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A Máscara Social

Fui à Junta de Freguesia buscar um pacote de máscaras,  agora aqui são  obrigatórias. Vêm numa caixinha com o logotipo do governo, não ser o do PS já não é mau, para as pessoas não se esquecerem de quem é que trata de nós e nos dá coisas. Por alguma razão que desconheço decidiram chamar-lhes “máscaras sociais”.

Desde Janeiro que todas as semanas vou ao centro de saúde fazer um tratamento e desde que isto começou e me disseram para o fazer, uso lá uma máscara. Detesto a máscara mas não me vou armar em parvo, vou usar mesmo  que numa ilha que continua encerrada e onde nunca houve casos as máscaras não sirvam  para absolutamente nada a não ser fazer lixo e incomodar. Mais uma vez fica exposto o problema de haver soluções nacionais para problemas que se manifestam de formas diferentes em sítios diferentes.

O governo regional emitiu ontem legislação que decretava , entre DEZENAS de outras regras, a “obrigatoriedade do uso de máscara social nos transportes públicos e privados, aéreos, marítimos e terrestres, em veículos pesados ou ligeiros”. Li isto e pensei que tinha que passar a andar de máscara no carro, mas passadas umas horas, presumo que  perante a confusão gerada, o director regional lá explicou que se referia apenas a transportes colectivos. Acho sempre muita graça quando os burocratas passam dias a produzir discurso legislativo para depois terem que explicar o que queriam dizer, a capacidade de síntese, clareza e simplificação é rara.

Achei muito instrutivo o processo das máscaras desde o início da pandemia, como a DGS passou  de dizer que não se recomendavam até  serem obrigatórias. Uma das  justificações avançadas para isso não é incompetência ou incapacidade de decidir, é que não queriam provocar uma corrida às máscaras para não haver escassez para os profissionais de saúde. Como é normal, não se podem tratar as pessoas como adultos responsáveis e tem que se lhes mentir, isso é o modo de funcionamento dos governos, se dissessem à população todas as verdades que conhecem talvez houvesse uma revolução no dia seguinte. Ainda assim eu preferia que tentassem .

Vou usar a máscara, aqui inútil, por duas razões:  a primeira é porque é obrigatório, logo, a polícia, que aqui sofre particularmente de tédio e tem muito tempo livre, vai fiscalizar e multar. A segunda é a ausência total de anonimato , não estou para ser vilipendiado por toda a gente agora convencida da indispensabilidade da máscara e com o nível de paranóia mediática perto do vermelho.

E como é que vou no meu tremendismo catastrofista sobre a pandemia? Aliviou-se por um lado, vi que em Portugal e no resto do mundo desenvolvido os serviços de saúde têm conseguido responder, não se confirmou o descalabro que eu antecipava ainda que a mortandade seja alta. Não tenho grandes dúvidas de que isso se deve ao distanciamento e confinamento, faltaria  saber se as vidas salvas compensam o desastre económico provocado mas  não são contas que eu peça nem saiba ou queira fazer.

No resto, mantenho os meus receios todos e acrescento um que agora está a tomar dimensão maior e mais clara, por todo o lado : a corrupção e o aproveitamento da pandemia para negociatas entre os governos e os seus familiares e amigos. Quando há compras feitas por estados a coberto de “necessidade imperiosa e urgente” usando e abusando dos ajustes directos e outras ferramentas opacas, estão abertas as portas para se fazerem fortunas às custas do medo, sofrimento, ignorância e corrupção. Como sempre, de resto.

 

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