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O Despertar

A pandemia tem potencial para irritar toda a gente, independentemente da crença ou convicção há motivos para dar com qualquer um em maluco ou pelo menos para obrigar a querer desligar, parar de pensar e focar-se só na tarefa mecânica mais à mão.

No topo da minha lista vem o arco íris e o “vai ficar tudo bem”, gostava de saber quem inventou ou iniciou a disseminação desse slogan ridículo, mentiroso e enganador, deve estar nalgum manual de política ou comunicação que é preciso passar uma mensagem de esperança e aqueles indigentes mentais optaram por dourar a pílula e motivar por intermédio de uma afirmação demonstravelmente falsa. A vida não é cinema, isto não é a história do pai que inventa brincadeiras para o filho se distrair dos nazis e nós não temos 5 anos, como tal não devia bastar o paizinho dizer que vai ficar bem para sorrirmos e seguirmos com a nossa vida. Não lhes perdoo a infantilização da população.

Continuo convencido de que a  maioria das pessoas não sabe bem o que está a acontecer. Eu não sei, em termos de situação de saúde pública, o que está a acontecer,  nem  se o vírus é tão letal/contagioso/perigoso/extraordinário como nos dizem. Não sei se seria melhor confinar toda a gente mais tempo ou deixar as coisas andar e que Deus reconheça os seus, morre sempre muita gente , etc. O que sei  desde muito cedo é que a mera existência da doença e sua progressão pôs em marcha um processo imparável com ramificações impossíveis de contabillizar , quase todas, na minha visão, negativas.

Não vai ficar tudo bem e quanto mais cedo pararem com isso melhor.

Depois, o júbilo encapotado dos ambientalistas. Durante anos a minha principal crítica às exigências de Novos Planos Verdes e quejandos era  ( além de serem Planos, já vamos a essa parte) que se recusavam a contabilizar e falar sobre o empobrecimento que  exigiria a redução das activdades económicas e  consumo necessária às reduções de emissões que eles declaravam essenciais. Muito pensamento mágico, muito unicórnio, muita confiança na tecnologia ao mesmo tempo que se pretendia pear e cercear  o motor da evolução tecnológica: o interesse económico. As Gretas falavam sempre das misérias que íamos sofrer pelo aumento da temperatura global, raramente das misérias que  provocariam os encerramentos de metade das indústrias que queriam encerrar. Essa parte ficava para os outros se preocuparem e de qualquer maneira a pobreza é sempre culpa do capitalismo.

TODOS os ambientalistas que conheço são viajantes dedicados, e acreditavam, talvez ainda acreditem, que as viagens prejudiciais são as dos ricos ociosos,  dos homens de negócios a ir para reuniões ou dos vendedores da globalização, porque as viagens deles eram sempre, obviamente, experiências de conhecimento pessoal e contacto com o outro que não eram prejuciais a nada, desde que levassem uma garrafa de alumínio em vez de plástico e um porta moedas artesanal de sarja em vez de nylon. Os outros são turistas, os ambientalistas são todos viajantes.

Agora, como metade deles ainda não tem a noção da depressão que se avizinha e cava todos os dias, e porque só estudam a História a partir da Industrialização, estão contentes por as pessoas terem que circular e consumir menos, por obrigação. Eu concluo que se tivessem poder já tinham tomado uma série de medidas autoritárias  tipo recolher obrigatório e transportes racionados. Vive aqui um americano que sugeriu num fórum público, ouvi eu, racionar electricidade e desligá-la a partir das 22, coisas que talvez na terra dele lhe tivessem valido ser atirado pela janela mas aqui não, é um cool bro, um dude, completamente woke sempre pronto a apontar o que de mal e atrasado se faz aqui e como tudo seria melhor se nós o ouvíssemos.

Toda essa gente só vai ver a miséria que esta quebra da produção global vai trazer quando lhe entrar pela porta adentro, o desejado e exigido “decrescimento” vai doer mas nessa altura vão começar a ralhar a dizer que outro decrescimento é possível, não querem este, querem outro, e continuar a diabolizar os que sempre fizeram tudo para manter o crescimento. Se crescia era porque crescia, se pára de crescer é porque não devia parar desta maneira. De que maneira  devia parar? De alguma maneira fantasiosa, de acordo com um plano justo. 

Dos conceitos mais simples, racionais  e bonitos que existem é o de Ordem Espontânea, a ideia do surgimento espontâneo de ordem no caos aparente; o surgimento de vários tipos de ordem sociais a partir de uma combinação de indivíduos auto-interessados que não tentam intencionalmente criar ordem. A evolução da vida na Terra, a linguagem humana, e uma economia de livre-mercado têm sido propostos como exemplos de sistemas que evoluíram através de uma ordem espontânea. 

Resumidamente, as coisas organizam-se do modo mais conducente ao equilíbrio se forem deixadas seguir o seu curso e se todos puderem agir livremente. Os Homens já tentaram muitas vezes gizar planos para a Sociedade, foi sempre desatroso quando passou das fantasias teóricas. Desde o Grande Salto em Frente do Mao aos planos quinquenais dos comunistas passando pela solução final nazi, quando meia dúzia, ou um todo poderoso iluminado se sentou a traçar um  plano para a organização da Sociedade acabou em miséria, morte e destruição. Os que não acabaram em tragédia simplesmente falharam ou não atingiram os objectivos com que tinham começado. Isto deve-se ao facto de uma sociedade e economia ser simplesmente a soma de milhões de interacções e estas são impossíveis de prever, controlar e dirigir fora de uma distopia totalitária. Se queremos viver numa sociedade livre temos que estar preparados para aceitar que as acções livres vão sempre ter consequências boas e más e que é fisicamente impossível prevê-las ou condicioná-las.

Daí a minha surpresa quando vejo pessoas com mais de 20 anos e alguma educação a dizer que “está na altura de mudarmos o modelo”, como se este modelo que agora aparentemente soçobra tivesse sido implantado por alguém ou algum grupo e como se fosse possível “mudar o modelo” como quem muda o software de uma máquina. Como se  o feudalismo tivesse terminado porque a sociedade “decidiu” acabar com ele ou a  industrialização tivesse surgido por decisão de um grupo. É idiótica a crença nesse poder de decisão colectivo para mudar paradigmas. Há neste momento centenas de milhar de pessoas , nem todos com insuficiências educacionais ou cognitivas , convencidas de que seria possível alterar a  organização social  e económica sem ser à força e/ou  num processo  que geralmente se chama “correr atrás do prejuízo”, reagir  como se pode a acontecimentos mais ou menos inesperados.

Reclama-se que por alguma espécie de magia, por algum fenómeno que nunca se viu até hoje, a humanidade faça isto ou aquilo, como se se convocasse a Humanidade para decidir e implementar mudanças. Como numa reunião de condomínio ou AG de um clube.O  estatismo disseminou uma falsa sensação de poder colectivo, depois de séculos em que os donos do Estado fizeram o que queriam seguindo os seus interesses individuais convencendo as pessoas de que estavam a organizar tudo quando se limitavam a supervisionar e condicionar onde podiam.

“É preciso um novo despertar humanista!” Demasiada  gente, principalmente a nova leva de demagogos que compõe a indústria dos influenciadores , palestrantes, aspirantes a políticos  e  apóstolos de seitas variadas, apela a uma elusiva “tomada de consciência” como se acreditassem, e muitos sem dúvida acreditam, que esta pandemia e  colapso vão unir de alguma forma a humanidade e podem provocar mudanças positivas e deliberadas. “Respirem fundo, afinal a vossa pressa não fazia assim muito sentido, certo?” dizem esses intrujões a partir das suas posições confortáveis, como se a consequência de uma pessoa ter que ficar em casa sem trabalhar um mês fosse apenas a perda do salário desse mês ou o que deixou de produzir. Gente  incapaz de ter um visão de conjunto, ver o que se passa no mundo além da sua cidade e cultura  ou ver com calma a extensão enorme das zonas cinzentas entre o bom e o mau e que, por não querer ou não ser capaz de fazer de outro modo, simplifica constantemente o que é complexo, oferece soluções pontuais para problemas recorrentes e explicações redutoras para situações que atingem a Espécie inteira e duram séculos.

Os governos andam a fazer horas extraordinárias  para inventar financiamento para manter a coisa à tona mas , de onde eu vejo as coisas, é  impossível controlar ou reverter a sangria, muito por imperativos humanitários e muito por causa da brigada d’ “o dinheiro não é tudo” que geralmente diz isso porque não entende bem o dinheiro. Eu estou longe de entender a fundo mas convenci-me de que pelo menos entendo mais do que por exemplo o ex presidente do Brasil que veio dizer num tweet que, e não estou a brincar nem a inventar, o governo devia imprimir dinheiro para dar às pessoas porque como o consumo caiu não há risco de inflação. Isto devia ter causado um ataque cardíaco em muitos economistas mas felizmente o Lula está na prisão e não na presidência, foi substituído por um que está na presidência mas devia estar na prisão, pobre Brasil.

Lá, cá e  um pouco por todo o lado  é aparente para mim que todos  estes meses de despesa a aumentar e receita a extinguir , sem termo à vista, só têm um fim possível,  mas espero estar enganado e que se mostre o quão pouco eu sei de economia e finanças. Tanto no Brasil como cá e na maioria dos países a evolução parece-me muito má mas nós andamos aqui há 900 anos,  já vimos pior e vamos aguentar no mesmo sítio com mais ou menos convulsões e miséria mas há um país que me quebra o coração, os Estados Unidos, todos os dias que olho para lá ou falo com amigos lá vejo a quebra  lenta e evitável de uma grande nação e do seu lugar na liderança do Mundo, é uma dor de alma. Também aí espero muito estar enganado.

E para o fim outro cancro dos nossos dias, o conspiracionismo, a tendência a explicar aquilo que não se  compreende com recurso a processos de intenções, preconceitos, ao rejeitar  da noção de Acaso e Coincidência, à negação do Método Científico e sobretudo ao recurso ilimitado  à imaginação. Não é um fenómeno novo, como a maior parte dos nossos problemas, acompanha-nos desde o começo das sociedades: os ignorantes na busca de protagonismo por sentirem que sabem alguma coisa que os outros não sabem, por sentirem o poder de ter uma explicação que desafia o poder vigente ou o conhecimento estabelecido e assim faz deles especiais, reduz os outros e lhes valoriza um conhecimento que não é conhecimento por nenhuma medida racional do termo. Rebeldia, contestação e dissidência, tudo valores estimáveis, são pervertidos  e desvirtuados por legiões de crentes unidos pela tecnologia moderna na paranóia, difamação e total alheamento da realidade. A partir do momento em que se tornou possível dizer, com razão ou não, que a propria realidade é manipulável, abriu-se a porta  a tudo. Podem encontrar hoje as teorias mais abstruzas, dementes , malévolas e sem sentido nenhum que vão a seguir encontrar milhares de pessoas que não só acreditam nelas como estão dispostas a espalhá-las e a actuar sobre essa crença. É medonho e desmoralizante.

Dois exemplos: há 6 meses acreditavam  que a conspiração global estava a instalar a tecnologia de reconhecimento facial no mundo todo. Hoje acreditam que a conspiração global trouxe o uso obrigatório das  máscaras faciais que tornam essa tecnologia inútil. Como os religiosos, quando chegam a um beco sem saída lógica argumentam que as vias dos conspiradores são misteriosas mas um dia se saberá.

O segundo, tive há pouco uma troca muito instrutiva no facebook com uma conhecida que já tendia ao alternativo mas com a pandemia queimou completamente. Ela acha que a tecnologia 5G tem efeitos dramáticos na saúde humana e  é promovida por uma elite  conspiratória, recusando aceitar a informação científica pública sobre essas radiações. A minha questão: se o 5G, como rede de comunicações, vai ter pelo menos a mesma cobertura que o actual 4G que já cobre tudo, e se é mortal e destruidora, exactamente onde e como é que vão viver essas elites conspiratórias e que comunicações vão eles  usar?

Foi o suficiente para ela chutar para canto e ir-se embora, mas sei perfeitamente que outros com mais traquejo na irracionalidade vão defender não só que essas pessoas têm um antídoto para radições como até se for preciso que têm uma rede global de comunicações própria ou vivem no espaço sideral.  Os mesmos pensadores  que, sem prova nenhuma,  inventaram o conceito de actores de crise e sempre que deparados, como agora em Nova Iorque, com calamidades públicas, dizem que aquilo são tudo actores pagos para interpretar aqueles papéis. Chegando a este ponto a pessoa que não quer perder a própria sanidade e a calma  tem que abandonar o convívio e o contacto com eles, mas sempre consciente de que o mal está feito e eles nunca se vão convencer, nunca. É sempre tudo falso. Um tempo de caos, incerteza e medo só faz essas pseudo explicações e teorias florescerem, e aqui não me preocupa assim muito se cem ou duzentos cretinos  acham que os judeus inventaram o covid19 e o 5G em conjunto com o Bill Gates para nos vacinar obrigatoriamente a todos, mas exprimentem olhar para a Índia, por exemplo, onde basta um desses mentecaptos levantar uma acusação  tipo “o covid foi trazido pelos muçulmanos” para desencadear um pogrom assassino. Isto já se passa hoje em dia.

Por tudo isto, não, não vai vai haver nenhum despertar, nenhum regenerar, nenhuma alteração geral da ordem das coisas por acordo , plano ou projecto comum, por muito que isso custe aos idealistas.

Gostava muito de ver uns raios de optimismo e esperança. Dos melhores tempos que passo  são os poucos momentos com a filha de uma das minhas melhores amigas, que tem cinco anos e não percebe nada, só brincamos e rimos muito. Talvez me faça  falta, admito, mais convívio humano em vez de estar sempre a remoer comigo mesmo. As probabilidades disso, já pequenas em épocas normais e muito por características minhas, quase desapareceram com esta praga que nos isola, fixa e separa a todos.

É  preciso pensar que não vai ficar tudo bem mas dias melhores virão.

 

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