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Um Liberal Admite a Derrota

Em qualquer confronto é preciso reconhecer o momento em que se perde. O dr. Soares  disse para a posteridade que “só perde quem desiste de lutar” e fizeram-se  cartazes com isso,   sempre achei a afirmação vazia. Insistir numa luta que já se perdeu é inútil e leva a prejuízos, saber perceber que se perdeu é sinal de lucidez.

A minha educação, experiência de vida, leituras, observações, debates e reflexões levaram-me a um conjunto de convicções, valores  e maneiras de ver o mundo que se identificam com o Liberalismo. Não me interessam assim muito as variações, seitas, correntes, interpretações, minúcias  e facções, sei que me defino como Liberal e basta-me.

Na minha concepção, do lado oposto do Liberalismo temos o Estatismo, a doutrina que preconiza a preponderância e primazia do Estado na organização da sociedade e da economia. Pela esquerda ou pela direita o princípio orientador é o mesmo, o indivíduo subordina-se ao Estado, o interesse comum é sempre superior ao interesse individual e é determinado por quem governa o Estado.

O confronto já ocupou  gerações, a História foi avançando e a sociedade mudando. Se o motor da História é a luta de classes o combustível desse motor são  ideias.  Umas maiores e abrangentes, outras menores e mais focadas. Umas  que evoluem até serem princípios orientadores, outras que se perdem pelo caminho por se revelarem perniciosas , ineficazes ou obsoletas.

Idealmente, as ideias discutiam-se, avaliavam-se, concretizavam-se, estabeleciam-se e aperfeiçoavam-se ou então não, abandonavam-se, tudo consoante os seus méritos e os seus resultados. Poucas coisas se passam idealmente e o que são para uns ideias nefastas e comprovadamente perniciosas para outros são um modelo que, com um ou outro ajuste, é desejável. O que para uns é uma sociedade livre e próspera a outros parecerá sempre uma sociedade opressiva e injusta. Isto não tem solução. Tudo o que há de mau no modelo ou ideia de que não gostamos passa a ser o alvo e a preocupação durante o confronto. Tudo o que há de bom é sempre visto como acessório, insignificante ou como um  efeito secundário.

Portugal, nação estatista dos quatro costados, habituada a baixar a cabeça e pedir uma mercê e  a calar-se quando a mandam,  elegeu um deputado Liberal. De um ano para o outro começou a falar-se de liberalismo, que ganhou uma voz. Iniciou-se um confronto que pelo menos eu nunca tinha visto, alegrei-me, aplaudi, apoiei e votei.

A esquerda levantou-se em armas, a direita preferiu pegar na parte económica da teoria e ignorar o resto, por ser tão estatista como a esquerda. O debate prosseguia,  com a sua quota  de caricaturas, ignorância, incompreensão, falta de empatia e falácias de parte a parte, às vezes algum ódio, ou não fosse política. Se nunca pensei em ver um regime verdadeiramente liberal houve alturas em que pensei que havia espaço e contribuição a dar e que se conseguiria encontrar em muitos temas algo próximo de um equilíbrio ou consenso, e melhorar. Dar uma hipótese a propostas liberais.

Chegou  a pandemia,  para mim é aparente há bastante tempo que é um momento de viragem histórico. Só um Estado forte pode reagir bem a uma pandemia, isto parece-me evidente e vai ser em breve posto mais uma vez à prova em países com estados falhados. Esta evidência está a ser o suficiente para se negar a validade do Liberalismo e enaltecer o Estatismo. A Globalização económica, triunfo maior do Liberalismo que trouxe décadas de prosperidade e paz à Europa, está a cair aos bocados, todas as suas insuficiências e inconvenientes postos em evidência, todas os benefícios desvalorizadas e esquecidos. O consumo já não evoca conforto material, evoca desperdício, opressão e poluição, mesmo para os que sempre exigiram e aspiraram a  poder consumir mais e melhor.

Os Liberais, ao que parece sem mão nenhuma  em 60 anos de  paz , conforto e prosperidade , passaram a ser os obreiros da desgraça, como já eram de outros dramas e ameaças, desde o renascer da extrema direita ao aquecimento global. O que o Mundo tem de Bom e Belo foi-nos trazido pela Esquerda e o Estado, enquanto os Liberais trabalhavam noite e dia para explorar, oprimir e destruir o que de bom ia sendo feito, ou pelo menos tentar. O corretor de acções é um parasita da sociedade, dizem os mesmos que esperam que sua pensão lhes seja paga a tempo e horas na velhice e que o Estado se possa financiar nos mercados internacionais.

Dois motivos me  levam a admitir a derrota. O primeiro é que não vale a pena sequer tentar argumentar agora que o Estado deve ser menor e ter menos influência na vida das pessoas. Valeria numa crise de solução clara e termo à vista, não é o caso desta. O segundo é que o caminho que as coisas tomam, no meu entender, é o oposto do fortalecimento dos direitos e liberdades do indivíduo e do sector privado e  do refrear do poder estatal. Só vejo nacionalismo, populismo, desinformação, centralização e proteccionismo no horizonte, num cenário generalizado de medo, conflito e crise económica em que todos se agarram ao Estado para sobreviver, não por escolha mas por necessidade. Não será certamente o fim do mundo mas creio que o que vivemos já é suficientemente distópico e o potencial que se está a criar é assustador.

Não vai ser agora que se vai prestar atenção aos Liberais, pelo contrário, serão, com outros, o bode expiatório. Não me presto a esse papel. Admito sem problema que há várias  soluções propostas pelos liberais não têm lugar na época em que entramos. Admito que no cenário em que vamos viver não haja outra maneira de assegurar as necessidades básicas de todos por outra via que não o Estado. Uma ideia pode permanecer boa em abstracto e ser impraticável. A isto junta-se o facto de as franjas mais radicais nunca andarem longe, não posso “partilhar uma área”  com pessoas que defendem as vantagens do açambarcamento ou o fim do sistema público de saúde. Há casos em que a moral tem precedência sobre a eficiência económica.

Ganharam,  reconheço a derrota. Mas espero que sejam dignos da vitória. Espero que, depois de o combaterem tão arduamente e ganharem, não deixem o inimigo a agonizar no chão, ainda  a jeito de levar uns pontapés para alegrar a turba na plateia  ou de servir de papão, derrotado mas vivo. Espero que, se  liberalizar era assim tão mau,  “desliberalizem” e nacionalizem com ânimo,  sem hipocrisia nem deixar resquícios. Que apliquem as  receitas e métodos a fundo e sobretudo que depois assumam a responsabilidade plena dos resultados. Espero que não estranhem nem culpem os liberais quando um dia esse grande e poderoso aparelho estatal que tanto veneram cair nas mãos de um demagogo perigoso.  E não, não vão poder estar 20 anos a dizer “isto está muito mau porque os Liberais deixaram assim”. Os Liberais nunca mandaram em Portugal nem vão mandar.

Pessoas  mais corajosas, capazes, determinadas e pacientes que eu vão continuar  com a bandeira do Liberalismo. Manter a chama acesa, etc. Desejo-lhes sorte, eu retiro-me de uma contenda em que  nunca participei  a sério  mas que me ocupou demasiado tempo e energia. A causa era boa mas está perdida.

Faço como o Estado me mandar, agradeço o que me derem, digo que têm razão. Vou continuar a votar sobre o que me  deixarem e a pagar os impostos que devo, enquanto puder. Vou deixar de defender  utopias e vou seguir  o mais alegremente que possa pelo caminho da servidão. Vai sempre haver coisas boas e bonitas ao longo do caminho.

2 thoughts on “Um Liberal Admite a Derrota

  1. Pode ser-se Liberal e defender uma Segurança Social de qualidade. Os liberais também pagam impostos. O que se faz com eles é a questão. Um estado menor com melhor qualidade. Não era por aí que não se respondia a esta crise do Covid-19, eventualmente recorrendo a privados. A gestão socialista do recursos publicos, isso sim é o problema. Abraço

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  2. Liberalismo, o como comunismo, Sao palavras que remetem para um idealismo extremo que nunca existem na pratica. “Na real” é sempre um misto, uma mistura contraditoria e indefinivel. Nunca deixou de haver Mercado em nenhum pais, nem em comunistas nem em facistas, nem em paises de absolutism o religioso, nem em monarquias ditas absolutas. Como o nosso liberalismo nunca foi liberal. Sempre foi um keinesianismo mais ou menos moderado, culminando com a crise de 2010 e esta em que os “estados democraticos liberais” salvam bancos e outras grandes empresas “too big to fail” com emissao de divida.

    Dito isto nao acredito que os estados Vao poder salvar esta situacao, que em breve Vai ser de controlo, nao so pela peste, mas mais pela loucura economica-social associada.

    Mas, sendo simpatizante de liberalismo( por acreditar que o individualismo e o mercado mais desregulado cria maior riqueza e bem estar), se esta mega impressao de dolares e euros e a acumulacao de divida resultar NUM Mal menor, com algum controlo que evite colapso, nomeadamente inflacao galopante e escassez de bens, entao darei por enterrado o Valor das teorias liberais e converto me as evidencias do keinesianismo. Ate la ainda acredito que esta esperanca no Pai estado Vai dar merda da grossa.

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