Passei uma semana em Lisboa mas acabei por voltar a casa  deixando o meu irmão como o encontrei, em coma e com  toda a gente à espera. Teria ficado e suportado bem a vida urbana que acho insuportável em circunstâncias normais mas não podia abandonar o meu trabalho e responsabilidades por mais tempo e o que é certo é que para o meu irmão é igual. Para a família seria talvez melhor eu ficar mas se a vida dele está em suspenso as outras têm forçosamente que continuar.

Prova-se mais uma vez que não há riqueza maior , a seguir à saúde, que ter amigos. Foram e  continuam a ser tocantes não só as mensagens de apoio, que são fáceis de mandar, mas as ofertas de ajuda para o que for preciso, que não são só genuínas com já foram aceites várias, e oferecidas prontamente e com toda a boa vontade.

Igualmente mais uma vez se prova que podemos passar a vida consumidos em preocupações com uma dada coisa e depois o que acontece é algo que nunca nos passou pela cabeça e nos apanha na curva, mostra o que valem essas preocupações com cenários e possibilidades remotas ou menos remotas.

O meu irmão está nos cuidados intensivos neurocríticos em S.José, um amigo mais perspicaz ( que veio da Alemanha para o ver) reparou no autocolante da manutenção de um dos elevadores: expirou em 2017, por lei aquele elevador devia estar selado e no entanto continua a trabalhar, e num hospital. É o elevador 16, que teve a última vistoria nos tempos horríveis da troika e do carrasco do Passos, agora no Tempo Novo há dinheiro para reduzir os horários de trabalho mas como não é elástico não pode chegar a tudo. As histórias de falhas de equipamento e material repetem-se diariamente, hoje ouvi na rádio que o tempo de espera pelo atendimento das chamadas para o 112 tem chegado aos 8 minutos quando a recomendação legal é 7 segundos. O chefe do sindicato diz que falta pessoal, os directores dos serviços , seguindo uma explicação inventada pelo Costa, dizem que se deve a picos de utilização, ou seja, mais uma vez as falhas nos serviços devem-se à utilização que as pessoas fazem deles , é uma maçada.

Relembro que estes governantes, amparados pela pessoa que ocupa o cargo de Presidente da República, tiveram o desplante de afirmar que a redução do horário de trabalho de 40 para 35 horas semanais não se ia reflectir nos custos e na eficiência dos serviços. Ora , eles mentem por deformação profissional mas acreditar numa coisa dessas, como tantos milhares acreditaram, já revela um nível de ignorância que se calhar devia ser incompatível com o direito de voto.

Voltando à condição do meu irmão, a religião tem mostrado toda a sua utilidade, fornecendo às pessoas não só uma esperança de que é possível um desenlace positivo apesar de provas quase esmagadoras contra essa possibilidade como o conforto de poder ocupar o tempo com orações que além de funcionarem como meditação que tranquiliza a mente podem supostamente influenciar esse mesmo desenlace. Evita-se o desespero e tem-se uma narrativa que, se não se explorar nem avançar demasiado o raciocínio, explica e justifica o acontecimento .

Para mim não, já me disseram da melhor vontade e bondade que não me revoltasse, eu retorqui que a condição essencial para haver revolta é reconhecer uma autoridade superior, não a reconhecendo não é possível haver revolta, que por definição tem que ser contra alguma coisa. Continuo receptivo a que me expliquem sem recorrer a “é um mistério insondável” que raio de plano ou objectivo desenhado por uma entidade de amor infinito é que exige fazer 5 criancinhas órfãs e mergulhar duas famílias  em confusão e dor, porque é que um ser omnisciente e ominipotente não consegue levar avante os seus planos e desíginios sem precisar destas coisas. Não sabem responder, sejam leigos sejam teólogos, não conseguem ir além do mistério, para mim não chega, lamento. Também lamento que os clérigos consigam à segunda feira apelar à oração como forma de influenciar um desenlace e à terça, perante um desenlace negativo, dizer que tudo está  conforme o tal plano. Ora se é um plano,  já está feito e sendo divino é perfeito, por isso não serve de nada tentar mudá-lo com preces, mas isto já será raciocínio avançado demais para estas pessoas.

E como lido eu com isto, sem esse apoio espiritual que permite fechar a porta à Razão? Com tristeza profunda e aceitação das leis da biologia a física e limitações das possibilidades humanas,  com  a noção de que somos organismos vivos e como tal vamos invariavelmente todos morrer e que os acasos e possibilidades de algo nos matar são incontáveis,  sempre presentes e incontroláveis.  Acredito que há muitas coisas que não conseguimos explicar mas ainda que o meu irmão se levantasse e falasse amanhã isso não me faria crente, antes pelo contrário, far-me-ia questionar mais ainda esta ideia de um deus que permitia 3 semanas de agonia só para fazer no fim o que podia ter feito no princípio. Seria uma maneira sádica de demonstrar poder, e isso é incompatível com a noção de deus de amor em que os cristãos acreditam. A história de Jó  , por coincidência o diminuitivo pelo que sou conhecido pelos amigos mais velhos e família, chega bem para  mostrar o carácter dessa entidade que se diverte a atormentar os seus “filhos” só para os testar e mostrar poder, uma coisa  atroz. E além do Jó temos também entre outros o demente Abraão, que nível de perturbação mental é preciso ter para ouvir uma voz que diz “mata o teu filho” e dispôr-se a fazê-lo? Hoje em dia uma pessoa assim seria internada compulsivamente, há 3000 mil anos esse episódio fez parte da fundação de uma religião.

Quando voltar a Lisboa, seja para sepultar o meu irmão seja para o abraçar e regozijar-me com o seu regresso do limbo onde está, hei-de querer falar com um ou dois dos  padres que por lá gravitam, todos habituados a pregar aos fiéis, a falar sem contraditório para pessoas que aceitam “é mistério e não podemos saber” como explicação. Tenho  perguntas sérias a fazer-lhes, entre elas “nunca lhe ocorreu a possibilidade de estar aqui a continuar  uma tradição milenar de enganar as pessoas dizendo que é para o bem delas?” e  “o que é que tem contra o desenvolvimento de um raciocínio lógico?” .

Acredito que está a ser feito tudo o que é humanamente possível para salvar o meu irmão e tenho uma esperança ,  minúscula  , que se salve, quer dizer, que volte  como pessoa autónoma, pensante, comunicante  e actuante. Imaginá-lo numa cama como uma planta, indefinidamente, é demasiado terrível, espero muito que não cheguemos aí.

 

 

 

 

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