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Proprietários Absentistas

Desde que há propriedade de terras que existem proprietários absentistas, pessoas que têm a posse de determinada terra ou território e raramente ou nunca lá vão. Antigamente isto derivava do modo de propriedade feudal em que um monarca punha e dispunha, dava e retirava a seu bel prazer e se servia das terras sobre as quais tinha jurisdição como fichas de jogo, para recompensar, motivar ou como pressão por meio de ameaça da retirada da mesma posse.

Acabado o feudalismo e as monarquias absolutas a coisa manteve-se, só que já não era o rei que dava e tirava, as terras e propriedades eram , e são , compradas e vendidas no mercado, muitas vezes por pessoas que nunca as chegam a ver.

Toda esta ilha foi durante séculos propriedade de um indivíduo ou família, na forma do Capitão Donatário que tinha direitos sobre todas as terras ,  pessoas e produção mesmo que nunca cá viesse nem sequer soubesse explicar bem  onde é que isto ficava.

Isso acabou tudo, temos um governo , ahem, democrático, direitos individuais reconhecidos e garantidos por lei, até ver. A propriedade adquire-se com dinheiro e cede-se ou voluntariamente em troca de dinheiro ou por coacção  do Estado, por exemplo se um indivíduo deixar de pagar as contribuições e impostos retiram-lhe a propriedade, a menos que seja milionário ou político , casos em que  é possível manobrar o mecanismo de modo a não haver consequências.

As propriedades aqui começaram a mudar de mãos mais frequentemente nas últimas duas décadas e o ritmo só tende a aumentar, e voltam os proprietários absentistas, gente da classe priviligiada que adquire terras por capricho ou negócio sem intenção nenhuma de se estabelecer cá nem sequer de passar cá mais do que curtas férias, no caso dos que trabalham, ou o Verão, no caso dos que não fazem a ponta de um corno e subsistem de expedientes e de ordenhar o sistema.

É perfeitamente possível a um jovem da Europa do Norte passar aqui seis meses em comunhão com a natureza e a reencontrar-se com o seu verdadeiro eu , buscando os caminhos da sustentabilidade e da harmonia e a compreensão dos outros seres seus irmãos, contribuindo para a consciência de que o Capitalismo destrói tudo e o sistema vai-nos matar, porque recebe um subsídio do Estado por existir, quer faça alguma coisinha quer  não. Chega o Inverno,  vai existir para outro lado, talvez numa viagem de surf anti imperialista na Nicarágua ou cenas assim muito à frente, sempre em mindfulness.

Esse são uma categoria individual, depois há os que trabalham e compram um “pedaço de paraíso” para seu entretenimento e enriquecimento pessoal, e é sobre dois exemplos desses que vou falar.

O primeiro, médico alemão perto da reforma que comprou tudo o que estava à venda na que é para mim a freguesia mais bonita desta ilha. Tem uma clínica privada , tem uma enfermeira que o acompanha sempre , com metade da idade dele e que certamente foi atraída pelo seu brilhantismo intelectual e boa disposição , mas divago e arrisco-me a coisa desagradáveis e isto não me fica bem.

Conheço o senhor porque comprei um rebanho de ovelhas a um dos proprietários que lhe vendeu terras, e comprei-o no pressuposto que podia continuar a usar os pastos da propriedade. Não troquei mais de meia dúzia de palavras com ele, muito porque tem um inglês atroz e muito porque se consigo resolver um assunto com seis palavras raramente  me vão ver a gastar doze.

O homem contratou um empregado por um preço exorbitante, eu trabalhei bastante com ele a subsituir vedações porque achava que já que eram para meu benefício era minha obrigação colaborar mas vi logo que a coisa ia correr mal, o empregado tinha o problema de ser negligente e o patrão tinha o problema de não ser claro, e aqui entra a questão do absentismo: se queremos um trabalho bem feito a 3 mil kms de distância convém explicar detalhadamente o que queremos , como e quando. O proprietário  deve ser uma àguia na sua especialidade mas aqui demonstrou-se ingénuo, porque disse “toma lá X e trata disto”, sendo o X enorme e a fiscalização limitada a 15 dias por ano, foi  um convite a que o “trata disto” seja interpretado muito liberalmente.

A propriedade fica no fundo de um caminho de talvez 800 metros íngremes onde não passa um carro, pelo que depois de meses a penar a subir aquilo fiz uma festa quando o proprietário comprou uma moto4, destinada a subir e descer o caminho, levar material e para ele passear nas férias. Durante este Inverno foi uma bênção para mim , são máquinas fantásticas com as quais eu nem posso sonhar, pelo que ter ali uma à disposição era um luxo e faciltou-me muitíssimo os trabalhos do rebanho e poupou-me horas e horas.

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Chega então o proprietário  no mês passado, e um dos vizinhos pergunta-me se eu já tinha falado com ele. Não, nem tinha nem estava a fazer conta de falar , sobretudo porque não tenho nada para lhe dizer, ele precisa de animais nas terras senão gasta fortunas em mondas, se não forem os meus serão outros e não creio que tenha que ir ao beija mão. A minha “obrigação contratual” era manter as terras mondadas, estão mondadas e lindas, a dele é deixar-me lá ter  ovelhas, não há mais nada a discutir. É-me cada vez mais difícil simpatizar com milionários que têm propriedades aqui e  ali e compram mais uma por capricho, para passar duas semanas,  gastam dinheiro como água e esperam comprar simpatia com a sua generosidade que muitas vezes é condescendência e  paternalismo mal disfarçado.

Bom, o homem estava furioso com o empregado, que não só tinha deixado um monte de coisas por fazer como tinha feito outras que não devia, foi despedido. Eu  queria saber tanto do destino e dos problemas do empregado como do meu almoço de ontem mas quis logo saber da moto 4.  Não pedi o email do senhor mas pedi que lhe mandassem perguntar da minha parte se podia continuar a usar a máquina. Respondeu acidamente a dizer que tinha sido multado por andar com 2 pessoas na moto 4 (que tinha sido eu a encontrar à venda) , que não queria uma moto que só podia levar um , era para vender e ficava fechada.

Encolhi os ombros e soprei um bocadinho a pensar em voltar a subir  a ladeira a pé, mas não posso reclamar, está no seu pleno direito, foi bom enquanto durou. O que já posso talvez reclamar é de uma pessoa que tem tanto dinheiro que compra um equipamento  por 8 mil euros e nem vê o que está a comprar,  porque a primeira vez que me sentei naquilo passei os olhos por tudo e está lá escarrapachado um autocolante que diz claramente “proibido duas pessoas”. Como o homem não é estúpido, depreendo que aquilo tenha sido comprado com os trocos da quinta feira como um brinquedo e nem quis saber como era. Isso já me enerva.  Foi-se embora danado, surpreendido por as coisas estarem a correr mal numa propriedade que requer atenção e manutenção que ele não soube organizar e acha que se faz facilmente a 3000 kms porque existe a internet, e até já dá sugestões de gestão a pessoas que vivem ali há cinco gerações ou mais e fizeram aquilo ser como é.

Vai voltar em Agosto, não faço tenção de falar com ele a menos que nos cruzemos a pé nem faço conta de lhe pedir para usar a moto 4 nova que já encomendou lá na civilização, não preciso nem quero pedir-lhe favores nem contrair obrigações.  Já decidi que não gosto dele, agora pronto.

Queria também falar sobre outra proprietária absentista, que por acaso é a minha patroa, mas como isto já vai longo fica para outro post.

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