão a ultrapassar no Ocidente. Não se trata das condições dos campos ou da legalidade das acções da polícia e do Estado, trata-se simplesmente de constatar que isto são pessoas que não hesitam em fazer sofrer crianças,  traumatizá-las para a vida,  por um objectivo político. É ignóbil, mas o Trump consegue sempre descer mais um degrau na escala da abjecção e apesar de poder acabar com aquilo com um telefonema,  culpa os democratas. Porque não querem reformar a lei geral e dar-lhe o seu muro.

Na Europa os problemas da imigração vão ser cada vez mais importantes , cruciais no caso dos homens fortes que querer  meter ordem nisto e que vão encontrar aí o bombo da festa, o bode expiatório principal. E claro, há que meter  medo a toda a gente para justificar o aumento da militarização e segurança e … a história é conhecida. Na China já existe um dispositivo de pontuação social, são-nos dados e retirados pontos na medida em que temos comportamentos ou palavras que agradem ou não ao Estado. Tipo pontos na carta de condução, ou andas na linha ou as coisas não te correm bem.  É o horror orwelliano, e é já hoje.

Quando pensamos em todos os temas , estruturas e organizações dos estados totalitaristas “clássicos” do Século XX e as imaginamos potenciadas pela revolução digital e de informação, temos que ter medo.

Em Portugal? Duvido bastante, creio que a nossa vacina ainda está dentro do prazo de validade mas o mundo não só dá muitas voltas como dá-as cada vez mais depressa. Ainda ontem vi duas coisas , desculpem a repetição, sintomáticas dessa deriva: uma quantidade enorme de pessoas ofendeu-se, protestou e insultou sem medida porque na marcha do orgulho gay de Lisboa alguém levou uma bandeira do arco íris e no centro a esfera armilar e o escudo de  Portugal. Levantou-se uma celeuma absurda  que mostrou claramente que há muita intolerância e ódio recalcado que quando apanha uma aberta assim , uma ofensa aos símbolos da Nação! , sai cá para fora tipo pus.

O respeito e sentimento todo que tenho pela bandeira do meu país não está nem de perto nem de longe ligado ao estado da bandeira em si, ao modo como foi dobrada ou se foi seguido o protocolo. E os elementos da bandeira são mesmo isso, elementos , pode-se fazer qualquer coisa com eles e toda a gente deve poder andar com a bandeira que quiser… desde que não hasteie a bandeira que quiser num edifício público. Para mim é mais ou menos isto, mas para os nacionalistas  foi uma oportunidade de mostrar  o seu desrespeito pela liberdade e a sua homofobia. Não sei se isto está a crescer ou diminuir em Portugal mas seria importante saber.

A segunda foi o Marcelo numa selfie com duas russas no metro de Moscovo. Tinha ido cumprir esse dever constitucional do presidente que é acompanhar a Selecção Nacional em todas as fases do Mundial. Antes disso tinha sido confirmada a sua actuação com os Xutos  no Rock in Rio e fiquei meio pasmado ( pasmado por completo já não) ao ver uma fila de dezenas de pessoas na feira do livro para tirar uma selfie com ele.

Porque é que isto importa no contexto do autoritarismo nacionalista? Porque este presidente que temos está a escancarar a porta a um candidato cuja  qualificação seja ser famoso, dizer o que as pessoas querem ouvir  e ficar bem na fotografia.

Isto não está muito bem encaminhado –  frase que poderia terminar crónicas deste género há séculos.

 

 

 

 

 

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Visitas

O Santa Maria Manuela esteve cá de visita e vai-se hoje embora, não vou falar muito sobre o navio , está tudo aí bem explicado no site oficial, menos uma coisa que não é imediatamente  aparente: esta magnífica peça da nossa história náutica está viva , linda , trabalha e leva longe e alto o nome e a tradição naval do país porque foi comprada e, com isso salva, por uma empresa privada, do Grupo Jerónimo Martins. Ali não entram comissões organizadoras, sindicatos, representantes das secretarias gerais nem se arranjam lugares para correligionários na base da confiança política ou favor prévio. É um belíssimo exemplo para mostrarem a todas as pessoas que acham e pregam que a defesa do património tem que ser  sempre competência do Estado.

Bom, os marinheiros do SMM repararam logo nos botes baleeiros na rampa e no Sábado e Domingo saíram com o Formosa, nós no S.Pedro. Foi a primeira vez em 3 anos que os dois botes arriaram aqui ao mesmo tempo, e isto  porque já é difícil encontrar tripulação para um quanto mais para dois. Foi lindo, há uma grande diferença entre andar a treinar só num bote ou andarmos a par e a medir-nos com outro , passámos duas belíssmas tardes no mar e diria que proporcionámos um bom espectáculo aos Florentinos, só que a esmagadora maioria dos Florentinos não se podia importar menos com os botes baleeiros. “Era enchê-los de gasóleo e largar-lhes o fogo”, foi um dos comentários que já ouvi, eu percebo indiferença e sei bem que o que a mim me encanta pode ser irrelevante para o próximo, mas animosidade clara já me custa mais a perceber.

Sintomático disto é a idade média da nossa tripulação, que anda pelos 55 pela minha estimativa. Fiz publicidade e fiz fazer, passou-se  a palavra, tentou-se entusiasmar alguma juventude para aparecer e tomar interesse, não é apenas a vela como desporto, é o património cultural , a herança dos Açorianos, uma coisa que não existe em mais lado nenhum do mundo. Ninguém se interessa, e os poucos que se interessaram desistiram quando perceberam que envolvia um bocado mais além de andar a passear de bote e ter viagens pagas para as regatas no Verão. Já desisti de tentar perceber ou mudar alguma coisa, o meu interesse é cada vez mais estreito : o S.Pedro está pronto a navegar e tenho mais 6 homens de confiança, disponiblidade  e vontade para o manobrar? Já me chega.

E mulheres?, poderiam perguntar-me, porque é que têm que ser 6 homens? A mim cabe-me encontrar e escolher uma tripulação ( na medida em que não há “veto” de quem manda mesmo a sério…) , e quando já está, não procuro mais. Se há mulheres que se queixam de não haver tripulações femininas ou mistas e que estão à espera de serem convidadas, esperem sentadas. Ir convidar mulheres só porque são mulheres é coisa do heteropatriarcado ou dos estúpidos, eu convidei toda a gente para aparecer logo no princípio da época  e se há mulheres que querem navegar nos botes organizem-se e cheguem-se à frente, se alguma me pedir ajuda, ajudarei como puder mas parece-me que a iniciativa e organização têm que partir delas, aqui ainda não temos quotas obrigatórias nem recebemos circulares do governo a exigir mais disto ou daquilo.

No fim da navegação de ontem fez-se uma patuscada no cais com as omnipresentes lapas grelhadas, foi um bom fim de semana de convívio náutico e , como de costume, os visitantes ficaram encantados com isto.

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O melhor momento da patuscada foi para mim quando uma senhora continental, sofisticada e coiso, quis saber o que é que ia no molho das lapas.

-E aqui, é o quê?

– É o molho , respondeu o sr Mendonça, 70 anos , florentino nascido e criado, tripulante do S.Pedro.

-Sim , mas é o molho de quê?

-É o molho das lapas, põe-se por cima e come-se.

É por estas e outras que eu me dou bem aqui.

Bola, zero

É fácil de perceber que o meu entusiasmo pelo futebol se desvaneceu no último mês, é tal  o caos que se me perguntassem como é que me sinto como sportinguista eu diria “sinto-me dormente”.

Não vou desfiar as minhas razões e preferências, neste mês já pensei tudo e o seu contrário e não tenho muitas certezas, coisa que em si não é necessariamente má. O clube está num imbróglio jurídico que vai levar muitos meses a desatar, sei que há dois lados da barricada, ambos os lados convencidos de que o outro está a destruir o clube. Por cima das barricadas, nas janelas dos prédios adjacentes, os franco atiradores vão disparando, quer seja por verem lucros possíveis quer seja pela simples satisfação de ver o SCP reduzido e humilhado.

É impossível que alguém veja as capas do CM no último mês e não desconfie que eles têm uma agenda muito para  além de informar e acompanhar um assunto , é nítido que o jornal, tal como os “desportivos” , tem claramente partido e opção e faz campanha, a ética e a deontologia enfiadas numa prateleira alta. O Sporting é grande mas não é assim tão grande que mereça capas diárias do jornal nacional de maior tiragem, a menos que os proprietários e directores do mesmo tenham um “projecto”.

A esta agitação e deserções de jogadores não é estranho o começo do Mundial, a montra por excelência e hipótese de valorização e progressão na carreira. Para quem não sabe como tem funcionado a Selecção nos últimos tempos deixo um exemplo que deve ser bastante: Adrien Silva foi muitos anos capitão e estrela do SCP, sem ser convocado. Passou a ser agenciado por Jorge Mendes, saiu do SCP e foi o que bastou para passar a ser convocado.

Quanto mais não seja porque vou trabalhar todos os dias às 6 não fazia conta de acompanhar o mundial, mas ontem vi o vídeo com a “canção de apoio” à selecção. Vi no vídeo o Rui Patrício, o William e o Gelson e senti um aperto no estômago, não os via desde a final da Taça e muito mudou desde aí. Depois vi que a musiqueta era em inglês e foi o que bastou para dizer quero lá saber deste campeonato do mundo.

Sobre os jogadores o que tenho a dizer é que compreendo perfeitamente que não quisessem jogar mais no clube  depois das agressões em Alcochete e que não estivessem dispostos a trabalhar para um gajo com o feitio do Bruno de Carvalho. Tudo bem, diziam que queriam sair e apareceriam clubes interessados. O modo e o timing como o fizeram é nojento. Nunca na vida lhes vou perdoar terem confundido o clube,  que  no caso do Patrício, William e Gelson, lhes deu tudo, com o actual presidente. Nunca lhes vou perdoar terem passado este mês a ver os sportinguistas desesperados sem se dignarem a mandar-nos uma mensagem , um postzinho que fosse numa rede social, destinado aos 170 mil sócios e milhões de adeptos que sempre, sempre os defenderam,  apoiaram e pagaram os ordenados milionarios. Não foram capazes de nos dizer nada,  nada, e isso não se perdoa.

Numa época em que o SCP foi campeão de hoquei, andebol, volei, atletismo e sei lá que mais, quando a SAD dava lucro e estava a ponto de passar definitivamente para controlo dos sócios, só ouvimos dizer que o clube está de rastos,  as TVs dizem e o povo acredita. Sei que o SCP vai continuar e, desportivamente, recomeçar , nem que seja com uma equipa de berlinde, porque há centenas de milhar que não acreditam em tudo quanto lêm, gostam do seu clube, não o confundem com indivíduos e sabem que tudo passa mas o clube fica.

Aos jogadores, que se deixaram manipular por empresários (os únicos que têm muito a ganhar com rescisões e novas transferências)  e que confundem 170 mil sócios e 3 milhões de adeptos com 50 hooligans e um presidente desequilibrado, estimo bem que se fodam valentemente nas suas carreiras futuras, a começar pelo Patrício que ao que parece vai para esse colosso do futebol mundial que é o Wolverhampton.Como o título de campeão pelo SCP lhe falta, ao menos aí pode compensar lutando pela manutenção na liga inglesa. Já neste mundial vai ter sorte, enquanto foi jogador do SCP era gozado e criticado a cada falha, agora esta livre desse empecilho, já todos o reconhecem, valorizam  e apoiam. Se por acaso cometerem o erro de assinar pelo SLB  devem lembrar-se que a maior parte dos hooligans que invadiu Alcochete está presa mas que esta novela criou mais umas centenas de malucos desejosos de lhes acertar o passo, pelo que a vida em Lisboa vai ser a olhar por cima do ombro, é triste mas é verdade.

Não sou capaz de ver um jogo da selecção nestas condições, mesmo que não estivesse a trabalhar à hora da maior parte deles. Claro que não sou capaz de desejar insucesso a uma equipa que leva a bandeira do meu país, mas além dessa não sinto mais ligação de espécie nenhuma com aquela gente. A maior parte da minha ilusão e gosto  pelo futebol morreu este mês.

Não tenho esperança nenhuma de que a podridão e corrupção épicas do futebol e da comunicação social nacional alguma vez sejam limpas ou mesmo amenizadas, tive-a até há pouco tempo com o Bruno de Carvalho, enquanto o via endireitar e devolver o orgulho ao clube e a justiça finalmente a investigar a corrupção, mas o Bruno de Carvalho descarrilou e deixou-nos a pensar “mas o que é isto?”, e o SLB conseguiu , justiça seja feita à frieza, alcançe  e eficiência, desviar as atenções, ter as investigações judiciais sob controlo e os seus adeptos pacificados. Parabéns  por isso.

Tristeza, desilusão e alguma raiva, é tudo o que eu sinto pelo futebol nestes dias.

 

 

 

Ófaxavor!

Num dia estava a levar a minha vidinha plácida e lenta entre o cuidado do rebanho e das terras, a produção de cerveja e a preparação e treino nos botes baleeiros, no dia seguinte tornava-me empregado de mesa num restaurante, foi das mudanças mais estranhas e inesperadas da minha vida mas as coisas são mesmo assim.

Aqui há tempos apareceu no facebook  um anúncio em que a melhor e mais famosa unidade hoteleira da ilha procurava um recepcionista. Não morro de amores por turistas, cresci numa casa de turismo de habitação, das primeiras do país, e a permanente intrusão e vai e vem de estranhos na casa deixou-me um trauma que dura até hoje. Apesar disso não vivo do ar e os meus projectos e planos avançam muito lentamente, na medida em que chegam a avançar, e vi naquilo uma oportunidade de melhorar as minhas condições de vida, que materialmente são um bocado precárias.

Fiz a barba, encontrei uma camisa lavada e pouco amarrotada e lá fui no mesmo dia. Não tinha um CV pronto mas expliquei-lhes as minhas qualificações que relevavam para essa função e fiquei à espera de resposta. Expliquei que para mim o Domingo era um dia como os outros e que os únicos dias de folga de que precisava eram 4 em Julho e outros 4 em Agosto, fins de semana prolongados em que vamos à Terceira e ao Faial competir nas regatas de botes baleeiros. O trabalho de recepcionista numa unidade tão pequena não me metia medo nenhum, a pessoa que me entrevistou parecia ter ficado apenas à espera de uma formalidade e eu voltei para casa a pensar que ao fim de 21 anos, altura em que pela última vez piquei um cartão, podia  ter um emprego normal que ia mudar bastante a minha vida. Podia, mas sendo pessimista por natureza fiquei à espera de uma resposta negativa. Nem negativa nem positiva, não me diziam nada,  ao fim de dez dias  liguei para uma amiga que também é amiga da gestora da unidade hoteleira a pedir-lhe que lhe desse um toque, para me informarem da decisão caso se tivessem esquecido, o que é sempre possível. Passados 15 minutos recebi o telefonema, não podiam contratar-me por causa dos 4 dias em Julho e outros 4 em Agosto que eu tinha que tirar por estar comprometido com os botes. Sem problema, até me podiam ter dito simplesmente que tinham encontrado uma pessoa mais adequada, é a coisa mais natural do mundo.

Só que a minha amiga ficou a pensar que eu  andava activamente à procura de emprego e, como boa amiga, lançou-se no networking. Passados dois dias recebo outro telefonema , dos meus vizinhos alemães que têm um restaurante aqui ao lado. Eu pensava que queriam falar comigo sobre a produção de cerveja, já tínhamos discutido possibilidades de sociedade, mas o que eles queriam nesse dia era propôr-me a posição de empregado de mesa, das 6 da tarde ao fim do dia, todo o Verão.

A idéia pareceu-me péssima desde o início por juntar logo três coisas que não me interessam mesmo nada  e que não aprecio: contactar  com desconhecidos , comida e servir turistas. Além disso eu sou um gajo bastante orgulhoso e depois das coisas que fiz na vida, e faço, ser empregado de mesa é uma “despromoção” considerável, e foi esse o segundo  factor que me fez aceitar: faz-nos bem sermos reduzidos de vez em quando, é bom vermos o ego a sofrer um pouco e é bom podermos não só  estar no lugar dos outros como apreciar em que medida é que a opinião dos outros sobre nós varia consoante a nossa ocupação.

O primeiro factor foi obviamente o dinheiro, quando uma pessoa passa dificuldades e lhe oferecem uma oportunidade de as mitigar com trabalho honesto, recusar é para mim impensável. Aceitei logo mas durante essa noite mal dormi e cheguei a pensar em recusar no dia seguinte, mas não fui capaz, comecei no dia 1.

Detesto tudo, excepto as pessoas com quem  trabalho. Além de gostar das pessoas e do dinheiro que me vai resolver alguns problemas imediatos só há duas  coisas positivas :  o restaurante é a dois minutos de casa a pé e todos os dias trago uma caixa de restos para o Rofe, que se anda a consolar (e  a engordar, tenho que resolver isso) . De resto é um exercício de auto controlo, paciência  e esforço, sorriso postiço, horas a correr de um lado para o outro, rodeado de turistas, comida e cheiro a comida. A ver pessoas a gastar num jantar o que me leva ali uma semana a ganhar e aturar gente petulante ou simplesmente parva , que aparece sempre no meio das pessoas normais. Felizmente os patrões concordaram que era melhor ser a outra moça a tratar dos pedidos apesar da minha facilidade com as línguas. Não sei se ia conseguir lidar bem com as questões que nunca acabam :  Isto é o quê?Leva o quê? É feito como? É comida, nesse caso carne, feita ali na cozinha, no fogão. Ainda agora o suicídio do Anthony Bourdain me fez recordar o que eu abomino os glutões, os que vivem para comer e a obsessão nacional com a comida num país em que, para recuperar as palavras do próprio Bourdain “as pessoas ao almoço já estão a falar do que vão jantar”. Há quem ache divertido, eu acho doentio.

Há outra coisa positiva neste trabalho: nunca mais vou entrar num restaurante da mesma maneira, não é que seja ocasião frequente ou que alguma vez tivesse tratado os empregados com alguma coisa mais do que cortesia comum mas agora vejo as coisas de outra maneira, há uma empatia.

Tenho um calendário em que vou riscando os dias até 27 de Setembro, não vão  ser quatro meses nada fáceis mas acho que vou chegar ao fim uma pessoa um pouco melhor.

Sofrer até Deus querer

Desejo a todos os deputados que votaram contra a despenalização da eutanásia uma agonia prolongada no leito de morte, já para lá da idade de recuperação possível. Desejo-lhes, a eles  e às famílias, anos e anos de olhar para o tecto sabendo que não há cura, é para a morte que se caminha e há que continuar a sofrer. Porquê? Porque é a vontade de Deus. Como é que temos a certeza disso? Não temos.

Não esperava que este debate e votação fossem acontecer , só quando um grupo do CDS publicou um cartaz em que avisava que “a eutanásia mata” é que percebi que o tema tinha voltado, desliguei outra vez por ter uma boa noção do nível dos nossos deputados e das nossas “campanhas de sensiblização”. Felizmente não houve referendo, já é demais o número de pessoas que confunde eutanásia com eugenismo e o nosso nível cultural , neste tipo de debates, é sempre marcado pela religião. A nação fidelíssima e catolicíssima continua a carregar todos os preconceitos e ideias da sua religião, não percebe nem admite bem os que já deixaram essa religião para trás e pior, continua a querer (e conseguir) impôr as visões religiosas a toda a gente. Levaste àgua pela cabeça abaixo em pequenino e recitaram umas fórmulas mágicas na ocasião? Parabéns, és um católico e daqui em diante tens uma série de coisas que não podes pôr em causa nem questionar.

Tenho a ideia de que a Constituição impõe a separação clara entre Igreja e Estado mas apesar disso , como vimos mais uma vez ontem, muitas vezes o Estado legisla em conformidade com a Igreja, mesmo frente a oposição clara. Façam um exercício intelectual e tentem pôr de lado os argumentos religiosos como a sacralidade absoluta da vida humana e depois avaliem a questão da morte assistida. Em qualquer sistema moral que não esteja prisioneiro de dogmas de religião o caso contra  a despenalização da eutanásia é fraquíssimo, mas o nosso, com todas as hipocrisias inerentes, é de base católica e assim fica.

A minha querida mãe é muito devota e tem muitas expressões engraçadas, aqui há uns tempos, depois de resolvidos uns problemas difíceis que tive, dizia-me uma das suas favoritas: “Deus aperta mas não afoga”. A minha querida mãe acredita e ama um Deus que se entretém a apertar os pescoços das pessoas só para ver até quando é que aguentam, e depois, na sua magnanimidade , omnipotência e amor, larga o aperto e recolhe a gratidão dos seus filhos por não os ter afogado. Isto é hediondo, esta glorificação e aceitação do sofrimento. Mesmo que acreditassemos que as escrituras são a palavra factual de Deus, mas que Deus é esse que se contenta e alegra  com sacrifícios e sofrimento? Alguém me responde ou tem que ser a chapa cinco,  as vias são misteriosas , que dá sempre para tudo?

Defendo que os cristãos, ou os adeptos de qualquer outra religião, devem ter toda a liberdade de seguir, acreditar e praticar o que lhes pareça bom e plausível. Defendo igualmente que os cristãos, e os outros, devem deixar os que não acreditam levar a vida como lhes aprouver e deixá-los arcar com as consequências.  Não façam nada, nunca, que vá contra a vossa doutrina (claro que aqui a hipocrisia abunda e fede, milhares destes católicos anti eutanasia rebentam com outros  mandamentos numa base diária), não participem em nada que vos ofenda, e assim asseguram a vossa integridade.

Agora, deixem é em paz todos aqueles que não têm o mesmo conjunto de regras e que sobretudo não vos querem obrigar a fazer nada. Nem sequer o Estado tinha que intervir na eutanásia via SNS, bastava que autorizassem clínicas particulares a fazê-lo, e pronto, resolvia-se a questão. Mas não, celebre-se um Te -Deum, a justiça prevaleceu e milhares de moribundos agonizantes vão penar por mais uns meses, a custo enorme em dinheiro, ansiedade, tristeza e desgaste das famílias, prolongando assim um fim inevitável. Deus vai ficar certamente contente com todo esse acréscimo de sofrimento que pelos vistos lhe agrada.

Este negar da possibilidade de pôr  condignamente termo a uma existência completa que chega ao seu fim, prolongando o sofrimento humano até já não ser possível, é das coisas mais amorais que conheço na nossa sociedade. Amorais e estúpidas.

Os Moralistas

Tenho-me rido  com o modo como a vida está a correr ao Pablo Iglésias nas últimas semanas. Para quem não sabe ,o Pablo Iglésias é uma figura que surgiu em Espanha no tempo da última crise económica e ajudou a criar e dirigir um movimento de extrema esquerda chamado Podemos, que defende  as opções clássicas da extrema esquerda. Se se incomodam com o qualificativo “extrema”, chamem-lhe “radical” , que vai dar ao mesmo e eles próprios se definiram assim muitas vezes.

Com o seu rabo de cavalo e retórica anti-capital e anti qualquer coisas que mostrasse conservadorismo, arvorou-se em paladino da moral o seu cavalo de batalha era a exploração dos pobres pelos ricos, os abusos dos políticos e capitalistas e as desigualdades.

Só vê-lo a defender o Maduro, ainda antes de a Venezuela estar à fome e a ferro e fogo, chegava-me para o considerar um hipócrita perigoso , mas não se pode negar que muitas das injustiças que ele denunciava eram (e são) problemas reais, como a corrupção e a evasão fiscal.

Os anos foram passando, a Espanha , sem ser com ele aos comandos, recuperou da crise , pelo que tantos como os que lhe deram ouvidos quando ouviam que “outra solução é possível” agora também já  sabem que outra solução sem ser a dele também é possível.

 Iglésias recebeu centenas de milhar de euros da Venezuela e do Irão, é legítimo um movimento político financiar-se mas essa é a primeira hipocrisia: É legítimo para nós recebermos dos nossos amigos estrangeiros para fazer a nossa propaganda, mesmo que os amigos sejam autocracias catastróficas, mas  se os outros o fazem são uns vendidos e é uma ingerência, já para não falar da vergonha que é  um país onde há fome generalizada estar a “investir” na política de outro país.

Entretanto Iglésias, que em 2011 dava entevistas na cozinha da sua casa que podia ser uma sub cave em Odivelas com o lava louça cheio e tudo, muito terra a terra, um tipo modesto e normal, a ralhar contra a burguesia e os capitalistas consumistas, subiu na vida. As desigualdades e exageros nos vencimentos dos políticos de carreira permitiram-lhe comprar, mais a sua companheira cuja profissão é deputada, uma bela casa no campo com piscina e tudo por 600 mil euros. Caíram-lhe em cima, muitas vezes esquecendo que o problema não é comprar a casa, é ralhar contra os que querem e compram  casas de luxo no campo.

Seguiu-se outra maravilhosa: afinal a casa não eram 600 mil, era um milhão e tal, mas para evitar a carga total de impostos, declarou esse valor e o resto foi em contado, como fica bem fazer a todo o cruzado da moralização que combate a evasão fiscal dos ricos.

Ri-me a bom rir quando lá foram ao chalet pendurar uma tarja a dizer “Refugiados e Okupas são bem vindos”, é verdade que ele sempre defendeu que quem tinha condições para acolher refugiados tinha uma obrigação moral de o fazer e os okupas eram um movimento legítimo. Não havia grandes condições na sub cave dos subúrbios mas naquele chalet ajardinado já pode receber algumas famílias. A seguir vi  (lamento não ter links mas não será difícil de encontrar) uma entrevista da sua companheira e deputada que é de antologia . A jornalista, uma daquelas a sério, pergunta-lhe sobre a inconsistência de ter um discurso contra os ricos e os políticos e seus investimentos e depois fazer o mesmo, especialmente quando massacraram o anterior ministro das finanças que comprou um apartamento desse valor. A deputada hesita, pensa e responde que é  diferente comprar uma casa para habitar e comprar uma casa para especular. A jornalistas pergunta-lhe:

-Como e que sabe que  Luis de Guindos comprou a casa para especular?

A deputada fica por uns dez segundos num dos mais hilariantes e encavacados silêncios que já vi na TV, levanta-se e vai-se embora.  Já hoje , dia em que soube que na segurança do chalet no campo dos líderes do Podemos estão destacados 8 guardas e 2 viaturas, vi um vídeo do Iglésias aqui há uns anos a fulminar os políticos nos quais o Estado gasta centenas de milhar em segurança, privilégio desnecessário , um abuso, temem o Povo.

Mesmo que o Iglésias levasse uma vida de asceta eu ia ser contra a maior parte das  suas ideias, contra o seu estilo e contra a maior parte das suas propostas.Estas revelações só mostram que além de criticável pela ideologia também é criticável pela hipocrisia e falso moralismo.

Entretanto por cá qualquer trapalhada e confusão entre negócios privados e vida pública dos políticos no governo se pode explicar e descartar com um “foi um lapso” ou “não tinha conhecimento”, e até um deputado do BE, irmão do Podemos em quase tudo, declarou que vivia na sede do partido em Braga mentindo sobre a sua residência em Lisboa para receber mais umas centenas de euros. Creio que ainda não se demitiu,  sem dúvida que estará pronto a apresentar em breve um discurso sobre a necessidade de moralização da vida pública, tema sobre o qual todos os políticos estão de acordo.

 

Respirar

Choveu, não se deram as últimas demãos de tinta no segundo bote. Estão ambos magníficos na rampa. Tenho-me lembrado muito dos livros da saga Aubrey-Maturin, os livros da minha vida, e da descrição  que se fazia na Marinha Real Britânica no tempo das guerras napoleónicas dos navios de  “spit & polish” , que  priviligiavam a pintura,  a limpeza, a perfeição do aparelho, o brilho e o polimento em deterimento da operacionalidade. É como nós, temos os botes lindos, espelhados, brilhantes e sem um risco mas nem temos companhas completas e somos (ainda) uma miséria a navegar.

Um pescador a quem eu mandei um berro no outro dia quando ele estava no cais a mandar bitaites enquanto nós saíamos no bote, a perguntar-lhe se ele queria vir e ensinar-nos ou talvez pegar no leme, chamou-me, ainda pensei que me ia falar dos botes mas foi para me pedir se lhe podia dar uma olhadela na sonda da lancha, que está avariada. Infelizmente não o consegui ajudar, vai precisar de uma nova.

Amanhã há sopas do Espírito Santo e como já 3 pessoas me disseram que não me esquecesse e como é na minha freguesia, vou. Não sou devoto do Espírito Santo nem das outras figuras da Trindade juntas ou separadas e ficava um tanto desconfortável a participar numa coisa que é de devoção, mas vou, é uma tradição quase tão social como religiosa e a tradição é alimentar toda a gente que apareça sem distiguir nem perguntar nada, como verdadeiros cristãos.

Fui visitar amigos e depois de vários assuntos não consegui evitar tocar no que me anda a doer mais, por ter que declinar um convite para um “evento” amanhã à hora da final da Taça. É virtualmente impossível explicar a um estrangeiro que não se interessa por futebol o que significa o futebol para um adepto português, lá me esforcei para dar uma ideia mas está bom de ver que a paixão clubística não tem explicação racional, havendo na minha opinião apenas dois motivos racionais para se apoiar um clube em vez de outro: ou é o clube na nossa terra, bairro, vila ou  cidade ou é o clube onde praticamos um desporto. Nenhum dos casos se aplica a mim nem a milhões e milhões de outros adeptos. Fui-me embora de casa deles a sorrir por a minha amiga francesa, depois de me estar a ouvir por um bocado a falar do Sporting, ter dito.

-Fico contente por saber que sempre há uma parte irracional, emocional e inexplicável na tua vida.

Nesta foto vou ao leme de  uma parte bem racional e que se explica facilmente, se bem que também é bastante emocional. Foi tirada na primeira saída do bote este ano, com a companha que se desfez logo a seguir porque o moço da proa, que manobra a vela a que chamamos gibra por corrupção do inglês jib, teve que voltar ao seu Faial natal e deixou-nos sem uma perícia crucial para a manobra. Agora um dos maiores problemas da minha vida é conseguir aprender e ensinar o suficiente para não fazermos má figura no campeonato em Julho. Quando um dos meus principais problemas e preocupações é esse, tenho que concluir que sou um gajo de sorte.

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