Reparações

Ando numa fúria interior por causa do Sporting, vou só dizer que não gosto do estilo do Bruno de Carvalho mas espero bem que continue como presidente,  e vou antes escrever sobre máquinas de lavar.

Muitas pessoas acreditam que há uma variedade enorme de produtos que têm obsolescência incorporada, ou seja, são feitos para estarem ultrapassados ou avariarem em pouco tempo. Eu acredito nisso e faz sentido: se somos fabricantes de telemóveis, por exemplo, temos mais interesse em vender um telemóvel à mesma pessoa a cada dois anos do que vender-lhe um que dure 10, ou vender-lhe um automóvel a cada 3, convencendo-a por meio de publicidade que o seu, mesmo que esteja funcional, já não serve. É um dos problemas do capitalismo, que se não fosse alavancado por esta voragem do novo talvez nos tivesse trazido a um ponto diferente na História.

É uma coisa que me ocupa bastante tempo, tentar  fazer a “quadratura” entre os problemas por exemplo ambientais provocados pela necessidade criada de mudar de carro a cada 3 anos e telemóvel a cada 2 e os milhões de empregos e salários proporcionados pela produção desses mesmos carros e telemóveis. O balanço entre os agroquímicos que deitamos na terra e o mal que fazem e os aumentos enormes de produtividade que permitem alimentar biliões a preços comportáveis. Quanto é que vale o sofrimento dos macacos, ratos e demais animais de laboratório e os lucros absurdos das farmacêuticas posto ao lado do sofrimento humano que minoram? Onde está o equilíbrio entre os problemas da exploração e refinação do petróleo e a maravilha que é entrarmos num carro e irmos até onde queremos?

Enfim , questões sem resposta, mas pela minha parte não participo na dança e não  compro alguma coisa porque é moda, nem  deito fora coisas que funcionam , seja um telemóvel seja uma peça de roupa, só porque já há melhor. Não me sinto de algum modo diminuído nem que me falta alguma coisa por o meu carro ter 20 anos,  usar windows 7 de 2009 e calças quase até ao fio . Rio-me bastante quando vejo críticos ferozes do capitalismo que sem se darem conta estão completamente absorvidos no sistema e a sua principal objecção é que o capitalismo não lhes está a proporcionar a eles o nível de vida material a que acham que têm direito, ou alternativamente, que beneficiam de tudo e incomoda-os que os outros não possam beneficiar igualmente, o que é de uma hipocrisia considerável. Este sistema opressivo que destrói o planeta, escrevem no seu Mac enquanto partilham o dia a dia nas redes sociais, pesquisam novos cosméticos, usam o visual da moda e vão de uber para o starbucks discutir as problemáticas transgénero antes da sessão de cinema independente da meia noite. Não devia funcionar assim.

Mas estou a divagar, voltando ao tema, que são reparações, como é fácil de calcular as pessoas aqui, por escassez de comunicações com o exterior, isolamento, uma certa pobreza endémica e o próprio tamanho do mercado que não justifica muitas empresas especializadas, sempre se habituaram a esticar a duração das coisas ao máximo e a reparar tudo até ser mesmo impossível continuar. Apesar de hoje os rendimentos estarem em linha (creio eu) com os do continente e se poder encomendar toda a espécie de tralha  pela internet permanece algum  espírito de desenrasque e recuperação, de utilização do que há até ao fim. Já tive a sorte de experimentar isso pessoalmente, a última vez com o carro, numa avaria em que de certeza um mecânico no continente me tinha feito comprar uma peça nova completa, o meu mecânico aqui cheio de arte e engenho pegou nuns arames e num pedaço de plástico e poupou-me uns €300 e três semanas de carro parado à espera da peça.

Só pude comprar uma máquina de lavar roupa uns anos depois de cá morar, até lá dependia de vizinhos e amigos prestáveis e da enorme economia só atingida por gajos que vivem sozinhos e se estão nas tintas para a  avaliação que os outros fazem do grau de variedade e limpeza do seu vestuário. Foi um belo dia, e não me vou esquecer de ver o tipo da loja que ma vendeu quando ma veio entregar e instalar, a fazer os cerca de 50 metros da canada estreitinha de acesso a minha casa casualmente com a máquina ao ombro e um cigarro nos lábios.

Não mudou muito o meu ritmo de lavagem de roupa mas fiquei independente, e ainda por cima com a possibilidade de fazer o mesmo por um amigo se lhe avaria a máquina, ou de lavar umas máquinas a um conhecido que chegue aí num iate no Verão, já aconteceu. As máquinas de lavar roupa são daquelas coisas que as pessoas tomam por garantidas e já nem imaginam o que seria a sua vida sem uma, eu imagino e por isso gosto tanto da minha. Ao fim de três anos avariou.

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A máquina tem a sua própria casinha,  (essa planta é um cafeeiro, o sobrevivente de 20 pés de um palmo que trouxe do Porto da Lomba há 6 anos quando sonhava em ter uma plantação de café)  e por isso nunca a ouço a trabalhar. Carrego-a , ligo-a e passado umas horas ou na manhã seguinte vou estender a roupa. Por duas vezes a roupa estava ensopada quando abria a máquina, mas eu não me deixo incomodar por pormenores desses, estendia-a a secar a pensar que me tinha enganado num botão ou coisa do género. Isso seria difícil porque a máquina trabalha sempre no mesmo programa e temperatura, tudo é lavado da mesma maneira, mas  depois de secar uma terceira máquina e reparar que a roupa não cheirava lá muito bem é que me lembrei de depois de carregar no botão ficar a ver o processo. A máquina enchia-se de água, dava dois saltos e parava.

Liguei a um amigo electricista para cá vir e já estava a fazer contas à vida, peças, despesa, tempo sem máquina. Ele desmontou a tampa, olhou lá para dentro, pegou num secador de cabelo (acho que não é preciso dizer que não era meu)  passou 5 minutos com o secador apontado à placa electrónica e depois disso a máquina trabalhou como dantes.

Ninguém acredita que algum técnico de reparação de electrodomésticos numa cidade teria outra atitude além de diagnosticar avaria da placa electrónica e ou subsituí-la ou mandá-la para reparação, quiçá pronunciar  a máquina definitivamente avariada e recomendar a compra de uma nova.

A humidade é dos maiores problemas que temos aqui, para as casas, os aparelhos e as pessoas, e é uma guerra constante. Agora tenho uma lâmpada de aquecimento (que usava para os pintos) que montei em cima da máquina de lavar , abro a tampa e deixo-a lá quinze minutos a secar a parte electrónica antes de uma lavagem, e espero com isto estender a duração da máquina por muitos e bons anos.

Uma das coisas mais ridículas que já vi  e me convenceu de que as pessoas  em geral  pensam pouco e mal  e compram seja o que for que lhes souberem impingir foi há cerca de dois anos, um anúncio de uma máquina de lavar roupa com a revolucionária possibilidade de se abrir uma tampa inserida na tampa para juntar uma peça de roupa durante a lavagem. Para aquelas alturas em que a máquina já está a lavar mas chega a criancinha com a camisola que já vestiu uma vez (logo, imunda) e como certamente não tem outra nem pode esperar um dia ou dois, abre-se a tampa  da tampa e resolve-se esse problema.  Haver engenheiros a trabalhar neste tipo de merdas, marketeers a trabalhar para fazer crer que isto faz falta a alguém e consumidores dispostos a pagar mais centenas de euros pela possibilidade de juntar uma peça de roupa durante a lavagem é das coisas que me faz crer que este modelo não tem grande futuro.

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Um Dia na Vida

Esta manhã fui com o meu vizinho ao posto de enfermagem para aprender a mudar-lhe um  penso e trazer material. Ele vem de uma cirurgia, os pontos ainda não fecharam e no hospital recomendaram mudar o penso duas vezes por dia. Foi pesquisar na internet sobre pensos em pós operatório e naturalmente que lhe falaram dos perigos da septicemia e todas essas coisas. Eu não comentei,  deixei de discutir com ele , todas as suas maleitas são auto infligidas, é uma vítima dele próprio e já perdi a paciência. Ia começar num lamento sobre  a desgraça e a falta de assistência mas eu levantei a mão e disse “vamos lá amanhã , o enfermeiro  ensina-me , trazemos material e venho-te mudar o penso”.

Está velho, rabugento como de resto sempre foi e além das mazelas físicas que vai acumulando fruto de uma relação demasiado próxima com o álcool e por vezes distante  demais com o equilíbrio agora deu em colorir ainda mais o seu passado. Tolero muita coisa, todos temos as nossas manias e defeitos mas traço uma linha quando se começa  a mentir em público para chamar a atenção, desligou-se uma ficha, já não quero saber. Só faço o que gostaria que um vizinho e amigo fizesse por mim se eu estivesse doente: vejo o que precisa e  faço o que  posso, menos no domínio da companhia. Também aí está a recolher o que semeou e eu, por inerência da minha própria condição, respeito e admiro os que se aguentam sozinhos e não tenho grande paciência para os que não conseguem estar consigo próprios e precisam desesperadamente de companhia e atenção.

Curiosamente a hipocondria e preocupação com a saúde nunca se manifestam na hora de aviar sozinho uma garrafa de Jameson nem influem  na dieta regular de uma 0,75 de tinto por dia, nessas alturas nunca se lembra de ir à internet ver os possíveis efeitos na cirrose. Nem se lembra que tem uma , quanto mais, por isso não me interessa, tal como não me interessam queixas de solidão e de abandono dos amigos, já lhe disse para pesquisar o que se entende em Portugal por Sete Pedras na Mão, nunca foi maneira de falar se queremos fazer e guardar amigos. Apesar disto e muito, muito mais, gosto do homem, é meu amigo, já passámos muitos momentos divertidos e se bem que a amizade está  longe de ser o que era  não penso em deixá-lo ali entregue a si mesmo como às vezes me dá vontade.

O enfermeiro, sem surpresa, mostrou-se muito menos preocupado com as mudas de pensos bi diárias, disse que uma vez ao dia dá bastante. Apesar disso calha-me na mesma porque ao fim de semana  não se pode precisar de cuidados médicos ou de enfermagem nesta vila.

Voltámos do posto médico, ia pegar no meu carro para dar as voltas que precisava, tinha um pneu furado. Quanto mais passam os anos mais satisfeito fico comigo próprio por ter conseguido elevar a fleuma quase a uma forma de arte a agrado-me muito quando  reajo a contratempos com   um encolher de ombros ou nem isso, agora já nem praguejo. Era das coisas que gostava mais de ouvir no mar, quando me diziam “nada te enerva…”. O macaco que tenho no carro tem certos problemas, precisa de um alicate de fixação para funcionar, o carro estava parado a descer, o pneu suplente estava vazio, consumi hora e meia da manhã naquilo, hora e meia que estava destinada a outras coisas mas nem larguei uma profanidadezinha que fosse. Mostrando que é possível recolher ensinamentos mesmo de um pneu furado, vi que o furo tinha sido feito por um parafuso, parafuso esse que me lembrava nitidamente de ter deitado para o chão há um mês e tal com mais umas porcarias que tinha tirado do carro numa dos meus arremedos de limpeza. Lembrava-me perfeitamente de não ter voltado atrás para apanhar o parafuso e o meter no caixote com o resto do lixo. Um parafuso no chão, que mal é que faz. Pois é.

Com o pneu remendado e no sítio,  imprimir as últimas cinco páginas de uma tradução que fiz, e descobrir que o cabo da impressora desapareceu. Aqui já me apeteceu largar uns impropérios mas contive-me, até porque não iam fazer o cabo  aparecer. Andei para trás e para a frente à procura e liguei para uns amigos a casa dos quais tinha levado a impressora,  nada. Felizmente um dos  serviços que a autarquia aqui presta aos munícipes é esse, imprimem-nos coisas, e lá fui à câmara depois do almoço.

A impressão era  dos apontamentos filosóficos que um amigo meu tinha decidido pôr por escrito, eu tinha dito aí mais atrás  que se fosse alguma coisa interessante até publicava aqui, mas não é. Quer dizer, para mim não é,  é o género de ideias para a divulgação das quais nunca vou contribuir voluntariamente, traduzi aquilo como traduziria um livro de salmos ou um artigo do Francisco Louçã ou do Paulo Coelho : se me pagarem, eu faço.

As ideias chave do meu amigo são : desligarmo-nos da Razão e  viver no Presente. Pela segunda ainda posso argumentar uma coisa ou outra, agora tentarem convencer-me de que é forçoso , a bem da minha felicidade e da eliminação da Dor,  abandonar a Razão, é uma batalha perdida.

Tínhamos combinado às 2 da tarde num ermo onde termina uma estrada rural, ele vive no alto de um penhasco onde mal se chega a pé quanto mais de carro. Às duas e trinta nem sinal , e aí a única coisa que me estava  a impedir de perder o raio da fleuma e começar a insultá-lo à revelia era a beleza extraordinária do princípio da tarde e do sítio onde estava, de onde via ao mesmo tempo Santa Cruz, a Caveira e  a Lomba, mil reflexos  diferentes do sol no mar a perder de vista, os montes a subir  para o Norte até se perderem em bruma, ali um sol radioso, lá para cima para o mato a neblina a rolar e embrulhar tudo. Só visto.

Muito bonito mas a pontualidade é uma das virtudes que mais aprecio na vida e a falta dela é das poucas  coisas que me consegue perturbar a calma. Se toda a gente tem um relógio ou acesso a um relógio, o que é que há de tão complicado em estar à uma quando se diz que se está à uma? Esse meu amigo nunca costuma ter rede no telemóvel mas por descargo de consciência liguei-lhe. Tinha rede e tinha-se esquecido, e enquanto eu estava à espera dele no topo da Rocha do Touro  estava ele uns 600 metros mais abaixo, a pique, ao pé do mar no Porto da Lomba, provavelmente numa das suas empreitadas alucinadas, tipo encher vinte sacos de 40kg de areia e levá-los às costas rocha acima. Disse-lhe que deixava as folhas lá no cruzamento debaixo de uma pedra, e que me pagava depois, quando calhasse. Só lamentei  ter ficado na noite anterior até tarde e más horas ( 23.30) para acabar o raio da tradução e não falhar o encontro, mas pronto, o que interessava era que a minha parte estava feita.

Voltei ainda a tempo de passar mais uma hora a desbravar a minha selva particular, todos os dias penso “é pá estafo-me aqui, vou mas é pagar  a um moço €5 à hora e ele numa manhã limpa-me isto tudo” e decido ir falar a um no dia seguinte… mas  já agora faço mais um bocadinho.  Já levo quase duas semanas neste adiamento , mais mês menos semestre começa a aparecer ali um jardim, mesmo que nunca lá vá ninguém sem ser eu,  há uma diferença grande entre olhar para aquela terra e  dizer : “fui eu que limpei isto” e  “mandei limpar isto”.

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Já não via o meu gato há quase três dias , há bocado estava no duche quando o ouvi entrar pela janela. Veio ver-me, a miar em altos berros, quando saí do duche já se tinha ido embora outra vez. Pelo menos não me pede dinheiro. O cão teve um ataque de parasitas, eu bem andava desconfiado que ele não estava muito bom, mas ao contrário das pessoas nas cidades que têm que apanhar a merda dos seus cães, eu ao meu abro-lhe a porta e ele vai correr e fazer as suas necessidades aos campos em frente à casa pelo que nunca vejo o que ele faz. Foi por acaso que desta vez estava por perto e reparei nas lombrigas. Fui ver “remédios naturais para parasitas dos cães” só por curiosidade, com a intenção de ir à farmácia pedir o remédio existente para os parasitas, e fiquei a saber que há veterinários holísticos. A veterinária é um campo muito melhor para demonstrar as limitações, chamemos-lhe assim, da homeopatia, porque como é óbvio num animal o efeito placebo não se pode manifestar. Ao contrario de um humano nenhum animal se convence de que vai melhorar e melhora mesmo,  nem se dá um comprimido de água com açúcar ao cão a dizer “toma isto que vais ficar bom”. Ou melhor, pode dar, mas não funciona.

Comecei a escrever este post quando estava à procura de ideias e inspiração,  devia estar a escrever uma história para apresentar na  espécie de espectáculo que vamos fazer no lar de idosos entretanto,  aceitei o convite porque não era capaz de dizer que não, mesmo tendo bem presente aquele cheiro a morte lenta e creolina que me ia deitando abaixo da única vez que lá entrei.

Além das canções que as moças vão cantar há as histórias, ou sketches, ou o que se quiser chamar, elas já têm cada uma a sua e eu ando consumido há 15 dias porque ainda não encontrei nem consegui inventar uma história que ache apropriada para contar a 20 idosos para lhes alegrar a tarde. É quase certo que vai ficar para a última hora, mas alguma coisa de jeito há-de aparecer.

O Fim do Mundo

Não tenho grandes dúvidas de que no dia em que tiver a minha microcervejaria pronta, instalada num edifício em conformidade com todas as normas da indústria tipo III e com todo o minucioso e extenso licenciamento em ordem, o Governo Regional vai legislar no sentido de reconhecer e facilitar a vida aos pequenos produtores de cerveja e isentá-los de exigências pouco justificáveis e  muito dispendiosas, como já se faz no continente.

Na mesma linha , não tenho grandes dúvidas que a acontecer um cataclismo global daqueles de parar tudo e rebentar com a sociedade tal como a conhecemos isso vai acontecer num dia  em que o Sporting esteja a liderar a tabela com 5 pontos de avanço a 2 jornadas do fim.

Quase desde que  comecei a ler  que conheço teorias , projecções  e premonições sobre o fim do mundo e  os cataclismos que nos esperam ao virar da esquina, lembro-me que um dos primeiros livros sérios que li foi  “Os Limites do Crescimento” , devia ter uns 12 anos e fiquei muito assustado e convencido de que se chegasse aos 30 ia ser num cenário miserável, estávamos condenados, os autores do livro defendiam  em 1972 que se estavam a atingir  os limites.

Desde os profetas esgadelhados aos berros pelos desertos do Médio Oriente  nos tempos bíblicos até aos alucinados que ainda hoje  fazem o mesmo nas ruas das grandes cidades, nunca houve falta de anúncios e avisos do Fim, sempre próximo. Tenho um vizinho um pouco distante que abriu um  Centro de Sabedoria Cósmica, de momento é só ele e a mulher na sua sala mas sem dúvida  que os discípulos se vão materializar, tem uma ligação  online permanente com um guru brasileiro que sabe e  pontifica sobre física quântica, metempsicose, ciência alienígena, enfim , fala  sobre tudo com um largo e cativante sorriso. Periodicamente o vizinho avisa via facebook , entre duas citações falsas do Leonardo Da Vinci e do Einstein  e três frases de sua autoria (mal escritas e um tanto absurdas mas apresentadas em belos fundos que lhes dão ar de credibilidade), que grandes mudanças estão para muito breve, aguardemos serenamente. Isto dura há 5 anos e já estive para lhe perguntar o que é que ele entende por breve mas  já aprendi a não me introduzir em debates assimétricos.

Creio que desde que o Homem tomou consciência de que vivia num planeta  num determinado espaço e tempo que começou logo a pensar como é que isto iria acabar.  Com o surgimento da internet e do facebook houve um  aumento exponencial dos malucos com possibilidades de espalhar a sua maluqueira e de bem intencionados com pouca noção da realidade e a possibilidade de chegar a milhares de influênciáveis, e  os fins do mundo têm-se sucedido com relativa frequência.

Na memória tenho dois, o da transição para o ano 2000 que muitos cretinos passaram ajoelhados a rezar e que apesar de o dia 1 de Janeiro de 2000 ter amanhecido tal como o anterior não puseram em causa as suas crenças, apenas avançaram a data, e o de 12/12/2012 , esse com mais influência do Calendário Maia. Os Maias eram um povo avançadíssimo que conseguia ver no calendário astronómico o fim dos tempos mas curiosamente hoje não há civilização Maia, já não havia em 2012,  o próprio  fim não lhes apareceu no calendário.

Já no ano passado apareceram-me vários avisos sérios de que a invasão alienígena estava iminente, era para Setembro. Não sei se repararam mas não aconteceu nada.  Um problema gravíssimo nestas coisas é que o número de visualizações ou visitas de um site ou vídeo converte-se em dinheiro, pelo que há milhares de pessoas não necessariamente ignorantes ou  crédulas que trabalham a inventar e propagar merda, porque é sabido que nasce um tanso a cada minuto e que se mandarmos a 100 pelo menos 10 acreditam, por mais descabelada que seja a proposição. Há milhões de americanos que acreditam que Deus fez Trump presidente , muitos serão pessoas que se riem dos emails do príncipe da Nigéria, demonstrando que há variadíssimos tipos de estúpido, cada um de sua maneira especial.

Voltando ao apocalipse, todos os dias é o fim do mundo para milhares de pessoas e ninguém lúcido concebe um “fim do mundo” como um boom em que isto vai tudo pelos ares e só se salvam os escolhidos, ou mesmo um em que não se salva ninguém. Creio que uma coisa dessas à escala do planeta só seria possível com um impacto de um asteróide enorme ou outro corpo celeste que chocasse contra  a Terra. Para aferir essa possibilidade felizmente hoje não consultamos a ancestral ciência Maia,  as Centúrias  ou o Livro das Revelações , temos entre outros a NASA e a AEE que observam o Cosmos e mais importante do que observar, têm uma noção sólida do que estão a ver e modo de fazer as contas ao que se vai passar a seguir.

Não sei se no caso de detectarem uma trajectória de colisão catastrófica iam preferir não dizer nada e que o Fim apanhasse toda a gente de surpresa ou se iam lançar o alarme e, consequentemente, o caos. Não perco muito tempo a pensar na possibilidade de aviso  porque havendo um asteróide a vir direito à Terra o resultado final é o mesmo, haja aviso ou não haja aviso. Se me perguntarem a preferência digo  que não avisem.

Pode não haver fim de tudo mas pode haver   uma variedade grande de catástrofes naturais ou humanas que causem um nível de destruição com consequências na vida de toda a gente. Por exemplo as Maldivas serem submergidas só afecta  quem lá vive, só é  grave  para eles, mas uma guerra nuclear entre a Coreia do Norte e os EUA já causaria milhões de mortos e teria consequências globais muito sérias.

Há hoje hipóteses que há 10 anos pareciam absurdas mas que  já se voltam a ponderar, como uma invasão Russa da Europa Ocidental (que até já foi bem ensaiada na Ucrânia) ou um conflito aberto entre o Irão e a Arábia Saudita (que hoje decorre  “por procuração” no Yemen mas isso pode bem mudar amanhã) e não há falta de pontos de choque e tensão com potencial de escalada. Para mim a probabilidade mais séria é a de colapsos económicos conduzirem a guerras: quando um governo se vê sem recursos , fragilizado e odiado pelos seus cidadãos existe sempre a tendência de culpar estrangeiros e de organizar distracções em forma de guerra. A Venezuela é um caso concreto, o Maduro nunca hesita em culpar estrangeiros pelos resultados desastrosos da sua governação, os vizinhos temem o caos e degradação social nas suas fronteiras  e já pelo menos desde o Verão passado que há operações e incursões militares na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia. Depois de demonstrar  como se arruína o país com as maiores reservas de petróleo do mundo culpando sempre terceiros, o socialismo bolivarianista pode passar à fase  seguinte , lançar o país na guerra (fome e peste já conseguiram) . Outra  guerra na selva da América Latina não é de consequência global nem pode escalar para nuclear, tal como a subida de um metro do nível do Mar teria consequências graves para muitas cidades e regiões mas não determinaria o colapso das sociedades.

Um derrocada financeira como a que eu, com a minha costela de Cassandra, aguardo para os próximos anos trará dificuldades enormes, uma quebra literalmente brutal do nível e condições de vida de centenas de milhões de pessoas e a oportunidade para os que guardem o sentido de humor se rirem a pensar em como achavam que as coisas estavam terríveis em 2013. Poderá trazer um ou outro conflito e no limite a desintegração de estruturas tipo a União Europeia, mas a vida continuará. Não posso criticar o pessoal do fim está próximo por dizerem que está sempre próximo e depois dizer que espero uma crise económica  para um futuro próximo, deixo aqui o meu prognóstico, vem abaixo em 2019. Espero bem estar aqui em Dezembro de 2019 preso no pelourinho cibernético a levar com tomates podres e escárnio por me ter enganado, caso não me engane não vou estar porque nem vou ter internet .

Com estes pensamentos ia visualizando possíveis futuros da Humanidade, sempre cínico que chegue quanto a invasões de extraterrestres, descidas de entes divinos ou novos dilúvios, e  céptico quanto a quaisquer possíveis causas de caos e destruição geral  que não fossem já bem conhecidas. Leitura recomendada para quem gosta de pensar em como é que isto pode ir tudo com o cão, “Colapso”,(do mesmo autor de “Armas, Germes e Aço”) , um livro que explora histórias e possibilidades de, precisamente, colapso.

Uma noção que ouvia de vez em quando nestes catastrofismos era a “inversão dos pólos”, e com uma certa arrogância, como muitas delas saída da ignorância, pensava que era mais uma criação de esotéricos e proponentes do sobrenatural. Há um Pólo Norte e um Pólo Sul e a simples possibilidade de se inverterem parecia-me absurda, inconcebível.

Pois sucede que não só é uma possibilidade real como  já se deu várias vezes, e eu sabia  zero sobre magnetismo terrestre. Li este artigo que me apareceu por acaso e fiquei a saber quase o mesmo, mas agora sei que esse magnetismo é muito real e  influi em  quase tudo, desde a electricidade até ao crescimento de espécies animais. Às tantas vai-se a ver e existem mesmo auras e pessoas que as vêm  e eu além de cínico sou um bocado estúpido na minha própria categoria.

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Não estou a fazer conta de o ler o livro  mas nessa recensão e nesse artigo que referi levantam a questão das possíveis consequências da tal inversão dos pólos nos nossos dias : catastróficas, à falta de palavra mais forte. Não é preciso ter uma grande imaginação nem elasticidade mental para perceber que uma quebra global de tudo o que é eléctrico significaria o fim do mundo tal como o conhecemos. É das sugestões que faço mais vezes a pessoas urbanas que não se preocupam com emergências nem cenários difíceis: imaginem-se  numa  Lisboa onde não há electricidade durante 3 dias. É mais do que  o suficiente para  o caos. Se este inverter dos pólos se verificar entretanto  esse caos pode ser global.

É bom pensar nisso, é um exercício tão velho como  os Estóicos da Grécia  Antiga que defendiam e propunham a visualização negativa como exercício intelectual, não sei se ajudou muito  a Humanidade mas sei que ajudou os Estóicos em particular e que felizmente chegou até aos nossos dias, não tenho dúvidas que muito gurus contemporâneos falem disso como se acabassem de descobrir a ideia mas devêmo-la a Zenão de Cítio, 3 séculos antes de Cristo.  Se conseguirmos “ver” tudo o que pode correr mal e em que escala,  podemos não só apreciar melhor a situação presente como preparar-nos melhor para eventualidades.

Como se não bastasse o aquecimento global, a poluição, a acidificação e o subir do nível do mar, o derreter das calotes polares, o aumento dos fenómenos meteorológicos extremos,  a contaminação química, as guerras convencionais ou nucleares, as desigualdades galopantes, o Benfica, as epidemias, a corrupção, a estupidificação e o controlo das massas, o triunfo do Ter e Parecer sobre o Ser, a exaustão dos recursos, as ditaduras, a opressão política e as violências de toda a ordem, temos também a inversão dos pólos com que nos preocupar.

A parte mais difícil destes textos é quase sempre o último parágrafo, encontrar a nota adequada para fechar o raciocínio, mas há dias em não me sai nada e tem que se terminar com batotas como esta.

 

Um Parafuso a Menos

Há duas ferramentas que aqui toda gente que tenha mais terra do  que um jardim possui na arrecadação, quer tenha animais quer não : uma motosserra e uma roçadora. A primeira tem mais uso no Inverno, a segunda no Verão quando a monda parece que cresce diante dos nossos olhos. Usa-se a roçadora para limpar terras bravas e de cada vez que os animais acabam de comer determinada pastagem, passa-se a máquina para cortar as ervas de que eles não gostam, e também para simplesmente aparar a relva nos jardins e quintais. Já as motosserras trabalham mais no Outono e no Inverno, eu uso a minha para cortar lenha e quase todos os dias para cortar incensos. Como falo aqui várias vezes de incensos cabe  explicar que não estou a falar dos incensos orientais que se queimam em pauzinhos para aromatizar, estou a falar do Pitosporum Undulatum, uma árvore que se encontra por toda ilha, cresce rápido,  diz a wikipedia que é nativa da Austrália , aqui estão muitas imagens.

Em S.Miguel usa-se na cultura do ananás, faz uma espécie de cama orgânica onde eles crescem, e também se usa  para camas do gado. Em certas ilhas (e aqui também) produz-se mel de incenso, se o encontrarem à venda comprem-no todo porque dificilmente encontrarão melhor e mais puro, feito por abelhas que quase só se alimentam dessas flores e passam as vidas sem cheirar nem comer nada que não sejam flores. Não sei se também acontece nas outras ilhas mas aqui também se dá incenso a comer aos animais, as minhas ovelhas fartam-se de comer folhas de incenso não porque eu lhes queira muito variar a dieta mas para completar a alimentação, no Inverno não há erva que chegue, um saco de ração ainda são quase 15€ pelo que quase dia sim dia não vou cortar incensos, em terras minhas, em terras emprestadas e em terras onde me dão autorização para isso. Por razões óbvias não se corta uma tonelada de uma vez e se guarda, pode parecer que não mas as ovelhas são bastante esquisitas e preferem as folhas frescas.

 

Como lenha para aquecimento o incenso já não é grande coisa mas não se pode ter tudo, e tenho sempre uma  reserva de lenha  cortada em pedaços pequeninos para caber na salamandra, que é à mesma escala do resto das coisas. Como a alimentação para os animais e o aquecimento estão muito alto na lista das prioridades  (aqui muito raramente baixa dos 14º mas eu sou friorento e além disso gosto de ficar meio mesmerizado a olhar para o lume), a motosserra é a ferramenta essencial do Inverno. Recentemente comprei uma terra nova que tem uma matazinha, tenho lá lenha para cortar para  anos, e como o meu ritmo de trabalho é, para ser caridoso, um tanto  lento, também aí há quase todos os dias trabalho para a motosserra.

Como na altura tinha essa possibilidade decidi investir na melhor motosserra que há, é uma Stihl , passe a publicidade e desculpem os fãs da Husqvarna,  podia ter comprado uma chinesa por metade do preço mas que duraria um quarto do tempo. Como não podia deixar de ser é a mais pequena da gama mas é excelente, serve-me  perfeitamente  e nunca me falhou, mas não há material nenhum que resista à falta de jeito do operador e de alguma maneira que ainda não percebi bem arranjei maneira de entortar o parafuso que ajusta a tensão da corrente.

Não é um parafuso standard, sem surpresa não tinham na loja de materiais de construção e ferragens aqui, nem na outra vila, nem na Associação de Agricultores. Acontece frequentemente não haver algum artigo, especialmente com peças para  carros, não há em lado nenhum e demora sempre no mínimo dos mínimos 15 dias a chegar de fora. Quando os CTT eram públicos era assim, agora que foram privatizados…é igual.

Na Associação encontrei um amigo que me disse que de certeza que tinha disso, ele é auto didacta da mecânica e guarda os parafusos todos, lá fomos à garagem dele.

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Não é bem uma agulha num palheiro mas é um parafuso m5 com dois terços de rosca, como é normal havia naquela gaveta quase todas as medidas e formas de parafuso conhecidas do Homem menos essa. Com um torno, uma lima, boa vontade e aquela vantagem enorme de nos conseguirmos desenrascar com uma aproximação recuperámos o parafuso e tenho outra vez a motosserra funcional, mas não pode ser permanente, primeiro porque qualquer parafuso torto e depois endireitado está comprometido, depois porque com coisas como motosserras não se brinca nem facilita.

Ontem houve um acidente mesmo aqui ao pé de casa, um tipo que ia perdido de bêbado passou para fora de mão e bateu noutro de frente (sei que estava perdido de bêbado porque 15 minutos antes estava no mesmo café que ele) ficou encarcerado e a ambulância e os bombeiros vieram do outro lado da ilha  (aqui  há quartel mas não há equipamento de prontidão) eu estava lá quando os chamaram e demoraram quase 45 minutos , pelo que é bom que o pessoal aqui não tenha ferimentos que não permitam aguentar 45 minutos.

Estava a falar disso com um amigo no outro dia, se me acontece alguma aí numa ribeira ou numa combrada por causa de um desiquilíbrio ou de uma falha (por exemplo um parafuso numa motosserra), é bom que consiga sair pelo meu pé, porque primeiro que alguém dê pela minha falta  pode demorar dias, depois chegar ao centro de saúde é outro problema, e se não der para ser remendado lá tem que se ir de avião para o Faial pelo que é bom fazer tudo com calma, ter muito cuidadinho onde se pisa e onde se agarra e ter a certeza de que os parafusos estão todos em ordem.

Há  visitantes e admiradores da ilha que apontam como principal  obstáculo a instalarem-se cá,  o que os anglo saxões chamam dealbreaker,   a falta de um hospital, a ideia de ter um problema grave e não ter assistência é-lhes inconcebível. Eu respondo que se vive aqui  há 500 anos, criaram-se gerações e viveram-se vidas tão seguras e felizes ou inseguras e infelizes como noutros sítios, e que todos os dias morrem dezenas de pessoas num raio de poucos quilómetros dos melhores e mais equipados hospitais. De qualquer maneira encomendo o parafuso novo, não há que viver com medo mas não há que facilitar.

O Ministério da Solidão

Spiritual-Loneliness

Vi a notícia de que o Reino Unido tinha criado o Ministério da Solidão e nem quis acreditar, pareceu-me um sketch de comédia mas é mesmo verdade. Fui confirmar  que os Conservadores continuavam no poder e não os Trabalhistas, que tendem sempre mais a pensar que todos os problemas e questões, sejam económicos sejam sociais, se resolvem com mais organismos estatais, e ainda fiquei mais confundido.

É mesmo  verdade, e a nova Ministra da Solidão é uma senhora que até agora era  Ministra do Desporto, vai acumular as pastas. Começo já por aí , os governos e políticos modernos são sempre polivalentes, de tal maneira que uma pessoa que foi escolhida para tutelar o Desporto é considerada uma escolha natural para se ocupar de um tema como a Solidão, o que o cidadão conclui disto e que a perícia e qualificação em causa é mesmo ser ministro, assim em geral,  se estamos bem ligados, sabemos fazer os barulhos certos e percebemos os meandros da administração pública podemos ser ministros de seja o que for.

Fui ver o CV  da nova  ministra e duas coisas me chamaram a atenção : a primeira é que realmente tem qualificações para Ministra do Desporto, tem o curso de treinadora de futebol e toda a gente sabe que esse é o desporto que interessa. A segunda é o que no fundo a qualifica para Ministra da Solidão, ou de seja o que for: da Universidade saiu para assessora no parlamento e por lá ficou, nunca fez mais nada na vida e por isso tem a experiência correspondente.

Andei a ver notícias e comentários sobre este novo ministério, o primeiro que me saiu foi, sem grande surpresa , um artigo a dizer que a culpa do aumento da solidão é do neoliberalismo. Não podia deixar de ser, todos os dias se confirma que tudo o que é negativo na sociedade contemporânea decorre daí, e por extensão, do capitalismo, ao passo que tudo o que é bom decorre da natureza humana. O artigo começa assim: Anyone who really knows what loneliness is knows it well: that permanent vague aching sensation in your chest …. Tretas!, digo eu que sei uma ou duas coisas sobre solidão, mas se o autor me ouvisse dizer isso ia logo dizer que a chave é “quem sabe verdadeiramente o que é solidão” e como eu acho que a maior parte do artigo são tretas deve ser porque eu não sei verdadeiramente o que é, ele sim.

Nunca deixo de estranhar a relutância em aceitar factos da vida e evoluções sociais sem ter que andar a correr à procura dos culpados, de algo ou alguém a quem apontar para dizer “estão a ver este problema? A culpa é destes gajos”, que faz as pessoas sentirem-se melhor e pensarem que compreendem. No futebol é a mesma coisa, e eu sofro disso às vezes porque o futebol é uma parte da minha vida onde não só aceito como cultivo a irracionalidade: para muita gente nunca perdemos um jogo porque calhou, porque correu mal, porque tivemos azar. Há sempre algo ou alguém a quem se pode culpar. Às vezes é verdade , outras não , mas todos conhecemos quem nunca aceite uma derrota do seu clube e consiga sempre apontar o momento X em que algo alheio ao jogo determinou o resultado.

O Homem evoluiu como animal gregário, tal como os resto dos primatas e outros bichos que ainda vivem em bandos, pela razão  muito simples de que as tarefas essenciais à reprodução da espécie necessitam de esforço de grupo, desde a procura de alimento ao cuidado das crias à defesa de intrusos. Tanto quanto percebo nenhuma espécie animal evoluiria se não fosse pelo menos a dada altura parte de um grupo, nem que fosse  um grupo de dois, o necessário à reprodução. Como  as tarefas da sobrevivência se tornam mais fáceis e produtivas em grupo, foi em  grupo que os primatas evoluíram no caminho para Homo Sapiens. A agricultura, a caça, o cuidado dos pequenos, a transmissão de conhecimentos, a protecção do grupo foi-se fazendo melhor quanto  maior e mais sólido era o grupo, estabeleceram-se hierarquias, organizou-se o trabalho, criaram-se  normas e religiões e em grupo o Homem espalhou-se pela Terra e dominou-a.

A Comunidade é a forma de organização e vida reconhecida como  natural e lógica e a Família a fracção constituinte dessa comunidade. Como isto durou dezenas de milhar de anos é lógico que quem não estivesse integrado num grupo fosse visto como uma anomalia e também é lógico que quem não procriasse fosse visto como não contribuindo com nada para o grupo. Participar nas tarefas colectivas e  procriar, durante milénios era este o sentido da vida. Para muita gente ainda é.

Sucede que as condições e  “regras do jogo” estão a mudar a um ritmo dramático e hoje , ao contrário de há poucas décadas, quem vive sozinho não está condenado nem a uma existência isolada e sub humana nem a ser um peso morto que não contribui com nada. Não só a tecnologia  permite uma vida próspera, produtiva  e preenchida fora de um grupo ou família como muitas pessoas, no número das quais se inclui este vosso criado, encontram satisfação e compensação  na solidão e estão  apetrechadas com  ferramentas espirituais e materiais inconcebíveis há, sei lá, 200 anos, que permitem fazer um cálculo custo-benefício, pôr num prato da balança os inconvenientes da solidão e no outro os inconvenientes de viver em grupo,  e  depois  tomar decisões conscientes.

Viver só não é muitas vezes questão de decisão, se  me perguntam “porque é que nunca te casaste?” eu não digo que decidi ficar solteiro, o que decidi foi, tendo em boa conta essa máxima maravilhosa que diz que mais vale só que mal acompanhado, aceitar sem dramas se a coisa nunca se proporcionasse e não fazer da busca  de um par a demanda de uma vida.

Cada vez há mais gente a viver sozinha e claro que cada vez há mais gente a sentir a solidão, e é por isso que a sociedade cada vez inventa mais coisas para lidar com isso. As redes sociais fervem de gente desesperadamente solitária que ali encontra ilusão de companhia e criticam-nas  por causa disso, mas há cem anos uma pessoa que vivesse sozinha e recebesse uma carta de um familiar ou amigo tinha ali uns minutos de companhia, era a mesma coisa, noutra escala. Vive-se sozinho mas há janelas sobre o mundo ao alcance de todos, formas de comunicação quase perfeitas e um sem número de modos de participar activamente e produtivamente na sociedade mesmo vivendo sozinho, e mais ainda, existem meios para que quem vive sozinho e quer deixar de o fazer possa conhecer e comunicar com literalmente milhões de pessoas nas mesmas circunstâncias e encontrar alguém, pelo que o indivíduo que vive sozinho não deve ser considerado anormal, um triste ou um doente, nem a solidão uma coisa necessariamente negativa. Será negativa para quem não suporta a própria companhia, não se conhece a si mesmo nem esta em paz consigo próprio, isso é outra questão diferente e pessoas assim terão sempre problemas mesmo que sempre acompanhadas.

O problema real e dramático não e a solidão em geral, são as pessoas idosas que se encontram completamente sozinhas no fim da vida sem nunca o terem escolhido nem desejado nem apreciado. A decadência física piora  tudo, vai retirando independência aos poucos e a situação agrava-se com o sentimento de abandono, tantas pessoas que deram tudo e viveram em função de famílias que depois não querem saber deles para nada. Muitos especialistas dizem que este problema é “culpa da sociedade”, eu digo que é culpa de individuos que são umas bestas, não é ” a sociedade” que faz um filho abandonar um pai.

Se é nessas pessoas, nos idosos abandonados, que o governo britânico está a pensar com o seu novo ministério, é positivo, mas ainda assim parece-me  ridícula a noção de que mais uma camada de burocracia estatal vai contribuir para minorar o problema. Não tenho dúvidas nenhumas de que o Reino Unido já possui serviços sociais em quantidade, poder e tamanho suficientes para se dedicar ao problema sem se criar outro ministério. Reforcem-se as redes de apoio domiciliário. Dêm-lhes animais de companhia e condições para os ter.  Melhorem-se e fiscalizem-se as condições dos lares de terceira idade e de outros apoios a idosos sós, não me lembro de muitas funções para o Estado mais importantes que zelar pelo bem estar dos que já deram tudo e merecem um fim digno e em paz.  Sejam criativos,  como os Holandeses, que sem ministério inventaram um sistema em que  estudantes residem à borla em lares de idosos, minorando as eternas dificuldades económicas dos estudantes e alegrando essas casas, dando companhia e movimento aos idosos. É preciso um ministério novo?

Se o governo do UK fosse Trabalhista não tenho dúvidas de que o Bloco ia exigir rapidamente um ministério novo em Portugal, que depois de criar umas dúzias de “lugares” , encomendar uns tantos “estudos” e torrar umas centenas de milhar ia propor mais ou menos o que eu proponho aqui, que de resto não tem nada de original. Como é uma medida dos Conservadores não vão pegar nisso, e ainda bem.

Daqui por 15 dias vou ao lar da Santa Casa aqui das Lajes participar com uns amigos numa sessão de histórias, está-se a trabalhar numa apresentação para alegrar um pouco a tarde daquelas pessoas. Não foi por sugestão da direcção nem de nenhum  ministério, foi por sugestão de indivíduos com compaixão que não precisam do Estado para lhes dizer o que fazer para minorar um problema que está à vista de todos. Entrei lá uma vez, não passei do àtrio   e até me engasguei com o cheiro, uma coisa incrível, nunca pensei, não sei se é o cheiro da morte em espera mas se não é  deve ser  parecido, e nunca mais pensei em lá entrar. Mas vou, aceitei o convite e vou participar pela mesma razão que tento sempre que guie as minhas interacções com os outros ao longo da vida:  faço como  gostava que me fizessem a mim.

 

 

 

Uma Imigrante

-Temos uma imigrante nova – informou-me um amigo francês quando o visitei na semana passada – do Hawaii!

Fiquei  interessado e o interesse deve ter transparecido por que me disse logo a seguir:

-É lindíssima…mas acho que não te vais dar muito bem com ela, é muito….esotérica. Muito mesmo

E acompanhou com um gesto daqueles que significa “muito para lá, noutra dimensão”. Confiei na opinião dele, que conhece bem não só a mim como ao género de visitante /imigrante que dá aqui mais à costa. Em Alcobaça dizíamos que os vales atraem os loucos, devia mostrar aos meus amigos de lá a colecção que aqui existe, entendendo obviamente “louco” não no sentido de demente ou insano mas no sentido de original e  pouco convencional. De resto, acho que também faço parte da colecção e é claro que também tenho a minha pancada.

Fiquei com uma certa curiosidade , especialmente por causa do “lindíssima” , mas não pensei mais nisso com a certeza de que com as coisas correndo normalmente era inevitável conhecê-la entretanto. A ilha é pequena  e este género de “imigrantes”  movimenta-se  no mesmo círculo, que não é muito grande e ao qual  passo frequentemente umas tangentes e secantes, de tal maneira que um dos meus vizinhos , seis anos depois, ainda não está bem convencido de que sou português, sempre que me vê pergunta-me “how are you, ok?” , eu respondo sempre no português mais claro que consigo mas por alguma razão voltamos sempre ao mesmo.

Entretanto recebi um telefonema de outro amigo francês a perguntar-me se eu estava interessado em fazer-lhe uma tradução, eu respondi logo que sim, de vez em quando faço isso, de português para francês ou inglês ou vice versa. Até alguém me vir chatear e querer multar por não ser oficialmente tradutor ou não declarar às finanças ou não ser sindicalizado ou o raio que os abrase  vou continuar a fazer isso quando há oportunidade.

Esse amigo vive com a família no alto de um penhasco pouco acessível numa casa toda feita por ele, combinámos encontrar-nos noutra casa que eles têm numa freguesia e que compraram para arrendar no airbnb, que mesmo os hippies  reconhecem as ferramentas positivas do capitalismo e os espertos aproveitam-nas.

O alojamento local gerou mais de mil milhões de euros para Portugal no ano passado, e isso não conta o valor gerado pelas transacções imobiliárias e pelo sector da reconstrução e requalificação , eu todos os dias agradeço ao Costa e à geringonça o terem-se lembrado de aumentar o turismo desta maneira, incentivado as pessoas a recuperar e alugar as suas casas e o terem  criado o airbnb, deve-se a isso a retoma, a par com a criação massiva de empregos públicos. Só na semana passada aqui nas Lajes a câmara municipal contratou mais 8, acho que já só falto eu, ninguém dava por falta de mão de obra nos serviços camarários mas não nos podemos ater a esses detalhes, o que é certo é que as pessoas não tinham emprego, agora têm e depois logo se vê.

Bom , lá fui  ter à tal casa como combinado e quem me abre a porta é nada menos que a nova imigrante, estaquei no lugar onde estava porque a descrição  confirmava-se. Tem dois miúdos pequenos, de cores diferentes, vivaços, sorridentes e andrajosos como é clássico,  e o porte, vestes e  expressão de uma sacerdotisa de um culto, adereços e tudo. Ofereceu-me um café enquanto eu esperava pelo meu amigo,  como estive no Hawaii há pouco tempo tinha algum assunto além desta  ilha, mas obviamente ela queria falar mais deste arquipélago e da ilha do que do Hawaii.

Tinha vindo aqui quase por engano, a objectivo da viagem era  S.Miguel, onde tinha ido à procura dos seus ascendentes que tinham ido dos Açores para o Hawaii nos famosos barcos dos ananases, quando no século XIX muitos trabalhadores açoreanos emigraram para lá para trabalhar na cultura do ananás, que conheciam cá e começava lá. Tinha crescido a pensar que os “pineapple boats” eram uma lenda e ficou fascinada quando viu os ananases em S.Miguel e percebeu que era mesmo tudo real. Conheceu lá uma alemã que vive cá ( que eu conheço e à qual ela se referiu como uma deusa e que eu considero uma cabeça de vento) que lhe disse que tinha era que vir para aqui, e cá está. Diz que sentiu logo a aura desta ilha, eu de costume dou pouco por auras mas olhei bem para ela e começou a tornar-se aparente que a racionalidade é uma coisa muito sobrevalorizada  neste mundo e que é muito provável que existam muitas realidades para lá da compreensão filosófica e científica tradicional.

Quanto mais olhava para ela mais achava que este mundo está demasiado cheio de cinismo, que devíamos reconhecer e respeitar capacidades  mais elevadas do que o intelecto humano, que a Terra fala connosco e assim. Nem sequer fiz a minha piadinha do costume quando me perguntam o signo:

-Sou signo Dinossauro  (às vezes digo signo Tremoço)

-Isso não existe!

-Os outros também não…

Ou outra de que também gosto bastante e funciona muita vez:

-De que signo és?

-Aquário

-Bem me parecia, eu vi logo…

-Não, sou Caranguejo.

Falámos da ilha, um tema em que quando discuto com recém chegados  oscilo entre “não conheço no mundo sítio tão bonito como este” e “os invernos aqui podem ser horríveis, as pessoas são difíceis e em geral nada é muito fácil”.

Entretanto chegou o meu amigo com os papéis que quer que eu traduza. Pensava que era alguma coisa ligada ao turismo ou aos  impostos mas o que se passou foi que no dia a seguir à sua festa de anos (que me mereceu um post inteiro aqui em Novembro) ia morrendo, ficou dois dias quase sem se mexer e quando emergiu desse estado teve uma espécie de epifania , decidiu deixar de beber e de fumar e pôs em 9 folhas A4 escritas à mão dos dois lados as suas considerações filosóficas sobre a vida contemporânea e os conselhos que acha que tem para dar a toda a gente. É esse tratado que eu vou agora traduzir, e até sou capaz de pôr aqui partes que ache interessantes porque ele quer aquilo traduzido em português e inglês  precisamente para poder ser distribuído por muita gente. Estou com uma certa curiosidade e não digo estas coisas com nenhum paternalismo ou condescendência, gosto dele , admiro muitas das suas características e tenho-o por um tipo inteligente, tem a tal pancada mas todos temos a nossa.

Despedi-me da sacerdotiza da aura que me olhou com uns olhos que  parecia que me queria perceber  de uma só vez e voltei para casa. Já hoje me cruzei com ela na estrada, ia a empurrar um carrinho com os miúdos mas não me parecia nada serena nem contente, o dia esteve mau e é sabido que o tempo agreste agrava qualquer dúvida ou problema. A ilha é pequena, a “comunidade” mais pequena é pelo que sei que a vou ver por aí outra vez, sei que o Universo tem um plano e tudo aparece por alguma razão no devido tempo.

Estou a brincar , não há planos nenhuns excepto os que nós fazemos, e eu só planeio ser simpático e cortês para ela (como sou para o resto das pessoas que são simpáticas para mim)  quando nos encontrarmos outra vez por acaso, isto no caso da atracção da aura sobreviver a Fevereiro, um mês que para quem não está habituado nem conhece isto, não tem amigos , é estrangeiro, “original”  e vive sozinho com duas crianças pequenas numa casa muito modesta e limitada num sítio como a Lomba,  pode ser brutal. Brutal no sentido literal da palavra.

Semântica

Em relação ao último post, fizeram-me ver que há uma diferença entre a anulação de um casamento religioso e um divórcio, a igreja permite e opera os primeiros mas continua a proibir  e condena os segundos. O Papa agilizou o processo de anulação, numa tentativa de que deixasse de ser apenas privilégio dos ricos e bem ligados e passasse a ser acessível a mais pessoas.

Perante isto fui ver quais os motivos reconhecidos pela igreja para anular um casamento celebrado por ela, quais as causas de nulidade. São 19 e são as seguintes:

1. Falta de capacidade para consentir (cânon 1095)
2. Ignorância (cânon 1096)
3. Erro (cânones 1097-1099)
4. Simulação (cânon 1101)
5. Violência ou medo (cânon 1103)
6. Condição não cumprida (cânon 1102)

7. Idade (cânon 1083)
8. Impotência (cânon 1084)
9. Vínculo (cânon 1085)
10. Disparidade de culto (cânon 1086,- cf cânones 1124s)
11.. Ordem Sacra (cânon 1087)
12. Profissão Religiosa Perpétua (cânon 1088)
13. Rapto (cânon 1089)
14. Crime (cânon 1090)
15. Consangüinidade (cânon 1091)
16. Afinidade (cânon 1092)
17. Honestidade pública (cânon 1093)
18. Parentesco legal por adoção (cânon 1094)

19. Falta de forma canônica na celebração do matrimônio (cânones 1108-1123)

Se se verificar uma ou mais destas condições num casamento católico ele pode ser declarado nulo. As minhas questões são estas, e não me estou a armar em sofista nem a tentar ser engraçadinho, estou a tentar perceber:

-Se depois de se celebrar um casamento se concluir que existe uma destas condições se pode anular o mesmo casamento, qual é a diferença entre fazer isso e permitir um divórcio? Porque não simplesmente autorizar o divórcio se se verificar uma das condições?

-Qual é o fundamento para a distinção que permite que seja possível declarar  um casamento nulo e impossível permitir um divórcio, já que na prática e no fim de contas o começo e o fim são idênticos: havia um casamento  e deixa de haver?

-Qual é no fundo a diferença entre um casamento anulado e um divórcio, além da semântica?

Se alguém que saiba quiser gastar  cinco minutos a explicar-me isto, agradeço.