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As Regras

Não fora a pandemia e  já estaríamos a trabalhar nos botes, um já estaria a navegar ainda que com a pintura do ano passado e um inverno um bocado rigoroso em cima, o outro a reparar as mazelas da época passada. Já havia  interessados, homens e mulheres, para equipas de vela e remo e vontade de navegar e eu cheio de expectativas e ideias para o meu primeiro verão à frente do Clube Naval. Se tivessemos equipas de vela e remos masculinas, femininas e mistas e participado no campeonato e na Semana do Mar e lançado á água dois ou tres optimists com miúdos, um “embrião”de escola de vela, para mim teria sido uma alegria e um  triunfo… mas o verão foi cancelado. Não há iates , não há regatas, não há festas, não há campeonato regional, não há aulas náuticas.

Ficou tudo em suspenso mas agora começo a ver como e em que moldes podemos retomar a actividade do clube. Desde o tempo do Heraclito que sabemos que a única coisa permanente é a mudança mas para uma mudança deste nível, por toda a Sociedade e em dois meses, não estava  preparado e acho que ninguém estava. Uma coisa é a preparação individual e pessoal, a preparação para a mudança na nossa esfera. Outra é a mudança generalizada e a convivência e gestão de uma revolução  que afecta tudo e se ramifica por todo o lado.

Ando à espera de saber quando é que é permitido a 7 pessoas  juntarem-se em proximidade para arriar um bote baleeiro e ir navegar.Pelas novas regras da náutica de recreio podem ir 4 pessoas, para nós não chega. Como vivemos na Época das Regras e  em tempos de medo e ansiedade geral, não posso basear-me no meu senso comum , juntar a companha e arriar o bote, coisa que faria sem problemas se o bote fosse meu, mas não é.

Como responsável pelo clube naval não posso arriscar não só penalizações e atritos com a Autoridade Marítima ou a GNR como  muito menos a desaprovação e crítica social que se seguiria imediatamente. E atenção, a crítica não seria tanto no sentido de “olhem aqueles a pôr em risco a saúde pública” mas sim “olhem para eles a não cumprir as regras”, porque  regras, mesmo as arbitrárias e mal fundamentadas, são regras. Temos uma história longa de respeitinho e obediência que facilita esta imposição de regras mas os nossos tempos são novos  noutros aspectos.

Estas novas regras são impostas perante uma ameaça clara, concreta e com risco mortal (não discuto o grau, mas risco real) , uma doença contagiosa, e isso leva as pessoas a não hesitar em obedecer, ou pelo menos a protestar menos. Hoje, numa escala imensamente maior do que nas pandemias ou epidemias anteriores, a confiança na capacidade de quem  faz as  regras é posta em causa  todas as horas. Quando se disseminam modelos, análises, teorias , opiniões, especulações e dados a uma velocidade enorme por toda a gente, e quando há vozes dissonantes e visões em conflito misturadas com agendas políticas, as regras podem ser ainda mais perigosas porque provocam repulsa e aumentam os atritos no dia a dia já cheio de tensões.

Por outras palavras, se ninguém tem a certeza de que o acesso livre  à praia é prejudicial ou benéfico para a saúde pública mas se  fazem 25 regras de acesso às praias, é normal esperar um número grande de pessoas que diz  não quero saber, vou à praia como sempre fui. É normal que os que não vão à praia depois os critiquem e pode-se esperar confusão séria quando puserem a GNR a controlar se se vai surfar ou só apanhar sol, de fita métrica na mão , ou a contar o número de banhistas para ver se está conforme o decreto.

Para manter a ordem pública é preciso que as pessoas a entendam e aceitem, e se vão prender pessoas na praia (como já acontece em vários países) enquanto todas as manhãs centenas se enfiam em transportes públicos para ir trabalhar, perdem toda a razão e legitimidade. Cada regra que não é entendida ou aceite dificulta o entendimento e aceitação de todas as outras.

Agora estou de olho na Horta e no Pico, assim que os vir arriar os botes  é sinal de que se pode, aproveito a deixa e a cobertura e também vamos. Entretanto é preciso esperar por mais clarificação da miríade de regras que nos vai reger a vida nos próximos tempos. Isto é um inferno para toda a gente mas para os individualistas , liberais e libertários tem mais uns círculos extra.

 

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