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A Mudança

Um dos meus tropos favoritos é que já está tudo inventado  há muito tempo, tudo o que fazemos é interpretar e actualizar. É uma expressão destes  magníficos versos do Eclesiastes    :

Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.
Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao  lugar onde nasceu.
O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos.
Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr.
Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.
O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.

Mais ou menos pela altura em que se compilava este livro, viveu em Éfeso , cidade grega que hoje é na Turquia,  Heraclito, um dos primeiros filósofos conhecidos, ou melhor, um dos primeiros pensadores sistemáticos de que o Ocidente tem conhecimento, porque filósofos sempre houve . Resumindo, a ideia fundamental dele sobre o Mundo é a da impermanência, tudo se move, tudo flui, nada permanece igual e a única certeza que podemos ter é que as coisas mudam.

Como é que isto quadra com o Eclesiates e a ideia de que nada é novo debaixo do Sol,  se tudo está em movimento e mudança? Como eu vejo as coisas, há mudança constante mas o fundamental permanece, há uma regeneração e renovação como nas árvores ao longo das estações: mudam mas são as mesmas. Não vemos duas vezes a mesma água no rio, mas é o mesmo rio.  O fundamental que permanece não são regimes políticos, culturas, religiões, paisagens, sociedades, impérios , bens materiais ou realizações humanas. Tudo isso é criado e varrido ao longo dos séculos. O fundamental são coisas como leis da Física que descrevem e explicam realidades objectivas e permanentes como “o Sol nasce todos os dias no Oriente”, ou  “para cada acção há uma reacção” . São realidades demonstráveis como “nascemos, crescemos e morremos” . O fundamental são as motivações,  emoções , ansiedades e aspirações dos Homens, que não mudam.

Todas as gerações são confrontadas com mudanças no seu ambiente, sociedade e cultura, sempre foi assim mas o ritmo acelerou vertiginosamente desde a Revolução Industrial, ou desde o Iluminismo, se preferirem. Na Alta Idade Média uma pessoa vivia exactamente como tinha vivido o seu pai, o seu avô, o seu bisavô e tretravô . Crença, dieta, vestuário, trabalho, posição  e relações sociais, paisagem, rotinas, utensílios, mantinham-se virtualmente inalterados durante séculos.  Hoje é sabido que os nossos avós dificilmente reconheceriam o mundo e a sociedade em que vivemos, e  entre as 3 gerações vivas já se cava um abismo tecnológico e de costumes. Até entre a minha, a geração X que cada vez mais me convenço foi a mais afortunada da História moderna, e  a que me sucede já existe uma distância considerável. Não sei se é aí que os estudiosos marcam a transição mas a diferença maior é entre as gerações que já nasceram com a internet e as que ainda viveram sem ela, porque é a internet o grande catalizador da mudança moderna.

Uma coisa que nunca muda é o franzir do sobrolho dos velhos às realizações e inclinações dos novos e às mudanças que vão aparecendo, e este franzir de sobrolho pode ir desde literalmente franzir o sobrolho até ao desgosto profundo e resistência activa. Lembremos por exemplo o casamento homossexual, coisa que há 50 anos era inimaginável e que hoje poucas pessoas contestam, especialmente a partir da altura em que passaram os anos e se tornou óbvio que a única coisa a que o casamento homossexual conduzia era  a  mais liberdade e possibilidade de felicidade para os homossexuais, sendo absolutamente inócuo e indiferente para todos os restantes.

As mudanças seguem à velocidade da informação digital e o que estou a ver é cada vez mais pessoas a serem completamente ultrapassadas pelas mudanças, e o desconforto natural a que isso leva. O tema que me levou a começar a escrever isto é a demografia.

A composição das populações ocidentais está a mudar, os caucasianos reproduzem-se menos por razões que não vêm agora ao caso, os africanos e asiáticos não. As migrações são um impulso crescente pela natural atracção das sociedades mais ricas e evoluídas do Ocidente e os movimentos de fuga à violência e miséria só vão aumentar, sabendo como sabemos que as alterações climáticas só vão exacerbar essas diferenças. Se num lado temos excesso de população, no outro temos falta, e se bem que isto não é exactamente um sistema de vasos comunicantes, é verdade que a tendência será para o equilíbrio. E é uma verdade incontestável que temos falta de população na Europa, as pessoas vivem mais e das duas , uma: ou se deixam rebentar os sistemas de segurança social, as economias  e os regimes fiscais ocidentais, ou se arranja maneira de manter o ritmo de substituição da população.

Em Portugal este ano pela primeira vez houve mais imigrantes que nascimentos e estamos a assistir a um aumento enorme de novos portugueses, que são fisicamente e culturalmente diferentes dos antigos. Isto está a transtornar muita gente.

Eu não sou multiculturalista, não sou um tipo que se deleite na diferença e na mistura, sempre me pareceu que uma das razões que nos permitiu sobreviver 900 anos como nação foi a homogeneidade e sempre retirei grande conforto de conhecer os portugueses do Minho ao Algarve e às ilhas, saber que não se conseguem distinguir à vista e que têm todos o mesmo fundo e referências culturais. Não é achar que o portuga é de alguma maneira superior a outro qualquer, é achar que é como eu em tudo, é rever-me em todos. Isso está a acabar, é mais aparente para quem vive numa grande cidade e vai causar fricções e atritos de que estamos só a ver ainda o começo.

E o meu ponto é este: a composição étnica do português está a mudar, vai  mudar e não há nada que possamos fazer para o impedir excepto fechar fronteiras e condenarmo-nos com isso à miséria futura. O que está em mudança não é só a cor,  origem e religião (ou falta dela) das populações, são igualmente os paradigmas e as normas sociais, e vão continuar a mudar num sentido que, mais uma vez , vai deixar muito desagrado e não só entre velhos e os que para lá caminham como eu mas também entre os novos que foram educados a ter uma visão rígida do que é uma socieade.

Não gosto nem me sinto confortável com boa parte das mudanças que vejo, sejam étnicas sejam culturais e sociais, também daí a minha decisão de fugir para aqui. Isso não quer dizer que me revolte mesmo que seja simbolicamente, que resista e sobretudo que me consuma em lamentos e preocupações.

A solução é aceitar, é ter consciência da inevitabilidade das mudanças, mesmo das que não compreendemos ou aprovamos, é saber que está  fora do nosso alcance contrariar a mudança e que só nos resta adaptar, seguros no conhecimento de que o fundamental nunca muda. E isto vale para todas as mudanças, como  ensinam os Estóicos há mais de 2000 anos.

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