Início » Ambiente » Rebelião da Extinção

Rebelião da Extinção

Em 1962 a americana  Rachel Carson publicou um livro chamado Silent Spring , ou Primavera Silenciosa , em que  pela primeira vez se alertava o mundo para a outra face do uso dos pesticidas que por essa altura começaram a revolucionar a agricultura. Como cientista, estudou principalmente o efeito do DDT nos humanos e noutras espécies animais e quem leu aquilo com atenção ficou alertado para o perigo emergente.

Foi há 57 anos e foi a origem da consciência ambiental moderna. O problema foi que as pessoas com poder de decisão e voto na matéria, ou seja, governos, agricultores e produtores de químicos, puseram num prato da balança os riscos e no outro as vantagens  e decidiram que as segundas compensavam largamente os primeiros, e foi sempre em crescendo químico até há bem pouco tempo .

Uns anos mais tarde, em 1989, apareceu outro livro, e esse já o li, chamado O Fim da Natureza, de Bill McKibben, a primeira vez, tanto quanto sei, que se chamou a atenção para as mudanças causadas pelo Homem e suas possíveis consequências, a primeira descrição do Antropoceno, como alguns designam agora a nossa era. Esse passou muito mais despercebido que o primeiro, além de ser tão ou mais importante, principalmente porque a conclusão das observações do autor sobre as alterações climáticas potencialmente catastróficas causadas pela acção humana era a seguinte : só há duas maneiras de lidar com este problema , ou acção reflexiva , contrariando e contendo directamente os efeitos perigosos, ou simplesmente um modo de vida mais humilde.

Isto foi há 30 anos, numa altura em que as democracias liberais capitalistas triunfavam em toda a linha, a História tinha chegado ao fim como dizia o F. Fukuyama, caminhávamos para a Democracia, Abundância e Paz e a última coisa que quem quisesse ser ouvido por multidões devia recomendar era uma vida mais humilde. Aliás, essa recomendação nunca passou muito bem nem nunca foi levada muito a sério em nenhum período histórico, não acabou bem por exemplo para Jesus Cristo e os pregadores da simplicidade, humildade e despojamento sempre foram relegados para a caixa dos excêntricos , quando não dos hipócritas. 

Era o nosso direito divino e destino natural  (manifesto, no caso dos americanos) ,  dominar e explorar a Natureza, e nisto vivemos e progredimos séculos, até que inovações o motor de combustão interna e o modo de produção capitalista aceleraram o processo até se tornar imparável. Os efeitos eram raros , espaçados e dispersos, as vantagens imensas e aparentes, e foi preciso virar o século e a comunicação de massas chegar a toda a gente para começarmos a perceber o sarilho em que nos metemos.

Os mais atentos (não era o meu caso, apesar de ter lido o McKibben) sabiam há décadas mas a generalidade da população não sabia e grande parte não queria saber. O facto de a causa ambientalista ter sido impulsionada pelos herdeiros dos hippies e financiada tantas vezes por inimigos do Ocidente (como a Rússia com o Greenpeace)  não ajudava nada à sua aceitação pela população em geral, que tradicionalmente só consegue ver um problema quando este lhe cai em cima e desconfia sempre , por vezes com razão, dos alarmes que vão soando. O Al Gore  acertou em cheio no título do seu documentário “Uma Verdade Inconveniente”. Ninguém  gosta de ver posto em causa o seu modo de vida, especialmente quando este é confortável, como o é o da sociedade ocidental, por mais reclamações e queixas que se façam.

Chegamos a 2019 , já haverá muito poucas pessoas que não estejam convencidas da gravidade do problema e das suas causas, mesmo que subsista uma espécie de debate entre os que negam a origem humana das alterações e os outros, mas ambos as aceitam, sobrando uns quantos trastes  ideológicos como o Trump que não só se nega a admitir que o aquecimento global é real e recusa sequer pensar em tomar medidas para o mitigar como elimina tentativas de protecção ambiental feitas pelo antecessor.

Mas hoje toda a gente sabe, toda a gente discute e toda a gente tem a sua posição, nem que seja de indiferença ou negação, no sentido de recusa em aceitar a realidade.  Como eu vejo as coisas os problemas principais são de 3 tipos, todos ligados : esgotamento dos recursos ; explosão demográfica e as alterações climáticas propriamente ditas,  como o aumento dos fenómenos metorológicos extremos  (uma das muitas razões que me fez abandonar a navegação oceânica) .

A soma destes 3 é simultâneamente causa e consequência de conflitos e tensões políticas que facilmente podem escalar, por exemplo : desertificação no Sahel aumenta a  miséria – aumenta o fluxo migratório –  os imigrantes não se integram bem – sobe a xenofobia – demagogos aproveitam-se dela para chegar ao poder, instala-se um regime autoritário. Isto já está a acontecer,  isso também veio alarmar a opinião pública e as coisas começam a mexer…à superfíce pelo menos.

Entra em cena a Greta Thunberg , de quem já falei aqui , moça que admiro e que temo  que não vá acabar bem, não por ser perseguida pela Exxon Mobil mas por ser  a face visível de um movimento caótico, vago e megalómano.  Esta moça iniciou na sua terra uma greve escolar para obrigar o governo a agir contra as as alterações climáticas, a greve tornou-se viral e global e   deu um impulso enorme a um movimento denominado Extinction Rebellion . cujo objectivo é  o exercício de pressão sobre os governantes e o público para aumentar a conscientização sobre a crise climática.[4]

Andei a ler manifestos e vídeos de acções e  propaganda destes e de de outros movimentos , e sofrem todos de dois problemas graves : acreditam que os governantes conseguiriam, mesmo que quisessem, tomar o género de medidas radicais necessárias a um combate eficaz às alterações climáticas e ignoram a principal mensagem do Bill McKibben : a chave está na redução drástica dos consumos , coisa que , parafraseando o Al Gore, é uma verdade inconveniente. Os rebeldes apelam à desobediência civil e resistência pacífica, não apelam nem exigem a redução drástica do tráfego automóvel e aéreo, o abandono da comida processada , dos guarda roupas cheios, das frutas todo o ano nos supermercados  e dos 300 canais de TV . Não têm, que eu tenha visto , nenhuma proposta de política económica concreta, nenhum programa de acção além de exigir que os governos façam alguma coisa.

Se amanhã o governo francês, por exemplo, decretasse o fecho das refinarias mais poluentes da França isto ia trazer ar muito mais limpo na zona mas ia mandar para o desemprego milhares, provocar o aumento do preço dos combustíveis e o aumento da refinação nos países vizinhos. Se a Nigéria parasse  de explorar petróleo e expulsasse as multinacionais o delta do Níger ia ficar muito mais limpo mas milhares de nigerianos ficavam sem emprego, a Shell mudava a tralha para Angola ou México ou qualquer dos outros países onde opera e o benefício total seria muito pequeno. Podíamos estar aqui a noite toda a dar exemplos destes para ilustrar uma verdade simples:

Um problema global não se resolve com soluções locais, e acreditar na eficácia de uma grande reunião de governos mundiais para resolver o problema é do campo da alucinação, não sei se lhes passaram despercebidas coisas como a conferência do Rio ou de Paris onde o que ficou claro foi que  entendimentos globais raramente passam da retórica e das declarações de intenções. Por isso  mesmo que os governos tivessem poder decisivo, um acordo global e acção consequente sobre isto é uma miragem, uma coisa só julgada possível por adolescentes como a Greta e  ingénuos de todas as idades.

Preparemo-nos para muitas notícias sobre a “rebelião” e zero resultados além de medidas simbólicas e pontuais. Como estratégia de combate a um problema grave, bloquear , manifestar e revoltar com exigências de que se faça alguma coisa mas não sabemos bem o quê, é muito fraquinho. Mas a estética está lá toda e é apelativa, especialmente porque permite às pessoas ventilar a frustração e identificar , apontar e atacar culpados  (os governos, as multinacionais) , ter a sensação de que se está a contribuir para a resolução do problema e esquecer a gravidade da nossa contribuição diária para a degradação ambiental , com os nossos actos e consumos , mesmo os mais banais.

A rebelião devia ser contra o consumismo, uma rebelião que não precisa de bandeiras, líderes, slogans,  discursos nem manifestações,  uma rebelião individual causada por uma decisão racional e consciente e devia ser essa a mensagem e exemplo destes activistas. Sem essa redução dos consumos não há nenhuma sustentabilidade, equilíbrio ou recuperação possível, e sendo assim creio que o foco devia ser todo para o modo como viver e sobreviver às alterações climáticas e não em carregar contra  moínhos de vento,  defender causas perdidas e exigir que outros façam alguma coisa.

 

Responder

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s