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Afinal ainda é pior

Segue o ano mais carregado de acontecimentos, digamos assim, de que tenho memória.É claro que dada a avalanche de informação que temos na ponta dos dedos podemos estar o dia todo a ver só notícias más, mas a verdade é que se é possível encontrar coisas positivas e pontos de luz, a conjuntra e o cenário todo são medonhos.

No princípio de Março escrevi um post um bocado apocaliptico e catastrofista, estava genuinamente alarmado e receoso. Depois fui vendo que talvez não fosse tão mau, que era provável ter-me  deixado levrar pela minha imaginação fértil.

Hoje, 3 meses depois, mudei de ideias. Acho que o colapso não é a curto prazo e sim a médio prazo e que o que eu acreditava ser o motor da destruição imediata, a pandemia,  vai ser o motor da destruição paulatina, acompanhando e ajudando o resto dos factores que estão a trabalhar.

Comecemos pelo covid19. A 14 de Março acreditava que a mortandade ia ser mais elevada. Hoje acredito que pode não ser muito elevada mas vai arrastar-se por anos, ou seja, o vírus não vai ser erradicado e as vacinas têm as suas limitações. Se não vamos chegar a ver hospitais de campanha cheios vamos continuar a ver mortes a conta gotas, contabilizadas ao critério e capacidade dos governos. Vamos continuar sujeitos a restrições que são anunciadas como para nossa protecção mas que vai-se a ver e ninguém tem a certeza se são eficazes ou não. Aceitam-se por mentalidade de manada e medo de ser do contra ou arriscar.

Se há coisa eficaz para aterrorizar uma sociedade é uma doença contagiosa e mortal, e isto está a ser aproveitado por vigaristas e escroques que enriquecem com contratos opacos e arbitrários com o Estado ou simplesmente a enganar os ingénuos e ignorantes. Está igualmente a ser aproveitado pelos governos para fazer passar tudo e mais um par de botas, coisas que noutras circunstâncias mereceriam mais escrutínio, debate  e crítica hoje são para avançar a correr, a bem da nação. Se as pessoas têm medo aceitam melhor, isto é sabido há séculos.

A parte económica, tem sido  muito educativa e mostrou-me as minhas limitações, acreditava que num mundo em recessão e com crises de toda a ordem seria dificílimo encontrar recursos para fazer face à destruição económica e a solidariedade entre países ia ser comprometida. Bom, no que toca à União Europeia, pela  46ª vez anunciaram-lhe a morte e a morte não chegou. Se fiquei contente por ver que conseguiram encontrar um consenso fiquei quase estupefacto por ver que afinal era só preciso criar umas manigâncias financeiras e apareciam milhares de milhões de euros para distribuir. Isto quer dizer que é mesmo possível imprimir dinheiro à vontade se se criarem instituições para emprestarem dinheiro umas às outras num círculo permanente. Ainda não percebi muito como é que estas operações que vão dar liquidez aos europeus não vão causar inflação, mas como disse, é porque sou limitado também nesse campo. Pelos vistos não há limite, e isto pede a questão: porque é que não se fez já antes para resolver outros problemas tão graves?

Apareceram os milhões , verdadeiro maná para o governo, que apesar de ter 70 ministros e secretários de estado foi contratar um consultor à sociedade civil, para mim foi um auto atestado de incompetência. Quando cai mais este maná para pagar a perder de vista aplica-se logicamente o velho adágio “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, é burro ou não tem arte”, e eles burros não são. Os milhões que chegam não só salvam a pele ao governo como vão criar fortunas e permitir servir as clientelas e  a corte de Lisboa. Esses milhões não vão fazer com que os problemas desapareçam , porque os problemas são, a maior parte deles, estruturais, e reformas não são o  forte dos nossos governantes.

Ou seja, continuo convencido de que a crise económica vai ser muito severa e longa, com todas as consequências associadas a isso.

Pela parte social, espero que toda a gente que acreditava, ou tinha esperança, de que a pandemia viesse trazer ao de cima o que de melhor as pessoas têm, já tenha percebido que o contrário é muito mais provável. A minha experiência disto não é comum, porque vivo numa aldeia no meio da mar sem ver televisão, os vislumbres que tenho da realidade nas cidades só me faz mais contente por estar aqui mesmo que saiba que muita coisa se passa fora da minha atenção.

A separação física é real e como a doença não se vai evaporar , vai continuar e só vamos saber as consequências reais disto daqui a muitos anos. As barreiras e condicionamentos , a mentalidade de perseguição e denúncia , sempre com o medo como pano de fundo, essas coisas deixam marcas. Quando isso se cruzar com miséria material as coisas ainda ficam piores.

E quando estávamos a debater e sofrer a pandemia, rebenta o caos na América por causa da brutalidade policial. Disso já falei, mas não falei de duas coisas verdadeiramente extraordinárias que se passaram lá e cá. A primeira é que se passou EM DIAS de pensar que a distancia social é vital para sobreviver colectivamente para pensar que protestos massivos de multidões são vitais para sobreviver colectivamente. Atenção, creio que os protestos são justíssimo por razões que já expliquei antes mas não pude deixar de ficar pasmado como os media americanos , e a Esquerda em geral, passaram de martelar na pandemia para ignorar a pandemia. Já a direita americana passou EM DIAS de se revoltar contra o confinamente para exigir tiros para fazer valer recolher obrigatório, uma pessoa fica maluca a ver estas coisas

A segunda foi ver a vontade com que os nossos revolucionários de trazer por casa correram a abraçar a causa, “correr atrás do americano” como o Carlos da Maia e o João da Ega. A cultura woke está ao rubro e os seus líderes e figuras não podiam deixar a oportunidade. Foi extraordinário ver milhares a manifestarem-se em Lisboa menos de 4 dias depois de se ter vincado bem a  necessidade de distanciamento social. Perante uma tragédia recorrente nos EUA os progressistas lisboetas não podiam ficar quietos , nem em tempo de pandemia. Para o Bloco de Esquerda as relações raciais em Portugal estudam-se na Amadora, na Linha de Sintra e na Damaia, o que aprendem lá é como acham que está o país.

Fez-se um 1º de Maio que foi um foco de contaminação porque não se nega o “flex” aos sindicatos, a seguir a Corte juntou-se às centenas numa sala de Lisboa para assisitir à actuação do bobo do momento, enquanto o resto do país se encolhe e sofre com tudo fechado e parado e depois vem o golpe de teatro da manifestação, sinceramente, foi fazer pouco do esforço não só dos profissionais de saúde como do resto de nós, proibidos e impedidos de fazer tantas coisas de que gostamos, em prol da saúde pública.

Não há critério claro nas autorizações ou recomendações da DGS, há arbitrarieade, que é um dos sinais de corrosão da democracia. Não será grave porque a pessoa da presidência explicou que “em democracia há excepções”, e raios me partam se isso não merecia ter passado em destaque em todos os canais e explicado bem às pessoas o que significa dizer aquilo.

Em Março esperava turbulência política e convulsões devidas à pandemia , não esperava este golpe duplo que foi, especialmente para os EU mas que alastra, a explosão dos protestos de motivação racial e o que já estão a fazer na América. Vi o Mayor de Minneapolis a chorar baba e ranho junto ao caixão do George Floyd e pensei logo “que grande impostor!” e 3 dias depois vi-o ser expulso de uma manifestação que exigia desmantelar a polícia. Querem desmantelar a polícia.

Durante décadas meteram-se nas universidades milhares de jovens a estudar os agravos sofridos por minorias, depois a encontrar e criar minorias e depois a produzir discursos sobre esses agravos e a maneira de os compensar. Milhares de pessoas que não sabem apertar um parafuso ou estrelar um ovo, que já nasceram com a internet, convencidos de que são excepcionais, criados no ambiente doentio das universidades policiadoras do discurso e orientadoras dos debates, essa geração cresceu, já ocupa cargos e fornece enquadramento teórico a qulquer grupo activista com uma causa, e demasiadas vezes a causa é a mesma de todos : benefício pessoal.

Teses de doutoramente e colóquios sobre se devemos mudar os pronomes pessoais, sobre micro agressões, sobre as problemáticas da transexualidade, sobre um  mundo dividido entre opressores e vítimas, a preto e branco, uma grande construção teórica que agora amadurece e chega ao poder. Há quem veja nisto uma oportunidade de mudança para melhor, eu estimo bem que sim mas não vejo bem como. É porque estou a ficar velho e já estudei algumas revoluções e movimentos para ter uma boa ideia de como decorrem e acabam. Parte da vitória do Trump deveu-se a este elitismo e arrogância  intelectual que tanto se ocupa de questões sérias como se ocupa de questões de lana caprina e que floresce na confrontação, e está agora a dar-lhe outra vez uma mão na re-eleição com exigências tão absurdas como “desmantelar a polícia” e coisas como oficiais prostrados no chão em contrição , senadores embrulhados em panos africanos e uma série longa de coisas ridículas que está longe de estar encerrada.

Os nosso macacos de imitação acorreram à chamada dos irmãos da América e dezenas de pessoas que presumo terem começado a ler História há pouco apressaram-se a lembrar coisas como o facto de Lagos ter sido porto de escravos ou o Infante ter pessoalmente dinamizado o tráfico. E lá vamos nós outra vez , lançados no debate estéril entre os luso tropicalistas fascizóides que idolatram o Império e os progressistas que lhe chamam Empresa de Destruição Maciça e parecido. Como sempre no meio, os moderados sofrem a ver  os radicais a ajudar sem querer o André Ventura.

Isto só se vai complicar e extremar mais, é a minha infeliz aposta.

PS: no meio desta avalanche de merda é fácil esquecer que as histórias sobre “a natureza a curar-se” eram só isso, histórias. As alterações climáticas continuam a galope e irreversíveis. E na semana passada houve na Rússia uma fuga de 20 mil toneladas de gasóleo que agora correm livremente pela paisagem e que parece estar relacionada com o derreter da camada “permafrost”. Se ainda não estão deprimidos que chegue aconselho uma pesquisa rápida sobre a “permafrost” e o que está em causa com o seu descongelar.

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