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O Apocalipse, actualizado.

Passou mais um mês e o sistema não se desconjuntou todo, uma parte dos meus receios eram infundados e fico contente por isso. Já se sabe muito mais  sobre o vírus do que se sabia em Janeiro, tranquiliza-me ver que afinal não é tão letal como se receava e foi controlado sem colapso dos serviços de saúde e dezenas de milhar de mortos. E esta é a única parte em que os meus receios iniciais diminuíram, em tudo o resto mantêm-se e reforçam-se.

Já antes da pandemia poucas pessoas sensatas e observadoras acreditavam no governo, neste ou noutro, os governos quase por definição estão impedidos de contar as verdades todas à população, e isso é partindo do princípio que sabem essas verdades, o que nem sempre se verifica.

Para dar um exemplo desta cultura de aldrabice que mina a confiança dos mais atentos , lembro que o PM, no início de Março, anunciou que o SNS tinha mais de 1000 ventiladores. Isto tem piada porque hoje o secretário de estado da saúde disse que tinham chegado da China 400 ventiladores, ficando assim a capacidade nos 700. Daqui decorre que o Costa estava a mentir, mais uma vez, mas certamente que foi para o nosso bem, para não nos alarmar.  Um governo não devia dizer em Março “estamos numa luta existencial pela nossa sobrevivência” para em Maio dizer “o nosso pior inimigo é o medo”, não fica lá muito bem. Mesmo que boa parte dos mecanismos e realidade do vírus sejam ainda desconhecidas, deve haver uma unidade de mensagem da liderança e não foi isso que eu vi, mesmo na minha existência priviligiada em que vejo muito poucas mensagens da liderança. A retórica da “guerra contra o vírus” enfurece-me por ser descabida e prejudicial mas isso merece um post inteiro.

Do lado da economia, não sou o melhor para contas mas se não via possibilidade de recuperação rápida e relativamente indolor nem que  tivéssemos podido curar e vacinar e voltar aos anteriores modos de convivência, numa realidade que está para durar só vejo mais miséria a crescer, com tudo o que ela traz. Os críticos dos liberais, sempre prontos com uma vergastada sobre a prioridade à economia e às contas, têm agora a oportunidade de demonstrar como se consegue evitar miséria humana sem  a prioridade na criação de riqueza, por meio de sorrisos, calor humano, aplausos, solidariedade, interseccionalidade e outros conceitos modernos que não dão de comer a ninguém. Criar e, sim, distribuir, que eu sou liberal mas não sou doido e sei que riqueza tem que ser distribuída para aproveitar à sociedade mas o problema  nisto é que os governos teoricamente mais equipados para essa distribuição , os encabeçados por socialistas, são-no só nominalmente, aqui ou na vizinha Espanha o que se vê mais são fortunas feitas e existências plácidas à conta do orçamento do Estado em vez de uma política fiscal sã, do encorajamento e apoio a quem cria riqueza  e uma justiça capaz de castigar todos os abusos.

O que me metia medo há dois meses continua a meter, agora com uma possível agravante: o eventual colapso do sistema não chegou em meses impulsionado pela quebra nos serviços de saúde e com dezenas de milhar de mortos mas poderá ir chegando, ao longo de muitos meses. E isso seria uma agravante porquê? Porque quando o sofrimento é lento e espaçado as pessoas habituam-se, quando nos roubam 5 centimos por dia ao longo de um ano não reagimos como se nos roubassem €20 de repente. É diferente irem-nos tirando uma liberdade de cada vez ao longo de meses do que perdê-las todas numa revolução ou golpe de estado. Isto é uma agravante porque pessoas habituadas não protestam, aceitam tudo, quando muito ralham um bocado, mais agora que há meios de ralhar, soltar vapor , ventilar, faz-se um comentário numa rede social ou assina-se uma petição e já se sente que se contribuiu. Perdem-se liberades aos poucos e quando se dá por ela, é tarde, já foi.

Vi hoje um video feito na Alemanha em que centenas de casais estão dentro dos seus automóveis alinhados em frente a um palco onde um individuo passa o que muitos consideram música, era uma “rave drive in”. O público tinha uma espécie de bastões de neon que agitavam pela janela, iam apitando (esse género de música  acompanha-se bem à buzina) e fazendo sinais de luzes e toda a gente parecia radiante com aquilo. Contentes e dispostos a repetir, gente que há dois meses ia a concertos e festas com milhares de pessoas agora, porque lhes disseram, aceitam com um sorriso que a partir daqui e pelo menos até uma vacina, têm que fazer aquelas figuras.

Por cá, e isto tive que ir confirmar por me parecer  sátira, querem pôr semáforos a controlar o acesso às praias depois de umas regras para as creches que me convenceram de que o objectivo só podia ser ou desencorajá-las de abrir ou tornar-lhes a vida num inferno. Os burocratas da DGS e outras dezenas de organismos públicos com o dedo em tudo estão no céu, têm quase carta branca que é dada pelo medo das pessoas e pelo governo que prefere errar por excesso do que por defeito. Talvez tenham razão, mas quando chegar a altura de pagar a factura espero  que não a tentem passar a outro. Entretanto educadoras de infância desesperam a arranjar maneiras de maneter as crianças a  metro e meio umas das outras  e sem partilhar brinquedos e mais de metade dos restaurantes do país não tem condições de trabalhar com a avalanche de regras, a minha preferida nesse campo é a que determina que pessoas que vivam em casas diferentes não podem comer juntas. Como se espera fazer o controlo desta medida, é mistério. Produzem regras porque não sabem fazer outra coisa, quanto maiores as burocracias maior a produção.

Quando há 78 regras para o “acesso seguro às praias” ao mesmo tempo que qualquer pessoa pode entrar num autocarro cheio desde que leve uma máscara, temos que questionar o critério dessas  regras e restrições e sobretudo a sua utilidade. E  há outra parte notável sobre estas regras : como ontem o próprio Presidente da República explicou com todas as palavras sobre o seu caso pessoal dos mergulhos na praia, há sempre um esquema para contornar , ou não fosse isto Portugal. Metade delas não são para cumprir e não vai acontecer nada.

Do lado da economia, só existe uma entidade capaz de manter o país  à tona, como de resto o faz há mais de 20 anos, a União Europeia. Entregues a nós próprios, vamos rapidamente para os anos 80 do século passado, e o problema é que a União Europeia não está propriamente a respirar saúde. Todos os países estão com deficits a explodir por causa do virus, o Brexit já tinha dado um abanão na estrutura, temos os Europeus do Norte agastados com os dos Sul e vice versa (2008 outra vez, para mim sempre foi certinho) e um terceiro elemento, a degradação das instituições quando um estado membro, no caso a Hungria, já prende pessoas por criticar o governo e fecha jornais e universidades. Nisto tudo o BCE tem que dar mangueiradas  nas impressoras para as arrefecer e eu gostava de saber mais de economia para perceber qual é o limite disto, por quanto  tempo mais vão poder continuar a imprimir dinheiro antes da inflação começar a subir.

Juntemos a isto a corrupção épica que já se vê  nas traficâncias entre governos, industrias, estados e amigos nesta  nova “economia covid” e mais uns pós de populismo ,tipo o do meu homónimo sempre à espera de que as coisas corram mal para avançar com a sua demagogia e sinceramente, gostava de ver um optimista, alguém que perante estes cenários, que nem são os piores possíveis, diga que tem confiança num futuro melhor. Gostava de saber qual é o segredo dessas  pessoas além da alienação. A alienação não é uma coisa necessariamente negativa.

Voltando à parte clínica do vírus, nota-se perfeitamente uma sensação de “o pior já passou” , que junto com “não foi assim tão mau” leva a desvalorizar o risco, já para não falar da disseminação de “documentários” inanes como um chamado Plandemic (nunca uma coisa tão básica e tão estúpida desinformou tanta gente na História da Humanidade) que convenceu milhões de que isto é tudo uma aldrabice.  Entretanto na China  mais de 100 milhões (!) de pessoas vão voltar ao confinamento, os contágios e mortes voltaram a aumentar, vai começar tudo outra vez para esses.

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